Um transgressor à conquista dos reinos da poesia.
Foi vendedor de máquinas de pastilhas elásticas, paquete, estivador. Libertário e explosivo, acabaria por se tornar um dos mais populares poetas e letristas do seu tempo. Recordamos José Carlos Ary dos Santos nos 80 anos do seu nascimento
Ary dos Santos (7 de Dezembro de 1936 - 18
Janeiro de 1984) afirmou com veemência a sua virilidade de poeta. Pela voz de
Simone de Oliveira fez a apologia do corpo e do prazer femininos («Desfolhada
Portuguesa», 1969), certamente por distracção da Censura, arrebatando o primeiro
lugar no Festival RTP da Canção. Quatro festivais depois, arrasava a tourada na voz de Fernando Tordo e, na mesma
faena, vencedora, investia sobre a primavera marcelista e apelava à
resistência. As suas origens aristocrático-burguesas também não foram poupadas,
como testemunha o conhecido poema «O Burguês», figura tratada a ferros
sarcásticos. A salvo ficou A Bandeira Comunista (1977), corajosa e muito
pessoalmente hasteada: «o meu comunismo vem-me por via Czarista!».
Ary dos Santos: o nome – do poeta e declamador carismático, conhecido do
grande público como autor das letras de algumas das mais populares canções das
décadas de ’60, ’70 e começos de ’80 – não faz jus a uma personalidade
explosiva, irreverente, de humor sulfúrico e de grande turbulência imaginativa,
capaz mesmo de fazer detonar «O Bombista».
Nasceu em Lisboa, um ano antes daquele que sempre afirmou. Quando, com
apenas 16 anos, sai de casa em ruptura com o pai, traçara já, num soneto de um
livro dedicado à mãe («pela infinita dor de a ter perdido» pouco antes), um
programa de vida: «E canto na certeza do porvir,/ Que todo o mundo é meu e eu
vou partir/ À conquista dos reinos da poesia!». Mal sonhava o jovem Zé Carlos
que a poesia tinha reinos, uns mais nobres que outros. Natália Correia, que
manterá com ele uma relação de amor-ódio, não se cansará de lho lembrar.
Insuficientemente amadurecido, claro, esse primeiro livro que quis apagado
da sua bibliografia, Asas (1952), antecedendo bastante Liturgia do Sangue
(1963), considerada a sua estreia literária efectiva, incubava já o seu tom
excessivo e rasgado, o seu estilo transgressor, a rasar o libertário.
Compreensivelmente, quando em 1966 Natália Correia preparar a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica,
celebrizada pelo veredicto do Tribunal Plenário, Ary dos Santos não poderá ser
dispensado.
À saída de casa seguiram-se anos financeiramente difíceis, de embates
quotidianos, e sucederam-se empregos: vendedor de máquinas de pastilhas
elásticas, paquete na Sociedade Nacional de Fósforos, escriturário no Casino
Estoril e estivador (a crer no seu testemunho, nem sempre fiel). «Isto vai meus
amigos isto vai/ um passo atrás são sempre dois em frente» – dirá mais tarde no
poema «O Futuro», de «Tríptico do Trabalho». Chegou a
frequentar as Faculdades de Direito e de Letras da Universidade de Lisboa, mas
«com toicinho e talento ambas partes» (palavras do seu «Auto-Retrato») e uma
criatividade extraordinária, Ary dos Santos depressa as trocou pelo mundo da
publicidade, área que em Portugal revoluciona, alcançando reconhecido êxito.
A criação poética, com comprazimento no ludismo verbal e disponibilidade
metafórica, decorre paralela a uma vida profissional com cobranças difíceis e
artes de espantar. Adereços Endereços (1965), Fotos-Grafias (1970), As Portas Que Abril Abriu (1975), O
Sangue das Palavras (1978), 20 anos de Poesia (1983)
são algumas das obras daquele que reuniu num único terceto as três linhas que
reconhecidamente perfazem o todo que é a sua poesia: a interventora, a satírica
e a lírica: «Poeta de combate disparate/ palavrão de machão no escaparate/
porém morrendo aos poucos de ternura».
Tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das
Cantigas (publicação póstuma, 1989), onde reuniu os melhores poemas
dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz – Rua da
Saudade, que pretendia que fosse uma autobiografia romanceada, mas não
houve tempo. O excesso, a solidão e o gim foram a mistura explosiva.
«Quando eu morrer – afirmou um dia – vai ser em glória. Vai a classe
operária toda ao meu funeral, e eu sentado no muro do cemitério, a vê-los
passar!». O desígnio cumpriu-se quase inteiramente.
Teresa Carvalho, "Ary dos Santos. Um transgressor à conquista dos reinos da poesia", https://ionline.sapo.pt/537479, 2016-12-09
Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota
Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica
Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga
Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco
Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza
Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente
Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga
Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco
Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza
Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente
José Carlos Ary dos Santos (1973)







