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terça-feira, 9 de julho de 2013

A ILHA DE PRÓSPERO


                
A Ilha de Moçambique é vista como o espaço onde se dá «o primeiro encontro historicamente significativo entre Próspero e Caliban no espaço colonial moçambicano.» (MONTEIRO: 2003, p. 67)
                
Publicado em 1972, supostamente em comemoração dos quatrocentos anos da primeira edição de Os Lusíadas, diríamos que A Ilha de Próspero é uma réplica antiépica a Camões, particularmente, e Pessoa, mais perifericamente, onde o triunfalismo heroico de Os Lusíadas se vê substituído por um heroísmo temperado de humilde perseverança na afirmação da diferença, e onde pauta a resistência discreta mas implacável de «heróis e heroínas humildes» a qualquer pretensão de linearidade, unicidade, e hegemonia narrativas. (MONTEIRO: 2003, p. 136)
           
           
           
ILHA DOURADA

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento.
Rui Knopfli, País dos Outros, 1959
         
              

LINHAS DE LEITURA DO POEMA «ILHA DOURADA»

Adaptação de O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli.
           
  • O poema «Ilha dourada» foi incluído originalmente em País dos Outros (1959) e posteriormente na segunda edição de A Ilha de Próspero (1989).
  • «A fortaleza mergulha no mar / os cansados flancos/ e sonha com impossíveis naves moiras.»  «imagens dum passado de glorificação épica, conquista e dominação colonial, por oposição a um presente marcado pelo declínio.
  • No poema há a animização da paisagem urbana e de um Tu poético (Ilha de Moçambique). 
  • «Em pleno dia claro/ vejo-te adormecer na distância/ Ilha de Moçambique.»  a Ilha de Moçambique é a sinédoque do objeto amoroso.
  • A «fortaleza» representa o colonizador (Próspero).
  • O sujeito poético personifica Próspero, ou seu descendente.
  • «vejo-te adormecer na distância»  o sujeito poético mantém-se na exterioridade, na inevitável separação do objeto de posse colonial.
  • Há no poema um lamento mútuo, compartilhado se quisermos entre sujeito poético («faço-te estes versos/de sal e esquecimento») e o sujeito colonizado nele representado por «as gentes».
  • Será que se transforma o amador na cousa amada? Isto é: haverá uma identificação entre o seu sujeito poético e Caliban?
Na interpretação de Fátima Monteiro «o lamento, do sujeito poético em particular, deverá ser lido principalmente como entendimento pelo mesmo sujeito da sua condição trágica dum Caliban exilado na pátria. Uma condição que lhe permite o amargo prazer de, diferentemente de Próspero, sentir-se a si próprio, como as «ruas e velhas casas» a que alude o poema, «umprisioneiro» da história. Então, o sujeito poético de «Ilha dourada» é, finalmente, aquele que recebe de Próspero, ou do colonizador, um legado de expropriação que o converte, por ironia da mesma história, num sujeito, também ele, expropriado de naturalidade, melhor dizendo, de nacionalidade. (O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, p. 63)
           
             
           
          
MUIPÍTI

Ilha, velha ilha, metal remanchado,
minha paixão adolescente,
que doloridas lembranças do tempo
em que, do alto do minarete,
Alá  o grande sacana! – sorria
aos tímidos versos bem comportados
que eu te fazia.

Eis-te, cartaz, convertida em p uta histórica,
minha pachacha pseudo-oriental
a rescender a canela e açafrão,
maquilhada de espesso m'siro
e a mimar, prò turismo labrego,
trejeitos torpes de cortesã decrépita.

Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,
têm-te de cócoras na sopa melancólica
de uma arena limosa e marinha,
gaivota tonta a adejar inutilmente
ao lume de água contra a amarra
que te cinge para sempre
ao bojo ventrudo do continente.

De teu, cultivam-te a vénia e a submissão
solícitas, trazidas nos pangaios
lá do distante Katiavar,
expondo-te apenas no que tens de vil,
razão talvez para que ao longe, de troça,
pisquem mortiças as luzes do Mossuril
ou sangre no meu peito esta mágoa incurável.

Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas,
caminhos sempre abertos para o mar,
brancos e amarelos filigranados
de tempo e sal, uma lentura
brâmane (ou muçulmana?) durando no ar,
no sangue, ou no modo oblíquo como o sol
tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho
com a luz da eternidade.

Primeiro a ternura da mão que modulou
esta parede emprestando-lhe a curva hesitante
de uma carícia tosca mas porfiada,
logo o cheiro do sândalo, o madeiramento
corroído da porta súbito entreaberta,
o refulgir da prata na sombra mais densa:
assim descubro subtil e cúmplice,
que a dura linha do teu perfil autêntico
te vai, aos poucos, fissurando a máscara.
               
Rui Knopfli, A Ilha de Próspero, 1972
          
            
VOCABULÁRIO:
Muipíti, Muhípitinome local da Ilha de Moçambique.
Remanchado: demoradoque fez borda com o maço no fundo de utensílios de metal.
Pachacha: partes pudendas da mulher.
M'siro: creme pastoso, de raiz de árvore, para o rosto das mulheres.
Cofió: barrete, fez (usado pelas tropas indígenas).
Katiavar: península indiana onde se situa a fortaleza de Diu.
Mossuril: vila moçambicana. Distrito da província de Nampula. Tem limite, a norte com o distrito de Nacala-a-Velha e com o município de Nacala Porto, a oeste com o distrito de Monapo, a sul e sudoeste com o distrito de Mogincual e a leste com o Oceano Índico e com o município da Ilha de Moçambique.
Bramanismo ou Brahmanismo: antiga filosofia religiosa indiana que formou a espinha dorsal da cultura daquela civilização por milénios. Estende-se de meados do segundo milénio a.C. até o início da era cristã. Persiste de forma modificada, sendo atualmente chamada de Hinduísmo.
          
            
LINHAS DE LEITURA DO POEMA «MUIPÍTI»
         
[…] O poema não patenteia a autoconsciência do contexto híbrido poetizado, mas expõe de forma veladamente desconstrutiva uma hibridização cultural em processo. A Ilha - Muipíti de seu nome africano - evocada pelo poeta é um espaço onde as fronteiras entre o Ocidente e o Oriente se diluem, onde Norte (Europa) e Sul (África) se fundem, onde a fronteira entre hinduísmo, cristianismo, islamismo ou animismo se confunde: «Mas retomo as tuas ruas vagarosas, / caminhos sempre abertos para o mar, / brancos e amarelos filigranados / de tempo e sal, uma lentura / brâmane (ou muçulmana?) durando no ar.» O sujeito poético estabelece no poema uma relação dia lógica entre si e o espaço de evocação, reconstituindo-se ao mesmo tempo uma outra relação, de cumplicidade, com esse espaço. Trata-se essa duma «relação amorosa» que, pelo caráter juvenil que lhe é atribuído, constitui depreensivelmente também uma relação amorosa marcante e definitiva para o sujeito poético.
[…] A simbologia da representação pela máscara surge evocativamente através de imagens sensoriais visuais («a dura linha do teu perfil autêntico»), tácteis («a ternura da mão que modulou / esta parede emprestando-lhe a curva hesitante / de uma carícia […] porfiada»), ou olfáticas («o cheiro de sândalo, o madeiramento / corroído»), correspondendo a cada uma destas imagens no sistema simbólico uma face distinta do seu perfil euro-afro-asiático. E, por detrás das máscaras que a pouco e pouco se fissuram pela desconstrução poética, a identidade múltipla da metonímica Ilha vai emergindo.
[…] Logo, enquanto parece enveredar pela apologia da hibridização, o sujeito poético de «Muipíti» envereda ao mesmo tempo por uma apologia da condição de «pureza» perdida por cada um dos elementos constitutivos da mesma entidade híbrida, particularmente a nativa africana. É desta apologia dum passado pré-colonial que emerge a crítica à dominação presente, refletindo o poema o verso e o reverso da experiência colonial. | Fátima Monteiro, O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, pp. 114-118.
               
