domingo, 26 de março de 2017

Bibliotecas pessoais





Casas de papel

Texto: José Mário Silva; fotos: João Lima. Expresso, 2017-03-25.

Escrevem, editam, traduzem. São intelectuais da palavra. Vivem rodeados de livros. E as suas bibliotecas pessoais, tão diferentes umas das outras, refletem o modo como pensam e veem o mundo

Diz-me como são os teus livros, como os organizas e dispões no espaço, dir-te-ei quem és. A biblioteca pessoal, construída ao longo de décadas, é quase sempre um espelho do seu proprietário. Na sua lógica interna ou na sua desordem (que esconde talvez padrões secretos), na amplitude dos temas ou no foco em áreas de interesse muito específicas, podemos ler sinais de quem as moldou. “Todas as bibliotecas são autobiográficas”, escreveu Alberto Manguel num livro — “A Biblioteca à Noite”, Tinta da China — que explora muitos modos e variantes da acumulação de livros ao longo da História humana. Cada uma à sua maneira, as cinco casas de papel que visitámos confirmam, com diferenças de grau e intensidade, a afirmação do escritor canadiano nascido em Buenos Aires (onde na juventude leu para Jorge Luis Borges no seu apartamento, entre os seus livros).


Corredor. Maria do Rosário Pedreira e Manuel Alberto Valente entre as estantes altíssimas nas quais as suas bibliotecas se foram misturando
JOÃO LIMA


A BIBLIOTECA ERUDITA


“Peço desculpa por estar de roupão, mas apanharam-me meio engripado”, diz António Mega Ferreira ao receber-nos num dos dias mais frios do ano. A sua casa é um contínuo de estantes, mas os livros não se ficam por esses redis de madeira. Estão em todo o lado: em cima das mesas, nas cadeiras, nos aparadores. Nenhuma superfície plana lhes escapa. Há também quadros, música clássica, cadernos, canetas. Antes de se mudar para este apartamento, a poucos minutos a pé do Príncipe Real, em Lisboa, o escritor vivia num duplex. “Era muito bonito e espaçoso. O problema é que tinha poucas paredes livres. E um bibliófilo precisa de paredes.”
Se a casa atual não tivesse muitas paredes, como é que acolheria os cerca de 20 mil volumes que Mega contabiliza, mais os que continuarão a chegar nos próximos anos? “Há quem entre numa livraria e traga de uma só vez uns trinta livros. Eu não. No máximo, compro uns cinco ou seis. Mas nunca resisto. Se vejo uma livraria, tenho de entrar. E se entro, saio sempre de lá com livros na mão.” Este impulso começou na infância. Aos 12 anos, comprou o primeiro livro com o dinheiro da mesada: “O Velho e o Mar”, de Hemingway, numa edição de bolso em francês. Antes disso, já usava autocolantes numerados para marcar os livros que lhe ofereciam, mas o esmero de bibliotecário esgotou-se ao fim dos primeiros cem. Alguns desses exemplares sobreviveram até hoje. Por exemplo, “Um Drama na Livonia”, de Jules Verne. Era o número 37.
Mega Ferreira considera-se bibliófilo no sentido estrito daquele que ama os livros. Os livros enquanto textos, obras feitas de palavras. “Não sou colecionador, nem ando atrás de edições raras, autografadas, ou encadernadas desta ou daquela maneira. Isso diz-me tudo muito pouco.” Mesmo sem fetichismos, reconhece ainda assim o prazer de manusear certas edições antigas. “Eu comprei o ‘Zorba’, do Kazantzakis, na altura em que o filme saiu. Uma edição da Ulisseia. Resolvi lê-lo há uns tempos. Verifiquei que na altura só tinha aberto umas dezenas de páginas. Gostei do toque do papel velho, amarelecido, um pouco áspero, bastante rude, características que têm tudo que ver com o espírito da obra.” Cabe então a cada livro esperar, na estante, pelo seu momento? “Exatamente. Eu acredito nisso. Pode levar décadas. O ‘Zorba’ esperou 50 anos.”


Futuro. Como não tem filhos Mega Ferreira tenciona dar a sua biblioteca aos três sobrinhos
Futuro. Como não tem filhos Mega Ferreira tenciona dar a sua biblioteca aos três sobrinhos
JOÃO LIMA

Outro caso: “A Obra ao Negro”, de Marguerite Yourcenar. Mega leu-o da primeira vez na altura em que entrevistou a escritora belga (“uma experiência desagradável, porque ela era muito antipática”). Ao reabrir o livro, 35 anos depois, descobriu as marcas da primeira leitura: sublinhados, pequenas notas, páginas assinaladas. “Relendo, percebo porque as fiz na altura. Agora, como é óbvio, deixaria outras marcas. Aliás, deixei-as. Agrada-me muito a ideia do livro como palimpsesto das várias idades do leitor.” Com 68 anos, considera-se mais apto do que era aos 23. “Quanto mais lemos, melhor compreendemos o que viermos a ler depois. Há um efeito de acumulação, que ajuda a perceber a rede das influências, os padrões, os arquétipos narrativos. É como com as horas de voo. Só se acumularmos muitas seremos capazes de pilotar bem.”
A organização da biblioteca, um quebra-cabeças para tanta gente, nunca o preocupou por aí além. “Foi-se fazendo a si mesma, na adequação aos meus hábitos, às minhas necessidades.” Claramente erudita, mas intuitiva, funciona por núcleos. Há uma área dedicada a Cervantes, outra a Dante, outra ainda a Borges, uma estante quase inteira para Pessoa. Na sala principal estão os livros sobre a Antiguidade, os grandes clássicos, a História mundial, a música. No corredor, ficção estrangeira. No quarto de vestir, ficção lusófona. No de dormir, numa estante giratória, as biografias. Mas nada de muito rígido. Se olharmos bem, apercebemo-nos de que há muitos livros fora do sítio. “Acontecem muitos encontros inesperados, contaminações. Gosto disso.”
Mais do que com o presente da sua biblioteca, Mega Ferreira preocupa-se com o futuro. “É um drama. Não tenho filhos. Posso dá-la aos meus três sobrinhos, sim, desde que não lhes complique demasiado a vida. Ainda não sei bem o que fazer. Dá-me pena pensar que possa vir a ser despachada a peso.”

