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domingo, 4 de novembro de 2018

O rapaz do lilás

Henrique Levy, outubro de 2018. Foto de Dulce Gonçalves.


A NOSSA TARDE

chegaste à hora do chá, as chávenas refletiam o sol deitado no
horizonte lilás de bruma.

a mágoa arrefecida pelo tilintar da colher na porcelana
convocava o tempo disperso na vastidão da ilha, pequena
concha que ao alto mar ruma, sulcada por clamores, dores e
batalhas vulcânicas.

os meus olhos errantes nos muros que cercavam a casa
contemplavam o destino de nos perdermos juntos,
naufragados no sonho flutuante de toalhas de renda e botões
de punho...

as primeiras horas da noite soaram abertas ao vento e à
chuva que abraçavam a casa e o jardim onde a remota
imensidão azul nos cercava de alongados verdes.

estou doente, referi, enquanto tu falavas de tempestades e do
sol que outros agora iluminava.
[…]

Henrique Levy, O Rapaz do Lilás
Ribeira Grande, Confraria do Silêncio, 2018




para o henrique e o luis

O poeta faz versos porque o amor é uma varanda aberta ao mar. E mergulha, ainda dentro de casa, no tempo que é livre, acabado de chegar do futuro que se confirmou. Mergulha como quem abre o corpo e pede a deus que leve o que é seu e deixe o que é do amor. Fica, assim, inteiro o poeta, que se renova na água imensa, jorrando do poema por escrever. O poema que desafia o espaço da cabeça e do coração, para caber aninhado e sair em fanfarra, pelos dedos eléctricos.
Este livro é esse mistério convertido em candeia acesa. Todos podemos ver como o amor é uma acendalha, como os dias distantes são núpcias, à espera, apenas, quem sabe, de um pastor de olhos verdes, capaz de ser árvore e luzeiro alto, em vez de todas as coisas que as pedras já conhecem de cor, cada vez que nos cobrem os sonhos. Este livro é uma glória que se conquista todas as manhãs, se a vida nos dá e nós agradecemos, rezando aos nossos poetas, aos anjos e aos santos que encarnam nos animais, criaturas do deus que existe, com a maravilha de eles serem, tantas vezes, a voz que fala através dos olhos, e garante que somos todos iguais. Todas as manhãs, quando o Luis sai, o Henrique fica, e encontram-se os dois no poema, amam-se numa vasta lucidez, antecipando a luz das flores do linho, que nunca mancha nem ensombra, essa vida que se faz de pequenos rituais. E a casa cresce, depois, com o espaço que as palavras trouxeram, para a hora do chá, e para o comprimento das mãos, elas que saciam a espera, de que o amor se livra, cada vez que um poema decide falar, a glória que o amor dispensa, se tudo é tão simples, como abrir um livro, rezar às paredes, acordar o silêncio, e pô-lo à escuta, da ilha que nos rodeia. Quando vamos à Mediana vemos este livro na sombra perfumada das coisas, que é luz do avesso, dizendo-nos para testemunharmos o paraíso encontrado do amor, ele que nunca é o que estávamos à espera, e talvez por isso nos comova, e faça sentido abrir-se o oratório, como quem abre uma janela, e comprova que vamos sempre além dos sonhos, se para tanto basta um abraço, e o mar, ao fundo, como uma colher que nos embala no líquido do amor.
Prefácio a O Rapaz do Lilás

Daniel Gonçalves, Santa Maria, setembro de 2018

quinta-feira, 15 de março de 2018

Daniel Gonçalves




a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento

olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti

aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio

comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar

enrolei-me na minha sombra
e
esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos

a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa


Daniel Gonçalves, Revista Neo n.º 9, Ponta Delgada,
Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, 2009

***

(poema com mário cesariny: como uma canção desesperada)

estou a dizer-te que já todos os poetas inventaram o amor
que nas minhas mãos o amor é apenas silêncio que vaza

que o amor não pode ser mais belo do que este verso:
antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa

estou a dizer-te que se tinha que te escrever uma carícia
nenhuma palavra há que não tenha quebrado já a sua asa

talvez acabes por perceber na doçura de todo este carinho
que não tenho mais música por onde possas subir até mim
ou madressilvas para te estenderes por todo o meu verão

estou a dizer-te que nunca soube dizer-te como te amar
como se regressasse a um instante em que fui apenas pedra
ou borboleta impassível colorindo o seu efémero coração

estou a dar-te à boca as poucas carícias que saem da minha
como se eu pudesse inventar um verso no lugar de um beijo
e talvez acreditasse que o amor tem sempre um novo aluvião



***

demorei metade da minha vida a perceber que o nosso
amor nunca existiu, era apenas um poema inédito, num
livro cosido à mão, manuscrito com a caligrafia de um
coração cego. podes esquecer-me sem remorso, podes
voltar a passar por mim na rua, podes voltar a dar-me
flores, não importa, deixei de acreditar na eternidade,
estou de acordo com o meu corpo que envelhece. podia
morrer agora mesmo, sem ti, tudo teria valido a pena
da mesma maneira, tu por fora de mim, tu por mim
dentro, a cidade connosco, a cidade deserta, o tempo
num segundo, a vida escoando como uma pérola através
da geleia do dia. agora sei que este é o último poema em
que te toco, a partir de amanhã, serás outra pessoa.

