quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Como falar de Herberto Helder? (por Eduardo Prado Coelho)



COMO FALAR DE HERBERTO HELDER?

1. Em parte, é claro, pela altíssima qualidade desta poesia, mas também pelo halo de silêncio com que o autor a rodeia, e que nem exclui o recurso ao arame farpado, a verdade é que leitores e críticos sentem uma espécie de pânico, ou terror, em falarem ou escreverem de Herbert Helder. Talvez o problema resida neste "sobre". A poesia de Herbert Helder desaloja qualquer posição de sobranceria ou arrogância em relação ao texto. O resultado desta humilhação consentida é uma espécie de afasia. Poderemos resolver a questão dizendo que se escreve "a partir de Herberto Helder", ou então, num ombro a ombro incerto, numa fraternidade de escrita forçosamente assimétrica, “com Herberto Helder''? Experimentemos.
2. Um texto recente de José F. Salgado, "Herberto Helder e a Arte d'os Selos: apontamentos para uma poética herbertiana", publicado no magnífico volume I dos "Santa Barbara Portuguesa Studies", coloca muito bem as coisas:"Na sua condição de híbrido irredutível - nem inocência, nem demoníaco, 'nem música nem cantaria'- a poesia escapa a qualquer tentativa de totalização, a qualquer esforço de interpretação. Como assinala Lindeza Diogo, 'o texto herbertiano é muito crítico do leitor, porque este, interessado na captação de energia através de representações significativas, leva para o meio dos enigmas um medo menor'. Trata-se de uma poesia resistente, reticente, à leitura. Porventura, mesmo à de Deus. 'Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?’”.
Donde, o leitor deve levar para o meio dos enigmas um medo maior. Mas como falar com a boca selada de pavor?
3. A inibição crítica começa por ser o reconhecimento da impossibilidade da totalização. Isso nos é dito desde o título: na sua talha clássica, "do mundo" dá-nos a indicação de uma linha de fuga. Não "o mundo", entidade composta e fixada, mas "do mundo", fala ostensivamente em hemorragia e disseminação. Talvez por isso mesmo o crítico, ou, mais modestamente, o leitor-comentador, deveria falar, quando fala de Herberto Helder, em falar "de Herberto Helder" - à semelhança "do mundo". Em pura perda de sentido e de si. Em desequilíbrio: um "do" a mais, um "de" a mais, e tudo se perde, ou de nós foge.
4. "Do Mundo" apresenta-se como o prolongamento de um conjunto anterior, "Os Selos", e como a (re)escrita de um outro livro, "Retrato em Movimento", aqui recuperado naquilo "que foi possível fragmentariamente salvar". Este implacável rigor em relação a si mesmo, esta capacidade de devastação generalizada a que apenas escapam provisoriamente alguns destroços luminosos, não pode deixar de contribuir para aumentar o terror nas letras, e imobilizar sadicamente o leitor. Necessidade de ler sobre um horizonte de morte e destruição, com palavras sobreviventes e gestos náufragos. Política de terra queimada - onde tentaremos dar alguns passos hesitantes. Em desequilíbrio, em queda.
5. Toda esta poesia nos ajuda a aprender a arte do desequilíbrio. E, sobretudo, de como fazer desse desequilíbrio uma forma de andar, um diálogo com o vento, uma prática do "surf” poético: aprendizagem do uso produtivo da vaga, ou da memória bíblica de caminhar sobre as águas. O desequilíbrio como "miraculação do mundo".
Ao começar no desequilíbrio que move as próprias palavras. Leia-se na página 29: "a uma devagarosa mulher com cinco dedos potentes". Um "de" enreda a palavra para dentro de si mesma, mas, no processo de fragmentação interior, emerge, na permanente vacilação entre o nome comum (será que existe?) e o nome próprio, a palavra "rosa". Na página 37, "rosas divagadas pelas roseiras" imprimem o vago no cerne do vagar. No mesmo poema, o importante é a rosa no seu esplendor de corpo e nome: "E esperar que a lepra cubra os dedos, escrever: Rosa - I encadeado na rotação do nome. / Ir colher ao último alfabeto a rosa extremamente escrita." Repare-se mais uma vez na importância dos advérbios de modo. Na sua reticência, no seu retardamento, no seu retesamento, eles servem para "devagarar" os versos, fazendo que a demora se deixe habitar por uma expectativa erótica, femininamente intensificada.
6. Compreender também que tudo é lugar. Numa formulação pedante e pedestre, diríamos que há um processo expansivo de topologização. Não são apenas as coisas que funcionam como lugares - são também as palavras. Veja-se um exemplo da página 31: "as crianças entram no sono que as aguardava como uma sala". Portanto, as crianças não "adormecem", mas "entram no sono", e o sono é como uma sala (a aliteração ajuda a convecer-nos). Note-se ainda que a sala não "aguarda", mas "aguardava”, isto é, espetava desde sempre, intemporalidade do sono, as crianças que aí entram. Sala vazia, forrada de inconsciente e memória do mundo.
Veja-se agora na página 45 o verso em que se diz: "glicínias em declive pelo perfume dentro". Primeiro, a reversibilidade: não é o perfume que está nas glicínias, são as glicínias que estão no perfume. Segundo, estão "em declive".
Este ponto é importante. Ele permite-nos notar os principais eixos de deslocação no espaço da poesia de Herberto Helder: na zona mais forte, a verticalidade ascensional e eufórica ("este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm"), e que tende sempre a funcionar como uma explosão, uma abertura para o exterior; em contrapartida, a queda, a vertigem de cair no interior de si mesmo: processo de concentração, área de implosão e acumulação noturna de energias; por fim, a declinação dos corpos, o declive, a inclinação amorosa: “Beleza ou ciência: uma nova maneira súbita/ - os frutos unidos à sua árvore, / precipícios,I as mãos embriagadas.I E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,I as pêras brilham,I o teu vestido é grande se te olho devagar.I O teu corpo transmite-se ao vestido.I Penso na glória do teu corpo./ E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis./ A terra move-se sobre os lados, ensinas-me/ o que não saberei nunca: a água ronda".
Notar que, neste feixe de correntes, o que se omite é a horizontalidade - homenagem ao desequilíbrio, evidentemente. A não ser sob a forma de círculo (os passos em volta, a água ronda, a forma redonda da iluminação) que aparece como emanação transparente do núcleo mais puro das coisas.
Porque coisas e pessoas (qual a diferença em termos de amor?) adensam-se e soltam-se em sístoles e diástoles que correspondem à pulsação do mundo. Privilégio das crianças e dos animais. Nesse ponto, os comentários de José F. Salgado são extremamente pertinentes: "A localização do animal é indeterminável, indecidível: entre a objetividade da coisa e a subjetividade do humano, o animal põe em causa a oposição humano/coisa, é o meio termo intangível entre a familiaridade da subjetividade absoluta e a absoluta distância da coisa irremediavelmente estranha. Nem Absoluto Outro nem Mesmo, o animal faz desmoronar-se a aparente polidez dos lugares do sujeito e do objeto."
Os animais, sem dúvida, mas também as crianças -todos os seres que sabem toccar no centro de si próprios. Tocar - como o pé toca a água, no milagre da poesia que caminha sobre o mundo, transportando o seu cardume de palavras sôfregas.
Mas não vamos ficar por aqui.


