sábado, 16 de março de 2019

Cosmicidade e comicidade em Natália Correia

Por: José Emílio-Nelson*

Tertúlia em casa de Natália Correia.

Na abordagem elementar da poesia de Natália Correia, como a que me proponho apresentar, saliento dois pontos cardeais que me nortearam nessa tarefa insensata: a COSMICIDADE e COMICIDADE [descomedimentohybris].
Numa dialéctica (aparentemente antitética), a analogia entre COSMICIDADE e COMICIDADE, se afirma como característica fundadora da sua poética, com nuanças surrealistas, atenuações do Barroco, como dinâmica discursiva, magia sempre presente na sua escrita plurissignificativa: na obra poética, na obra teatral, romanesca e ensaística.
COSMICIDADE
Na INTRODUÇÃO à edição da POESIA COMPLETA de Natália Correia,[edição póstuma preparada pela autora que a intitulou de O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS, datada de 1999], Natália Correia alude à COSMICIDADE e a define como sendo ‘o postulado de uma conexão cósmica da poesia com uma linguagem englobante da música e das matemáticas em que está estruturado o Universo’. (Deduzo que se refira à ‘harmonia das esferas’crença pitagórica que relacionava o Universo com a harmonia e a divina proporção musical que o sustenta).
Nos seus poemas crísticos, o imaginário ascende ’ao miradouro do Espírito‘para enxergar ‘sob forma mesmo estruturalmente dramática, ode, sátira ou humor que, como poesia, surge onde não há solução’.
Natália Correia ‘debate-se com a má eternidade e com a má infinitude’(diria Maurice Blanchot): a poesia surge ‘onde não há solução’Onde não há soluçãopermanecerá, assim interpreto, é a palavra indizível, inacessível, palavra esotérica, sob a forma teosófica, como interrogação ao insondável, religiosidade simbolista por empréstimo como
EQUÍVOCO CÓSMICO [INÉDITOS 1955/57]
Se meu germe, por equívoco, Teu gesto
Neste planeta funesto semeou,
Criar foi inventar-me o resto.
Perdoo-te a mentira que aqui sou
Pela verdade que lhe empresto.
Perspectiva-se neste poema, tanto quanto creio, o fingimento (na acepção pessoana) que se esclarece pelo que se lê no trecho inicial de EXÓRDIO [O ARMISTÍCIO (1985)]:
‘Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles. E mesmo que, existindo, nos ignorem, não sejamos nós a ignorar a sua autoridade primitiva que, nutrindo de segredos divinos as florestas, os rios e os ventos, faz correr o sangue em nossas veias. Usando este saber, menos dano nos farão os salteadores do verdor da natureza. Supersticiosos como todos os malfeitores, colhimento lhes será o terror sagrado de depredarem flores, árvores e fontes em que os deuses são tão reais quanto elas são. Baste-vos esta ciência: onde vos retiver a beleza de um lugar, há um deus que vos indica o caminho e Espírito.’
Em VOU DAS ANTÍTESES PARA O ABSOLUTO, [INÉDITOS 1947/55] busca o rumo constante da interrogação que a reflexão permite:
Não expulsarei os deuses e os demónios
Que discutem a posse da minha alma.
Esse conflito, esse entrelaçamento do anticlericalismo e da interrogação do Absoluto, de se lhe abeirar rejeitando-o, de o afastar pretendendo alcançá-lo, numa contradição assumida (ora com fingimento, ora com magia ‘dum ritmo exterior’), numa subversão que atravessa toda a obra da escritora, que se sintetiza no neologismo unamuniano, como se lhe referem em Espanha: MATRIA (conceito formulado anteriormente a Unamuno, mencionado pelo padre António Vieira, e revisitado por autores contemporâneos, como o expressa Luís Adriano Carlos no ensaio A MÁTRIA E O MAL EM NATÁLIA CORREIA).
O pendor metafórico da sua poesia permite irrupções de imagens que configuram uma irracionalidade da busca da razão, uma constante escondida adesão à dúvida e ao ímpeto para elaborar uma verdade que deuses e demónios disputam ou discutem, uma afirmação da sexualidade numa ânsia que se proclama noutro poema de EXÓRDIO:
‘Sejamos tranquilamente amantes das coisa divinas, sem o que a vida é o heroísmo reles de um aborrecimento.’, ou mais expressivamente, se lê num verso dos SONETOS ROMÂNTICOS: ‘Creio na carne que enfeitiça o além’.
O Absoluto, ‘cosmicidade do idioma poético’, manifesta-se como ‘a liberdade cósmica’, que é sublinhada amplamente na tão imensa música, música como acesso revelador da palavra em falta, a que Natália Correia alude, no contexto em que, como escreve, ‘nada é isolável’.Define, em ‘O POEMA’ a inventividade da poesia como ‘Pura intenção/ de cantar o que não conhece.’.
Lê-se num soneto do ciclo: ROGANDO À MUSA QUE TORNE CLARO O CORAÇÃO OBSCURO [SONETOS ROMÂNTICOS (1990)], algum tormento de interrogação do estético por detrás da simbolização da infinidade divina:
De um emboscado deus os sons que escreves
Vêm secretamente do infinito.
É para escrever que as tuas mãos são leves,
Submissas asas de um misterioso espírito.
Alheia te é a música que atreves;
Teu é o fado, o precipício, o rito
Da dor que faz passar entre horas breves
Té mister, poeta grácil de olhos tristes.
Desafias os astros? Não te gabes.
És sábio de saber que nada sabes.
Estás a mais no mundo e não existes.
COMICIDADE