Daniel Gonçalves, Poesia Reanimada, Artes e Letras, 2014

***

todas as manhãs deviam ser primavera, todas as tardes verão, todas as noites outono, todas as madrugadas inverno, sair de casa e ter o chão como em dia de romaria, o meu ombro feliz de se mostrar aos pássaros, a alegria em cada flor aparecida e saber que vou poder almoçar no jardim, deitar-me no colo do parque e esperar que o sol me queime o cansaço, todos os dias assim.
Daniel Gonçalves, Poesia Reanimada, Artes e Letras, 2014

***

     quando morreste a noite deixou de morder os lábios das rosas ficaram sem o cântico aterrador do silêncio o peso das estrelas como um pisa papéis a torturar uma lista de sonetos por fazer
     quando morreste a manhã deixou de cuidar do seu cabelo liso encrespou contra o espelho que sabia de cor a tua mágoa azul como quilha encravada num naufrágio lento boiando sozinho
     quando morreste a tarde deixou de se inclinar sobre os frutos ficou às escuras a música que saía de dentro dos teus pássaros calou-se o bule que cozia a paciência da loucura com cidreira como remédio que tomamos quando a tristeza vem de repente
     quando morreste o tempo deixou de contar as crianças na rua brincando com os gatos e com as formigas e com a tua solidão
     e tudo ficou suspenso a virar folhas sobre o livro por escrever calando a filosofia fechando de vez as janelas secando a casa


Revista Grotta n.º 1. Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2016

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sexta-feira, 2 de março de 2018

Ezequiel Vala e outras estórias enciclopédicas, por Afonso Cruz


No futuro
iremos parar durante
um minuto todos os dias,
interromper o que estivermos
a fazer, de repente, a meio
de uma palavra, de uma passada,
de uma garfada. E, perfeitamente
imóveis, veremos que o mundo
é uma cruz para quem o carrega
e um berlinde para quem o empurra.
Depois é só escolher.

Afonso Cruz, Enciclopédia da Estória Universal. Livro 1 - Recolha de Alexandria.
Lisboa, Editorial Alfaguara, 2012




A lebre, a tartaruga
e uma flor no cabelo

Ezequiel Vala nasceu em 1905 e haveria de, em 1928, participar na maratona das Olimpíadas de Amesterdão. Foi, para o atleta e para o seu treinador, o momento mais importante das suas vidas, mas por motivos radicalmente opostos.
Ezequiel Vala era um homem sonhador a quem sempre deram todas as condições para competir e vencer. Era um atleta talentoso e inteligente, de pernas finas e compridas, mas também era um grande apaixonado por flores. Num dia de competição, em 1924, antes de correr, contou ao seu treinador que havia, na noite anterior, semeado uma flor (amaryllis/hippeastrum) no sonho de uma bela rapariga da Valáquia1, descendente de ciganos. O treinador riu-se dele, mas Vala assegurava que havia realmente semeado, com as suas próprias mãos – ao ponto de ficar com terra nas unhas –, uma flor vermelha no sonho de uma mulher desconhecida. Foi, nessa mesma altura, criticado pela falta de sobriedade com que encarava a vida e o desporto, mas cortou a meta em primeiro, ganhando com a facilidade que lhe era habitual, e subiu ao pódio, demonstrando que os seus desvarios oníricos não afetavam a sua eficácia competitiva. Apesar da vitória – e enquanto recebia a medalha de ouro – exibia um olhar melancólico e torcia o nariz como um coelho, pois ainda sentia, vindo das suas mãos, o cheiro da terra do sonho da rapariga valáquia. Muitas vezes, como a lebre da fábula de Esopo, Vala entretinha-se com outras coisas, perdendo tempo, mas sem nunca perder a corrida. O treinador admoestava-o, mas Ezequiel Vala não dava qualquer importância aos avisos. O treinador contou-lhe a história da lebre e sublinhou o seu ponto de vista com a célebre corrida de Andarín Carvajal:
– Carvajal – disse o treinador – era um atleta, um cubano pobre que decidiu mendigar dinheiro pelas ruas de Havana para poder viajar até St. Louis, local onde se realizariam as Olimpíadas daquele ano, e poder assim participar na maratona. Conseguiu o suficiente, mas, ao chegar a Nova Orleães, perdeu tudo o que possuía com mulheres e jogo e coisas dessas que fazem um homem transformar-se numa lebre de Esopo. Mas não desistiu e foi a pé, caminhou mais de mil quilómetros até chegar a St. Louis. Chegou com a roupa que usava normalmente, muito pouco adequada para competir, calças compridas e botas de carteiro. Cortou as calças para as transformar em calções e, sem qualquer surpresa, pois era um excelente atleta, cedo liderou a prova. No entanto, porque não comia há cerca de dois dias, estava faminto. Então parou para comer maçãs. Por algum motivo, ficou muito maldisposto e teve de parar inúmeras vezes por causa disso, terminando a corrida em quarto. Por isso, Ezequiel, é muito importante que tu, já que tens tendência a perder-te pelo caminho, agradeças pelo menos o facto de não seres pobre e de não passares fome e de não correres com botas de carteiro e, por isso, teres outras possibilidades de vencer. Algo que, por exemplo, Andarín Carvajal não teve.
Ezequiel Vala encolheu os ombros com um sorriso. No dia da sua prova nas Olimpíadas, Vala era o favorito e demonstrou-o logo nos primeiros quilómetros, ganhando um avanço impressionante sobre os seus adversários. Mas a meio da prova parou por causa de uma lychnis coronaria e sentou-se no campo. Retomou a corrida quando viu Boughera El Ouafi, corredor francês, aproximar-se. Depressa voltou a ganhar terreno, mas acabou por parar mais uma vez quando viu um circo, bastante pobre, que exibia o seu espetáculo na praça de uma aldeia. Reteve-o uma amaryllis/hippeastrum que estava pendurada no cabelo de uma equilibrista. Ficou parado a olhar para ela, meio perdido, enquanto Boughera El Ouafi passava por ele. E continuava ali, parado, enquanto o chileno Manuel Plaza e o finlandês Martti Marttelin atravessavam a praça à procura da vitória.
"A lebre, a tartaruga e uma flor no cabelo", 
ilustração de Afonso Cruz (in P8, Texto Editora, 2012, p. 87)
Esmeralda Rusu mantinha-se em equilíbrio na corda, enquanto Vala caía do primeiro lugar para o último. A equilibrista, quando o viu na praça parado com os braços ao longo do corpo, desceu e aproximou-se agradecendo-lhe a flor que trazia no cabelo. Ezequiel Vala nunca chegou à meta e, na verdade, nunca mais voltou a competir. Disse aos jornais: a nossa meta, muitas vezes, não está onde pensamos. Pode estar à beira da estrada, pode estar a meio do caminho, no meio de uma praça, e seria um desperdício se passássemos por ela a correr, passássemos ao seu lado sem a vermos. E assim continuaríamos a correr para lado nenhum, para uma ilusão. Há uma grande virtude na lebre: ela sabia viver. Nessa altura, Ezequiel Vala não ficou célebre por ter ganhado as Olimpíadas, mas por, na cabeça de todos, tê-las perdido infantilmente. Contudo, Vala – que se tornou um equilibrista medíocre e um botânico célebre – era de outra opinião: fora ele o grande vencedor.
E, aos oitenta e quatro anos, em 1989, no momento da sua morte, haveria de dizer isso mesmo a Esmeralda – também ela velha, mas ainda capaz de, com aquela idade, caminhar em cima de uma corda com uma flor no cabelo:
– Perdi a maratona das Olimpíadas de Amesterdão, mas sem dúvida nenhuma venci a corrida.
E morreu com o mesmo sorriso que fazia quando ouvia os conselhos do seu treinador.
Afonso Cruz
P8, Lisboa, Texto Editora, 2012 (1.ª ed.)
Enciclopédia da Estória Universal - Arquivos de Dresner, Editorial Alfaguara, fevereiro de 2013
____________
Valáquia: província da Roménia, situada a norte do rio Danúbio e a sul dos Cárpatos.



