POESIA COMPLETA | O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS
INTRODUÇÃO | NATÁLIA CORREIA
Perturba-me escrever sobre a minha poesia como me solicitam os que aqui a dão a conhecer numa amplitude próxima do seu conjunto (ficam ainda de fora alguns inéditos) porque, ao fazê-lo, das duas uma: ou, tara que não me seduz, indulgiria em entregar-me ao onanismo de uma autoapreciação irremediavelmente atada ao cordão umbilical que me liga aos meus poemas; ou, baforando fumaças de objetividade, só por um factício prodígio poderia transmigrar de autora para teorizadora desse meu íntimo assunto poético em que além de mim age um ignotus que ainda estou para saber o que é. Mas se não alcanço esse «outro» que entre as minhas intrínsecas pluralidades me provoca com palavras a ordená-las em imagens que libertem a linguagem escondida no silêncio, nem por isso cairei na cilada que, logo no raiar das Artes Poéticas, Platão no Ion armou aos poetas dizendo serem os deuses que põem a inspiração nas suas palavras. Não que ache isso impossível, pois recusa-se-me a mente a achar impossível seja o que for, mas lá perigoso é. Porque, a ser assim, o poeta toma-se por um ser excecional. O que, dando lugar à sua arrogância, o expõe ao ridículo de não ter razão para a ostentar visto que os versos que faz nem sequer são dele mas de uma entidade sobrenatural que fala pela sua boca, reduzindo-o à função de microfone. Ora um microfone vaidoso é um absurdo hilariante que retira toda a credibilidade ao poeta. O que não convém para que neste nosso tempo de chiqueiro dos dejetos de uma civilização atarantada pelo cerco de ameaças catastróficas possa a vida respirar o ar limpo de um começo que na poesia diz que quer emergir. Neste ponto seria tentada a enredar-me no fio que uma nova ciência nos estende para nos conduzir ao postulado de uma conexão cósmica da poesia com uma linguagem englobante da música e das matemáticas em que está estruturado o Universo. Nas matemáticas, o número de sílabas e de acentos regulado nas formas métricas. Na música, não só a simples melodia produzida por esse arranjo métrico mas a que na lógica encantatória da linguagem poética é essencial ao poema (Mallarmé). É nesta cosmicidade do idioma poético que surge a tentação remissiva que nos convida a revisitar Velhos Tratados Espirituais em que cada letra do alfabeto corresponde a um número numa relação significativa de um constituinte do Universo.
Envolvida nos feitiços destas meditações que por vezes me sobressaltam sobre o porquê da minha poesia, não sei se dela me distanciei ou aproximei. Sinto, isso sim, que a última alternativa é a mais idêntica a um puro relâmpago da minha recôndita disponibilidade para receber a mercê que me é dada em palavras de olhar as coisas de uma outra forma, alinhando-as num ritmo que corre para um ponto onde tudo está abrangido. Mera sensação? Como saber se até ignoro se sou eu que convoco essa dádiva em poesia ou se é ela que se convoca a si mesma em mim. Para quê? Para me mostrar o não ser do que julgo ser e o ser do que julgo não ser? Quantas perguntas! Esta, por exemplo: não será cada poema um pouco da biografia de todos? E esta ainda que é corolário da precedente: será que a poesia se manifesta no poeta porque é obra de todos? Fixo-me nesta velha questão porque nela encontro pistas abonatórias do que na vivência do meu fazer poético me surge como uma evidência: o brotar da poesia numa linguagem construída na esfera psíquica de fatores transpessoais que atuam como uma força unificadora. Eis porque nada é isolável em poesia, pelo que não pode ela furtar-se a nenhum modo de expressão, vivendo o poeta em cada um deles os diversos heterónimos do estar sendo em situação interior ou exterior. O tal drama em gente que o anglo-saxonizado Fernando Pessoa resolveu com pragmatismo metódico em sistematizada heteronímia.
