Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Ary dos Santos

Um transgressor à conquista dos reinos da poesia.



Foi vendedor de máquinas de pastilhas elásticas, paquete, estivador. Libertário e explosivo, acabaria por se tornar um dos mais populares poetas e letristas do seu tempo. Recordamos José Carlos Ary dos Santos nos 80 anos do seu nascimento

Ary dos Santos (7 de Dezembro de 1936 - 18 Janeiro de 1984) afirmou com veemência a sua virilidade de poeta. Pela voz de Simone de Oliveira fez a apologia do corpo e do prazer femininos («Desfolhada Portuguesa», 1969), certamente por distracção da Censura, arrebatando o primeiro lugar no Festival RTP da Canção. Quatro festivais depois, arrasava a tourada na voz de Fernando Tordo e, na mesma faena, vencedora, investia sobre a primavera marcelista e apelava à resistência. As suas origens aristocrático-burguesas também não foram poupadas, como testemunha o conhecido poema «O Burguês», figura tratada a ferros sarcásticos. A salvo ficou A Bandeira Comunista (1977), corajosa e muito pessoalmente hasteada: «o meu comunismo vem-me por via Czarista!».
Ary dos Santos: o nome – do poeta e declamador carismático, conhecido do grande público como autor das letras de algumas das mais populares canções das décadas de ’60, ’70 e começos de ’80 – não faz jus a uma personalidade explosiva, irreverente, de humor sulfúrico e de grande turbulência imaginativa, capaz mesmo de fazer detonar «O Bombista».
Nasceu em Lisboa, um ano antes daquele que sempre afirmou. Quando, com apenas 16 anos, sai de casa em ruptura com o pai, traçara já, num soneto de um livro dedicado à mãe («pela infinita dor de a ter perdido» pouco antes), um programa de vida: «E canto na certeza do porvir,/ Que todo o mundo é meu e eu vou partir/ À conquista dos reinos da poesia!». Mal sonhava o jovem Zé Carlos que a poesia tinha reinos, uns mais nobres que outros. Natália Correia, que manterá com ele uma relação de amor-ódio, não se cansará de lho lembrar.
Insuficientemente amadurecido, claro, esse primeiro livro que quis apagado da sua bibliografia, Asas (1952), antecedendo bastante Liturgia do Sangue (1963), considerada a sua estreia literária efectiva, incubava já o seu tom excessivo e rasgado, o seu estilo transgressor, a rasar o libertário. Compreensivelmente, quando em 1966 Natália Correia preparar a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, celebrizada pelo veredicto do Tribunal Plenário, Ary dos Santos não poderá ser dispensado.
À saída de casa seguiram-se anos financeiramente difíceis, de embates quotidianos, e sucederam-se empregos: vendedor de máquinas de pastilhas elásticas, paquete na Sociedade Nacional de Fósforos, escriturário no Casino Estoril e estivador (a crer no seu testemunho, nem sempre fiel). «Isto vai meus amigos isto vai/ um passo atrás são sempre dois em frente» – dirá mais tarde no poema «O Futuro», de «Tríptico do Trabalho». Chegou a frequentar as Faculdades de Direito e de Letras da Universidade de Lisboa, mas «com toicinho e talento ambas partes» (palavras do seu «Auto-Retrato») e uma criatividade extraordinária, Ary dos Santos depressa as trocou pelo mundo da publicidade, área que em Portugal revoluciona, alcançando reconhecido êxito.
A criação poética, com comprazimento no ludismo verbal e disponibilidade metafórica, decorre paralela a uma vida profissional com cobranças difíceis e artes de espantar. Adereços Endereços (1965), Fotos-Grafias (1970), As Portas Que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1978), 20 anos de Poesia (1983) são algumas das obras daquele que reuniu num único terceto as três linhas que reconhecidamente perfazem o todo que é a sua poesia: a interventora, a satírica e a lírica: «Poeta de combate disparate/ palavrão de machão no escaparate/ porém morrendo aos poucos de ternura».
Tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas (publicação póstuma, 1989), onde reuniu os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz – Rua da Saudade, que pretendia que fosse uma autobiografia romanceada, mas não houve tempo. O excesso, a solidão e o gim foram a mistura explosiva.

«Quando eu morrer – afirmou um dia – vai ser em glória. Vai a classe operária toda ao meu funeral, e eu sentado no muro do cemitério, a vê-los passar!». O desígnio cumpriu-se quase inteiramente.

Teresa Carvalho, "Ary dos Santos. Um transgressor à conquista dos reinos da poesia", https://ionline.sapo.pt/537479, 2016-12-09




O Café

Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

José Carlos Ary dos Santos (1973)


sábado, 7 de outubro de 2017

It Goes Dark (Elk Eyes)



I thought I knew
What we were made of
'neath the sinners moon
It all slipped away, love
like a story book
On an old book case
It wasn't me
It wasn't you
It was a dream like state

It goes dark
and darker still
Mmm
It goes dark
And darker still
Related

Mirror, Mirror
Ever clearer
So I step right through
Poisoned apples
Floating candles
A nightmare of you

It goes dark
and darker still
Mmm
It goes dark
And darker still

Oh lordy there's a black cloud comin'
Rain's pouring and the thunder's drummin'
Oh lordy there's a black cloud comin'
Rain's pouring and the thunder's drummin'
Oh lordy there's a black cloud comin'
Rain's pouring and the thunder's drummin'
Oh lordy there's a black cloud comin'
Rain's pouring and the thunder's drummin'

It's dark
And darker still
Oh it goes dark
And darker still

I thought I knew
What we were made of
'neath the sinners moon
It all slipped away, love

http://www.metrolyrics.com/it-goes-dark-lyrics-elk-eyes.html



"It Goes Dark" by Elk Eyes (SONGS writer Danny Burke) was featured in episode #109 of NBC's supernatural drama, Midnight, Texas.  It closes out the episode, playing as Fiji is led into the city of Midnight with ghosts.  The episode aired on September 13, 2017.