A BIBLIOTECA CONJUGAL


Quando dois grandes leitores se casam, o que acontece às respetivas bibliotecas? Somam-se? Fundem-se? Mantêm-se independentes? Maria do Rosário Pedreira e Manuel Alberto Valente tiveram de enfrentar estas questões. Ela: editora da LeYa, responsável pela descoberta e lançamento de uma geração de jovens ficcionistas portugueses, além de poeta, ficcionista e autora de letras para fados. Ele: diretor editorial da Porto Editora e poeta bissexto. Profissionalmente, trabalham em empresas rivais, mas isso nunca foi um problema: “Sabemos separar muito bem as águas.” Quanto aos livros de um e de outro, esses, resolveram juntá-los de vez.
A principal razão foi de ordem prática, porque o espaço é sempre finito, mesmo num apartamento de dimensões generosas e pé direito altíssimo, na Praça do Areeiro, em Lisboa. “Quando viemos ver a casa, havia três andares para alugar no prédio”, lembra Maria do Rosário. “As pessoas gostam sempre dos andares mais altos, mas escolhemos este, o mais baixo, porque tinha mais 80 centímetros de altura do que os outros. É meia estante.” Para aproveitar ao milímetro essa benesse, pediram a um amigo arquiteto para desenhar aquilo a que chamam o “corredor-biblioteca”.
Nesta espécie de centro geométrico da casa fica grande parte da ficção e a poesia toda. A ficção obedece a uma ordem geográfica, dentro de cada língua. Por exemplo, no caso do castelhano, alinham-se primeiro os autores espanhóis e depois as várias literaturas da América Latina, por ordem alfabética dos países (Argentina, Bolívia, Chile, até à Venezuela). A exceção é a literatura portuguesa, que segue uma ordem cronológica, dos mais antigos para os mais jovens. Maria do Rosário explica: “Por um lado, o Manel gosta de juntar autores de uma mesma tendência, movimento artístico ou geração. Por outro lado, facilita-nos a vida, porque hoje são os jovens que produzem mais e é fácil arrumá-los no fim da estante, no espaço livre. Se fosse por ordem alfabética, estávamos sempre a refazer tudo e seria impraticável.”
Determinante no processo de ganhar espaço foi a decisão de enviar para uma casa de fim de semana, na Ericeira, todos os livros policiais e thrillers. Seguiu-se a identificação dos livros repetidos, que o casal ofereceu aos amigos e à livraria “Déjà Lu”. Mas essas duplicações acabaram sendo em menor número do que supunham. “A verdade é que somos de gerações diferentes. O Manel atravessou todo o período anterior ao 25 de Abril, em que se compravam muitos ensaios políticos, eu nem tanto; e ele é mais virado para a literatura francesa, enquanto eu sigo mais a literatura anglo-saxónica. As nossas bibliotecas até são bastante complementares”, observa a autora de “O Canto do Vento nos Ciprestes”, que se assume como mais “desprendida”.
Já Manuel Alberto Valente admite uma certa dificuldade em separar-se dos livros: “Tenho sempre a sensação de que posso vir a precisar deles por uma razão qualquer. E partilho aquela tese do Umberto Eco, segundo a qual os livros entram em nós por osmose, mesmo se não os lermos. O simples facto de estarem ali, à nossa volta, já nos torna melhores.” A propósito, Maria do Rosário Pedreira evoca Eduardo Prado Coelho: “Ele dizia que uma biblioteca só começa a ser interessante quando há nela tantos livros por ler quanto os livros lidos. Se só tiver obras que já conhecemos, torna-se uma biblioteca estática. Não podia concordar mais.”


Desordem. Rui Zink no meio de um labirinto em que só ele consegue orientar-se: “Há um padrão unificador aqui. E esse padrão unificador sou eu”
Desordem. Rui Zink no meio de um labirinto em que só ele consegue orientar-se: “Há um padrão unificador aqui. E esse padrão unificador sou eu”
JOÃO LIMA

Um aspeto interessante do processo de arrumação é o que resulta de uma espécie de arqueologia sentimental. “Ao pôr em ordem a parte francesa, descobri o meu próprio percurso, as leituras feitas aos 18, aos 20 anos, aos 25”, diz Valente. “Perguntei-me: porque lia estas coisas naquela época? Fica-se a pensar. É uma forma de entendermos o caminho percorrido. Pegamos num livro e há memórias soterradas que vêm ao de cima.”
Tal como um terreno estudado por um geólogo, uma biblioteca tem estratos. “É interessante ver como os livros migram, como vão subindo nas prateleiras. Eu conservo encostadas ao teto, num sítio que é preciso um escadote para lá ir, todas as obras do Marx e do Lenine. Mas houve uma altura em que estavam na prateleira principal, mesmo em frente aos meus olhos. Hoje não me passa pela cabeça ir folhear o Lenine, embora o Marx talvez faça sentido voltar a ler. De qualquer forma, estão lá. Fazem parte do tal percurso de vida que a biblioteca regista.”
No passado, Valente refez várias vezes a sua vida, deixando casas e mobílias para trás, mas nunca os livros. Por isso, tanto ele como Maria do Rosário têm consciência dos riscos de transformar duas bibliotecas numa só. Na eventualidade de uma separação, dividir o que se uniu seria muitíssimo difícil. “Algum motivo haverá para que uma decisão destas só seja tomada ao fim de uns anos largos de casamento”, remata Manuel, com um sorriso.

A BIBLIOTECA PRAGMÁTICA


Sentado na sala principal de sua casa, num condomínio de luxo junto à Serra de Sintra, José Rodrigues dos Santos, o autor português que mais vendeu nos últimos anos (acima de três milhões de exemplares), regressa por momentos à infância, em Tete, no norte de Moçambique. Foi aí, por volta dos sete anos, que iniciou o seu percurso de leitor omnívoro de Banda Desenhada (Tintim, Astérix, Lucky Luke, Spirou, mas também Tarzan e a revista “Mundo de Aventuras”). A paixão pela BD nunca o abandonou. A assinalá-lo, na única estante do piso térreo, uma estatueta do repórter criado por Hergé ocupa um lugar de destaque. À sua volta, o pivô da RTP dispôs os seus próprios livros, traduzidos para um número crescente de línguas (“são tantas as edições diferentes que já começo a não ter espaço”). Nas prateleiras de cima, “alguns clássicos”: Fernando Pessoa, Camões, Ferreira de Castro, Camilo Castelo Branco, Marcel Proust, Eça de Queirós.
A partir dos 12 anos, cresceu o interesse pela Ficção Científica. “Lia um livro a cada dois dias. Ainda hoje tenho a coleção Argonauta quase completa.” Em Macau, onde era grande a influência da cultura britânica, via Hong Kong, leu o “2001, Odisseia no Espaço”, de Arthur C. Clarke, no original. Mas o hábito de ler em inglês consolidou-se mais tarde, quando aos 22 anos foi trabalhar na BBC, em Londres. Começou “a abrir o leque”, descobrindo escritores britânicos como Evelyn Waugh, P. G. Wodehouse e Somerset Maugham (“‘Servidão Humana’ continua a ser o meu livro preferido”). Ao regressar a Portugal, no início da década de 90, os bons hábitos de leitura perderam-se. “Trabalhava tanto que não tinha tempo nenhum para ler.” Ao fim de dois anos, porém, decidiu inverter a situação. “Impus-me como regra ler sempre um bocadinho antes de dormir, mesmo que esteja exausto.”
O início da carreira de romancista, nos primeiros anos deste século, marcou uma mudança drástica na sua vida. “Como leio entre 30 a 100 livros sobre um determinado tema, durante a fase de pesquisa, abdiquei praticamente das leituras de prazer.” Enquanto escreve as suas narrativas, a bibliografia especializada cresce, em pilhas, na sua mesa de trabalho. Para dar sustentação teórica à ‘Trilogia do Lótus’ — de que já foram publicados dois romances (“As Flores de Lótus” e “O Pavilhão Púrpura”), com o terceiro (“O Reino do Meio”) previsto para o final deste ano, sempre na Gradiva — mergulhou a fundo na questão dos totalitarismos. Ao sugerir a existência de raízes marxistas no fascismo, desencadeou uma controvérsia à moda antiga, em que trocou argumentos com historiadores em artigos de jornal. “Li quase todos os livros do Marx, quase todos os livros do Engels, mas também fui aos textos do Mussolini e dos ideólogos fascistas: o Olivetti, o D’Annunzio, o Corridoni. Prefiro sempre ir às fontes, em vez de ler traduções seletivas e ideologicamente orientadas. Quando vamos aos textos originais, descobrimos coisas verdadeiramente extraordinárias.”
Concluída a escrita de um livro, o material de apoio deixa de ser imediatamente necessário, mas não pode ser descartado. “Se houver uma polémica, tenho de ir confirmar as páginas a que fui buscar determinada informação.” Por isso, criou um espaço — na garagem, junto aos dois automóveis de alta cilindrada — para o arquivo morto das suas investigações. Uma espécie de armário branco, em módulos, que cobre uma parede inteira, do chão ao teto. É de lá que retira as obras de Marx onde sublinhou passagens de teor antissemita ou de defesa da escravatura (“é mesmo verdade, olhe aqui”), pousando-as em cima do capô do Mercedes. Dentro do armário fica uma biblioteca oculta: a dos livros que serviram de base ao trabalho do romancista e, cumprida a sua função, se remetem a uma espécie de silêncio.


