quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 DE ABRIL, VEZES MAIS DE MIL




Versos de Silvino Figueiredo comemorativos do 25 de Abril, Correio do Douro, 07/04/2000





“25 de Abril, vezes mais de mil” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 25-04-2019. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2019/04/25-de-abril-vezes-mais-de-mil.html


sábado, 6 de abril de 2019

Me so' mbriacato, Alessandro Mannarino



ME SO' MBRIACATO

Quando io sono solo con te sogno
immerso in una tazza di tè
ma che caldo qua dentro
ma che bello il momento.
Quando sono con te
non so più chi sono perché
crolla il pavimento e mi sciolgo di dentro.
Quando penso a te mi sento denso perché
io ti tengo qua dentro di me
io ti tengo qua dentro con me.

Me so' mbriacato de na donna
quanto è bono l'odore della gonna
quanto è bono l'odore der mare
ce vado de notte a cercà le parole
quanto è bono l'odore der vento
dentro lo sento dentro lo sento
quanto è bono l'odore dell’ombra
quanno c’è er sole che sotto rimbomba
come rimbomba l'odore dell’ombra come rimbomba come rimbomba
e come parte e come ritorna
come ritorna l'odore dell’onda.

Quando io sono solo con te
io cammino meglio perché
la mia schiena è più dritta
la mia schiena è più dritta.
Quando sono con te
io mangio meglio perché
non mi devo sfamare
non mi devo saziare con te.

Me so' mbriacato de na donna
quanto è bono l'odore della gonna
quanto è bono l'odore der mare
ce vado de notte a cercà le parole
quanto è bono l'odore der vento
dentro lo sento dentro lo sento
quanto è bono l'odore dell’ombra
quanno c’è er sole che sotto rimbomba
come rimbomba l'odore dell’ombra
come rimbomba come rimbomba
e come parte e come ritorna
come ritorna l'odore dell’onda.

Alessandro Mannarino, “Me so' mbriacato” in Bar della rabbia, 2009
ME SO' MBRIACATO
Alessandro Mannarino

ESTOU EMBRIAGADO

Quando estou sozinho contigo sonho
imerso numa chávena de chá
mas que calor aqui dentro
mas que belo o momento.
Quando estou contigo
não sei mais quem sou porque
desaba o chão e derreto por dentro.
Quando penso em ti sinto-me denso porque
eu tenho-te aqui dentro de mim
eu tenho-te aqui dentro comigo.

Estou embriagado de uma mulher
como é bom o cheiro da saia
como é bom o cheiro do mar
onde vou de noite procurar as palavras
como é bom o cheiro do vento
dentro o sinto dentro o sinto
como é bom o cheiro da sombra
quando há o sol que por baixo ribomba
como ribomba o cheiro da sombra como ribomba, como ribomba
e como parte e como retorna
como retorna o cheiro da onda.

Quando eu estou sozinho contigo
eu caminho melhor porque
a minha coluna fica mais direita
a minha coluna fica mais direita.
Quando estou contigo
eu como melhor porque
não preciso alimentar-me
não preciso saciar-me contigo.

Estou embriagado de uma mulher
como é bom o cheiro da saia
como é bom o cheiro do mar
onde vou de noite procurar as palavras
como é bom o cheiro do vento
dentro o sinto dentro o sinto
como é bom o cheiro da sombra
quando há o sol que por baixo ribomba
como ribomba o cheiro da sombra
como ribomba, como ribomba
e como parte e como retorna
como retorna o cheiro da onda.

“Me so' mbriacato”, Bar della rabbia, 2009


domingo, 24 de março de 2019

NÉVOA, Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, Diário dos Açores, 1930-07-17, p. 1.



O poema de Fernando Pessoa que andou esquecido durante 80 anos


A nova edição da poesia em vida por Fernando Pessoa inclui pela primeira vez o poema “Névoa”, que foi publicado nos Açores em 1930 e que por lá ficou esquecido até que um investigador o descobriu.

