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quinta-feira, 20 de março de 2014

CICCIOLINA, A SACERDOTISA DE EROS.

              

receção de Cicciolina em Portugal, Foto de Luís Vasconcelos
           
                  

          NOTÍCIA DE UM CASO TREMENDO
QUE ABALOU O PARLAMENTO     
                                         
Estava o Parlamento em tédio morno
Do Processo Penal a lei moendo
Quando carnal a deputada porno
Entra em S. Bento. Horror! Caso tremendo!

Leda à tribuna dos solenes sobe
A lasciva onorevole Cicciolina
E seus pares saudando ali descobre
O botão rosado da tettina.

Para que dos pais da Pátria o pudor vença,
Do castro bracarense o verbo chispa:
«Cesse a sessão em nome da decência
Antes que a Messalina mais se dispa.»

Mas - ó partidas que prega a estatuária! -
Que fazer no hemiciclo avesso ao nu
Daquela estátua que a nudez plenária
Ali ostenta sem pudor nenhum?

Eis que o demo-cristão então concebe
As vergonhas velar da escultura.
Honesta inspiração do céu recebe
E moção apresenta de censura:

«Poupado seja à nudez viciosa
O olhar parlamentar votado ao bem.
Da estátua tapem-se as partes vergonhosas.
Ponham-lhe cuequinhas e soutiens.»
         
Natália Correia, “Inéditos (1979/91)” ‑ “Cantigas de Risadilha
O sol nas noites e o luar nos dias. Lisboa, Círculo de Leitores, 1993 (1ª ed.)
      
       
           


           MAMINHA ESQUERDA
OU A POLÍTICA DE PEITO ABERTO DE CICCIOLINA 

Hoje vou recordar outro episódio, também passado na nossa Assembleia da República.
Quem não se lembra da Cicciolina e alguns filmes porno que ela protagonizou? Os mais novos talvez não...
Pois então...
Registada com o nome Anna Ilona Staller, adotou o nome artístico de Cicciolina na década de 70 quando participa num programa de rádio que a tornou famosa: “Voulez vous coucher avec moi?” (Queres deitar-te comigo?).
Filiada no primeiro partido ambientalista italiano – Lista do Sol – adere ao Partido Radical em 1985, sendo eleita deputada ao parlamento italiano, sem por isso abandonar a carreira de artista porno.
É nessa dupla qualidade, de artista e de deputada, que Cicciolina visita Portugal em 17 de novembro de 1987, como artista atuando no Coliseu dos Recreios, e como política visitando a Assembleia da República, ambos em Lisboa.
Por ocasião de sua visita ao Parlamento a então deputada italiana, em plena escadaria, apresentou os atributos "político/peitorais" que, certamente, contribuíram para a sua eleição em Itália.
Deixou descair a alça do vestido, mostrou o seio e... imaginem as reações imediatas por parte dos nossos Senhores Deputados mais conservadores, os do partido da democracia cristã.
Os pobres nem se lembraram das estátuas existentes na Sala do Plenário, nem sequer de uma das imagens mais paradigmáticas da República Portuguesa.
Natália Correia, sempre atenta a estes episódios e com aquele humor cáustico que a caracterizava, escreveu o poema “Estava o Parlamento em tédio morno”.

Jorge Costa Reis, “O humor de Natália Correia”, .Blog, 2008-10-12
        
          
CICCIOLINA
           
          
Cicciolina esteve cá por duas ocasiões, que eu me lembre. À segunda, veio como convidada especial do Salão Erótico de Lisboa. Sempre generosa, mostrou as mamas aos românticos que quiseram matar saudades das gloriosas sarapitolas que bateram na década de 70; em entrevista, disse que os filmes pornográficos portugueses eram «bonitos e simples».
Não é todos os dias que vemos um estrangeiro valorizar o que se faz por cá. Os portugueses têm esta mania de achar que a pornografia americana é que é boa, a nossa não presta, é sempre muito chata, mal se conseguem ouvir os gemidos. Como se os nossos broches e minetes não fossem também merecedores de fazer parte do património cultural da Humanidade.
De qualquer modo, prefiro evitar encontros com a Cicciolina atual: aos 61 anos, ex-deputada mas ainda com vontade de intervir politicamente no mundo, recebe uma respeitável reforma de 3000 euros mensais. As mamas ativistas que outrora tentaram mudar o mundo estão hoje em dia irreconhecíveis, convertidas ao silicone burguês: ela mostra-as, mas já não sou capaz de acreditar nelas.
Da primeira vez que cá esteve, Portugal era um país diferente: a 19 de novembro de 1987, muitos achavam que Cavaco Silva era o melhor primeiro-ministro da História e poucos meses depois haveriam de oferecer-lhe uma maioria absoluta. Bem, talvez não seja assim um país tão diferente porque o homem é agora presidente da República. Mas hoje em dia os deputados já não usam fatos comprados na Maconde – sempre é uma evolução.
Cicciolina veio por iniciativa de um semanário entretanto extinto, o Tal & Qual, que lhe seguiu os passos todos como um caniche ganzado e capitalizou, em manchetes, vendas e gargalhadas, o enorme investimento que fez.
Penso que até os mais novos devem ter a noção de que a visita dela à Assembleia da República provocou um escândalo nacional quando Cicciolina se mostrou na bancada e, generosa como sempre, presenteou os austeros deputados com a visão dos seus bonitos e diplomáticos seios.
A esmagadora maioria dos representantes do povo abriu a boca e protestou como um grupo de beatas escandalizadas, mas estou convencido de que muitos, se tivessem tido oportunidade, não desdenhariam ter feito à Cicciolina aquilo que há muito tempo já andavam a fazer ao país. Perguntem a qualquer economista se foram as mamas da Cicciolina as responsáveis pela crise em que vivemos.
As mamocas nunca fizeram mal a ninguém, mas os deputados revoltaram-se e condenaram a afronta, como se a República alguma vez tivesse usado soutien. Valeu-nos a deputada e poetisa Natália Correia, que não só recebeu Cicciolina com a simpatia e cordialidade que a simpática e cordial rapariga merecia, como escreveu um delicioso poema a evocar a ocasião e a gozar o prato.
E como sempre me ensinaram que fica bem acabar um texto com uma citação, deixo-vos o relato desta talentosa e corajosa mulher:

