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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO (D. Dinis)


              
             

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Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
              Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
              Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
              Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi 'á jurado!
              Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss'amigo,
e eu bem vos digo que é san'e vivo:
              Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss'amado,
e eu bem vos digo que é viv'e sano:
              Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san'e vivo
E seera vosc'ant'o prazo saído:
              Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv'e sano
e seerá vosc'ant'o prazo passado:
              Ai Deus, e u é?


           
D. Dinis (CV 171, CBN 533)
           
              
Glossário:
v. 1 ‑ pino: pinheiro.
v. 3 – u é: onde está?
v. 8 ‑ do que pôs comigo: sobre aquilo que combinou comigo.
v. 14 ‑ sano: saudável, são.
v. 20 ‑ seera vosc’ant’o prazo saído: estará convosco antes de terminar o prazo.
           
           




           
           
VERSÕES MUSICAIS
                        

Originais
Desconhecidas

       
Contrafactum
Versão de José Augusto Alegria, Pedro Caldeira Cabral
Versão de José Augusto Alegria
       
Composição/Recriação moderna
Versão de Maria de Lourdes Martins
Versão de Victor Macedo Pinto
Versão de Miguel Carneiro
Versão de Cláudio Carneyro
Versões de Frederico de Freitas
Versão de Pedro Barroso
Versão de Amancio Prada
Versões de Tomás Borba
Versão de Marta Dias
Versão de José Mário Branco
Versão de José Carlos Godinho
Versão de Barahúnda 
         


          
          


QUESTIONÁRIO INTERPRETATIVO SOBRE O POEMA
              
Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens.
1. Delimite as partes que compõem o texto, justificando a sua resposta.
2. A questão da fidelidade do «amigo» percorre a cantiga.
Explicite o modo como é tratada por cada uma das vozes presentes no texto.
3. Analise o papel desempenhado pelas «flores do verde pino».
4. Indique três características temáticas do poema que contribuem para a sua inserção no género das cantigas de amigo.
              
              
Cenários de resposta:
1. A estrutura bipartida da cantiga relaciona-se com o carácter dialógico da mesma, uma vez que, nas quatro primeiras estrofes (vv. 1-12), a donzela interroga a Natureza sobre o paradeiro do «amigo», e, nas quatro restantes estrofes (vv.13-24), «as flores do verde pino» respondem à sua interpelação.
2. O «amigo» é referido pela donzela como tendo mentido, faltando a um juramento (v. 11), ou a um compromisso (v. 8). A essa infidelidade, que é imaginada pela própria ânsia e saudade da donzela, é contraposta, pela voz atribuída às «flores do verde pino», uma atitude de fidelidade, pois, segundo essa voz afirma, ele voltará até mesmo antes do prazo combinado
3. A donzela sente temor pela sorte do «amigo», de quem não tem notícias, e cria um interlocutor fictício para desabafar. A esse confidente imaginado – símbolo do seu próprio amor – confessa a sua saudade e inquietação, e dele ouve a seguir o que tanto deseja ouvir: que o amigo está bem e que voltará em breve. Essa personificação benfazeja das «flores do verde pino» estabelece a comunhão da donzela com a Natureza.
4. Na resposta, podem ser indicadas, entre outras, [as] seguintes características:
– representação de um sujeito poético feminino, como falante e como ouvinte;
– lugar central dado à referência ao namorado («amigo», «amado»);
– expressão, por parte da donzela, do desejo de um encontro amoroso;
– interpelação da Natureza como confidente.
           
Exame Nacional do Ensino Secundário, Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de março, Prova Escrita de Literatura Portuguesa, 10.º e 11.º Anos de Escolaridade, Prova 734/1.ª Fase, Lisboa, Gabinete de Avaliação Educacional, 2009.
             
         
ANÁLISE DE UM POEMA MEDIEVAL
               
Elabore um comentário da composição, orientando-se pelos seguintes tópicos:
              
-          Apresentação (identificação; género; presença nos cancioneiros; autor)
-          Estrutura externa/ versificação;
-          Tema;
-          Assunto;
-          Estrutura interna;
-          Análise interpretativa;
-          Simbologia;
-          Dimensão histórico-cultural (coordenadas espacial e/ou temporal);
-          Conclusão.
         
