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domingo, 6 de setembro de 2015

Dói-me Portugal


OPINIÃO

Dói-me Portugal

Não é este o meu Portugal. Não lhes tenho respeito. Uns fazem por si, outros fazem pelos outros.


O poema de Antonio Machado intitulado Españolito é, como muitos poemas seus, intraduzível.
Eugénio de Andrade dava os poemas de Antonio Machado como exemplo da impossibilidade, no caso da poesia, de encontrar noutra língua, não as palavras certas, o que ainda era possível, mas a “música” do poema, o modo como fluía o som dessas palavras. Por isso, aqui vai no original:
Ya hay un español que quiere
vivir y a vivir empieza,
entre una España que muere
y otra España que bosteza.
Españolito que vienes
al mundo te guarde Dios.
una de las dos Españas
ha de helarte el corazón.

          É um poema sinistro tanto quanto pode ser um poema. Estamos a caminho da ferocidade da guerra civil espanhola: “uma das duas Espanhas / há-de gelar-te o coração”. Não é hipotético, é certo. Morrerás em breve por uma ou por outra dessas “duas Espanhas”. Como Machado, enterrado junto da Espanha mas do lado francês, para onde fugiu quando a guerra estava perdida para a República.


O tema das “duas Espanhas” é muito antigo e não é alheio também ao pensamento português contemporâneo desde o século XIX. A ideia de que há “dois Portugais” também por cá circulou, mas sem a dramaticidade e a fronteira talhada à faca, com que existiu em Espanha. Houve sempre por cá mais mistura, mesmo nos momentos em que “um Portugal” defrontou o “outro”, nas lutas liberais, na República e na longa ditadura que preencheu metade do século XX português. A essa mistura Salazar chamava a “brandura dos nossos costumes”, uma enorme mentira em que os poderosos desejam acreditar e nem ele acreditava. Também ele era capaz de, com o seu enorme cinismo, agradecer aos portugueses terem sido tão “pacíficos” durante a crise.
Hoje, “dois Portugais” existem e vão a eleições. Um está à vista todos os dias, outro tornou-se invisível, mas está cá. Como é que é possível ele ter desaparecido de modo tão conveniente neste ano eleitoral? É conspiração dos media, é censura induzida, é habilidade de um dos “Portugais”, é apatia, resignação do outro “Portugal”, é incapacidade do sistema político representar ambos, ou só um, é o efeito daquilo que os marxistas chamavam “ideologia dominante”`? É, porque já não há dois, mas apenas um só, e este é o Portugal feliz, redimido dos seus vícios passados, empreendedor, cheio de esperança no futuro, deixando a “crise” para trás, virado para o “Portugal para a frente”? É tudo junto, menos a última razão.
Um dos “Portugais” está de facto invisível nestas eleições. Quem devia falar por ele, não fala e quem fala não é ouvido. Criou-se uma barreira de silêncio onde apenas se ouve a propaganda. Vejam-se as miraculosas estatísticas. Começa porque há as estatísticas de primeira e as de segunda, as que valem tudo e as que não valem nada. As “económicas” são de primeira, as “sociais” são de segunda. Das primeiras fala-se, as segundas ocultam-se.
As estatísticas “da recuperação económica”, escolhidas a dedo e trabalhadas a dedo, são comparadas com os anos que mais convém, umas vezes 2000, outras 2008, outras 2010, outras 2011, outras 2012, outras 2013, etc.. Todas a subir, pouco mas a subir, com “tendência” para subir. Os “do contra” ainda dizem que são tão milimétricas essas subidas e tão condicionadas pelo bater no fundo, tão longe do que seria necessário, tão dependentes de factores externos, que, ao mais pequenão abanão, o castelo de cartas ruirá. Como, para não ir mais longe, se vê com a venda do Novo Banco, o “bom”. (Embora suspeite que mesmo a pior das vendas vai ser apresentada como um excelente resultado, comparada com qualquer hipotética operação mais ruinosa, que “poderia ter acontecido”, mas nunca existiu. É uma das técnicas habituais apresentar sempre o mal como o mal menor.)
Quem é que quer saber, destes pequenos incidentes? Até às eleições servem bem, no dia seguinte, se os seus criativos autores ganharem, voltam a ler com toda a atenção os relatórios do FMI para justificar a continuação da austeridade. Ver-se-á como o défice vai subir, vai-se ver como as coisas são piores do que se apresentou neste ano eleitoral, mas já é passado, não conta.