 CICCIOLINA. Foto: Luís Vasconcelos
         
 blogue Bitaites, 2013-09-02
      
            
SACERDOTISAS DO AMOR
Ao entrar, de madrugada, na rua onde vivia (zona de fecunda prostituição), Natália Correia abria a janela do carro e exortava: “Meninas, não se deixem humilhar, lembrem-se que são sacerdotisas do Amor!”
Logo era rodeada de estrídulas afetuosidades das prostitutas, dos prostitutos, dos travestis, dos chulos, dos vadios, dos guardas-noturnos, rendidos ao incitamento da “senhora poeta” a falar-lhes como ninguém lhes falava – os dignificava, os elevava.
Quase ao mesmo tempo, outro poeta de génio e de provocação, Jorge de Sena, perguntava através dos jornais, nessa altura bastante mais ousados: “Se se faz amor por tanta coisa, porque não fazê-lo por dinheiro?”, e reivindicava “o direito de todo o ser humano à liberdade de se relacionar intimamente com quem quiser ou puder”. “Se não fossem os profissionais do sexo, que seria dos velhos, dos disformes, dos tímidos?”
Quando a política (a religião, a justiça) entra na cama das pessoas, dá asneira. É o caso, agora, do Parlamento Europeu ao querer penalizar os clientes das prostitutas.
Entre nós, um depurado do PSD, Duarte Marques, insurgiu-se, no entanto, contra semelhante projeto e, sem papas na língua nem beatice nas ideias, declarou tal ser “um disparate”, até porque, pessoalmente, defendia “a legalização da prostituição”, “porque nunca se vai acabar com ela” – revelando-se mais progressista que muitos dos colegas à esquerda.
Desassombrado, Jorge de Sena rematava sobre estes temas: “Se a vocação dos portugueses é serem prostitutas, como mostra a história” – e ele não viu a nossa horizontalidade ante a troika – “por que razão as prostitutas não podem sê-lo com os seus apegados clientes?”
       
Fernando Dacosta, 2014-03-06
http://www.ionline.pt/iopiniao/sacerdotisas-amor
      
            
PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE:
       
  Comunicado da Informação Documentação Mulheres (IDM) sobre a receção de Cicciolina na Assembleia da República e a ausência de qualquer comunicado pelas organizações de mulheres representadas no Conselho Consultivo da Comissão da Condição Feminina (CCF). Informação, Documentação, Mulheres (IDM). - Lisboa : [s.n.], 01.12.1987

 Análise e interpretação de textos de Natália Correia

► Lx 80 - Lisboa Entre Numa Nova Era, Joana Stichini Vilela, Pedro Fernandes. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2016   





[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/03/20/cicciolina.aspx]

quarta-feira, 19 de março de 2014

AEROPORTO (Natália Correia)


               
                             
          
         

    

    

    

    

    

    

    

    

    

    

    

    

    

  

    

    

    

    

    



    

    

    


AEROPORTO

De franqueforte franquefurta-me a placa giratória
No centro o minotauro do livro e do dinheiro
Bolsa do desespero! o aeroporto cunha
a moeda do trânsito, da urgência joalheiro

Os diapositivos da espera me dissecam
nesta de mármore mesa da minha anatomia
e gelam as pestanas que velam o cadáver
da pressa escarnecida pela meteorologia

Os pés involuntários por tapetes rolantes
vão sendo massajados para as finais do juízo
Para a leda flor de pinho dos nervos lusitanos
franqueforte é farmácia que não está de serviço