Revela-se, em Natália Correia, um misticismo secularizado que lhe advém da independência com que ‘sem intento malévolo contra instituições democráticas’, combate ‘o desvario de extremismo’, ‘o imediatismo revolucionário’, e não se ilude com as soluções políticas adoptadas, revelando uma consciência céptica quanto ao pós-25 de Abril, embora positivamente interventora no campo político, deputada da Direita, empreendendo, na atitude, algo que ironicamente parece ser a palavra da auto-convicção de uma autoridade moral pública superior. Hoje se justifica (ou se lê) a EPÍSTOLA AOS IAMITAS (1976), pela realização poética alcançada. Poesia sem constrangimentos limitadores do seu assombro, da metáfora transgressora e exultante numa comicidade que é ‘um poema para ensinar risadas de camélias aos animais do medo’. [COMUNICAÇÃO1959]. É surpreendente a sua poesia pela articulação do imaginário poético dos ‘versos parodísticos’ com a intervenção política datada, sem nada perder nessa atitude extraverbal. Hoje justifica ler-se também as suas crónicas, como contextualização das poesias políticas. No fundo, trata-se de uma coerência entre a afirmação de uma poderosa presença do ‘Deus Riso’ e o seu aperfeiçoado labor metafórico: simultaneamente ética (hesito em classificá-la de ética idealizada) e incontestada ambição estética.
O riso de Natália Correia cumpre ‘a função útil do riso’, a significação social como defende Bergson [, na sua obra O RISO: ENSAIO SOBRE A SIGNIFICAÇÃO DA COMICIDADE] para quem o riso é ‘inteligência pura’.
Atenda-se que em A DEMIURGIA DO RISO, Natália Correia escreve como epígrafe:
E cada vez que celebrei o
Deus Riso floresceu em mim
Um novo invento.
O riso de Natália Correia ‘é o seu reino inesgotável’, como fonte de invenção, dado que há uma prioridade de ordem histórica no humor ‘jocoso de travessuras’ como no hilariantemente cómico, riso de zombaria quando se refere a episódios parlamentares, que reune no poemário CANTIGAS DE RISADILHA (entre 1979 e 1991.
Cito: ’O acto sexual é para fazer filhos’disse ele [Refere-se ao deputado João Morgado, e à sua posição conservadora, no debate sobre a legalização do aborto.]
‘Já que o coitodiz Morgado
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca,
Temos na procriação
Prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
Lógica é a conclusão
De que o viril instrumento
Só usou
parca razão!
Uma vez. E se a função
Faz o órgão
diz o ditado
Consumada essa excepção
Ficou capado o Morgado.’
A poesia satírica da cidadã Natália Correia contempla corrosivamente, com directas e facilmente decifráveis referências, com a comicidade e o riso(Vladimir Propp), o contexto sócio-histórico.
Natália Correia imprimiu no jornal da campanha eleitoral autárquica por Lisboa em que concorreu Marcelo Rebelo de Sousa o CANCIONEIRO JOGO-MARCELINO [1989] [,de que cito, aleatoriamente, o soneto]:
MARCELO É BOM BAILARINO
É entrar, venham ver a maravilha
Das variedades na feira marcelina!
E entre atracções à escolha a que mais brilha
É de Marcelo a fúria bailarina.
Do tango ao rock do chá-chá-chá ao samba,
Dançando a valsa como quem flores pisa,
Baila Marcelo até na corda bamba
E os alunos de Apolo inferioriza.
Topa, enfim, de cavaco o maçarico
No 
dernier cri da dança uma golpada:
Rebolar-se no novo sassarico
Para no partido acabar tudo à lambada.
No conjunto da sua obra, o humor, uma outra forma de sátira, é a homofonia ’Humor=Amor’ na desconcertante sexualidade da poesia de Natália Correia, e nessa direcção, será possível concluir, numa síntese que a própria autora escreveu:‘Disparei contra a univisualidade do mostrengo das coacções fascio-puritano-pirosas’.
Em conclusão, que não conclui nada: a poesia vária de Natália Correia mostra que a Cosmicidade, ‘o sopro da Alma Universal’ contém a inversão metafórica (Gérard Genette) da Comicidade.
Mesmo na interrogação e afinidade ao Absoluto [velhos Tratados Espirituais e Filosóficos, matemática e música] há um momento do tempo que decorre no tempo (1), em sentido figurado, que é considerado, aquele que revela como fundamento vinculado do processo criativo da COSMICIDADE que, sublinho, não se separa da COMICIDADE.
Disso nos apercebemos ao ler a primeira estrofe de JESUS NUM BAR:
Já rio e raio foste
E o vício do vinagre
Te afeiçoou aos bares
Onde homem te fizeste
Com a ruga celeste
de chegares sempre tarde.
Na obra literária de Natália Correia, a Cosmicidade (o que se recentra na intuição do Absoluto), entrecruza-se com a Comicidade das coisas deste mundo.
José Emílio-Nelson, Revista Caliban, 16-03-2019
______________________
(1) Segundo Søren Kierkegaard, ‘ a música tem em si’ ‘um momento de tempo, mas não decorre no tempo, a não ser em sentido figurado’
(*) José Emílio-Nelson, poeta, crítico e editor, é o pseudónimo literário de José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva, nascido em Espinho, em 17 de Maio de 1948. Iniciou a sua obra em 1979, com o livro Polifonia, e poesia recolhida em 2004, no volume A Alegria do Mal, prefaciado por Luís Adriano Carlos. (https://www.wook.pt/autor/jose-emilio-nelson/15654)