Download da música: 1  |  2  |

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Adriana Calcanhotto e a poesia portuguesa

A cantora brasileira Adriana Calcanhotto está em Portugal e por cá ficará até junho, como professora convidada da Universidade de Coimbra. O que a traz ao nosso país? Uma paixão antiga: a poesia



Adriana Calcanhotto e a poesia portuguesa – uma paixão escutada na rádio

Largas dezenas de pessoas estão concentradas junto ao Auditório Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). Espera-se por alguém. “Cruzei-me mesmo há pouco com ela e nem conseguia acreditar”, assegura uma jovem, falando em português do Brasil a um amigo. Passam cinco minutos da hora marcada. As portas abrem. A sala, imponente, parece minúscula para tantos curiosos. Ela – a responsável pela enchente – senta-se. Serena. Sorridente. Fazem-se os agradecimentos e as apresentações habituais em cerimónias académicas. Ela não precisa de muitas. Toma a palavra. “Isso aqui não é uma aula. Eu não sou uma professora”, avisa, desde logo, Adriana Calcanhotto, enquanto todos a ouvem atentamente. Em silêncio, para sorver cada palavra, porque se vai falar de poesia no seminário “Uma Incerta Melodia”.
Cantora, compositora, escritora, ilustradora e antologista brasileira. Assim é ela, Adriana – a que os mais novos juntam, na memória, a alcunha artística Partimpim. Está em Portugal desde fevereiro e vai ficar até junho, como professora convidada da Universidade de Coimbra durante um semestre. O motivo que traz a artista de música popular brasileira até ao nosso país e esta quarta-feira a levou a palestrar para aproximadamente uma centena de pessoas na FLUP é simples: a poesia. Essa paixão pela musicalidade das palavras, surgida na sua vida de uma forma bastante espontânea e que a levou a tornar-se “embaixadora” da obra de Mário de Sá-Carneiro no Brasil. Mas como é que tudo começou?
Não foi na escola. “Tal como grande parte das pessoas da minha geração, eu larguei o colégio muito cedo. Nem cheguei à faculdade. Eu costumo dizer que a música me escolheu. É melhor do que dizer que abandonei os estudos”, brinca a cantora ou escritora de canções de 51 anos. O pai, Carlos, era baterista de jazz, bossa nova e possuidor de um restrito gosto musical. “O meu pai era daqueles que não tinha vergonha de dizer que os Beatles estragaram tudo”, recorda Adriana. A mãe, Morgada, era uma bailarina e coreógrafa, amante de um leque musical variado, onde cabiam Pink Floyd, Miles Davis ou Elis Regina.
Por isso mesmo, a música acompanhou a artista desde cedo, mas a paixão pela melodia das palavras surgiu quase à revelia da família. A ouvir rádio, onde tanto podiam passar as músicas mais badaladas das telenovelas como, minutos depois, ecoarem canções de Caetano Veloso, Chico Buarque ou Maria Bethânia.
“Um dia, o meu pai chegou a casa mais cedo e encontrou-me a ouvir rádio popular, música estragada e ruim para ele. Ficou apavorado, pensando que isso ia interferir na minha formação musical. O que, de facto, aconteceu”, admite, entre risos. “Foi aí que eu percebi que essa divisão entre alta e baixa cultura é uma perda de tempo. Até porque, naquele momento, a tropicália já existia”, sustenta Adriana, referindo-se ao célebre movimento musical que agitou, no final dos anos 1960, um país ainda acorrentado a uma ditadura militar.

