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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

FONTE CLARA (Vitorino Nemésio)


 
              
           
FONTE CLARA

Fonte clara, fonte clara,
Pedra doce n’água amara.

Fonte clara, fonte bela,
Mas bebê-la?

Fonte clara, escuro jorro,
À sede morro.

Fonte clara, fonte seca
Do muito que a boca peca.

Fonte clara, pura fonte:
Se molha o vale, esvai o monte.

Fonte clara, fonte viva
De onde a minha alma deriva.

Fonte já seca. – e perde
Nome de fonte minha fronte verde
           
Vitorino Nemésio, Obras Completas, Vol. II – Poesia
s.l.: Imprensa Nacional da Casa da Moeda, 1989, p. 429
    
         
Aproximação formal à estrutura das cantigas medievais ‑ […] o recurso aos códigos formais do cancioneiro trovadoresco pelos poetas contemporâneos, na busca de uma poesia marcada pela recuperação dos modelos popularizantes, pelo primitivismo, pela pureza e translucidez das palavras e dos sons.
As principais marcas da inspiração trovadoresca, no plano da estrutura formal, consistem no recurso insistente ao paralelismo (literal e estrutural), a um esquema rimático simples e repetitivo e aos processos iterativos de dobre e mozdobre, criando assim composições que exploram as virtualidades rítmico-musicais do discurso poético.Motz son encontram-se, à semelhança do que acontecia com os bardos da Occitânia, consorciados no acto da composição poética.
O poema “Fonte Clara”, de Vitorino Nemésio, é bem expressivo desta tendência.
Neste poema, desempenha papel formalizante o paralelismo estrutural, através da repetição do primeiro verso em todos os dísticos, ainda que com variações sinonímicas na segunda parte do verso. O recurso ao dobre faz-se através da repetição insistente do lexema “fonte”, que é um vocábulo semântica e simbolicamente sobredeterminado no universo da cantiga de amigo e da poesia popular em geral, conotando pureza e fertilidade.
A rima emparelhada, a par da estrutura paralelística e da apóstrofe inicial à “fonte clara”, aproximam, pela sua toada popularizante, esta composição às cantigas de amigo, cujo fim era a sua reprodução musical, ainda que tematicamente não se verifiquem semelhanças.
Sílvia Marisa dos Santos Almeida Cunha
Universidade de Aveiro- Departamento de Línguas e Culturas, 2008, pp. 18-19
            
            
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 Poesia trovadoresca galego-portuguesa: síntese didática
 Cantigas medievais galego-portuguesas – projeto Littera: a presente base de dados disponibiliza, aos investigadores e ao público em geral, a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respetivas imagens dos manuscritos e ainda a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais).
       
           

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/04/fonte.clara.aspx]

quarta-feira, 12 de junho de 2013

POEMA DE UMA VIAGEM AO PORTO E DE UMA PARTIDA PARA A BÉLGICA (Vitorino Nemésio)


            
POEMA DE UMA VIAGEM AO PORTO E DE UMA PARTIDA PARA A BÉLGICA
                
As filhas do filho ‑ e o Mundo largamente a elas.
Do Porto, a um céu de banho (o inverno desdourou folha e vinho),
Vai, molhada e rodada, a fita do caminho.
Com essa cor nos pneus, as três ao colo, abalam.
Um sonho ainda, homem avô! e a porta bate,
Bate o destino, o relógio dos Clérigos, o peito,
E mil gotas na chuva podem passar por lágrimas.
Quando voltas, amor que as fez e mas separas,
Filho e mulher do filho pai dos quatro e meu?
Que um filho de homem velho é pai do seu cansaço,
Mão na sua testa tornada ao silêncio e ruga nova:
O caminho que vai sulca o seu coração.
Tão simples, um seguir pela direita e ser testa de ventos!
Volante é o velho que vê voar o que lhe pesa e a noite,
Corpo que tem consigo para durar e dizer.
Como uma estrada é o nosso ser de agora, logo e ontem,
Pedra aberta ao que transe e luze e desaparece:
A cidade nocturna enfia no Douro algumas pérolas,
A ponte que separa vibra, e a água do rio a estrada esquece.
Ó nossa vida, quanto? ‑ um lanço ainda, e a via vai
Como a quadriga a quatro e a oitenta à hora (um sopro a cruza);
Desdobram-se nos vales as árvores; aldeias sem gente lembram o que em suas casas seríamos:
Sossego, lenha, um pouco de tudo e a paz por nada.
Mas não, que já no vento um carro desenhou
Meninas de capuz, sacos e servas (Meu Amor diz um bibe).
Nossa saudade é o antes por agora
Que tudo se suspende e a pausa pesa
Mais que o mundo no adeus.
Se um fogo pega nas palavras que nos ficam,
Ah! não é de lareira a chama do chamado!
Um leve ardor de esperar o regresso nas pombas
Talvez desse vagar e viga à casa vaga.
Mas que faremos nós da chuva contrário ao acalento?
Ao separado e cerce, que aspas achar senão os braços
Nus e caídos sem o peso das meninas?