Crónica de Eduardo Prado Coelho para o suplemento Leituras do jornal Público. Sábado, 10 de junho de 1995.




QUESTÃO DE TACTO

1. Continuemos a ler “Do Mundo", de Herberto Helder (Assírio e Alvim).
No texto anterior, referia-me aos seres que se tornam opacos à força de se acumularem no centro de si mesmos. Falava de animais, falava de crianças. Na página 37, lê-se: "Porque a criança atravessa tudo e toca já no centro de si mesma." Tentemos compreender. Primeiro, a criança atravessa tudo. Gostaria de sublinhar que, em Herberto Helder, existe uma vacilação permanente entre o micro e o macro, o doméstico e o cósmico. Podemos caracterizá-la como uma incessante e brutal mudança de escala. Quando se diz que a criança "atravessa tudo", isso significa que a sua correria (no quarto, no pátio da escola) é ao mesmo tempo, e desde sempre, uma correria cósmica – algo que percorre o mundo, que o divide, o corta como um sabre, uma espécie de "laser" ruidoso e ladino. Porque "cada criança / arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a química / floração trazida acesa". O mesmo se a gente falar no "quotidiano estelar das matérias". Ou ainda: “E quem tem tanta memória que a massa de átomos, / quando passe, / encrespe, acorde, alumie a última criança? / O mistério é só esse; primeiro são cor de pólen, transfundem-se depois em palavras siderais, botânicas." Ou por vezes encontramos o movimento inverso, do cósmico ao doméstico: "Uma volta atmosférica num astro uma / volta do astro no forno uma volta·do forno / em si mesmo."
A ideia de fechamento explica o uso inesperado de certos verbos: por exemplo, a imagem dos seres abotoados. Assim: "e o avesso e o direito, pulmões, estômago, sangue que o corpo todo abotoa". Mas não poderemos deixar de notar como estes botões, frequentes, têm também uma outra função. A imagem do corpo em Herberto Helder pertence à tradição esquizofrénica: por mais que se abotoe, é um corpo furado, e os furos são os próprios botões que o abotoam. Por outras palavras, o exterior e o interior, o direito e o avesso estão num processo de permanente reversibilidade. O corpo é apenas um lugar de passagem entre a sublevação dos órgãos e as grandes massas do mundo. Daí a proliferação de botões que são feridas, chagas, válvulas, buracos, queimaduras. Daí também que a poesia seja como uma ciência do corpo a corpo, do corpo contra o corpo, através de uma forma de ver que seja uma iluminação da matéria mais espessa, das trevas intestinais, das vísceras em brasa: na medida em que "o olhar é um pensamento", esta ciência, ciência última ou poesia mais alta, "é ver com o corpo o corpo iluminado". E então? "E então a luz une-se a toda a volta e cai no abismo dos espelhos."
Outro ponto importante, este, o do infinito das simetrias. Ou, se preferirem, o dos espelhos: o corpo a corpo é também um espelho diante de outro espelho, ilimitadamente outro. "Um espelho em frente de um espelho: imagem / que arranca da imagem, oh / maravilha do profundo de si, fonte fechada / na sua obra, luz que se faz / para se ver a luz."
2. Poderemos falar num "tema" deste livro? A expressão é arriscada. Alguém poderia supor que alguns dos tópicos que tenho vindo a inventariar (o desequilíbrio que precipita as palavras umas para dentro das outras, o devir-lugar de todas as coisas, a reversibilidade generalizada, a ascensionalidade eufórica, a queda implosiva, a circularidade emergente, a oscilação entre o cósmico e o doméstico, o corpo furado, o jogo itinerante dos espelhos, a simetria iluminada) seriam como que "processos". Não, se os entendermos como "técnicas do discurso poético". Sim, se tomarmos a palavra na aceção de Whitehead. Isto é, o único “tema" são os “processos".