Toca. Entre dicionários e livros “essenciais”, Maria Manuel Viana escreve os seus romances e traduz, sobretudo do espanhol, mas também do francês
Toca. Entre dicionários e livros “essenciais”, Maria Manuel Viana escreve os seus romances e traduz, sobretudo do espanhol, mas também do francês
JOÃO LIMA

Há nisto um elevado grau de pragmatismo que se estende à outra biblioteca. A visível. José Rodrigues dos Santos guarda a vasta coleção de BD, e os livros de Ciências, no escritório que partilha com a mulher. Mesmo em frente ao escritório, uma grande estante, feita à medida, acolhe as obras sobre jornalismo e a ficção. “Tenho aqui algumas preciosidades.” Abre, para exemplificar, o saco de plástico com fecho hermético onde guarda uma primeira edição assinada de “O Agente Secreto”, de Joseph Conrad. Mas nem só os livros raros merecem este tratamento de proteção contra poeiras e peixinhos-de-prata. Nas prateleiras, mais de metade dos volumes estão metidos em casulos estanques. Uma visão estranha, como a daqueles sofás que certas famílias cobrem com plásticos para não se estragarem. Mas talvez faça sentido: afinal, Rodrigues dos Santos é o primeiro a admitir que já não tem tempo para os ler. As leituras em curso estão sempre junto ao computador e ao texto em gestação do próximo romance.

A BIBLIOTECA CAÓTICA


Sacos de todos os tipos, caixas transparentes (cheias de livros, cadernos, dossiês), objetos tresmalhados, instrumentos musicais, cabos de aparelhos eletrónicos, jornais, catálogos, papelada avulsa. A sala parece um cafarnaum. “Estou em mudanças”, explica Rui Zink, enquanto deambula no meio da desordem, tirando livros da estante, aparentemente ao acaso, e falando sobre eles. Banda desenhada alternativa, um autor esquecido (António Aragão), um livro de Alberto Pimenta, um manual — “How to Write Erotica” — que promete ensinar a escrever cenas de sexo, esse busílis da literatura portuguesa (“não me serviu de nada”).
Para o topo da pilha vai agora um volume em capa dura: “Os Justos”, de Albert Camus, edição antiga da Livros do Brasil. “Li-o durante a adolescência. É uma peça de teatro.” Ao folheá-lo, Zink descobre um texto manuscrito. “Deve ser mais ou menos daquela época, acho que consigo decifrar. Ora vamos lá: ‘Todos os homens são pequenos, a lupa dos nossos olhos é que aumenta uns, enquanto o microscópio disseca outros. Mas a perfeição não existe. Somos sempre traídos por um ponto negro, uma borbulha, uma ruga fora do lugar. Estamos aprisionados dentro de nós próprios.’ Não faço ideia se escrevi isto aos 15 anos, ou aos 18, mas olha, nada mau. Isto era um rapaz a pensar.” No resto do livro há passagens sublinhadas. “Gosto muito de descobrir estas marcas. Na prática, estou a ler dois livros de duas pessoas que já cá não estão. O Albert Camus, porque morreu; e o Rui Zink de 18 anos, porque também já não existe.”
E qual a lógica de arrumação (ou de desarrumação) desta biblioteca? “Não há lógica. Nem critério. Eu adorava que houvesse, mas sou talvez o pior bibliotecário do mundo. Há livros que são relativamente fáceis de arrumar. Por exemplo, tenho ali uma prateleira de livros sobre o Japão. Mas depois eles saltitam para outros lados.” Quando precisa de encontrar um determinado volume, o escritor garante que consegue orientar-se “oitenta por cento das vezes”. É uma espécie de GPS subliminar, um conhecimento intuitivo. “Os livros que eu amo ficam em sítios escondidos. Não preciso de me lembrar deles. Sei sempre onde estão.”


Plástico. José Rodrigues dos Santos junto às prateleiras com literatura de ficção da sua biblioteca, em grande parte protegida por sacos estanques
Plástico. José Rodrigues dos Santos junto às prateleiras com literatura de ficção da sua biblioteca, em grande parte protegida por sacos estanques
JOÃO LIMA

Outra vantagem do caos: descobrir “mundos infinitos” dentro da própria casa. “É isso que uma biblioteca tem em comum com uma cabeça. Tu podes ser prisioneiro, meteram-te numa cela pequena, e se fores uma pessoa com imaginação e inteligência, podes ter uma vida muito mais cheia do que uma pessoa que vive em liberdade.” Mesmo reconhecendo que algumas zonas da casa ganhavam em estar mais ordenadas, Zink sublinha que o excesso de arrumação faria certamente dele alguém mais preocupado com a capa dos livros do que com o seu conteúdo. “No dia em que não fores caótico é sinal de que estás morto.”
Os livros continuam a sair das prateleiras. Agora fala-se de Italo Calvino e de Martin Amis. Eis Júlio Dantas, o injustiçado. E olha ali um livrinho do Emmanuel Carrère, “La Classe de Neige”. Abandonou-o a dez páginas do fim. Bastavam mais uns minutos de leitura, mas algo se interpôs. “Acontece-me muito. Ficar a meio de um livro, como se fica a meio de uma conversa.” É uma boa analogia. Porque justamente esta conversa, também ela caótica, feita de associações de ideias, de descontinuidades, de derivas, se suspende aqui, enquanto uns livros voltam para os seus lugares e outros não.