Há mais de um milhão de desempregados, “desencorajados”, desempregados de longa duração que desapareceram das estatísticas, falsos estagiários, e pessoas que só não estão nas listas do desemprego porque emigraram. Porque queriam? Não. Porque não tinham alternativa e ainda faziam parte daqueles que podiam emigrar. Se estão felizes é por mérito da Suíça, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da França e das competências e conhecimentos que ganharam em Portugal, imperfeitos que fossem, antes de 2008. O Portugal que lhe deu essas competências também já está a encolher, a acabar. Estamos a falar de várias centenas de milhares de pessoas. É muito português.
Voltemos aos desempregados que, ó céus!, também não deixaram de existir. São muitas centenas de milhares de pessoas, à volta de um milhão se somarmos, como devemos somar, várias parcelas de pessoas que não tem emprego. Não é sequer emprego sem direitos, é que não tem emprego. Ponto. Por muita imaginação que se possa ter, é suposto que não estejam felizes com a sua vida. Nem eles, nem as suas famílias. É muito português.
Depois, mais um número que se sobrepõe aos outros, uma em cada cinco pessoas é pobre, dois milhões de portugueses. Onde estão eles que não se vêem? Depois de uma overdose pontual de miséria nos anos mais agudos da crise, despareceram as pessoas que vivem mal de Portugal. Não são boa televisão a não ser como “casos humanos” extremos – a idosa sem pleno uso das suas faculdades mentais que vive imersa na sujidade e na miséria mais extrema numa casa sem vidros, nem água, nem luz – e não é disso que estou a falar. Estou a falar da pobreza que é estrutural, da que recuou dez anos para trás, mas que, neste recuo enorme em termos sociais, perdeu qualquer esperança, aquela que ainda podiam ter no início da década de 2000. 
E aqueles a quem cortaram a magra pensão na velhice e a reforma com que pensavam viver os últimos anos, também estão felizes, a aplaudir o PAF? E aqueles que não eram pobres ou tinham deixado de ser pobres depois do 25 de Abril e que agora estão a escorregar para esse “estado” de que já não vão sair até morrerem? Estão felizes e contentes, perdido o emprego, a pequena empresa, o carro, a casa? Sim, as estatísticas de segunda, as sociais, revelam as penhoras, as devoluções, as humilhações, o esconder de uma vida sem esperança, ou seja desesperança. É muito português.
O discurso oficial, o do “outro” Portugal, diz que tudo isto é “miserabilismo”. Diz-nos que apenas o crescimento da “economia”, daquilo que eles chamam “economia”, pode resolver as malditas estatísticas “sociais”. Outra conveniente ilusão, porque, a não haver mecanismos de distribuição, a não haver equilíbrio nas relações laborais, a não haver reforço dos mecanismos sociais do estado – tudo profundamente afectado pela parte do programa da troika que eles cumpriram com mais vigor e rapidez – o “crescimento” de que falam tem apenas um efeito: agravar as desigualdades sociais. Como se vê.
No grosso das notícias, ministros e secretários de estado pavoneiam-se com grupos de empresários em posição de vénia, por feiras, colóquios dos jornais económicos, encontros liofilizados para que não haja o mínimo risco e, quando abrem a boca, é apenas para fazer propaganda eleitoral, a mais enganadora da qual se faz falando do “estado” redentor do país que agora já “pode mudar”. Eles falam do lado do poder, do poder que aparece nas listas dos jornais económicos, os novos “donos disto tudo”, chineses, angolanos, profissionais das “jotas” alcandorados a governantes, advogados de negócios e facilitadores, gestores, empresários de sucesso, a nova elite que deve envergonhar a mais velha gente do dinheiro, que o fez de outra maneira. O “outro” Portugal, o que é tão visível que até cega, com todas as cores, luzes a laser, aplausos de casting, feérico e feliz.
Não é este o meu Portugal. Não lhes tenho respeito. Uns fazem por si, outros fazem pelos outros. Conheço-os bem de mais. Não gostam dos de “baixo”. Acham que eles são feios, porcos e maus. Querem receber sem trabalhar. Querem viver à custa dos outros, deles. Se estão pobres é porque a culpa é sua. Se estão desempregados é porque não sabem trabalhar. Se se lamentam da sua sorte, são piegas. Deviam amochar disciplinadamente para serem bons portugueses. Não. “Há-de gelar-te o coração”.
Direi pois, como o velho Unamuno, “me duele España”, dói-me Portugal.
 http://www.publico.pt/politica/noticia/doime-portugal-1706884?page=-1