Se lermos com alguma atenção, e um desmedido enleio, os poemas deste livro de Herberto Helder, verificamos que em todos eles existe um processo de transmissão de energia. Transmissão ou intensificação, mas a diferença é secundária. Transmite-se normalmente do mesmo ao outro. A intensificação é uma transmissão do mesmo ao mesmo, nada mais. Daí que cada poema agite uma interrogação: como passa a energia da mãe ao filho? como passa a energia do oleiro ao vaso? como passa a energia da dança ritual aos astros? como passa a energia do mestre ao discípulo? e do poeta ao poema? e da matéria ou ouro? e da palavra comum ao nome único e próprio? e do amante à amada? e da amada ao amante ("ensina-me o que não saberei nunca")?
A trama de leitura que nos favorece o acesso a cada poema tece-se em dois lances distintos: em primeiro lugar, precisamos de identificar o movimento dominante (por exemplo, no primeiro poema, a imagem do nascimento, a relação mãe-filho); em segundo lugar, verificarmos como este tema dominante está sobredeterminado por todos os outros. Mas existem ainda dois outros aspetos que merecem ser valorizados. Por um lado, todos os processos de transmissão de energia são dominados por dois paradigmas: o da criação poética (a mãe que dá à luz um filho é um modelo de arte poética), o da relação sexual (a distância que a energia percorre é sempre a da diferença entre os sexos: "o espaço entre os dois nomes: / eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento. / Ou a morte, substantivo que raia"). Por outro lado, o ensinamento destes dois paradigmas mostra-nos que estamos perante polos com cargas diferentes: há sempre um polo positivo e um polo negativo, há sempre uma assimetria primordial.
Poderíamos dizer que o sexual visa a fusão (redução do outro ao mesmo: 1 + 1 = 1) e que o poético visa a disseminação (resistência do outro ao mesmo: 1+ 1 = infinito), mas seria uma simplificação abusiva. Nesta poesia, existe uma constante contaminação entre o poético e o sexual: a disseminação explode na fusão, a fusão implode na disseminação. "E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites / caem dentro dos dias – e eu estudo / astros desmoronados, mananciais, o segredo."
3. Como passa a energia? Repare-se que esta pergunta é apenas uma variação sobre a pergunta de que partimos: como falar de Herberto Helder?
Digamos que o que passa é muito pouco, ou nada: apenas a possibilidade de continuar a passar, e, por pouco que seja, passar cada vez mais: "a arte do ar queimado que passa pela boca". Podemos enumerar algumas modalidades da passagem. Por exemplo, a emanação: "como no corpo se forma o vestido". Por exemplo, a epidemia, os vírus, a expansão da lepra. Ou ainda: a devoração ("se se pudesse, se um inseto exímio pudesse, / com o seu nome de princípio, / entrar numa turquesa, monstruosa pela amplitude / da cor e do exemplo, / se até ao coração da pedra e dele mesmo / devorasse a matéria exaltada”).
Mas em todos estes processos há um que me apetece privilegiar. Nos cumes da altura em que o poema se arqueia existe um lugar que, muito banalmente (para quê sermos originais onde não há razão para isso?), é acima de tudo um lugar de harmonia: ouro, rosa. "É essa coisa que fazes / obscuramente – se um dia és lenha suada ardes / da tua própria resina se / torneias o vaso dás-lhe pela cinta quieta / uma pancada salgada um donaire / de onda, e tocas na curva da bilha: e ficas harmonioso –“.
O processo é – já o sentiram na pele – o de tocar. Aproximação com reserva, retraimento, um medo ainda maior, mas também acesso ao limiar do acesso, ao mais aceso do absoluto. O tocar declina-se em múltiplas formas de incitamento e recuo: no frémito, no arrepio, nos estremecimento, no corpo eriçado de prata e sal. Questão de tacto.