Enciclopédia da Estória Universal, Afonso Cruz.
Quetzal Editores, 09-2009
«Enciclopédia da Estória Universal, que recebeu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco (Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão/APE), é o título de uma obra singular que Afonso Cruz (1971) publicou em 2009, e que iniciou uma série a que o autor juntou dois volumes, subintitulados Recolha de Alexandria (2012) e Arquivos de Dresner (2013).
O título, através do lexema estória”, marca imediatamente o caráter especial desta enciclopédia”, que escapa a qualquer definição única de género do discurso.
Carlos Nogueira, no artigoLiteratura e conhecimento: Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruzprocura demonstrar de que modo o discurso literário desta Enciclopédia se alimenta de discursos (da filosofia, da história, da antropologia, etc.) que visam quer o conhecimento do ser humano e do mundo, quer a educação para a cidadania. Estes volumes, de conteúdo interdisciplinar, apelam para a curiosidade e a sensibilidade, valorizam a responsabilidade individual e coletiva, desenvolvem a capacidade de ler o mundo através de linguagens múltiplas e alternativas. Correspondendo aos princípios oficiais que regem a organização da prática pedagica nas instituições de ensino básico, secundário e superior, esta Enciclopédia pode ser uma boa fonte de leitura e refleo em qualquer instituição de ensino.»


Enciclopédia da Estória Universal. Livro 1  - Recolha de Alexandria
Afonso Cruz, Lisboa, Editorial Alfaguara, 2012

Refletir através de pequenas estórias apresentadas como verdades enciclopédicas. Um projecto que requer todo um trabalho de construção, uma estrutura sólida que assenta na criatividade e na imaginação. Um trabalho genial. Possivelmente o livro do Afonso Cruz que mais gostei de ler até agora.
Mais do que saber escrever, mais do que ter talento para criar palcos, personagens e argumentos, impressiona-me o criar de mundos. E Afonso Cruz como que criou o seu próprio mundo, com todas as explicações de coisas em que nunca pensámos, ou que já pensámos mas nunca desta forma. Quem se iria lembrar de medir a sorte ou os pecados considerando-as medições cientificamente comprovadas? É como chegar à verdade através de um processo de alucinação, com entrar num túnel onde se olha para tudo de outra forma e se descobrem coisas fantásticas.
Deixei-me levar por uma leitura excecional, que me surpreendeu a cada página e me levou a reflectir sobre temas sérios através de exemplos quase infantis. Uma brincadeira que quero repetir, um livro que já é para mim um marco e que prevejo reler infinitas vezes.
Um conjunto de pensamentos e fragmentos muitas vezes contraditórios e cujo sentido só nos atinge umas páginas mais à frente; um exercício extraordinário para as cabeças que, cansadas de rotinas, procuram algo diferente dos dias (quase) todos iguais. Pois que viver numa era em que se produz e vende tudo tende a deixar o cérebro demasiado tempo em descanso.
Márcia Balsas
https://rodadoslivros.wordpress.com/2013/12/07/enciclopedia-da-estoria-universal-recolha-de-alexandria-afonso-cruz/

Enciclopédia da Estória Universal - Livro 2: Arquivos de Dresner.
Afonso Cruz, Lisboa, Editorial Alfaguara, 2013
Sinopse: Com reflexões e histórias ignoradas noutras enciclopédias, o volume Arquivos de Dresner aborda, entre outras coisas, o caso de Ezequiel Vala, um maratonista que perdeu uma prova, nas Olimpíadas de 1928, por causa de uma flor (amaryllis/hippeastrum); fala do explorador Gomez Bota, que provou que a Terra não é redonda e descobriu, numa das suas viagens, a entrada para o Inferno tal como Dante a havia descrito; e relata os hábitos dos índios Abokowo, que dão saltos quando dizem palavras como «amor» e «amizade».
Esta é mais uma viagem lúdica pela História, remisturando conceitos, teorias e opiniões e lançando nova luz sobre uma panóplia de assuntos, desde a filosofia à religião, desde o misticismo à ciência.
«Um artista é alguém que, em vez de pintar uma paisagem tal como ela é, faz com que as pessoas vejam a paisagem tal como ele a vê.» (Tsilia Kacev)
Alfaguara, 2013.


Afonso Cruz

Figueira da Foz, 1971. 

Escritor, ilustrador e músico, que tem também trabalhado na área do cinema de animação.  contradição humana, Os livros que devoraram o meu pai, O pintor debaixo do lava-loiças Assim, mas sem ser assim são algumas das suas obras.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

GROTTA #2

A Revista literária Grotta – Arquipélago de Escritores é editada pela Publiçor 
sob chancela Letras Lavadas. Direção de Nuno Costa Santos. Dezembro de 2017

No seu número 2 a revista Grotta aprofunda a sua vocação para reunir quem escreve no território açoriano e fora dele. Volta a juntar um respeito pela tradição literária, uma atenção à pluralidade de vozes e à comunicação com outros lugares.
O dossiê dedicado à Literatura de Porto Alegre é uma forma de celebrar, hoje, a nossa ancestral ligação com a capital do Rio Grande do Sul, com necessidade de uma boa actualização, lugar fundamental para os Açores e os açorianos.