sexta-feira, 8 de março de 2019

Quem mata quem

Conan Osíris



Telemóveis

Eu parti o telemóvel
A tentar ligar para o céu
Pa' saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu

E quem mata quem
Quem mata quem mata
Quem mata quem
Nem eu sei

Quando eu souber
Eu não ligo a mais ninguém

E se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai acontecer

Eu vou descer a minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel
O teu e o meu
E eu vou estragar o telemóvel
Eu quero viver e escangalhar o telemóvel

E se eu partir o telemóvel
Eu só parto aquilo que é meu
Tou para ver se a saudade morre
Vai na volta, quem morre sou eu

E quem mata quem mata
Eu nem sei
A chibaria nunca viu nascer ninguém

Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade tá morta
Quem mandou a flecha fui eu

Quem mandou a flecha fui eu
Fui eu

Conan Osíris, “Telemóveis”, https://eurovisionworld.com/eurovision/2019/portugal


Cellphones

I broke my cellphone
Trying to call heaven
To know if I would kill this longing
Or if I would die instead

And who kills whom?
Who kills who kills?
Who kills whom?
Even I don't know

When I do know
I won't tell anyone else

And if life calls
If life sends a text
If it doesn't stop
If you don't have the guts to pick up
You already know what will happen

I will go down my stairs
I will ruin the cellphone
The celly
I will break the cellphone
Yours and mine
And I will ruin the cellphone
I want to live and break the cellphone to pieces

And what if I break the cellphone?
I only break what's mine
I'm waiting to see if this longing dies
Maybe, it'll turn out that I'll die instead

Who kills who kills?
I don't even know
Snitches don't see anyone being born

I used to break cellphones
But I'll never break mine again
I know this longing is dead
The one who sent the arrow was me

The one who sent the arrow was me
It was me

Conan Osíris, “Cellphones”, https://eurovisionworld.com/eurovision/2019/portugal


Quem mata quem
(…)
Para quem ainda não viu ou ouviu, a música chama-se Telemóveis (e ganhou o Festival da Canção este fim de semana). Tem um refrão — não é bem um refrão, mas para simplificar — que não anda muito longe do “ceci tuera cela”. É uma pergunta: “Quem mata quem? Quem mata quem?”. E uma resposta: “nem eu sei” — porque a pergunta é acerca de se é a saudade que me mata ou se quem mata a saudade sou eu. Ao mesmo tempo, a música é sobre tecnologia, ou melhor, sobre os telemóveis do título como instrumentos para, entre coisas, matar saudades, e sobre a relação de amor-ódio que estabelecemos com estas ferramentas (em que provavelmente, mais do que num jornal impresso, o leitor está a ler estas palavras). O cantor, compositor e letrista fantasia sobre esmagar e escangalhar o telemóvel, suspeitando nós que nunca conseguirá definitivamente fazê-lo. E fá-lo sobre um fundo sonoro de música tradicional de várias partes do mundo, onde se nota sobretudo um gamelão indonésio, por cima do qual estende a sua voz de fado — uma mistura de tempos e espaços como a do seu próprio nome de personagem de animação japonesa e divindade egípcia.

Já na sua primeira música em português, chamada Amalia, Conan Osiris pusera um verso que é precisamente sobre a mesma angústia de querermos sempre ser novos sem deixarmos de ser os mesmos: “sabes que a saudade anda aos beijos com a morte”. É uma angústia portuguesa, sim. É uma angústia de todos os humanos em todos os lados, ver a cultura a mudar e a matar-nos aos poucos, o que é o mesmo que dizer: a renascer-nos aos poucos.

Por: Rui Tavares, “Quem mata quem”, https://www.publico.pt/2019/03/04/culturaipsilon/opiniao/mata-1864084


Viva Conan Osiris

Ouvi-locantar é como assistir a uma discussão interminável e irresolúvel sobre asorigens do fado: está lá o canto cigano, o canto andaluz, o canto magrebino. Estão lá os visigodos, os romanos e os mouros.

Por: Miguel Esteves Cardoso, https://www.publico.pt/2019/02/21/culturaipsilon/cronica/viva-conan-osiris-miguel-esteves-cardoso-1862914





É mais fácil rir e dizer "ah lol uma música sobre telemóveis". Mas tirem-se uns momentos para interpretar uma letra que na verdade fala sobre a morte de alguém que nos era querido. Fiz o trabalho de casa para facilitar:

"Eu parti o telemóvel a tentar ligar para o céu,
Pra saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu" - o sujeito em sofrimento perde a esperança porque não consegue falar com quem morreu e foi para o céu. A raiva do sujeito é expressa aqui também.

"Se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai acontecer" - uma reflexão sobre os imprevistos da vida e uma referência a uma morte inesperada que levou à raiva do sujeito. A mensagem enviada pela vida pode ser muito bem, em termos práticos, a mensagem enviada  por alguém para informar da morte da outra pessoa.

"Eu vou descer a minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel" - a raiva e desespero de uma chamada com uma notícia tão triste podem levar a actos brutais. Ainda hoje lembro perfeitamente os momentos seguintes às notícias da morte do meu tio e depois do meu avô. A sensação foi exactamente a descrita aqui. Numa delas o telemóvel literalmente voou contra a parede. Quem nunca?

"Tou pra ver se a saudade morre
Vai na volta quem morre sou eu" - a morte figurada num dos versos mais fortes da letra. Quantas vezes já morremos, afinal? E morre quem de facto morreu ou morremos nós que cá ficamos?

"Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade tá morta
Quem mandou a flecha, fui eu" - aqui a passagem do verbo do presente para o passado indica-nos que o sujeito já chegou a um desfecho sobre a dor e revolta anteriores. Finalmente o sujeito matou a saudade e deixou passar a revolta, talvez aceitando a morte de alguém que amava como algo que jamais poderá mudar. Inevitavelmente teve de ser o sujeito a mandar a flecha que selou esse ciclo de sofrimento. A flecha pode ser uma metáfora para a aprendizagem que vem da difícil aceitação da morte de alguém.

"Quem mandou a flecha fui eu".

Hoje o Conan Osiris vai surpreender e provavelmente chocar todos com a sua actuação. Mas ponham a estranheza de lado. Olhem e escutem a poesia que ele criou  e vejam além do que parece óbvio. Esta letra é linda e forte e um passo avante na música portuguesa.

Quem fez tudo igual ao que já estava feito, nunca contribuiu para mudança alguma. Lembrem-se disso.

Por: Filipe Branco, num comentário ao vídeo “Conan Osiris reage à sua própria actuação festival da canção”, publicado por Yolanda Tati, no Youtube, em 2019-02-16.



