quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Algarve de Sophia por Pedro Sousa Tavares

As férias algarvias de Sophia de Mello Breyner relembradas pelo neto, o jornalista Pedro Sousa Tavares.

Sophia no areal da praia de Dona Ana, em Lagos© D.R.


"Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza"


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Há Muito"

O levante é sempre uma dádiva com os dias contados. Três, seis ou nove, assim o mediam os antigos, quando as contas ainda batiam certas. Pelo meio - na maior parte do tempo, para não mentir - é a nortada, sua némesis, quem dita as regras, levantando areia e guarda-sóis, tornando geladas as noites e, única virtude que se lhe reconhece, expulsando melgas e mosquitos para outras paragens. 
Nas noites de nortada, Sophia deixava-se ficar até tarde a cismar no seu "escritório", um mezanino por cima da sala, na casa da Meia Praia, que os netos sempre encararam como o seu santuário privado, ainda que nunca o tivesse reivindicado como tal. Acendia os seus cigarros slim, que invariavelmente esquecia no cinzeiro depois da primeira passa, bebericava o seu chá, que parecia durar para sempre e nunca parar de fumegar e, com a portada de vidro entreaberta, passava horas a ouvir o vento a silvar entre os pinheiros.

Sophia no Algarve© D.R.

Lembro-me disso porque, tendo-lhe herdado os genes noctívagos, ocupava muitas das mesmas horas imediatamente em baixo do mezanino, sentado na mesa de jantar, levando sucessivas abadas no xadrez do meu tio Xavier até às raras e triunfais ocasiões em que, geralmente apanhando-o já meio a dormir, descortinava um erro que me permitia recompor o meu score para um mais digno 1-10 ou 1-11.
Entre os nossos silêncios de jogadores, e o seu silêncio de poeta, era capaz de jurar que o vento que entrava pela janela lhe falava ao ouvido e que ela, num murmúrio, tão leve que talvez fosse apenas imaginado, lhe respondia.
- Mãe, vá-se deitar -, suplicava às tantas o meu tio, quando nós próprios claudicávamos ao sono.
- Vou já, Xavier.
Muitas vezes nunca ia. Adormecia ali mesmo. Embalada pelo vento.
Nos dias de levante a Meia Praia transformava-se na melhor praia do mundo. O mar, por norma parado como um lago, enchia-se de vida, proporcionando-nos épicas sessões de carreirinhas e obrigando o nadador-salvador a abandonar o seu posto habitual - uma cadeira à sombra, onde, imagino maldosamente, se recompunha, a sono solto, das aventuras noturnas da véspera - para impor a ordem possível entre multidões de crianças e adolescentes eufóricos. A temperatura da água subia, dia após dia, até ir bem para lá dos 20 graus, facto que alguém - já não me lembro quem - atestava cientificamente com um daqueles termómetros em forma de peixe que se usavam nas banheiras dos bebés. E o vento de sul envolvia-nos num abraço, transformando a água que nos escorria pela cara num caldo morno com sabor a sal e algas.
Não era apenas nesses dias que Sophia lá ia. Mas as memórias que guardo dela na Meia Praia estão invariavelmente ligadas ao esplendor dessas manhãs e tardes de levante, que muitas vezes duravam até anoitecer. Talvez por estarem arquivadas na mesma pasta destinada às boas recordações.
Nunca aparecia antes das duas, três horas. Não por se levantar tarde - coisa que raramente fazia, apesar dos longos serões - mas por preferir evitar as horas de maior calor. Havia sempre alguém a oferecer-se para a ir buscar a casa mas, muitas vezes, dispensava a oferta, preferindo fazer a pé o trajeto de meio quilómetro até ao areal. Por vezes apanhava boleias improváveis. Num ano, já bem na casa dos setenta, arranjou uma empregada que guiava uma scooter e passou as férias a deslocar-se para a Meia Praia sentada de lado atrás da condutora, à amazona, com uma alcofa numa mão e uma sombrinha japonesa na outra.
Chegava à praia sempre elegante, com longas túnicas ou vestidos de tecidos leves, chapéu de palha na cabeça. Pousava a alcofa, estendia a esteira, também de palha. Já de fato de banho, ainda segurando a sombrinha, que só largava à beira-mar, avançava decidida até à primeira onda, mergulhando de cabeça. Lembro-me de ver, orgulhoso, o olhar embasbacado de duas turistas inglesas que assistiram a um desses rituais.
Era uma excelente nadadora, de gestos estilizados, como uma atleta olímpica. Lá em casa, cumpria religiosamente as suas sessões de bruços de fim de tarde na piscina ladeada por uma alfarrobeira, em cujos ramos pousava as coisas antes de entrar na água. Vê-la a nadar, de braçada certa e uma respiração cadenciada (que também usava para se acalmar quando alguma coisa a irritava), era um momento tão solene que conseguia a proeza de nos manter a nós, netos, a uma invulgar e respeitosa distância da água.
A alfarrobeira, que adorava, nunca deixou de ser um pesadelo logístico para todos os mestres-de-obras e técnicos de manutenção que passaram pela casa. As suas raízes levantam o chão de tijolo vermelho e já furaram as paredes da piscina duas ou três vezes. As suas folhas e frutos sujam a água e entopem os filtros. Os apelos para a deitarmos abaixo sucederam-se ao longo dos anos. Mas isso sempre esteve fora de questão: aquela árvore, por estranho que esta afirmação possa parecer, também é ela.

