domingo, 21 de janeiro de 2018

Companhia das Ilhas

A Companhia das Ilhas iniciou a sua actividade de edição de livros em 5 de Maio de 2012.
É uma editora livreira independente.
Os autores, os “géneros” e as colecções são escolhas de gosto pessoal. Articulam-se com a opção de editar “géneros” negligenciados por grande parte das editoras portuguesas – poesia, teatro, ensaio, conto. Os preços justos são uma opção política editorial, não um estratagema comercial (o que implicaria a subalternização de textos e de autores). Esta política agiliza a edição e passa ao lado das máquinas (demasiado) bem oleadas do mainstream.
A Companhia das Ilhas é bem capaz de ser ilha: ilha movente que deita âncora aqui e ali: livrarias (reais e virtuais), formas várias de distribuição (mas atenta às perversidades do sistema e sempre pronta a zarpar para outras geografias).
A Companhia das Ilhas é bem capaz de ser ilha: ilha movente que deita âncora aqui e ali: livrarias (reais e virtuais), formas várias de distribuição (mas atenta às perversidades do sistema e sempre pronta a zarpar para outras geografias).

https://www.facebook.com/companhiadasilhas.lda.9/

http://companhiadasilhas.pt/

Companhia das Ilhas: a editora quer por o mundo a ler os Açores

A Companhia das Ilhas, uma editora da ilha do Pico, vai ser responsável por um dos lançamentos mais importantes de 2018: as obras completas de Vitorino Nemésio. O primeiro volume sai em abril.