O telemóvel de Conan Osíris



Depois de ver tanta crítica particularmente à letra da música “Telemoveis” do Conan Osiris, fiquei perplexo! pois considero que esta letra é de longe um exemplo das melhores que se fazem hoje em dia no universo da música Pop/Rock, onde atualmente as letras são na sua maioria "receitas de bolos": textos muito claros e objetivos, desinteressantes sem qualquer capacidade de surpreender ou promover viagens por histórias nas nossas mentes. Então para os mais desatentos, que apenas ouviram duas frases da letra e logo concluíram sumariamente que a letra não presta (pois utiliza termos/palavras alegadamente pouco interessantes), faço aqui, a título de exemplo, uma breve explicação (FRASE POR FRASE) de uma das MUITAS viagens que se pode fazer por esta letra, bastante rica, capaz de nos levar por mundos onde só a arte penetra:


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EU PARTI O TELEMÓVEL 
(De tanto uso destruí o telemóvel)
A TENTAR LIGAR PARA O CÉU 
(a tentar através dele chegar desesperadamente a um estado de felicidade plena, ao céu/paraíso)
PARA SABER SE EU MATO A SAUDADE 
(fiz isso para tentar matar/alhear-me/libertar-me do sofrimento (causado pela saudade extrema) que me traz a vida real)
OU QUEM MORRE SOU EU 
(pois se não conseguir matar esse sofrimento/saudade quem morre sou eu, pois não aguento a dor)

QUEM MATA QUEM 
(Mas afinal quem mata quem? o telemóvel matara o sofrimento? o sofrimento vai-me matar a mim? ou o próprio telemóvel mata-me a mim ao tornar-me alheado da verdadeira vida real?)
QUEM MATA QUEM MATA? 
(Quem mata o que me mata?: quem mata o meu sofrimento? quem mata o telemóvel que me mata/alheia da vida?)
QUEM MATA QUEM? 
(Será que eu tenho coragem para matar/deixar o telemóvel? se sim, depois quem mata o meu sofrimento/saudade?)
NEM EU SEI 
QUANDO EU SOUBER EU NÃO LIGO A MAIS NINGUÉM 
(Quando souber como tudo isto funciona ai sim não precisarei mais de telemóveis)

SE A VIDA LIGAR 
SE A VIDA MANDAR MENSAGEM 
SE ELA NÃO PARAR 
E TU NÃO TIVERES CORAGEM DE ATENDER 
TU JÁ SABES O QUE É QUE VAI ACONTECER 
EU VOU DESCER À MINHA ESCADA 
VOU ESTRAGAR O TELEMÓVEL 
(Se a vida não parar e me trouxer mais problemas mais sofrimento, tenho de me lembrar que não me posso refugiar no telemóvel, tenho de partir o telemóvel para não ter a tentação de me refugiar nele)

O TELELE 
EU VOU PARTIR O TELEMÓVEL 
O TEU E O MEU 
E EU VOU ESTRAGAR O TELEMÓVEL 
QUERO VIVER E ESCANGALHAR O TELEMÓVEL 
(Quero viver, quero libertar-me deste vício do telemóvel, que me prende e não me deixar ter emoções reais, não me deixa viver, quero libertar-me, partir todos os telemóveis, evitar que os outros caiam neste precipício também)

E SE EU PARTIR O TELEMÓVEL? 
EU SÓ PARTO AQUILO QUE É MEU 
(Se partir o telemóvel não vou magoar ninguém, não será nada dramático, deveria ser algo simples de fazer, só me implica a mim, só depende de mim)
TOU PRA VER SE A SAUDADE MORRE 
(Mas se o partir, a saudade/sofrimento que me levou a refugiar no telemóvel será que não volta?)
VAI NA VOLTA QUEM MORRE SOU EU 
(quem morre se calhar serei eu que já talvez não consiga viver sem o telemóvel neste momento. Mesmo se conseguisse e se depois o sofrimento voltasse? sei que não conseguia viver com a dor desse sofrimento)

QUEM MATA QUEM MATA? 
(conseguirei eu destruir o telemóvel ou ele e que me vai acabar por matar a mim?)
(Quem mata aquilo que me está a matar, alguem me ajuda?)
(conseguirei eu destruir o telemóvel ou sem ele eu é que morro?)
EU NEM SEI 
A CHIBARIA NUNCA VIU NASCER NINGUÉM 
(Se-calhar não conseguirei renascer, não saberei viver sem ele, por outro lado por causa dele sei que não vou mais conseguir apreciar o que nasce à minha volta na vida real da qual, por causa dele, estou alheado, a passar ao lado)
EU PARTIA TELEMÓVEIS 
(antes, ria-me dos viciados, eu proprio partia telemoveis, dizia ter coragem para sair deste tipo de  vícios)
MAS EU NUNCA MAIS PARTO O MEU 
(mas não estou a conseguir tomar essa decisão agora e partir o telemóvel, não estou a conseguir sair do vício, que se tornou mais forte que eu)
EU SEI QUE A SAUDADE TÁ MORTA 
(sei que a vida real, a vida com emoções reais, vida das memórias reais, está morta para mim enquanto tiver este vício)
(sei que já não sinto sequer a saudade (ela realmente morreu), mas isso aconteceu porque quem morreu já fui eu, vivo agora fechado numa ilusão e num vício, apegado ao telemóvel)
QUEM MANDOU A FLECHA, FUI EU 
(mas quem se auto destruiu fui eu)
QUEM MANDOU A FLECHA, FUI EU
(fui eu que me deixar chegar a este ponto, a culpa não é de mais ninguém)

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Isto não se devia fazer cada um deveria fazer a sua viagem … mas pareceu-me a forma mais simples de tentar explicar a minha posição perante ataques cerrados…

Concluindo, não só a letra é rica, como a temática que a mesma pode abordar.

Isto foi apenas um exemplo feito rapidamente, esta letra deixa espaço para outras viagens com nuances diferentes e mais ou menos específicas como por exemplo o sofrimento referido ser especificamente por causa de alguém que morreu (daí o telefonar para o céu … para matar a saudade … de forma frustrada, ... partir o telemóvel), ou o sofrimento ser devido a um amor passado pelo que no final das chamadas depois das discussões só lhe apetecia  partir o telemóvel …. deixo ideias para vocês fazerem a vossa própria história :), para os menos criativos...

