terça-feira, 12 de junho de 2018

Aqui Portugal é diferente

Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
minha mãe era ninfa, meu pai chuva de lava
mestiça de onda e de enxofres vulcânicos
sou de mim mesma pomba húmida e brava.
Natália Correia, Cântico do País Emerso

Nas veias corre-me basalto negro
Manuel Medeiros Ferreira,“Ilhas de Bruma”

Ao pasto e à onda me unirei sincera
Natália Correia, “Mãe-Ilha”





«Há quase 600 anos que aqui estamos e, desde o início, a evidência foi que, aqui, Portugal é diferente.
Nuns casos, por nós, noutros, por outros, aqui, Portugal é diferente.
Não esquecemos de onde viemos, nem ignoramos onde estamos.
Mas, sobretudo, sabemos quem somos.
A História e a Geografia deram-nos forma, mas é o “intenso orgulho na palavra Açor”, nas palavras de Sophia de Mello Breyner, que dá o sopro de vida a esta identidade que empunhamos.
E esse orgulho não é vão, nem é vazio.
É, desde logo, o orgulho que pode ter, é o orgulho que tem quem aqui resiste.
A tempestades e a terramotos;
A vulcões e a piratas;
De quem já resistiu à fome, às pragas, à solidão e, em alguns casos, ao esquecimento;
Resiste e persiste, reconstruindo, reerguendo, refazendo.
Esse é o orgulho de quem tem uma aguda consciência de si próprio.
E essa aguda consciência de nós próprios – talvez por estarmos sós na vastidão do Atlântico ou, talvez, simplesmente, por em tantas voltas da vida, termos estado simplesmente sós -, é, no fundo, quase como que a chama eterna, o fogo sagrado que anima o Povo Açoriano.
E neste “intenso orgulho na palavra Açor” está também o orgulho do que demos e do que damos pelo nosso País.
Demos Presidentes da República, cientistas e militares;
Demos embaixadores, ministros e escritores;
Demos pensadores, políticos e poetas;
Demos Homens e Mulheres desconhecidos que, nas Américas e não só, pelo seu suor e pelas suas lágrimas, afirmaram e afirmam Portugal aí;
Demos guarida ao último reduto da nacionalidade e fomos ponto de impulso para as batalhas pela modernidade;
Demos homens e demos jovens que, por Portugal, deixaram a sua vida num qualquer campo de batalha, e que, mesmo quando aí não deixaram a vida, em muitos casos, deixaram partes de si próprios, do corpo ou do espírito.
E tudo isto fizemos sem nunca impormos condições nem moedas de troca.
Tudo isto fizemos “com um intenso orgulho na palavra Açor”.
E, se tudo isso demos no passado, hoje continuamos a dar.
Os Açores são terra de mar.
Damos dimensão estratégica e damos importância pela terra que temos e pelo mar que trazemos.
Nesta nova fronteira, que já suscita a cobiça de muitos, Portugal é o que é, porque os Açores são o que são.
Damos empenho e damos território na construção de pontes e parcerias para a paz, para a ciência e para o conhecimento.
Damos testemunho de uma Autonomia que foi, é e quer mais ser por causa dos desafios que já venceu, mas, sobretudo, por causa dos desafios que quer vencer.
Damos presença em áreas de vanguarda da exploração e do conhecimento espacial, reforçando a importância e a mais valia de Portugal.
E é por tudo isto, e por tanto mais, que não podem restar dúvidas que, aqui, Portugal é diferente.
E não queremos que deixe de ser Portugal, mas também não queremos que deixe de ser diferente.
Porque esta nossa diferença não nos diminui em nada.
Porque, no fundo, é esta nossa diferença, do que somos como Povo e como Região, que faz Portugal mais forte!
E é por tudo isto que hoje digo, que hoje podemos dizer,
Vivam os Açores!
Viva Portugal!»

Intervenção do Presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, proferida em 2018-06-09, em Ponta Delgada, na receção ao Corpo Diplomático, no âmbito das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

domingo, 10 de junho de 2018

«Camões e a Tença» ou «Que farei(s) com este livro?»