FERNANDO PESSOA É UMA “POPSTAR” NO BRASIL E PARA ALGUNS TEM AR DE BAIANO

A forte ligação à poesia não chegou, assim, ao folhear livros. Chegou por intermédio das ondas de rádio. “Ali era uma música de palavra, com canto”, enaltece a artista. “Um dia, eu ouvi a Maria Bethânia a dizer Fernando Pessoa. Aquilo foi para mim uma iluminação. Foi assim que a poesia entrou na minha vida”, afirma a cantora que, em 1990, se estreou com o álbum “Enguiço” e, em 1994, editou o trabalho discográfico “Fábrica de Poemas”.
Ainda sobre Pessoa, Adriana explica que o autor é uma autêntica “popstar” no Brasil, muito por força do trabalho de divulgação feito por Bethânia. “Toda a gente sabe quem é. Algumas pessoas acham que ele é baiano”, conta, provocando o riso generalizado na plateia. “É impressionante o quanto ele está vivo no Brasil”, frisa Adriana Calcanhotto, acrescentando que “as pessoas aprendem Pessoa através da música”.
Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar ou Florbela Espanca foram outros dos poetas que a rádio lhe apresentou, todos eles sublimados pela voz do cantor Raimundo Fagner. Já mais tarde, na década de 1990, quando a poesia já era uma paixão séria na vida de Adriana, é editada no Brasil a obra completa de Mário de Sá-Carneiro. A editora convida-a, inesperadamente, para participar num sarau de apresentação. Dizem-lhe para fazer o que quiser. “O meu problema”, explica a cantora, “é que digo ‘sim’ e depois é que vou ver”. “Eu não tinha ideia da vastidão da obra de Sá-Carneiro”, reconhece.
“Fiquei absolutamente fascinada, conhecendo o poeta, a vida dele, a relação com o pai, os problemas com ele mesmo e a forma como passa aquilo para a poesia”, frisa a artista brasileira, rendida a “uma poesia daquele tamanho, daquela altura, que nos encanta a todos até hoje”.
Desde então, e à semelhança da relevância de Maria Bethânia na democratização da obra de Fernando Pessoa no Brasil, também Adriana acabou por se transformar, “de forma natural”, diz, numa “embaixadora” de Mário de Sá-Carneiro. São já vários os poemas do poeta da geração d’Orpheu musicados pela artista, como “Vislumbre”, “Roupagem” ou “7”, este último gravado por Calcanhotto com o nome “Outro”.
Ao longo dos anos, outros poetas portugueses foram sendo acrescentados à lista de favoritos de Adriana Calcanhotto, como são disso exemplo Alexandre O’Neill, David Mourão Ferreira, Adília Lopes ou Ana Luísa Amaral. Conta que, sempre que vem atuar a Portugal traz “uma mala enorme vazia, só para depois a levar cheia de livros” que lhe oferecem. “Quando recebemos de um português um livro de poesia, aquilo significa: ‘Este é o nosso legado’”, explica a intérprete, fascinada ainda com outra particularidade da cultura portuguesa. “O Dia de Portugal é o dia de um poeta. Não acredito que isso exista noutro país do mundo. Não é um general, um guerreiro, um metalúrgico… é um poeta! Isso impressiona-me imenso”, assevera.

“O NOBEL É QUE GANHOU BOB DYLAN”

O que a encanta na poesia é, sobretudo, a musicalidade das palavras, motivo pelo qual adora o fado, estilo musical que descreve como uma “maravilha” e no qual se pode “colocar qualquer poema”. Fala de Amália como quem descreve um gigante e destaca o papel da fadista quando decidiu cantar Camões. “Ela podia fazer o que quisesse. Amália conseguia tirar o melhor dos poetas, porque a poesia não é só para estar nos livros”, considera.
Daí até fazer referência à polémica instalada aquando da atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan foi um pequeno salto. “Discute-se muito o facto de o Bob Bylan ter ganhado o Prémio Nobel da Literatura… Ou melhor, o Prémio Nobel é que ganhou o Bob Dylan”, atira a brasileira, relembrando que “na Grécia era assim, transmitia-se a poesia através da música” e “o que hoje temos da poesia arcaica são, na verdade, fragmentos de letras de músicas”.
De volta à arte de versejar em língua portuguesa, Adriana Calcanhotto é da opinião que “quem hoje se arrisca a escrever poesia em Portugal ou no Brasil, precisa de ler muito”. “Tem de saber o que está a fazer. Tem de ler tudo o que está para trás. Só o facto de alguém ler tudo isso, já lhe dá o direito de escrever”, considera a artista brasileira.
“É assim a minha relação com a poesia portuguesa. Uma relação apaixonada”, finalizou, motivando um demorado aplauso.

André Manuel Correia
http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-05-04-Adriana-Calcanhotto-e-a-poesia-portuguesa--uma-paixao-escutada-na-radio




Adriana Calcanhotto: "Estou na Universidade de Coimbra para ensinar coisas que não se ensinam"

Ela diz que têm sido uns meses sossegados, com tempo para ler, sem ser constantemente interrompida com concertos e viagens. Para não perder o fio à música, nos intervalos das aulas que tem dado no âmbito da sua residência artística na Universidade de Coimbra, Adriana Calcanhotto anda a aprender a tocar guitarra elétrica. Por isso, na biografia da senhora da voz e do violão, a cidade portuguesa ficará para sempre ligada ao amplificador. Também já escreveu um livro sobre a história da Universidade de Coimbra para ser lido por crianças brasileiras. A entrevista não podia ter decorrido num local mais literário, a Quinta das Lágrimas.
O que é, no seu entender, ensinar?
Ensinar, para mim, é aprender. Durante este semestre na Universidade de Coimbra tenho a possibilidade de ouvir professores a falar com paixão, seja sobre Química ou sobre Literatura. E ouvir uma pessoa que fala sobre Eça de Queirós com um brilho nos olhos ou outra que se transforma quando discorre sobre Camões são experiências que não se esquecem. Como tenho dito, quase como um refrão, estou aqui para ensinar coisas que não se ensinam.

E que são sobretudo a sua forma de ver o mundo?
Por sugestão da universidade, nas aulas também tenho incluído a minha experiência pessoal. Começo na poesia arcaica, na poesia clássica, e, depois, vou indo pelos trovadores. Tudo isso é a minha forma de ver, é o modo como aqueles temas me apaixonaram, as relações que fui fazendo de maneira completamente autodidata. Na primeira aula que dei, muitos professores, muitos lentes, me disseram que, para eles, era incrível uma educação assim, não formal, não organizada, que foi seguindo a intuição.

