quinta-feira, 10 de maio de 2018

Ricardo Reis




uma arte de viver
Ricardo Reis 

Ricardo Reis nasce no Porto, forma-se em Medicina e tem de se exilar ao Brasil por ser monárquico. Os principais traços da sua escrita são: 
Neoclassicismo: latinismo e semi-helenismo (odes). 
Intemporalidade das suas preocupações: brevidade da vida, morte, sofrimento....



Na poesia de Ricardo Reis, há um sentimento da fugacidade da vida, mas ao mesmo tempo uma grande serenidade na aceitação da relatividade das coisas e da miséria da vida.
A vida é efémera e o futuro imprevisível. "Amanhã não existe", afirma o Poeta. Estas certezas levam-no a estabelecer uma filosofia de vida, de inspiração horaciana e epicurista, capaz de conduzir o homem numa existência sem inquietações nem angústias.
Reconhecendo a fraqueza humana e a inevitabilidade da morte, Reis procura uma forma de viver com um mínimo de sofrimento. Por isso, defende um esforço lúcido e disciplinado para obter uma calma qualquer.
Na linha do poeta latino Horácio, Reis considera importante o carpe diem, o aproveitar o momento, o prazer de cada instante.
Sendo um epicurista, o Poeta advoga a procura do prazer sabiamente gerido, com moderação e afastado da dor. Para isso, é necessário encontrar a ataraxia, a tranquilidade capaz de evitar qualquer perturbação. O ser humano deve ordenar a sua conduta de forma a viver feliz, procurando o que lhe agrada.
A obra de Ricardo Reis apresenta um epicurismo triste, uma vez que busca o prazer relativo, uma verdadeira ilusão da felicidade por saber que tudo é transitório (ex.: Vem sentar-te, comigo, Lídia).
A apatia, ou seja, a indiferença, constitui o ideal ético, pois, de acordo com o Poeta, há necessidade de saber viver com calma e tranquilidade, abstendo-se de esforços inúteis para obter uma glória ou virtude, que nada acrescentam à vida.
Próximo de Caeiro, há na sua poesia a aurea mediocritas, o sossego do campo, o fascínio pela natureza onde busca a felicidade relativa.
Discípulo de Alberto Caeiro, Ricardo Reis refugia-se na aparente felicidade pagã que lhe atenua o desassossego. Procura alcançar a quietude e a perfeição dos deuses, desenhando um novo mundo à sua medida, que se encontra por detrás das aparências.
Afirma uma crença nos deuses e nas presenças quase-divinas que habitam todas as coisas. Afirma que os homens se devem considerar "deidades exiladas", com direito a vida própria.
Considera que sendo o destino "calmo e inexorável" acima dos próprios deuses, temos necessi­dade do autodomínio, de nos portarmos "altivamente" como "donos de nós-mesmos", construindo o nosso "fado voluntário". Devemos procurar, voluntariamente, submetermo-nos, ainda que só possamos ter a ilusão da liberdade.
Pagão por caráter e pela formação helénica e latina, há na sua poesia uma actualização de estoicismo e epicurismo, juntamente com uma postura ética e um constante diálogo entre o passado e o presente.

(in Preparação para o Exame Nacional 2010. Português 12º Ano, Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Porto Editora, 2010, pp. 40-41)



TEXTOS DE APOIO

Texto 1

Representa o poeta clássico, quer na mentalidade, quer no estilo. É pagão, acreditando em todos os deuses antigos e segue uma ética entre o epicurismo e o estoicismo: em tudo procurar moderação, quer no prazer, quer na dor. A moderação, a calma, a tranquilidade, deve ser a grande regra do homem. Há uma velada tristeza nos seus poemas, talvez o disfarce de um esforço lúcido para se adaptar ou para evitar os piores efeitos da fatalidade:

Estás . Ninguém o sabe. Cala e finge
Mas finge sem fingimento,
Nada esperes que em ti não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

O estilo das Odes de Ricardo Reis utiliza todos os ingredientes do Classicismo: o epicurismo do Carpe Diem (vive o dia de hoje) e a áurea mediocritas de Horácio, a teoria do fluir inexorável da vida, de Heráclito, o uso estilístico de ordem inversa (hipérbato), o emprego de latinismos, quer de palavras (termos eruditos, gerúndio dos verbos), quer de construções.
Reis distancia-se de Caeiro porque aceita a força ordenadora da razão, porque pensa que “as coisas devem ser sentidas não como são mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regra clássicas” (F.Pessoa). O próprio estilo de Ricardo Reis, elegante e cuidado, manifesta bem a tentativa de adequar a linguagem (a forma) a uma concepção do mundo e da vida. Ao contrário, Caeiro julga que “as coisas não têm significado: têm existência”.
Aproxima-se de Caeiro no seu paganismo (“Cristo é apenas um deus a mais”) e no seu apego à natureza campestre (áurea mediania). Note-se, porém, que em Caeiro a observação da natureza se realiza numa aceitação alegre, ao passo que em Ricardo Reisapenas uma satisfação aparente, uma serenidade que esconde um recôndito desespero, como se o poeta fosse um desterrado num mundo estranho.

(António Afonso Borregana, Fernando Pessoa e Heterónimos, Lisboa, Texto Editora, 1995).