Questão de tacto”, crónica de Eduardo Prado Coelho para o suplemento Leituras do jornal Público. Sábado, 17 de junho de 1995, p. 12.




segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Luís Miguel Nava, por Eduardo Prado Coelho



UMA ESTRADA QUE LEVASSE AO MAR

1. Talvez a temática mais insistente de Luís Miguel Nava possa transgredir a pauta de expectativas que o "leitor normal" tem em relação ao lirismo. Talvez a construção enredada, e extremamente meticulosa, dos seus poemas seja uma provocação para os apreciadores de formas escultoricamente elegantes e supostamente espontâneas. Talvez ainda a visceralidade desta escrita possa aparecer a alguns como uma falta de tacto ou um defeito de gosto. Talvez. Mas estas mesmas razões levam-me a pensar que nos encontramos, e sobretudo com o seu livro mais recente, "Vulcão" (Quetzal), perante uma das experiências literárias mais originais, perturbantes e apaixonantes da poesia portuguesa contemporânea.
Seja nos testos de configuração mais tradicional, seja nos fragmentos em prosa, que se aproximam por vezes da pura ficção narrativa, a marca inicial na obra de Luís Miguel Nava pode ser designada como uma forma emaranhada de dispor das palavras e de desenrolar o fio sintático da exposição. E isto verifica-se não apenas pela recusa de uma ordenação sequencial de sujeito a predicado, mas também pelo gosto de começar quase sempre por uma ponta perdida, um complemento desgarrado, uma circunstância fortuita, para depois nos impor um verdadeiro percurso por entre as palavras - "uma estrada que levasse ao mar"; e o leitor só pode repetir com o autor que "tinha de por ali haver uma estrada que levasse ao mar, que no seu halo matinal nos envolvesse, entre neblinas e fragrâncias, dessas que, até quando o escuro se apodera das raízes, continuam sempre a verdejar". Significa isto que o trabalho de leitura implica um esforço de desenredamento que corresponda à densidade do emaranhado textual. Contudo, nada mais fácil para um leitor que goste de avançar por dentro das palavras e do tecido que as une, e vá deixando nelas, como marcas na floresta, incisões de cumplicidade e reconhecimento. Esta poesia é sempre um movimento de simplificação. Quando a ele se adere, e aceitamos o rigor na sinalização dos caminhos, tudo se toma fácil e partilhável.
Existe ainda uma segunda marca distintiva, que á a iniludível crueldade, entre a memória erótica e a brutalidade cirúrgica, das formas de abordar a matéria do corpo. Embora o tema essencial seja deliberadamente “clássico”, tanto na poesia como na filosofia, e tenha essencialmente a ver com as relações entre a alma e o corpo, o que em nós resiste de início a esta forma de abordagem é o modo insistentemente imaterial como o corpo se decompõe e o modo pesadamente físico como a alma se encosta em nós à roupa e às vísceras, mas sobretudo o brutal curto-circuito que se opera do lugar do sujeito e da consciência: “estalara-lhe de tal forma o eu que o próprio nome era uma ferida...". Entre o poço e o céu, entre o pus e a luz, não há lugar, bem previsto nem cativo, para o sujeito lírico, e sobretudo não há identidade confortável que se possa assumir. Com enorme precisão no traço, e uma sempre vincada visualidade, cada texto de Luís Miguel Nava implica a construção em nós próprios de um corpo glorioso, isto é, de um lugar de encontro, sideração e amor.
2. Leia-se O primeiro poema: "A carne que os guindastes/ suspendem, minha,/ rente à fosforência/ no abismo dos dias,// a mesma onde a rasura/ do tempo abre interstícios/ estendendo-a no mármore,// as máquinas que os astros/ perfuram erguem-na às alturas/ do espaço ou das colunas/ de que se nutre o tempo,// noite onde os astros/ escondem as raízes/ ou ramo de glicínias/ em dedos sufocados, carne/ onde inda vibram/ do extinto amor os ecos."