Há uma longa entrevista com Eduíno de Jesus, que partilha com os leitores a sua vida literária e a forma como vê o mundo, em respostas pensadas e cuidadas. E inspiradoras, sempre.
Continua-se a fazer conviver respirações de tempos diferentes. Textos sobre Natália Correia de autores premiados (Carolina Bettencourt). Uma peça, de Victor Rui Dores, sobre o rico suplementarismo literário açoriano, narrativas na primeira pessoa de personagens de séries televisivas que aterram no espaço da ilha e contos ao desafio, escritos por novos autores. Poemas de nomes como Renata Correia Botelho e Rui Machado e slam poetry de Carla Veríssimo.
Urbano Bettencourt, num texto de referência aqui incluído, Escritas insulares - fragmento e derivas, trata da «condição insular como uma oscilação entre a permanência e a errância, entre o auto-centramento e a deriva que leva à descoberta». A prosa começa com uma citação de Michelet: «A Inglaterra é uma ilha». Uma ilha para a qual viajamos e que pisamos com vagar através da poesia de Ken Smith, traduzida por Hugo Pinto Santos (autor, relembre-se, da tradução dos poemas irlandeses do primeiro número da grotta).
Este número está amplamente ilustrado por dois artistas plásticos - Paula Mota e João Decq - que valorizam muitíssimo a edição, transportando-a para um território que pretende ocupar: o do diálogo entre artes, o da conversa entre linguagens diferentes e complementares. 
A revista Grotta é dirigida por Nuno Costa Santos e conta com coordenação editorial de Diogo Ourique. A edição é da Letras Lavadas.

"Sinopse" in https://www.wook.pt/livro/revista-grotta-n-2-nuno-costa-santos/21291958

***

 
a menos que pudéssemos
soletrar esta noite
desditosa
segredada
que nos range
entre os dedos e o papel

a ver se assim
decomposta
lhe encontramos
uma sílaba quente
qualquer coisa tónica
que nos acorde.

Renata Correia Botelho
Grotta n.º 2, Letras Lavadas, dezembro 2017. ISBN: 9772184166001


***

Nuno Costa Santos: "Há várias formas de se ser açoriano"

Nuno Costa Santos fotografado na Casa dos Açores, em Lisboa  |  PAULO SPRANGER/GLOBALIMAGENS

Chegou o número dois da Grotta, a "revista-livro" açoriana. O diretor Nuno Costa Santos encara os Açores como "lugar de encontros" e está confiante nos novos autores que germinam na revista literária que, esta semana, é lançada em Ponta Delgada.

Ele é escritor e guionista mas a convocatória para esta entrevista foi como diretor da Grotta, revista literária de timbre açoriano. O segundo número é lançado esta semana em Ponta Delgada, na Solmar, uma livraria cúmplice. Nuno Costa Santos não assina nenhum artigo nesta edição, mas na primeira deixou uma ponta solta em Monóculo. Saiu para comprar um pijama (faltava-lhe a inspiração para as primeiras linhas do romance que queria escrever) e descobriu nos jornais que "Lisboa é a melhor cidade portuguesa para se viver pela terceira vez consecutiva" - soube depois, segundo um ranking da Monocle. Seguiu caminho e deu de caras com a Casa Ferrador fechada. Para sempre. Após 84 anos de atividade. Sem pijama (e sem conforto), resolveu mandar um email à Monocle: "O mundo precisa de saber do fecho do Ferrador". Ainda não recebeu resposta, mas ele não tem pressa. Não surpreende. A Grotta - o nome alude, também, a um fenómeno geológico das ilhas - é, claramente, feita com vagar, contrariando o "tempo tecnológico". Ali aportam autores de vários paradeiros, idades e sensibilidades. O arquipélago como semente e marca, de quem está e de quem não está.