A BIBLIOTECA MÓVEL


Na infância de Maria Manuel Viana sempre houve muitos livros. O pai era um professor e pedagogo. A mãe, uma “leitora absoluta”, que à noite lhe declamava versos de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. “Eram poemas de embalar.” Mais tarde, decidiram acompanhar o desenvolvimento intelectual da filha. “Quando eu lia um livro, eles liam também. E o livro era discutido à mesa do jantar. Fosse o ‘Joanica-Puff’ ou ‘Os Três Mosqueteiros’. Faziam-me enquadramentos históricos, explicavam as coisas que eu não tinha percebido. Foi um luxo, foi magnífico.”
Ainda em casa dos pais, teve a sua primeira estante, os seus primeiros livros. Quando saiu para viver sozinha, aos 18 anos, levou-os consigo. Tinha assim início um longo percurso de acumulações e perdas, livros que se aproximam e afastam, ficam pelo caminho, recuperam-se, até chegar a este refúgio onde Maria Manuel Viana nos acolhe, uma cave num bairro antigo de Lisboa, espécie de toca onde escreve as suas ficções e traduz, cada vez mais resguardada, por vontade própria, da exposição pública.
Com o pai dos filhos, companheiro durante mais de vinte anos e ainda hoje o seu melhor amigo, fez um pacto. Ele é secretário-geral de uma organização internacional e passa a maior parte do tempo no estrangeiro. Quando regressa das viagens, traz-lhe as novidades de Londres ou de Paris, os livros de que se fala ou os premiados. Em troca, ela mantém-no atualizado sobre o que se vai publicando em Portugal, sobretudo no campo da poesia. “Ao longo dos anos, fomos alimentando a biblioteca um do outro. Separámo-nos em 2003, mas a nossa relação intelectual continuou. É o nosso elo de ligação.”
Quando há dois anos começou a ter sérios problemas com a falta de espaço para os livros, decidiu dar a sua grande coleção de policiais. “Tenho cada vez menos o sentido da propriedade. O prazer dos livros nasce de lê-los, não de possuí-los.” Assim que soube da sua intenção, o antigo companheiro interveio, oferecendo-se para receber o espólio, uma vez que tem espaço de sobra na sua quinta. “Isso deu-me uma ideia: assim que acabo de ler um livro, seja comprado por mim seja oferecido por ele, envio-o para Castelo Branco, onde mora. Depois, se precisar deles, peço-os e ele envia-mos pelo correio. Na leva seguinte, voltam a ir.”
Por perto, ficam os “essenciais”. Não os que levaria para uma ilha deserta, “conceito que me irrita”, mas aqueles que gostaria de ter sempre consigo. “A Apresentação do Rosto”, de Herberto Helder, por exemplo. “Foi o único livro que o Herberto excluiu da sua bibliografia, o que me faz gostar ainda mais desesperadamente dele. É lindíssimo.” Ou um livro de Marguerite Duras, “La Maladie de la Mort”, que lhe foi enviado, em fotocópias encadernadas, por Eduardo Prado Coelho. “São coisas muito preciosas. E eu necessito da proximidade física destes livros.”
O impulso da partilha mantém-se. “É uma coisa que me vem da infância. Se há um livro que me maravilha, levo-o logo para os meus filhos. Têm de ler isto. Faço com eles o que os meus pais faziam comigo.” E estende o gesto aos amigos mais próximos, com quem janta todas as semanas para falar de literatura e trocar livros. A biblioteca nunca está parada. Toda ela é movimento de ida e volta. “Gosto muito desta ideia de ter os livros a circular, sempre. Eles não são meus, são de muitos, vão sendo de quem os lê.”
http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-03-25-Casas-de-papel



Título: Biblioteca em fogo. Autora: Helena Vieira da Silva. Data: 1974. Técnica: Pintura a óleo sobre tela. Dimensões: 158,4 cm  × 178,4 cm. Localização: Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa

sexta-feira, 24 de março de 2017

Um quarto dos poemas é imitação literária



Um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da
magnificência do mundo
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na
pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro

Herberto Helder (in Servidões, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013; Poemas Completos, Porto: Porto Editora, 2014)
Poema dito por Fernando Alves (TSF-Rádio Notícias, maio de 2013)
  
[…] apesar de ser «dos poetas mais lidos e assimilados, porquanto a marca da sua presença aparece nas mais variadas obras dos autores mais variados, e com uma assiduidade que chega a tornar-se maçadora» (Maria Estela Guedes), Herberto Helder «não tem antes nem depois, apesar de muitos o tentarem imitar» (Joana Emídio Marques); «Não há na poesia portuguesa pós-Pessoa nenhum poeta que tenha exercido um tal poder de atração e gerado tantos epígonos. E nenhum mais absolutamente impossível de imitar com proveito» (Luís Miguel Queirós); «Nos grandes poetas, ela [a imitação] tende para o impossível, ou então é insuportavelmente trôpega. (…) Essa impossibilidade de imitar valiosamente aquilo que mais apeteceria imitar é quase um sinal indubitável da soberana realidade de uma poesia» (Paulo Tunhas).
Sobre tudo isto, Herberto Helder disse, com um requinte, uma subtileza e uma precisão descritiva (e digo-o sem exagero nem ironia) que não está ao alcance de todas as inteligências: «Quanto mais contrabandeado, melhor se verá nele a força natural da singularidade» (prefácio a Uma Faca nos Dentes).
João Pedro Jorge, “Herberto Helder: sociologia de um génio”, Observador, 2015-04-08.





Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada
já posso dizer tudo.
Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que algum pouco depois
estarei morto
e só de o pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já só vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.
E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do quanto alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno
e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo.
 
Herberto Helder (in Servidões, Lisboa: Assírio & Alvim, 2013; Poemas Completos, Porto: Porto Editora, 2014)
Poema dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em maio de 2013)

quinta-feira, 23 de março de 2017

O que faz de um poema... um poema?


Dando-se o caso de se tratar de um poema, o que é que nele é poesia?

