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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

NA NOITE DO DESÂNIMO LEVANTO A MINHA VOZ (José Gomes Ferreira)


      
                
            
HEROICAS
XL
             
(Madrid rendeu-se. Ranjo os dentes.)
             
Homens: na noite do desânimo 
levanto a minha voz
para pregar o ódio.

Um ódio total e violento
a todos os narcóticos
que adormecem a realidade
com neblinas de música.

Ódio às lágrimas mal choradas diante dos poentes,
à alegria das crianças mortas que teimam em rir nos olhos dos velhos,
às noites de insónia por causa duma mulher,
às flores que iluminam os mortos de alma,
ao álcool da arte-pura-para-esquecer,
aos versos com túneis acesos por dentro das palavras,
aos pássaros a cantarem os perfumes das árvores secas,
às valsas com voos de tule
‑ e até ao sol
que diminui o mundo
em indiferença de continuar.

Ódio ao mar a modelar deuses
nos nossos corpos feios de não ter cólera.

Ódio à primavera
‑ essa mulher voadora
que entra pelas janelas
com asas azuis
para que a nossa dor
pareça preguiça de existir.

Ódio às serenatas que o luar faz do céu à terra,
às pétalas nos cabelos dos fantasmas ao vento,
às mãos-dadas nas sendas brancas dos idílios,
à pele de frio doce dos amantes,
aos colos das mães a embalarem futuro,
às crianças com céus do tamanho dos olhos,
às cartas de paixão a prometerem suicídios (para beijos mais fundos),
às insinuações de paraíso nas vozes de pedir esmola,
às escadas de corda nos olhos das noivas das trapeiras,
às danças a perfumarem de sexo a derrota,
às ninfas disfarçadas em canteiros de jardins,
e aos recantos foscos
onde escondemos a Verdade
em galerias de evasão
‑ só para que os nossos olhos continuem límpidos
a ignorarem todos os negrumes
com escadas até ao centro da terra.

Ódio ao disfarce, às máscaras, ao «falemos noutra coisa»,
aos desvios, às fontes dos claustros, ao «vamos logo ao cinema»,
aos problemas de xadrez, aos dramas de ciúme, às infantas do fogo das lareiras,
e aos que não têm a coragem
de estacar, pálidos,
com unhas na carne
a olhar de frente,
sem arrancar os olhos,
os caminhos dos mortos sagrados
até aos horizontes onde os homens se ofuscam das manhãs virgens.

Ódio a todas as fugas, a todos os véus,
a todas as aceitações, a todas as morfinas,
a todas as mãos ocas das prostitutas,
a todas as mulheres nuas em coxins de afagos,
para nos obrigarem a esquecer...

Mas eu não quero esquecer, ouviram?
Não quero esquecer!

Quero lembrar-me sempre, sempre e sempre
deste minuto de abismo,
para transmiti-lo de alma em alma,
de treva em treva,
de corvo em corvo,
de escarpa em escarpa,
de esqueleto em esqueleto,
de forca em forca,
até ao Ranger do Grande Dia
para a Salvação do Mundo
sem anjos
nem demónios
‑ mas só homens e Terra.
              
José Gomes Ferreirapoema XL da série Heroicas (1936-1937-1938) in Poesia I, 1948
             
             
Pertencente a “Heroicas”, reunião de poemas de 1936 a 1938, destinado ao volume Líricas e Heroicas, que não chegou a ser publicado como tal, o poema “XL” dá bem uma ideia da poesia engajada de José Comes Ferreira. Escrita no fragor da Guerra Civil Espanhola, como denota a epígrafe entre parênteses, a composição transpira aversão ao lirismo comedido, compassivo, de que é feita a poesia recheada de boas intenções. O ódio serve-lhe de estribilho e sustentáculo, um ódio espesso e universal — “às lágrimas mal choradas diante dos poetas (...), ao mar a modelar deuses (...), à primavera (...), às serenatas (...),etc. —, apenas remediado pela esperança na “Salvação do Mundo / sem anjos / nem demônios / — mas só homens e Terra”. Poesia de fone acento cotidiano e humanista, aproxima o autor do Neorrealismo, por coincidência de atitudes e não de programa, como reconhecem os filiados a essa corrente dos anos 40 e seguintes. Poesia irrompida aos jatos, aos gritos, como em praça pública, perante um auditório que pode ser toda a Humanidade, num andamento ora whitmaniano, em versos de sinfônica cadência, ora contido, quase murmurado, como a reprimir um lamento, — não esconde o sentimento romântico que a impulsiona. Ainda é de notar a metaforização, de recorte surrealista, igualmente por espontânea convergência, fruto de uma sensibilidade aberta a tudo, inclusive ao onírico, ainda que o sonho mais acalentado fosse o “Ranger do Grande Dia”. As pulsões romântico-surrealistas é que preservam o poema de resvalar no prosaísmo vizinho do panfleto, frequente na poesia militante desse tempo, e explicam por que, retornando tão tarde para a poesia em livro, José Gomes Ferreira conquistou logo um espaço destacado na modernidade literária portuguesa do pós-guerra de 39.
            