Como se pode facilmente ver, a entrada na matéria (expressão perfeitamente adequada às circunstâncias) não é sintaticamente evidente, uma vez que "a carne que... as máquinas erguem-na às alturas", embora este fio de sentido se duplique no facto de as máquinas que erguem serem aparentemente equivalentes aos "guindastes que suspendem" que aparecem na proposição relativa. De caminho, essa carne subjetiva-se através de um possessivo, "minha", e ganha um estatuto de fronteira "rente à fosforência" (que se irá repetir na vibração final proposta pela forma clássica "do extinto amor os ecos"), mas, ao mesmo tempo, torna-se mortuariamente anónima, ao deixar que "o tempo nela abra interstícios", "estendendo-a no mármore". Também não podemos deixar de vacilar um pouco na expressão "que os astros perfuram" (e que é mais facilmente compreensível se lermos noutra ordem: "as máquinas que perfuram os astros", o que designa nelas uma espécie de gigantismo e violência), tendo em conta que os mesmos astros vão também surgir na sua relação com as “raízes”, imagem que aparece comparada a uma outra em que se inscreve a dureza muda da relação amorosa: "ou ramo de glicínias em dedos sufocados". Note-se que um processo de transporte poético suspende esta “carne" ao verso anterior, isto é, aos "dedos sufocados”, tal como um guindaste a ergue antes de entregar o corpo ao demorado esvaziamento da sua carga afetiva (e podemos ler "carga" no sentido elétrico, como uma pilha carregável e descarregável).
Toda a experiência do leitor é deste tipo, isto é, corresponde a um percurso rigorosamente balizado pela surpresa das palavras, pela guinada das viragens semânticas, pela passagem incessante do exterior e do interior, do microcosmos ao macrocosmos, pelos ângulos sintáticos, e pelas convulsões e espasmos da matéria verbal. Alguns poderão pensar que estamos aqui perante a superstição formal da textualidade, o que seria, ou será, um rastro dos anos 60, mas é preciso sublinhar que em Luís Miguel Nava todo o poema é sempre muito mais do que isso, é um corpo que a si mesmo se agride, de si mesmo se desenreda, e em si mesmo se inventa como palavra, luz, irradiação, apelo ou chama libidinal, e as palavras acabam por ser, também elas, remetidas para o estatuto de pensos, ligaduras, restos de um lívido imaginário hospitalar, como gazes antiaderentes que emudecem as feridas e as iluminam por dentro. Que fica depois disto? Uma forma extrema, e agudíssima, de pensamento, mas de um pensamento reduzido à mais volátil e precária das marcas: "O que comera ao meio-dia encostou-se-lhe à memória, como a única coisa a que naquele momento ainda pudesse ir buscar alguma claridade. Vira nessa manhã um abutre poisado sobre o lavatório. Por causa disso, esquecera-se da cafeteira ao lume, tendo-a já depois encontrado quase vazia e o vidro da janela todo embaciado. Será também assim o pensamento, perguntou para si própria: algo volátil, capaz de embaciar um vidro?"
Num texto final, Luís Miguel Nava explica os mecanismos e fitos do seu trabalho: "Não foi sem dificuldade que este livro rompeu através dos interstícios do mundo até chegar às tuas mãos, leitor, para aí, como um deserto a abrir noutro deserto, criar uma irradiação simbólica, magnética, onde o branco do papel e o negro das palavras, essas cores que segundo Borges se odeiam, pudessem fundir-se e converter-se nessa outra a que, na enigmática expressão de Sá Carneiro, a saudade se trava." As dificuldades também nós as sentimos. A errância dos desertos está presente nesta leitura. Mas compensa: em cada instante, em cada página, "entre as nossas mãos e a alma", alguma coisa acontece. Podem chamar-lhe amor. Ou, se preferirem, "a ininterrupta convulsão do oceano".