O que é a Grotta - não é "apenas" uma revista de literatura açoriana pois não?
A Grotta é uma revista literária que, assumindo a sua raiz açoriana, é aberta a todas as formas literárias de várias partes do mundo, desde que passem no nosso sempre subjetivo critério de pertinência editorial e de qualidade. Não temos medo de assumir o regional e até achamos que num universo que quer ser à força toda "global" e "cosmopolita" é importante atender ao local e ao regional, sem complexos. A palavra grota, que vem da designação que nos Açores se dá às ribeiras que, a partir de certa altitude, se tornam em regos longos e fundos, no território nacional só é usada no arquipélago. Sabemos que também é usada no Brasil. Como tem um duplo t - no nosso título, sob sugestão do vulcanólogo Victor-Hugo Forjaz - remete para uma formulação arcaica do termo e para a sua origem italiana. Entre os Açores e a Itália, com passagem por todo o lado. O subtítulo é Arquipélago de Escritores, que começa por ser o arquipélago açoriano, onde há, desde tempos imemoriais, muita gente que escreve e publica, mas acaba por se constituir como a família, espalhada por todo o lado, de escribas.
Entre os autores que colaboraram nas duas primeiras edições, há autores nascidos nos Açores. Mas outros com origens continentais. Na sua biografia diz-se "açoriano nascido em Lisboa". A Grotta vem, também, questionar o que é isso de ser açoriano?
Os Açores são um lugar de encontros muitos e penso que essa vocação marcará ainda mais o arquipélago nos próximos anos. Nesse sentido a Grotta é uma revista que alberga romeiros de todas as proveniências. Não direi que há um questionamento mas sim um aprofundamento de uma certa maneira. No primeiro número tivemos um diálogo com a Irlanda, através da edição em português de poemas de autores irlandeses contemporâneos. Neste número o diálogo mais evidente é com os escritores que escreveram sobre a cidade de Porto Alegre, que aqui é apresentada com diferentes temperaturas e vozes. No meu caso, essa nota representa um preciosismo biográfico. Os meus pais, açorianos, estavam a viver em Lisboa quando nasci. E depois voltaram à sua terra. Mas, sim, para nós ser açoriano é uma condição que não é exclusiva daqueles que nasceram no território das ilhas e que aí vivem. Há várias formas de se ser açoriano, cada vez mais evidentes num mundo de vasta circulação.
Encontramos novas e mais antigas gerações de escritores em vários registos - prosa, poesia, ensaio, fotografia, ilustração. São trabalhos, inéditos, que esperavam uma brecha para se mostrar?
Sim, são trabalhos que encontram aqui uma oportunidade. Este é um espaço que se abre e os pode acolher. A maior parte dos trabalhos é inédita. As pessoas têm escrito e ilustrado propositadamente para a Grotta. Também já publicámos trabalhos - no caso, ensaios fotográficos - que já estavam prontos antes da ideia de se fazer a revista. Foram convocados e aqui ganharam um sentido outro.
Victor Rui Dores, faz neste número uma breve resenha do "suplementarismo cultural dos Açores", em que saúda uma nova geração de autores empenhada na construção de um espaço cultural novo - geração essa "com mais imaginação que memória, gente que passa mais tempo nas redes sociais do que nas tertúlias dos cafés". Gente "que ainda não escreveu as suas obras maiores e de quem muito há ainda a esperar". Como vê esta nova geração?
Vejo esta nova geração como um grupo que tem o dever de estar à altura daquilo que as gerações anteriores fizeram: criar um corpo consistente de obras, diversas e representativas do esforço de uma época literária. Há que também retratar o que são os Açores hoje na sua multiplicidade, nos seus contrastes. Para isso é preciso trabalhar, pesquisar histórias, ir fazer investigação. E ler. É preciso desligar mais vezes o facebook para perseguir um exercício de disciplina diária na escrita - só esse é que poderá trazer resultados consistentes. A Grotta gostava de contribuir para que esse trabalho se faça de forma mais visível e com mais vozes.
Os Açores têm na sua biografia alguns nomes grandes da literatura portuguesa. Os autores que chegam são reféns ou herdeiros?
Uma mistura. São reféns quando estão demasiado presos à influência dos nomes do cânone. E herdeiros quando já se libertaram e, assumindo a herança, têm o seu sangue próprio. Depois há a questão, que deve ser considerada, de uma parte da comunidade de leitores e observadores ser um pouco dada à comparação fácil. É humano. É como querer comparar à força o neto ainda a mudar de voz ao avô que morreu com uma aura de qualidades. Nesses casos o melhor é, para quem ouve comparações escusadas, concentrar a atenção na sinfonia dos pássaros das ilhas.
Lançou em 2014 a Transeatlântico (Companhia das Ilhas). O que aconteceu a esta publicação?
A Transeatlântico ficou em pousio depois da primeira experiência. E com o descanso da Transeatlântico resolveu avançar-se com a Grotta, publicação de outro catálogo sediado nos Açores.
Em que consiste Açores Arquipélago de escritores, que acontecerá entre 26 e 28 de abril de 2018?
Sobre o evento, ainda não posso adiantar pormenores porque ainda há uma série de assuntos por definir. Mas posso dizer que será um gesto promovido pela Grotta e que, como encontro, manterá as características fundamentais do espírito da revista. Acolhimento açoriano, arquipélago de escritores, respeito pela tradição literária, comunicação com outras partes do mundo, diálogo entre artes.
Quando sairá a Grota n.º 3?
No final de 2018 teremos o número 3. Até lá é questão de ir tendo ideias e ir convocando os autores para enviarem textos. Leva tempo porque a Grotta é uma revista-livro com bastante conteúdo e muitos pormenores.
A Monocle respondeu-lhe ao email sobre o encerramento da Ferrador?
Ainda não respondeu. Deve estar preocupada em fazer mais um ranking. Mas eu espero. Um antigo cliente do Ferrador não tem qualquer tipo de pressa gourmet.

Marina Almeida, Diário de Notícias, 2018-02-11
https://www.dn.pt/artes/interior/nuno-costa-santos-ha-varias-formas-de-se-ser-acoriano-9115889.html

***



GROTTA . Uma adenda

(o que eu poderia ter dito ontem, se a gripe não me tivesse impedido de participar, na Livraria Solmar, na apresentação da revista Grotta). 

1. Quem conhece uma grota sabe que deve evitar a todo o custo cair numa: pelos estragos corporais, por vezes irremediáveis, a que se sujeita e pela dificuldade em ser de lá removido. Constrangimentos da geologia.
Por mim, caí muito bem nesta «Grotta» que o Nuno Costa Santos & companheiros vêm talhando desde há 2 anos. E não tenho qualquer pressa em sair.
Encontro aqui um exemplo daquela «encruzilhada» de que falava Carl Sagan e que prolonga a melhor tradição das revistas e suplementos literários açorianos. 
No final dos anos de 1930, um intelectual açoriano propunha que se implementasse na imprensa local suplementos e páginas literárias, só preenchidos com autores açorianos…A primeira parte da proposição era excelente; a segunda uma idiotice pegada, demonstrativa de que ele não aprendera nada de nada com a imprensa açoriana, que desde os seus inícios, no século XIX, sempre abriu um grande espaço à literatura, cruzando línguas e culturas, géneros e discursos heterogéneos, em diálogo com os autores locais. 