     CAMÕES E A TENÇA

     Irás ao paço. Irás pedir que a tença
     seja paga na data combinada
     Este país te mata lentamente
     País que tu chamaste e não responde
     País que tu nomeias e não nasce

     Em tua perdição se conjuraram
     calúnias desamor inveja ardente
     e sempre os inimigos sobejaram
     a quem ousou seu ser inteiramente

     E aqueles que invocaste não te viram
     porque estavam curvados e dobrados
     pela paciência cuja mão de cinza
     tinha apagado os olhos no seu rosto

     Irás ao paço irás pacientemente
     pois não te pedem canto mas paciência


     Este país te mata lentamente

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, 1972


Questionário

1. Caracterize as relações entre Camões e o Paço referidas no poema (vv. 1-3 e 14-16).
2. Apresente uma leitura possível para a expressão «ousou seu ser inteiramente» (v. 9).
3. Explicite o sentido das metáforas presentes nos versos 12 e 13.
4. Comente, na sua dimensão simbólica, este retrato de Camões.

Cenários de respostas

1. A característica principal dessas relações é a dependência, pois Camões precisa da tença que lhe é paga pelo Paço para sobreviver, embora ela seja escassa e paga com dificuldade. Associados a essa dependência estão a humilhação e o desconforto, dado que a tença não é um reconhecimento do seu talento de poeta, mas uma esmola pela qual o fazem esperar.

2. A expressão «ousou seu ser inteiramente» (v. 9) pode, por exemplo, remeter para uma das seguintes leituras:
– a figura do poeta que cantou a pátria nos feitos gloriosos das suas viagens marítimas, mas também arriscou viajar pelo mesmo mundo que essas viagens descobriram;
– a corajosa aventura que constituiu a vida do poeta, por oposição aos que ficaram «curvados e dobrados» (v. 11), alimentando «Calúnias desamor inveja ardente» (v. 7);
– a independência total com que o poeta escreveu, sem patronos nem protetores que lhe assegurassem a subsistência e lhe condicionassem o discurso.

3. Os versos «Pela paciência cuja mão de cinza / Tinha apagado os olhos no seu rosto» (vv. 12-13) contêm uma sequência de duas metáforas: a primeira é «mão de cinza», significando a indiferença ou o entristecimento a que essa paciência acaba por conduzir, e a segunda é «Tinha apagado os olhos no seu rosto», significando, nomeadamente, a perda da lucidez e da consciência crítica.

4. Este poema oferece um retrato dos últimos anos de vida de Camões. Um elemento especialmente importante da sua dimensão simbólica é formulado por um verso que não só se encontra repetido como é aquele que termina o poema: «Este país te mata lentamente» (vv. 3 e 16). Por ele se exprime a ideia de que a devoção, o empenho e o génio do poeta foram sistematicamente incompreendidos e desprezados por «Calúnias desamor inveja» (v. 7) dos seus contemporâneos. A condição do homem que é capaz do «canto» (v. 15) mais elevado – mas a quem só pedem «paciência» (v. 15) – é, então, marcada pela impotência e pela desilusão.

Prova Escrita de Literatura Portuguesa - 10.º e 11.º Anos de Escolaridade. Prova 734/2.ª Fase (Exame Nacional do Ensino Secundário, Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de março). GAVE, 2011

 


     POEMA PARA LUÍS DE CAMÕES

     A terra basta onde o caminho pára,
     Na figura do corpo está a escala do mundo.
     Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
     E sei, se tanto um homem sabe,
     As veredas mais fundas da palavra
     E do espaço maior que, por trás dela,
     São as terras da alma.
     E também sei da luz e da memória,
     Das correntes do sangue o desafio
     Por cima da fronteira e da diferença.

     Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
     Quem pudera dizer-te estas grandezas,
     Que eu não falo do mar, e o céu é nada
     Se nos olhos me cabe.
     A terra basta onde o caminho pára,
     Na figura do corpo está a escala do mundo.
     Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
     E sei, se tanto um homem sabe,
     As veredas mais fundas da palavra
     E do espaço maior que, por trás dela,
     São as terras da alma.
     E também sei da luz e da memória,
     Das correntes do sangue o desafio
     Por cima da fronteira e da diferença.
     E a ardência das pedras, a dura combustão
     Dos corpos percutidos como sílex,
     E as grutas do pavor, onde as sombras
     De peixes irreais entram as portas
     Da última razão, que se esconde
     Sob a névoa confusa do discurso.
     E depois o silêncio, e a gravidade
     Das estátuas jazentes, repousando,
     Não mortas, não geladas, devolvidas
     À vida inesperada, descoberta.

     E depois, verticais, as labaredas
     Ateadas nas frontes como espadas,
     E os corpos levantados, as mãos presas,
     E o instante dos olhos que se fundem
     Na lágrima comum. Assim o caos
     Devagar se ordenou entre as estrelas.

     Eram estas as grandezas que dizia
     Ou diria o meu espanto, se dizê-las
     Já não fosse este canto.