PACHECO PEREIRA E OS DOIS PORTUGAIS

Ainda bem que o José Pacheco Pereira regressou. Fazia falta na imprensa ou na televisão, onde a lucidez do seu pensamento e a acutilância da sua crítica é que nos permitem (tome bem nota, Paulo Rangel) respirar melhor. Na apatia crítica que tolhe o país -- poucos dão atenção a este défice de cidadania! --, no silêncio que envolve grandes questões nacionais (ver "Portugal, o Medo de Existir", de José Gil), no charco de águas podres que envolvem o quotidiano da política, a realidade é todos os dias desfocada, as problemáticas incómodas (mais a mais em tempo eleitoral) são atiradas para debaixo do tapete do esquecimento.
Pensar Portugal tem sido a tarefa de Pacheco Pereira, na consolidação de um pensamento autónomo e livre sobre o país, na pesquisa do tempo histórico português, com os seus tiques e os seus traumas, num importante contributo para a decifração da história contemporânea portuguesa- É, porventura, o lastro da investigação histórica, que lhe dá o lastro para uma crítica que rasga horizontes fechados.
Este sábado, no "Público" regressou a sua coluna, que tem sido uma coluna de combate contra a mistificação política. O título, aliás, é sugestivo: "Dói-me Portugal". Essa patologia, estarmos doentes do país e da Europa, é hoje comum e colectiva e as dores sobre o país que temos ampliam-se todos os dias. É por isso que a voz de Pacheco Pereira é importante para ajudar a cauterizar essas dores.
No longo artigo que escreveuele mostra como em Portugal há "dois Portugais" e como há realidades invisíveis, numa opacidade em que não faltam cumplicidades.
"Houve sempre por cá mais mistura (ele falara antes da Espanha e de António Machado) mesmo nos momentos em que “um Portugal” defrontou o “outro”, nas lutas liberais, na República e na longa ditadura que preencheu metade do século XX português", escreve Pacheco Pereira, acrescentando que "a essa mistura Salazar chamava a “brandura dos nossos costumes”, uma enorme mentira em que os poderosos desejam acreditar e nem ele acreditava. Também ele era capaz de, com o seu enorme cinismo, agradecer aos portugueses terem sido tão “pacíficos” durante a crise".
Vale a pena atentar na descrição do historiador:
"Hoje, “dois Portugais” existem e vão a eleições. Um está à vista todos os dias, outro tornou-se invisível, mas está cá. Como é que é possível ele ter desaparecido de modo tão conveniente neste ano eleitoral? É conspiração dos media, é censura induzida, é habilidade de um dos “Portugais”, é apatia, resignação do outro “Portugal”, é incapacidade do sistema político representar ambos, ou só um, é o efeito daquilo que os marxistas chamavam “ideologia dominante”`? É, porque já não há dois, mas apenas um só, e este é o Portugal feliz, redimido dos seus vícios passados, empreendedor, cheio de esperança no futuro, deixando a “crise” para trás, virado para o “Portugal para a frente”?
É tudo junto, menos a última razão. "Um dos “Portugais” está de facto invisível nestas eleições. Quem devia falar por ele, não fala e quem fala não é ouvido. Criou-se uma barreira de silêncio onde apenas se ouve a propaganda. Vejam-se as miraculosas estatísticas. Começa porque há as estatísticas de primeira e as de segunda, as que valem tudo e as que não valem nada. As “económicas” são de primeira, as “sociais” são de segunda. Das primeiras fala-se, as segundas ocultam-se".
Na caracterização desta estranha dicotomia, Pacheco Pereira explica:
"As estatísticas “da recuperação económica”, escolhidas a dedo e trabalhadas a dedo, são comparadas com os anos que mais convém, umas vezes 2000, outras 2008, outras 2010, outras 2011, outras 2012, outras 2013, etc.. Todas a subir, pouco mas a subir, com “tendência” para subir. Os “do contra” ainda dizem que são tão milimétricas essas subidas e tão condicionadas pelo bater no fundo, tão longe do que seria necessário, tão dependentes de factores externos, que, ao mais pequeno abanão, o castelo de cartas ruirá. Como, para não ir mais longe, se vê com a venda do Novo Banco, o “bom”. (Embora suspeite que mesmo a pior das vendas vai ser apresentada como um excelente resultado, comparada com qualquer hipotética operação mais ruinosa, que “poderia ter acontecido”, mas nunca existiu. É uma das técnicas habituais apresentar sempre o mal como o mal menor.)