2. O meu texto incluído neste n.º 2 de «Grotta» nasceu no aeroporto de Guarulhos, na longa tarde do dia 8 de Novembro de 2016 e numa conversa com o Nuno Costa Santos, enquanto mais a norte no continente um estafermo juntava os votos que o levariam à Casa Branca. 
Em Porto Alegre, o Nuno tinha-me oferecido o n.º 1 da Grotta, eu já lera alguma parte dela (em particular o texto de Pedro Santo-Tirso), e por isso, quando ele me convidou a participar no número seguinte, pensei logo no que queria escrever (embora sem saber ainda os contornos precisos da coisa). Depois, ele trazia consigo o n.º 122 da revista «piauí» com uma reportagem/ensaio sobre Naipaul, e achei então que teria de escrever a partir dos «outros», os que sempre se mantiveram fiéis ao espaço insular, sem abdicarem do seu lugar no mundo. Das Caraíbas aos Açores e ao Mediterrâneo, há um pensamento insular em que as diferenças acabam por pôr em relevo as afinidades e as confluências. 

2.1 O resultado disso foi um texto intitulado «Escritas insulares: fragmentos e derivas». É um breve ensaio político-literário, dado que no interior da literatura se questiona a realidade histórica, concreta, da ilha e o(s) pensamento(s) sobre ela, o modo como ela ousa pensar-se (ou, por negação, se demite de pensar-se, à espera que outros o façam por ela). Tudo isso no pressuposto de que um «pensamento insular» tem de ser gerado e gerido a partir do seu interior ou segundo um ponto de vista adoptado a partir do interior da ilha. O resto é paisagem e macaquice para embasbacar incautos & desprevenidos. 

2.2 Para sossego das almas embaraçadas: «Escritas insulares: fragmentos e derivas» não é um trecho de catecismo ou de cartilha, por isso não obriga a nada nem ninguém. É apenas uma análise construída a partir de dados, que neste caso são textos. E na literatura como noutras coisas, supõe-se, os dados devem prevalecer sobre os esquemas prévios e o preconceito.
Urbano Bettencourt, Facebook, 2018-02-16

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Grotta # 1

domingo, 12 de novembro de 2017

Daniel Jonas, o antiquado que é o mais alto da poesia portuguesa

ENTREVISTA



Tal como a poesia que escreve, Daniel Jonas é esquivo, difícil, não mendiga reconhecimento, nem leitores. "Canícula", o seu novo livro confirma-o como o mais velho poeta português da actualidade.

Nasceu com a incrível sorte de ter já nome de profeta bíblico, um nome feito para a poesia. Tem 43 anos e é o maior poeta português da atualidade; mede 1,91 cm de altura. Diz que isto foi só porque levou à letra o verso de Florbela Espanca “ser poeta é ser mais alto” e ficou assim com umas pernas tão magras e compridas que obrigam quase toda a gente a ter que dobrar o pescoço para lhe alcançar os olhos, os caracóis e o ar rebelde a lembrar o Bob Dylan em versão revista e aumentada. Lá no alto onde vive (no Porto) também não se esforça para descer ao circo dos eventos literários, não procura os media, não gosta de falar ao telefone. De resto, a sua vida quotidiana como professor, tradutor e pai de dois filhos não lhe deixa grande espaço “nem vontade” para pertencer a grupos ou famílias, cultivar discípulos, andar a ler poesia em eventos. Esta entrevista ao Observador, a propósito do seu novo livro Canícula(Língua Morta), feita por email, telefone e terminada num café de Lisboa, testemunha que, tal como a sua poesia, Daniel Jonas não se deixa facilmente apanhar.


O facto de ter traduzido poetas antigos como Milton, que trabalham com outras formas de linguagem e com outras abordagens dos mundos físicos e metafísicos, outra constelação de ligações, alterou a poesia que escreve?
Todas as leituras contagiam os seus leitores. Não tenho é a certeza se fui eu que as procurei, se foram elas que me encontraram. Nesse sentido, elas poderão apenas acusar uma familiaridade estética, na esteira de um discípulo que busca os seus mestres. O discípulo será prévio ao seu mestre, neste caso. Com Milton aprendi a cultivar o soneto, por exemplo. Por outro lado, a tradução obriga-te a uma imersão na linguagem de uma forma muito mais exigente do que aquela que fazemos no dia-a-dia. A atenção às palavras torna-se mais aguçada. O tradutor faz uma espécie de peregrinação interior dentro do texto e essa peregrinação deve resultar num aperfeiçoamento interior também.

Diz, numa entrevista a António Guerreiro, no jornal Público, que “tudo é convidado a entrar” na sua poesia. Mas este “tudo” que o torna um poeta impossível de classificar e mapear não poderá ser-lhe fatal? Ou seja a sua poesia não pode acabar por se tornar “um lugar facilmente reconhecível apenas por ser ectópico”?
Habituei-me a uma certa tradição que vindimava certos vocábulos com acérrima insistência. Não havia, aliás, poeta que não fosse costumeiro no uso de vocábulos como meses do ano, a ‘cal’, o ‘rumor’, e seus primos. Julgo que, mais recentemente, se assistiu à feira franca de um algoritmo de tendência, digamos, neo-neo-realista que frequentava as mesmas tendências e chamava ao jovial poema os seus sucedâneos ‘táxi’, ‘cigarro’, ‘bar’, qualquer coisa deste género. Ora o que eu digo é que sigo um sistema evangélico, um compelle intrare poético que, não obstante, tende a ser rigoroso naquilo que admite. Mas esse critério não é simples.

Num dos poemas de Canícula diz-se o contrário de São Tomé: não tocar para ver. Como resiste à tentação de dizer apenas o que vê? Como se escapa dessa ditadura de apenas nomear o que é visível que tem dominado a poesia portuguesa dos últimos anos quando, como sabemos, o que se vê jamais reside no que se diz?
A minha imaginação tem de ser forte o suficiente para gerar uma espécie de potência de criação. Nesse sentido, quando num poema digo ‘eu’ refiro-me a uma personagem que criei para esse poema, uma personagem, digamos, romanesca. Aliás, neste último livro, há uma personagem (aliás, duas: o peregrino chorão e uma rua, a Duarte Belo à Bica) que é uma construção de um anti-turista que se desdobra num intenso monólogo dramático sobre as suas explosões interiores, intensamente ficcionais. É um psicodrama interior de alguém que se passeia como uma câmara pela cidade.