TEXTO 2

Angustiado perante um Destino mudo que o arrasta na voragem, Reis procura na sabedoria dos antigos um remédio para os seus males. Também os Gregos sofreram agudamente a dor da caducidade e o peso da Moira cruel. Simplesmente, optaram por aceitar com altivez o destino que lhes era imposto. Reconhecendo que a vida terrena outorgada a cada um, não obstante a sua instabilidade e contingência, é o único bem em que podemos, até certo ponto firmar-nos, souberam construir a partir dele uma felicidade relativa, encarando com lucidez o mundo e compensando a sua radical imperfeição pela criação estética, fazendo da própria vida uma arte.
Reis copia-lhes o exemplo. Não hesita em confessar a Lídia que, de qualquer modo, prefere o presente precário a um futuro que teme porque o desconhece. Mas como habilmente fruir do pouco que nos é dado - o dia que passa?
O poeta deixa-se tentar pelo ópio da perfeita inconsciência. Considera o contentamento dos que vivem distraídos: o sábio austero, entregue á sua estéril ocupação, o lavrador que «goza incerto / A não pensada vida”. Ele próprio algumas vezes experimentou viver exterior a si, como os campos, regressar ao Caos e à Noite. Mas a noção da dignidade humana, «o orgulho de ver sempre claro», fá-lo, quer arrepiar caminho, refluir ao eu consciente, quer encarar o destino frente a frente, lúcido e solene: «Antes, sabendo / Ser nada, que ignorando: / Nada dentro de nada”. nisto segue Epicuro, para quem «uma clara percepção das coisas» era o melhor dom que sobre a Terra podíamos desejar.
Embora com tintas de estoicismo, devidas talvez ao facto de ser Horácio o seu autor de cabeceira, Reis formula uma filosofia da vida cuja orientação é, na verdade, epicurista (epicurismo também haurido, em parte, se não quase exclusivamente, na poesia do Venusino). O homem de sabedoria edifica-se, conquista a autonomia interior na restrita área de liberdade que lhe ficou. Essa conquista começa por um acto de abdicação: «Abdica / E sê rei de ti próprio». Reis propõe-se e propõe-nos um duro esforço de auto­disciplina. O primeiro objecto é a submissão voluntária a um destino involuntário, que deste modo cumprimos altivamente, sem um queixume: «Teu íntimo destino involuntário / Cumpre alto. Sê teu filho». O homem de sabedoria chega a antecipar-se ao próprio destino, aceitando livremente a morte: «E quando entremos pela noite dentro / Por nosso entremos”. O segundo objectivo é evitar as ciladas da Fortuna, depurando a alma de instintos e paixões que nos prendam ao transitório, alienando a nossa vida. Com Epicuro, o filósofo da «cariciosa voz terrestre”, que via tranquilamente a vida «á distância a que está”, digno como um deus, aprendeu Reis que a ataraxia é a primeira condição de felicidade. A ataraxia, note-se, não implica para Epicuro ausência de prazer mas indiferença perante todo o prazer que nos compromete, colocando-nos na dependência dos outros ou das coisas. Além da sensação elementar de existir, os prazeres tipicamente epicuristas são espirituais, como a volúpia levemente melancólica de recordar os bons momentos do passado.

(Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, pp. 36-37)

Fernando Pessoa, por Sabat


Avalie os seus conhecimentos acerca do heterónimo pessoano Ricardo Reis.

1. Ligue os segmentos frásicos das duas colunas.

1. Ricardo Reis, tal como Caeiro,
a) considerando o seu exercício mental em desejar atingir a felicidade de um modo comedido.
2. Apesar de apresentar alguns pontos comuns com o seu mestre,
b) recorre à ode, à mitologia e aos latinismos.
3. O heterónimo de raízes clássicas vai abdicar dos prazeres intensos,
c) são alguns dos conselhos de Ricardo Reis, seguidor do carpe diem horaciano.
4. Evitar as preocupações e gozar moderadamente o momento presente
d) revela-se pagão, aceitando a ordem das coisas ao gozar a vida, pensando o menos possível.
5. Adaptando uma postura de tranquilidade imperturbável,
e) comprovado pelo recorrente uso do imperativo e do vocativo, de modo a transmitir uma lição de vida.
6. Como um clássico, este heterónimo
f) Ricardo Reis faz um exercício de autodisciplina para poder viver mais tranquilamente.
7. Na obra de Ricardo Reis, perpassa um tom didático
g) tal como preconizava o estoicismo.
8. Os ideais clássicos de equilíbrio e harmonia aplicam-se a Ricardo Reis,
h) designada de ataraxia, o homem poderá alcançar a felicidade, na perspetiva do heterónimo Ricardo Reis

(in Das Palavras aos Actos. Ensino Secundário. 12º Ano
Ana Maria Cardoso, Célia Fonseca, Maria José Peixoto, Vítor Oliveira, Porto, Edições Asa, 2005, p. 103)



2. Leia o poema “Não consentem os deuses mais que a vida

Não consentem os deuses mais que a vida.
Tudo pois refusemos, que nos alce
              A irrespiráveis píncaros,
              Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,
              Nem se engelha connosco
              O mesmo amor, duremos,
Como vidros, às luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,
              Só mornos ao sol quente,
              E refletindo um pouco.

Ricardo Reis, 17/07/1914 (Athena, n.º 1, Outubro de 1924)


Partindo do poemaNão consentem os deuses mais que a vida”, corrobore ou contrarie a seguinte afirmação: “A filosofia de vida do eu define-se pela aceitação voluntária do destino involuntário”.
(Complete os espaços do texto que se segue com as palavras/expressões que se seguem.)