Em maio de 2012, Carlos Alberto Machado decidiu fazer algo improvável: fundar uma editora na ilha do Pico, nos Açores, especializada em poesia e teatro, géneros geralmente negligenciados por quem edita livros. Talvez houvesse quem achasse que a Companhia das Ilhas estava condenada ao fracasso, mas a verdade é que, passados quase seis anos, a editora está maior do que nunca: em 2018, tenciona fazer chegar ao mercado livreiro cerca de 30 títulos, mais 18 do que os seis inicialmente lançados em 2012. Entre estes, encontra-se um dos grandes projetos da Companhia das Ilhas desde que abriu portas: a publicação em 16 volumes das obras completas de Vitorino Nemésio, considerado um dos grandes escritores portugueses do século XX.
Vitorino Nemésio nasceu a 19 de dezembro de 1901 na Praia da Vitória, na ilha Terceira, e morreu a 20 de fevereiro de 1978, em Lisboa, onde passou uma boa parte da sua vida (foi na capital que se licenciou em Filologia Românica). Romancista, poeta, cronista e académico, deixou uma extensa obra publicada da qual pouca coisa se encontra disponível no mercado. A maioria das obras editadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) já estão esgotadas, e as que não estão são muito difíceis de encontrar. “Aqui fala-se muito do Vitorino Nemésio mas não há livros”, frisou Carlos Alberto Machado. A única exceção parece ser Mau Tempo no Canal, uma das grandes obras da literatura portuguesa do século passado.
Publicado originalmente em 1944, o romance foi reeditado pela Relógio d’Água em 2004, encontrando-se também disponível numa edição de bolso, mais recente, da BIS (uma chancela do Grupo Leya). Contudo, são poucos aqueles que se podem dar ao luxo de dizer que o leram. “As pessoas ouvem falar, associam logo, mas não leram os livros”, admitiu Carlos Alberto Machado em conversa com o Observador, acrescentando que, “nesse aspeto”, os Açores não são muito diferentes “de todo o lado”: “a massa não lê”. Mas este não é o único problema que existe no arquipélago açoriano, onde as livrarias são poucas e as iniciativas literárias quase nenhumas. Uma questão que o editor da Companhia das Ilhas acredita estar relacionada, entre outros motivos, “com uma dispersão grande de ilhas”, mas também com “o facto de serem ilhas em si”. “Significa que a população é pequena, apesar de tudo”, admitiu. “Há poucas livrarias. Todos estes circuitos numa zona de maior dimensão são mais disfarçados.”
É por esta razão que a pequena editora independente é um caso raro. Apesar de admitir a quase inexistência de um circuito literário nos Açores, Carlos Alberto Machado acredita que é importante fazer alguma coisa e não baixar os braços. Foi por isso que decidiu “avançar com isto”, apesar de lhe dizerem constantemente que havia “um problema de direitos de autor” e que era isso que impedia a reedição das obras do escritor açoriano. “Então pus as pernas a caminho e fui a Lisboa falar com o diretor das publicações da Imprensa Nacional.” A ideia inicial era “editar alguns livros essenciais”, mas Duarte Azinheira gostou tanto da proposta de Carlos Alberto Machado que decidiu contrapropor: e se publicassem antes as obras todas?
O editora da Companhia das Ilhas não tinham como dizer que não e foi assim que que surgiu a parceria com a INCM, que é em parte responsável pela nova edição, que tem direção científica do também açoriano Luiz Fagundes Duarte, da Universidade Nova de Lisboa (que já tinha colaborado na publicação de obras anteriores do escritor da ilha Terceira pela Imprensa Nacional). Ao todo, serão publicados cerca de 40 livros, divididos por 16 volumes, organizados por quatro séries: poesia, teatro e ficção, crónica e diário, ensaio e crítica.Porque, “apesar de tudo, Vitorino Nemésio deixou muita obra ensaística e muita crónica”, salientou o editor da Companhia das Ilhas, acrescentando que cada volume “apanha quase sempre diferentes géneros”. Contudo, dentro de cada série será sempre respeitada a ordem cronológica da primeira edição de cada livro e o texto seguirá sempre o da última em vida do autor, com ortografia atualizada, ou da edição crítica (se disponível).
Todas as obras foram publicadas ainda em vida do autor, à exceção de duas — Quase que os Vi Viver, publicado em 1985, e Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga, editado pela primeira vez em 2003 pela INCM, vários anos depois de Nemésio morrer. “O completo não é completamente verdade”, admitiu o editor da Companhia das Ilhas. “Há um conjunto de dispersos que não estão reunidos em livro, em relação aos quais a Imprensa Nacional fará algum trabalho paralelamente a isto”, explicou o editor, acrescentando que, apesar disso, os inéditos do escritor açoriano “são pouquíssimos”.
Cada volume terá uma breve introdução a autoria do respetivo editor científico — conhecedor “profundo” da obra de Nemésio — que, além de fazer uma contextualização da obra ou obras, descreve ainda a história da impressão de cada livro. Apesar disso, Carlos Alberto Machado garante que “esta edição não é uma edição crítica”, cujas características costumam afastar “um pouco as pessoas”. “Esta edição não tem nada disso”, garantiu o editor. Até porque o objetivo da Companhia das Ilhas é exatamente o contrário: lançar edições “mais cuidadas do ponto de vista gráfico”, com “um novo rosto” e voltadas “para o grande público”, que incentivem a leitura de Nemésio. “Temos esperança que resulte melhor e que a obra comece a ser um pouco mais lida.”
Os 16 volumes da Obra Completa de Vitorino Nemésio serão editados ao longo de quatro anos, e a ideia é que saiam quatro volumes anualmente, mais ou menos de três em três meses. O primeiro, dedicado à poesia publicada pelo escritor entre 1916 e 1940, está a ser terminado — “está em fase de revisão”, admitiu Carlos Alberto Machado — e deverá sair algures em abril. “É um plano um bocado ambicioso”, mas Carlos Alberto Machado tem esperança que “tudo corra bem”. “A Imprensa Nacional é uma grande máquina.” Em 2018, serão ainda publicados três volumes das restantes séries, que irão incluir, por exemplo, a peça de teatro Amor de Nunca Mais (1920) e o ensaio Elogio Histórico de Júlio Dantas (1965). São os seguintes:
  • Poesia: Canto Matinal (1916), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Sonetos para Libertar um Estado de Espírito Inferior(1930), La voyelle promise (1938) e Eu, Comovido a Oeste (19140)
  • Teatro e Ficção: Amor de Nunca Mais (1920) e Paço do Milhafre(1924)
  • Crónica e Diário: Ondas Médias (1945) e O Segredo de Ouro Preto(1954)
  • Ensaio e Crítica: Sob os Signos de Agora (1932), Conhecimento de Poesia (1958) e Elogio Histórico de Júlio Dantas (1965)