Deus! tu nisto estás como o horário no incerto,
O que envolve no envolto (e os coelhos se espantam nos faróis).
Nosso ir-sempre é que rasga a lonjura da esperança:
Humidade no chão, um pouco de sangue nos transforma;
Só na casa, à chegada, o cuidado de frente se fez pó.

Se me ficar da vida o tê-la certa noutros,
Como a brasa que passa ao pinhal o clarão,
Fica-me muito: à morte compareço
Pálido do sangue adiante, aonde eles já vão.
É só esse o poema que mereço
Pelos muitos que fez a minha mão.
            
Vitorino Nemésio, 25-11-1960
Canto de Véspera1966.
         
 

             

ANÁLISE LITERÁRIA

As pontes que separam vibram. O que, simultaneamente, aproxima e distancia aquele que se sabe passageiro daquilo que vai passando provoca uma íntima vibração, que é este poema, este canto de véspera em Canto de Vésperaquando o anúncio da noite, daquela, do ano e da vida, se torna uma presença a pedir voz. Ouve-se assim o lamento e a celebração do transir na vida e da vida, pela voz do que, enquanto e porque tudo passa, fica suspenso na despedida e nessa suspensão do tempo suporta, comovidamente, o peso do mundo. Mas esta é uma sustentação que, ao embate da porta que se fecha, se funda no abalamento com o abalo das meninas, no estremecimento das horas, na agitação do e no caminho, no balanço do mundo, no tremor do coração, na pulsação do sangue. Vibram as pontes que separam.
[…] Se, por um lado, esses dois caminhos se dirigem para direcções opostas, na evidência da separação a que o tempo obriga, por outro, essa linearidade divergente acaba por ser revertida: é a linha que leva as meninas que sulca, fecundando-o, o coração, abrindo nova ruga (vv. 10-11), mas com esse mesmo traço aí se inscreve, cumprindo-se, desta forma, o regresso desejado. […] É o «ir-sempre» que «rasga a lonjura da esperança» e com esse rasgo, também sulco, ao mesmo tempo se desfaz uma distância, a do que é futuro, e se cava ainda mais uma outra, a daquilo que é esperado, o regresso das meninas.
Nesse «ir-sempre» que é a viagem e que é a vida, a casa é o símbolo por excelência da desejada permanência no mundo. É nas casas entrevistas que se idealiza uma aurea mediocritas apaziguante (vv. 23-24). Nas estradas cruzadas pelo vento (vv. 13, 21, 24), o homem que passa é ele mesmo «volante» (v. 14), vai naquilo que lhe vai, evanescente. O que lhe restam são palavras em que, se incendiadas, se reconhece um acendimento de cuja inflamação o próprio não é responsável: «Se um fogo pega nas palavras que nos ficam, Ah! não é de lareira a chama do chamado!». E o fogo ateia o que se chama, o chamado, as palavras convocadas que permanecem naquele que de tudo o mais se vê despojado. E dessa chamada surge uma chama que não é de lareira e que é clarão, relâmpago, revelação súbita. Fogo todavia efémero e incapaz de iluminar o mundo. Este lume verbal, se contagiasse o estado da espera tornando-o num «leve ardor de esperar», tornaria possível suportar o que pesa (vv. 27-28) na leveza de «esperar o regresso nas pombas». […] Como o que a um tempo se inflama se apaga, na casa da chegada, nessa casa vaga, «o cuidado de frente se fez pó» e ficam as cinzas a lembrar o fogo que já se foi. Quando bater a porta da última morada (w. 43-44), essa casa inevitável que é a morte, o exangue sabe que a única chama que pode ficar, «como a brasa que passa ao pinhal o clarão», a verdadeira chama de vida, é a que anima «o sangue adiante», é esse tempo a pulsar «onde eles já vão». Essa contemplação da vida futura descansa o cansaço que percorre todo o poema e reconcilia com o mundo aquele que nele se sente derrelicto.
[…] O homem, em trânsito, procura um sentido para a sua viagem. Deus é sentido no mundo: porque está «nisto», ainda que não se veja; porque é significado oculto desse 'isso'; porque é rumo na rotação do tempo; porque a direcção desejada; porque orientação para o Ser. Mas é um sentido suspenso. Um sentido suspenso que vibra. Uma ponte que separa.
[…] A fluência do poema não é de narrativa, mas decorre dessa simultaneidade, da sujeição desse discurso, por um lado, à cronologia dos vários elementos que aparecem na estrada a quem nela passa e, por outro, ao fluxo de pensamento do viajante, o que, por sua vez, é determinado por esses eventos. […] Entre os lugares deste poema, as pontes que separam vibram.
[…] Esta é uma viagem pelos lugares que Nemésio reconheceu, no «Prefácio: Da Poesia», mapa para a poesia nemesiana, como territórios comuns à poesia e à metafísica: o Ser, o Nada, o Tempo, a Morte.
Essa reflexão comporta uma outra: a que se ocupa da própria natureza da poesia. Como tantas vezes acontece na poesia de Nemésio, a palavra poética volta-se sobre si mesma, no próprio momento de se dizer (v. 7), contempla-se, interroga-se, vê-se a ser poesia. E este olhar, neste texto, comporta, por um lado, a celebração desse fogo que emerge, mas, por outro, o lamento da sua imersão no tempo que tudo apaga.
[…] Mas, neste poema, essa poesia não é mais do que fogo só vislumbrado. Entre aquele que fala e essa plenitude na linguagem há um vazio. E, no poema, esse vazio vibra.
Rita Patrício
Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX
Organização de Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra
Braga/Coimbra/Lisboa, Angelus Novus & Cotovia, 2002.
                  