Crónica de Eduardo Prado Coelho para o suplemento Leituras do jornal Público. Sábado, 20 de maio de 1995.


sexta-feira, 20 de setembro de 2019

SENSINATOS, Henrique Levy



JÁ NÃO ME MATA A VIDA!

A Luis Levy

imóvel sobre uma pedra de negro basalto quente
o teu corpo nu desfia a noite
no tormento vazio das minhas mãos
sem te tocar
soam instantes intensos na tibiez do encoberto mar
existe um corpo de homem cabeça tronco membros despido
pelo cosmos desenhado em cores de lua percorrendo num
voo o escarpado desejo de amar

vozes resvalam talvez esteja louco
oiço seivas falantes procurando pensamentos obnubilados
é noite
já me perdi…
encontro sem do corpo desviar receios voltado para os teus
olhos o grito dos galos que vai tecendo na ténue luz a matéria
viva da tua face
a manhã insinua-se curiosa
livre invoca com um sopro rouco o mundo que nos alcança
somos duas vidas ansiosas deslizando ao ritmo das águas
não ignoro o regato do teu jardim
sabes o que quero!
por ti jorra a dança do rubor alongado pelos dedos rasgando
em desespero curvados desejos e segredos

ao longe marcha lento um canto
desvenda-se o mistério esse eco de sonhos a cantar esperança
surge o amor atado aos navios como uma sombra na firmeza
da areia percorrendo o olhar do tempo por onde passo
para depois ao teu abraço me abandonar

conheço da noite o cheiro a pérola o rendilhar quente
da escuridão que chega errante em sopro abre ramagens
no teu torso e decide convocar sobre a pedra negra de basalto
nesse altar
um sono a implorar por beijos prateados no rumor do mar
cedes ao nosso voo
unidos acordam nus os corpos desmaiados
no fulgor das praias
vertendo as bocas
nas dunas envolvidas por ventos
beijos

agora que conheço a luz
já não me mata a vida!

Henrique Levy, Sensinatos, Ribeira Grande, Confraria do Silêncio, setembro de 2019


* * * 

O amor e a poesia são as “visões febris do quotidiano” (H. Levy), sendo o poema e o corpo metáforas da procura e da realização.
O caminho para o outro é o caminho para o conhecimento, “em todas as suas dimensões” (I. Mata).
Essa “pedra negra de basalto”, depositada no poema “Já não me mata a vida!”, é “altar” e leito do desejo e da vontade concertados entre duas pulsões vitais.
No texto, é visual a representação dessa concertação corpo a corpo: no “regato do teu jardim”, “jorra a dança do rubor alongado pelos dedos rasgando em desespero curvados desejos e segredos”.
E assim dois corpos, dois seres, por força da Vida, correm ao “ritmo das águas” num inteiro conhecimento um do outro.

José Carreiro

* * * 


SENSINATOS: UMA AFECTIVA PROFUNDIDADE CULTURAL

O homem é, nesse conjunto, o elemento mais celebrado - celebrado por sua vez, também em todas as suas dimensões, como, aliás, o autor explicita em nota paratextual ao "Caríssimo leitor":
[E]stes poemas não são fruto de um trabalho linguístico, mas, antes, de visões febris do quotidiano dos elementos da Natureza, das coisas, das sociedades humanas, das impossibilidades ou capacidades que o Homem e todas as coisas têm para lançar um olhar de reconhecimento sobre a realidade invisível que os circunda, sobre o amor ou a impossibilidade deste nas diversas etapas da vida e da morte (...)

Inocência Mata, Lisboa, março de 2019


sábado, 14 de setembro de 2019

“A minha poesia está diferente, seguramente”

Urbano Bettencourt

Urbano Bettencourt, poeta e escritor com várias obras publicadas, nascido no Pico, licenciado em Filologia Românica, colaborador de vários jornais, revistas e televisão, vai lançar a 27 de Setembro, em Ponta Delgada, “Com Navalhas e Navios”, mais um rasto, como ele diz nesta entrevista, de uma longa caminhada na escrita.