Apostar nos escritores que os leitores esqueceram

A publicação das Obras Completas de Vitorino Nemésio é uma espécie de exceção no catálogo da Companhia das Ilhas, que tem apostado sobretudo nos autores contemporâneos, muito deles açorianos. “Somos uma editora que dá mais atenção à poesia e ao teatro”, explicou Carlos Alberto Machado ao Observador, lamentando que “quase ninguém” edita obras de dramaturgia. No ano passado, a editora publicou três obras de teatro — A dança das raias voadoras / Requests ou permissão para respirar, de Ana Lázaro e Firmino Bernardo, Três actos para um blue, de Marcela Costa e Yuck Factor, e Romance da última cruzada, de Ana Vitorino e Carlos Costa — e para este ano estão agendadas pelo menos mais cinco, entre autores portugueses e grandes nomes da literatura, que poderão ser adquiridos em livrarias um pouco por todo o país (apesar de estar sediada nos Açores, a editora não vende os seus livros apenas nas ilhas).
“Sempre fizemos uma tentativa de que os textos que publicamos tivessem uma relação com os espetáculos que estão a acontecer, que fazem parte do repertório de alguns grupos e criadores”, explicou o editor da Companhia das Ilhas. “Este ano vamos continuar nessa onda. Vamos editar alguns textos de Carlos J. Pessoa, do Teatro da Garagem, e um conjunto de textos do Rui Pina Coelho”, que colabora regularmente com o Teatro Experimental do Porto. Além disso, a editora vai dar início à publicação de alguns dramaturgos contemporâneos estrangeiros, numa parceria com o Teatro das Caldas da Rainha. Luigi Pirandello, Samuel Beckett e Jean-Pierre Sarrazac são os autores que vão sair este ano.
A poesia, outra das grandes apostas da editora, vai ter mais destaque em 2018. “No ano passado, demos mais importância à ficção, mas este ano vamos voltar à poesia”, frisou Carlos Alberto Machado, adiantando que “vamos começar já com um livro pequeno do Ramiro S. Osório, um importante poeta português”. Nascido em Lisboa, em 1939, Ramiro S. Osório viveu 22 anos em Paris, onde se exilou quando estava a terminar o curso de Arquitetura. Na capital francesa, teve oportunidade de estudar semiologia com Roland Barthes, no Collège de France, cinema com Jean Rouch, no Musée de l’Homme, e terminar o curso Arquitectura nas Belas-Artes. Trabalhou com o Herberto Hélder nos anos 70 e recebeu dois prémios da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e várias distinções dos Ministério da Cultura. O seu espólio literário, onde se incluem 22 inéditos, começou recentemente a dar entrada na Biblioteca Nacional de Portugal.
O livro Ao largo de Delos reúne 40 poemas do poeta — “onde cabem duas Grécias e muito mais” — e chega às livrarias neste mês de janeiro, mais ou menos na mesma altura que Um mosquito num voo baixo, um “pequeno livro de poesia” de Gisela Cañamero, escritora, artes e encenadora, que já tinha publicado uma peça de teatro, Para Além do Muro, com a editora em 2015. Pena de Morte, um livro inédito de “um outro poeta, mais maduro”, Jorge Aguiar Oliveira, que também já editou com a Companhia das Ilhas, vai sair em fevereiro, alguns meses antes de um volume de poesia do açoriano José Martins Garcia, poeta com “uma obra genial que, infelizmente, não entrou na moda”, de acordo com Carlos Alberto Machado.

Ao largo de Delos, do poeta Ramiro S. Osório, é um livro “onde cabem duas Grécias”. A publicação está agendada para este mês de janeiro
José Martins Garcia nasceu em 1941, na ilha do Pico, de onde é natural a Companhia das Ilhas. Estudou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e começou a publicar, no início dos anos 70, na mítica editora Afrodite, de Ribeiro de Mello, que causou escândalo e sensação nos anos finais da ditadura salazarista com a publicação de títulos polémicos, como a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, de Natália Correia. Ganhou nome no início dos anos 80 mas acabou por cair no esquecimento depois da sua morte, aos 60 anos de idade. Considerado um dos grandes poetas açorianos do século XX, Martins Garcia nunca “entrou na moda”, como referiu Carlos Alberto Machado, que começou a reeditar a obra do poeta há dois anos. “Mesmo com a nossa edição, as pessoas leem, gostam, mas [o escritor] não entrou no circuito. Ficou um pouco para trás” e não teve a “repercussão nacional” de outros autores, admitiu o editor que, além de Poesia reunida, irá ainda editar um volume de ficção, Alecrim, Alecrim aos olhos, do mesmo autor.
Outro açoriano que faz parte do plano editoral da Companhia das Ilhas para 2018 é Manuel Tomás que, tal como Martins Garcia, também é um escritor contemporâneo. “São autores vivos e acho que isso é importante”, frisou o editor. “Aqui fala-se muito da literatura açoriana, mas os autores não são publicados ou são publicados de forma incompleta.” Para Carlos Alberto Machado, esse é o “serviço público” prestado pela editora — dar a conhecer escritores contemporâneos, naturais dos Açores, que caíram no esquecimento ou que nunca foram lembrados. Até porque há “algumas coisas bastante boas”, só que “os Açores sempre sofreram um pouco em relação ao continente, às vezes por culpa própria”. “Deixaram-se fechar”, considerou.
Foi também com esse sentido de missão que a Companhia das Ilhas se propôs a publicar a obra completa de José Sebag, um “muito importante e perfeitamente desconhecido” que “teve ligações muito próximas com o Grupo Surrealista de Lisboa”. Nascido em 1936, no Faial, Sebag publicou apenas dois livros durante a sua curta vida — Planeta Precário e Cão até Setembro — mas deixou muitos outros projetos que a Companhia das Ilhas pretende tornar públicos. “Planeta Precário é um opúsculo que ele publicou”, explicou o editor. “Ele achava que o título estava errado” e, durante uma viagem de regresso a Lisboa, “atirou os livros ao mar”. “A poesia é muito boa, sobretudo no contexto açoriano, mas não só. Estamos a trabalhar para fazer a edição desses dois livros e de outro que está inédito”, disse Carlos Alberto Machado, acrescendo que existe ainda um conjunto “muito grande” de poemas e “alguma prosa” que nunca foram publicados. A edição, que conta com o apoio da Direção Regional da Cultura, deve sair em 2019.