Quem é que quer saber, destes pequenos incidentes? Até às eleições servem bem, no dia seguinte, se os seus criativos autores ganharem, voltam a ler com toda a atenção os relatórios do FMI para justificar a continuação da austeridade. Ver-se-á como o défice vai subir, vai-se ver como as coisas são piores do que se apresentou neste ano eleitoral, mas já é passado, não conta. Há mais de um milhão de desempregados, “desencorajados”, desempregados de longa duração que desapareceram das estatísticas, falsos estagiários, e pessoas que só não estão nas listas do desemprego porque emigraram. Porque queriam? Não. Porque não tinham alternativa e ainda faziam parte daqueles que podiam emigrar. Se estão felizes é por mérito da Suíça, da Grã-Bretanha, da Alemanha, da França e das competências e conhecimentos que ganharam em Portugal, imperfeitos que fossem, antes de 2008. O Portugal que lhe deu essas competências também já está a encolher, a acabar. Estamos a falar de várias centenas de milhares de pessoas. É muito português".
São interrogações pertinentes, mas ele não deixa de dar expressão a uma perplexidade que mostra bem a desumanidade e como há uma invisibilidade, na informação e na retórica, que traduz a a menoridade cívica e política que caracteriza a sociedade portuguesa. Ora, leiam:
"Voltemos aos desempregados que, ó céus!, também não deixaram de existir. São muitas centenas de milhares de pessoas, à volta de um milhão se somarmos, como devemos somar, várias parcelas de pessoas que não tem emprego. Não é sequer emprego sem direitos, é que não tem emprego. Ponto. Por muita imaginação que se possa ter, é suposto que não estejam felizes com a sua vida. Nem eles, nem as suas famílias. É muito português. Depois, mais um número que se sobrepõe aos outros, uma em cada cinco pessoas é pobre, dois milhões de portugueses. Onde estão eles que não se vêem? Depois de uma overdose pontual de miséria nos anos mais agudos da crise, despareceram as pessoas que vivem mal de Portugal. Não são boa televisão a não ser como “casos humanos” extremos – a idosa sem pleno uso das suas faculdades mentais que vive imersa na sujidade e na miséria mais extrema numa casa sem vidros, nem água, nem luz – e não é disso que estou a falar.
Estou a falar da pobreza que é estrutural, da que recuou dez anos para trás, mas que, neste recuo enorme em termos sociais, perdeu qualquer esperança, aquela que ainda podiam ter no início da década de 2000. E aqueles a quem cortaram a magra pensão na velhice e a reforma com que pensavam viver os últimos anos, também estão felizes, a aplaudir o PAF? E aqueles que não eram pobres ou tinham deixado de ser pobres depois do 25 de Abril e que agora estão a escorregar para esse “estado” de que já não vão sair até morrerem? Estão felizes e contentes, perdido o emprego, a pequena empresa, o carro, a casa? Sim, as estatísticas de segunda, as sociais, revelam as penhoras, as devoluções, as humilhações, o esconder de uma vida sem esperança, ou seja desesperança. É muito português.
O discurso oficial, o do “outro” Portugal, diz que tudo isto é “miserabilismo”. Diz-nos que apenas o crescimento da “economia”, daquilo que eles chamam “economia”, pode resolver as malditas estatísticas “sociais”. Outra conveniente ilusão, porque, a não haver mecanismos de distribuição, a não haver equilíbrio nas relações laborais, a não haver reforço dos mecanismos sociais do estado – tudo profundamente afectado pela parte do programa da troika que eles cumpriram com mais vigor e rapidez – o “crescimento” de que falam tem apenas um efeito: agravar as desigualdades sociais. Como se vê. No grosso das notícias, ministros e secretários de estado pavoneiam-se com grupos de empresários em posição de vénia, por feiras, colóquios dos jornais económicos, encontros liofilizados para que não haja o mínimo risco e, quando abrem a boca, é apenas para fazer propaganda eleitoral, a mais enganadora da qual se faz falando do “estado” redentor do país que agora já “pode mudar”. Eles falam do lado do poder, do poder que aparece nas listas dos jornais económicos, os novos “donos disto tudo”, chineses, angolanos, profissionais das “jotas” alcandorados a governantes, advogados de negócios e facilitadores, gestores, empresários de sucesso, a nova elite que deve envergonhar a mais velha gente do dinheiro, que o fez de outra maneira.
O “outro” Portugal, o que é tão visível que até cega, com todas as cores, luzes a laser, aplausos de casting feérico e feliz. Não é este o meu Portugal. Não lhes tenho respeito. Uns fazem por si, outros fazem pelos outros. Conheço-os bem de mais. Não gostam dos de “baixo”. Acham que eles são feios, porcos e maus. Querem receber sem trabalhar. Querem viver à custa dos outros, deles. Se estão pobres é porque a culpa é sua. Se estão desempregados é porque não sabem trabalhar. Se se lamentam da sua sorte, são piegas. Deviam amochar disciplinadamente para serem bons portugueses. Não. “Há-de gelar-te o coração”. Direi pois, como o velho Unamuno, “me duele España”, dói-me Portugal".
Publicada por Fernando Paulouro Neves à(s) 02:31, 2015-09-06, https://www.facebook.com/rui.mendes.568/posts/1002491283126167