Em 1930, Fernando Pessoa publicou num do jornal açoriano um poema até então inédito. “Névoa” apareceu junto a “Minuete Invisível”, que tinha sido apresentado pela primeira vez no primeiro (e único) número da Portugal Futurista, e a um texto de apresentação assinado pelo jornalista Rebelo de Bettencourt. Depois dessa data, o poema não voltou a ser publicado. Caiu no esquecimento, até que um investigador o encontrou, por acaso, mais de 80 anos depois. Agora, entrou finalmente para o corpus pessoano, ao ser incluído no mais recente volume da edição crítica da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM).
A única versão que se conhece de “Névoa” foi publicada na página “Letras” do Diário dos Açores, o mais antigo jornal diário do arquipélago, a 17 de julho de 1930, cinco anos antes da morte de Pessoa. O suplemento trazia um texto sobre o poeta, intitulado apenas “Fernando Pessôa”, retirado do livro O Mundo das Imagens: Crónicas, de Rebelo de Bettencourt. O jornalista açoriano, seis anos mais novo do que Pessoa, tinha participado na Portugal Futurista com um texto sobre Santa-Rita Pintor, de quem era amigo. A revista, publicada em 1917, “excedia tudo quanto em audácia e originalidade se tinha até então publicado”, de acordo com o próprio Bettencourt.
Enquanto redator principal da Lisboa Galante, Rebelo Bettencourt tinha defendido, contra Sousa Lopes, que os pintores modernistas deviam ser representados no Museu de Arte Contemporânea. Um ano antes, em 1928, tinha publicado pela editora Ressurgimento o livro de onde foi retirado o excerto usado pelo Diário dos Açores, onde descreveu a obra de Fernando Pessoa, um poeta que tinha “o dom de pensar”, como “fragmentária”. “As suas imagens são ainda pensamentos, e o próprio ritmo dos seus versos é também uma série de ideias – ideias postas em música”, referiu no texto reproduzido pelo diário açoriano, fundado em 1870.
Considerando que a personalidade de Pessoa era “tão complexa ou tão completa” que tinha de se desdobrar em Álvaro de Campos, o jornalista considerou que a obra do poeta estava praticamente esquecida, mas que “o seu espírito original e criador, a subtileza do seu pensamento” não haveriam de “morrer tão cedo”. “Antes estarão sempre, como amparo e guia, ao lado de todos quantos, sentindo na sua inteligência a necessidade quase física de ser uma outra coisa, mais completa e perfeita, nele hão-de sentir o precursor dum grande movimento e a origem duma nova vida”, declarou.