Massaud Moisés, A literatura portuguesa através dos textos, p. 590
            


            
Só um poeta, José Gomes Ferreira, no caso vertente, poderia perceber esta relação umbilical: «Na verdade, a guerra de Espanha […] tomou conta das palavras». Apalavra revela-se, assim, investida do poder de operar o trânsito do caos ao cosmos, de um poder cosmogónicoApalavrar o trauma, o drama, a tragédia, é já iluminá-los, inteligi-los, para compreendê-los, para superá-los.
Uma geração define-se sempre em função de um acontecimento histórico determinado. Neste caso, teria sido em função do acontecimento trágico da Guerra de Espanha que se definiu a geração neorrealista portuguesa e o carácter da sua intervenção artística nas questões que a provocavam1.
«Neste momento estremeço – como nos folhetins – a sentir pesarem-me nos bicos da pena três palavras que hesito em traçar no papel… Três palavras suscitadoras de comoções agras, noites insones agarrado à rádio e a amargura da derrota frente a frente ao caminho do Destino frustrado. Três palavras que ainda hoje me magoam como uma lâmina de arrepio no sangue.
Estas: guerra de Espanha… que o nosso grupinho viveu em morte semanas, meses, anos (sim, anos!), com as unhas enterradas na carne das mãos.
Mas não foi para sofrer em voz alta que as escrevi. Com essa evocação – ó manes de Lorca e de Machado! – pretendi apenas extrair as implicações literárias inerentes. Recordar que críticos vários insistem em considerar a guerra de Espanha como o marco principal da viragem da poesia na Europa, até então sob o domínio francês do surrealismo.
Na verdade a guerra de Espanha entrou em forma de tempestade pelas casas dos poetas dentro, partiu as vidraças das janelas, varreu a inspiração livresca, e a vida-vida tomou conta das palavras. Alguns poetas pegaram até nas espingardas para haver sangue nos versos.
Eu na minha gaveta fiz o mesmo. O que levou Adolfo Casais Monteiro a atribuir à guerra de Espanha a transformação do meu lirismo de pássaros – hipótese que não me repugna atentar se lhe juntarem o hitlerismo como prelúdio.
Mas, com franqueza completa, nem ao nazismo nem à guerra de Espanha fiquei a dever o meu horror à poesia de origem livresca, de que na realidade me libertara desde Viver sempre também Cansa. Livros, poucos. Apenas aqueles raros em que as palavras respirassem com pulmões e bocas de grito em canto» (José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras ou o Gosto de falar de mim, Círculo de Leitores, p. 154.)
             
No conjunto dos 40 poemas intitulado Heróicas (1936-1937-1938), incluso emPoeta Militante I, pp. 113-215, o tema da Guerra de Espanha é a triste musa inspiradora de José Gomes Ferreira, cujo teor mental se depreende das legendas antepostas a esses poemas numerados, de que destacamos, em nota de rodapé, algumas das mais significativas2.
           
José Marques Fernandes, “Recepção da Guerra de Espanha pelos intelectuais portugueses. Contexto e divergência” in Diacrítica ‑ Revista do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, Série Filosofia / Cultura, n.º 21/2, 2007
                