Ε de erres arrastados o ofício das ground-hostesses
que escrevem sim e não com a ponta do nariz
Emudecem as águas do batismo de Goethe
nos químicos arredores deste alemão a giz

De franqueforte franquefarta-me o ninguém coletivo
este frio da morgue que abandona o cenário
às unhas dos relâmpagos e às pombas pluviosas
que pausas desdenhosas dejetam no horário

Aeroporto humano apenas na retrete
Na mansa paranoia da pista de absinto
pousa ariadna fio 727
gargalhando a saída do lerdo labirinto
Natália Correia, O anjo do ocidente à entrada do ferro1973
          
            
 “Minotaur”, Nemo Gould
                                                   “Minotaur”, Nemo Gould
           
           
Natália Correia aplica o tema do labirinto e do Minotauro à complexidade e emaranhado do aeroporto internacional de Frankfurt no poema "Aeroporto", nascido da junção de dois que ao tema eram dedicados na primeira edição de O anjo do ocidente à entrada do ferro (pp. 49 e 50) (A edição seguida é a da poesia completa, com o título O sol nas noites e o luar nos dias editada em 2 volumes pelo Círculo de Leitores. Lisboa, 1993, vol. 2, pp. 30-31). O aeroporto é um labirinto, em cujo centro se encontra «o minotauro do livro e do dinheiro» (v. 2). O sujeito poético tem antipatia por esse movimentado aeroporto que obriga a longas esperas e a apressadas mudanças de avião para avião: ou, como diz a autora de forma metafórica, «cunha/ a moeda do trânsito, da urgência joalheiro» (vv. 3-4). Dois neologismos, formados a partir do nome da cidade, traduzem de uma maneira impressiva e irónica a ideia de cansaço e saturação: «Defranqueforte franquefurta-me a placa giratória» (v. 1), ou franquefarta-me (verso 17). O cansaço da espera é sublinhado na segunda estrofe por aliterações em d e m (vv. 5 e 6) (Vide ainda outras aliterações nos vv. 12, 19, 20, 22, 24) e por duas metáforas, uma tirada do ato médico de dissecar um corpo e a outra inspirada no velório fúnebre de um morto (vv. 5-8):
Os diapositivos da espera me dissecam
nesta de mármore mesa da minha anatomia
e gelam as pestanas que velam o cadáver
da pressa escarnecida pela meteorologia.
        
A imagética relacionada com morte e morgue volta a estar presente na quinta estrofe (v. 18).
O tamanho do aeroporto obriga a deslocações de um lado para o outro e de porta para porta, durante as quais só se ouvem os «erres arrastados» das hospedeiras (v. 13) e «os pés involuntários por tapetes rolantes/ vão sendo massajados para as finais do juízo» (vv. 9-10) — uma bela metáfora inspirada nas competições desportivas. Mas aqui essas competições são «as finais do juízo», por darem cabo dele. Mas também não é de excluir que haja na expressão uma alusão ao Juízo Final. Daí que lhe desagrade e lhe destempere os nervos (vv.l 1-12):
Para a leda flor de pinho dos nervos lusitanos
franqueforte é farmácia que não está de serviço.
    
Por isso o sujeito poético sente-se saturado por aquele movimentado aeroporto sem calor humano (vv. 17-18):
De franqueforte franquefarta-me o ninguém coletivo
este frio da morgue
    
e que, no corre-corre acotovelante de lado para lado que elimina e devora a individualidade, é «humano apenas na retrete» (v. 21). Por isso, a saída do avião para a pista e o levantar voo aparece como fio de Ariadne que possibilita a alegria da fuga («gargalhando a saída») do labirinto (vv. 22-24).
*
Seis poetas portugueses da atualidade — Miguel Torga, Natália Correia, David Mourão Ferreira, Fernando Guimarães, José Augusto Seabra e Sophia de Mello Breyner Andresen — em que o tema do Labirinto e do Minotauro adquire certo relevo. Em todos eles predomina o carácter disfórico: o labirinto é o local ou situação complexa e sem saída, quer seja interior, quer exterior à própria pessoa. Pode ser a poesia em que o poeta se perde e de onde só consegue sair pelo fio das palavras; pode ser uma casa ou um aeroporto.
O Minotauro é o monstro que cada homem arrasta consigo e enfrenta, que o domina: seja ele o tempo que tudo devora; o poder económico; um simples homem; as paixões e desejos com que cada um se debate; o que há de sombrio, negativo e irracional no homem. Como refere David Mourão Ferreira, o monstro a que damos a «sombra do nosso ódio» e no qual buscamos «os nossos próprios remorsos».
         
HVMANITAS — Vol. XLVIII, 1996, pp. 312-313, 332-333.
        
           
PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE:
        
 Labirinto e Minotauro - Mito de Ontem e de HojeJosé Ribeiro Ferreira. Faculdade de Letras – Universidade de Coimbra, Fluir Perene, 2008.

 Análise e interpretação de textos de Natália Correia
          
   


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/03/19/aeroporto.aspx]