O poema que foi esquecido e descoberto por acaso

Depois da sua publicação no Diário dos Açores, “Névoa” ficou esquecido durante várias décadas, até que o investigador e editor Vasco Rosa o encontrou. Questionado pelo Observador sobre a descoberta, Rosa admitiu já não se lembrar ao certo em que circunstâncias se deparou com o poema, mas que provavelmente terá sido por causa de “qualquer pesquisa que estava a fazer na época, sobre Raul Brandão ou sobre António Dacosta”, dois autores sobre os quais tem vindo a trabalhar.
“Fui folhear anos a fio esse jornal açoriano e tendo encontrado o poema verifiquei no exaustivo inventário pessoano organizado por José Blanco que não estava identificado, e em seguida que não estava em qualquer outro livro, do Fernando Pessoa ou dos heterónimos”, afirmou o investigador, salientando que “a vantagem de se percorrerem exaustivamente publicações periódicas é que se vão encontrando curiosidades variadas, e como a imprensa açoriana é tida como periférica, a ninguém pareceu útil ir ver o que por lá havia”.
Vasco Rosa sugeriu a sua publicação aos editores da Pessoa Plural, Paulo de Medeiros e Jerónimo Pizarro, que estava então a arrancar. Foi assim que, 82 anos depois de ter aparecido nas páginas do Diário dos Açores,que “Névoa” voltou a ser publicado no n.º 1 da revista de Estudos Pessoanos editada pela Brown University, Warwick University e Universidad de los Andes. “Para mim, é sempre muito gratificante passar a outros o que lhes pode ser útil nos seus próprios trabalhos”, afirmou Rosa, que acredita que a “originalidade” do poema se deve “certamente a Armando Côrtes-Rodrigues, o amigo açoriano de Pessoa e um dos elementos de Orpheu”. Côrtes-Rodrigues, que participou nos dois números da revista modernista, terá, presumivelmente, conhecido Rebelo de Bettencourt.
Luiz Fagundes Duarte, responsável pela edição crítica dos poemas publicados em vida por Fernando Pessoa que inclui pela primeira vez “Névoa”, acredita que é “pouco provável” que uma descoberta como a que foi feita por Vasco Rosa se repita. “Pessoa já foi de tal maneira esquadrinhado que qualquer texto assinado por ele, publicado em qualquer algures, dificilmente passaria despercebido”, afirmou, em entrevista ao Observador, admitindo, no entanto, que este poema “em concreto” tinha permanecido “esquecido”. “Por isso, devemos ser cuidadosos e admitir, sempre, que o corpus pessoano, mesmo o publicado em vida, pode não estar fechado.”
O poema, na íntegra:
“A névoa involve a montanha,
Húmido, um frio desceu.
O que é esta mágoa estranha
Que o coração me prendeu?
Parece ser a tristeza
De alguém de quem sou actor,
Com fantasiada viveza
Tornada já minha dor.
Mas, não sei porquê, me dói
Qual se fora eu a ilusão;
E há névoa em tudo o que foi
E frio em meu coração.”

A primeira edição crítica dos poemas publicados em vida e da Mensagem

Desde 1988, quando foi criado o grupo de trabalho responsável pelas edições críticas da obra de Fernando Pessoa, a INCM já publicou mais de duas dezenas de livros. Desta lista não constava, no entanto, a Mensagem. A primeira edição crítica da obra foi apenas publicada pela INCM no passado mês de fevereiro, juntamente com os outros poemas que o poeta deu a conhecer em vida. A edição é de Luiz Fagundes Duarte, que coordena a coleção das obras completas de Vitorino Nemésio, publicadas pela mesma editora em parceria com a açoriana Companhia das Ilhas.
Fernando Pessoa era “um rapaz planeado” e “muito produtivo”, mas durante a sua vida só publicou 129 poemas, entre 1902 e 1935. Poemas soltos mas também alguns conjuntos, com título e coesão interna, mas compostos em momentos diferente, como explicou Fagundes Duarte na introdução do novo volume da INCM. A Mensagem, por exemplo, é composto por poemas escritos entre 1913 e, provavelmente, 1934. Isto significa que o único livro publicado pelo poeta, um ano antes da sua morte, ocupou dois terços de toda a sua carreira literária.
Isto significa que em Mensagem e Poemas Publicados em Vida é possível encontrar textos de períodos muito diferentes, que “Fernando Pessoa, num dado contexto histórico, social e estético, entendeu publicar com o seu nome”. O volume, que foi apresentado no passado dia 12 de março na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, está dividido em três partes:
  • Uma primeira, composta pelos poemas, soltos ou em pequenos conjuntos, publicados entre 1902 e 1935, ano da morte de Pessoa, “respeitando os conjuntos e a devida cronologia de publicação”, como frisou Fagundes Duarte;
  • Uma segunda, onde foi colocada a Mensagem com a sua estrutura original;
  • E uma terceira, com as traduções feitas e publicadas por Pessoa, organizadas por ordem cronológica de publicação.
Além de “Névoa”, o volume tem outras novidades. Uma delas é a publicação de cinco poemas em francês e em inglês: “Trois Chansons Mortes”, publicados na revista Contemporânea em janeiro de 1923, e “Meantime” e “Spell”, dados a conhecer na The Athenaeum (Londres), a 30 de janeiro de 1920, e na Contemporânea, em março de 1923. O livro inclui também as traduções feitas por Pessoa, nomeadamente de poemas dos uruguaios Ramón de Santiago e Alejandro Margariños Cervantes.