Conan Osiris tem nos seus textos várias camadas, que servem para os superficiais que se contentam com utilização de palavras engraçadas, do dia a dia, bem articuladas e encadeadas a um bom ritmo e ao mesmo tempo para os que apreciam viagens e abordagem a problemáticas/temas ao mesmo tempo simples e complexos da nossa humanidade/sociedade. Daí a sua arte ser (para alguns inexplicavelmente) tão transversal...

“Quem afirma que falta talento a Conan Osiris pouco ou nada percebe de artes performativas. O rapaz encontrou um estilo que não tínhamos visto até agora em Portugal e conseguiu construí-lo e sublimá-lo a um ponto que toda a imagética seja tão forte quanto a música”
A isto acrescento: igualmente para o seu texto/palavra … portanto o ARTISTA COMPLETO

Por: António Querido, 2019-02-27
http://serrarioemar.blogspot.com/2019/02/o-telemovel-de-conan-osiris.html




O telemóvel tem vindo a ocupar um papel primordial na comunicação entre os homens. Todos procuramos compreender o que acontece connosco, mas nem sempre somos bem sucedidos. Algumas verdades e evidências estão dentro de nós, não nos sendo imediatamente percetíveis, bem como a outros recetores. A saudade é, em meu entender, algo cuja essência somente compreendemos após a morte de um ou mais entes queridos. O seu poder é muito abrangente podendo "matar-nos". Neste perspetiva, o compositor pode referir-se a algum ente querido, como é o caso do pai, que praticamente não conheceu, fruto da morte precoce por problemas de toxicodependência.  
Na 2.ª e 3.ª estrofes deparamo-nos com a incerteza de quem pode vencer a batalha entre a saudade e a vida. Com receio do que pode resultar desta conexão, antevendo uma resposta que lhe parece óbvia, a decisão de destruir o meio de comunicação, não querendo que a saudade o e nos destrua, ainda que incerto a respeito desta possibilidade ("Tou pra ver se a saudade morre/ Vai na volta quem morre sou eu"). Mas acusar "nunca viu ninguém nascer". Como tal, na última estrofe, o compositor conclui que foi capaz de matá-la, dada a sua iniciativa, evitando o oposto. De tal, revela-se orgulhoso, como expressa nos dois últimos versos "Quem mandou a flecha fui eu/ Fui eu". Assim, de nada adianta partir outros telemóveis: de pouco adianta conhecer a saudade, mas sim saber como destruí-la.


Por: P.P., 2019-03-04
https://insensato.pt/interpretacao-da-letra-telemoveis-de-139233



***


Um extraterrestre muito cá da terra



Adoro Bolos chegou de surpresa no final de 2017. Emoções fadistas, via Variações, Bollywood, pista de carrinhos de choque, funaná, hip hop. Romantismo trágico e tiradas de canastrão. Nunca ouvimos nada assim.



Foto de Tiago Miranda, por Nuno Ferreira Santos

29 anos. Atrás do nome está Tiago Miranda, criador de música para a qual não se inventou designação. É omnívoro na estética (fado, Bollywood, tarraxinha, hip hop, metal) e é um romântico dado ao dramatismo com tiradas de humorista (Mário Lopes).

Alguma coisa aconteceu quando, no final de um álbum de paisagens sonoras ambientadas em electrónica ou hip hop, criadas para desfiles de moda de amigos, lhe saíram de chofre os versos. Aqueles versos, cantados assim: “Tu sabes que a saudade / bate forte, bate bem, mais forte que a sorte / Tu sabes que a saudade anda aos beijos com a morte”. Aqueles versos, que acabam assim: “Amália pega em mim, leva-me para o mar / sabes que eu só morro quando não te vir chorar”. Alguma coisa aconteceu, porque foi a primeira canção em que sentiu, como diz ao Ípsilon, “que talvez houvesse uma hipótese de não ter vergonha da minha voz”. Alguma coisa aconteceu porque, quando acabou de a cantar, quebrou e chorou.
Não seria, dali para a frente, caso único. Mas é surpreendente pensar que Tiago Miranda, que assina Conan Osiris, tenha uma relação tão visceral, tão íntima, com os versos que canta. Afinal, ele é o músico que canta Borrego, Celulitite ou Adoro bolos, três das canções que, desde Dezembro, têm feito o seu caminho, chegando a cada vez mais ouvidos de gente surpreendida, intrigada e, acto contínuo, conquistada pela sua música – é oficial, nunca ouvimos nada assim. Canções em que emoções fadistas, via Variações, ou melismas de canto cigano passeiam sobre cordas à Bollywood, batida de pista de carrinhos de choque, acordeões de funaná, batida esquelética de hip hop, adufes sintéticos ou melodias do Médio Oriente (à vez ou tudo misturado). Canções em que se mistura poética de um romantismo trágico com expressões em calão, com jogos fonéticos, com expressões populares e tiradas de canastrão (à vez ou tudo misturado). Ele adora bolos – “mas adoro-te mais a ti”. Ele está a espera de um beijo “até que a terra acabe”, está à espera de um anjo - “‘pa' me levar ao kebab”.