_________________
(1) Mário Dionísio preferiria a designação de Geração socialista, conforme se depreende da seguinte consideração: «…dificilmente encaixáveis numa expressão estética de visão marxista do mundo, que suponho a definição mais correcta do projecto neo-realista» (Mário Dionísio, «Prefácio». José Gomes Ferreira, Poeta Militante I, Círculo de Leitores, p. 15). No mesmo texto, esclarece Mário Dionísio: «O neo-realismo ou não de José Gomes Ferreira – problema que considero aliás de interesse assaz restrito – reduz-se para mim a esta conclusão bem simples, que em nada o diminui e afasta da caminhada comum: na área do seu campo magnético não há Revolução nos termos precisos decorrentes da visão de Marx. Há, sim, o sofrimento inconformado e rebelde da “Revolução Inverosímil imanente”, que o deslumbrou em Brandão e profundamente o marcou» (Mário Dionísio, «Prefácio». José Gomes Ferreira, Poeta Militante I, Círculo de Leitores, p. 17).
(2) II – [«A noite de hoje é tão diferente de todas as outras! Começa a jogar-se o Grande Destino Ibérico»]; III – [«Revolução em Espanha»]; V – [«Guerra Civil de Espanha: Sofro por sentir inúteis as armas das palavras»]; VI – [«Garcia Lorca foi fuzilado»: «Terra …remorso»]; XV – [«Começou o ataque à Cidade Heróica de Madrid. Há sempre uma cidade heróica na estrada dos tempos»]; XVII – [«Fui visitar o meu irmão Raul, preso pelo Governo Civil por não ter dado dinheiro para uma subscrição a favor dos fascistas espanhóis revoltados contra a 2.ª República»]; XX – [«Revolução dos marinheiros nos navios de guerra portugueses ancorados no Tejo. Foram vencidos e enviados pelos fascistas para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Futuro, decora este nome, símbolo de infâmia: Tarrafal»]; XXV – [«Um jovem comunista, recém-saído da cadeia, procurou-me para me dizer: “Vou para Espanha bater-me ao lado dos republicanos” »]; XXX – [«Fomos derrotados. O inimigo – treva (?) – que importa o nome? – não tardará a entrar na Cidade»]; XL – «Madrid rendeu-se. Ranjo os dentes»].
                 
            
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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

PRIMEIRA CANÇÃO DA VIDA (Manuel da Fonseca)


 
              
              
SETE CANÇÕES DA VIDA
PRIMEIRA
          
Vida:
sensualíssima mulher de carnes maravilhosas
cujos passos são horas
cadenciadas
rítmicas
fatais.
A cada movimento do teu corpo
dispersam asas de desejos
que me roçam a pele
e encrespam os nervos na alucinação do “nunca mais”.
Vou seguindo teus passos
lutando e sofrendo
cantando e chorando
e ficam abertos meus braços:
nunca te alcanço!
Meu suplício de Tântalo.
Envelheço...
E tu, Vida, cada vez mais viçosa
na oscilação nervosa
das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
À punhalada dilacero a folhagem
e abro clareiras
na floresta milenária do meu caminho.
Humildemente se rasga e avilta
no roçar dos espinhos
minha carne dorida.
E quando julgo chegada a hora
meu abraço de posse fica escancarado no ar!
Olímpica
firme
gloriosa
tu passas e não te alcanço, Vida.
Caio suado de borco
no lodo...
O vento da noite badala os ramos
sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
Tenho medo, grito.
Creio em Deus e nos fantásticos ecos
do meu grito
que vêm de longe e de perto
do sul e do norte
que me envolvem
e esmagam:
‑ maldita selva, maldita selva,
antes o deserto, a sede e a morte!
                  
Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, 1940.
                  
                      
Vida! Essa é a palavra que pode ser considerada a temática central da produção poética de Manuel da Fonseca. Uma vida que o tempo todo é buscada e desejada com grande ansiedade, mas que escapa por entre os dedos e não permite que seja vivida. De acordo com Mário Dionísio (in “Prefácio” a Obra Poética, Manuel da Fonseca, 1984, 7ª ed. Revista pelo autor, p. 37),
Toda a temática de Manuel da Fonseca se reduz a dois motivos, intimamente solidários, que, em vários tons e andamentos, sem cessar se repetem: uma ansiedade de viver em conflito com uma realidade social que torna essa vida impossível de ser plenamente vivida e uma decisão de intervir nos destinos do mundo, o que, optando por um ato de desespero, acaba por esbarrar com a sua própria ineficácia que, entretanto, se não reconhece como tal e torna, assim, possível o constante recomeço. Do primeiro ao último dos poemas de Fonseca, incluindo tudo o que na sua prosa é ainda poesia, esses dois motivos maiores, desdobrados, ou reduzidos a pequenas sínteses, se entrecruzam e repetem.
              