Postal enviado por Jorge de Sena com a morada "Vila Moura"© D.R.

No discurso que fez em 1964 num almoço da Associação Portuguesa de Escritores, por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído ao Livro Sexto, referiu-se ao artista como alguém capaz de sublinhar "a dignidade do ser", mesmo quando fala "somente de pedras ou de brisas". Mas, em Sophia, as pedras, as árvores, as brisas, o mar, a terra, não foram "somente" temas da sua poesia mas partes indeléveis da sua essência, da "dignidade do ser" que era. E no Algarve, que descobriu nessa mesma década de 1960, encontrou uma fonte inesgotável de inspiração. Era a sua Grécia entremuros.
Revendo o trajeto de O Caminho da Manhã - poema que, como contou anos mais tarde, começou por ser um conjunto de indicações à sua empregada sobre como ir da Praia da D. Ana ao Mercado de Lagos -, pergunto-me como encaixaria, depois da "estrada que [já não] é de terra amarela", junto às "muralhas antigas da cidade", um recém-construído parque de estacionamento com um aberrante minigolfe temático na cobertura. É um pensamento absurdo. Tão absurdo como imaginar que alguma vez a fealdade de parte da cidade de Atenas a impediria de se deslumbrar com o Pártenon. Sempre se concentrou no essencial. E o essencial - a luz de Lagos, a brancura das suas paredes, fontes do seu "amor pelas coisas visíveis" que é "oração em frente do grande Deus invisível" - perdura.
O levante passou por cá, há dias, embora breve e menos feliz do que noutras ocasiões. Com a notícia da perda de um amigo, pai de um grande amigo, chegaram-nos também nuvens negras de fumo, vindas da serra de Monchique, que ensombraram o sol e tiraram sal aos nossos mergulhos. Enquanto escrevo, a nortada, já de regresso, fustiga as chamas em direção a Silves. Os homens que as combatem parecem precisar de ajuda. Talvez ela possa, mais uma vez, dar uma palavra ao vento.
Pedro Sousa Tavares, 13-08-2018

https://www.dn.pt/1864/interior/no-algarve-de-sophia-9699673.html




sexta-feira, 27 de julho de 2018

Poesia e Cuidados Paliativos

Wanda Rossi de Carvalho

Hoje recebi um poema.

Hoje falarei sobre a Sra Wanda Rossi de Carvalho. Sei que não posso falar de pacientes com os nomes reais, mas não comentarei sobre a doença dela. Ela merece o crédito de sua história.