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Los temas principales de la poesía de Antonio Machado son los característicos de su tiempo, el Modernismo, y de la Literatura del Siglo XX:
1. El problema existencial.-
a. Sentido de la vida.
b. Melancolía y tristeza.
c. El paso del tiempo y la muerte.
d. La angustia de vivir.
e. El problema amoroso (su ausencia).
f. La ética, el comportamiento vital.
2. El problema social. El problema de España.
a. Castilla de la muerte. Visión negativa del paisaje castellano y las gentes que lo pueblan. Castilla como símbolo de decadencia.
b. La cuestión política. Pasado, presente y futuro de España.
3. El problema religioso.
a. Búsqueda de Dios para dar sentido a la vida: “Siempre buscando a Dios entre la niebla”.
b. Su concepto religioso choca con el tradicional: La Saeta.
4. El problema literario.
a. La función del poeta.
b. El proceso de creación.

Antonio Machado somete desde sus inicios poéticos su estilo a un proceso de depuración en busca de la esencialidad, hecho que explica que partiendo del Modernismo Canónico esteticista llegue a una poesía sencilla, breve y concisa.
Algunos de los recursos técnicos más corrientes en sus poemas pueden ser los que siguen:
• Los símbolos. Empleará dos tipos: los monosémicos (encierran un solo significado) y los disémicos, que serán los más característicos de sus poemas (aquellos que poseen varias significaciones).
• Alusión a un objeto por algunas de sus características: "¡El muro blanco y el ciprés erguido!" (cementerio, muerte).
• Muchos poemas adoptan disposición dialogada, bien con personas, con objetos, con elementos de la naturaleza o consigo mismo.
• Suele comenzar sus poemas situándolos en un tiempo determinado.
• Es corriente que termine con una exclamación o epifonema.
• La superposición de tiempos (pasado y presente) es corriente en su obra, así como la superposición de lugares (Soria y Baeza, por ejemplo).
• Suele usar mucho el estilo nominal (ausencia de verbos), sobre todo, como es lógico, cuando describe el paisaje.

Ler mais: La Poesía de Antonio Machado Tema a Tema. 4º de ESO. IES Carmen Laffón. José Maria González.-Serna. URL: http://www.auladeletras.net/material/machado_textos.pdf

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O achamento do Brasil




Pero Vaz de Caminha lê para o comandante Pedro Álvares Cabral, o Frei Henrique de Coimbra e o mestre João a carta que será enviada ao rei D. Manuel I.
Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo (1854–1916) História do Brasil (v.1), Rio de Janeiro: Bloch, 1980.





E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha — segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas — os quais eram muita quantidade de ervas compridas. Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz! (...) acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas.