            
 Ilha de Moçambique
            

PRÓSPERO E CALIBAN
         
«No que foi talvez sua última peça, A Tempestade, escrita em 1610 ou 1611, aproximadamente trinta anos após o ensaio de Montaigne sobre os canibais, Shakespeare apresentou o personagem Caliban. Seu nome é um acróstico de canibal. Meio homem, meio animal, o único nativo da ilha, Caliban vive em um buraco na terra. Próspero assim o descreve: Um demónio, um demónio de nascença, sobre cuja natureza jamais pôde atuar a educação…» (Adam Kuper, A reinvenção da sociedade primitiva. Transformações de um mitoRecife, Ed. Universitária da UFPE, 2008.)
            
*
              
«Calibán es el nombre de un personaje de La tempestad, de William Shakespeare. En dicha obra, Calibán es un salvaje primitivo, esclavizado por el protagonista, Próspero, y representa los aspectos más materiales e instintivos del ser humano, frente al otro sirviente de Próspero, Ariel, que representa lo elevado y lo espiritual.
Este personaje ha sido reutilizado por la literatura posterior, reinterpretándolo como un símbolo del "hombre natural" de Rousseau, del materialismo frente al idealismo, de las clases sociales oprimidas por el capitalismo o de los pueblos colonizados.» («Calibán» Fontehttp://es.wikipedia.org/w/index.php?oldid=65277202Contribuições: Gallowolf, Garber, Kauderwelsch, Laura Fiorucci, Mutari, Netito777, Petronas, Raiz, Santiperez,VanKleinen, 30 edições anónimas. Consultado em 2013-07-07)
           
*
           
É certo que Caliban é descrito como um «escravo selvagem e disforme». Mas é mesmo assim, ou sobretudo porque assim, uma figura que fascina. Fascina porque viola a ordem estabelecida por Próspero, paradigma do civilizador. Mas também Próspero exige a nossa atenção, e um ponto de vista alternativo: serve-se da magia para controlar a ilha; só no fim abdica dos seus livros, da sua arte, e deixa seguir o curso natural das coisas. «Próspero representa a hierarquia europeia e o primado da linguagem. Caliban aprendeu esta linguagem mas só para amaldiçoar o que ela significa. Caliban apela aos instintos de rebelião porque desafia uma cultura dominante. Como força de oposição, o outro sobre o qual a cultura dominante projecta os seus medos da desordem, Caliban transforma-se num poderoso símbolo de resistência e transgressão». Cito aqui a obra de Alden T. Vaughan e Virginia W. Vaughan, Shakespeare's Caliban, A cultural history.(Cambridge University Press, 1991, pp. IX-X). (Apud «Shakespeare: Caliban ou as fulgurações da linguagem», Y. K. Centeno, HVMANITAS ‑vol. XLVII, 1995.)
       
*
       
Semelhantemente ao protagonista de A Tempestade (a que Rui Knopfli atribui o «título de propriedade» da Ilha de Moçambique), a obra de Rui Knopfli não deixa de refletir a opção do autor em permanecer numa linha de fronteira que lhe permitisse flexibilidade discursiva, a linha de uma media res ou «mediocridade» genérico-discursiva. Enquanto ao nível temático a obra de Knopfli se centra num mesmo tipo de relações de poder ‑ a relação entre colonizador e colonizado ‑ que vamos encontrar entre o Próspero e o Caliban de A Tempestade, sugere-se ainda consistentemente ao longo da mesma obra que cabe «responsabilidade» na protagonização do seu desenlace trágico à voz poética que nela se identifica com a de Próspero.
Até chegarmos a A Ilha de Prósperomais precisamente, Knopfli antecipa, pela voz do seu sujeito poético através da visão premonitória nele veiculada, que a «retirada» do colonizador no desenlace da história colonial lhe fora «fatalmente» determinada tanto pela opção pessoal de migração extraterritorial como pelo «sonho» de expansão imperial do Renascimento. Também como acontece em A Tempestade, a existência dum meio-termo discursivo-genérico adequa-se ao carácter intrinsecamente híbrido, e por isso também ambíguo e ambivalente do sujeito poético knopfliano, em particular aquele que representará a voz de Próspero na sua obra. Do Próspero de Shakespeare tem sido dito ser uma personagem ambígua, «complexa, errática e contraditória».
Como tem sido dito de Knopfli, assim também se tem dito de Próspero serem as suas «alianças» particularmente intrigantes, tendo em diferentes períodos a visão crítica, tanto de Próspero como de Caliban, variado de forma polarizada, ao longo dum espectro interpretativo que traz ressonâncias familiares no que respeita às leituras críticas de Knopfli. Mas, se por um lado pode ser feita uma aproximação da obra de Knopfli a partir da temática, bem como da ambiguidade e ambivalência do protagonista de Tempestade, é também apropriada a aproximação da obra do autor a partir da tragédia shakespeariana em geral, e, em particular, a partir das peças que lidam com as consequências trágicas da usurpação de poder.
Desnecessário será afirmar, por demasiado evidente, que a obra de Knopfli se presta a leituras e abordagens múltiplas e que a sua poesia se apresenta como um dos casos poéticos mais desafiadores no contexto das literaturas de língua portuguesa.(Fátima Monteiro, O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, pp. 169-170.)
               