A ânsia de viver do eu-lírico se revela no primeiro poema – Primeira – da primeira parte intitulada Sete canções da vidado livro Rosa dos Ventos. Este poema é praticamente um hino à vida.
Neste poema, o eu-lírico compara a vida à mulher, uma bela mulher com movimentos sensuais que despertam o seu desejo de vivê-la em plenitude. Para caracterizá-la, o poeta se utiliza de expressiva adjetivação, qualificando-a como “sensualíssima”, de “carnes maravilhosas”, cujos passos são como as “horas”: “cadenciadas”, “rítmicas”, “fatais”. E a cada movimento do “corpo” dessa mulher, da vida “dispersam asas de desejos” que “roçam a pele” do eu-lírico e fazem seus “nervos” se encresparem em uma alucinação de que “nunca mais” conseguirá captar aquele momento, aquele movimento, aquela sensação. O desejo, a obsessão por “possuir” essa mulher, essa vida são ressaltados pelas ações que o eu-lírico empreende com essa finalidade:
Vou seguindo teus passos
lutando sofrendo
cantando 
chorandoe ficam abertos meus braços:
nunca te alcanço!
                
O encadeamento das ações através do uso dos verbos no gerúndio dá a ideia de uma continuidade indefinida das ações empreendidas pelo eu-lírico para prender em seus braços essa mulher, essa vida tão desejada. No entanto, apesar de todos os seus esforços, ele não consegue alcançá-la e essa impossibilidade, essa frustração é enfatizada pelo uso do advérbio “nunca”. Considerando tal contradição, o eu-lírico pensa estar vivendo o suplício de Tântalo, figura da mitologia grega, filho de Zeus, que após cometer muitas maldades foi castigado pelos deuses com o suplício de fome e sede eternas. Roque Schneider (in A fascinante Grécia: seus jogos olímpicos, seus heróis e sua mitologia. São Paulo: Edições Loyola, 2004, p. 76) descreve o suplício de Tântalo desse modo:
               
Um rio roçava seu pescoço, mas quando se inclinava para beber, as águas retrocediam, baixavam.
Esplêndidos galhos, carregados de suculentas frutas, balançavam-se à sua frente. Quando alongava os trêmulos braços para colhê-las, o galho se afastava, escapando do seu alcance.
Desespero maior ainda: um enorme rochedo pendia sobre sua cabeça indefesa, ameaçando desabar a qualquer momento. E o medo da morte passou a atormentá-lo, a tirar-lhe o sono, dia e noite.
Faminto, sedento e mortalmente atormentado, Tântalo gemia inconsolável: - Ingrato e cruel destino... Infeliz o dia em que nasci!
             
Essa alusão ao suplício de Tântalo no poema é bastante coerente. Afinal, assim como o personagem mitológico que sente fome e sede e não consegue se alimentar, pois apesar de a comida e a bebida “parecerem” estar ao seu alcance elas escapam ao toque das suas mãos, o eu-lírico do poema se sente, do mesmo modo, em relação à vida. Ele tenta ardentemente alcançá-la, mas não consegue e a vida assim passa pelo eu-lírico, deixando-o marcado pelo tempo. Por outro lado, a vida continua cada vez mais bela, mais fértil e intacta:
Envelheço...
E tu, Vida, cada vez mais viçosa
na oscilação nervosa
das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
              
Mas o eu-lírico não desiste de tomar posse dessa mulher, dessa vida tão desejada e por isso luta ferozmente para atingir tal objetivo:
À punhalada dilacero a folhagem
e abro clareiras
na floresta milenária do meu caminho.
Humildemente se rasga e avilta
no roçar dos espinhos
minha carne dorida.
              
A ferocidade com que o eu-lírico explora a “floresta” é notada através dos vocábulos utilizados pelo poeta para descrever a exploração: “à punhalada dilacero a folhagem” “e abro clareiras”, chegando até a sua “carne” se rasgar e aviltar ao “roçar os espinhos”. Mas, quando o eu-lírico supõe que enfim conseguirá apreender a vida, o seu “suplício de Tântalo” persiste. A vida, por outro lado, mantêm-se intocável e vigorosa, como é ressaltada pelo uso dos adjetivos “olímpica”, “firme” e “gloriosa” para caracterizá-la:
E quando julgo chegada a hora
meu abraço de posse fica escancarado no ar!
Olímpica
firme
gloriosa
tu passas e não te alcanço, Vida.
              