1.         Sofrimento
2.        relativa
3.        refutável
4.        presente do conjuntivo
5.        máxima
6.        lucidez
7.        Imposto
8.       deuses
9.        destino involuntário
10.    Comparação
11.     Autodisciplina
12.    ausência de perturbação e de vivências violentas e profundas de paixões
13.    aceitação voluntária
14.   
15.     (inversão da ordem natural das palavras da frase)
16.    (“Tudo pois refusemos, que nos alce / A irrespiráveis píncaros, / Perenes sem ter flores”)
17.     epicuristas e estoicistas


Com efeito, neste poema, o sujeito poético demonstra uma ______________________ (“ de aceitar tenhamos a ciência”) do ______________________ (“Não consentem os deuses mais que a vida”) e até exorta o seu destinatário a partilhar com ele essa filosofia de vida, o que é transmitido pelo recurso ao ______________________, com valor incitativo, empregue na primeira pessoa do plural, pressupondo, portanto, um eu e um tu/vós.
A ideia de destino involuntário, dado ao homem pelos ______________________, é, assim, entendida pelo uso de uma espécie de ______________________ (proposição que não carece de demonstração por ser de evidência imediata), a qual não é, portanto ______________________.
O facto de colocar o verboaceitar”, como atitude a ter, associado à “ciência” e acompanhado do advérbio com sentido de exclusividade ______________________, mostra que a aceitação desse destino que nos é ______________________ é a única atitude validamente sábia. Assim, o homem conquista a liberdade que parecia perdida, dada a existência do destino. E de referir, também o recurso ao hipérbato ______________________, através do qual se destaca, na frase, o dito verbo.
O sujeito poético propõe-nos, deste modo, um duro esforço de ______________________, cujo primeiro objetivo é a submissão voluntária ao dito destino involuntário que, deste modo, cumprimos altivamente, como se de uma escolha nossa se tratasse, tomando-se paradoxalmente uma escolha nossa. Essa ideia de liberdade está também implícita na recusa de tudo o que possa significar duração, glória terrena ______________________, a fim de se chegar à morte de mãos vazias e com o mínimo de ______________________.
Na sua ânsia de procurar convencer o(s) outros desta sua filosofia de vida, o sujeito poético elucida melhor o(s) destinatário(s) (que implicou de forma bastante aberta), recorrendo à ______________________ entre esta forma de viver a vida, de “durar”, e a dos vidros: “(...) duremos / Como os vidros, às luzes transparentes /E deixando escorrer a chuva triste, / momos ao sol quente, / E reflectindo um pouco”.
Nesta ______________________ estão subjacentes os princípios das correntes filosóficas ______________________. Quer isto significar que, tal como os vidros se deixam atravessar pela luz, isto é, são transparentes à luz, e deixam “escorrer a chuva triste”, também nós, os homens, devemos deixar cumprir-se nossos destinos, sem reclamarmos nem contestarmos, apenas aceitando, de livre vontade, um destino involuntário (estoicismo). Para além disso, nesta ______________________ ainda transparecem os princípios da corrente epicurista, presentes na ______________________, ideias subjacentes à forma moderada como os vidros “se comportam”: “ momos ao sol quente / E reflectindo um pouco”.
Concluindo, o sujeito poético reconhece que a vida terrena concedida a cada um, não obstante a sua instabilidade e contingência, é o único bem em que podemos, até certo ponto, firmar-nos, construindo sabiamente a partir desse bem uma felicidade ______________________, encarando com ______________________ o mundo e conquistando a sua liberdade, aceitando voluntariamente o destino e rejeitando, também voluntariamente, os sentimentos fortes e o prazer, pois a ataraxia é a primeira condição de felicidade.

CHAVE DE RESPOSTA: 

13 – 9 – 4 – 8 – 5 – 3 – 14 – 7 – 15 – 11 – 16 – 1 – 10 – 10 – 17 – 10 – 12  - 2 – 6.


3. Ficha de aferição de leitura relativa aos heterónimos pessoanos Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Aqui.



Fonte:
LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO. Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/
literatura_portuguesa/FP_RicardoReis.htm, 2011-12-16.
2.ª edição: http://
lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/FP_RicardoReis.htm, 2016.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Alberto Caeiro


Alberto Caeiro
uma arte de ser



  • Na obra de Caeiro, há um objetivismo absoluto ou antimetafísico. Não lhe interessa o que se encontra por trás das coisas. Recusa o pensamento, sobretudo o pensamento metafísico, afirmando que "pensar é estar doente dos olhos".
     
  • Caeiro, poeta do olhar, procura ver as coisas como elas são, sem lhes atribuir significados ou sentimentos humanos. Considera que as coisas são como são.
     
  • Constrói uma poesia das sensações, apreciando-as como boas por serem naturais. Para ele, o pensamento apenas falsifica as coisas.
     
  • Numa clara oposição entre sensação e pensamento, o mundo de Caeiro é aquele que se percebe pelos sentidos, que se apreende por ter existência, forma e cor. O mundo existe e, por isso, basta senti-lo, basta experimentá-lo através dos sentidos, nomeadamente através do ver.
     
  • Ver é compreender. Tentar compreender pelo pensamento, pela razão, é não saber ver. Alberto Caeiro vê com os olhos, mas não com a mente. Considera, no entanto, que é necessário saber estar atento à "eterna novidade do mundo".
     
  • Condena o excesso de sensações, pois a partir de um certo grau as sensações passam de alegres a tristes.
     
  • Em Caeiro, a poesia das sensações é, também, uma poesia da natureza. "Argonauta das sensações verdadeiras", o Poeta ensina a simplicidade, o que é mais primitivo e natural.
     
  • Optando pela vida no campo, acredita na Natureza, defendendo a necessidade de estar de acordo com ela, de fazer parte dela.
     