“Este livro contém a harmonia dos Quatro Evangelistas buscada por São Jerónimo.” É assim que a editora descreve Smalloch, de Alexandre Sarrazola, já disponível em livrarias um pouco por todo o país
Apesar de o catálogo deste ano da Companhia das Ilhas ser dedicado sobretudo ao teatro e à poesia, estão previstos alguns volumes de ficção. O primeiro, Smalloch, é de Alexandre Sarrazola — “um desconhecido” — e sai já em janeiro. Em março, será publicado Azares da poesia, de Jorge Fazenda Lourenço, especialista em Jorge de Sena. O livro — que mistura prosa e poesia — inclui “pequenos ensaios de literatura” e alguns poemas de Fazenda Lourenço e de outros autores. Um “projeto para continuar”, Carlos Alberto Machado espera publicar um livro de poesia do autor no próximo ano. Há rios que não desaguam a jusante, de Nuno Dempster, é “um romance de folgo” e vai sair mais tarde, em setembro. Ao todo, Carlos Alberto Machado espera publicar até ao final do ano cerca de 30 títulos, um número “um bocadinho complicado” para “uma editora pequena”. Mas o que interessa é não desistir.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

No meio do caminho da nossa vida ou o valioso tempo dos maduros


Gilbert Garcin, "Le funambule", 2002


O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupa displicente, mas, percebendo que faltam poucas, rói até o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos; quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge da sua mortalidade.
Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim basta o essencial.

Mário de Andrade





sábado, 16 de dezembro de 2017

Arquivo Digital do “Livro do Desassossego”

FERNANDO PESSOA

O Arquivo Digital do “Livro do Desassossego” já está online. E tem muitas histórias para contar


Depois de seis anos de trabalho, o Arquivo Digital Colaborativo do "Livro do Desassossego" está pronto e permite consultar e comparar as quatro principais edições da obra de Bernardo Soares.


Manuel Portela apresentou o projeto durante o Congresso Internacional Fernando Pessoa, em fevereiro deste ano. 
HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Quando se inscreveu no Congresso Internacional Fernando Pessoa, Manuel Portela tinha a certeza que, por essa altura, já teria uma versão definitiva do seu projeto para apresentar no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Mas estava enganado: contratempos vários obrigaram-no a adiar a apresentação e a falar antes dos “atos de escrita” na obra de Bernardo Soares, recorrendo a uma versão de teste da plataforma que estava a desenvolver com a ajuda de um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra, onde dá aulas, para mostrar os diferentes manuscritos. Na verdade, seriam precisos mais dez meses até estar tudo pronto e o professor universitário poder anunciar ao mundo o arranque oficial do Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego, uma plataforma interativa que permite consultar e comparar as quatro principais edições da obra de Bernardo Soares e também criar edições virtuais.
O Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego — ou, simplesmente, Arquivo LdoD — já está online e será oficialmente apresentado esta quarta-feira, pelas 11h30, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras de Coimbra. Mas a ideia é muito mais antiga: “Nasceu em 2009”, contou Manuel Portela ao Observador. Foi aprovado para financiamento pela FCT — Fundação para a Ciência e a Tecnologiadois anos depois e começou a ser desenvolvido em 2012, por uma equipade investigação composta por especialistas em literatura e computação da Universidade de Coimbra em estreita colaboração com António Rito Silva, do Instituto Superior Técnico (IST) de Lisboa, que desenhou e programou todo o sistema de software, e também com a Biblioteca Nacional de Portugal, que tem na sua posse os manuscritos referentes à obra de Bernardo Soares.
Apesar de Manuel Portela, coordenador do projeto, não trabalhar no âmbito da literatura portuguesa, escolheu o Livro do Desassossego para a criação de uma plataforma interativa de literatura por causa das suas características peculiares. “A minha área de investigação é a literatura inglesa mas, quando em 2009, comecei a pensar em desenvolver um projeto que tirasse partido do dinamismo do meio digital, achei que o Livro do Desassossego era ideal para fazer esta experiência porque tem um carácter semi-estruturado, uma natureza quase modelar”, confessou ao Observador. “Podemos entrar num texto sem ter de entrar nos outros.” É que, apesar de existir “uma rede de relações” entre as centenas de fragmentos que constituem a obra, estes podem ser lidos e até estudados isoladamente.
[Teaser do Arquivo Colaborativo do Livro do Desassossego com Jerónimo Pizarro e Teresa Sobral Cunha]