          
Cenário de resposta:
        
«Ai flores, ai flores do verde pino» é uma cantiga de amigo da autoria de D. Dinis, presente nos cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional com os números 171 e 568, respetivamente. 
Do ponto de vista formal, esta cantiga paralelística perfeita, dialogada, é constituída por oito coplas , cada copla tem um dístico de decassílabos graves (1ª parte) e hendecassílabos graves (2ª parte) de rima monórrima e um refrão monóstico pentassílabo agudo. O esquema rimático é: aaB. 
Nesta composição é abordado o tema da saudade; quanto ao assunto, cheia de saudade do seu amigo que se demora a menina interpela as flores, que a tranquilizam. 
Na primeira parte (coblas I a IV) a donzela traduz o seu estado de espírito e a saudade pelo amigo. Aqui, ela entra em diálogo caracterizando-se indiretamente como ansiosa («Se sabedes novas do meu amigo/amado», «Ai Deus, e u é?») e indicando que o namorado está ausente; zangada («Aquel que mentiu do que pôs comigo/mh’á jurado») e, ele, diretamente caracterizado, mentiroso. 
Na segunda parte (coblas V a VIII) a Natureza, personificada e humanizada, tranquiliza a donzela. As flores respondem-lhe com a revelação de que o amigo está de saúde («E eu bem vos digo que é viv’e sano/san’e vivo») e comparecerá de acordo com o combinado («E será vosc’ant’o prazo saído/passado»).

No entanto, acaba a cantiga e ela continua preocupada como confere a própria estrutura paralelística cuja técnica do leixa-prém e a manutenção do refrão adensam o clima tenso transmitido na cantiga. 
Se quisermos fazer uma leitura do vocabulário utilizado e da simbologia para que nos pode remeter, é possível descobrir os intervenientes da relação amorosa. Assim: «as flores do verde pino» constituem uma invenção poética cujo referente será, sim, a flor do pinheiro, mas também e sobretudo a «flor del bels pis» (da poesia provençal, occitânica), isto é, o símbolo do amor invencível. Portanto, às flores se associa o campo lexical de beleza, delicadeza, sensibilidade, feminilidade e aroma e a este campo lexical se liga a imagem que existe na poesia trovadoresca da donzela. O pinheiro, pela força, apoio, segurança, robustez, masculinidade, braços (ramos) simbolizará o amigo. A relação entre os dois jovens, cheios de esperança, é transposta para a ideia de verde, que significa imaturidade, juventude e esperança. 
As coordenadas espácio-temporais que extraímos deste poema remetem-nos para os primórdios da nacionalidade, época do estabelecimento das fronteiras territoriais, quer pelo uso dos vocábulos «san’e vivo», quer pela autoria do texto. O ambiente é rural.

A concluir, D. Dinis apanhou nesta composição de inspiração popular uma característica tipicamente portuguesa, a saudade, podendo mesmo considerar-se um tema eminentemente nacional, pois reflete condições em que se formou o nosso país: a reconquista cristã.
         
José Carreiro, Ponta Delgada, 2002-01-07.
         
            
DOM DINIS O REI-TROVADOR
            
Dom Dinis, nascido em 1261 e tendo data de falecimento em 1365, é o rei que assume o poder logo após o Estado de Portugal ter sido consolidado por seu pai o rei Afonso III, teve um reinado um tanto diferente do Demais.
Sua preocupação já não era tanto a conquista de terras, mesmo que nesse período o sul peninsular ainda estivesse sob domínio dos mouros e por vezes ou outra, fosse necessário se ocupar de algumas querelas políticas, eclesiásticas e conflitos pessoais com seu irmão que pretendia o trono, seu interesse estava direcionado à cultura de sua nação.
Dom Dinis chegou a receber o cognome de Lavrador, por ter se destacado ao aplicar em plantações dos “imensos pinhais de Leiria” como fala João Ameal em Breve Resumo da História de Portugal, página 23. Tinha também os olhos voltados para o Comércio e a Marinha, contudo seus cuidados foram além desses fatos. O rei trovador foi responsável pela substituição do latim bárbaro pela língua vulgar portuguesa na redação de atos e processos judiciais e criou o “estudo geral” que derivou a primeira universidade, a Universidade de Lisboa transferida em 1308 para Coimbra.
Não foi sem razão que D. Dinis foi considerado o “príncipe dos trovadores” (Do Cancioneiro de D. Dinis, p.11), bisneto de Sancho I, o mais antigo trovador português e neto de Afonso X, o Sábio de Castela, autor das Cantigas de Santa Maria, possuía nas veias a arte poética.
Sua produção artística soma o número de setenta e seis cantigas de amor, cinquenta e duas cantigas de amigo e dez de escárnio e maldizer, essas também se diferenciam das demais cantigas de escárnio dos outros trovadores, a linguagem do rei é mais branda e ameniza as críticas com pequenas insinuações ao invés do despudor nas palavras usadas.
           