Ora situando-se na faceta exterior da totalidade do sentir poético, logo ressalta o interesse geral em que o poeta partilha os sofrimentos e as esperanças dos outros. Chega o momento de a sociedade arder na alma do poeta em chamas de revolta contra a Medusa das prepotências que petrifica as almas? Inexoravelmente volve-se então a sua poesia em disparo de fulminantes recusas e subversões contra o olho dos Ciclopes da Ordem Absoluta que pintam com as cores da liberdade (política: hoje hospitalizada na clínica psiquiátrica dos Mastodontes do Gamanço Universal do Dinheiro), da abundância (atual pretexto para o voraz canibalismo economocrata) e das prebendas num deleitoso além canonicamente mobilado (igreja: à beira de ser inócua por anemia) o convite dirigido à incapacidade de ter de se escolher uma destas servidões.
Mas neste passo cumpre-me esclarecer: não sendo escassas as balas que, em poemas, disparei contra a univisualidade do mostrengo das coações fascio-puritano-pirosas, não me faltando também no arsenal as que estavam a pedir certas peneiras autoritárias com cravos de Abril na fala, não foi pelo manual de um neorrealismo, com o qual aliás sempre embirrou o meu duende libertário, que me fiz atiradora. Do que eu me livrei em não ter caído nessa esparrela que pode ter um desenlace trágico. Vejam o Maiakowski. Nem mesmo o seu génio tão vitalista quanto o seu agitado panfletarismo revolucionário sugeria o safou de seguir o pst do anjo fatal dos suicidas russos ao ver, entre o Cubofuturismo da LEF e o retorno aparente às práticas burguesas da NEP, o seu grito «… burguês, chegou o teu último dia!» afundar-se no apodrecimento da revolução.
Mas, prosseguindo nessa via comum, percorrida por todos os outros que são o poeta, forçoso é dar relevo ao magno momento: o encontro com a justiça. Distingamos. Refiro-me a Astreia, a Iustitia que vivia em harmonia com os mortais até que os delitos da humanidade a puseram em fuga para o céu onde lá está a cintilar na constelação da Virgem. Não à da dura lex, Témis, conselheira de Zeus, o Pater que subvertendo com o regime conflitual da fragmentação o indiviso da ordem materna que o precedera, reforçou a expansão falocrática, instauradora da competição instigadora de crimes que geraram a lei. Exercício espiritual, sempre mas nunca convictamente malogrado, para o retorno (a) ou progresso para a plenitude de uma comunhão universal prometida no mito de uma idade de ouro, a poesia, em sua pureza acrática identifica-se com a Iustitia. Daí a justiça poética, termo que no século XVII por fim dá o nome à moral da vida verdadeira que participa da vida do Universo, moral congénita à poesia que, por isso mesmo, pune a falsificação da vida submetida às leis de moralismos utilitários.
Volto-me agora para a face interna da totalidade que a poesia desespera por abranger fazendo -se a arte de ampliar a alma a tudo quanto existe por obra do mistério que o véu da Sabedoria encobre. Por outras palavras: é chegado o momento espiritualmente crucial do poeta fazer sua a ira de Shlegel: «Já são horas de rasgar o véu de Ísis e revelar-lhe o mistério. Quem não suportar a visão da deusa, fuja ou pereça.» Mas para lá chegar há que passar pela prova do abandono à atração da «gravidade metafisica» do Amor em que é demonstrado que a amada só no amante existe e vice-versa, fundamento da gnose inerente à poesia que nos diz: as coisas só se revelam inteiramente no seu oposto, visto que com ele são unas.
Com esta consabida receita contra a doença da homogeneidade, me desembaraço de ser nesta minha obra poética não omnia, subestimado aquilo que nela mais prezo por autêntico testemunho das várias almas que se unem na minha alma. Uma mobilidade dadivosamente passiva às solicitações dos correlatas que em matizes líricos de sacralidade do amor terreno, ou da terrealidade do divino
e outras coisas luminosas tiradas do inferno, tensão dialógica sob forma mesmo estruturalmente dramática, ode, sátira ou humor que, cito-me, como a poesia, surge onde não há solução (O Surrealismo na Poesia Portuguesa), pediram a palavra ao meu léxico poético. Fontes de analogia sem as quais nunca subiria ao miradouro do Espírito de onde o poeta, por fim, enxerga (Sonetos Românticos) o futuro causador do começo. Operação de reversibilidade de causa e efeito a que é devido chamar-se poesia. Pelo que assiste toda a razão aos poetas de pesquisarem o ouro de um futuro vedado pela ordem artificial das ideias caminhando para um passado mítico. É-lhes pois irrecusável a competência para restabelecer as relações do homem com a natureza. Ou seja: consigo mesmo.