Quando morreu, Fernando Pessoa deixou centenas de obras inacabadas no fundo da sua arca. Contudo, nenhuma se parece com o Livro do Desassossego. Escrito em duas fases distintas — de 1913 a 1920 e de 1929 a 1934, um ano antes da morte de Pessoa —, Livro é composto por mais de 500 fragmentos, distribuídos por 30 mil documentos manuscritos ou dactilografados, que, apesar de não terem qualquer ligação entre si, funcionam como um todo. A obra manteve-se em boa medida inédita até 1982, altura em que Jacinto do Prado Coelho publicou a primeira edição do Livro do Desassossego, em dois volumes, pela editora Ática (com recolha e transcrição de textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha). Em vida, Pessoa publicou apenas cerca de 12 textos em revistas literárias. Nos últimos 30 anos, o Livro foi traduzido em dezenas de línguas e reconhecido como uma das grandes obras-primas do poeta português.
Para Manuel Portela, o Livro do Desassossego pode ser encarado de duas formas. “O Livro do Desassossego é um projeto autoral. O Livro do Desassossego é uma construção editorial”, escreveu num artigo de introdução ao Arquivo LdoD. “Enquanto projeto autoral, pode ser descrito como um trabalho desorganizado e inacabado escrito entre 1913 e 1935”, composto por documentos dactilografados, manuscritos e textos impressos. “Enquanto construção editorial, é o conjunto de edições impressas feitas com base nesse projeto autoral. Estas podem variar em termos de seleção, transcrição e também em divisão e organização das unidades textuais.”
Isto porque, uma vez que não existe uma ordem estabelecida por Pessoa, a organização fica sempre a cargo do editor responsável. Neste sentido, cada edição do Livro do Desassossego é diferente, até mesmo quando o editor é o mesmo. Outra questão diz respeito à atribuição autoral. Nalgumas edições, o Livro é atribuído a Vicente Guedes, heterónimo que começou por assinar os manuscritos, de 1913 a 1920, enquanto noutras a autoria pertence inequivocamente a Bernardo Soares, o “ajudante de guarda-livros” que foi responsável pela escrita do Livro do Desassossegode 1929 até ao final da vida de Fernando Pessoa, que morreu em finais de 1935.

Um projeto para tirar o Livro do Desassossego do papel

Foi enquanto preparava o projeto que Manuel Portela se apercebeu que “as dinâmicas do Arquivo LdoD podiam ser expandidas para lá do conceito inicial de comparação das múltiplas versões do Livro de maneira a transformar o arquivo num espaço participativo de edição e escrita”, explicou no mesmo artigo. “Partindo das intenções originais de usar o trabalho de Pessoa como sonda de pesquisa para a imaginação modernista do Livro, chegámos a esta noção do Livro do Desassossego como um lugar textual para a simulação literária“, referiu no mesmo artigo. O Arquivo LdoD deixou assim de ser apenas um meio interativo de comparação de edições, para se tornar num espaço onde os leitores podem construir o seu próprio Livro digitalmente.
Desde então, passaram cinco anos. O motivo da demora no lançamento tem a ver com a complexidade do projeto e também porque a codificação “é sempre um processo moroso”. “O Livro do Desassossego tem entre 500 a 700 textos mas, como temos cinco transcrições para cada texto, equivale a cerca de três mil e tal textos”, salientou o coordenador do projeto ao Observador. “E, ao mesmo tempo, tem tudo de ser codificado manualmente, o que implicou um grande período de trabalho.”
Além de imagens de documentos autografados, o Arquivo LdoD — um recurso multiplataforma e multidispositivo, que pode ser acedido através de um smartphonetablet ou computador, em acesso aberto — inclui ainda novas transcrições dos manuscritos e das quatro principais edições do Livro do Desassossego — a de Jacinto do Prado Coelho (1982), já referida, a de Teresa Sobral Cunha (publicada em dois volumes em 1990 e 1991), a de Richard Zenith (1998) e a de Jerónimo Pizarro (2010). “Estas quatro edições são todas diferentes entre si”, afirmou Manuel Portela. “O princípio de organização é diferente e tem um modelo do Livro que não é exatamente coincidente. Agora, podemos observar de uma forma muito precisa essas diferenças.”
[Manuel Portela explica como é que funciona o arquivo “dinâmico”]