Rita Cipriano, Observador, 2019-03-23



     Poderá também gostar de:

Desce a névoa da montanha,
Desce ou nasce ou não sei quê...
Minha alma é a tudo estranha,
Quando vê, vê que não vê.
Mais vale a névoa que a vida...
Desce, ou sobe: enfim, existe.
E eu não sei em que consiste
Ter a emoção por vivida,
E, sem querer, estou triste.

2-9-1935
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).
  - 134.

 

Poderá também gostar de:

Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro. 

 

 


Névoa, Fernando Pessoa” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 24-03-2019. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2019/03/nevoa-fernando-pessoa.html


sábado, 16 de março de 2019

Cosmicidade e comicidade em Natália Correia, por José Emílio-Nelson


Tertúlia em casa de Natália Correia.

Na abordagem elementar da poesia de Natália Correia, como a que me proponho apresentar, saliento dois pontos cardeais que me nortearam nessa tarefa insensata: a COSMICIDADE e COMICIDADE [descomedimentohybris].
Numa dialéctica (aparentemente antitética), a analogia entre COSMICIDADE e COMICIDADE, se afirma como característica fundadora da sua poética, com nuanças surrealistas, atenuações do Barroco, como dinâmica discursiva, magia sempre presente na sua escrita plurissignificativa: na obra poética, na obra teatral, romanesca e ensaística.
COSMICIDADE
Na INTRODUÇÃO à edição da POESIA COMPLETA de Natália Correia,[edição póstuma preparada pela autora que a intitulou de O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS, datada de 1999], Natália Correia alude à COSMICIDADE e a define como sendo ‘o postulado de uma conexão cósmica da poesia com uma linguagem englobante da música e das matemáticas em que está estruturado o Universo’. (Deduzo que se refira à ‘harmonia das esferas’crença pitagórica que relacionava o Universo com a harmonia e a divina proporção musical que o sustenta).
Nos seus poemas crísticos, o imaginário ascende ’ao miradouro do Espírito‘para enxergar ‘sob forma mesmo estruturalmente dramática, ode, sátira ou humor que, como poesia, surge onde não há solução’.
Natália Correia ‘debate-se com a má eternidade e com a má infinitude’(diria Maurice Blanchot): a poesia surge ‘onde não há solução’Onde não há soluçãopermanecerá, assim interpreto, é a palavra indizível, inacessível, palavra esotérica, sob a forma teosófica, como interrogação ao insondável, religiosidade simbolista por empréstimo como
EQUÍVOCO CÓSMICO [INÉDITOS 1955/57]
Se meu germe, por equívoco, Teu gesto
Neste planeta funesto semeou,
Criar foi inventar-me o resto.
Perdoo-te a mentira que aqui sou
Pela verdade que lhe empresto.
Perspectiva-se neste poema, tanto quanto creio, o fingimento (na acepção pessoana) que se esclarece pelo que se lê no trecho inicial de EXÓRDIO [O ARMISTÍCIO (1985)]:
‘Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles. E mesmo que, existindo, nos ignorem, não sejamos nós a ignorar a sua autoridade primitiva que, nutrindo de segredos divinos as florestas, os rios e os ventos, faz correr o sangue em nossas veias. Usando este saber, menos dano nos farão os salteadores do verdor da natureza. Supersticiosos como todos os malfeitores, colhimento lhes será o terror sagrado de depredarem flores, árvores e fontes em que os deuses são tão reais quanto elas são. Baste-vos esta ciência: onde vos retiver a beleza de um lugar, há um deus que vos indica o caminho e Espírito.’
Em VOU DAS ANTÍTESES PARA O ABSOLUTO, [INÉDITOS 1947/55] busca o rumo constante da interrogação que a reflexão permite:
Não expulsarei os deuses e os demónios
Que discutem a posse da minha alma.