SUGESTÕES DE LEITURA

► Canto de Véspera (obra completa)
        
         

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/06/12/poema.de.uma.viagem.aspx}

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

NO TEMPO DA FROR

           
              
Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar.
       
Versos de uma cantiga de amor e simultaneamente sátira literária composta pelo Rei Dom Dinis
       
                
Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
           Ai Deus, e u é?
       
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
           Ai Deus, e u é?
       
Versos de uma cantiga de amigo composta pelo Rei Dom Dinis
                                      

            
       
 
       
       
       
     
       
       
«NO TEMPO DA FROR»
      
O baile, enfim, ali armado a rigor, e os senhores da cidade sem virem! Ouviu-se rodar um trem. Manuel Bana furou por entre os convidados, como se estivesse numa venda e fosse apartar uma briga. Mas entrou meio murcho, seguido de Damião Serpa e do tenente Espínola à paisana. João Garcia mostrara muita pena, mas estava de serviço: tinha de pagar uma troca ao capitão Soares; pedia desculpa...
A Rosa Bana fora buscar Margarida à cadeira do pé do altar, que era o lugar de respeito. Margarida abria os braços escusando-se, como quem não tem consigo a prenda que procuram; alegava um começo de rouquidão que apanhara na tarde do bezerro, quente das papas de milho.
‑ Não se faça rogada, Bidinha!
Aquele argumento venceu-a; encostou a cadeira, tomou o lugar da namorada de Chico Bana em frente dele. Damião Serpa substituíra um rapaz das Funduras por baixo do braço da viola, e deitou cantiga a propósito, que agradou logo muito:
     
         Boa noite digo a todos,
         Que eu tive ensino de mãe:
         Viva a dona desta casa
         E estas meninas também.
       
Então Margarida, aproveitando a pausa que o Feijão fizera no baile para apertar as cravelhas da viola, agarrou Manuel Bana, que se fora plantar desconsolado e de mão no batente de forro; trouxe-o para o terreiro entre risos, quase arrastado, e encaixou-o no lugar do sobrinho, no meio das palmas e dos vivas dos convidados divertidos. O Feijão mandou "rasgar":
      
         Eu trago terra de longe
         Para fazer um jardim,
         Para plantar este cravo
         Que está longe de mim.
     