  • Pela crença na Natureza, o Mestre revela-se um poeta pagão, que sabe ver o mundo dos sentidos, ou melhor, sabe ver o mundo sensível onde se revela o divino, em que não precisa de pensar.
     
  • Ao procurar ver as coisas como elas realmente são, sublima o real, numa atitude panteísta de divinização das coisas da natureza.
     
  • Nesta atitude panteísta de que as coisas são divinas, desvaloriza a categoria conceptual "tempo".
     
  • O poeta confessa não ter "ambições nem desejos". Ser poeta é a sua "maneira de estar sozinho".

(in Preparação para o Exame Nacional 2010. Português 12º Ano, Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Porto Editora, 2010, p. 40)



TEXTOS DE APOIO

Texto 1

Os aspectos biográficos da vida de Caeiro poderão contribuir para explicar a simplicidade que Caeiro, para si, reclama. Vendo-se como um simples "guardador de rebanhos", não admira que prefira a objectividade e a naturalidade próprias dos mais simples. Privilegia os órgãos dos sentidos, principalmente a visão e a audição, porque são estes que lhe permitem uma percepção exacta das coisas que existem na natureza e com ela e nele evoluem sem precisarem de uma explicação metafísica ou intelectual.
Para ele, há a realidade, por isso o tempo não existe e, consequentemente, não faz referência ao passado, nem ao futuro, mesmo porque todos os instantes reflectem a unidade do próprio tempo.
O facto de se interessar apenas por aquilo que as sensações captam faz dele um sensacionista. Adere espontaneamente às coisas e identifica-se com elas, interrogando-se sobre o porquê de se procurar o mistério das coisas e afirmando não saber mais que o rio ou a árvore ("O mistério das coisas, onde está ele?/(...) Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?/ E eu, que não sou mais do que eles, que sei eu disso?"). Por isso vai recusar o pensamento e rir daqueles que pensam ("Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas, / Rio como um regato que soa a fresco numa pedra.").
Estas afirmações de Caeiro reforçam o carpe diem, filosofia de vida que adopta o fruir da realidade, de uma forma livre e despreocupada, não vendo nas coisas nenhum sentido oculto, reduzindo-as à percepção que delas tem, à sua forma, à sua cor e à sua concretez.
Diz-se contrário à filosofia e apologista dos sentidos ("Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..."), mas a verdade é que cria a sua própria filosofia e um pensamento incomum, uma vez que, ao recusar o pensamento, teve de pensar nas razões que o levaram a fazê-lo.
De qualquer modo, após a leitura dos poemas de "O Guardador de Rebanhos", parece não restarem dúvidas quanto ao seu pendor simplista e reducionista, de forma a poder viver sem dor e envelhecer sem angústia, o que é confirmado pelo conjunto de processos estilísticos que emprega na sua poesia, realçando-se a abundância de substantivos concretos, a quase ausência de adjectivos (utiliza fundamentalmente os de teor cromático ou formal, isto é, sem valoração); recorre, ainda, ao presente do indicativo e à coordenação, excluindo as figuras do pensamento como a metáfora, a sinédoque, a hipérbole, a antítese, o que confirma também a sua tendência para a objectividade e para a redução. Em contrapartida, a poesia de Caeiro apresenta comparações e alguns paradoxos como forma de objectivar o próprio sujeito. A nível fónico, também não são visíveis recursos como as aliterações, assonâncias, ou onomatopeias, dado que a palavra, em Caeiro, praticamente se anula em favor do seu referente, facto que também pode ser explicado pelo versilibrismo que este adota, indiciando a lógica subjacente à poesia deste heterónimo pessoano e que assenta na crença na singularidade das coisas, mas que marca uma ruptura com os sistemas literários ainda vigentes.
Em conclusão, parece oportuno referir que a criação deste heterónimo terá permitido ao ortónimo libertar-se, quanto mais não fosse momentaneamente, da "dor de pensar" que sempre o atormentou, e com ela aprender a viver a vida de uma forma simples e espontânea, justificando-se, deste modo, a designação de Mestre.
(Maria Peixoto e Célia Fonseca, Português B)




Texto 2

É o poeta que aceita o mundo como ele é  sem curar de lhe investigar a natureza e a origem. O poeta vive na observação, pelos sentidos, do mundo real, no tempo presente. Para ele nãopassado, porque recordar é atraiçoar a natureza (que é apenas o agora); nãofuturo, porque o futuro é campo de miragens enganadoras. É, em suma, o poeta do real e do objectivo. os sentidos contam para ele e os olhos são o mais importante, talvez porque os olhos captam mais largamente o mundo real.
Não quer nada com a Filosofia: " Há metafísica bastante em não pensar em nada"; "o único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum". Mas note-se que tudo isto não passa de um belo jogo artístico. Com efeito, Caeiro, ao negar toda a Metafísica, está a raciocinar, está a construir uma nova metafísica: a antimetafísica.
Pessoa imaginou Alberto Caeiro como tendo apenas a 4º classe da instrução primária; era no entanto seu mestre e mestre de Ricardo Reis e de Álvaro de Campos (engenheiro). Mais uma prova de que tudo isto é apenas um jogo literário.
Mestre, Meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Foro acima do dilúvio da inteligência subjectiva...