Desenredo (G.R.E.S. Unidos do Brasil)

No dia em que o jovem Cabral chegou por aqui, ô ô
Conforme diversos anúncios na televisão
Havia um coro afinado da tribo tupi
Formado na beira do cais cantando em inglês
Caminha saltou do avião assoprando um apito em free bemol
Atrás vinha o resto empolgado da tripulação
Usando as tamancas no acerto da marcação
Tomando garrafas inteiras de vinho escocês
Partiram num porre infernal por dentro das matas, ô ô
Ao som de pandeiros chocalhos e acordeão
Tamoios, Tupis, Tupiniquins, acarajés ou Carijós (sei lá quemmais…)

Chegaram e foram formando aquele imenso cordão, meu Deus quibão
E então de repente invadiram a Avenida Central, mas que legal
E meu povo, vestido de tanga adentrou ao coral
Um velho cacique dos pampas sacou do piston
E deu como aberto, em decreto mais um carnaval
E assim, a Vinte e Dois daquele mês de Abril
Fundaram a Escola de Samba Unidos do Pau-Brasil







Bem Brasil

E en tal maneira hé graciosa
Que querendo a aproveitar darse a neela tudo
per bem das ágoas que tem
Paro o mjlhor fruito que neela se pode fazer
Me pareçe que será salvar esta jemte
E esta deve ser a principal semente que Vosa Alteza
Em ela deve lamçar

Pero Vaz de Caminha

Há 500 anos sobre a terra
Vivendo com o nome de Brasil
Terra muito larga e muito extensa
Com a forma aproximada de um funil

Aquarela feita de água benta
onde o preto e o branco vem mamar
O amarelo almoça até polenta
E um resto de vermelho a desbotar

Sofá onde todo mundo senta
onde a gente sempre põe mais um
Oh! berço esplendido agüenta
Toda essa galera em jejum

Apesar de Deus ser brasileiro
outros deuses aqui tem lugar
Thor, Exu, Tupã, Alá, Oxossi
leus, Roberto, Buda e Oxalá

Aqui não tem terremoto
Aqui não tem revolução
É um país abençoado
Onde todo mundo põe a mão

Brasil, potência de neutrons
35 watts de explosão
Ilha de paz e prosperidade
Num mundo conturbado
E sem razão

A mulher mais linda do planeta
Já disse o poeta altaneiro
Que o seu rebolado é poesia
Salve o povão brasileiro

Mais do que um piano é um cavaquinho
Mais do que um bailinho é o carnaval
Mais do que um país é um continente
Mais que um continente é um quintal

Aqui não tem terremoto
Aqui não tem revolução
É um país abençoado
Onde todo mundo mete a mão

Brasil, potência de neutrons
35 watts de explosão
Ilha de paz e prosperidade
Num mundo conturbado e sem razão








Brazil com S

Quando Cabral descobriu no Brasil o caminho das índias
Falou ao Pero Vaz para a caminha escrever para o rei
"Que terra linda assim não há
Com ticos-ticos no fubá
Quem te conhece não esquece
Meu Brazil é com S"

O caçador de esmeraldas achou uma mina de ouro
Carumurú deu chabú e casou com a filha do Pajé
Terra de encanto amor e sol
Não fala inglês nem espanhol
Quem te conhece não esquece
Meu Brazil é com S

E pra que gosta de boa comida aqui é prato cheio
Até Dom Pedro abusou do tempero e não se segurou
Oh" natureza generosa
Está com tudo e não está prosa
Quem te conhece não esquece
Meu Brazil é com S

Na minha terra onde tudo na vida se dá um jeitinho
Ainda hoje invasores namoram a tua beleza
Que confusão veja você
No mapa-múndi está com Z
Quem te conhece não esquece
Meu Brazil é com S






Chegança

Sou Pataxó
sou Xavante e Cariri
Ianonami, sou Tupi
Guarani, sou Carajá
Sou Pancaruru
Carijó, Tupinajé
Potiguar, sou Caeté
Ful-ni-o, Tupinambá

Depois que os mares dividiram os continentes
quis ver terras diferentes
Eu pensei: "vou procurar
um mundo novo
lá depois do horizonte
levo a rede balançante
pra no sol me espreguiçar"

Eu atraquei
Num porto muito seguro
Céu azul, paz e ar puro
Botei as pernas pro ar
Logo sonhei
Que estava no paraíso
Onde nem era preciso
Dormir para se sonhar

Mas de repente
Me acordei com a surpresa:
Uma esquadra portuguesa
Veio na praia atracar
De grande-nau
Um branco de barba escura
Vestindo uma armadura
Me apontou pra me pegar

E assustado
Dei um pulo da rede
Pressenti a fome, a sede
Eu pensei: "vão me acabar"
Me levantei de borduna já na mão
Ai, senti no coração
O Brasil vai começar





sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Aquí me pongo a cantar al compás de la vigüela...