Dona Wanda tem 94 anos. É uma poetisa. Fez o hino de Bandeirantes (uma cidade aqui do lado de Londrina). Presidente da União Brasileira de Trovadores - seção Bandeirantes.

A cada 6 meses comparece no consultório. Reclama da demora (independente se estou atrasado ou não). Chama-me de bravo (por mais que me esforce para não ser, pelo menos não com ela…). Fala que está muito idosa, mas chega andando, a cabeça ótima.  Sempre me entrega um poema novo. Na hora de ir embora digo que o retorno é em 6 meses, e ela diz que vai estar morta até lá, porque está muito velhinha. Isso se repete já faz 6 anos.

Desta vez deu-me um poema sobre o natal, mesmo sendo na época em que estamos. Isso porque acha que não me verá mais. Igual o que sempre faz desde que a conheço…

Presente de Natal

Sonhei dar-te um presente,
Mas não sei o que darei…
Tens riqueza, tens amigos,
E até mesmo o que eu não sei.
Lembrei de dar-te a saudade
Mas com certeza já a tens,
Pensei na felicidade
Mas não mais a encontrei!
À venda estava a piedade
Mas esta sei que já tens…
E se eu te desse a verdade
Presente de grande poder.
São todos eles tão belos…
Se guardados com carinho,
Mesmo grande ou pequenino
Faz do teu sonho um menino!…
Um presente nobre me ocorre:
E se eu te desse o amor?
Dentro deles guardarias
Tudo bem que a vida for!!!

Obrigado pelo poema, dona Wanda. Até ao próximo semestre.


[Nota: a poetisa Wanda Rossi de Carvalho faleceu em 04-10-2014]
***

Aprendendo a Morrer com Mario Quintana



Continuo a insistir: a poesia é um dos poucos redutos onde podemos aprender um pouco da arte de morrer. Não isso que vemos na TV, as mortes cenográficas, dolorosas, dramáticas. Nem a morte que vemos nos hospitais, os abandonos nos quartos, o lidar com o corpo vivo porém morto à vida num leito de UTI.
Falo de preparação, não como uma espera ansiosa mas que tematiza o morrer como algo que expressa também o meu viver para que ele seja mais intenso, porque sabemos agora focar o existente como seu real valor de singularidade e beleza. E quem nos ajuda a (re)encontrar esse valor é a percepção de que a morte faz parte do viver.
Hoje falaremos de Mario Quintana. Para mim este poeta gaucho tem a virtude de tornar pesada uma pena e leve um cofre de banco. Mostra sutilezas e complexidades ocultas naquilo que vemos todos os dias e que aprendemos a não "ver" mais. Mario Quintana extrai ouro daquilo que nos acostumamos a chamar de banalidade.
Quintana falou muito sobre a morte, fez inclusive piada dela ao nos lembrar que “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Então, não temos mais que nos preocupar com o fato dos lençóis ficarem sujos com a terra do nosso calçado, aliás, talvez a morte seja isso mesmo, a ausência total das preocupações e, por isso, exercício pleno de uma liberdade que não se exercita.
Quintana pode ser um ótimo companheiro de jornada se quisermos discutir a morte. Recomendo essa discussão a todos e, particularmente, aos trabalhadores de saúde, já que eles, muito provavelmente, cuidarão do nosso morrer. A questão é: como estão cuidando hoje em dia? Minha resposta é afirmar que o cuidar não pode estar reduzido a mera monitoração de sinais clínicos, de um corpo reduzido a suas funções biológicas. As pessoas à beira da morte perdem a singularidade, se transformam em massas biológicas à beira da dissolução. Nós somos muito mais do que isso!
O morrer grita pelo exercício de outras necessidades: expressa os quereres especialmente reservados para o fim da vida, pela simples razão que são percebidas como sinais da despedida do mundo e de tudo que amamos. Assim, quando formos falar de morte nos hospitais, por que não pensarmos em Mario Quintana? Vejam por exemplo este soneto:

Minha Morte Nasceu…

          (Mário Quintana para Moysés Vellinho)

Minha Morte nasceu quando eu nasci
Despertou, balbuciou, cresceu comigo
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi

Já não tem aquele jeito antigo
De rir que, ai de mim, também perdi
Mas inda agora a estou sentindo aqui
grave e boa a escutar o que lhe digo

Tu que és minha doce prometida
Nem sei quando serão nossas bodas
Se hoje mesmo… ou no fim de longa vida

E as horas lá se vão loucas ou tristes
Mas é tão bom em meio as horas todas
Pensar em ti, saber que tu existes

(Fonte: QUINTANA, Mario. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)

Quanta leveza para um tema costumeiramente denso e amedrontador… a morte como um ente que nos acompanha desde o nascimento… como uma namorada de infância com quem um dia, cedo ou tarde, nos casaremos. Já utilizei este poema para estimular trabalhadores de saúde em rodas para tematizarem as suas experiências pessoais com a morte, suas primeiras lembranças. O resultado foi muito bom. As pessoas trouxeram recordações, expressaram lutos mal elaborados, produziram ligações com as experiências de morte vividas no cotidiano.
Como todo tabu, depois que percebemos que não haverá necessariamente punições por quebrá-lo, a porta se escancara e as pessoas meio que perdem o medo, pelo menos de falar, e percebem que o medo da morte e do morrer que as deixa tão vulneráveis, na verdade é o medo de todos. Assim, nos tornamos fortes quando percebemos que o medo é algo que pertence ao mundo, elemento que tipifica a condição humana.

Mas Quintana tem mais a nos dizer:

Este quarto

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto…

Que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! Imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim…

(Fonte: QUINTANA, Mario. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 2005)

Aqui, Mario Quintana apresenta a percepção da morte por quem está morrendo ou, pelo menos, uma idealização do que ela deveria ser. O olhar do moribundo parece expressar esperança nas promessas de um céu que significa descanso, o fim das dores e sofrimento. Compara a morte a este mesmo céu que a semelhança do dia, cede espaço para a noite inexorável, um manto que nos cobre e nos livra da ansiedade de saber que é o fim. Novamente, uma bela metáfora da morte que nos afasta das representações terríveis e dolorosas.
A partir dessa leitura as pessoas podem ser estimuladas a falar das experiências que vivem nos hospitais, no cotidiano do trabalho, podem compartilhar os sentidos que tem dado a morte, as percepções do que seriam a mortes dolorosas (física e psiquicamente) e como poderiam atuar para minimizar a dor e vulnerabilidade de pacientes e familiares.
Vamos terminando por aqui, encerrando da melhor maneira possível, claro, com Mario Quintana:


INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!"

 Erasmo Ruiz, 09/07/2009
http://redehumanizasus.net/6987-aprendendo-a-morrer-com-mario-quintana/#sthash.93dGk4Ga.dpuf




¿Por qué necesitamos poesía en cuidados paliativos?


Objetivo: Practicar la poesía: La necesidad de darle voz a la experiencia del final de la vida es compartida por pacientes, familias, cuidadores y profesionales de la salud así como por la comunidad.

Los paliativistas necesitamos aprender de la poesía el poder de las palabras, los símbolos y las metáforas para capturar o transformar la experiencia de enfermedad de los pacientes.

Público objetivo: Numerosos profesionales de la salud se han acercado a la poesía, para rescatar de ella el ancestral contenido curativo e imaginativo que esconde cada una de nuestras palabras.

Relevancia del tema para el congreso: Es un tema original y revelador que indaga nuestra esencia en conexión con el lenguaje. La capacidad sanadora de la poesía nos permite desarrollar la conexión empática o la presencia compasiva. Sanadora en sí misma, la poesía actúa también sanando al sanador a causa del viejo rol natural que tiene el arte. Este género envuelve un mundo de creatividad e imaginación que conlleva en sí el fruto de nuestro deseo humano por descubrir el sentido del mundo y de nuestras vidas.