            
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terça-feira, 2 de julho de 2013

O CAMPO (Rui Knopfli)


micaia e capim em Moçambique
             

O CAMPO

Saio para o campo. O campo
aqui não é o campo, mas a savana
eriçada de micaias e capim
feio e desigual. Habitantes
do seu mundo, os negros ignoram-me,
empenhados em suas tarefas quotidianas.
Olho para as coisas abandonadas,
latas escuras de ferrugem, lonas
pardas de pneus, ferros
retorcidos sem jeito. Entre isso
o capim espreita, descolorido, espigado
e hirsuto. Nada me sugere a face
aveludada de uma paisagem pastoril,
rosto tranquilo de criança sonhando.
Mas eles estão no seu mundo,
e eu passeio no campo.
           
Rui Knopfli, Reino Submarino, 1962
             
                  
TEXTOS DE APOIO | LEITURA ORIENTADA
                   
I
«Habitantes / do seu mundo, os negros ignoram-me» no «capim / feio e desigual.» «Mas eles estão no seu mundo, /e eu passeio no campo.»
Implicitamente há a oposição entre eles negros vs eu branco e, consequentemente, entre estratos sociais moçambicanos. Este sujeito poético é o branco que se passeia no ambiente dos negros, cujas «tarefas quotidianas» e mesmo «coisas abandonadas, / latas escuras de ferrugem, lonas /pardas de pneus, ferros / retorcidos sem jeito» parecem não fazer parte do seu modus vivendi.
Esta dicotomia carateriza o estado de coisas binário que se vivia na África colonial. Ademais, a corrente que ganhava força na inteligentsia da época era a negretudinista e Knopfli, por força das circunstâncias, por mais que esteja solidário com os injustiçados, só entende falar com substância o seu próprio eu: «Eu não posso assumir dores que não sinto. Eu posso reconhecer uma injustiça social larguíssima ou uma injustiça mais que social, que é a injustiça da situação colonial, que não direi que era criminosa, mas que era anómala ‑ que é uma coisa de que eu me apercebi muito cedo, na adolescência, como é que é possível a existência das colónias, como é que há povos que têm dependências e que governam outros povos ‑ mas eu não posso vir falar do ponto de vista dos injustiçados. Só do meu ponto de vista.» Rui Knopfli. Longe, em sítio nenhum», entrevista e fotografias de Francisco José Viegas para a revista LER. Livros & Leitores nº 34. Primavera 1996, p. 55.)
Rui Knopfli, ao longo da sua obra,  afirma-se enquanto indivíduo culturalmente miscigenado. O seu ajuste identitário faz lembrar o depoimento de uma personagem deMayombe, obra em que se nota a dificuldade que há na construção de uma identidade nacional num país de grande pluralidade étnica, sociopolítica e cultural:
«Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura do café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim e não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta.» (Pepetela,Mayombe, 1971.)
              
Dizia Rui Knopfli em 1972 (entrevista à revista Tempo, aquando da reedição deMangas Verdes com Sal):
«Nós vivemos aqui (em Moçambique) uma realidade extremada entre dois pólos e, no espaço compreendido entre eles cabe um sem número de gradações. Aí, algures em silêncio, habita uma voz que é a da tolerância e do bom senso, que procura olhar em redor sem preconceitos e despida de juízos apriorísticos, que quer reclamar-se da inocência e da objetividade. É a ela que me tenho esforçado por dar corpo, mesmo que o preço e o risco valham; a solidão e o isolamento em que incorre quem se descompromete da coesão das diversas seitas.»
       