Isso de viver fora do centro ajudou-o a criar uma voz dissonante, ou mesmo “anacrónica” como lhe chama?
O centro é local? Eu digo isto porque é normal em Portugal, um país realmente pequeno que chuta pessoas que não pertencem à sua cidade-estado, assistir-se a um ostracismo absolutamente incompreensível num país civilizado, coisa que Portugal certamente não é. Entendendo a pergunta como referindo-se a uma escola, diria que não me matriculei em nenhuma escola de gosto. E talvez daí resulte, desse facto de cultivar gostos algo quaint, uma dificuldade em localizar geo-esteticamente a minha poesia.

Disse na mesma entrevista a António Guerreiro que “os chamados leitores de poesia são, não poucas vezes, leitores rancorosos, senão reacionários, que alienam preventivamente aqueles por quem julgam poderem vir a ser alienados “. Não crê que os poetas se limitam a si mesmos pelo encontro com esses leitores ou mesmo porque acreditam que a sua função é expressarem o “Zeitgeist” (espírito do tempo) quando, pelo contrário, a poesia deveria ser suficientemente subversiva para destruir sempre esse “Zeitgeist”?
É exatamente isso o que penso, não por uma questão necessariamente de programa, mas porque quero falar e escrever aquilo que bem entendo, independentemente de uma política de recepção. Se estiver a pensar nisso, serei mais um e teria pouco a dizer, de qualquer maneira. Não sou propriamente um almocreve da palavra nem vejo vantagens em sê-lo. Já escrever, em si mesmo, me parece uma atividade cada vez mais inconsequente.

Porquê?
Porque pouco se recolhe da poesia. Porque há cada vez menos pessoas a frequentá-la, mas antes em atividades diletantes da poesia como evasão. A poesia não é evasão.

Publica livros há vinte anos, já recebeu vários prémios mas diz como o poeta americano John Ashbery: “Por um lado sou um dos escritores mais conceituados e lidos da atualidade, por outro ninguém me compreende”.
John Ashbery procurava dar conta de uma estupefação que eu compreendo. Ele procurava entender este nó górdio que fazia com que um poeta largamente cifrado acabasse por ser, paradoxalmente, tão acarinhado por um certo público. Talvez as pessoas gostem de enigmas e de quebra-cabeças. Nesse sentido, Canícula é idêntico a si próprio. É uma voz única de um tempo único que assim fica registado e é tão plural quanto as nossas disposições para o receber. Ouvir “Visions of Johanna” [Bob Dylan] é certamente diferente de cada vez que a ouço, na medida em que a minha experiência de mim é irrepetível e irrepetível o canal da apreciação estética que é cumulativo com o da experiência pessoal e pontual. É como um canal que dá para duas funções ao mesmo tempo. E assim se passa com quem produz uma obra de arte. A sua intimidade é uma no momento da sua criação e outra nos vários momentos subsequentes. Tal como as minhas visões de Johanna são umas no momento em que as tenho e as escrevo e outras quando a Johanna e eu somos mais velhos. De todas as vezes que eu volto à Johanna a minha apreciação de Johanna se modifica, digamos assim.

Essas figuras longínquas que evoca nos seus livros, não só em Canícula, mas em todos eles, esses desertos, pastores, cabras, esse tempo anterior à fundação das civilizações, onde a palavra e o corpo não estavam separadas, gastas, sem qualquer força ética que ligue os Homens… essas gentes, essas paisagens, onde as vai buscar?
Há aquela piada do dinossauro-filho que pergunta ao dinossauro-pai se Deus existe. O pai responde-lhe “Ainda não”. Eu procuro de certa maneira um tempo anterior a certas experiência e palavras, procuro ser criador, aliás um desiderato comum a todos os criadores, não é nada de novo. Esse movimento deve ser à uma revolucionário e primordial. A natureza é muito cruel mas, por outro lado, oferece a busca pelo não humanizado. A minha linguagem procura humanizar o sublime, por assim dizer, sem que o torne necessariamente prosaico. A minha teoria, a existir, assenta em, como Yeats, querer ir a Innisfree, ver-me livre da ganga do que há e fazer mel e criar uma melodia nova. Mas não é preciso ir para o campo para se viver nele.

Este livro está cheio de subtis evocações de lugares, poetas, músicas, palavras que juntam o que parecia impossível juntar, limpo de sentimentalismo, de nomes. Não precisa de nomear Fernando Pessoa ou Cesário Verde para o leitor os encontrar algures por aquela Lisboa tornada cidade sem tempo cronológico e sem espaço geográfico. É um lugar onde todos os tempos se fundem abolindo o próprio tempo.
Quis fazer um livro verdadeiramente lisboeta, toponimicamente preciso. A rua Duarte Belo é uma personagem, como disse (rua recentemente votada, e muito justamente, uma das mais bonitas ruas do mundo), mas procurei que aquele anti-turista não autóctone passasse por uma espécie de novo heterónimo de Pessoa. Que nova personagem seria essa? Não segui isso até à loucura, mas entendi que podia ser um bom mote para o que estava a fazer. Com uma palavra de cautela: esse programa é totalmente posterior. Só pensei nisso depois de fazer o que fiz. Provavelmente essa personagem é uma infusão de vários estados ficcionais. Uma presença muito forte e várias vezes aludida é a história de Isaque e Abraão, concretamente o episódio que mais me dececiona em toda a Bíblia, quando aquele patriarca severo leva o seu pobre filho monte acima para ser sacrificado. Ainda por cima, para cúmulo, obriga-o a transportar a lenha que servirá de escabelo para o seu próprio auto de fé! Essa história está, aliás, admiravelmente reconfigurada na Story of Isaac de Leonard Cohen. Especialmente nas observações miúdas do pequeno Isaque, ao observar a dimensão assustadora das árvores e da geografia em geral.