A lírica trovadoresca galego-potuguesa e suas características nas cantigas de D. DinisMonografia apresentada por Karin Feldkircher à disciplina Orientação Monográfica II em Letras, como requisito parcial à conclusão do Curso de Letras, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Marcelo Sandmann. Curitiba, 2006.
            
          


PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER:
      
 Cantigas medievais galego-portuguesas – projeto Littera: a presente base de dados disponibiliza, aos investigadores e ao público em geral, a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respetivas imagens dos manuscritos e ainda a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais).

Programa televisivo "Neste lugar onde... a poesia dos trovadores" da série Um mais um igual a um. Natália Correia, Carlos Alberto Vida, RTP, 1981.
       


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/20/ai.flores.do.verde.pino.aspx]

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

PAR DEUS, COITADA VIVO (CANTIGA DE AMIGO)

                
                  
A ausência do amigo (possivelmente por estar de serviço ao rei) desespera a menina que ameaça soltar os cabelos e largar as ofertas dele como forma de mostrar que está desimpedida.
              
            

                    
                
          
Par Deus, coitada vivo,
pois non ven meu amigo;
pois non vem, que farei?
meus cabelos, con sirgo
eu non vos liarei.

Pois non ven de Castela,
non é viv’, ai mesela,
ou mi-o detem el-rei:
mias toucas da Estela,
eu non vos tragerei.

Pero m’eu leda semelho,
non me sei dar conselho;
amigas, que farei?
en vós, ai meu espelho,
eu non me veerei.

Estas doas mui belas
el mi-as deu, ai donzelas,
non vo-las negarei:
mias cintas das fivelas,
eu non vos cingerei.
            
Pêro Gonçalvez Portocarreiro
          
Fontes manuscritas:
BN 918 / V 505
          
Audição da cantiga:
             
Glossário e notas (©2011-2012 Littera – FCSH) :
v.4: sirgo - fio de seda
v.5: liar - ligar, atar
v.7: mesela - miserável, desgraçada
v.9: Estela - Povoação de Navarra, a oeste de Pamplona, e em pleno coração do reino navarro (aqui indicará um tecido aí fabricado)
v.11: Ainda que eu pareça alegre
v.12: conselho - remédio, solução
v.16: doa - dádiva, presente
v.18: negar – esconder
v.19: As cintas (faixas ou cintos) eram presentes habituais entre namorados (bem como as toucas, antes referidas)
           
Descrição dos processos formais de versificação:
Cantiga de Amigo
Mestria
4 estrofes singulares quanto à rima e uníssonas quanto à rima b: 6’a   6’a   6b   6’a   6b
Todas as estrofes são capdenals (v. 5)
Palavra-rima: «que farei»
              
Leitura:
            
Na cantiga “Par Deus, coitada vivo”, a menina espera por seu amigo (namorado), queixando-se às confidentes por ele não voltar. Num dos versos percebe-se o motivo da sua ausência: “ou mi-o detem el-rei”.
A menina, apesar de ter recebido presentes (dõas) que indicam compromisso ‑ o sirgo (fita) e a touca ‑, perante a demora do seu amigo, fica indecisa, colocando a possibilidade de romper com a relação caso ele não apareça, nomeadamente quando diz que não se enfeitará com os presentes que dele recebeu, dando, assim, a entender que está desimpedida.
Para continuar a leitura desta cantiga, consulte a orientação didática que consta em professoraelianatedesco.blogspot.pt.
                
Questionário:

Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.
1. Classifica a composição poética quanto ao género literário, justificando.
2. Identifica dois traços do perfil psicológico do sujeito poético, exemplificando a tua resposta com elementos textuais.
3. Comenta o valor expressivo da anáfora ao longo da composição poética.
4. Mostra de que forma a confidência amorosa está presente na composição poética.
5. Explicita o valor simbólico que as “doas” adquirem nesta composição poética.
                Encontros • Português, 10.º ano • Caderno do Professor


Ilustração de Marta Madureira para a cantiga de amigo
«Estava eu na ermida de São-Simeão», in P8, Texto Editora, 2012