Para isso, foi preciso codificar “todas as variações que existem no texto”. “Quando há, por exemplo, uma quebra de parágrafo, um sinal de pontuação, uma leitura ou uma divisão de fragmento diferente. Todas estas diferenças estão marcadas. No fundo, é como se tivéssemos agarrado em cada um dos textos, os tivéssemos cortado e os tivéssemos misturado entre si, mas de uma maneira em que é sempre possível perceber que texto ou palavra pertence a que edição.”
Pode parecer complexo, mas Manuel Portela garante que não o é. “Uma das coisas que refiro sempre é que o nosso desafio é tornar isto inteligível para fora, para os utilizadores. Não queremos assustar as pessoas, porque o Arquivo pode parecer demasiado complexo. Tem muita informação, muitas camadas, mas pode-se entrar nele como se entra numa página do Livro que se abre ao calhas e se lê. As funcionalidades são, em geral, bastante simples. Algumas requerem alguma aprendizagem, mas não é muito diferente do que acontece com um jogo de computador. Quem quiser usar o Arquivo de uma forma mais profunda, precisa de algumas horas para aprender a mexer nele, mas isso também acontece com um jogo.”
Além do mais, o professor da Faculdade de Letras de Coimbra admite que tentaram “dar-lhe uma estrutura que permita vários tipos de aproximação”. “Isto pode servir para quem quer ler alguns textos do Livro, para quem está a estudá-lo e quer conhecer o Livro em mais profundidade, mas também para especialistas que estudam a história da edição e até para quem quiser fazer novas edições”, explicou. “Uma das coisas que o Arquivo vai permitir, e que não tem tanto a ver com os leitores gerais, é que os especialistas compreendam melhor a história das edições e o que cada um dos editores fez para organizar o Livro.”

Um arquivo que não é apenas para especialistas

De um modo geral, o Arquivo LdoD tem cinco grandes funcionalidades: a da leitura da obra “de acordo com diferentes sequências”, a “listagem de todos os fragmentos e informação acerca das fontes” do Livro do Desassossego, a “visualização dos originais e comparação das transcrições”, a possibilidade de selecionar “fragmentos de acordo com múltiplos critérios” e ainda a “criação de edições virtuais”. Esta é a única funcionalidade para a qual é preciso criar uma conta de utilizador e é uma das principais inovações do Arquivo.
[Aprender, investigar e criar com Arquivo Colaborativo do Livro do Desassossego]

“Tem uma dimensão lúdica porque as pessoas podem brincar, no sentido de selecionar e reorganizar o texto, anotá-lo e criar as suas próprias antologias e publicá-las na plataforma. Podem fazer uma pesquisa sobre um tema — o sonho, por exemplo —, fazer um texto, anotá-lo e depois publicar. E depois fica disponível para outros utilizadores”, frisou Manuel Portela. Mas há outros aspetos inovadores como, por exemplo, “o dinamismo que introduzimos no sistema, que permite comparar as diferentes edições, ver os originais, novas transcrições e pesquisar de uma forma muito granular, muito específica, todos os textos”.
Apesar de o Arquivo LdoD ser dirigido a todos, Manuel Portela admite que pode acontecer que este só seja consultado por investigadores e especialistas. “Estamos a tentar chamar a atenção para o facto de o nosso desafio ser mostrar às pessoas quais são as potencialidades, o que é que se pode fazer e, sobretudo, não as assustar”, afirmou o coordenador, acrescentando que estão previstas para várias iniciativas de divulgação do projeto. Outra dificuldade é, de acordo com o professor da Faculdade de Letras de Coimbra, “mostrar que isto não é apenas um repositório, um sítio onde os textos estão, mas que é também um sítio onde as pessoas se podem relacionar com os textos de uma forma muito dinâmica” através das pesquisas, comparações e organizações. “O Arquivo está concebido para criar uma relação dinâmica com o texto, para pensar o texto menos coo um objeto, mas mais como uma coisa que podemos modelar, em que podemos mexer.”

O trabalho continua

Apesar de o Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego já estar online, ainda há muito trabalho pela frente. “Temos ainda previsto o desenvolvimento não só da edição, mas também da escrita virtual, permitindo que os utilizadores escrevam variações com base em fragmentos”, explicou Manuel Portela. “A nossa ideia é reconfigurar o Livro do Desassossego como ambiente textual dinâmico, que permita que os utilizadores se situem em relação ao texto em várias posições — como leitores, editores, escritores. No fundo, simular o espaço literário e a performance literária.”
De acordo com o coordenador do projeto, “no fundo, isto é uma espécie de primeira fase”. “Depois, numa segunda fase, durante os próximos dois, três anos, vamos desenvolver algumas funcionalidades que já estão concebidas. Vamos também integrar aquilo a que chamamos a ‘receção do Livro’.” Nesta secção, serão integrados os principais ensaios críticos sobre o Livro, que serão depois interligados com os textos da obra de Bernardo Soares que referem, estabelecendo “uma rede de relações”. Além disso, serão criadas duas comunidades de utilizadores — uma universitária e outra numa escola secundária —que serão monitorizadas ao longo de um ano. “Vamos observar a utilização do arquivo a longo de um ano e vamos também aprender como é que podemos desenvolver melhor as interfaces.” Por outras palavras: o trabalho ainda agora começou.
Rita Cipriano, http://observador.pt/2017/12/13/o-arquivo-digital-do-livro-do-desassossego-ja-esta-online-e-tem-muitas-historias-para-contar/