Esta residência artística em Coimbra não se trata de um regresso à faculdade, mas de um começo, aos 51 anos?
Pensei ser astronauta e arquiteta. Treinei para ser tenista e, como a minha mãe era bailarina, tive aulas de ginástica rítmica e de dança. A música, porém, não me deixou chegar à universidade porque andava a ouvir as pessoas cantarem e tocarem o repertório de Lupicínio Rodrigues pelos bares de Porto Alegre e, depois, de manhã, não acordaria para ir às aulas. Naquele meio da boémia gaúcha, eu era um bebé, que tentava absorver toda aquela informação, experiência e sensibilidade.

O que é que tem feito em Coimbra?
Aqui, os professores dizem: vou ali dar uma aula e já volto. Eles têm experiência e, mesmo que uma aula nunca seja igual a outra, é preciso ver que eles têm os esqueletos das lições. Não é que goste muito de ensaiar e de ficar presa a um roteiro, mas eu não sou professora e, por isso, preciso de preparar as aulas, trabalho-as até ao minuto em que vão começar.

Segue um fio condutor ou, pelo contrário, costuma perder-se?
Perco-me imenso. Há assuntos que não são vetoriais, funcionam como uma malha. É o caso do Parangolé Pamplona, de Hélio Oiticica [o tema principal da masterclass do passado dia 19 de abril]. Aquilo tem resquícios do pensamento antropofágico, de acordo com o qual a arte brasileira não precisa de replicar as artes europeia e americana. É isso que Hélio combate. Tudo isso corresponde, aliás, a uma das coisas de que Caetano Veloso mais fala: diz ele que o Brasil tem obrigação de ser original porque está na América Latina a falar língua portuguesa, rodeado de língua espanhola. O Carnaval é a maior prova de que nós somos capazes de acolher a cultura vinda de fora, deglutimos e devolvemo-la do nosso jeito, do nosso ponto de vista, selvagem, tropical.

Tem lido muito em Coimbra?
Muito. Além de ser uma cidade com proporções humanas, Coimbra vive do convívio de diferentes tempos de culturas, de religiões, de épocas. Induz ao pensamento porque, até quando observamos a arquitetura, não temos ninguém a pedir para comprar qualquer coisa, para fazer isto ou aquilo. Parece bobagem, mas não é: tenho lido livros inteiros sem ser interrompida, ao invés do que acontece quando estou no Rio de Janeiro, entre concertos e aeroportos.

Isso propicia a criação?
Tenho tentado não abrir essa porta porque, depois da porta aberta, não dá muito para controlar…

E o que é que tem lido?
Literatura portuguesa e um pouco também de literatura brasileira. A próxima aula vai ser sobre os livros que me marcaram [decorreu a 26 de abril]. Não posso falar sobre todos, escolhi 14, que é o número de volumes que cabem na mesa do Instituto de Estudos Brasileiros onde os livros vão estar expostos.

Onde começa essa lista?
Começa com A Mulher que Matou os Peixes, que li aos oito anos e que realmente mudou a minha vida. Foi a primeira vez que me senti leitora e que uma autora da potência de Clarice Lispector falava comigo sem me tratar como uma criança, contando-me histórias de “era uma vez…”. O livro tem esse título maravilhoso e, depois, quando se abre, a primeira frase é: “A mulher que matou os peixes infelizmente fui eu.” Senti aquilo como se fosse Hitchcock.

E onde é que a lista acaba?
Acabar não acaba, mas o 14º livro é um dicionário. Foi uma coisa que descobri com Tom Jobim. Um dia visitei o seu apartamento em Nova Iorque e, no meio de livros sobre passarinhos brasileiros (Jobim gostava muito de passarinhos), vi que ele tinha uma prateleira inteira só de dicionários. Por causa dele, comecei a entender, por exemplo, que o dicionário de Aurélio tem um ponto de vista distinto do dicionário Houaiss. Hoje, quando procuramos o significado de uma palavra, basta fazermos uma pesquisa no computador e o problema fica resolvido. Mas, se folhearmos um dicionário, descobrem-se palavras, passamos de umas para outras, passam-se horas.



Intitulada O Parangolé Pamplona A Gente Mesmo Faz, a masterclass de Adriana Calcanhotto decorreu no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra, no passado dia 19 de abril. A lotação esgotou, sendo que a maioria dos alunos eram estudantes de literatura brasileira da universidade. A professora explicou a importância do “parangolé”, um pano que funciona como roupa, estandarte e obra de arte, criado pelo artista brasileiro Hélio Oiticica. No final da aula, os alunos puderam dançar

Qual é a sua opinião sobre o Acordo Ortográfico?
Para mim, o acordo ortográfico é uma coisa simples. Como julgo que o caminho da língua é o do menor esforço, sou favorável a que se tirem os acentos e tudo aquilo que não se usa. Não me parece que os portugueses voltem a abrir as vogais, isso é uma coisa arcaica que só nós [brasileiros] usamos.

A atribuição do Nobel a Bob Dylan é a confirmação de que a canção também é literatura?
A polémica é animada, mas não faz sentido: quem reclamou são os que não conhecem a obra de Bob Dylan, os escritores de livros, de livros maçudos. Bob Dylan é um grande poeta. Aliás, não foi Bob Dylan que ganhou o Nobel, foi o Nobel que ganhou Bob Dylan. E o prémio poderia ter ido para Sérgio Godinho ou para Chico Buarque. Veja-se que, em alguns textos, Frederico Lourenço [helenista, professor da Universidade de Coimbra] chama Safo de cantora.