                                                                                                     Álvaro de Campos

E o jogo continua. Como camponês que era ("guardador de rebanhos"), convinha que Caeiro não se revelasse num estilo muito culto. E, de facto, o predomínio da coordenação, as imagens e comparações comezinhas, a simplicidade do vocabulário, o predomínio dos sentidos denotativos, tudo isto dá à sua linguagem um nível próprio de um homem do campo, embora, paradoxalmente, com bastante cultura e sobretudo com hábitos de raciocinar. A sua linguagem é sobretudo abstracta, adaptada ao raciocínio, e nunca nela surge a descrição impressionista da realidade. O seu realismo ingénuo, paradoxalmente, desemboca sempre no raciocínio. Como poeta bucólico, Caeiro deveria basear a sua poesia na descrição visualista da natureza. Não não o faz, mas a sua linguagem é adaptada à exposição de uma teoria antimetafísica. Querendo repudiar qualquer filosofia, Caeiro transformou-se num poeta filósofo, ou antifilósofo.
Este poeta dá-nos a impressão de um homem culto que pretende despir-se da farda pesada de toda a cultura amontoada ao longo dos séculos: " O essencial é saber ver/ Saber ver sem estar a pensar, / Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!), / Isso exige um estudo profundo, / Uma aprendizagem de desaprender..." "Procuro despir-me do que aprendi".

(António Afonso Borregana, Fernando Pessoa e Heterónimos, Lisboa, Texto Editora, 1995, p.16)

Texto 3

Para se curar da sua tristeza de ser consciente, Fernando Pessoa, com a ajuda de Whitman, se sonhou Caeiro. O mundo existe, a realidade é o que vemos, tocamos e cheiramos, tudo o mais são falsos pensamentos de filósofos e filosofias doentes. Decadentes, como diria o seu mestre Nietzsche. Pareceria assim que de novo o sentido da Realidade, a alegria das coisas exteriores, a aceitação do presente na sua diversidade e contradição infinitas, punham um termo ao deprimente reinado do Sonho, ao pessimismo, à tristeza, à era da Decepção. Caeiro é a nossa reconciliação com o universo, o regresso à idade idílica da harmonia com a Natureza que, aliás, não é idílica. Na verdade, Caeiro é o mero Sonho desse Sonho. Nós não podemos recuperar a alma grega que o cristianismo corroeu sem remédio. Não podemos ser pagãos sem inocência. Caeiro não é uma saída verdadeira do labirinto do Tempo, o nada vivo em que estamos, como Pessoa visiona. É uma porta pintada para nos fazer crer que tocamos com mãos de vida e não de sombra o autêntico real. Foi com a invenção-Caeiro que Pessoa ascendeu à sua vida duplamente mítica e é com os versos de Caeiro e dos seus companheiros de ficção que o mito-Pessoa se tornou o símbolo da Modernidade se, por modernidade, se entender a redenção pelo humor da vivência do Absurdo e da Perdição da existência humana em busca de si mesma. Contudo, Pessoa-Caeiro não quebrou o círculo simbolista da Decepção senão pagando por ele um preço excessivo, transmutando (em ficção) a consciência infeliz em felicidade inconsciente.

(Eduardo Lourenço, Fernando, Rei da Nossa Baviera, Lisboa, IN-CM, 1986)


Texto 4

CAEIRO realiza-se, Caeiro não anseia, não sofre, não se esgota, não luta. Caeiro é feliz. Caeiro nem sequer pensa, Caeiro é. Tem a inocência de se limitar a ser, a aceitação de ser natural, sem subjetividade, superfície. Sem subjetividade, por isso, sem conflitos com o real. É um ser plano, a uma dimensão, sem profundidade, transparente. Esta é a sua originalidade. Porque não é de um humano ser humano assim. Antes de pedra, antes de árvore. Como se tivesse alcançado um estado de beatitude, em que nãorevolta, nem desejo, nem ânsia, nem sequer compreensão: sentidos. o contacto material com os outroscorpocomumnatureza, homens ou coisas. A metafísica está, assim, completamente posta de lado. Deus pode ser o que existe para os sentidos e sem qualquer ideia unificadora, racionalizadora, sem qualquer sistema.
O pensamento foi ultrapassado como se fase larvar desta iniciação e, agora, ver e sentir na pele são as únicas formas de relação com o real. Os símbolos da infância e da criança tornam-se inevitáveis. Caeiro é, talvez, uma nova abordagem do paraíso perdido, que os românticos nunca encontraram, porque nunca se desumanizaram, antes se complexizaram como humanos, seres únicos, incomuns, raros. Caeiro não. É comum e bom. Caeiro e os seus poemas são uma metáfora, uma construção alegórica para a doutrinação de umas quantas linhas: objectividade; negação do misticismo; negação da metafísica; negação do sentimentalismo social e individual; hipertrofia do natural no humano.
A poesia de Caeiro poderia correr o risco do se tornar campesina, bucólica, ao desenhar pequenos quadros desse tipo, mas estes quadros não são senão a metáfora dum estado de sossego, de tranquilidade, de paz existencial. Porquê o «guardador de rebanhos», a investidura no pastor? Figura pousada sobre e terra, o humano que é tão erva e tão bicho como os bichos e a erva com que se mistura. O pastor instituído como o que conhece a natureza intuitivamente, a sabe, com ela dialoga, domina as suas marés. Por isso, quem é Caeiro tem um pastor em vez de alma e rebanhos em vez de pensamentos. Caeiro, no entanto, conhece o que é ser humano e todo o seu rastro de sofrimento e angústias, pois essa sombra está na sua poesia em contra à luz que ele é («Pensar incomoda corno andar à chuva»). Também a natureza tem defeito, também a natureza adoece.
Caeiro não tem memória, não armazena nenhum código pronto a integrar (e a envelhecer) qualquer novo sinal. A abstracção foi eliminada. Nãoconceitos, há objectos. Nãosistema, há muitos elementos. Há a constante novidade. Há a inocência. Caeiro tem muitas vezes uma posse infantil da linguagem, pela eliminação dos mecanismos mais lógicos: a pronominalização, e adverbiação, a subordinação. Caeiro exibe repetições infindáveis, enumerações perfeitamente substituíveis por uma fórmula sintetizadora, enredos de coordenações. Uma escrita naïve.
Em tudo isto Caeiro não é, ainda assim, a natureza. Esta distância inultrapassável a que fica do seu alvo insinua nos seus versos uma nostalgia que acaba por ser resolúvel em termos naturais: «o sol nem sempre brilha».
Nãonada do óbvio na poesia de Caeiro. Dizer que a árvore é árvore não é uma evidência, muito mais nessa época do neo-romantismo e de simbolismo, em que os homens se vêem e si e aos seus fantasmas; dizer que uma árvore é uma árvore, em tal época, é quase uma revolução.