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[atualizado em 14-08-2017]


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Como nasce a poesia, nas palavras de Edgar Allan Poe


No ensaio Filosofia da Composição (1846), o escritor norte-americano Edgar Allan Poe desnuda o percurso da criação poética, servindo-se do seu célebre poema “O Corvo” – “The Raven” na língua original – como meio para explicar a criação artística.
Refletindo sobre as motivações da produção literária, o autor assinala que as narrativas tendem a fornecer uma tese, bem como a assumirem-se como um relato de experiências vivenciais, às quais se aliam as descrições, os diálogos e os comentários do escritor. Poe, que interpreta as respetivas motivações como um erro, defende essencialmente a importância do efeito, que deverá acarretar um outro traço relevante: a originalidade.
O escritor norte-americano destaca o quão interessante seria chegar até ao leitor um artigo – que nem um diário de bordo – no qual cada autor registasse todos os passos da sua produção literária de modo a desmitificá-la. Porém, parece-lhe que o desejo em manter uma perceção romântica da produção artística tende a imperar, fazendo dominar a ideia de criação inspirada e intuitiva.
Contrariando este paradigma, Poe apresenta o modus operandi utilizado para construir um dos seus poemas mais afamados: “O Corvo”. A questão está colocada: como se elabora um poema? Na perspetiva do autor, não há obra que não seja meticulosamente pensada, estabelecendo até um paralelismo entre um poema e “a lógica rigorosa dum problema matemático”.
Em primeiro lugar, o escritor deverá focar-se na extensão da obra, que deverá fazer jus à elevação ou excitação que o poema comporta e proporciona. Por conseguinte, a extensão da obra poética será crucial na difusão do seu efeito. Poe propõe a solução: o seu poema deverá conter cerca de cem versos; cento e oito, com precisão.
A segunda questão que se impõe é a escolha da impressão, ou seja, que efeito o escritor pretende disseminar no âmago do leitor. Para o autor norte-americano, é fundamental que um poema seja “universalmente apreciável”, outorgando à beleza o traço medular da poesia. Portanto, se o belo é a expressão mais eloquente da poesia, “qual será o tom da sua mais alta manifestação”? Esta nova inquietação traz consigo uma resposta que toca todo o ser humano: a tristeza e a melancolia.
Tendo em conta que a extensão, a impressão e o tom estão pensados, segue-se uma quarta reflexão: a chave para a elaboração de um poema. Na perspetiva de Poe, não há nada mais universal do que um estribilho singular que, de modo a equilibrar a facilidade de variação e a brevidade da frase, se resumiria a uma só palavra. Ao construir o seu poema com um refrão, torna-se imprescindível que a obra se divida em estâncias, sendo estas concluídas pelo mesmo. Consequentemente, Poe deduz que, de modo a atribuir ênfase ao estribilho, tornou-se premente escolher sons que fizessem jus à melancolia do poema. Opta, portanto, por um o extenso que associa a um r bem vigoroso. A junção destes sons encaminhou o autor para a palavra nevermore (nunca mais).
desideratum seguinte foi selecionar o pretexto em que a respetiva palavra fosse empregada continuamente. Pareceu-lhe mais sensato que fosse proferida por um animal dotado de palavra, tendo considerado o papagaio, mas rapidamente substituído pelo corvo, que, também dotado de palavra, se adequa mais ao tom melancólico do poema.
Qual seria, por conseguinte, o topus mais poético e universal de todos? A morte surge-lhe como resposta. Morte de uma mulher bela, morte chorada por um amante que se vê privado do seu amor. Um cadáver, um amante martirizado e um corvo que profere nevermore são os elementos que constituem o poema. Porém, como combinar os três eixos? Resguardando-se da escuridão e da tempestade, o corvo entraria pela janela e viria responder às questões apaixonadas, supersticiosas e desesperadas de um amante derrotado no seu quarto, espaço este santificado.
A deceção, o desgosto e a raiva do sujeito avolumam-se quando o termo evocado continuamente pelo corvo o privam todas as esperanças de rever a mulher amada. Quando o poema se encontra no apogeu está, assim, pronto a ser terminado, pois “até ao momento, cada coisa ficou nos limites do explicável, do real.” Em suma, na perspetiva de Poe, um poema deverá mesclar um tanto de complexidade e um tanto de sugestividade, procurando que o “excesso de sentido sugerido” seja uma subcorrente do tema e não a sua corrente superior.
Ao longo d’A Filosofia da Composição, Poe opõe-se, assim, à conceção romântica da criação artística, deslindando e desmistificando a origem do trabalho poético, configurando-o como um processo árduo e de reflexão.