José Carreiro, 2013-07-02. 
TEXTOS DE APOIO
II
A distinção entre os dois espaços, uma distinção que começa ao nível da sua nomeação ‑ logo ao nível da concetualização semântico-linguística ‑ «O campo/aqui não é o campo, mas a savana» ­, revela uma diferença porventura irreconciliável entre dois mundos ao nível sociológico e cultural, se não ontológico: «Habitantes/do seu mundo, os negros ignoram-me».
[…] Aqui, especificamente, a relação entre um colonizado que sintomaticamente «ignora» a presença do colonizador, e o «colonizador ‑ ou assim percebido pelo «negro/outro» no poema ‑ que «passeia» intrusivamente no espaço do colonizado. Osdiferentes significantes «campo» e «savana», correspondem a nomeações conflituantes, e descobrem a disputa pela ocupação do «mundo dos negros» por dois agentes culturais e históricos cujos percursos são opostos e não comunicantes entre si.
A ausência de comunicação entre o sujeito poético e o «negro habitante do seu mundo» sugere neste poema, além do mais, estarmos em presença não só duma oposição linguística e sociológica, mas sugere ainda estarmos em presença duma relação de subalternidade e dominação ‑ a dominação pelo mundo com o qual o sujeito poético é identificado no poema, o do colonizador, e subalternidade do mundo daquele que o «ignora», o do colonizado. Sendo o negro «aqui» «habitante do seu mundo», deverá entender-se o ato de «ignorar» pelo negro de quem «passeia» no seu mundo, como o propósito de ser criada uma identificação do sujeito poético ao «intruso» nesse espaço. Implícito é ainda que a identidade racial não negra do sujeito poético é o signo que a priori lhe desmascara o caráter invasor.
[…] No entanto, ao contrastar duas tradições culturais e linguísticas distintas, bem como as distintas formas de as mesmas fazerem entrar uma mesma realidade no seu diverso universo linguístico e cultural, Knopfli resgata a diferença e o direito a ela do sujeito colonial. (in O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli, Fátima Monteiro, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. Coleção: “Escritores dos países de língua portuguesa”, nº 32, pp. 60-61)
            
III
Knopfli marca ainda uma diferença de mundos, o dos negros que o ignoram e o seu. O mundo do poeta é intermediário. Não pode ser europeu pois toda a sua vivênciase deu em meio àquela terra. Portanto, o campo não pode jamais ser o campo europeu. Porém, ele também não pode aspirar a savana dos negros que o ignoram, pois não saberia como dizê-la. Fazendo isso, o poeta nos diz que a savana está para ele como o campo está para os poetas europeus.
Com tudo isso o poeta corrobora quando diz:
Pessoalmente devo confessar que nunca terei escrito um verso, ainda quando roubo a Camões, ou colho em Shakespeare, em que Moçambique não esteja presente. Se digo Tamisa, ou escrevo Aron, penso Incomati ou Limpopo, rios que emolduram e glorificam a minha infância, a minha formação, inicial e definitiva, desde uma Moamba longínqua onde meu pai sedimentaria uma amizade, sempre reafirmada e nunca traída, com o excepcional patriarca Raul Honwana, ambos, a seu diferente ou oposto modo, funcionários da administração colonial. A partir de qualquer fonte determinante e original, da Moamba, por exemplo – e porque não? –, o criador é sempre o resultado da sua inteligência, sensibilidade e cultura, irremediavelmente agravadas pelo seu circunstancialismo, e tanto pode produzir um Luís Bernardo como... um Rui Knopfli, até porque nem no lugar e na época os circunstancialismos coincidiam. Por mim não pude escapar ao meu, como se verifica pelo juízo da crítica portuguesa que, mesmo quando me estima e acarinha, não sabe onde inserir-me ou arquivar, e a moçambicana, hesitando perplexa entre a pura rejeição e a parcial, quase envergonhada ou marginal aceitação.
Por tal motivo me espanta que se ressuscite, ainda hoje, a querela gratuita da nacionalidade literária que, de facto, não existe. Na verdade aquela é uma evidência e não um decreto, não surge de imposições externas, mas das coordenadas especiais que nos conjuraram ao discurso criador no espaço que nos foi consignado. ("Carta para Moçambique / O denominador comum", Rui Knopfli. In: Revista Colóquio/Letras. Cartas, n.º 110/111, Jul. 1989, p. 20)
                  