Com os cortes no financiamento das universidades, o Brasil tem estado a desinvestir drasticamente na Educação. O saber já não tem valor?
Isso causa-me imensas angústias. Porque a ideia que há é a de que o saber, o pensamento, é qualquer coisa de perigoso, ameaçador. Por causa da maneira como a política está armada no mundo, por causa desses esquemas todos de corrupção, por causa da ignorância que se alastra por todo o lado. Nada disto é de agora, é uma tragédia anunciada, foi triste ver tudo isso acontecer, assistir a toda essa decadência.

Não é por causa do Governo de Michel Temer?
Vem de trás. Costumo ser otimista, mas também sei que, para as coisas melhorarem, vão ser precisos muitos anos. São gerações perdidas, de pessoas que saem das faculdades semianalfabetas. Diz-se que o importante é comunicar, claro que o importante é comunicar, mas qual é o problema de se saber a norma culta? Qual o problema de se saber a sua própria história? Qual é o problema de se conhecer a sua própria língua?

Nesta Europa que vê os que são diferentes de forma ameaçadora, a língua permite-nos conhecer o Outro?
Antes de estar na Europa que olha o mundo de forma ameaçadora, estou em Portugal que olha o mundo como uma coisa a ser descoberta. Chego a Macau e, numa praça, encontro um verso de Camões que me faz chorar: “O mundo todo abarco e nada aperco.” É muito interessante: quando aprendemos outra língua, entendemos também muitas coisas da nossa própria língua.

Conhecemos o Outro e conhecemo-nos a nós próprios também.
Exatamente. E isso é uma boa lição.

Preocupam-na os populismos, que não veem a chegada do Outro com esse encanto?
Como disse Álvaro de Campos, o que uma geração passa para a outra é tudo aquilo que ela não foi. Ou seja, a humanidade não aprende. Abram-se os livros e veja-se como a história se repete. Sou otimista, mas uma espécie que destrói o seu próprio habitat não é uma espécie que tenha dado certo. As pessoas continuam a pensar que o planeta é uma fonte inesgotável e, agora, até o próprio Presidente dos Estados Unidos pensa que isso é uma invenção…

Uma fake news.
Um facto alternativo. Vivemos tempos difíceis, mas os tempos sempre foram difíceis.

Imagina-se a viver em Portugal permanentemente?
É uma pergunta difícil. Há um verso do hino nacional brasileiro que diz: “Verás que um filho teu não foge à luta.” E é um verso que me cala fundo. Estou aqui e não estou a fugir de coisa nenhuma, muito antes pelo contrário.

Sara Belo Luís
http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2017-06-03-Adriana-Calcanhotto-Estou-na-Universidade-de-Coimbra-para-ensinar-coisas-que-nao-se-ensinam





Organizada por Adriana Calcanhotto, É Agora Como Nunca. Antologia Incompleta da Poesia Contemporânea Brasileira (Livros Cotovia, 144 págs., €17) foi lançada em meados do mês de maio. A obra, com poemas de 41 autores, pretende ser "um instantâneo da poesia brasileira agora". "Sou completamente contrária à ideia de que já não existem poetas, de que já não se escreve. Isso é coisa de gente que não lê o que está a acontecer, é um ranço que existe em relação à composição, à música e a tudo", diz, a propósito, Adriana Calcanhotto.

sexta-feira, 10 de março de 2017

AMAR PELOS DOIS



Se um dia alguém
Perguntar por mim
Diz que vivi
Para te amar

Antes de ti
Só existi
Cansado e sem nada p’ra dar
Meu bem
Ouve as minhas preces
Peço que regresses
Que me voltes a querer

Eu sei
Que não se ama sozinho
Talvez devagarinho
Possas voltar a aprender

Se o teu coração
Não quiser ceder
Não sentir paixão
Não quiser sofrer

Sem fazer planos
Do que virá depois
O meu coração
Pode amar pelos dois


                               Luísa Sobral





"Luísa Sobral embrulhou emoção q.b. numa balada de piano-bar com bom fumo. As notas certas, os intervalos certos. o tempo exato para que o espaço que vai dos graves aos agudos deixasse todos à espera do verso seguinte. Como se faz num argumento bem feito para conquistar audiências em quantidade, “Amar pelos Dois” deixa o ouvinte pendurado, à espera da boa desgraça romântica que a letra vai confessar a seguir, e depois, e depois."
Rita Cipriano e Tiago Pereira
http://observador.pt/2017/05/14/salvador-e-luisa-a-sobralvisao-ganhou-por-todos/




Salvador Sobral e Luísa Sobral cantam "Amar pelos dois":




Tributo à prestação portuguesa no Festival da Canção Eurovisão 2017:




















   
Español
English
Si un día alguien
te pregunta por mí,
dile que viví
para amarte.

Antes de ti,
solo existía cansado
y sin nada que ofrecer.

Mi amor,
escucha mis oraciones.
Te pido que regreses, 
que me vuelvas a querer.

Sé que no se ama
en soledad,
quizás puedas volver a quererme
poquito a poco.

