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domingo, 8 de maio de 2016

E a poesia das coisas se insinua



IDÍLIO

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
Antero de Quental


Notas de leitura:
v. 1 e segs. António Sérgio (Antero de Quental, Sonetos, Lisboa [1967], pág. 40) considera este soneto uma maravilha de musicalidade expressiva, que analisa primorosamente. Faz notar o ritmo vivo, matinal, fresquíssimo das duas quadras, com a sua estrídula rapidez de ascenso e suas duas rimas em a e i - violinos, flautas; as três sílabas em on (cf. v. 8); a amplitude que se quebra a súbitas com um verso isolado (v. 9); o movimento afrouxa, ensurdece em uu, é soturno e fundo (v. 10); toda a orquestração vai descer aos baixos (com nasais e com uu), lembrando não sei quê de violoncelo e de fagote (vs. 12-14).
vv. 1-4. Repare-se nas representações de movimentos.
vv. 6-8. Na contemplação do céu, do horizonte, encontra expressão libertadora a imaginação visionária do poeta.
vv. 9-11. O amor revela-se pelos movimentos íntimos, indizíveis.
vv. 12-14. O amor abrange a natureza, santifica a paisagem, permite a identificação com o mistério que envolve o Homem. - Recorde-se o comentário de Ruy Galvão de Carvalho (Três Ensaios sobre Antero de Quental, Coimbra, 1934, pág. 29): «O mar e o vento são os dois elementos que melhor exprimem toda a ânsia libertadora da alma humana.» (Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada. Século XIX. Do Romantismo ao Realismo. Poesia, Lisboa, Editora Ulisseia, 1985, 2ª edição.)
v. 13. Um poema, não sendo obviamente uma construção teórica, pode ter uma referencialidade que é a do pensamento, da reflexão, sempre que em relação a eles, como diria Antero de Quental, “a poesia das cousas se insinua”. Da poesia à filosofia e desta àquela pode estabelecer-se o mesmo “caminho da verdade”. Neste caso é o que vai ou ascende do particular para o geral, da palavra para a multiplicidade de sentidos. (Ser, um problema filosófico-poético?”, Fernando Guimarães.  Filosofia e Poesia - Congresso Internacional de Língua Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2016.)
*
Inserido na expressão do lirismo amoroso, Idílio retrata uma situação de amor ideal.
O soneto narra momentos de grande tranquilidade do poeta com uma mulher. Calmamente, os dois amantes vão conjugando o seu amor com o próprio cenário. Verifiquemos a importância dos verbos “vamos”, “galgamos”, “contemplamos” que transmitem a ação na primeira pessoa do plural, facto que inclui o próprio sujeito poético na felicidade comungada pelos dois, induzindo a uma união não só física “Quando vamos ambos, de mãos dadas,”, mas também espiritual “Contemplamos as nuvens vespertinas”.
As duas primeiras quadras são, não só narrativas, mas também extremamente descritivas, na medida em que predominam adjetivos bastante expressivos – “orvalhadas”, “ermas”, “vespertinas”, “fantásticas”, “amontoadas” – que contribuem para que o leitor visualize o cenário que os dois amantes desfrutam. Este cenário está carregado de misticismo e é, igualmente, um ambiente contemplativo: “ermas cumeadas”, “fantásticas ruínas”, “o vento e o mar murmuram orações”, fazendo-nos lembrar a natureza dos românticos.
Perante este espaço, a companheira do poeta reage de um modo sui géneris – “de súbito, emudeces!” / Não sei que luz no teu olhar flutua; / Sinto tremer-te a mão, e empalideces…”, perturbando o sujeito poético que não encontra explicação para o seu comportamento. Porém, no último terceto, a vivência romântica é retomada com a personificação do vento e do mar que “murmuram orações” e, deste modo, nos seus corações se insinua a poesia que mais não é do que a harmonia que colhem do espaço onde se encontram:
“E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.”
A dupla adjetivação presente no último verso evidencia mais intensamente a sensação de amor e tranquilidade dos dois amantes. Este ambiente pacífico é também sugerido pela pontuação.
Cecília Sucena e Dalila Chumbinho, Sebenta de Português: Antero de Quental – introdução ao estudo da obra, Estoril, Edição da papelaria Bonanza, [Edição: 2006]

*
A geometria da razão opõe-se à lógica do coração, intuitiva do "fundo essencial da alma". Pergunta-se, se o conteúdo desta "deixará de ser (...) verdadeiro só por não ser rigorosamente lógico?" E afirma que "há muitas lógicas" e a do coração é onde se "sente a verdade eterna". Trata-se da lógica do sentimento que se manifesta na poesia, pois que "a poesia é também verdade [já que] é a evidência da alma". Devedor em certa medida do espírito romântico, reabilita Antero o carácter revelador e sublime da poesia, que brota da alma e que "prende as vontades e arrebata os corações”. É a poesia a palavra possível do silêncio em que a consciência se remete para si, pela sublimidade do momento em que a vontade é presa e o coração arrebatado. O real aí transfigura-se, pois que, enquanto o "contemplamos":
O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das cousas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
Todo o soneto "Idílio" ativa motivos naturais - o vento, o mar, as orvalhadas - a par de elementos humanos, que na sua combinação e relação sugerem e fazem conhecer pelo sentimento e pela intuição. A poesia nasce aí como a palavra própria de um silêncio "sobre-real", fruto de um pathos que premeia esse que a profere com "o batismo dos poetas".
A sabedoria oriental na obra poética de Antero de Quental e ensaística de Manuel da Silva Mendes, Carlos Miguel Botão Alves, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, 2014.