(in Vamos ler, Maria Almira Soares, Lisboa, Texto Editora, 1986 e 1987)


Texto 5

Caeiro apresenta-se como anti-metafísico, negando o valor ao pensamento (O Guardador de Rebanhos, I):

Os meus versos são contentes.
tenho pena de saber que são contentes,
Porque, se o não soubesse
Em vez de serem contentes e tristes
Seriam alegres e contentes.

O pensamento tem mesmo um valor negativo: se não pensasse os seus versos não teriam nada de tristeza, seriam apenas «alegres e contentes».
«Pensar incomoda como andar à chuva
Foi este incómodo de pensar que Fernando Pessoa nunca conseguiu evitar. vimos como a «dor de pensar» sempre o torturou, inventando muitas saídas para o drama do seu «eu» dividido entre o real e o imaginário, entre o ser e o não ser. A tentativa mais radical de fugir à «dor de pensar» foi esta de transferir a sua alma para um poeta bucólico que olha e sente o mundo com a simplicidade com que uma criança olha uma flor. Mas nem assim o poeta consegue libertar-se da inteligência que vem sempre toldar a simples alegria de ver: «Os meus pensamentos são contentes. / tenho pena de saber que são contentes», porque, assim, ficam «contentes e tristes».
A plena felicidade exige não o olhar simples de uma criança, mas também a sua inconsciência. Não é apenas nisto que o sistema de Caeiro claudica. Como se pode ver, por exemplo, no poema V de «O Guardador de Rebanhos», o poeta não é capaz de dispensar nem o pensamento, nem o raciocínio, nem a inteligência, para nos convencer de que para eleapenas sensaçõesEu não tenho filosofia: tenho sentidos»). O que poderemos concluir é que o poeta, ao negar a metafísica, está a construir uma anti-metafísica.

(António Afonso Borregana, Fernando Pessoa e Heterónimos, Lisboa, Texto Editora, 1995, pp. 63-64)


Texto 6

A temporalidade psíquica de Caeiro é estática: não recorda, não faz planos, nunca constrói - passa e cada instante é feito de uma duração igual à dos relâmpagos, ou à das flores, ou à das árvores, ou à do sol. É sempre um tempo objectivo que coincide exactamente com a sucessão do curso normal dos dias, das noites e das estações e com a diferenciação dos estados atmosféricos ou da paisagem. Faz da Natureza uma verdade absoluta, realidade com que se deve identificar na sua passagem à materialização ou à circunstância temporal. Nela, «as cousas não têm significação: têm existência». []
Alberto Caeiro não poderia evocar um passado sob pena de se contradizer. Nem deveria falar de um futuro. Querendo viver no instante, não tinha o direito de desejar a vida na permanência entre os instantes. Mas, por muito cuidadosamente que arquitecte a sua filosofia, deixa de quando em vez transparecer a marca humana numa poesia de ideias abstractas e impossíveis: redigindo umas notas biográficas para aviso de quem o ler, liga-se, forçosamente, a todo o tempo que passou e que está a passar e tem pena de ter amado porque «sentir é estar distraído» do que lhe merecia a atenção inteira. Afinal, vem-lhe à memória um sentimento...
Em relação a um tempo futuro, encara-o de três modos. O futuro é uma repetição de presentes de que colhe a essencialidade. É também a certeza da morte que o deixa inalterável - «...o sentido de morrer não me move» - que o seu desejo é simples como o que o cerca:

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre.
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...

Nesta duração plena da sobrevivência da obra de arte, perde-se a própria subjectividade da experiência temporal, porque se chega à temporalidade independente da pessoa e, portanto, a um pseudo-tempo.
Tem ainda, em relação a essa morte, um sentido de sobrevivência que encontra paralelo, novamente, na natureza:

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles terão a sua beleza, se forem belos.

Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Ao pensar no futuro, como ao pensar no passado, está a destruir-se por suas próprias mãos porque nega o que afirma ser o fulcro da sua vida: a vivência da realidade no momento, o nascimento a cada minuto.
Mas não se destrói quando evoca ou quando antevê. Destrói-se também ao construir o objectivismo paradoxal do seu tempo despido de características, sem intimidade nem qualidade, tempo humanamente impossível de realizar. E é assim que a vivência do tempo-natureza em Caeiro vai desaguar no tempo-nada.