Diante desse conflito existente entre a ânsia de viver e a impossibilidade de vivê-la em decorrência da realidade social adversa, o eu-lírico se cansa: “Caio suado de borco / no lodo...”, perde-se da vida: “Não avisto a vida!” e é tomado pelo desespero. E assim como o personagem mitológico Tântalo que diante do seu suplício maldiz o dia em que nasceu, o eu lírico do poema também acaba preferindo a morte, já que não consegue viver intensamente.
Tenho medo, grito.
Creio em Deus e nos fantásticos ecos
do meu grito
que vêm de longe e de perto
do sul e do norte
que me envolvem
e esmagam:
‑ maldita selva, maldita selva,
antes o deserto, a sede e a morte!
             
Essa ânsia de viver e a sua impossibilidade fazem com que o poeta sinta necessidade de agir para que essa vida tão intensamente desejada torne-se realidade e não somente uma idealização.
                 
Dissertação de mestrado de Rosilda de Moraes Bergamasco, 
Universidade Estadual de Maringá, 2012, pp. 77-80.
               
                
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/26/primeira.cancao.da.vida.manuel.da.fonseca.aspx]

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O PORTUGAL FUTURO (Ruy Belo)


         RUY BELO
             
              
O PORTUGAL FUTURO

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
                 
Ruy Belo (1933-1978), Homem de Palavra(s), 1970
                 
                 
AUDIÇÃO DO POEMA
Pode escutar o poema «O portugal futuro», de Ruy Belo, nas seguintes versões:
- …
               
               
INTERPRETAÇÃO DO TEXTO
               
Escrito em 1970, este é um poema que expressa a esperança.
1. O que é possível no "portugal futuro"? Repara no valor simbólico dos elementos "pássaro" e "criança".
1.1 E as crianças fazem um desenho. Que forma tem? O que representa?
1.2 E o asfalto negro sobre o qual desenham que representará?
2. O "portugal futuro" terá a mesma dimensão e as mesmas fronteiras que "este". O que será diferente, então?
3. Nesse país futuro, o sujeito poético gostaria de ouvir as badaladas do relógio da igreja, mas um receio assalta-o. Que receia ele?
4. Mostra como a musicalidade deste poema se constrói através de uma rima muito livre e de outros jogos de sons como a aliteração e outras repetições.
             
(In Plural – Português 10º ano / Ensino Secundário, Elsa Pinto, Paula Fonseca, Vera Baptista, Lisboa Editora, 2007, p. 243.)
                