Relevancia del tema para la región: El acercamiento al género literario nos dará herramientas para nuestra propia sanación, para volvernos en el instante preciso a la requerida humanidad y al íntimo acercamiento hacia el que sufre.

Resumen: ¿Por qué necesitamos poetas en Cuidados Paliativos? Porque existen dos tipos de poetas: los que publican y los inéditos. Los que publican cantan el canto del espíritu humano. Los inéditos son el canto que cantan los primeros. Ambos son necesarios en Cuidados paliativos.

Se trabajará durante la sesión el tema de la práctica de la poesía con la premisa de que “la poesía no es de quien la escribe sino de quien la necesita”. Se intentará generar un ambiente de alto contenido espiritual: leyendo, escribiendo, discutiendo e internalizando poesía se puede encontrar un medio de autoconocimiento, en especial cuando es usado en el trabajo en equipo.

Los paliativistas necesitamos aprender de la poesía el poder de las palabras, los símbolos y las metáforas para capturar o transformar la experiencia de enfermedad de los pacientes.

Se explorará con lecturas de fragmentos de poetas latinoamericanos -Olga Orozco, Jaime Sabines, Luis Cardoza y Aragón, Pablo Neruda, Jorge Boccanera, Hugo Padeletti, etc.- acompañados de imágenes, la aptitud del hombre para permanecer en medio de la incertidumbre, del misterio y de las dudas, sin irritarse y sin un ansia exacerbada por llegar al hecho y la razón. Es decir, la sabiduría de tolerar no saber. Renuncia que por cierto no es abandono sino, por el contrario, perseverancia en la búsqueda. Pero también implica humildad, entrega al otro y desprendimiento material e intelectual. En otros términos, es esta capacidad la que da genera la empatía, el colocarse en el lugar del otro, el considerar la función decodificadora del receptor de acuerdo a sus propios médios.

Vilma Tripodoro, "¿Por qué necesitamos poesía en cuidados paliativos?" IX Congreso Latinoamericano de Cuidados Paliativos, Santiago, Chile, 2018-04-12, http://cuidadospaliativos.org/ix-congreso/encuentros-con-expertos/

Papel TE VOY A ACOMPAÑAR HASTA EL FINAL




Why we need more poetry in palliative care


Abstract

Objectives: Although many well-known poems consider illness, loss and bereavement, medicine tends to view poetry more as an extracurricular than as a mainstream pursuit. Within palliative care, however, there has been a long-standing interest in how poetry may help patients and health professionals find meaning, solace and enjoyment. The objective of this paper is to identify the different ways in which poetry has been used in palliative care and reflect on their further potential for education, practice and research.

Methods: A narrative review approach was used, drawing on searches of the academic literature through Medline and on professional, policy and poetry websites to identify themes for using poetry in palliative care.

Results: I identified four themes for using poetry in palliative care. These concerned (1) leadership, (2) developing organisational culture, (3) the training of health professionals and (4) the support of people with serious illness or nearing the end of life. The academic literature was mostly made up of practitioner perspectives, case examples or conceptual pieces on poetry therapy. Patients’ accounts were rare but suggested poetry can help some people express powerful thoughts and emotions, create something new and feel part of a community.

Conclusion: Poetry is one way in which many people, including patients and palliative care professionals, may seek meaning from and make sense of serious illnesses and losses towards the end of life. It may have untapped potential for developing person-centred organisations, training health professionals, supporting patients and for promoting public engagement in palliative care.

Elizabeth A. Davies, "Why we need more poetry in palliative care". 