         A voz de Margarida tinha um timbre claro naquela ironia do "jardim", do "cravo" que parecia crescer do bigode de Manuel Bana e florir-lhe os olhos velhos, rodeados de preguinhas velhacas. Todo ele ria, fazia "que não" com a cabeça, parecia procurar caminho para se esgueirar dali:
‑ Ora a alembrança da menina! Fazer pouco de um home... Um velho, cos dentes escabaçados! ‑ E alargava a mão na cara encovada, no seu gesto manhoso.
Mas o seu olhar fino e doce interrogava a cabeça de Margarida, meio pendida no ombro, a expressão longínqua e iluminada da testa e do cabelo um pouco desmanchado, que parecia seguir o rasto da cavalgada que se perde no pó e deixa os campos conforme a noite desenha as árvores e as lavas, por cima dos buracos dos grilos.
         
                                                   Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Capítulo XVIII.
       


       
LINHAS DE LEITURA
         
1. Decifre o simbolismo do título do capítulo, atendendo ao facto de “No tempo da fror” ser uma perífrase muito usada nas cantigas de amigo da lírica trovadoresca (Idade Média).
2. Localize a ação no tempo nespaço.
3. Dque forma profano e o sagrado se misturam no texto?
4. Recolha exemplos dos registos de língua populacuidado.
5. Caracterize Margarida e Manuel Bana.


       
CHAVE DE CORREÇÃO
    
1. “No tempo da fror” é uma perífrase muito usada na lírica trovadoresca galego-portuguesa para designar a Primavera e o incitamento ao amor que esta estação supostamente provoca.
2. Para responder a este item é necessário ser capaz de associar o títulao mês de Maioe o espaçum ambientruralna casa de ManueBana: «O baileenfim, ali armado arigor e osenhoreda cidade sem virem!»
3. Importrealçar que religioso coexiste com o profano de forma naturalMargarida sai do pé daltar (erigido em honra do Espírito Santo) para ir participar nas cantigas aodesafio.
4. 
5. 
Novo Ser em Português 10, coord. A. Veríssimo, Porto, Areal Editores, 2007.
      
       

    
SUGESTÕES
      

   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/20/no.tempo.da.fror.aspx]

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

TOU CO A PESTE, MEU AMO!...

        
            
Parecia que a febre tinha pele...
     
Vitorino Nemésio, Mau Tempo no CanalCapítulo XXII
     
       
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infeção!
[…]
E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
[…]
Cesário Verde, “O sentimento dum ocidental”
            

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E a Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.
[…]
Porém, lá fora, à solta, exageradamente,
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!
          
Cesário Verde, “Nós”
            
                             
      ..................................

               