Foto de Tiago Miranda, por Nuno Ferreira Santos

As coisas mais bonitas e mais alegres não têm que estar distantes de um cemitério. É tudo a mesma coisa.
Tiago Miranda
“A tua vida permite-te tudo isto. Por vezes, deparas-te com pensamentos que ‘nem a noite, nem Deus, nem diabos, nem ateus’, conseguem resolver. E a vida também te dá bolos, que eu adoro”, diz ao Ípsilon. “As coisas mais bonitas e mais alegres não têm que estar distantes de um cemitério. É tudo a mesma coisa”. Na sua música, não é tudo a mesma coisa, mas tudo se conjuga e mistura de forma desconcertante: o humor inesperado e a desolação sentimental, polaroids de quotidiano e introspecção. Foi isto que descobrimos quando, aparentemente do nada, dia 30 de Dezembro, nos surgiu Adoro Bolos, editado na AVNL Records.
Havia um passado feito de Silk, o álbum que terminava com Amália, e do poliglota Música, Normal, editado em 2016, mas Adoro Bolos é toda uma outra coisa. É o álbum em que uma voz se descobre e se revela verdadeiramente. A surpresa que provocou foi passando de ouvido em ouvido, o espanto foi amplificado online, a televisão já o mostrou e há um concerto na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, esta sexta-feira, abrindo a noite em que veremos a brasileira Linn da Quebrada, com lotação esgotadíssima. Parece inevitável: 2018 será o ano em que descobrimos Conan Osiris.
Estamos à beira Tejo num dia invernoso de céu pesado, cinzento carregado. Tiago Miranda está lá longe, no fundo do pontão. Olha a câmara que o fotografa: põe-se de cócoras como em crew de hip hop dos idos de 1990, abre os braços em pose beatífica, franze o sobrolho como um Raging Bull, vira-se de perfil e observa a distância, melancólico, muito de acordo com o tom deste início de tarde. Enquanto decorre a sessão fotográfica para o Ípsilon, Ruben Osório, amigo dos tempos de escola, agora também stylist de Conan Osiris, diz-nos que o seu trabalho, ao contrário do que faz habitualmente, criar uma imagem de raiz, é oferecer algo que realce aquilo que Osiris já é. E isso tanto pode ser o fato-de-treino, b-boy elevado à quinta potência, em que o vimos interpretar Borrego no programa da RTP Cinco para a Meia Noite, como este casaco de formas largas, em látex rosa, que veste agora, criação do designer de moda Ricardo Andrez.
“Posso estar a cantar sobre um trampolim novo que comprei e ter uma base techno que vou ter que colar as duas coisas”, diz mais tarde, já recolhido num sofá protegido da chuva que se abateu sobre a cidade. “Posso fazer amanhã uma música tribal com sons açorianos cantados em crioulo de Cabo Verde. Podem ser totalmente diferentes, mas vão encaixar. Isso está no meu poder e é a minha responsabilidade. Se faz parte de mim, vou conseguir coser de alguma forma”. Fala de música, fala de si mesmo – uma coisa é a outra, de resto.
Respeitar a imaginação
Tiago Miranda nasceu em Lisboa, viveu no Cacém e habita Lisboa novamente, onde trabalha numa sex-shop. Cresceu acompanhado do eclectismo total da mãe. “Ouvia fado, passava para kizomba, mudava para bachata. Ouvia os grandes cantores românticos, ouvia o Leandro & Leonardo e o Chitãozinho & Xororó”. Continuou a crescer mantendo-se ecléctico: “No Cacém chegou ainda mais kizomba, kuduro e funaná. Descobri Missy Elliott, mas tinha amigas góticas e ouvia também Evanescence, Linkin Park e coisas mais metal. Quando chegou a Sic Radical, Björk ou Sigur Rós”. Nunca foi uma coisa só, fiel a um som, a uma identidade estanque. Por isso no seu discurso misturam-se referências inesperadas. Ei-lo, por exemplo, a fazer a seguinte analogia ao explicar como descobriu a sua voz e como descobriu que havia algo que nele se libertava, algo vindo das entranhas, incontrolável, quando o fazia em português: “Há uma cena agora no [vídeo-jogo] Pokémon Oras que é o Primal Kyogre. É o mesmo Pokémon, mas fica no seu modo primordial, mais cru, mais poderoso, mais fodido”. Assim se descobriu Conan Osiris quando gravou Amália de chofre – e Amália Rodrigues é, de resto, uma figura importante nesta história.
Em Janeiro, em entrevista ao site Rimas e Batidas, defendia que, sendo “um bocado ignorante em termos de liricismo português”, tinha o Sr. Extraterrestre que Carlos Paião compôs e que Amália cantou em 1982 como “uma das obras mais necessárias”. Explica-nos agora que, de certa forma, viu ali como que uma legitimação do que tenta fazer com o seu cruzamento de contraditórios aparentes: “Ela canta à maneira dela. Canta um fado que, ao mesmo tempo, é uma música sobre um extraterrestre a quem ela pede bacalhau. Se o Carlos Paião imaginou aquela cena, não pode ser assim tão esquisito. Há milhões de pessoas no mundo e milhões de pessoas que têm sonhos estranhos. Podem não os contar, mas não quer dizer que não existam. Eles [Paião e Amália] respeitaram a imaginação e isso tem muito valor para mim” – António Variações, nome habitualmente citado quando se fala de Conan Osiris, é outra figura que lhe desperta profunda admiração: “É um dos maiores artistas de sempre e é super honroso ser comparado com uma pessoa assim”.
Em Adoro Bolos, álbum onde há um homem caricatura à beira da loucura, tudo por ciúme – “Eu vou-me amandar do Titanique, se tu não vieres”, lacrimeja ele –, álbum onde há requebro bem doseado – “Quem quer saber da celulite?”, exorta-se –, ouvem-se os versos da canção título: “às vezes nem o dia, nem a luz / Nem o sangue, nem o pus / nem o fogo nem a cruz querem resolver / o meu problema / E o problema é / eu adoro bolos” – é uma canção de amor, assinale-se, e é provável que Carlos Paião aprovasse a letra. “Chorar e dançar ao mesmo tempo é muito atractivo para mim. Não se tira uma coisa da outra”, diz Conan Osiris.


Por: Mário Lopes, 2018-03-02

https://www.publico.pt/2018/03/02/culturaipsilon/noticia/conan-osiris-um-extraterrestre-muito-ca-da-terra-1804689







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Rimas e Batidas, “Conan Osiris: Um Rouxinol na Ordem Zero de Markov”, Vítor Rua, 2019-03-02. https://www.rimasebatidas.pt/conan-osiris-um-rouxinol-na-ordem-zero-de-markov/

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Ode Triunfal, Álvaro de Campos

     Tem sido seleta, desde sempre, a escolha dos versos da Ode Triunfal a constar nos manuais escolares portugueses.