Poderá também gostar de:
Inscrição”, José M. A. Carreiro, Chuva de Época, Ponta Delgada, 2005
Viagem na Família”, José M. A. Carreiro, Folha de Poesia, 21-02-2007
A médica que prescreve poesia na lida diária com a morte”, Publicado em Ex-alunos, Gente da USP, Perfil, USP Online Destaque, por Redação em 9 de maio de 2012
Prescrição de Poesia, blogue de Claudia Quintana,
Unos poemas Paliativos, simples y algo educativos”, Eduardo Bruera. V Congreso Latinoamericano  de Cuidados Paliativos 15-18 de Marzo Buenos Aires, Argentina
A cura pela palavra”, Folha de Poesia, 01-07-2017

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Bela Infanta






BELA INFANTA

Estava a bela infanta
No seu jardim assentada,
Como o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava. 1
– «Diz-me, ó capitão 2
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava?»
– «Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada...
Diz-me tu, ó senhora,
As senhas que ele levava.»
– «Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança 3
A cruz de Cristo levava.»
– «Pelos sinais que me deste 4
Lá o vi numa estacada
Morreu morte de valente:
Eu sua morte vingava.»
– «Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!...»
– «Que dirias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por i.»
– «Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela 5
Outro mói do gerzeli: 6
Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei pra si»
– «Os teus moinhos não quero
Não nos quero para mi;
Que diria mais senhora,
A quem to trouxera aqui?»
– «As telhas do meu telhado
Que são oiro e marfim.»
– «As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «De três filhas que eu tenho, 7
Todas três te daria a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir.»
– «As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa senhora,
Se queres que o traga aqui.
– «Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.» 8
– «Tudo, não, senhora minha,
Que inda te não deste a ti.»
– «Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si 9
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo. 10
À volta do meu jardim
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!»
– «Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!»
– «Tantos anos que chorei, 11
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui.»
Almeida Garrett, Romanceiro
_____________________________
Notas de Almeida Garrett:
1 Que a guiava. – Lisboa.
2 Diz-me ó cavaleiro,
Os sinais... – Ribatejo.
3 Nos punhos da sua espada. – Estremadura.
4 Pelos sinais que me deste,
Lá o vi morto às lançadas,
Que a mais pequena que tinha,
Era a cabeça passada. – Várias.
Pelos sinais que me deste,
Lá morreu às cutiladas,
Que a mais pequena que tinha
Era a cabeça cortada. – Várias.
Estas variantes são ambas muito gerais, e talvez sejam melhores do que a que adoptei.
5 Este verso, pelas suas alusões se vê que é moderno comparativamente; foi introduzido decerto por lição muito posterior ao romance; o que se encontra a miúdo.
6 Gerzelim, em arábico Jolzelin, semente redonda e oleosa ou uma planta de que se faz doce, e dela moída também óleo que serve para o comer.
7 De três filhas que eu tenho.
Todas três te hei de dar;
Uma para te vestir,
Outra para de calçar;
A ais formosa de todas
Para contigo casar. – Estremadura.
Esta variante assaz vulgarizada é contudo uma pruderie moderna de linguagem que se introduziu visivelmente quando a hipocrisia pediu a decência na fala que falava nos costumes.
8 Quanto tinha ofereci. – Beira Alta.
9 Que pede e torna a pedir. – Estremadura.
10 Ao rabo do meu cavalo. – Ribatejo
11 Os últimos quatro versos faltam na maior parte das cópias, e talvez sejam postiços; precisos não são.

Análise do romance tradicional Bela Infanta

ESTRUTURA DA AÇÃO
Ordem existente
Situação Inicial
Acontecimento perturbador
«Estava a bela Infanta no seu jardim assentada…»
«Viu vir uma nobre armada»
Ordem perturbado
Dinâmica do desequilíbrio
Forço retificadora
Notícia da morte do marido / a viuvez
As senhas pedidas pelo capitão
Ordem restabelecida
Situação final
Reconhecimento do marido

TEMPO
Tempo indeterminado - «estava…» (característica da literatura oral tradicional).
Tempo histórico - Descobrimentos (referências ao «oiro fino», à nobre armada, às especiarias - cravo, canela, “gerzell” -, ao ouro, à prata e ao marfim; referência às cruzadas, à «terra que Deus pisava. ou Terra Santa no Médio Oriente, com o cavaleiro que levava «selim de prata doirado», um cavalo branco e a «cruz de Cristo» na ponta da sua lança).