MAU TEMPO NO CANAL | Vitorino Nemésio

      
Texto
      
Outra vez interessados pela sombra maciça do Canal, ficaram à janela espiando. Mas o silêncio de tudo - casa e tempo parecia ganhá-los para alguma coisa de profundo e de recessivo que diminuía pouco a pouco a vivacidade e o sentido das palavras trocadas, esgotando aquela expectativa a dois, como os sobreviventes de uma equipa polar que a neve invade e resigna. Roberto retomara o passeio sem fim no soalho velho, sugara o cachimbo apagado, desaparecera para os lados do seu quarto. Margarida, à luz do candeeiro americano, marcava o ritmo do petróleo com o pique da agulha no bordado. Uma pomba de filosel repetia o seu corpo esquemático e o seu raminho no bico ao largo de uma tira de pano riscada a papel químico.
Deu meia-noite... Deu uma hora... Os passos de Roberto descreveram a volta toda do fundo da casa deserta; um gemido remoto obrigou Margarida a abafar o ruído do papel de seda nos dedos e a apurar bem o ouvido. - O Manuel Bana, que acordava. Margarida atravessou o quarto da Mariana, desceu os degraus que davam para a adega.
A vivenda dos Clarks, conhecida pela Pedra da Burra, no sítio de Campo Raso, era a casa tradicional das vinhas queimadas do Pico. Um piso alto, com mirante na empena, flanqueava a adega funda e metida em casa. Em regra, seguia-se à adega uma cozinha com as paredes em osso. Mas o Sr. Roberto velho,british subject, sem alterar o castiço da arquitectura picarota, acumulara por trás e aos lados da adega os quartos e esconsos exigidos pelo crescimento da família e pelo seu amor ao conforto. Do todo resultara uma impressão de polipeiro, como se o capitão de um navio retido indefinidamente num porto estrangeiro e de alfândegas desconfiadas resolvesse reforçar os camarotes para a tripulação e reacomodar a carga. A adega, com o seu lagar profundo, a madre imensa, o peso de pedra chumbado à finura do fuso de rosca até ao tecto, e os vastos canteiros de pipas irremovíveis e de tamanhos descrentes, era o porão. Margarida atravessava sempre à noite aquela arca de bafio com uma sensação de mistério. A escada era fraca e parecia descer de um portaló. Ela apanhava a saia numa mão, empunhava uma vela na outra; o seu passo furtivo agitava os ratos na falsa. E as sombras das pipas e dos madeiros velhos dançavam na parede tracejada da conta de milhares de canadas de vinho, embebidas no tempo como numa esponja oculta.
- Então, Manuel... Sentes-te melhorzinho?
Responderam a Margarida dois olhos vermelhos e encovados. Roberto deu mais força ao candeeiro. Manuel Bana; inquieto e a arder em febre, gemia. Queixou-se da cabeça e das "cruzes"; queria andar. E, descendo o braço ao longo da pilha de cobertores, parou a mão a medo:
- O pior é o matulo... - E, para Roberto, em voz baixa, aproveitando o movimento de distracção voluntária que Margarida fizera em direcção ao avarandado interior que dava do quarto sobre a adega: - Aqui, meu amo; caise im riba das partes...
Margarida desabafou o bule pousado num tinote, e, enchendo de alto uma grande caneca vidrada, enquanto Roberto o amparava pelos ombros, deu-lhe a beber. Manuel Bana estava realmente trémulo. Parecia que a febre tinha pele e que, como um anelídeo invisível, se lhe enroscara aos tendões, ao peito, ao corpo todo. Por cima da maçã-de-adão, que subia e descia como um êmbolo, a borda do bigode molhava-lhe de chá forte os beiços secos.
- Im o sinhor dòtor chigando, a menina ajunte a sua roipinha e vaia e mais ele. Mandaro recado a minha irmã pró Capelo, como ê disse? Ela é que tem obrigação de ficar aqui a pé de mim. São doenças mum ruins...
- Qual! - disse Roberto. - Apanhaste um resfriamento, é o que foi... Uma madrugada daquelas, na subida do Pico... Não era de esperar outra coisa. Se não fosse o senhor Diogo teimar para teres a vaca descansada e mugi-la ao romper do Sol, nada disto acontecia...
- Tou co a peste, meu amo!...
               
Vitorino Nemésio, Mau Tempo no CanalCapítulo XXII – 4º Nocturno (Lento)
      
      