Finalmente uma satisfação que, dando aos leitores, também dou a mim mesma.
Logo no primeiro volume dos meus poemas Rio de Nuvens, que vieram a público anos depois de neles ter timidamente debutado por volta dos meus dezassete anos, agora integrados nesta compilação, serão notados cortes e correções pelos raros que os leram . Ou antes, raríssimos. Vai a razão:
Uma autoexigência insatisfeita com a escolha feita pelo poeta hoje esquecido mas então encartado e amigo da família que, empenhado na sua publicação, deles expurgou os poemas que me eram mais caros por considerá-los metafísicos e de grandiloquência dramática levou-me a bloquear a sua distribuição. Em abono da coerência do selecionador, autor do respetivo prefácio em que exagera a tónica de passar por meu mestre, direi que era seu vade mecum a arte poética postulante da poesia quase sem palavras. Princípio que aplicou ao exame dos meus poemas. Apenas já então me era intolerável aceitar que o valor da poesia consistisse na procura de se abolir no silêncio pois já intuía que a palavra vinha à poesia para tomar audível o que fala no silêncio.
Enfim, tal foi o choque que, durante anos, me encerrei num mutismo hostil à Musa tentadora até que a sua teimosia acabou por libertar em oito dias um caudal de poemas com amigos à volta a aturdirem-me mais o estonteamento: este sim... este não... Resultado, o livro Poemas, cuja releitura a dezenas de anos de distância me forçou a meter nele o bisturi.
Só vos digo que o mal foi começar. Porque se não me contenho em alterações, ia muita coisa a eito. Até ao ponto em que me pareceu mais fidedigno o testemunho em livro dos trechos do primeiro ciclo do meu pecúlio poético. Tolheu-me a gana cirúrgica o imperativo de não serem esses poemas desfigurados por corretivos verbais oriundos de entusiasmos pretéritos que sonegariam aos leitores interessados em seguirem essa evolução ou involução a que se dá o nome de obra poética, a autenticidade da sua génese e colocação no poiétikós que aqui se desenrola.
Quanto aos inéditos que desdenhei em prol da preferência dada aos publicados, falem eles por si. Como todos, de resto. O que vos dirão não sei. A mim dizem-me que são uma urgência do Espírito. Urgência de quê? Da poesia ser praticada. É por isso que cada poema, por mais elevado, evanescente ou injetado de virulentas ou mesmo fesceninas invetivas, é uma lição de moral. Não da moralidade que expira com a religião que a procriou, mas de uma ética espiritualizada que já neste kairos da roda das metamorfoses, em que o fantasma do Deus morto só aparece para passar o testemunho a uma nova legitimação sacral, dá sinais de querer ser objetivada. Apenas se o fatum do poeta o recruta para ser agente da fundação de uma nova história da mente, a fantasmagoria das potências do caos ambiental social e mental paralisam-no numa desresponsabilização que se socorre da narcísica anestesia dos outros que o poeta é. Ou, caso o atormente a insistência da lembrança de um futuro inscrito na mais elevada categoria do espírito que os proxenetas da prostituição da vida esconjuram com vade retros de poderio económico, resta-lhe desencantar, em penosa solidão, o engenho de fazer ouvir o sopro da AIma Universal na palavra em que se incuba a transformação da alma da humanidade.
Natália Correia
Lisboa, 28 de outubro de 1992.
VIOLÊNCIA E PAIXÃO
Quando se percorre a poesia escrita por mulheres ao longo do século XX português, o nome de Natália Correia continua a surgir como um dos que causaram uma repercussão mais duradoura, quer pela sua personalidade forte e polémica, quer pelo alcance da sua obra literária, na qual sempre se manifestou uma vocação poderosamente dionisíaca e por isso excessiva, capaz de apreender magicamente a realidade e de a transfigurar mediante uma rica imaginação metafórica, sobretudo a partir de "Dimensão Encontrada" (1957), já que os seus primeiros livros ("Rio de Nuvens", de 1947, e "Poemas", de 1955) exprimiam ainda uma atitude lírica mais tradicional.