ESPAÇO
Espaço muito restrito – Jardim (local de encontro); alusão ao mar («viu vir uma nobre armada») e ao Oriente Médio (à Terra Santa).

PERSONAGENS
A Infanta e o Capitão; referências às três filhas e aos vassalos.

GRADAÇÃO DAS PROVAS
Nível material: oiro e prata moinhos telhas.
Nível de relação afetivo-espiritual: ela própria.

TEMA
Fidelidade.

CLASSIFICAÇÃO
Romance tradicional novelesco (ou xácara popular, na expressão de Almeida Garrett), com elementos do romance histórico marítimo.

SIMBOLOGIA
Jardim – local do encontro amoroso.
Cabelos – a beleza feminina, mas também os fios que ligam à vida e ao amor.
Sinais do cavaleiro: selim de prata dourada – simboliza a nobreza; lança com a cruz de Cristo – guerreiro com espírito de cruzada.
Oiro, prata e marfim; cravo, canela e «gerzeli» - riqueza material / estatuto social e económico.
Moinhos – subsistência: o alimento.
Telhas – a própria casa: a existência.
Número 3 – a perfeição; a totalidade; a globalidade.
Número 7 – o completar de um ciclo; o repouso do herói; a felicidade; o encontro com a verdade.

LINGUAGEM E ESTILO
Linguagem simples, metafórica, oral e coloquial, emotiva, com marcas épico-líricas e dramáticas; a descrição narrativa inicial dá lugar ao diálogo, onde predominam as frases de tipo exclamativo e interrogativo.
Utilização de adjetivação anteposta expressiva («bela infanta», «nobre armada») com conotações psicológicas e subjetivas; presença do paralelismo anafórico (versos 25-26 ou 79-80); uso da perífrase (v. 12), da apóstrofe (vv. 9 e 65), da dupla negação (v. 33), da aliteração das dentais (vv. 49, 54, …).

Dimensão Comunicativa – Português B – 10.º Ano, Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Porto Editora, 1997, p. 53.


Linhas de leitura do romance tradicional Bela Infanta.

1.    A Bela Infanta é um dos mais conhecidos romances da tradição portuguesa. Na sua opinião, a que deverá este romance toda a sua popularidade?
2.   Procure contar, de forma muito sintética, a história deste romance.
3.   Este romance poderá ser definido como «composição das senhas do esposo» ou do «reconhecimento». Quais são as etapas para esse reconhecimento?
4.   Compare a «bela infanta» com Penélope da Odisseia de Homero (parte-se do princípio de que deve ter lido esta obra fundamental do património literário da Humanidade).
5.   Compare as várias «provas» a que o marido ainda incógnito submete a esposa. Procure aprofundar o valor simbólico de cada uma das «figuras» principais constituintes dessas provas («oiro e prata», moinhos»...). (Consulte o Dicionário dos Símbolos de J. Chevalier e A. Gheerbrant. Edição portuguesa: Lisboa, Editorial Teorema, 1994)
6.   Importante se torna nestas versões o reconhecimento pelo «anel», anel que tinha sido partido em duas partes: - sabia que a este anel partido e depois reajustado os antigos chamavam «symbolon», ou seja, «símbolo»? Pense no que há de comum entre esse antigo e o moderno significado do lexema «símbolo».
7.    Aprecie o valor que, nestas versões, assumem as componentes discursivas narrativa e dramática.

João David Pinto Correia em Romanceiro Tradicional Português, Lisboa, Editorial Comunicação, 1984, pp.208-209.