Neste trecho de sua comunicação, Knopfli busca outra comparação. Agora, isso se dá com o escritor Luis Bernardo Honwana. O contexto no qual estava o poeta inserido não o impedia de viver as coisas de África. Assim como não impediam Luis Bernardo. A diferença está nos aspetos que levaram Knopfli a levar mais em conta sua subjetividade, isto é, seu contato com as culturas e literaturas que tinham como centro o sujeito mais que a comunidade, como é de praxe nas culturas ocidentais. Assim, o circunstancialismo ao qual Knopfli se refere é justamente esse contato com culturas diferentes durante a sua formação que o levaram para caminhos diferentes, e fica ainda a dúvida do próprio poeta se seriam “opostos”, ainda que partilhassem um território e uma época. No mesmo período de tempo e compartilhando o mesmo espaço geográfico, Knopfli e Honwana vivenciaram experiências diferentes, sejam elas culturais ou não, que deixaram “cicatrizes” que os fizeram imprimir “tripas” aos seus escritos. Passadas, por tanto, pelo filtro da experiência, suas obras não poderiam ser senão diferentes.
Mesmo em um contexto em que a subjetividade toma conta desses espaços de enunciação em poesia, Knopfli também tem dificuldade para se enquadrar. Parar provar esse argumento, o poeta utiliza a crítica literária portuguesa, que também não encontra, senão às margens, um local onde inserir a literatura produzida por ele. Nos espaços de onde julgava-se vir o discurso de Knopfli, ele também não poderia ser completamente aceite. Esses problemas eram tanto de ordem nacionalista, isto é, Knopfli é moçambicano, portanto não podia ser aceito totalmente por Portugal, como orbitavam o aspeto ideológico, sabendo que Knopfli desde seu primeiro livro afirmava-se africano. A solução encontrada pelo poeta para resolver esse sobre nacionalismo foi o de assumir como facto de que nasceu em Moçambique e sua literatura não poderia, portanto, pertencer a outro lugar, a despeito de sua qualidade ou conteúdo. Assim também o faz quando cita a literatura de colonos produzida em território moçambicano. Cita exemplos de colonos que denunciavam os abusos de colonizadores e também de colonos que escreviam buscando animalizar os “nativos”. A ambos ele confere o mesmo estatuto. Ambos pertencem à História de Moçambique e é preciso lê-los para saber de onde vêm os moçambicanos e, conhecendo o seu passado, decidir para onde vão. Criando portanto uma tradição com a produção literária e histórica que se deu ali.
Diante dessas afirmações de Knopfli, subjaz um sentimento de pertença àquele país. Mas um sentimento que se despe de correntes ideológicas, como desvelou a rosa durante a sua obra. Assim, aquele espaço toma conta de seus versos não como pátria, não como nação, mas como espaço. Ainda, ao falar em “denominador comum”, Knopfli reafirma a sua pertença a uma tradição maior que a moçambicana, mas também não isento dela. Defendendo a língua como Pátria, ele escapa às querelas que só o conduziriam a um discurso que lhe seria externo, tendo sido o poeta também forjado pelos elementos que já citamos.
Tendo em vista estes aspetos, podemos entender melhor a visão do próprio poeta quanto ao seu espaço, quanto a sua “classificação”. É possível vislumbrar a ideia que Knopfli fazia de seu lugar de enunciação. Assim, negando em seus versos o nacionalismo, ele não nega sua nacionalidade. Entrega-se a algo que, em sua visão, excede, extrapola esse conceito. Dizer-se africano é uma forma de resistir a essa ideologia que tomava conta de Moçambique, mas, ao mesmo tempo, mostrar a sua ligação com aquela terra. (A poética da sinceridade de Rui Knopflitese de mestrado de Gabriel Madeira Fernandes, São Paulo, USP - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2012, pp. 45-48)
                   

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