Esse conflito, esse entrelaçamento do anticlericalismo e da interrogação do Absoluto, de se lhe abeirar rejeitando-o, de o afastar pretendendo alcançá-lo, numa contradição assumida (ora com fingimento, ora com magia ‘dum ritmo exterior’), numa subversão que atravessa toda a obra da escritora, que se sintetiza no neologismo unamuniano, como se lhe referem em Espanha: MATRIA (conceito formulado anteriormente a Unamuno, mencionado pelo padre António Vieira, e revisitado por autores contemporâneos, como o expressa Luís Adriano Carlos no ensaio A MÁTRIA E O MAL EM NATÁLIA CORREIA).
O pendor metafórico da sua poesia permite irrupções de imagens que configuram uma irracionalidade da busca da razão, uma constante escondida adesão à dúvida e ao ímpeto para elaborar uma verdade que deuses e demónios disputam ou discutem, uma afirmação da sexualidade numa ânsia que se proclama noutro poema de EXÓRDIO:
‘Sejamos tranquilamente amantes das coisa divinas, sem o que a vida é o heroísmo reles de um aborrecimento.’, ou mais expressivamente, se lê num verso dos SONETOS ROMÂNTICOS: ‘Creio na carne que enfeitiça o além’.
O Absoluto, ‘cosmicidade do idioma poético’, manifesta-se como ‘a liberdade cósmica’, que é sublinhada amplamente na tão imensa música, música como acesso revelador da palavra em falta, a que Natália Correia alude, no contexto em que, como escreve, ‘nada é isolável’.Define, em ‘O POEMA’ a inventividade da poesia como ‘Pura intenção/ de cantar o que não conhece.’.
Lê-se num soneto do ciclo: ROGANDO À MUSA QUE TORNE CLARO O CORAÇÃO OBSCURO [SONETOS ROMÂNTICOS (1990)], algum tormento de interrogação do estético por detrás da simbolização da infinidade divina:
De um emboscado deus os sons que escreves
Vêm secretamente do infinito.
É para escrever que as tuas mãos são leves,
Submissas asas de um misterioso espírito.
Alheia te é a música que atreves;
Teu é o fado, o precipício, o rito
Da dor que faz passar entre horas breves
Té mister, poeta grácil de olhos tristes.
Desafias os astros? Não te gabes.
És sábio de saber que nada sabes.
Estás a mais no mundo e não existes.
COMICIDADE
Revela-se, em Natália Correia, um misticismo secularizado que lhe advém da independência com que ‘sem intento malévolo contra instituições democráticas’, combate ‘o desvario de extremismo’, ‘o imediatismo revolucionário’, e não se ilude com as soluções políticas adoptadas, revelando uma consciência céptica quanto ao pós-25 de Abril, embora positivamente interventora no campo político, deputada da Direita, empreendendo, na atitude, algo que ironicamente parece ser a palavra da auto-convicção de uma autoridade moral pública superior. Hoje se justifica (ou se lê) a EPÍSTOLA AOS IAMITAS (1976), pela realização poética alcançada. Poesia sem constrangimentos limitadores do seu assombro, da metáfora transgressora e exultante numa comicidade que é ‘um poema para ensinar risadas de camélias aos animais do medo’. [COMUNICAÇÃO1959]. É surpreendente a sua poesia pela articulação do imaginário poético dos ‘versos parodísticos’ com a intervenção política datada, sem nada perder nessa atitude extraverbal. Hoje justifica ler-se também as suas crónicas, como contextualização das poesias políticas. No fundo, trata-se de uma coerência entre a afirmação de uma poderosa presença do ‘Deus Riso’ e o seu aperfeiçoado labor metafórico: simultaneamente ética (hesito em classificá-la de ética idealizada) e incontestada ambição estética.
O riso de Natália Correia cumpre ‘a função útil do riso’, a significação social como defende Bergson [, na sua obra O RISO: ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DA COMICIDADE] para quem o riso é ‘inteligência pura’.
Atenda-se que em A DEMIURGIA DO RISO, Natália Correia escreve como epígrafe:
E cada vez que celebrei o
Deus Riso floresceu em mim