Si tu corazón no quiere ceder,
no quiere enamorarse,
no quiere sufrir,
sin planificar lo que vendrá después,
mi corazón
puede amar por los dos. 
If someday someone 
Asks about me 
Tell them I lived 
To love you 

Before you 
I only existed 
Tired and with nothing to give 
My love 
Hear my prayers 
I ask you to come back 
To want me again 

I know 
It takes two to love 
Maybe slowly 
You can learn again 

If your heart 
Doesn't want to give in 
Doesn't feel the passion 
Doesn't want to suffer 

Without making plans 
For what will come next 
My heart 
Can love for the both of us 

Français
Deutsch
Si un jour quelqu'un 
Me demande 
Dîtes que j'ai vécu 
Pour t'aimer 

Avant toi 
Je n'ai qu'existé 
Fatigué et sans rien à donner 
Chérie 
Entends mes prières 
Je demande que tu reviennes 
Que tu me veuilles à nouveau 

Je sais 
Que l'on ne peut aimer seul 
Peut-être lentement 
Tu apprendras de nouveau 

Si ton coeur 
Ne veux pas ceder 
Ne veux pas sentir la passion 
Ne veux pas souffrir 

Sans faire de plans 
Que viendrait-il ensuite 
Mon coeur 
Peut aimer pour deux
Wenn eines Tages jemand 
nach mir fragt 
sag ihm, ich lebte 
dich zu lieben 

vor dir 
existierte nur ich allein 
müde und ohne alles 
Schatz 
höre mein Gebet 
ich bitte dich, komm zurück 
sag dass du mich liebst 

ich weiß, 
dass du dich nicht allein lieben kannst 
vielleicht kannst du langsam 
alles wieder lernen 

wenn dein Herz 
nicht zu mir will 
keine Leidenschaft fühlt 
nicht mehr leiden will 

ohne Pläne 
was als nächstes geschieht 
dann kann mein Herz 
lieben für zwei 

                                                                                                    http://amarpelos2.com/


PORQUE NÃO É BOM AMAR PELOS DOIS


Quem não gosta - mesmo que o negue até ao limite - de uma boa canção de amor? De que falamos quando falamos de uma “boa” canção de “amor” e, já agora, dos critérios que a colocam num patamar em que é apreciada e partilhada por uma maioria, que com ela se identifica e sonha?
Uma boa canção de amor tem um toque de virtude e encanto, não raras vezes associado a doses de altruísmo, abnegação e sacrifício sem precedentes. Há maior prova de amor do que dar sem pedir nem esperar reciprocidade, como nas relações ideais, ou suficientemente boas, entre pais e filhos? Ou dar sem olhar a meios, com grandeza e heroísmo, à semelhança do que sucede nas histórias de amor romântico?
Há uma inegável poesia em tudo isto. Um cheirinho a Florbela Espanca nessa atitude de “ser mendigo e dar como quem seja rei do reino de aquém e de além dor”. Mas, será isto amor? E porque é que amar assim tem, quase sempre, a ingratidão como certa por parte do outro?
AMAR DEMAIS

Chama-se a isto amar demais. Não sou eu que o digo, é uma senhora americana que cunhou a expressão, em 1985, quando publicou Mulheres Que Amam Demais. Dois anos mais tarde, o livro de auto-ajuda converteu-se num bestseller à escala mundial e a californiana, hoje com 71 anos, viu a sua obra ser traduzida em 30 línguas e com mais de três milhões de cópias vendidas.
Quando o livro foi publicado em Portugal, questionei a designação, já que o amor não se mede em quilos, nem noutra unidade do género, sendo por isso um tanto ou quanto impreciso considerar que é demais ou de menos. Por outro lado, sendo cada humano dotado de uma cabeça e um coração, não deixa de soar um tanto ou quanto invasiva a ideia de pensar ou de amar por dois. Ou por três, e por aí fora. A menos que se seja ingénuo, masoquista ou mártir. Amar demais refere-se a um síndroma, a uma espécie de doença a que se convencionou chamar codependência. Trata-se de alguém que alimenta a dependência de outro para satisfazer carências próprias, ainda que nem sempre tenha consciência disso. Se tivesse, não ficaria atrelada a um relacionamento assente numa assimetria que só pode correr mal e acabar pior.
CODEPENDER É SOFRER
Amar por terceiros é uma adição, um vício. Codependência não é interdependência (que implica paridade e reciprocidade). Quando uma das partes precisa da outra para exercer sobre ela alguma forma de controlo, ainda que mascarada de dedicação, é o princípio do fim. E porquê? Porque é negar o que o outro sente, diz ou dá a entender. É acreditar que querer é poder e que quando um quer, o outro não precisa de concordar para algo acontecer e permanecer. É uma forma de omnipotência, uma ilusão insustentável a médio prazo, que acabará por desfazer-se com estrondo, quando a parte que deixa de ter voz decide tomar medidas drásticas e bater com a porta, de forma a não deixar margem para dúvidas.
A partir desse momento, é a neura total, o abatimento, o vazio insuportável. No pico da depressão, surge a oportunidade para questionar tudo, uma e outra vez, e compreender o que não estava certo desde o início: fazer tudo, literalmente tudo, por alguém, e viver exclusivamente em função desse alguém, como a única forma de não sentir-se abandonado. Ou abandonada, já que este tipo de situação parece ser mais comum no sexo feminino. Não foi por acaso que serviu de tema de eleição para o filme Ele Não Está Assim Tão Interessado, dos argumentistas de O Sexo e a Cidade, Greg Behrendt e Liz Tuccillo, lançado em 2009: se a norma for interpretar os sinais emitidos pelo sexo oposto, nas cenas de sedução, como um “sim”, ou se “dourar a pílula” é um modo de vida, tal dá azo a situações caricatas, que levam a rir para não chorar.
LIBERDADE SEM MEDO
Amar demais - ou amar por terceiros - pode parecer uma prova de amor infinita, mas esconder um profundo desespero. Quando essa atitude é manifestamente “em excesso” face a alguém, ela pode revelar precisamente o oposto: o amar-se “em débito”, o não ser capaz de gostar suficientemente de si e de respeitar as suas próprias necessidades, fazendo impossíveis em nome de um imaginário bem maior.
Como sair do ciclo vicioso, do padrão repetitivo que, quase sempre, é aprendido na infância, com aqueles de quem se depende completamente para poder sobreviver? Quantas vezes é preciso reviver, noutros relacionamentos, o mesmo medo - terror, até - do abandono, para se perceber que o amor genuíno não se compra nem se impõe e, menos ainda, se sobrepõe ao de um semelhante? A codependência afetiva supera-se, mas pode implicar ajuda profissional, sob a forma de psicoterapia ou outra, em que a pessoa se sinta segura e se permita ensaiar outras maneiras de relacionar-se, consigo em primeiro lugar. Sem medo de ficar sozinha, sem receio de ser rejeitada por ser como é, ou sentir que a sua auto estima ou valor pessoal só depende daquilo que dá, e que é a moeda de troca para ser acolhida, aceite ou simplesmente tolerada pelo outro.