José Saramago, Poemas Possíveis, 1966 e Provavelmente Alegria, 1970



     QUE FAREI COM ESTE LIVRO?

Palácio do conde de Vidigueira. D. Vasco da Gama1, a condessa D. Maria de Ataíde, Luís de Camões, frei Manuel da Encarnação, aias, moços de câmara.
CONDE DE VIDIGUEIRA
(A quem um criado veio dar um recado em voz baixa)
Trá-lo cá. (Para a condessa.) Vem aí Luís Vaz de Camões saber a resposta à sua carta. (Para os outros.) Não vos retireis, que o negócio é de pouca monta2 e nenhum segredo...
LUÍS DE CAMÕES
(À entrada)
Senhor conde... (Faz vénia, depois repete-a na direção da condessa.) Senhora condessa...
CONDE DE VIDIGUEIRA
Entrai, senhor Luís Vaz.
LUÍS DE CAMÕES
Recebi o vosso recado, senhor conde. Vossa Mercê mandou-me chamar, aqui estou... Posso esperar que tenhais lido a minha carta e as oitavas que juntei?
CONDE DE VIDIGUEIRA
Li a carta e os mais papéis que vieram com ela. Dizei por claro o que pretendeis.
LUÍS DE CAMÕES
Senhor conde, a carta pedia a vossa proteção para as oitavas que por cópia estão em vossas mãos e para as irmãs delas que em minha casa ficaram. Disse-vos que é uma obra composta sobre os feitos dos portugueses e a navegação para a Índia, em que esteve vosso avô como capitão-mor.
CONDE DE VIDIGUEIRA
Decerto não quereis contar-me a história da minha família. (Risos das aias.)
LUÍS DE CAMÕES
Não poderia ser essa a minha intenção. Vossa Mercê mandou que por claro me explicasse.
CONDE DE VIDIGUEIRA
Mas não para vos ouvir repetir a carta nem os versos. Abreviemos.
LUÍS DE CAMÕES
Espero a resposta de Vossa Mercê.
CONDE DE VIDIGUEIRA
Por escrito a receberíeis, mas em atenção à memória de meu avô e de meu pai, a quem sucedi nesta casa da Vidigueira, mandei-vos chamar. Pedis proteção na vossa carta. Que proteção é a que esperais?
LUÍS DE CAMÕES
A que for justa para a minha obra e digna da memória do vosso antepassado.

José Saramago, Que Farei com Este Livro?, Lisboa, Caminho, 1980

Vocabulário e notas
1 D. Vasco da Gama – terceiro conde de Vidigueira, neto do navegador Vasco da Gama.
2 monta – importância.

Questionário
1. Identifica as personagens referidas na indicação cénica «(Para os outros.)» (linhas 5 e 6).
2. Indica a que se refere Luís de Camões com as expressões «oitavas» (linha 18) e «obra composta sobre os feitos dos portugueses e a navegação para a Índia» (linhas 19 e 20).
Justifica a tua resposta.
3. Relê as linhas 17 a 20.
Indica a razão pela qual Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o pedido de proteção.
4. Na sua quarta fala, o conde de Vidigueira afirma: «Decerto não quereis contar-me a história da minha família.» (linha 22).
Explica estas palavras do conde, evidenciando a sua intenção ao proferi-las.
5. Lê o comentário seguinte.
Pela leitura das falas do conde de Vidigueira, percebe-se que ele não vai conceder a proteção pedida por Luís de Camões.
Apresenta dois argumentos a favor deste comentário, considerando as falas do conde ao longo do texto.


Cenários de respostas

1. Identifica frei Manuel da Encarnação, aias e moços de câmara.
2. Indica que Luís de Camões se refere a Os Lusíadas e justifica, afirmando que é uma obra escrita em estrofes de oito versos, que tem como matéria os feitos dos portugueses e a viagem para a Índia.
3. Indica que Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o seu pedido, uma vez que há uma relação de parentesco entre o conde e Vasco da Gama, personagem da obra para a qual Camões pede proteção.
4. Explica que o conde quer mostrar a Luís de Camões que este não pode ter a pretensão de lhe contar a história da sua própria família e refere que a intenção do conde é menosprezar Luís de Camões.
5. Argumenta que as falas do conde de Vidigueira indiciam que ele não vai conceder a proteção pedida, por um lado, por não considerar o assunto importante – «o negócio é de pouca monta» (linha 6) – e, por outro, por manifestar impaciência em falas como «Decerto não quereis contar-me a história da minha família.» (linha 22) ou «Abreviemos.» (linha 26).