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sábado, 3 de outubro de 2015

LAMURIAS D'UM ELEITOR





LAMURIAS D'UM ELEITOR

Muito embora não rufe o tambor,
Nem se ponha a troar o canhão,
Ai que vida a d'um pobre eleitor,
Quando perto vem uma eleição!

Não se sente soar os clarins,
Nem tão pouco rugir a metralha,
Mas vagueiam intrujões galopins,
E se fere renhida batalha!

Não há fumo, nem fogo, nem balas,
Nem há scenas de fera carnagem,
Mas não faltam mentiras nem palas,
Nem proezas de reles coragem!

Não há sangue a correr das feridas,
Não há gritos nem berros crueis,
Mas há pratos de favas cosidas,
E bom vinho a correr dos toneis!

Um aqui se propõe deputado,
Outro ali deputado quer ser,
Cada qual a puxar p'ra seu lado
E mil lerias cantando a valer!

D'esta banda recebe elogios,
D'aquella outra lhe dão pateada;
Aqui diz-se ter tino e ter brios,
Ali diz-se não presta p'ra nada !

Um a patria propõe-se salvar,
Outro quer a nação defender;
Mas em regra (o que cumpre notar)
A mór parte o que quer é comer!

Vê-se em pancas um pobre eleitor,
E mettido no meio de dois fogos,
Sem saber do seu voto dispor,
Tantos são os pedidos e rogos!

Dependente e não q'rendo mal q'renças
E temendo o furor dos mandões,
Põe de parte principios e crenças.
E lá vota c'os taes figurões!

Costa Resende, 
Rimas Humoristicas e Satiricas, Edição do autor, Ponta Delgada, 1892.


José Augusto da Costa Rezende (1849-1896), jornalista, poeta satírico, natural de Ponta Delgada, aí residiu, trabalhou e veio a falecer. Teve como pseudónimo: Aníbal Metralha.


quinta-feira, 4 de junho de 2015

Eu, que sou feio, sólido, leal.

Ilustração a partir de «A Débil», de Cesário Verde, por Júlia Gonçalves





A DÉBIL

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa d'um café devasso1,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando deste esmola a um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

“Ela aí vem!” disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado2 e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na fresquidão dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava – talvez que o não suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca3.
Triste, eu deixei o botequim4, à pressa;
Uma turba5 ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias6 d'um monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava7, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares8;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação9,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma10 de padres de batina,
E d'altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente paraste, embaraçada,
Ao pé d'um numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia11 estes fáceis esbocetos12,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil13,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.

Cesário Verde, "A débil". In O Livro de Cesário Verde.



Vocabulário:
1 devasso: libertino; moralmente vergonhoso
2 vexado: envergonhado
3 patriarca: chefe de família
4 botequim: estabelecimento comercial onde se servem cafés e outros; bar
5 turba: magote de gente; multidão
6 exéquias: cerimónias religiosas fúnebres
7 avultava: sobressaía
8 titulares: que tem título de nobreza; que é fidalgo com título
9 ostentação: exibição vaidosa; aparato; pompa
10 chusma: multidão
11 urdia: imaginava
12 esbocetos: pequeno desenho para estudo de obras em ponto grande; esboço
13 varonil: másculo; viril  







sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Aquí me pongo a cantar al compás de la vigüela...


GOTAN PROJECT, «LA VIGUELA»


           
                             
vigüela (vihuela) é um instrumento de cordas similar à guitarra crioula.
"Aquí me pongo a cantar al compás de la vigüela..." são os primeiros versos de um poema narrativo argentino, escrito em 1872 por José Hernández, que relata as desventuras do gaucho Martín Fierro, forçado a ir para a fronteira lutar contra os indígenas.

           
GAUCHO    
           

Aquí me pongo á cantar
al compás de la vigüela,
que el hombre que lo desvela
una pena estrordinaria,
como la ave solitária
con el cantar se consuela.
[…]
Que no se trabe mi lengua
ni me falte la palabra;
el cantar mi gloria labra
y poniéndome á cantar,
cantando me han de encontrar
aunque la tierra se abra.

Me siento en el plan de un bajo
a cantar un argumento;
como si soplara el viento
hago tiritar los pastos.
Con oros, copas y bastos
juega alli mi pensamiento.

Yo no soy cantor letrao,
mas si me pongo á cantar
no tengo cuando acabar
y me envejezco cantando
las coplas me van brotando
como agua de manantial.
[…]
Mi gloria es vivir tan libre
como el pájaro del Cielo;
no hago nido en este suelo
ande hay tanto que sufrir,
y naides me ha de seguir
cuando yo remonto el vuelo
            
[…]

José Hernández, Argentina, 1872
            


quarta-feira, 9 de abril de 2014

CAMILO PESSANHA (1867-1926)




 

Leitura orientada de Clepsidra e outros poemas de Camilo Pessanha: 
POEMAS
INCIPIT
Há no ambiente um murmúrio de queixume,
Paisagens de inverno

 

Ser em Português 12 A. Coord. A. Veríssimo. Porto, Areal Editores, 1999