É antiga a questão de saber até que ponto Natália Correia poderá ou não considerar-se uma escritora surrealista, embora nunca tenha pertencido a qualquer movimento com esse nome: definida algures por Claude Roy como «la violence surréaliste faite femme», a própria Autora terá admitido alguma proximidade com a visão surrealista do mundo, essencialmente no que toca a uma «identificação entre a poesia e a magia», na medida em que ambas procuram o acesso a uma alquimia libertadora. Trata-se, no fundo, de uma radical vontade criadora, de um desejo de libertar a linguagem de todos os constrangimentos e de dar livre curso à imaginação, como podemos sentir num texto que nos fala de uma ressurreição apta a transformar a morte em vida e a tristeza em alegria: «A harpa do vento / e os meus dedos de ventania / compuseram uma canção / da mais fantástica alegria. // (...) // É uma onda de magia / onde se enrolam os mortos / erguidos da terra fria / dum rosto que lhes pintou / a nossa melancolia.»
Foi sob o efeito do irresistível impulso dessa «onda de magia» que se construiu o essencial da escrita de Natália, em que um dos traços mais flagrantes consiste numa posição (sempre reafirmada) de rebeldia diante das instituições e dos poderes estabelecidos ou de quaisquer regras impostas pela força. Até certo ponto, é como um sinal dessa rebeldia que se compreendem as incursões da Autora no campo da poesia satírica e humorística, dirigida contra figuras ou acontecimentos da esfera política, como sucede na sequência das «Cantigas de Risadilha» — composta por poemas que ridicularizam episódios da vida parlamentar que Natália acompanhou enquanto foi deputada —, assim como em toda a "Epístola aos Iamitas" (1976), cujos sonetos constituem reflexões ora entusiásticas, ora sobretudo corrosivas, a respeito do Portugal pós-25 de Abril e disso a que na altura se chamou o P.R.E.C. (Processo Revolucionário Em Curso), perante o qual se manifesta por vezes uma dolorosa desilusão: «E veio Abril: cravos camonianos / aparelharam da liberdade as barcas. / Do verde pinho as flores foram-me enganos, / as tecelãs do sonho eram as parcas. // Da podridão variam os estados: / magicamente os nomes são mudados; / intacto o pasto vil das varejeiras.»
A mesma faceta surge igualmente em certos poemas isolados, como a célebre «Queixa das Almas Jovens Censuradas», fazendo eco de um profundo grito de revolta que preza, acima de tudo, a liberdade do poeta contra todas as formas de sujeição. E é também isso a estar em jogo num outro texto muito conhecido («A Defesa do Poeta»), aliás escrito com a intenção de ser lido no Tribunal Plenário que no tempo da ditadura acusou Natália Correia: «Senhores juízes sou um poeta / um multipétalo uivo um defeito / e ando com uma camisa de vento / ao contrário do esqueleto. // (...) // Sou (...) / uma avaria cantante / na maquineta dos felizes. / (...) // Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever. / Ó subalimentados do sonho! / A poesia é para comer.»
Lido este excerto, convirá atender a dois aspectos: por um lado, mesmo levando em conta o intuito profundamente afirmativo do texto (que desenvolve a vigorosa declaração: «sou um poeta»), o lugar de quem escreve poesia surge relacionado com uma excepcionalidade inquietante ou perturbadora, já que se identifica com um «defeito» ou uma «avaria cantante / na maquineta dos felizes», que corresponderiam à cinzenta maioria; por outro lado (e refiro-me agora aos dois últimos versos), acentua-se a dimensão gustativa, sensorial ou carnal da poesia, inscrevendo-se num entendimento global do mundo em que «o espírito é tão real como uma árvore», pressupondo uma integração harmoniosa na natureza. Ficamos, portanto, dentro de uma unidade fundamental entre todas as coisas humanas e cósmicas, naturais e divinas: «Vem das estrelas o sangue que nos guia / E na amorosa perfeição da carne / Está toda a eternidade resumida.»