(Maria da Glória Padrão, A Metáfora em Fernando Pessoa, Porto, Inova, 1973)

Texto 7
Um dos documentos mais interessantes do espólio de Fernando Pessoa (1888-1935) é sem dúvida o manuscrito de O Guardador de Rebanhos, autógrafo assinado por Fernando Pessoa e Alberto Caeiro, um dos heterónimos do poeta. Talvez não seja a mais importante peça do espólio, mas, como diz Ivo Castro no prefácio à edição deste texto, "por servir de sede completa a um dos seus grandes ciclos de poemas, por pôr em causa a versão do próprio Pessoa sobre a génese dos heterónimos, por fornecer amplos meios de corrigir o texto-vulgata doGuardador de Rebanhos, por documentar reveladoramente os métodos de trabalho e de criação textual do poeta e, finalmente, por se ter conservado na obscuridade nos últimos quarenta anos, desconhecido do público e da maioria dos pessoanos, - por esses motivos todos o presente manuscrito [...] merecerá sem dificuldade ser considerado uma das jóias da coroa".
Na verdade, este manuscrito parece à primeira vista confirmar esse "dia triunfal" a que se refere Pessoa na famosa carta a Casais Monteiro (13 de Janeiro de 1935) sobre a génese de O Guardador de Rebanhose do seu heterónimo Alberto Caeiro:
"Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de Março de 1914 - acerquei-me de uma cómoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título - 'O Guardador de Rebanhos'. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive."
Guardador é um ciclo de 49 poemas, que foi publicado na íntegra pela primeira vez em 1946, no volume intitulado Obras Completas de Fernando Pessoa. III. Poemas de Alberto Caeiro (Lisboa, Ática, 1946). O presente manuscrito inclui estes 49 poemas, escritos no mesmo tipo de papel, com o mesmo tipo de instrumento de escrita e a mesma caligrafia. Esta "unidade de escrita, de local e de tempo de concepção" parecem sugerir que este ciclo de poemas foi escrito de um jacto e "em êxtase". Mas uma leitura atenta do manuscrito permite mostrar que assim não é.
Em primeiro lugar, a letra caligráfica, muito igual e desenhada, não parece ser compatível com uma escrita inspirada e veloz. Em segundo lugar, em vez de um, temos vários instrumentos de escrita: foram utilizadas quatro canetas diferentes no corpo do próprio texto. E, por último, o grande número de emendas, feitas em diversos momentos, e utilizando sete materiais diferentes, desmentem "a suposição de ter o Guardador nascido com o texto em estado definitivo".
A encenação desse "dia triunfal" é ainda desmentida pelas várias dezenas de rascunhos e cópias intermédias conservadas no Espólio da BN. Estes documentos mostram que no processo de escrita do Guardador houve pelo menos três fases distintas: uma fase de rascunhos (versões existentes no espólio), uma fase de passagem a limpo (o presente manuscrito) e uma fase posterior de emendas (presentes neste manuscrito).
Outro aspecto a salientar diz respeito à datação. No final do manuscrito surge a data "1911-1912", com a mesma caneta utilizada na assinatura "Alberto Caeiro". No entanto, alguns poemas estão datados no final a tinta vermelha, a mesma tinta que é usada na assinatura "Fernando Pessoa", que vem a seguir à do heterónimo. Estas datas (entre Março e Maio de 1914) colocadas posteriormente no final dos poemas, parecendo ser as ficcionadas (a primeira que surge é a do famoso "dia triunfal"), são provavelmente as que mais se aproximam da realidade, se tivermos em conta as datas dos rascunhos existentes no espólio, de Março a Maio de 1914, embora algumas não coincidam. E se não coincidem, surge uma nova dúvida: serão também inventadas as datas dos rascunhos? Provavelmente não, mas em Pessoa nem sempre é fácil distinguir ficção de realidade.
O interesse da divulgação deste documento reside ainda no facto de, tendo sido ele a fonte do texto publicado pela Ática (para os poemas não publicados em vida), permitir ao leitor o confronto entre o texto publicado e o original que lhe serviu de base. A Ática optou pela lição inicial e não pela versão final, que é considerada a lição mais autorizada por ter sido a única que o autor não repudiou, embora, na verdade, nunca se possa vir a saber se a repudiaria mais tarde. Mas um texto poético é sempre um texto aberto, e ao editor cabe apenas a obrigação de respeitar a última vontade do autor.
Manuela Vasconcelos

BIBLIOGRAFIA
Castro, Ivo (1981). "Para o texto de 'O Guardador de Rebanhos'". Sep. das Actas do Colóquio 'Critique Textuelle Portugaise' (Paris, 20-24 Out. 1981). Paris: Fundação Calouste Gulbenkian, 1986, pp. 319-328.
Castro, Ivo (1982). "O corpus de 'O Guardador de Rebanhos' depositado na Biblioteca Nacional". Sep. da Revista da Biblioteca Nacional, 2 (1), 1982, pp. 47-61.
Pessoa, Fernando (1986). O manuscrito de O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro. Edição fac-similada. Apresentação e texto crítico de Ivo Castro. Lisboa: D. Quixote, 1986.
Pessoa, Fernando (1946). Poemas de Alberto Caeiro. Lisboa: Ática, 1946 (Obras Completas de Fernando Pessoa, III).


© Biblioteca Nacional, 2004. http://purl.pt/369/1/ficha-obra-guardador-rebanhos.html






Avalie os seus conhecimentos acerca do heterónimo pessoano Alberto Caeiro.
 