CENA DE AMOR NA IDADE MÍDIA
                
Sinto uma paixão extrema por esta cantiga de amigo de Pero Gonçalves. Penso um dia dedicar-lhe todo um ensaio. Ou, talvez, tudo acabe como agora em considerações motivadas por interesses afins.
Há, no poema de Echevarría, um tempo futuro em que congelados, feito imagens, havemos de ficar olhando a barra do horizonte. Um tempo sem expectativas? Espectadores sem futuro? Não, se a figura da morte presente no poema não for reduzida à ideia de fim. Alguém, como quem mexe um botão ou abre um livro, pode vir a nos ligar, mantendo o "espaço aberto".
No fundo, é isto que me encanta há muito nesta cantiga medieval.
Idade Média, tempo em que amar seguia os rigorosos padrões da "arte de trobar", segundo sobretudo os preceitos da cantiga de amor, em que ele, o amador, mesmo que coitado, era o autor da sua própria dor de amor, o senhor da sua "coita". Amar à maneira de amigo era ele fazer uma cantiga para ela, a amiga, que ora era a filha "velida" a driblar a censura da mãe ou o olhar cúmplice da ama; ora, uma pobre coitada a carregar sobre o próprio corpo as leis de um Estado em que Deus e El-Rei eram os senhores absolutos da lei e da grei.
E é esta última, a coitada, a que fala às amigas na cantiga de Pero Gonçalves.
O que, afinal, me encanta nessa cantiga?
Simplesmente isto: um corpo de mulher que se desnuda dos excessos das convenções do amor.
Mas esse corpo é ele mesmo um objeto extraordinário, já que dá a ver para muito além da sua nudez. "Fremosa e não segura". Feliz ou desgraçada? Pouco importa. A resposta mais justa tem de levar os dois estados em conta. É toda ela um corpo acumulativo, pois quanto mais se despoja dos objetos de adorno - as "dõas", ou seja, as prendas do enxoval que asseguram a promessa de casamento do soldado-cavaleiro a serviço da pátria - mais se cobre dum vestido de talho mais justo e rigoroso, como se fosse um estranho adereço, o avesso da liberdade nua e crua. E, nesse sentido, apresenta-se a hipótese do trabalho interpretativo desta comunicação: "Dõas mui belas", significam, em suma, que, desde o princípio da literatura, a qualidade do amor é um valor quantitativo.
Sim, é isto, sendo mais que isto. Pois, quanto mais se afasta do recato que guarda a "prez" impulsionadora do cantar de amor, mais a amiga se fará objeto de escárnio e maldizer, o que significa, no âmbito do poético, um sujeito digno de deslouvor, ou mais tragicamente ainda, no nível da censura imposta à ordem social, poder vir a ser a imagem da bela jovem que pelo amor-paixão vai-se transformando até chegar, louca de amor, morta por amor, à figura horrenda de si, a metamorfose limite: a feiticeira.
Optando por não se reconhecer no espelho - numa atualíssima dualidade em que o leitor não sabe se se trata do espelho ele mesmo ou das outras donzelas, reflexo especular da virgindade - a jovem põe a nu, interpelando-o, "o aparato verbal e a sociedade a que serve" (L. C. Mímesis Lima, Desafio ao Pensamento. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000, p. 334).
Preferimos lê-la assim, "espaço aberto": um corpo generosamente fraturado que se projeta para o futuro; uma referência não abolida, mas fortemente abalada nas suas formas sociais e culturais. Ao fim e ao cabo, mesmo que o que mude seja o "género" de composição em que ela venha a ser cantada ou, à força, contra a sua vontade de potência, lhe seja reservada a fogueira da Santa Inquisição, essa mulher está a caminho de uma outra idade. Uma alteridade.
Toda a beleza será louvada assim como toda a nudez será castigada? (Tempo houvesse, seria interessante uma comparação entre a cantiga de amigo de Pero Gonçalves, a "Balada apócrifa" de Luiza Neto Jorge e a "Inês de manto" de Fiama Hasse Pais Brandão: "Olhai os lírios do campo/meninas de saia rodada/íris de teias de aranha/desvendam o mar nas searas [...] // Os soldados em manobras/têm noite por espingarda/Colhei os lírios do corpo/meninas de saia travada" (Jorge, 1993:46); "Teceram-lhe o manto/para ser de morta/assim como o pranto/se tece na roca [...] // O vestido dado/como a choravam/era de brocado/não era escarlata//Também de pranto/a vestiram toda/era como um manto/mais fino que roupa", F. H. P. Brandão, Obra Breve. Lisboa, Teorema, [1991], p. 31-2).
Não sei. Sei que vem se aproximando uma outra imagem no espelho. Descabelada, destoucada, desagrilhoada, logo, sem rosto. Nua em pêlo, portanto? Melhor, em cabelo. Essa pode ser a expressão movente da imagem dessa donzela como representação-efeito de um sujeito fraturado em trânsito na literatura portuguesa. Seja o exemplo das mães desesperadas pela partida dos filhos no início da conquista das Índias, n'Os Lusíadas ("Qual em cabelo: 'Ó doce e amado esposo'", IV, 91,1), seja o exemplo dos desempregados do fim das Índias, os comerciantes aborrecidos, em "O sentimento dum ocidental" de Cesário Verde ("Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!", J. F. Silveira, Cesário Verde: Todos os Poemas. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995, p. 117). Cesário, um poeta que está na zona de turbulência desse roteiro e que tem tudo a ver com a questão proposta por este Seminário. Cenas da vida moderna e mundialização da cultura: "Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo".
O mundo? "Que mundo! Coitadinha!" (Silveira, 1995:95). Talvez o poeta de "Contrariedades" respondesse assim à questão, ele, que meditando sobre a Idade Média e a sociedade mercantilista, revelou-se um exacerbado analista de corpos mortificados pelo trabalho no espaço aberto pela modernidade, em que assistia ao declínio da aura e do sentido do belo. ("Eu que medito um livro que exacerbe,/Quisera que o real e a análise mo dessem" são versos hoje célebres de "O sentimento dum ocidental".)
                