                  
TEXTOS DE APOIO
I
O título do segundo poema de Ruy Belo – “O portugal futuro” - remete, desde logo, para o facto de a imagem de Portugal que vai ser apresentada não corresponder ao país real, mas ao que ele poderá vir a ser. Decorrente desse facto é possível constatar que as características apresentadas não existem no país da época.
Ao longo do poema é notória a referência a elementos constitutivos do imaginário coletivo português que permitiram ao Estado impor uma identidade e silenciar as vozes discordantes, mantendo a população incapacitada do uso da fala. Tal estratégia pode ser encarada como um recurso usado pelo aparelho de Estado de forma a manter o seu poder.
Para acentuar esse carácter de abstração, de possibilidade que urge edificar, o substantivo “portugal” nunca aparece maiusculado, retirando-se-lhe, assim, as suas propriedades específicas. A própria construção do poema é feita a partir da alternância entre o presente do indicativo (muito embora com carácter de probabilidade) e o futuro do indicativo e, com exceção do ponto final a encerrar o poema, não há sinais de pontuação; eis a razão pela qual a única estrofe existente corresponde a um cumular gradual de todos os versos balizados pela repetição do próprio título no início do primeiro verso e no fim do último verso, criando uma circularidade.
Neste país futuro, o “puro pássaro”, metáfora da liberdade, será possível; essa metáfora é, de imediato, associada à simbologia do vocábulo “crianças” (a ausência de limites, o inconformismo e insubmissão). É delas que depende “a forma do [seu] país” já que elas “desenharão a giz” esse formato sobre “o leito negro do asfalto”. Será, nesse espaço a edificar, que o sujeito poético encontrará o seu “portugal” e “lá [será] feliz”. Ele poderá ter características do Portugal seu contemporâneo, ao nível geográfico – “Poderá ser pequeno como este/ter a oeste o mar e a espanha a leste” -, mas “tudo nele será novo”: esse país a haver distinguir-se-á do Portugal presente ao nível do sistema político, das relações interpessoais e, principalmente, por nele poder existir a liberdade. Ao contrário do que sucede no presente, nesse país futuro, o sujeito poético antevê os novos comportamentos desses futuros cidadãos e construtores do país: as crianças. Elas poderão não só desenhar, como dançar “na avenida que houver à beira-mar” e também o “pode o tempo mudar será verão”. A selecção desta estação do ano, representativa da época das colheitas, do estado adulto, do amadurecimento, tem como condicionante um pressuposto positivo1: será no Verão que as “profundas crianças” assumirão todas as suas potencialidades e poderão contribuir para edificar ativamente esse Portugal que corresponda às expectativas do sujeito poético. 
Apesar dessa consciência de que o país presente não corresponde ao país idealizado, o sujeito poético deteta alguns elementos positivos, como é o caso do “ouvir as horas do relógio da matriz”. No entanto, se o relógio/sino delimita os momentos do dia, organiza o quotidiano dos seres humanos e, dessa perspetiva, seria algo positivo; assim o relógio/sino está intimamente associado aos ditames do estado opressor que o usava para controlar as pessoas. Por isso mesmo, apesar de gostar da sua sonoridade, o sujeito poético constata que ele é também um símbolo do “passado” e que não seria viável construir um país novo sobre marcas de um passado tão presente e doloroso. Decorrente desse facto, o que urge fazer é “edificar” esse Portugal rasurando completamente o passado, esquecendo o que nele havia de negativo e positivo. Desta perspetiva, o autor opõe-se às teorias providencialistas portuguesas que consideravam que só se podia construir o futuro de Portugal resgatando o seu passado.
                 
Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais. Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005, pp. 85-87.
                 
_______________________
(1) Esta perspetiva positiva do Verão surge em contraste com a que Jorge de Sena irá utilizar no poemaL’Été au Portugal”; nele o Verão é a antecipação da morte, o símbolo do conformismo.
                 
              
II
Na obra Homem de Palavra(s) de Ruy Belo, o próprio poeta menciona qual a função da poesia desta época que foi denominada de poesia de intervenção: “Em [seu]entender, a poesia de intervenção tem de partir de um grande sentido de justiça ou de revolta que o poeta fez seus, como o amor num poema de amor, e tem de ser discreta se não quer ser demagógica. Era assim quando havia censura (ou o eufemístico ‘exame prévio’) (…)” (Cf. BELO, Ruy - Homem de Palavra(s) (1970) in Todos Os Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, pág. 184). Com a palavra poética procura-se uma forma de intervir no real que, discreta ou simbolicamente, revele as fraquezas do presente para que elas sejam colmatadas pacificamente. Esta forma de tecer as palavras e as imagens poéticas é evidente nos dois poemas de Ruy Belo por nós selecionados: “Portugal Sacro-Profano” e “O Portugal Futuro”. Em ambos surge a não aceitação da representação de Portugal imposta pelo regime e o segundo funciona como uma espécie de projeto de Portugal que se assume como um início de busca de uma outra identidade ou, pelo menos, da parte dela que foi rasurada da imagem oficial. Desta perspetiva, o poeta procura encontrar a entidade Portugal não desvirtuada e não mutilada através da escrita […].
Nestes dois poemas de Ruy Belo torna-se evidente a consciência que o poeta tem da sua pátria e dos valores, das situações que necessitavam ser alteradas bem como das vivências que, hipoteticamente, poderiam ser reutilizadas no futuro. Por comparação com o país real, constata-se que nele nada do que o poeta deseja e antevê existe, há apenas fragmentos de esperança. No primeiro poema, o comboio e o seu circuito contínuo na ânsia de reintegrar as pessoas noutras comunidades; no segundo, as crianças que, como no poema de Mário Cesariny, aguardam o momento de agir, de preencher os espaços em branco. Porém, Ruy Belo apreende que esse tempo de atuação não corresponde ao presente, mas a um futuro longínquo que está, acima de tudo, dependente do poder volitivo dessas crianças.
                 
Paula Fernanda da Silva Morais, op. cit., p. 83 e p. 88.
                 
                 
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/21/o.portugal.futuro.aspx]