1. Ligue os segmentos frásicos das duas colunas.
 
1. Com Alberto Caeiro,
a) serve de exemplo a Alberto Caeiro e a Ricardo Reis, adeptos da aurea mediocritas.
2. Caeiro é o chefe
b) de uma pequena companhia teatral que representa a sua peça no palco da poesia.
3. Para todos eles, incluindo o ortónimo,
c) que é vivido por Alberto Caeiro, ao privilegiar as sensações oferecidas pelos diversos órgãos sensoriais.
4. O poeta de "O Guardador de Rebanhos"
d) Pessoa quis criar um pólo de referência para as suas outras personagens.
5. Alberto Caeiro recusa o pensamento metafísico,
e) é autodidata, de vivência simples e concreta.
6. A simplicidade da vida rural
f) Caeiro foi o mestre.
7. O puro sensacionismo é aquele
g) aderindo espontaneamente às coisas, tais como são, gozando-as despreocupadamente.
8. O "mestre" vive
h) são versos de Caeiro que refletem a sua antimetafísica, afirmando o primado dos sentidos.
9. "Pensar incomoda como andar à chuva"e "Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..."
i) afirmando que "pensar é não compreender".

 (in Das Palavras aos Actos. Ensino Secundário. 12º Ano,Ana Maria Cardoso, Célia Fonseca, Maria José Peixoto, Vítor Oliveira, Porto, Edições Asa, 2005, p. 102)



2. Leia o poema “O meu olhar é nítido como um girassol”.
 
O meu olhar é nítido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isto muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras..
Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentido...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é
Mas porque a amo, e amo-a por isto,
Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
 


Complete os espaços do texto que se segue com as seguintes palavras: 
presente
antimetafísica
heterónimo
deambulismo
criança
paradoxo
racionalização
visão
antifilosofia
pensar
sensacionista
pensamento
novidade
sensacionismo

Releve o assunto do poema.
Para o poetaobservar e contemplar é a sua essência de vida, amando a natureza todos os dias de um novo modocomo uma _________________  o mundo: admirando a naturezacomo ela é sem _________________ O eu poético contempla, assim, a realidade empírica conhecida através dos sentidosespecialmente a_________________

Caracterize o sujeito da enunciação.
sujeito da enunciação é objectivista (“Creio no mundo como num malmequer / Porque o vejo”). E deixa-se atrair por tudo o que o rodeia (“O meu olhar é nítido como um girassol”), o que é comprovado pelo seu culto ao deambulismo (“Tenho o costume de andar pelas estradas”). O eu poético não é o ontem nem o amanhãapenas se preocupa com o _________________. Sinto-me nascido a cada momento”). Para além disso, o sujeito lírico é _________________pois vive de sensações (“tenho sentidos”) e ama a Naturezanãocolocando questões sobre o amor que sente por ela, rejeitando qualquer tentativa de _________________ do real (“Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é / Mas porque a amo, e amo-a por isso,”).

Encontre, no poema, algumas das características temáticas recorrentes na poesia de Caeiro.
Em Alberto Caeiro a visão constitui a sensação que abre a porta para a aprendizagem constanteEste _________________ de Pessoa  se preocupa em ver de forma objectiva e natural a realidade com a qual contacta a todo o momentoAssimele afirma que o seu olhar “é nítido como um girassol”, porquetal como o girassol é atraído pelo sol, o seu olhar é atraído portudo aquilo que o circunda. Passeando e observando o mundo, Caeiro é um cultor do _________________, fazendo dele unia das temáticas da sua poesia.
Alberto Caeiro compara-se a uma criançapoistal como ela o mundo sem necessidade de explicações e também porquepara ele, o mundo é sempre uma _________________porisso crê na “eterna novidade do mundo”. Como a criança, Caeiro não encontra utilidade no pensamento e acha que “o Mundo não se fez para pensarmos nele” e que “pensar é nãocompreender”. Desta forma, a inocência e a _________________ são outras duas temáticas das suas composições poéticas.
Além disso, o _________________ constitui outro dos temas característicos da poesia de Caeiro. Este poeta apreende o mundo pelos sentidos se interessando por aquilo que capta pelas sensações, dando especial importância ao acto de ver (“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...”).
Em conclusão, a poesia de Caeiro não é mais do que a nomeação do Mundo, sendo este heterónimo de Pessoa o poeta da clareza total e da objectividade das sensações.

Associe a frase de Jacinto do Prado Coelho “Caeiro é um abstrator paradoxalmente inimigo de abstracções” a este poema.
Como podemos verificar através dos poemas de Caeiro, este condena o _________________ e prima pela apreensão imediata do real em detrimento da abstracção.
Contudo, Caeiro, para instituir a negação do pensamento, recorre ao discurso argumentativo, o que mostra quepara além de transmitir sensações, reflecte sobre elas. De facto, esteheterónimo é dotado de extrema inteligência, apresentando-se como um filósofo da _________________ pelo que toda a natureza poética da sua obra é de “espécie complicada”.
Em suma, a poesia de Caeiro assenta num _________________ no qual ele usa a abstracção para poder criticá-la.


3. Recorde todo o estudo que fez dos textos de Fernando Pessoa ortónimo e do heterónimo Alberto Caeiro.
Redija um texto expositivo-argumentativo que obedeça ao seguinte plano:
Introdução: a necessidade de Fernando Pessoa criar este heterónimo antimetafísico.
Desenvolvimento: aspetos que os aproximam e os separam.
Conclusão: fragmentação do “eu”. 

(in Das Palavras aos Actos. Ensino Secundário. 12º AnoAna Maria Cardoso, Célia Fonseca, Maria José Peixoto, Vítor Oliveira, Porto, Edições Asa, 2005, p. 79)


4. Ficha de aferição de leitura relativa ao heterónimo pessoano Alberto Caeiro. Aqui.





Fonte:
LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO. 
Projeto concebido por José Carreiro.
            1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/FP_AlbertoCaeiro.htm, 2011-12-16.
            2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/FP_AlbertoCaeiro.htm, 2016.