Ler mais: Jorge Fernandes da Silveira, Revista SEMEAR 6, Rio De Janeiro, 21 de novembro de 2000
                
                
INTERTEXTUALIDADE
                
Um exemplo de uma tendência de retoma intertextual […] é constituído pelo poema «Desalento» de João de Deus, que ostenta o sintomático subtítulo de «Retoque da lírica DV do Cancioneiro da Vaticana». O autor de Campo de Flores reescreve o poema de Pêro Gonçalvez de Portocarreiro, atualizando a sua linguagem e aproximando-o transitivamente dos leitores. Esta reelaboração poética reativa semanticamente a composição multissecular, abrindo-lhe novos horizontes interpretativos:
                
DESALENTO

Trago uma cisma comigo:
Não torna o meu terno amigo!
Triste de mim, que farei!
Cabelo, já não te ligo…
Nunca mais te ligarei!

Lá se finou em Castela…
Vede que desgraça aquela!
Ou lá mo detém el-rei!
Toucas da serra da Estrela,
Já nunca mais vos porei!

Se um ar alegre assemelho,
Ai amigas, sem conselho
Nem juízo, que farei!
Já me não assomo ao espelho…
Nem jamais me assomarei!

Ricas prendas! Todas elas
Me deu ele: sim, donzelas,
Que não vo-lo negarei!
Ah meu cinto de fivelas,
Nunca mais te cingirei!
                
João de Deus, Campo de Flores, 1893
                
Como vemos, João de Deus, através da paráfrase, manteve-se muito próximo do arquétipo de Portocarreiro, conservando a estrutura estrófica e rimática e preservando, ao nível sémico e temático, o seu conteúdo, atualizando apenas alguns vocábulos (mesela/desgraça; leda/alegre; doas/prendas;).
                 
Un Chant Novel: A inspiração (neo)trovadoresca na poética de Jorge de Sena, Sílvia Marisa dos Santos Almeida CunhaUniversidade de Aveiro- Departamento de Línguas e Culturas, 2008, pp.
                 
                 
João de Deus de Nogueira Ramos nasceu em São Bartolomeu de Messines, Algarve, no dia 8 de março de 1830 e faleceu em Lisboa no dia 11 de Janeiro de 1896. Frequentou o curso de Direito na Universidade de Coimbra e, acabado o curso, dedicou-se ao jornalismo e à advocacia em Coimbra, Beja, Évora e Lisboa. Ligado inicialmente ao ultra-romantismo, depressa o abandonou seguindo uma estética muito própria. As suas poesias foram reunidas na colectânea Campo de Flores, publicada em 1893, incluindo-se nesta duas obras anteriores: Flores do Campo e Folhas Soltas. Dedicou-se à pedagogia, resultando daí a Cartilha Maternal, publicada em 1876 e tendo como fim o ensino da leitura às crianças.
                 
                 
PODE TAMBÉM GOSTAR DE LER
                 
 Poesia trovadoresca galego-portuguesa: síntese didática
 Cantigas medievais galego-portuguesas – projeto Littera: a presente base de dados disponibiliza, aos investigadores e ao público em geral, a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respetivas imagens dos manuscritos e ainda a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais).

► Programa televisivo "Neste lugar onde... a poesia dos trovadores" da série Um mais um igual a um. Natália Correia, Carlos Alberto Vida, RTP, 1981.
               

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/02/par.deus.coitada.vivo.aspx]