Perante versos como estes, pode dizer-se sem grande exagero que Natália Correia nos deu, do princípio ao fim da sua obra, uma visão religiosa da existência, alicerçada não em qualquer adoração de um Deus ou num rito eclesiástico específico, mas numa espécie de comunhão pagã entre o eu e tudo o que o rodeia, religando-se a um universo do qual pretende auscultar os sinais, como se estivesse diante de um segredo que só a alguns é permitido desvendar e que a poesia aguarda, como se esperasse «o romper da manhã na noite mística». De facto, na escrita de Natália o conhecimento quase nunca se produz pela via intelectual e corresponde, acima de tudo, ao amor: fiel à tradição lírica portuguesa e à sua predilecção por temas amorosos, a Autora convoca sentimentos simultaneamente carnais e espirituais, porque neste caso é a partir dos sentidos que se intui a hipótese (ou a certeza?) de um sentido que os excede — veja-se o início do poema «Pórtico»: «Corpo, alma, razão, já os cantei, / estreme, sem me isentar em pseudónimos. / Antífrases de mim as assinei. / Contrários indaguei: eram sinónimos. // O Espírito agora cantarei. / Corpo, alma, razão lhe são compósitos.»
Também enquadrado no mesmo propósito de união e ampla comunhão universais está um politeísmo estrutural que leva a poesia desta «feiticeira cotovia» a celebrar a beleza do mundo, conotando-a com a presença do sagrado que o povoa e assim reflecte os poderes de uma pluralidade de deuses e deusas cujo culto, em vez de exigir submissão — «Os deuses não nos querem de joelhos» —, nos convida, pelo contrário, a um esfusiante cântico da vida e do amor, do qual podem ser emblemas os Jardins de Adónis, onde se recusam os labirintos da racionalidade e se declara a superioridade das sensações, tornadas elas mesmas divinas: «Sentir nos baste. Ideias são reveses. / Da vida, as naturais disposições, / Sigamos, Flávio. Até que sejam deuses / As nossas sensações.»
Perto das sensações mais vibrantes se encontram, aliás, todos os elementos de uma natureza cujo incognoscível daimon feminino se condensa na famosa imagem da «Mátria», nem sequer demasiadamente erotizada no sentido mais comum que atribuímos à sexualidade humana, mas sobretudo transmissora de paz, de bem-estar e de reconciliação com um estado primitivo, maternal ou genesíaco do universo: «E se o mundo em ti principiava, / No teu mistério entre astros absortos, / Suavemente, ó mãe, tudo termina.» Também o Amor (com maiúscula) ultrapassa, deste modo, as habituais fronteiras que limitam a consciência individual, elevando-se ao mais alto grau de gnose mística e adquirindo o estatuto de uma sabedoria esotérica comparável à de uma verdadeira alquimia: «Indemne atravessei as labaredas / porque o Amor faz a Obra / e o fogo faz o Amor.»
Para concluir, digamos que toda a poesia de Natália Correia configura um «ofício das trevas», mergulhando nas águas de mistérios que não ousa decifrar e assentando numa ideia (surrealista) de libertação total do ser, num processo de comunhão iniciática. Trata-se de um ritual posto em jogo não apenas graças aos já mencionados poderes alquímicos da escrita, mas também por uma abertura à «Saudade» portuguesa que sempre fascinou a Autora — essa «retráctil flor da ausência», cujo místico perfil se recorta sobre o passado e sobre o futuro, parecendo conferir ao conjunto da obra de Natália Correia uma indestrutível crença em qualquer coisa que extravasa os mesquinhos limites da razão humana. Na esteira dos românticos ou dos seus herdeiros surrealistas, é sempre muito para lá de tais limites que esta poesia nos deseja convocar, arrastando-nos para uma dimensão soberanamente libertadora da realidade e da linguagem — como se lê no texto final dos "Sonetos Românticos", que funciona como um «credo»:
«Creio nos anjos que andam pelo mundo, / Creio na Deusa com olhos de diamantes, / Creio em amores lunares com piano ao fundo, / Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, // Creio num engenho que falta mais fecundo / De harmonizar as partes dissonantes, / Creio que tudo é eterno num segundo, / Creio num céu futuro que houve dantes, // Creio nos deuses de um astral mais puro, / Na flor humilde que se encosta ao muro, / Creio na carne que enfeitiça o além, // Creio no incrível, nas coisas assombrosas, / Na ocupação do mundo pelas rosas, / Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen».