Publicado a 20/03/2017
What exactly makes a poem … a poem? Poets themselves have struggled with this question, often using metaphors to approximate a definition. Is a poem a little machine? A firework? An echo? A dream? Melissa Kovacs shares three recognizable characteristics of most poetry.
Lesson by Melissa Kovacs, animation by Ace & Son Moving Picture Co., LLC.

terça-feira, 21 de março de 2017

Jorge de Sena - Carta a um jovem poeta

sena.JPG


Meu caro jovem poeta
Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.
De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.
Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.
Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & C.a? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência… Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.
A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.
Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.
Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de monstro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.
Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província)

Jorge de Sena

*

Datada de 29 de agosto de 1966, esta 'carta' foi enviada ao poeta Walmir Ayala (1933-1991), para uma antologia temática que permanece inédita (Cartas aos jovens poetas brasileiros).
O texto foi publicado pela primeira vez no JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias, de Lisboa, a 10 de novembro de 1981, p. 5
A Correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena (3. ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010) nos traz alguns dados sobre o texto, a seguir transcritos.
De Lisboa, a 27 de junho de 1966, escreve Sophia: "Do Brasil vim com a incumbência de reunir colaboração portuguesa para o volume organizado pelo Walmir Ayala. O Walmir Ayala vai incluir "uma carta a um jovem poeta" que a Cecília Meireles deixou inédita. Encarecidamente lhe peço para este volume a "sua carta a um jovem poeta". Creio que é a primeira vez que no Brasil se publica um livro escrito simultaneamente por portugueses e brasileiros. A ideia parece-me óptima." (p.99)
Do Wisconsin, a 30 de agosto de 1966, responde Sena: "Só agora me foi possível compor a carta que me é solicitada pelo seu convite e do Walmir Ayala. Aqui lha mando — é uma coisa muito amarga e muito rude, mas por certo temperará o conjunto. Espero que lhe agrade como sincera coisa minha" (p.102).

http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/escritos-pessoais/carta-a-um-jovem-poeta/

segunda-feira, 20 de março de 2017

A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela

           


            FELICIDADE

            A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.
            Tinha feições de menino inconsolável.
            Um menino impúbere
            ainda sem amor por ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo
pelas faces humanas.
E, como menino que era,
achava um grande mistério
no seu próprio nome.

Jorge de Sena, 13.4.41 (PerseguiçãoLisboa, Cadernos de Poesia, 1942)


*


A discussão do poema foi engraçadíssima. Em primeiro lugar as miúdas da turma, em especial  Rute Elétrica, discordaram de que a felicidade fosse um menino. Antes uma menina e o negócio estava arrumado. A Carla Corações disse que podia ser um menino, se tivesse olhos verdes, uma moto fabulosa e de preferência que andasse na Universidade Católica como o seu primo Bernardo. Aí, o Telegoela disse que Bernardo era nome de cão e a Rute Elétrica, para defender a sua amiga Carla, deu-lhe com o “dossier” na cabeça. A Maria Só disse que o autor era um grande machista e o João Boião propôs que se lhe escrevesse uma carta, a pedir que mudasse a palavra menino para rapaz, ou homenzinho. Aí, a Maria Bonita disse que nem rapaz nem rapazinho, nem menino nem menina. Para ela, a felicidade era uma mulher de vestido até aos pés e com muitas jóias e um namorado rico. O Pedro Poças disse que não e que o avô dele achava que a felicidade não é deste mundo, por isso a felicidade devia ser uma história de mortos, boa para um filme de terror ou coisa assim. O Tó Provetas disse: a felicidade é um substantivo feminino, não pode ser menino.


Alexandre Honrado, Uma Chuvada na Careca, Porto, Edinter Jovem, 1989



sexta-feira, 10 de março de 2017

AMAR PELOS DOIS

Salvador Sobral - Amar Pelos Dois (Thought of You by Ryan Woodward) from Creativehole on Vimeo.



Se um dia alguém
Perguntar por mim
Diz que vivi
Para te amar

Antes de ti
Só existi
Cansado e sem nada p’ra dar
Meu bem
Ouve as minhas preces
Peço que regresses
Que me voltes a querer

Eu sei
Que não se ama sozinho
Talvez devagarinho
Possas voltar a aprender

Se o teu coração
Não quiser ceder
Não sentir paixão
Não quiser sofrer

Sem fazer planos
Do que virá depois
O meu coração
Pode amar pelos dois


Luísa Sobral


domingo, 5 de março de 2017

As fases do amor



AS FASES

As fases do amor são uma:
a primeira, a primeira, a primeira.
Nada no amor vai além da primeira fase
‑ a voltagem do encontro ‑
com nenhum futuro além da primeira fase.
Arruma-se a casa, limpa-se a fuligem
do passado, todos os sóis são convocados
para a hora sem volta da primeira fase:
é ali onde o amor marca o encontro
da emboscada com o acaso.
É neste momento da primeira fase
que o tempo se alarga, e morre-se de amor
no eterno da primeira fase. Tudo, tudo é
tudo é convocado: o hálito com suas
aragens, o incêndio do corpo
exaurindo as margens, a chama do sopro
com suas linguagens. E não há conjeturas
sobre os limites da primeira fase, a não ser
o horror do fim, o abismo do fim que reside
no infinito da primeira fase.

Paulinho Assunção, Novos poemas


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O amor tem cinco fases. Mas a maioria das pessoas fica estagnada na terceira

Depois de 40 anos de pesquisa clínica, o famoso psicólogo Jed Diamond concluiu que a maioria das pessoas encontra, de facto, a sua ‘cara-metade’. Mas, para que o relacionamento funcione é preciso superar cinco fases inevitáveis da vida a dois. O problema é que, como o psicólogo aferiu, a maioria das pessoas fica-se pela terceira fase e termina a relação.
De acordo com Jed Diamond e como explica no seu site MenAlive para conseguir um amor verdadeiro e duradouro é preciso passar por estas fases:
1. Paixão. 
Fase em que se sente extasiado pelas hormonas da felicidade, em que projeta todas as suas expectativas no parceiro e em que não consegue ver nenhum defeito nessa pessoa.
2. Início oficial da relação. 
Quando se começa uma união estável ou se dá o casamento o amor torna-se mais forte. Começam a viver juntos, a conhecer-se melhor e a influenciar os aspetos da vida do outro. É um momento de união e de alegria.
3. Desilusão. 
Este é o momento em que todas as esperanças são destruídas. Parece que os sentimentos estão a desaparecer, a outra pessoa torna-se demasiado previsível e o seu comportamento começa a irritá-lo. Quer fazer afastar-se durante um tempo ou mesmo pôr fim à relação. E é aqui que muitas pessoas dão o amor como morto e deixam de se esforçar por uma relação que parece já não lhes trazer felicidade há muito.
4. Superação da crise e criação do amor verdadeiro e duradouro. 
Se conseguir ultrapassar a terceira fase com segurança chega esta em que as ilusões que estava a projetar no seu parceiro desaparecem e começa a ver a pessoa que está à sua frente e não a imagem que criou dela. Se a aceitar como ela é e compreender os seus pequenos defeitos conseguirão ajudar um ao outro e passar para a fase do amor verdadeiro e criar uma parceria real.
5. Utilizar o poder de ambos para mudar o mundo. 
Sabendo que conseguiram ultrapassar todas as vossas diferenças e mal-entendidos e de que encontraram uma ligação profunda e forte entre vocês, sentem que têm força para mudar o que quer que seja, são uma equipa imbatível. Mais do que viver juntos, vivem juntos por um propósito e trabalham e pensam como um só.
https://www.noticiasaominuto.com/lifestyle/671870/as-cinco-fases-do-amor-e-por-que-tanta-gente-se-fica-pela-3