Clara Soares (jornalista e psicóloga)
http://visao.sapo.pt/opiniao/psicologia-quotidiana-clara-soares/2017-05-30-Porque-nao-e-bom-amar-pelos-dois








segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Aquarela


No enredo da canção "Aquarela" (1983), a personagem colore o mundo que imagina. Com o lápis, elege o céu num encontro com o mar e completa a cena: "Pinto um barco a vela branco navegando". A gaivota é um pingo azul no papel.

(Mônica Costa, Publifolha 15-11-2014)



AQUARELA

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
(Que descolorirá)
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
(Que descolorirá)
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
(Que descolorirá)
Vinicius de Moraes, Toquinho, Guido Morra, Maurizio Fabrizio



De acordo com o texto acima, responda as questões de 01 a 03:

01. No verso, "Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva", a expressão em destaque sugere:
A) o desenho da mão.
B) a confecção da luva.
C) o colorido da mão.
D) a pintura dos dedos.
E) o contorno do pincel
02. A aquarela de que fala na música está:
A) no desenho e na vida real.
B) no desenho e na imaginação.
C) na pintura, apenas.
D) na vida real e na imaginação
E) no desenho do lápis.

03. No poema a expressão "beijo azul" sugere o encontro:
A) da vela do barco com o céu.
B) do avião com o céu.
C) do barco com o mar.
D) do céu com o mar.
E) do céu com a terra

Fonte: http://www.vivacomunidade.org.br/wp-content/uploads/2013/05/GABARITO-Prova-sele%C3%A7%C3%A3o-ACS-MANH%C3%83.pdf, 2013

RESENHA DA MÚSICA AQUARELA (TOQUINHO)

A melodia da música “Aquarela” é uma fusão de uma antiga canção de Toquinho e Vinícius de Moraes, de 1974, chamada “Uma Rosa em Minha Mão”. Em 1982, Toquinho e o italiano Maurizio Fabrizio compuseram uma nova melodia para música “Aquarela”. A letra original é em italiano, de Guido Morra. Foi um enorme sucesso na Itália, na voz do próprio Toquinho. A canção intitulava se Acquarello. Só posteriormente foi gravada em português, com uma letra adaptada da original italiana.
“Numa folha qualquer / eu desenho um sol amarelo / E com cinco ou seis retas / é fácil fazer um castelo / Corro o lápis em torno da mão / e me dou uma luva / E se faço chover com dois riscos / tenho um guarda chuva”, inicia se tratando do meio infantil, a criatividade ao se expressar, e a representação do mundo o qual rodeia a criança.
A segunda estrofe relata, principalmente, a simplicidade, a criatividade e a imaginação de uma criança: “Se um pinguinho de tinta cai num / pedacinho azul do papel / num instante imagino uma linda / gaivota a voar no céu”.
Em “Numa folha qualquer eu desenho / um navio de partida / com alguns bons amigos bebendo / de bem com a vida”, o termo “navio de partida”, faz analogia, ao barco que desenhamos, que esta navegando, conduzindo, as lembranças e atitudes da vida, e, “com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida”, representa a saída da infância.
Em “De uma América a outra consigo / passar num segundo / Giro um simples compasso e num / círculo eu faço o mundo”, há referência à fase da adolescência, há problemas, que na mesma perspectiva, parecem simples e fácil de solucionar.
“E o futuro é uma astronave que / tentamos pilotar / Não tem tempo nem piedade / nem tem hora de chegar”, nesses versos, possivelmente se percebe traços da vida adulta. Há o planejamento do futuro, e ações referentes ao mesmo, suas consequências, porém são imprevisíveis. “Nessa estrada não nos cabe / conhecer ou ver o que virá / O fim dela ninguém sabe bem ao / certo onde vai dar”, demonstrando o futuro incerto.
Em “Vamos todos numa linda passarela / de uma aquarela que um da enfim / Descolorirá”, em uma linda passarela, na vida, com os sonhos, vontades e personalidade, enfim descolorirá, acabará. Pode se entender a brevidade da vida, que um dia tudo que se vivencia, se luta, terá um fim.
E, para concluir o poema com a mesma ideia analisada: “Numa folha qualquer eu desenho / um sol amarelo (que descolorirá) / e com cinco ou seis retas é fácil / fazer um castelo (que descolorirá) / Giro um simples compasso e num / círculo eu faço o mundo (e descolorirá)”, nesses versos, à analise subjetiva da vida, no inicio, o modo infantil de observar e interpretar aperfeiçoa, o que um dia, extraordinariamente essencial, não surgirá efeito, acabará, representado de modo geral, as várias etapas da vida.
A letra dessa canção consegue nos fazer refletir sobre a vida e o término de tudo, ou seja, retrata sobre a nossa própria passagem pela Terra, que um dia descolorirá que tudo o que se construiu tudo o que se criou um dia terminará é a lei da vida. Fica uma reflexão: É nossa obrigação aproveitarmos o hoje, sermos felizes agora, pois um dia tudo não passará de lembranças e de saudades.