Fernando Pinto Do Amaral, "Violência e Paixão", prefácio a Antologia Poética. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2002.
Natália
Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923 em Fajã de Baixo, concelho de
Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, e morreu em Lisboa na madrugada de
16 de Março de 1993.
Nascida no seio de uma família da pequena-média burguesia dos arredores de
Ponta Delgada, permaneceu até aos onze anos na ilha, aí se deixando impregnar
de vivências e imagens que viriam a constituir um dos mais sólidos e
recorrentes motivos de toda a sua produção artístico-literária.
Depois, acompanhada da mãe e da irmã, partiu para a capital, onde se
radicou e viria a destacar-se como uma das mais influentes figuras intelectuais
da segunda metade do século.
É autora de uma obra extensa e multifacetada, que integra a poesia, a prosa
de ficção, o teatro, o ensaio, a diarística, a tradução e a organização de
antologias.
Colaborou assiduamente na imprensa, impôs-se na televisão com o programa
“Mátria”, realizou numerosas conferências e está traduzida em várias línguas.
Tomou posições de grande coragem, quer antes, quer depois do 25 de abril, o
que lhe valeu ter sido eleita deputada à Assembleia da República.
Na base de toda a sua intervenção na coisa pública está a sua orgânica
aversão a qualquer tipo de totalitarismo.
Dotada de um espírito desassombrado e de um forte sentido da
convivialidade, Natália Correia — que chegou a dirigir a editora Arcádia
(1973), além de importantes publicações (Século Hoje e Vida
Mundial, em 1976) — tornou-se no natural polo agregador de boémios,
artistas e personalidades representativas dos vários meios sociais do país.
Na vida noturna lisboeta, ficaria célebre o Botequim, bar que abriu no
Largo da Graça, em 1971, com Isabel Meyreles.
Mas o essencial da sua vida está, como ela mesma fazia questão de acentuar,
na sua obra literária, especialmente em O sol nas noites e o luar nos
dias, título sob o qual, pouco antes de morrer, reuniu toda a sua obra
poética. Aqui se “cantam”, “narram” e “dramatizam” os sucessivos lances de um
trajeto existencial consagrado por completo ao conhecimento dos homens, das
coisas e das palavras.
Desde cedo, a escritora assumiu-se como herdeira espiritual de um Ocidente
que via assolado por graves dissensões — um Ocidente que reduzira a moderna
emancipação do homem ao fanatismo do progresso. Daí o duplo e contraditório
posicionamento nataliano em relação aos rumos da chamada modernidade: por um
lado, intransigente denúncia do racionalismo, do economicismo e do sociologismo
de extração iluminista; por outro, galvanizante defesa e ilustração da arte
moderna, entendida esta como um domínio capaz de cicatrizar feridas, de
reunificar o todo, ao articular dialeticamente o futuro com o passado, a rutura
com a tradição — seja a tradição do novo, que remonta aos primórdios de Oitocentos
e inclui formas, ritmos e géneros populares; seja a tradição dita clássica, de
que foi conhecedora profunda, nos seus vários sucedâneos; seja finalmente a
Tradição pura e simples, a Tradição das tradições, que mergulha na espessura de
remotos saberes e experiências. Esta sua fidelidade à modernidade estética
traduzir-se-á numa especial forma de fidelidade ao alto romantismo — agregador
por excelência quer da Memória, do Amor e da Imaginação (na lógica profunda da
sua poesia, traves-mestras de qualquer existência votada à necessidade de se
entender e de se merecer), quer dos múltiplos “registos” artísticos que convoca
(o virtuosismo barroco; o clima simbolista ou pós-simbolista de alguns poemas
“místico-patrióticos”, o exaltante espraiamento de Cântico do país
emerso, o óbvio fascínio pelo universo libertador do surrealismo...), quer
das três distintas vozes que de si o tempo fora destilando.