A NEUROBIOLOGIA DO AMOR: As Fases e Emoções Envolvidas

Débora Sterzeck Cardoso, Laryssa H. E. Nishio, Soha Chabrawi, Silvia Honda Takada, Alexandre Hiroaki Kihara
Laboratório de Neurogenética / Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos / Universidade Federal do ABC
Edição Vol. 2, N. 2, 20 de Outubro de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.10.19.008

Nas últimas décadas, com o surgimento de técnicas como a tomografia computadorizada por emissão de pósitrons e a ressonância magnética funcional, os neurocientistas começaram a investigar assuntos como o amor, a atração e a monogamia; áreas que até então tinham prevalência de estudos psicológicos e sociológicos. Desta forma, eles foram à busca de respostas para perguntas como o porquê nos apaixonamos e o porquê escolhemos uma pessoa específica.
Psicólogos definiram três diferentes fases para um relacionamento amoroso: 1) paixão/romantismo, 2) amor passional e 3) companheirismo; além do rompimento, que pode ocorrer durante esse percurso, sendo que cada uma apresenta suas próprias características (Figura 1).
Figura 1: Esquema ilustrando as fases do amor e suas respectivas durações: 1) paixão/romantismo, 2) amor passional e 3) companheirismo. O rompimento, que pode ocorrer durante esse percurso, também está representado, sendo mais comum que ocorra entre as fases 2 (amor passional) e 3 (companheirismo).

A primeira fase, relativamente curta (aproximadamente 6 meses), apresenta grandes variações hormonais de oxitocina e vasopressina que são importantes hormônios que regulam áreas do sistema de recompensa do cérebro (Figura 2), complexa rede de neurônios que é ativada quando fazemos atividades que causam prazer.
Figura 2: Localização das principais áreas envolvidas no relacionamento amoroso: núcleo Accumbens; núcleo pálido ventral e área tegmental ventral.

Boer e colaboradores1, da Universidade de Groningen, na Holanda, publicaram em 2012 um artigo de revisão bastante interessante sobre as perspectivas neurobiológicas atuais do amor e afeição.
Os autores relatam diversos estudos realizados com o objetivo de elucidar a base neurobiológica da monogamia, a maioria deles comparando duas diferentes espécies de ratazanas (monogâmicas e promíscuas), em que estas áreas e regiões adjacentes demonstraram alterações em sua ativação durante a fase inicial do amor (romântica). Estas áreas estão intimamente ligadas à dopamina, outro importante neurotransmissor para o sistema de recompensa.
A relação entre a dopamina e a monogamia foi demonstrada no encéfalo destes animais em que, após infusão moderada deste hormônio no núcleo Accumbens da espécie promíscua, elas passaram a apresentar comportamento monogâmico. É como se seu companheiro ou companheira que é muito assanhado(a) passasse a ser a pessoal mais fiel à você!
Além do sistema de recompensa cerebral, foram observadas alterações na atividade de regiões corticais que se associam às experiências emocionais, principalmente o medo, sentimento que diminui quando estamos próximos às pessoas amadas; as experiências negativas e de julgamento, observado na incapacidade de julgarmos honestamente o caráter de quem amamos; e de percepção sobre a evolução dos sentimentos e intenções da outra pessoa.
A segunda fase, a fase passional, compreende até o primeiro ano de relacionamento.Nesta fase, a oxitocina e a vasopressina estão envolvidas na formação de um relacionamento sólido. Estas alterações geram os sentimentos de segurança, calma e equilíbrio.
Em 2013, Scheele e colaboradores2 avaliaram a ação da administração intranasal de oxitocina (OXT) no sistema de recompensa dopaminérgico, através da apresentação da foto da parceira em comparação com a de outras mulheres exemplificadas adiante.
Foram selecionados 40 participantes do sexo masculino, adultos, não fumantes que estavam em um relacionamento amoroso heterossexual por mais de 6 meses, solteiros e sem filhos que, portanto, estavam vivenciando a segunda fase do amor, o amor passional.
Foram realizados dois estudos, um de Descoberta (DSC) e um de Replicação (RPL) (Figura 3), cada um com 20 sujeitos. Trinta minutos antes de começar o teste, estes foram aleatoriamente selecionados para receberem OXT intranasal ou Placebo (PLC).
No DSC, foram apresentadas a foto da parceira, de uma mulher desconhecida (com igual grau de beleza) e a figura de uma casa como controle, pois esta não é considerada um estímulo facial.
Já no RPL, a figura da casa foi substituída pela foto de uma mulher familiar que conhecia o participante há, no mínimo, 30 meses.
Figura 3: Exemplificação da realização dos estudos, contendo o tipo de estudo (verde), imagens utilizadas (azul) e substância utilizada (laranja).