Rio Grande do Norte, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Professora: Elaine. Upload para https://www.academia.edu/10175736/Resenha_Aquarela_Toquinho?auto=download, por Dayana Maria.


PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE:



Observe a música “Aquarela” composta por Toquinho para responder às questões de 01 a 15.

AQUARELA

1 Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
2 E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.
3 Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
4 E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva.
5 Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,

6 Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
7 Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul,
8 Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul.
9 Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul.

10 Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená.
11 Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar.
12 Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo,
13 E se a gente quiser ele vai pousar.

14 Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
15 Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida.
16 De uma América a outra consigo passar num segundo,
17 Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.

18 Um menino caminha e caminhando chega no muro
19 E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
20 E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
21 Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
22 Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar.

23 Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá.
24 O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
25 Vamos todos numa linda passarela
26 De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.

 *
01. Nos primeiros quatro versos, quais são os itens que o autor fala em desenhar?
a) Um sol, um castelo, uma luva e um guarda-chuva.
b) Um sol amarelo, seis retas, uma luva e chuva.
c) Uma folha qualquer, cinco retas, um lápis e um guarda chuva.
d) Um sol, um castelo, um lápis e um guarda-chuva

02. Ainda sobre os primeiros quatro versos, pode-se afirmar que:
a) o autor desenha um sol qualquer numa folha amarela.
b) fazer um castelo é fácil.
c) o autor corre usando luva.
d) com dois riscos o autor faz chover.

03. De acordo com o quinto verso, o que cai num pedacinho de papel?
a) Um pinguinho de tinta azul.
b) Um pedacinho do céu.
c) Um pinguinho de tinta.
d) Um pedacinho azul de tinta.

04. No sétimo verso, “Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul”, qual o sujeito dos verbos voando e contornando?
a) Eu.
b) Céu.
c) Instante.
d) Gaivota.

05. No oitavo verso, “Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul”, quem é ela?
a) Gaivota.
b) Linda.
c) Tinta.
d) Curva Norte e Sul.

06. Segundo o décimo verso, o que surge entre as nuvens?
a) Um avião e um grená
b) Um avião rosa e grená.
c) Um avião rosa e um grená.
d) Um avião e um rosa grená.

07. O décimo primeiro verso, “Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar”, faz referência a quê?
a) Às nuvens.
b) Ao grená.
c) Ao avião.
d) Ao céu.

08. No décimo segundo verso, “Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo”, quem é ele?
a) O barco.
b) O grená.
c) O céu.
d) O avião.

09. Nos versos 14 e 15, o que desenha o autor?
a) Um navio de partida e alguns bons amigos
b) Um navio qualquer com alguns amigos.
c) Um navio qualquer numa folha com alguns amigos.
d) Uma folha qualquer com alguns amigos.

10. Por que, no verso 16, o autor diz “De uma América a outra consigo passar num segundo”?
a) Porque o autor possui uma máquina de teletransporte.
b) Porque no desenho no papel, para ir de uma América a outra, a distancia é muito pequena.
c) Porque o autor conhece um atalho.
d) Porque o autor já viajou muito por este trajeto.

11. No verso 17, “Giro um simples compasso...”, a palavra sublinhada é:
a) Um substantivo.
b) Um verbo.
c) Um adjetivo.
d) Um artigo.

12. No verso 18, “Um menino caminha e caminhando chega no muro”, as palavras sublinhadas são todas:
a) Artigos.
b) Adjetivos.
c) Substantivos.
d) Verbos.

13. No verso 21, “Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar”, as palavras sublinhadas são todas:
a) Substantivos.
b) Adjetivos.
c) Verbos.
d) Artigos.

14. No verso 22, “Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar”, quem é o sujeito dos verbos sublinhados:
a) Piedade.
b) Futuro.
c) Hora.
d) Menino.

15. Quantas estrofes tem a canção?
a) 26.
b) 16.
c) 06.
d) 36.