Mostrar mensagens com a etiqueta Séc.12-15. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Séc.12-15. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 5 de julho de 2013

SENHOR, EU VIVO COITADA VIDA (Dom Dinis)


  Rei Dom Dinis

             





5





10





15





20

Senhor, eu vivo coitada
vida des quando vos nom vi;
mais pois vós queredes assi,
por Deus, senhor bem talhada,
        querede-vos de mim doer
        ou ar leixade-m’ir morrer.

Vós sodes tam poderosa
de mim que meu mal e meu bem
em vós é todo; [ e ] por em,
por Deus, mia senhor fremosa,
        querede-vos de mim doer
        ou ar leixade-m’ir morrer.

Eu vivo por vós tal vida
que nunca estes olhos meus
dormem, mia senhor; e por Deus,
que vos fez de bem comprida,
        querede-vos de mim doer
        ou ar leixade-m’ir morrer.

Ca, senhor, todo m’é prazer
quant’i vós quiserdes fazer.

          
D. Dinis – Cancioneiro, edição de Nuno Júdice, Lisboa, Teorema, 1998
          
           
Glossário e notas
ar (versos 6, 12 e 18) – então.Ca (verso 19) – porque.de bem comprida (verso 16) – com muitas virtudes.des (verso 2) – desde.doer (versos 5, 11 e 17) – ter dó; condoer.mais (verso 3) – mas.por em (verso 9) – por isso.sodes tam poderosa / de mim (versos 7-8) – tendes tanto poder sobre mim.
              
                
Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.
1. Identifique, neste poema, três características do género das cantigas de amor.
2. Transcreva as expressões que se referem aos atributos da dama, indicando as qualidades que o trovador realça em cada uma delas.
3. Explicite duas das razões que motivam a súplica do «eu», contida no refrão.
4. Analise o dístico final (versos 19-20), referindo-se a dois dos sentidos nele presentes.
          
           
Cenários de resposta
1. Algumas das características são, por exemplo:    − a voz masculina do sujeito poético;    − o amor tratado segundo o ideal de amor cortês;    − a acentuação dos aspetos contraditórios do sentimento amoroso;    − a invocação da «senhor», numa atitude de súplica e de submissão;    − o elogio reiterado dos poderes e da beleza da dama, de acordo com o código da lírica provençal.
                
2. A «senhor» é descrita como tendo os seguintes atributos e qualidades:    − «bem talhada» (v. 4), isto é, esbelta, revelando um corpo bonito;    − «tam poderosa / de mim» (vv. 7-8), ou seja, idolatrada e, portanto, exercendo poder sobre o «eu»;    − «fremosa» (v. 10), com bela figura, graciosa;    − «de bem comprida» (v. 16), ou seja, dotada de muitos dons.
                
3. A súplica, contida no refrão, dirigida à «senhor» pelo sujeito poético assenta nas razões seguintes:    − a infelicidade («coitada / vida» – vv. 1-2) que sente, desde que, por decisão da dama, deixou de a ver;    − a dificuldade de viver sem a amada, dado o amor absoluto que sente por ela («meu mal e meu bem / em vós é todo» – vv. 8-9);    − a vivência de um intenso sofrimento amoroso que provoca um estado de vigília constante («Eu vivo por vós tal vida / que nunca estes olhos meus / dormem» – vv. 13-15).
                
4. No dístico final (vv. 19-20), o sujeito revela a causa da sua infelicidade e da reiterada súplica à dama, nomeadamente:    − a total submissão à vontade da dama («quant’i vós quiserdes fazer» – v. 20);    − a devoção amorosa, presente no comprazimento sentido perante a decisão da «senhor», qualquer que ela seja («Ca, senhor, todo m’é prazer / quant’i vós quiserdes fazer» – vv. 19-20);    − a afirmação de que a expressão do amor está totalmente dependente da sua dama;    − a esperança de que a súplica seja ouvida.
        
Exame Nacional do Ensino Secundário, Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho, Prova Escrita de Literatura Portuguesa, 10.º e 11.º Anos de Escolaridade, Prova 734/1.ª Fase, Lisboa, Gabinete de Avaliação Educacional, 2013
           
           
PODE TAMBÉM GOSTAR DE LER:

    

        


quarta-feira, 25 de julho de 2012

LEVOU-S'A LOUÇANA, LEVOU-S'A VELIDA (PERO MEOGO)



      


      


[Levou-s’a louçana], levou-s’a velida:


vai lavar cabelos, na fontana fria.


Leda dos amores, dos amores leda.


     


Levou-se: levantou-se


Louçana/velida: bela, formosa



    


    


[levou-s’a velida], Levou-s’a louçana:


vai lavar cabelos, na fria fontana.


Leda dos amores, dos amores leda.


    


    


Fontana: fonte


    


    


Vai lavar cabelos, na fontana fria:


passou seu amigo, que lhi bem queria.


Leda dos amores, dos amores leda.


    










Vai lavar cabelos, na fria fontana:


passa seu amigo, que a muit’amava.


Leda dos amores, dos amores leda.