   Apresenta-se aqui, em vídeo e por escrito, a versão não truncada e "politicamente incorreta" da Ode Triunfal.



A célebre Ode de Álvaro de Campos encerrou a edição "Ler é Fernando Pessoa", do Bairro dos Livros, a 8 de Junho de 213, que celebrou os 125 anos do nascimento do autor de "Mensagem", com uma maratona de 125 poemas lidos e interpretados pelo actor e divulgador de poesia Nuno Meireles. Este poema, o 125º do dia, foi lido às portas da Livraria Moreira da Costa, ao final da noite, depois de mais de 6 horas de leituras públicas nas livrarias da cidade.




             ODE TRIUNFAL

1
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
2
Tenho febre e escrevo.
3
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
4
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
6
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
7
Em fúria fora e dentro de mim,
8
Por todos os meus nervos dissecados fora,
9
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
11
De vos ouvir demasiadamente de perto,
12
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
13
De expressão de todas as minhas sensações,
14
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
16
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
17
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
18
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
19
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
21
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
22
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
23
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
24
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
26
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
27
Ser completo como uma máquina!
28
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
29
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
31
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
32
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
33
Fraternidade com todas as dinâmicas!
34
Promíscua fúria de ser parte-agente
35
Do rodar férreo e cosmopolita
36
Dos comboios estrénuos,
37
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
38
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
39
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
41
Horas europeias, produtoras, entaladas
42
Entre maquinismos e afazeres úteis!
43
Grandes cidades paradas nos cafés,
44
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45
Onde se cristalizam e se precipitam
46
Os rumores e os gestos do Útil
47
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
48
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
49
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
50
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
51
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
52
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
53
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
54
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
55
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
56
Pela minh’alma dentro!
57
Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
58
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
59
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
60
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
61
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
62
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
63
De algibeira a algibeira!
64
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
65
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
66
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
67
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
68
Que andam na rua com um fim qualquer;
69
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
70
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
71
E afinal tem alma lá dentro!
72
(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)
73
A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
74
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
75
Agressões políticas nas ruas,
76
E de vez em quando o cometa dum regicídio
77
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
78
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!
79
Notícias desmentidas dos jornais,
80
Artigos políticos insinceramente sinceros,
81
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
82
Duas colunas deles passando para a segunda página!
83
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
84
Os cartazes postos há pouco, molhados!
85
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
86
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
87
Como eu vos amo de todas as maneiras,
88
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
89
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
90
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
91
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!
92
Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
93
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
94
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
95
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
96
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!
97
Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
98
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
99
Olá grandes armazéns com várias secções!
100
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
101
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
102
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
103
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
104
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
105
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
106
Amo-vos carnivoramente.
107
Pervertidamente e enroscando a minha vista
108
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
109
Ó coisas todas modernas,
110
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
111
Do sistema imediato do Universo!
112
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!
113
Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
114
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
115
Na minha mente turbulenta e encandescida
116
Possuo-vos como a uma mulher bela,
117
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
118
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
119
Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
120
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
121
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
122
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
123
Orçamentos falsificados!
124
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
125
E um parlamento tão belo como uma borboleta).
126
Eh-lá o interesse por tudo na vida,
127
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
128
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
129
E o mar antigo e solene, lavando as costas
130
E sendo misericordiosamente o mesmo
131
Que era quando Platão era realmente Platão
132
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
133
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.
134
Eu podia morrer triturado por um motor
135
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
136
Atirem-me para dentro das fornalhas!
137
Metam-me debaixo dos comboios!
138
Espanquem-me a bordo de navios!
139
Masoquismo através de maquinismos!
140
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!
141
Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
142
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!
143
(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
144
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
145
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
146
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.
147
E ser levado da rua cheio de sangue
148
Sem ninguém saber quem eu sou!
149
Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
150
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
151
Hilla! hilla! hilla-hô!
152
Dai-me gargalhadas em plena cara,
153
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
154
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
155
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
156
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
157
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
158
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
159
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
160
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
161
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
162
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
163
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
164
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
165
Nas ruas cheias de encontrões!
166
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
167
Que emprega palavrões como palavras usuais,
168
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
169
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
170
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
171
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
172
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
173
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
174
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
175
Para quem nenhuma religião foi feita,
176
Nenhuma arte criada,
177
Nenhuma política destinada para eles!
178
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
179
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
180
Inatingíveis por todos os progressos,
181
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!
182
(Na nora do quintal da minha casa
183
O burro anda à roda, anda à roda,
184
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
185
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
186
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
187
E havemos todos de morrer,
188
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
189
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
190
Do que eu sou hoje...)
191
Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
192
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
193
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
194
De todas as partes do mundo,
195
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
196
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
197
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
198
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!
199
Eh-lá grandes desastres de comboios!
200
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
201
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
202
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
203
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
204
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
205
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
206
E outro Sol no novo Horizonte!
207
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
208
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
209
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
210
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
211
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
212
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
213
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
214
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.
215
Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
216
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
217
Engenhos brocas, máquinas rotativas!
218
Eia! eia! eia!
219
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
220
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
221
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
222
Eia todo o passado dentro do presente!
223
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
224
Eia! eia! eia!
225
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
226
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
227
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
228
Engatam-me em todos os comboios.
229
Içam-me em todos os cais.
230
Giro dentro das hélices de todos os navios.
231
Eia! eia-hô! eia!
232
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
233
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
234
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
235
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
236
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
237
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
238
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
239
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

                        Álvaro de Campos, Londres, 1914 — Junho.