ANÁLISE DO EXCERTO DE MAU TEMPO NO CANAL
      
      
O excerto desenvolve-se em dois momentos distintos, cada um deles estando dependente da mudança da temporalidade e de espacialidade. Como elo de ligação entre estes dois momentos destacam-se duas personagens que percorrem os espaços e os tempos, unidas por uma preocupação: a doença de uma terceira personagem.
primeiro destes momentos é determinado pela utilização preferencial de dois modos de representação: a descrição e a narração. A ausência de diálogo é explicada logo no início:
«Mas silêncio de tudo casa tempo - parecia ganhá-los para alguma coisa de profundo de recessivo que diminuía pouco a pouco a vivacidade e o sentido das palavras trocadas, esgotando aquela expectativa a dois, como os sobreviventes de uma equipa polar que a neve invade resigna."
Deste pedaço ressalta um tempo e um espaço ilusórios, que transcendem as personagens, remetendo-as, através do silêncio, para um outro silêncio profundo onde elas (onde o Homem) encontra razão de existência na reflexão sobre a condição humana.
Mas de tempo e espaço «reais» nos dá conta este excerto. O espaço da permanência - «a vivenda dos Clarks, conhecida pela Pedra da Burra, no sítio de Campo Raso, era a casa tradicional das vinhas queimadas do Pico" - e um espaço de passagem, do para além de... - «a sombra maciça do Canal". ,
A descrição do espaço físico é pormenorizada, minuciosa, ultrapassando as características meramente materiais para invadir o afetivo e o psicológico: «Margarida atravessava sempre à noite aquela arca de bafio com uma sensação de mistério.»
Como é comum na escrita nemesiana surgem-nos variadas comparações, algumas delas enquadradas no momento descritivo: «Do todo resultara uma impressão de polipeiro, como se o capitão de um navio retido indefinidamente num porto estrangeiro..»; «E as sombras das pipas dos madeiros velhos dançavam na parede tracejada da conta de milhares de canadas de vinho, embebidas no tempo como numa esponja oculta.»
Neste espaço profundo (a adega funda, o lagar profundo) ressalta o tempo que, apesar de pontualizado (Deu meia-noite... Deu uma hora...) se assume como um tempo psicológico, face à situação que se vive. Notem-se expressões como «parecia ganhá-los para alguma coisa de profundo de recessivo», ou «esgotando aquela expectativa a dois como os sobreviventes de uma equipa polar que a neve invade resigna».
Nesta última frase sublinhou-se ainda uma comparação, recurso que, como vimos anteriormente, é utilizado frequentemente por Nemésio.
E deste primeiro momento resta-nos as personagens: vivendo um momento que os faz estar presos a uma terceira personagem que está ausente «de cena» neste passo do texto, mostram-se nervosas, inquietas, fechadas no espaço e no tempo. Deste tempo é deste espaço só conseguem fugir através da mente, da memória das coisas por viver e do altruísmo das pequenas coisas vividas.
Enquanto Roberto Clark apresenta a sua inquietude andando de um lado para o outro e sugando o cachimbo apagado, Margarida vai preenchendo o seu bordado, uma pomba de filosel, símbolo - quem sabe? - de liberdade, de voo, de esperança, embora fixa na tira de pano riscada a papel químico.
Finalmente, o som do pretexto de mudança de espaço: um gemido remoto - Manuel Bana acordava. Repare-se no adjetivo remoto, a lembrar que ele se encontrava num local que dista deste outro e que só é alcançado devido à passagem pelo interior de toda a vivenda dos Clark, que, como foi referido anteriormente, é descrita ao pormenor à medida que as personagens a atravessam.
E assim chegamos à adega, perto do doente Manuel Bana, e assim inicia o nossosegundo momento, pautado pela descrição e pelo diálogo. Quer num, quer noutro se realça a doença pela qual a personagem foi acometida: «Responderam a Margarida dois olhos vermelhos e encovados»; «…inquieto a arder em febre, gemia. Queixou-se da cabeça das 'cruzes'...»; «Manuel Bana estava realmente trémulo».
Também nesta descrição, Nemésio não foge à comparação como recurso para melhor determinar os factos que quer sublinhar. Repare-se: «Parecia que a febre tinha pele... »; «Por cima da maçã-de-adão, que subia descia como um êmbolo...»
No diálogo destacaremos também dois momentos distintos: um, reporta-se à conversa normal entre Margarida e Manuel Bana ou Roberto e Manuel Bana. No entanto, um excerto da conversa entre as personagens masculinas não é ouvido pela personagem feminina, o que prova que, além do respeito que poderia parecer lógico entre a patroa e criado, um estatuto da mulher que a remete para o tabu de certos assuntos: «pior é o matulo... Aqui, meu amo; caise im riba das partes...»
Deste modo, fica-nos também a perícia com que Nemésio maneja o falar açoriano, bem dele conhecido, por experiência vivida. Efetivamente, da boca de Manuel Bana só pode sair a linguagem que conhece, do povo, e com a pronúncia que é característica do açoriano. Esta utilização marca, portanto, o estatuto social, visto que nem Roberto nem Margarida, embora vivendo no mesmo espaço mostram a cultura erudita a que tiveram acesso pelo seu nível social e económico.
A parte final do diálogo é marcada pelas frases reticentes utilizadas por Roberto Clark, provavelmente a denotar uma certa ambiguidade e a vontade de esconder a evidência ao empregado da família. Mas como sabemos da vida real, comprova-se que o doente é habitualmente lúcido da doença que o mina e, por conseguinte, e espantosamente, o excerto termina com a revelação da doença «Tou co a peste, meu amo...», pronunciada por Manuel Bana, por contraste com a indecisão que se tinha verificado latente em Roberto Clark.
      
Maria da Conceição Coelho e Maria Teresa Azinheira, Apontamentos Europa-América explicam Vitorino Nemésio – Mau Tempo no Canal, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1995.
       


       
SUGESTÃO
      
   

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