    










Passa seu amigo, que lhi bem queria:


o cervo do monte a augua volvia.


Leda dos amores, dos amores leda.


    










Passa seu amigo, que a muit’amava:


o cervo do monte volvia a augua.


Leda dos amores, dos amores leda








    


Pero Meogo, CBN 1188/ CV 793

      


ANÁLISE DE UM POEMA MEDIEVAL

Esta cantiga de amigo, paralelística perfeita, constituída por três pares de dísticos hendecassilábicos graves, monórrimos (a última palavra é grave) e refrão monóstico, é, ao mesmo tempo, uma alba, alva ou alvorada («Levou-se», isto é, «levantou-se») que canta o momento do levantar, ao nascer do sol, e um ritual protalâmico, ou de noivado.
          As três sequências narrativas (o levantar, o caminhar para a fonte, onde a donzela lavará os cabelos, e o encontro amoroso com o amigo) da cantiga são portadoras de uma carga afetiva sedutora e fascinante que o refrão veicula e inculca insistentemente, numa feliz aliança entre modo narrativo e lírico: «leda dos amores, dos amores leda».
          Fascina-nos, de facto, como num ecrã mágico, a beleza da jovem: «louçana», «velida», erguendo o seu corpo, levantando-se. Fascina-nos o gesto lento e ritual da lavagem dos cabelos, elemento erótico fundamental do corpo feminino, ritual de purificação, exigido não apenas por necessidades higiénicas e cosméticas, mas também por costumes ancestrais. Fascina-nos, em contraste com este calor do corpo, o frio da água, a «fria fontana», extremos térmicos que conotam o pulsar de uma paixão. Fascina-nos a caracterização interior, ou psicológica, da donzela, na alegria pura do seu primeiro amor: «leda dos amores». Fascina-nos, mesmo, a sua virgindade, simbolizada pela água que vai ser revolvida, suja, pelos cervos do monte, símbolo masculino, responsável pelo brusco quebrar dessa virgindade.
Por um lado, como que se perde o encanto mágico de um mito. Por outro, mais não acontece do que um simples rito de iniciação que inaugura a passagem a uma nova condição:
«Passa seu amigo, que lhi ben queria»;
«Passa seu amigo que a muito amava».
O quadro pintado, num cenário natural, diríamos hoje ecológico, é uma representação intemporal da união sexual entre homem e mulher, na delicadeza poética de quem canta a transcendência idealista dos gestos e dos sentimentos mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundos, do ser humano.
                
(Análise de um poema medieval por António Moniz e Olegário Paz,
Ler para ser – percursos em português B, Lisboa, Editorial Presença, 1994, p. 105)
       



QUESTIONÁRIO
1. Compare a cantiga com outras já estudadas, no que diz respeito ao sujeito de enunciação. 
2. Saliente a estrutura narrativa do poema, atentando nos tempos verbais utilizados e na sequência das acções.
3. Explique a simbologia de «fontana», «água», «lavar cabelos» e «cervo».
4. Indique de que modo o penúltimo verso pode ser considerado o desfecho da pequena narrativa que o poema integra.
     



RESOLUÇÃO DE QUESTIONÁRIO
1. Nesta cantiga o sujeito de enunciação é um narrador de 3ª pessoa; nas outras cantigas é uma donzela ou a mãe.
2. O poema tem estrutura narrativa, por causa da abundância de verbos de acção, isto é, ligados a gestos e movimentos que provocam uma visão dinâmica e actuante da realidade.
O presente do indicativo é um tempo cujo modo é o da realidade, do que acontece (presente histórico).
A perifrástica IR + INFINITIVO tem o valor aspectual de realização futura da acção, que pode se imediata ou não (e pode ter também o valor aspectual de realização gradual da acção).
Há também uma sequência de acções própria da narrativa: 1.ª) a donzela levantou-se, 2.ª) vai lavar cabelos, 3.ª) passa seu amigo, 4.ª) o cervo do monte volvia a água.
3. Simbologia:
FONTANA, fonte, local de encontro, símbolo de pureza (nitidez do amor); símbolo de maternidade; nas culturas tradicionais simboliza a origem da vida, do génio, do poder, da graça e da felicidade. Para os gauleses, as fontes eram as divindades que tinham como propriedades curar as feridas e reanimar os guerreiros mortos (cf. Dicionário de Símbolos).
ÁGUA, pureza, inocência; harmonia amorosa entre os dois amados.
LAVAR CABELOS, prefigura o banho nupcial e simboliza a expectativa íntima da moça. Lavar cabelo (ou camisas) em água é uma manifestação da sensualidade feminina, assim como desatar os cabelos tem uma conotação afrodisíaca.
CERVO, veado, símbolo do ardor amoroso, da potência viril e da fecundidade é uma referência ao amigo.
4. O cervo ao volver a água turva-a. Simbolicamente é o amigo que ao passar e ao demorar-se (a conversar?) deixa perturbada até ao fundo a límpida sensualidade inexperiente da amiga.
    
         
          
Poderá também gostar de:




[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/07/25/PeroMeogo.aspx]