Destas vozes, a que primeiro se gera e avulta é obviamente a particular, a
mais “egológica” e lírica de todas, voz por detrás da qual se adivinham, ainda
que muito transformadas, experiências e comoções realmente vividas ou sentidas
por uma irredutível subjetividade. Surpreendemo-la, operosa e insinuante,
sobretudo nos seus livros iniciais — Rio de Nuvens(1947), Poemas (1955), Dimensão
Encontrada (1957), Passaporte (1958) —, aqueles
livros onde o eu, graças à magia da palavra poética, procura precisamente
“encontrar” a sua “dimensão”, lograr o “passaporte” que lhe faculte a
identidade e o reconhecimento. Trata-se de uma voz intrinsecamente saudosa,
filha dileta da Sehnsucht romântica, que ora se mostra presa
ao passado, ao paraíso perdido da infância (a ilha, a mãe, a casa, o quarto, a
natureza consonante...), ora se mostra enfeudada ao futuro, a um além que o
mistério cerra mas que ela vislumbra no verbo por lampejos.
A segunda voz de Natália — meio sibila, meio libertária... — é aquela que
impera em Comunicação (1959), Cântico do País Emerso (1961), O
Vinho e a Lira (1966), Mátria (1968),A Mosca
Iluminada (1972), O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro (1973)
e Epístola aos Iamitas (1976), livros cujos títulos dão bem a
ideia da inflexão em profundidade então registada no romantismo nataliano.
Agora ela já não é só ela, encruzilhada de forças contraditórias, espaço oferecido
ao ilimitado e ao intangível; agora ela é também, e sobremaneira, a “feiticeira
Cotovia”, maga insubmissa, herdeira designada de antiquíssimos ritos e
mistérios. À poetisa está-lhe reservada a mais alta e sagrada das missões: a
de, pelo “vinho” e pela “lira”, mudar a vida dos Homens e das Cidades,
levando-os à recuperação da verdade que esqueceram e junto da qual habitam
desde o princípio dos tempos. A última das vozes natalianas — a d’ O
Dilúvio e a Pomba (1979), d’O Armistício (1985) e de Sonetos
Românticos (1990) — traduz um acontecimento decisivo da vida da
poetisa: a gratífica consciencialização do excecional dom ou favor que merecera
do Espírito, entidade agora dominante, devotadamente elevada a princípio dos
princípios. À medida que o tempo foge e o Eterno a intima, Natália quer ser
mais do que musa ou vate eméritos; quer encontrar uma via que aprofunde e
sobreleve o Mistério e a Tradição antes cantados; quer, por assim dizer,
tornar-se sófica, votar-se por inteiro à sabedoria, que outra coisa
não há que melhor distinga a sua condição de eleita. Em definitivo convicta de
que o poeta e o sacerdote são um só, como nas origens o haviam sido, Natália
pugna pela harmonia universal das coisas e dos seres, pela confluência de mitos
regressivos e projetivos, pela diluição das galvanizantes vivências do porvir
nas longínquas experiências do passado.
Conforme houve oportunidade de referir, em estudo mais desenvolvido e aqui
parcialmente retomado (Pimentel, 1999), todas estas vozes globalmente
românticas não equivalem a personalidades individuadas. São, no essencial,
vozes de uma mesma voz; estádios (noutra perspetiva: níveis) de uma vida
soberanamente imolada à Vida maior que nela pulsa. Daí que elas, devidamente
adaptadas aos ditames modais e genéricos de cada texto, se afigurem de
indiscutível produtividade para todos quantos pretendam abordar outras obras de
Natália Correia. Recorde-se, por exemplo, no âmbito da narrativa, do
romance A Madona (1968), que pugna pela recuperação e
ressacralização da mulher genuína, e da novela As Núpcias (1990),
que exalta o androginismo e a fraternidade primordiais. Ou ainda, no âmbito
teatral, de peças como O Encoberto (1969), que insiste no tema
do messianismo, de A Pécora (1983), que procede à
desmistificação do “mercado religioso” (ver o respetivo prefácio) ou de Erros
Meus, Má Fortuna, Amor Ardente (1981), sem dúvida uma das mais
significativas experiências entre nós realizadas nos domínios da “festa” e do
“espetáculo” cívicos.
*
Senhora
de uma vasta cultura, deveu-a essencialmente ao convívio com intelectuais e à
sua incansável actividade de leitora, tendo em sua casa uma das melhores
bibliotecas de Lisboa.