GOTAN PROJECT, «LA VIGUELA»


           
                             
vigüela (vihuela) é um instrumento de cordas similar à guitarra crioula.
"Aquí me pongo a cantar al compás de la vigüela..." são os primeiros versos de um poema narrativo argentino, escrito em 1872 por José Hernández, que relata as desventuras do gaucho Martín Fierro, forçado a ir para a fronteira lutar contra os indígenas.

           
GAUCHO    
           

Aquí me pongo á cantar
al compás de la vigüela,
que el hombre que lo desvela
una pena estrordinaria,
como la ave solitária
con el cantar se consuela.
[…]
Que no se trabe mi lengua
ni me falte la palabra;
el cantar mi gloria labra
y poniéndome á cantar,
cantando me han de encontrar
aunque la tierra se abra.

Me siento en el plan de un bajo
a cantar un argumento;
como si soplara el viento
hago tiritar los pastos.
Con oros, copas y bastos
juega alli mi pensamiento.

Yo no soy cantor letrao,
mas si me pongo á cantar
no tengo cuando acabar
y me envejezco cantando
las coplas me van brotando
como agua de manantial.
[…]
Mi gloria es vivir tan libre
como el pájaro del Cielo;
no hago nido en este suelo
ande hay tanto que sufrir,
y naides me ha de seguir
cuando yo remonto el vuelo
            
[…]

José Hernández, Argentina, 1872
            


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

PEREGRINO E HOSPEDE SOBRE A TERRA (Ruy Belo)

 RUY BELO
         
         
PEREGRINO E HÓSPEDE SOBRE A TERRA

Meu único país é sempre onde estou bem

é onde pago o bem com sofrimento
é onde num momento tudo tenho
O meu país agora são os mesmos campos verdes
que no outono vi tristes e desolados
e onde nem me pedem passaporte
pois neles nasci e morro a cada instante
que a paz não é palavra para mim
O malmequer a erva o pessegueiro em flor
asseguram o mínimo de dor indispensável
a quem na felicidade que tivesse
veria uma reforma e um insulto
A vida recomeça e o sol brilha
a tudo isto chamam primavera
mas nada disto cabe numa só palavra
abstrata quando tudo é tão concreto e vário
O meu país são todos os amigos
que conquisto e que perco a cada instante
Os meus amigos são os mais recentes
os dos demais países os que mal conheço e
tenho de abandonar porque me vou embora
pois eu nunca estou bem aonde estou
nem mesmo estou sequer aonde estou
Eu não sou muito grande nasci numa aldeia
mas o país que tinha já de si pequeno
fizeram-no pequeno para mim
os donos das pessoas e das terras
os vendilhões das almas no templo do mundo
Sou donde estou e só sou português
por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez
            
Ruy Belo, Transporte no Tempo (1973)
       
           
QUESTIONÁRIO SOBRE O POEMA «PEREGRINO E HOSPEDE SOBRE A TERRA»
         
1. Vocábulos tão contraditórios entre si como «sofrimento», «dor», «paz», «felicidade»,que significado têm na vida do sujeito poético?
2. As mágoas pessoais não fecham o coração ao mundo real.
2.1. Desse mundo real, há aspetos conotados com o «estar bem». Refira-os.
2.2. Como se revela o carácter transitório desses aspetos propícios ao «estar bem»?
3. O que o poeta sente como sendo o seu «país» é necessariamente algo também transitório. Porquê?
4. Esta conceção de «país» conduz a duas afirmações que se complementam: «só sou português / por ter em portugal olhada a luz pela primeira vez» e «peregrino e hóspede sobre a terra». Justifique esta observação.
             


             
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 A literatura como arma contra a ditadura e a guerra colonial
   
                          

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/16/peregrino.e.hospede.sobre.a.terra.aspx]