Um novo invento.
O riso de Natália Correia ‘é o seu reino inesgotável’, como fonte de invenção, dado que há uma prioridade de ordem histórica no humor ‘jocoso de travessuras’ como no hilariantemente cómico, riso de zombaria quando se refere a episódios parlamentares, que reune no poemário CANTIGAS DE RISADILHA (entre 1979 e 1991.
Cito: ’O acto sexual é para fazer filhos’disse ele [Refere-se ao deputado João Morgado, e à sua posição conservadora, no debate sobre a legalização do aborto.]
‘Já que o coitodiz Morgado
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca,
Temos na procriação
Prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
Lógica é a conclusão
De que o viril instrumento
Só usou
parca razão!
Uma vez. E se a função
Faz o órgão
diz o ditado
Consumada essa excepção
Ficou capado o Morgado.’
A poesia satírica da cidadã Natália Correia contempla corrosivamente, com directas e facilmente decifráveis referências, com a comicidade e o riso(Vladimir Propp), o contexto sócio-histórico.
Natália Correia imprimiu no jornal da campanha eleitoral autárquica por Lisboa em que concorreu Marcelo Rebelo de Sousa o CANCIONEIRO JOGO-MARCELINO [1989] [,de que cito, aleatoriamente, o soneto]:
MARCELO É BOM BAILARINO
É entrar, venham ver a maravilha
Das variedades na feira marcelina!
E entre atracções à escolha a que mais brilha
É de Marcelo a fúria bailarina.
Do tango ao rock do chá-chá-chá ao samba,
Dançando a valsa como quem flores pisa,
Baila Marcelo até na corda bamba
E os alunos de Apolo inferioriza.
Topa, enfim, de cavaco o maçarico
No 
dernier cri da dança uma golpada:
Rebolar-se no novo sassarico
Para no partido acabar tudo à lambada.
No conjunto da sua obra, o humor, uma outra forma de sátira, é a homofonia ’Humor=Amor’ na desconcertante sexualidade da poesia de Natália Correia, e nessa direcção, será possível concluir, numa síntese que a própria autora escreveu:‘Disparei contra a univisualidade do mostrengo das coacções fascio-puritano-pirosas’.
Em conclusão, que não conclui nada: a poesia vária de Natália Correia mostra que a Cosmicidade, ‘o sopro da Alma Universal’ contém a inversão metafórica (Gérard Genette) da Comicidade.
Mesmo na interrogação e afinidade ao Absoluto [velhos Tratados Espirituais e Filosóficos, matemática e música] há um momento do tempo que decorre no tempo (1), em sentido figurado, que é considerado, aquele que revela como fundamento vinculado do processo criativo da COSMICIDADE que, sublinho, não se separa da COMICIDADE.
Disso nos apercebemos ao ler a primeira estrofe de JESUS NUM BAR:
Já rio e raio foste
E o vício do vinagre
Te afeiçoou aos bares
Onde homem te fizeste
Com a ruga celeste
de chegares sempre tarde.
Na obra literária de Natália Correia, a Cosmicidade (o que se recentra na intuição do Absoluto), entrecruza-se com a Comicidade das coisas deste mundo.
José Emílio-Nelson*, Revista Caliban, 16-03-2019
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(1) Segundo Søren Kierkegaard, ‘ a música tem em si’ ‘um momento de tempo, mas não decorre no tempo, a não ser em sentido figurado’
(*) José Emílio-Nelson, poeta, crítico e editor, é o pseudónimo literário de José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva, nascido em Espinho, em 17 de Maio de 1948. Iniciou a sua obra em 1979, com o livro Polifonia, e poesia recolhida em 2004, no volume A Alegria do Mal, prefaciado por Luís Adriano Carlos. (https://www.wook.pt/autor/jose-emilio-nelson/15654)






Cosmicidade e comicidade em Natália Correia, por José Emílio-Nelson” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 16-03-2019. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2019/03/cosmicidade-e-comicidade-em-natalia.html