“Com Navalhas e Navios”, a publicar  no final deste mês, o Urbano Bettencourt cumpre cinco décadas de escrita. A nova obra é o retrato desta longa caminhada?
Comecei a  escrever e a publicar nos jornais, alguns anos antes de chegar ao primeiro livro em 1972, que já não incluiu todos os meus poemas da altura. 
E neste novo livro procedo a mais uma selecção e deixo  apenas aquilo que eu pretendo venha a ficar como o rasto dessa caminhada, embora em processo inacabado: além dos poemas banidos do conjunto, deixei de fora os textos em prosa poética e algumas narrativas curtas que integravam os livros originais; vou reuni-los em livro próprio e então aí estaremos mais próximos do que foi a minha escrita poética ao longo deste tempo.



Porquê este título? Leva-nos aonde?
O título recupera e adapta a expressão colhida no  poema «Pastagem com homens dentro»,  que pode passar  como glosa,  um pouco bruta e cruel,  ao mais célebre poema de Pedro da Silveira; leva-nos por isso à Califórnia, mesmo que  nalguns casos  esta  se manifeste apenas como objecto de desejos anavalhados, mas,  numa perspectiva  mais pacífica  também pode trazer-nos de lá aquelas «navalhinhas» que vinham na bagagem dos  regressados para presentear amigos mais próximos. 
No contexto mais vasto do livro, é possível que as navalhas tenham passado já à categoria de  «armas brancas», indissociáveis, portanto,    da violência que em diversos momentos o livro  acusa poeticamente. 

“De raiz de mágoa” a “Que paisagem apagarás” vai uma grande distância apenas na duração ou também no estilo?
O tempo faz-nos crescer e divergir, a nossa  compreensão do  mundo altera-se,  a relação que mantemos com a linguagem torna-se mais aprofundada, mais exigente e também  permeável ao contacto com a escrita do mundo –  e essas coisas reflectem-se no modo como em cada momento olhamos para a nossa própria escrita e para aquilo que pretendemos com ela. 
Razões mais do que suficientes para excluir poemas iniciais, em relação aos quais me sinto  desconfortável, incomodado mesmo com o seu excessivo voluntarismo, embora isso não me impeça de  reconhecer que há um certo ponto de vista crítico e irónico que vem desde o início e que alguns temas se prolongam no tempo sob discursos diferenciados entre si. 

A poesia hoje está diferente?
A minha está, seguramente. E,  no geral, está diversa, como o  comprova a recente antologia A Garganta Inflamada, que reúne poemas de 33 autores de língua portuguesa editados pela Companhia das Ilhas entre Maio de  2012 e Maio de 2019. 
Aspectos já referidos na resposta anterior, bem como a função atribuída por cada um à poesia e ao seu lugar na sociedade e no espaço público justificam essa diversidade. 

Temos que publicar mais antologias de autores açorianos?
Podemos pensar em termos individuais e em termos colectivos. 
No primeiro caso, importa referir o que tem acontecido quanto à  obra de autores já falecidos e que vão sendo recuperados lentamente. 
 No ano passado saiu na Companhia das Ilhas a «Poesia Reunida», de José Martins Garcia, no âmbito da reedição da obra completa deste autor picoense. 
Há cerca de quatro ou cinco anos, a SREC promoveu  a edição da Obra Completa de Emanuel Félix; já este ano a Imprensa Nacional publicou «Alexandrina, como era», todos os poemas de J. H. Santos Barros, o grande poeta da minha geração que andou demasiado tempo arredado dos leitores. A Companhia das Ilhas em parceria com a Imprensa Nacional está a reeditar a obra de Vitorino Nemésio. E o IAC acaba de apresentar «Fui ao mar buscar laranjas», que reúne a poesia completa de Pedro da Silveira, uma iniciativa de grande alcance  em virtude da qualidade literária do autor.  
Em termos colectivos, e no âmbito dos Colóquios da Lusofonia, a Calendário das Letras editou a antologia 9 ilhas 9 escritoras – organizada por  Helena Chrystello e Rosário Girão, responsáveis também pela Antologia Bilingue de Autores Açorianos e ainda pela Antologia de Autores Açorianos Contemporâneos (dois volumes de poesia e prosa).
Tudo isto já representa um contributo importante para a divulgação e conhecimento do cânone literário açoriano, mas há nomes que precisam de ser de novo trazidos ao contacto do público, como o do poeta J.H. Borges Martins, para referir apenas um nome de momento. 
Em termos de modelo antológico, parecem-me uma boa solução os Cadernos de Santiago,  projecto desenvolvido na Madeira por um grupo de professores e escritores: cada autor antologiado tem espaço para uma sequência poética representativa e coesa, seguida de uma leitura crítica feita por um convidado, o que significa um avanço a vários níveis em relação ao  modelo habitual, com ganhos literários e de leitura. 