Aos 20
anos era jornalista no Rádio Clube Português. No final da Segunda Guerra
Mundial, assinou as listas do MUD (Movimento de Unidade Democrática). Amiga de
António Sérgio, torna-se frequentadora do Chiado e das livrarias onde se reúnem
escritores e políticos. Na década de cinquenta a sua casa vai ser uma espécie
de salão literário, frequentado pelos mais diversos artistas, como o escultor
Martins Correia, Almada Negreiros e representantes do movimento surrealista. Aí
será mesmo representada a peça de Jean-Paul Sartre Huis-Clos,
proibida pela censura.
No
período de campanha do general Humberto Delgado à Presidência da República,
afluem a casa de Natália Correia poetas, romancistas, pintores e expoentes de
diversos quadrantes da oposição ao salazarismo.
Em
1969, Natália Correia combate a ditadura de Marcelo Caetano no CEUD, ao lado de
Mário Soares e Salgado Zenha. Como proprietária do bar O Botequim, aí junta
amigos, escritores, gente de teatro, boémios, criaturas excêntricas, um pequeno
mundo onde reina, com a sua irradiante mescla de narcisismo e generosidade.
Depois
do 25 de Abril de 1974, lá se encontram, entre outras, estrelas do PREC, os
protagonistas do Grupo dos Nove. Primeiro afecta ao PS, depois ao PPD de Sá
Carneiro e, por fim, ao PRD, foi deputada pelo PPD à Assembleia da República,
de 1979 a 1980 e de 1980 a 1983 e pelo PRD, como independente, de 1987 a 1991.
Nos últimos anos da sua vida aproximou-se da esquerda.
Ensaísta,
cronista, teatróloga, romancista é, no entanto, na poesia que se revela
completamente, nela projectando erotismo, ânsia libertária, desafio
iconoclástico, sentido do fantástico, tudo isto com alguns ecos românticos e
acentuadas marcas surrealistas.
Luciano
Reis, Personalidades Artísticas. Século XX. 1º Volume
*
[Sobre Natália Correia, Jorge de] Sena disse:
"um poeta que se impôs pessoalmente e às suas atitudes, na vida literária
portuguesa […] pela forma como soube transformar o escândalo numa espécie de
terror sagrado do provincianismo embevecido". Esse pecado original
acompanhou-a até ao fim. A independência tem um alto preço (...). Em vida,
Natália foi respeitada e ridicularizada com igual convicção. Depois da sua
morte, lembro-me das palavras solidárias de David Mourão-Ferreira e Manuel
Alegre, enaltecendo no Parlamento a memória da "feiticeira cotovia".
De resto, a generalidade dos companheiros de geração olhou para o lado, numa
reserva que traduz o preconceito da intelligentsia contra a autora
de Mátria. (…)
Poeta,
ensaísta, dramaturga, ficcionista, estudiosa de cantares galego-portugueses, da
tradição erótica e satírica, do barroco, do surrealismo, de certas vertentes do
oculto, e de outros assinalados domínios (...), Natália foi uma vítima do
obscurantismo soez dos ominosos tempos da ditadura, mas, ironia suprema, a
democracia foi-lhe fatal.
Eduardo
Pitta, "Entre o perfume e a morte”, in Comenda de Fogo, Ed.
Círculo de Leitores, 2001
*
"Senhora
da Rosa", chamou-lhe Manuel Alegre e falava de Natália Correia
SENHORA
DA ROSA, chamou-lhe Manuel Alegre e falava de Natália Correia. Uma rosa de amor
e morte de uma poetisa que não aceitava a ditadura da razão e da perceção
redutora dos cinco sentidos. Ela era mais do que isso, era a pitonisa, a vestal
iluminada, uma máquina de passar vidro colorido, como disse Mário Cesariny,
referindo-se à sua dimensão cromática.
“A
Natália era um daqueles seres muito raros que vêm do futuro, que vêm adiantados
ao tempo, que não cabem no tempo, nem no espaço, nem no corpo, nem nos comportamentos
que nos estão destinados. Ela ultrapassava, extravasava tudo isso.” –
depoimento de Fernando Dacosta em “A Senhora da Rosa (Natália Correia)”,
um documentário realizado
por Teresa Tomé para a RTP-Açores, em 1999, que nos leva ao encontro de Natália
Correia, seguindo um caminho que ela própria traçou - A partir de agora, se
alguém me quiser encontrar, procure-me entre o riso e a paixão.