O CORVO

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Edgar Alan Poe, “O Corvo” (Tradução de Fernando Pessoa)



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Ary dos Santos

Um transgressor à conquista dos reinos da poesia.



Foi vendedor de máquinas de pastilhas elásticas, paquete, estivador. Libertário e explosivo, acabaria por se tornar um dos mais populares poetas e letristas do seu tempo. Recordamos José Carlos Ary dos Santos nos 80 anos do seu nascimento

Ary dos Santos (7 de Dezembro de 1936 - 18 Janeiro de 1984) afirmou com veemência a sua virilidade de poeta. Pela voz de Simone de Oliveira fez a apologia do corpo e do prazer femininos («Desfolhada Portuguesa», 1969), certamente por distracção da Censura, arrebatando o primeiro lugar no Festival RTP da Canção. Quatro festivais depois, arrasava a tourada na voz de Fernando Tordo e, na mesma faena, vencedora, investia sobre a primavera marcelista e apelava à resistência. As suas origens aristocrático-burguesas também não foram poupadas, como testemunha o conhecido poema «O Burguês», figura tratada a ferros sarcásticos. A salvo ficou A Bandeira Comunista (1977), corajosa e muito pessoalmente hasteada: «o meu comunismo vem-me por via Czarista!».
Ary dos Santos: o nome – do poeta e declamador carismático, conhecido do grande público como autor das letras de algumas das mais populares canções das décadas de ’60, ’70 e começos de ’80 – não faz jus a uma personalidade explosiva, irreverente, de humor sulfúrico e de grande turbulência imaginativa, capaz mesmo de fazer detonar «O Bombista».
Nasceu em Lisboa, um ano antes daquele que sempre afirmou. Quando, com apenas 16 anos, sai de casa em ruptura com o pai, traçara já, num soneto de um livro dedicado à mãe («pela infinita dor de a ter perdido» pouco antes), um programa de vida: «E canto na certeza do porvir,/ Que todo o mundo é meu e eu vou partir/ À conquista dos reinos da poesia!». Mal sonhava o jovem Zé Carlos que a poesia tinha reinos, uns mais nobres que outros. Natália Correia, que manterá com ele uma relação de amor-ódio, não se cansará de lho lembrar.
Insuficientemente amadurecido, claro, esse primeiro livro que quis apagado da sua bibliografia, Asas (1952), antecedendo bastante Liturgia do Sangue (1963), considerada a sua estreia literária efectiva, incubava já o seu tom excessivo e rasgado, o seu estilo transgressor, a rasar o libertário. Compreensivelmente, quando em 1966 Natália Correia preparar a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, celebrizada pelo veredicto do Tribunal Plenário, Ary dos Santos não poderá ser dispensado.
À saída de casa seguiram-se anos financeiramente difíceis, de embates quotidianos, e sucederam-se empregos: vendedor de máquinas de pastilhas elásticas, paquete na Sociedade Nacional de Fósforos, escriturário no Casino Estoril e estivador (a crer no seu testemunho, nem sempre fiel). «Isto vai meus amigos isto vai/ um passo atrás são sempre dois em frente» – dirá mais tarde no poema «O Futuro», de «Tríptico do Trabalho». Chegou a frequentar as Faculdades de Direito e de Letras da Universidade de Lisboa, mas «com toicinho e talento ambas partes» (palavras do seu «Auto-Retrato») e uma criatividade extraordinária, Ary dos Santos depressa as trocou pelo mundo da publicidade, área que em Portugal revoluciona, alcançando reconhecido êxito.
A criação poética, com comprazimento no ludismo verbal e disponibilidade metafórica, decorre paralela a uma vida profissional com cobranças difíceis e artes de espantar. Adereços Endereços (1965), Fotos-Grafias (1970), As Portas Que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1978), 20 anos de Poesia (1983) são algumas das obras daquele que reuniu num único terceto as três linhas que reconhecidamente perfazem o todo que é a sua poesia: a interventora, a satírica e a lírica: «Poeta de combate disparate/ palavrão de machão no escaparate/ porém morrendo aos poucos de ternura».
Tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas (publicação póstuma, 1989), onde reuniu os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz – Rua da Saudade, que pretendia que fosse uma autobiografia romanceada, mas não houve tempo. O excesso, a solidão e o gim foram a mistura explosiva.

«Quando eu morrer – afirmou um dia – vai ser em glória. Vai a classe operária toda ao meu funeral, e eu sentado no muro do cemitério, a vê-los passar!». O desígnio cumpriu-se quase inteiramente.

Teresa Carvalho, "Ary dos Santos. Um transgressor à conquista dos reinos da poesia", https://ionline.sapo.pt/537479, 2016-12-09




O Café

Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

José Carlos Ary dos Santos (1973)