Ambos os estudos utilizaram a Ressonância Magnética Funcional (RMf) para visualizar o contraste de ativação cerebral quando cada uma das fotos foram apresentadas, além de ser avaliado o grau de atratividade e recompensa para cada foto.
O efeito da OXT foi evidenciado quando houve o aumento de ativação pela visualização da parceira e decréscimo de ativação pela visualização da foto da mulher desconhecida no núcleo Accumbens (NAcc) e na Área Tegmental Ventral (ATV), o que intensificou o sentimento de recompensa pela parceira quando a foto foi apresentada. Isto aumentou a ativação da área de recompensa, sendo ainda o ATV recentemente sugerido como área de ação da oxitocina para salientar os estímulos socialmente relevantes.
A ativação da ATV sofreu decréscimo, em ambos os estudos RPL e DSC, após o tratamento com OXT, o que pode contribuir para os relacionamentos duradouros, pois demais mulheres se tornam menos atrativas, porém não foram realizados estudos comportamentais para validação desta hipótese.
Quando comparado à casa, figura neutra, com a parceira no tratamento com placebo (PLC), notou-se ausência de forte resposta neural, pois a casa não é uma figura tão recompensadora quanto uma mulher desconhecida com igual grau de beleza que sua parceira.
Nos homens envolvidos em relacionamentos amorosos o aumento de oxitocina (OXT) sinaliza a proximidade, apoio social, contato íntimo ou sexo como atividades muito mais gratificantes se compartilhadas com sua parceira.
Através destes estudos, verificou-se a possível influência da OXT no aumento da atração facial, da comunicação entre o casal durante discussões e da fidelidade masculina através do distanciamento das demais mulheres.
Contudo, neste estudo não foram analisados os efeitos da OXT na ansiedade e no humor, sendo necessárias análises mais sensíveis que possam detectar alterações mais sutis. Podem também ter ocorrido alterações inconscientes de afetividade, pois não foram coletados dados psicológicos.
A terceira fase, companheirismo, é caracterizada pela diminuição da paixão e o aumento de comprometimento com o parceiro, o que se assemelha a um sentimento de amizade. A oxitocina e a vasopressina mantêm seu papel, sendo os hormônios dominantes para manter o relacionamento.
Contudo, não podemos classificar todas as relações amorosas desta maneira, pois um terço dos casamentos acaba em divórcio e outros relacionamentos chegam ao fim, ainda entre as primeiras etapas, sendo mais comum na transição da fase passional para o companheirismo. Neste período, a intimidade entre os casais decai e o compromisso é o maior laço entre o casal, tornando assim a relação frágil.
Ao avaliar a atividade cerebral de pessoas que haviam terminado seus relacionamentos recentemente, foi observada uma alta atividade em outras regiões do sistema de recompensa dopaminérgico que estão associadas a recompensas incertas e respostas tardias,caracterizando o sentimento de incertezas de futuro1.
Os estudos realizados na tentativa de elucidar as bases neurobiológicas do relacionamento amoroso ainda são escassos, apesar do interesse crescente de cientistas e pesquisadores da área de Neurociências e dos recentes avanços das técnicas de imagem. Muitos deles, realizados em animais, talvez não possam ser transpostos ao homem, mas com certeza ajudam a compreender este campo ainda tão pouco explorado. Embora seja um estudo bem complexo, o amor nos seres humanos é um interessante tópico que merece ser aprofundado no sentido neurobiológico, levando a novas descobertas nos próximos anos.
Referências
1. de Boer A, van Buel EM, Ter Horst GJ. Love Is More Than Just a Kiss: A Neurobiological Perspective on Love and Affection. Neuroscience. 2012 Jan 10;201:114-24. PubMed PMID: ISI:000299400700011. English.
2. Scheele D, Wille A, Kendrick KM, Stoffel-Wagner B, Becker B, Gunturkun O, et al. Oxytocin enhances brain reward system responses in men viewing the face of their female partner. P Natl Acad Sci USA. 2013 Dec 10;110(50):20308-13. PubMed PMID: ISI:000328061700077. English.



"O grande erro do século XX foi acharmos que o amor era só um sentimento, que vai e vem. Na realidade, é um ato de vontade 
e inteligência"


José Carlos Carvalho

Entrevista ao psiquiatra e escritor espanhol Enrique Rojas, o homem do momento em Espanha