6-1914
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
 - 144.
1ª publ. in Orpheu, nº1. Lisboa Jan.-Mar. 1915. Lacunas completadas segundo: Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993


Por fim uma homenagem: “Ode Triunfal” censurada em manual de Português

Alunos do 12.º ano chibaram-se depois de se darem conta de que o manual da Porto Editora lhes tinha sonegado alguns versos do poema de Álvaro de Campos




Faz mais de um século, o número inaugural de Orpheu deu para o incómodo, algum estardalhaço e suspeitas, mas falar num escandâlo seria ter para referência medidas um tanto provincianas, quando o que houve mais foi chacota nos jornais de Lisboa. A Fernando Pessoa ou a Álvaro de Campos, e aos outros, chamaram-lhes degenerados, paranóicos, maluquinhos, destinando-os a Rilhafoles. Isto em março de 1915, quando a “Ode Triunfal” esteve entre os gritos nesse espantoso coro que da Orpheu fez um decisivo passo das vanguardas. Hoje, quando os mesmos versos são entoados como um enfebrecido “Pai Nosso” nas missas escolares, com tantos palmos de terra em cima, e depois da canonização literária, se lidos em sociedade, alguns continuam a apresentar as unhas um pouco grandes, e é natural a tentação de ir lá com um corta-unhas. Chega-se ali ao verso 153 e damos com “automóveis apinhados de pândegos e de putas”, mas, se isso ainda escapa, o que dizer, um pouco mais abaixo, dos versos 169 e 170, quando o poeta tem o descaramento de ver as filhas de gente ordinária e suja, que, aos oito anos (credo!), “masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada”. E se tal indecência ainda fosse só uma constatação... mas pelo meio o javardola ainda o exalta, dizendo-nos que o acha belo e que o ama. Raios o partam!
Assim se justifica que, ao reproduzir o célebre poema num dos manuais escolares de Português do 12.º ano, da Porto Editora, prudentemente, os autores – Noémia Jorge, Cecília Aguiar, Miguel Magalhães – tenham optado por rasurar os três versos da versão dirigida aos alunos, mantendo-os na versão do professor, para que este decida se deve abordar na sala de aula estas passagens que “têm linguagem explícita e se relacionam com a prática da pedofilia”. Isto lê-se no comunicado em que a Porto Editora vem explicar os critérios usados na edição do manual “Encontros”, depois da notícia do “Expresso”, que no domingo avançava a perplexidade de uma turma de 12.º ano – e sublinhe-se que é miudagem que entrou já na maioridade ou está à beira disso – ao identificar a omissão dos versos no manual quando escutou uma versão áudio da “Ode Triunfal”. Expoliados, parece que os putos não se contiveram, deram com a boca no trombone. Na versão higienizada do poema não havia direito a ver passar os automóveis apinhados de pândegos e de putas, e no que toca a mexer com pedofilia é o que se sabe.
Agora, abra-se o livro no capítulo da ingenuidade dos educadores. Seja que livro for, desde que instruído nas coisas do mundo, e vamos saber o que é que miúdos de 18 anos têm a aprender dos professores, ou a ensinar-lhes, no que toca ao género de coisas sórdidas que não deixam de colorir e perturbar a ordem. Impôs-se a “preocupação didático-pedagógica” ao respeito pela integridade do poema. Porquê? No seu comunicado, a Porto Editora diz que “a diferença entre livro do professor e livro do aluno assenta no pressuposto de que cada docente tem um papel central na preparação e na organização das suas aulas, em função das características específicas de cada turma”. E ainda adianta: “Os professores conhecem as suas turmas e conhecem o poema integralmente, pelo que saberão também se têm ou não condições para abordarem os referidos versos com o tempo e o cuidado necessários, uma vez que podem, obviamente, constituir fator de desestabilização ou de desvio da atenção dos alunos.”
Aí está, preto no branco, o perigo: a possibilidade de o poema ser fator de desestabilização ou raptar a atenção dos alunos. E mais, com as palavras do poeta, poderíamos exclamar: Se a obscenidade não o fosse! E se o poeta não houvesse mandado às malvas tão grandes cuidados, mas se tivesse ficado pela cauta sentença que acena de longe às coisas do mundo, ao invés de ir investigar com os sentidos úteis e mais à flor do idioma, talvez houvesse sido só mais outro funcionário, entregando-se diligentemente ao pecado, o verdadeiro, diz Valéry, que é escrever para um público, então não haveria nem Pessoa nem Campos para ninguém, nem o do colapso nervoso, e da existência absurda que de um fio puxa e faz desabar toda esta tão recta e sensaborona existência, e nem o depravado, que podia encher a boca, e ficar-se por essa “noite abolida onde, ferido, o assassino conversa com o seu crime”. 
Ao i, Vasco Silva, editor dos quatro costados, “nome indissociável da edição de Fernando Pessoa”, disse que considerava tudo isto um “disparate”. Que se queriam aquele poema, não lhe viessem cortar as unhas, e se era demais o desconforto que podia causar na sala de aula, então que fossem buscar outro. Lembrou que na edição das “Poesias de Álvaro de Campos”, da Ática, que saiu em 1944, e possivelmente com o fundado receio de que fosse apreendida, também as “putas” passaram em pontas, percebendo-se o que lá estava, mas limando a garra. Já o verso 170 foi todo ele à vida, à semelhança do que agora se fez. E aproveitando a aberta, o editor chamou-nos a atenção para uma passagem das “Páginas de Estética e de Teoria Literárias”, que incluiu na recente edição que preparou para a E-Primatur – “Não Cites Pessoa em Vão” –, em que o poeta lembra que “a arte suprema tem por fim libertar — erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos, das preocupações morais ou imorais”. E, para que não subsistam dúvidas, remata: “A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conteúdo.”
Mas se, por uma vez, e ainda que involuntariamente, Pessoa foi alvo de uma homenagem sentida e honesta, já que, sem reais constrangimentos que a isso obrigassem, se viu censurado, decidiram fazer-lhe as unhas para não causar perturbação da ordem nas salas de aula do país, talvez valha a pena pensar numa alternativa à “Ode Triunfal”. A “Saudação a Walt Whitman” seria uma hipótese, pela forma como exalta o predecessor: “De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,/ Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,/ Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,/ Concubina fogosa do universo disperso,/ Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas/ Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,/ Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,/ Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,/ Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,/ E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus! (...)”
Diogo Vaz Pinto, Jornal i, 14/01/2019