Prova Escrita de Língua Portuguesa - 3.º Ciclo do Ensino Básico. Prova 22/1.ª Chamada (Exame Nacional do Ensino Secundário, Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro). GAVE, 2011



     TEXTOS DE APOIO SOBRE QUE FAREI COM ESTE LIVRO?

A teatralização de personalidades exemplares da história literária (...) oscila entre a narrativa biográfica, mais ou menos fiel, mais ou menos fantasiada, e uma finalidade didáctica que extrai da luta do artista com o meio social que foi o seu, a matéria-prima para o ensinamento que se propõe. Na intersecção destas duas linhas se situa, precisamente, a peça de Saramago, que no entanto evita com superior inteligência os escolhos inerentes a uma e outra: nem o rigor histórico se dilui numa ilusória fidelidade arqueológica ou no recurso fácil de anacronismos, nem a invenção poética abdica dos seus direitos sem deles todavia nunca abusar, nem a lição que a obra se desprende («a moral da fábula», diríamos antes) é posta em regras que, à maneira dum catecismo, o aluno/espectador deverá decorar...
Luiz Francisco Rebello


Que Farei com Este Livro?, publicado em 1980, poderá consistir numa homenagem a Camões, já que é toda a problemática da publicação de Os Lusíadas que aqui se dramatiza: o desinteresse do rei e da corte, a miserável situação material do poeta e da sua mãe, as relações com a Inquisição, o negócio do impressor. No entanto, a força extraordinária que esta peça adquire, no seu respeito pela situação histórica (política, social e linguística), é a de justamente pode ultrapassá-la para constituir um libelo contra a situação desprotegida do escritor, que é de todos os tempos mas porventura mais nossa, mais atentos que deveríamos ter-nos tronado às relações de produção no meio cultural, nomeadamente no literário - e essa intenção torna-se mais sensível através da proeminência que na acção se dá a personagens como as de Diogo Couto e Damião de Góis, que alargam a simbologia do escritor-poeta à liberdade de pensamento e de contestação. No entanto, não se pode já falar aqui de corpos colectivos, como na peça anterior, embora o meio intelectual e o cortesão estejam bem marcados; trata-se, de preferência, de uma relação entre o indivíduo e o tempo em que vive, inóspito, opressor, indigno - e da relação deceptiva daqui decorrente. Aliás, a peste e o nevoeiro (figurando, respectivamente, a ambiência criada pela Inquisição e a mentalidade confusa do jovem rei D. Sebastião) são motivos alusivos recorrentes deste argumento negativo, onde só as ideias dos intelectuais podem ganhar raiz, amparadas pelo amor, por laivos de espírito de tolerância e pelo sacrifício maior da fidelidade à criação mediante a perda de tudo o mais. A visão que se dá do poeta sustenta-se em toda a força evocativa do seu tempo mas não é uma visão histórica, antes uma visão fabular, porque o destino de Camões inspira ao leitor pena, o de Damião de Góis admiração - e talvez que só a presença marginal, mas insistente, de Diogo do Couto reconduza o tempo aos seus próprios limites, porque decide abandonar a pátria regressando à Índia («Na Índia, não somos mais alegres, é verdade, mas a terra é outra, não terei mais obrigações para com ela, apenas viver», 122) e porque enuncia o programa trans-histórico verdadeiramente construtivo («Os melhores sonhos são os que se fazem com os olhos abertos, não os da cegueira», 52)."
Maria Alzira Seixo, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs. 34-35.


     LIGAÇÕES EXTERNAS



* * *

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O ideal de homem virtuoso é, para Camões, o daquele que, como ele, for possuidor de «honesto estudo / Com longa experiência misturado». Camões é o herói humanista d' Os Lusíadas.




            


quinta-feira, 24 de maio de 2018

poema coletivo


Hoje cheguei a casa da escola e disse à minha mãe que gostava muito de escrever e ela disse que eu precisava porque dava muitos erros.
Eu disse-lhe que não era esse escrever, mas ela não percebeu.

Ensinar a Poesia, Teresa Guedes, Edições Asa, 1990.



SE EU FOSSE UM POEMA

Se eu fosse um poema
não poderia ter medo
nadaria em mar de memórias
seria lido sem parar.

A esperança reinava
viveria a vida sem arrependimento
seria um amor sem destino
doaria as minhas palavras.

Não me agarraria à solidão
estaria pleno de amor
brilharia sem parar
daria todo o meu tempo
vivendo a vida com sentimento.

Poema coletivo criado pela turma 8.º E da professora Graça Vaz

Alverca do Ribatejo, Escola Básica Pedro Jacques de Magalhães, maio de 2018