O homem de quem se fala em Espanha, pelos seus livros de autoajuda, veio a Lisboa munido de mais um título que promete alargar os mais de três milhões de exemplares vendidos, desde que apostou na escrita sobre dirigida ao cidadão comum. SOS Ansiedade (Matéria Prima, 186 págs., €15) tem todos os ingredientes para seguir o caminho dos outros títulos editados em Portugal (Não te rendas! e Vive a tua vida). Aos 68 anos, o diretor do Instituto Espanhol de Investigação Psiquiátrica de Madrid conversou com a VISÃO sobre o que faz de nós pessoas menos ansiosas, mais felizes e capazes de amar com inteligência. Entre consultas e digressões, nuestro hermano preside ainda à Fundação Rojas-Estapé, que acompanha gratuitamente jovens com perturbações de personalidade e baixos recursos económicos.
A psiquiatria está-lhe no sangue?
O meu pai, o meu primo, a minha irmã são psiquiatras e a minha filha é psicóloga. “Rojas” é igual a “psiquiatria”.
E como é viver com isso?
Hoje podemos dizer que o psiquiatra vende paz, tranquilidade, ilusão e felicidade. Porém, contactar diariamente com situações pessoais duras, graves e complicadas produz erosão. Combatê-las passa por cultivar algo para relaxar. Eu faço pintura abstrata: quando me sinto esgotado vou para o estúdio e dedico-me a essa paixão. Além disso ouço música e faço desporto.
Doutorou-se com um trabalho sobre suicídio e perturbações de personalidade. Como as define?
São desequilíbrios psicológicos decorrentes de feridas passadas não saradas e de um baixo nível de autoestima. Na investigação que fiz, com o meu pai, numa amostra de pessoas que tentaram suicidar-se mas não o conseguiram, concluí que estas pessoas tinham também baixa confiança em si mesmas, oscilações de humor e não conseguiam desfrutar da vida, convertendo problemas em dramas. Se juntar a isso a depressão, que se faz acompanhar de sintomas como melancolia, sentimentos negativos, pessimismo e ansiedade, percebe-se como surge o desejo de se matar.
A ansiedade pode agravar essa predisposição?
O problema da ansiedade é a adrenalina em excesso a circular entre os neurónios, que se manifesta no plano físico: taquicardia, suores frios, excesso de suco gástrico, sensação de falta de ar, tremores nas mãos. As crises ansiosas são um tsunami de ansiedade que dura minutos em que estão presentes vários medos: de morrer, de enlouquecer, de perder o controlo. O último é o mais frequente.
Como se gere a ansiedade, de modo a que não tome conta da vida?
É preciso parar e perguntar-se três coisas que constituem a base de uma personalidade equilibrada: “Quem sou”, “para onde vou” e “com quem”. Tal implica saber o que se quer e ter ultrapassado as feridas do passado. Ajuda ter um projeto de vida realista, dar às coisas que acontecem a importância que de facto têm, com sentido de humor e resiliência. Isso é ser uma pessoa madura, que aprende com as derrotas e cresce como ser humano. A ansiedade pode ser positiva, criativa, mas também negativa, se impedir uma vida normal: a pessoa está sempre mal com o trabalho, os amigos, o cônjuge.
O que fazer quando se fica enredado nas malhas desta “aminimiga”?
Se for endógena, ou seja, resultar de um desequilíbrio bioquímico, combate-se com fármacos e psicoterapia. Caso seja exógena, com origem no exterior, a psicoterapia pode ajudar. Sabemos que a causa da ansiedade é externa quando se manifesta, entre outras coisas, na constante falta de tempo, no ritmo frenético e no vício do trabalho, do móvel ou da net. A solução para pôr termo a isto está em aprender a dizer “não”. Cortar as ambições excessivas também dá muita paz, tal como colocar ordem nos horários, na casa.
Os estudos mostram que a ansiedade é muito comum na meia--idade. Isso é um sintoma de que algo correu mal na vida daquela pessoa? Ou é uma questão social?
Na Europa avançou-se mais em 15 anos do que num século. A velocidade é muito grande. As coisas correrão melhor se nos lembrarmos de três coisas fundamentais, que são o amor, o trabalho, a cultura e a amizade. Não há felicidade sem amor nem amor sem renúncia. Se amarmos o que fazemos no trabalho sabemos que estamos na via certa. A cultura, que é conhecimento, liberta-nos. O problema começa quando deixa de haver tempo para isto, só o há para as redes sociais... De modo que não se sabe quem é Pessoa, Saramago. Quando perdemos a curiosidade ficamos mais pobres.
Saltamos de uma coisa para outra, fica tudo mais plano, ou digitalizado, por assim dizer.
Gosto muito dessa expressão. O “aplanar”. A cultura é a capacidade de ir contra a corrente e seguir a estética da inteligência. Quanto à amizade, Dom Quixote, mais importante que Cervantes, dizia que a felicidade não está no destino mas no meio do caminho. Sancho Pança, por seu turno, tinha esta máxima: “Amigo que não dá e faca que não corta, se se perder não importa.” Os verdadeiros amigos são poucos. A falta de tempo prejudica as amizades.
É possível cultivar a felicidade e prevenir a doença sozinho no frenesim em que vivemos?
Sim, mas é difícil na era do stresse, da depressão e do desamor. E da apatia, que é a indiferença perante a vida. Por isso é que os psiquiatras e psicólogos se converteram em conselheiros de cabeceira. Só quem está pouco informado é que pensa que ir ao psi é para quem é doente ou louco. Se a sociedade em que estamos é de fast food, a psicologia é uma espécie de slow food. A ideia é sermos capazes de nos encontrarmos a nós mesmos, sozinhos ou com a ajuda de alguém. Isso requer tempo.
O mindfulness ou a atenção plena, podem combater a trilogia da ansiedade depressão-desamor da sociedade atual?
Poder, pode, mas parece-me que necessitamos de uma visão mais abrangente, sobretudo no que se refere à gestão do amor. O grande erro do século XX foi acharmos que o amor era só um sentimento, que vai e vem. E que era um monólogo. Na realidade, o amor maduro é um ato de vontade e de inteligência.
Cultiva a inteligência amorosa na sua vida?
(Risos) Faço por isso, sou casado há 33 anos! Se eu fosse uma águia com duas cabeças direcionadas para o passado e para o futuro, a primeira diria que a felicidade é ter boa saúde e má memória; a segunda, que é ter ilusões. Ficamos velhos quando olhamos mais para trás do que para a frente e a memória toma o lugar da ilusão.
Mas se olhar muito para o futuro pode perder o chão, ou desiludir-se entretanto, certo?
Para que isso não suceda, há que distinguir entre metas, que são gerais, e objetivos, que são mensuráveis e concretos. Um exemplo. Meta: quero emagrecer. Objetivos: perder um quilo por semana, cortar nos hidratos de carbono e nas gorduras animais, andar uma hora diariamente.
Pode dar um exemplo que envolva as relações humanas?
Imagine uma crise conjugal. Meta: Resolver o problema com o parceiro. Objetivos: deixar para trás as queixas do passado, aprender a perdoar, evitar discussões desnecessárias, não converter um problema num drama, ter uma sexualidade partilhada e sem monotonia.
Esta lógica aplica-se às adversidades e à forma de evoluir com elas, sem se ir abaixo?
Sim. Os perdedores que assumem a derrota e começam de novo conseguem fazê-lo. Veja o caso de Steve Jobs, que se arruinou na vida por duas vezes e chegou a estar viciado em cocaína e heroína. Chama-se a isto resiliência. Tal como o caso do pescador mexicano que esteve perdido no Pacífico durante 438 dias, chegando a beber a sua urina e a comer as próprias unhas para sobreviver. Saiu da experiência cheio de amor. E Nelson Mandela, 28 anos de encarceramento e sujeito a tortura. Aí escreveu uma grande obra sobre a liberdade.
Impressiona e inspira, sem dúvida. Porém, a comparação pode ter o efeito contrário e puxar o outro para baixo… Algo do tipo “Se eles são tão bons, serei eu tão mau?”
A mensagem a reter é só esta: não dar o flanco e começar de novo. O autor espanhol Unamuno, em Diário Íntimo, diz: “Não te dês por vencido, nem a um vencido; não te mostres como um escravo, nem mesmo a um escravo”. Fui buscar a mensagem da campanha de Tony Blair, “não te rendas”, que por sua vez já tinha ido buscar a ideia a Churchill. Se não se consegue fazer isto sozinho, há que procurar alguém para que nos ajude a seguir em frente.
É possível desenvolver a resiliência com livros de autoajuda?
Em certos casos, a psicoterapia e a farmacologia são incontornáveis. Eu sigo um modelo de psicoterapia cognitivo e comportamental, que assenta na ideia de que podemos mudar o nosso comportamento se modificarmos as nossas crenças. Neste ponto da adversidade e da resiliência, creio que os leitores beneficiam de orientações específicas que os possam encaminhar em fases importantes da vida.
O que responde a quem lhe pergunta: “Porque me sinto tão mal se tudo me corre tão bem?”
O material não é tudo. Para estar bem tenho de estar bem comigo, saber o que quero e o que pretendo mudar na minha vida.
No seu livro afirma que a saúde é o silêncio da corporalidade e que cada corpo é um semáforo. O que quer dizer com isto?
A cara espelha aquilo que somos. A face e as mãos anunciam a vida como projeto. Voltando ao tema da ansiedade, ela manifesta-se por duas vias. O caminho do corpo expressa-se através de sintomas como a queda de cabelo (alopécia), problemas gástricos, musculares, respiratórios. O caminho da mente traduz-se em fobia ou em obsessões. Se uma pessoa tem crises de pânico num avião, apetece-lhe gritar e fica descontrolada, ao longo da semana é natural que desenvolva medo de voltar a voar. O pânico converte-se numa fobia, um medo intenso que a leva a evitar ou a adiar a viagem. Já as obsessões levam a pessoa a querer mudar o corpo de forma compulsiva, com tratamentos, cirurgias, em várias partes do corpo: hoje a cara, amanhã o peito, a perna.
A obsessão com a imagem revela um problema sério na mente, nos afetos, até?
Cuidar muito o que está fora e descuidar muito o que está dentro é um indicador que de que algo não está bem e isso leva a outras doenças como a vigorexia, a bulimia, a anorexia.
A questão psicossomática não é mais do que o corpo a revelar o que a mente não consegue processar?
Um conflito psicológico crónico manifesta-se no plano físico. Se não se resolve pode aparecer sob a forma de dispepsia, depois gastrite e, mais tarde, culminar numa úlcera.
Porque diz que os problemas psicossomáticos são mais comuns em personalidades fortes?
Quem se considera forte não gosta de mostrar o que sente. Guarda para si, esconde, mantém silêncio.
O que significa, para si, uma personalidade saudável e madura?
Na ultima revisão do DSM (Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais), as perturbações de personalidade aparecem classificadas como uma modalidade e já não uma doença. Os americanos, que mandam no mundo e lideraram esta revisão [associação Americana de Psiquiatria], entendem que é quase impossível diagnosticar alguém como imaturo porque, na população, a imaturidade está em todas as partes e nenhuma. De resto, a nova edição espanhola do livro de autoajuda de Wayne Dyer (As Suas Zonas Erróneas, na tradução portuguesa) cujo prefácio, escrito por mim, começa justamente assim: “O que é uma personalidade imatura?”

 Clara Soares, Visão, 2017-03-11