Canícula é uma obra de uma enorme solidão. Sísifo em Lisboa subindo e descendo as colinas em plena canícula sem encontrar nenhuma estoica felicidade. E tantas vezes ele sobe à Bica e tantas vezes ele faz o gesto de vergar o corpo para a frente, seja numa numa varanda, numa vénia, numa dor, seja sob um peso qualquer da alma. Um Sisifo que poderia ser mais um heterónimo de Pessoa tendo por única companhia um cão e muitas figuras que não chegam a ser gente, apenas contornos difusos, que não podemos fixar numa imagem reconhecível…
Ainda bem que tal solidão ressalta do quadro geral. Ela é necessária para o meu programa de um homem só, desse Sísifo em Lisboa. O não-diálogo com a realidade, ou a estranheza da realidade circundante é absolutamente crucial para o meu ponto. Quer dizer que a linguagem disponível não comunica com esta minha personagem. Ela precisa de desenvolver uma linguagem nova, ou pelo menos a que encontra ao seu alcance não reverbera na caixa de ressonância material da realidade. E nessa circunstância vê-se na pele de turista, ainda que um turista natural. O cão, que aqui é uma espécie de animal de companhia que acompanha um herói (todo o Tintim tem o seu Milu), é a projeção mutilada da estrela Cão (Canícula) e do cio discursivo que perpassa todo o livro. A palavra ‘Canícula’, para além de cachorro, designa também uma pequena cana, por extensão o cálamo, a caneta… Esta polissemia alude, entretanto, às pernas delgadas e convalescentes do seu autor…

Quero a fanfarra dos simples, o augusto coreto das sombras!
Onde estou que não me encontro?
Eu tenho uma fome assassina, de descarnar os cabos
das costelas, de estraçalhar milagres biológicos,
a existência miserável de seres que antes eram vivos
e agora enfeitam o cemitério do meu prato.
Esta afluência ao restaurante põe-me doido!
Este querer comer como eu quero este querer cuspir como eu
quero”
(Canícula, pag.48)

“Canícula”: habitar poeticamente a cidade

Depois de ter estado na capital no verão passado numa residência artística promovida pelo Festival Silêncio, Jonas, regressou para apresentar o livro que resultou dessas duas semanas: Canícula ou, nas palavras do seu editor Diogo Vaz Pinto, “um salto imprescindível na poesia portuguesa”.
Mas esse “salto”, que quem vem acompanhando os livros que Jonas publicou nos últimos anos já pressentia, quer pela teimosia com que escreve sabendo que é o poema que escolhe os seus leitores, pela construção de um universo que não é figurativo, que rejeita corajosamente a prerrogativas do discurso lógico, realista, as fórmulas gastas da meta-poesia, a luta por ter uma identidade reconhecível que mais não é do que uma mendicância por reconhecimento. aqui usam-se palavras caídas em desuso, criam-se pontes sonoras dentro para dar uma continuidade musical ao poema como fazia Camões ou os poetas trovadorescos. Uma musicalidade que só se pode saborear convenientemente lendo alto e que está assinalada nas paginas do livro por dois símbolos hebraicos, o “selah” que significa: respiremos ou pausa. Isto diz-nos também que Canícula é um poema continuo, um canto longo onde se volta como Daniel volta a Dylan e às “Visions of Johanna”.
Bisonte publicado em 2016 depois de o autor ter ganho
 o prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes

Canícula não é uma habitação fácil de entrar, não é um lugar de acolhimento mas de agonismo, não se oferece como espetáculo ao flaneur. Tal como o habitante da casa, no poema que abre o livro, temos sentimentos frios, sentimos a omnipresença de uma ameaça que vem das paredes, ou da própria cidade. As portas não são fáceis de abrir nesta poesia que exige confronto e superação, quer pelos anacronismos, quer pela forma como anula o Tempo e destrói a geometria do Espaço. Para entrar neste livro não basta nomear Lisboa para se achar num espaço familiar, porque aqui nada é familiar mas sim “uncanny”, de uma inquietante estranheza que nos coloca dentro de uma cidade atual e milenar, anterior a tudo, uma cidade que recusa o romantismo melancólico de Baudelaire e prefere, como Hölderlin, “habitar poeticamente o mundo” apesar das contingências urbanas, da resistência dos materiais e dos corpos e da própria linguagem.
Há muito para não dizer sobre as cidades no tanto que já foi dito sobre elas. A originalidade de Daniel Jonas consiste em abandonar o lugar de espectador para Ser a própria cidade aqui transfigurada numa espécie de Sísifo constantemente vergada sob o calor, o peso. Cidade onde confluem eras, vestígios de glória e impotência humanas, de profetas e desertos e pastores de cabras, de pegadas deixadas num chão um dia mole, de caçadores antropófagos escondidos na esquina de um prédio. Idades extintas, experiências perdidas, visões imperecíveis que a modernidade e as suas máquinas não destroem, ligações que as perceções superficiais do quotidiano não identificam e que constituem uma outra linguagem no interior da linguagem. Daniel Jonas faz essa arqueologia dentro da linguagem para encontrar não as palavras mais transparentes mas as mais densas. As que estão, como a vida, opacificadas por conterem cadeias de significado, reminiscências, semelhanças, analogias. Cada palavra tem uma história etimológica que explode no poema, que resgata mundos perdidos, induz a regressões ou a saltos futuristas. A cidade de Canícula é um caleidoscópio que se pode girar infinitamente para nunca se sair do mistério da poesia.
Esta casa sarcófago, lápide, avalanche,
erosão de vida, buraco branco na explosão de coisa nenhuma,
corrosão infecta, enfermaria, anestésica
do que eu fosse e me curasse,
choque estelar e cósmica comédia de silêncio.
O grito! O grito! O grotto! O grotto!
A brancura hesitando na cama de rede do delírio,
escorrendo pelos ângulos da tarde
como uma marioneta ganhando vida de loucura,
térmites que eu vejo e não disseco, lacraus pulmonares
que me brotam das ideias e eu trem
e eu amo sem parceiro que invada
numa paragem de autocarro que eu passeio
na minha espera lenta de anteontem!”
(Canícula, pag.11)
Joana Emídio Marques, "Daniel Jonas, o antiquado que é o mais alto da poesia portuguesa" in Observador, 2017-04-20,
 http://observador.pt/2017/04/20/daniel-jonas-o-antiquado-que-e-o-mais-alto-da-poesia-portuguesa/