“Uma cidade ama-se. Ou odeia-se. E compreendê-la?” (“Algumas das Cidades”, 1995). Um homem do Pico, da Ponta da Ilha, é universal? Compreende a Cidade onde vive ou a nostalgia dos lugares inspira?
Creio que a vida me tornou imune ao complexo do universalismo e ao, ainda mais doentio, complexo do cosmopolitismo. 
Apesar do espaço e do isolamento, a  Ponta da Ilha ficava a um palmo de S. Jorge e a um pouco mais da Terceira, avistável em dias de luz crua. E tirando bem o rumo a leste podia ainda chegar-se a  S. Miguel, donde viera o meu bisavô Rebelo e a que eu acabaria por aportar duas vezes, a segunda tornada definitiva. 
No Calhau passavam barcos e gentes, vozes diferenciadas   como outros tantos sinais da diversidade do mundo, chegavam os jornais da comunidade açoriana na Califórnia prolongando o espaço insular para lá do horizonte e estabelecendo uma espécie de proximidade e de convívio virtual.    E de um lado e de outro do território  havia ainda os universos especiais da Calheta e de Santo Amaro, entre a baleação e a construção naval, pretexto de viagens,  em suma. 
Tudo isso atravessa a minha poesia como sombra dos lugares e se articula com a sombra de outros lugares mais extensos e abertos, mais violentos também, por vezes; é a matéria residual que em parte a alimenta. 
Mas em termos puramente empíricos  sou um homem de  cidades, em cujas dinâmicas (paradoxais, por vezes) me formei,   e sem grandes nostalgias de um campo que já não existe senão como memória desfigurada de nós próprios.

 Como vai ser apresentado e divulgado “Com Navalhas e Navios”? 
Para já, com uma sessão na Livraria Solmar, a 27 de Setembro ao fim da tarde. Além das intervenções protocolares, o meu amigo e poeta Fernando Martinho Guimarães apresentará a sua leitura, interpretação,  do livro,  e os meus amigos José Carlos Jorge e Maria Fátima de Sousa lerão alguns poemas, à semelhança do que já fizeram, em contexto mais alargado,  na apresentação de África frente e verso. O resto será um processo em desenvolvimento. 

“A minha poesia está diferente, seguramente”, Redação do Diário dos Açores, 2019-09-14

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Antero de Quental - in memoriam




No 11 de Setembro da sua morte.
in memoriam
para o antero de quental


Para os lados do campo de s. francisco
Pelo entardecer em que tudo está quedo
Acontece ocorrer-me ao pensamento
Ideias vagas e longínquas de suicídio
(é bem certo que tudo na vida é literário
e não o sendo de pouco vale)
Há lugares em que o destino
Espera pacientemente pela hora
Derradeiros gestos e solitários assombros
Confusas ideias sobre o que na vida se reservou
Amigos d’além mar e amores de mais para lá
Sonhos de mudar tudo
E o que mais não se verá
Sonhos vãos e anseios de nada
Encantamentos d’infância
Em azuis d’olhar
Esfria o dia e num banco de jardim
A que só em pensamento ouso sentar
Aconchego-me em sonetos de meditar
E um arrepio de vento trespassa a folhagem
De árvores com olhos de tempo
Uma âncora sustém-me o pensamento
E como folha que o outono faz sua
Deixo-me levar como coisa sem rumo
Num sonho de esperança que não finda jamais
Nem dos anjos se diz tal coisa
É que soçobrar assim é real como
Coisa a que não falta nada
Nem da vida nem da morte
Que tudo sendo pouco é
Já a noite se aproxima
Num sopro frio que tudo invade
Uma tristeza sem fim Uma agrura
Uma dor de ser Um lamento
Uma impossibilidade Uma vertigem
Uma anulação e Um nada querer ser
Subtilíssimos deuses agrilhoados
Irrompem pelas raízes das árvores
Todos
Confluem para aquele banco de jardim

Fernando Martinho Guimarães