Proposta de resolução do questionário:
1. A popularidade do romance tradicional «Bela Infanta» deve-se ao assunto tratado: ausências prolongadas dos cavaleiros deixavam as mulheres desamparadas e incertas no seu regresso; daí o tema da fidelidade conjugal.
2. Uma bela Infanta viu chegar uma armada e perguntou a um cavaleiro que nela vinha, se tinha visto o seu marido. O cavaleiro depois de ter ouvido a descrição do marido, quis saber que recompensa dava a quem o trouxesse de volta. Ela respondeu que dava tudo o que tinha: o seu dinheiro, as telhas do seu telhado que eram de ouro e marfim e as suas três filhinhas. Mas tudo foi rejeitado pelo cavaleiro, que lhe disse que ainda se podia dar a ela própria. Ela ficou muito assustada, mas quando ele lhe falou do anel de sete pedras, ela percebeu que era seu rico marido. (Reconto da aluna Carmo Abranches, do 5.º ano, do Agrupamento de Alcácer do Sal, 18-05-2012, http://osheroisdopnl.blogspot.com/2012/05/romance-da-bela-infanta-resumo-prosa.html)
3. Etapas para o reconhecimento: descrição do marido cavaleiro; verificação /comprovação da sua fidelidade conjugal.
4. “Penélope, o modelo de perseverança, de fidelidade, eternizada através do mito da teia, mas não menos astuciosa do que o marido (no canto XVIII sugere habilmente aos pretendentes que é com presentes que se devem demovê-la; e, no canto XXIII, ela mesma põe Ulisses à prova, fingindo ignorar o segredo de construção do leito conjugal. De resto, esta figura talvez se tenha complicado através de sobreposições de versões diferentes do poema.” (In Estudos de História da Cultura Clássica. I Volume: Cultura Grega, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, 6.ª edição, pp. 91-92).
«A Odisseia é, fundamentalmente, um poema de regresso […]. É o poema das aventuras, das múltiplas histórias que excitam a atenção de “Ulisses dos mil artifícios”, que vence todas as dificuldades graças ao seu engenho.» (idem, p. 84).
5. O valor simbólico das provas a que o marido submete a esposa:
- oiro e prata fina
- três moinhos para moer cravo e canela, gerzelim, trigo
- telhas do seu telhado de oiro e marfim
- três filhas
- a própria Infanta
6. Símbolo do anel: sinal representativo.
SIMBOLO, s. do gr. “symbolon”, «sinal de reconhecimento; id., para pessoas separadas há muito tempo para se reconhecerem mutuamente; objeto por meio do qual os pais podem reconhecer os respetivos filhos de quem se afastaram; […] sinal convencional; sinal, indício; tudo o que servia para reconhecer alguém ou alguma coisa; cicatrizes; insígnia […]. (In Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Lisboa, Livros Horizonte, 1989, 5.ª edição; 1.ª edição: 1952).
7. A componente discursiva acentua a tensão dramática.


Comentário do romance tradicional Bela Infanta


A Bela Infanta, uma das mais belas narrativas poéticas da tradição oral portuguesa, é de inquestionável origem medieval. Surgiu no século XVI, tempo das grandes navegações, quando os homens deixavam suas mulheres e se lançavam ao mar sem certeza de retorno. Esta versão foi recolhida na Beira Baixa e embelezada por Almeida Garrett, quem pela primeira vez em Portugal iniciou o trabalho de recolha, estudo e publicação da nossa poesia tradicional oral, cujo resultado deu origem a três volumes intitulados Romanceiro (1851). Bela Infanta «é sem questão a mais geralmente sabida e cantada de nossas xácaras populares» afirma Garrett.
Neste romance, o tema principal é o regresso do marido que a infanta espera sentada no seu jardim. O tempo da ação é indeterminado, pois as marcas temporais não são precisas. Porém, podemos afirmar que a ação se desenrola numa época histórica, o tempo da Expansão e das Cruzadas: «Viu vir uma nobre armada;», «Se encontraste meu marido / Na terra que Deus pisava.», «Na ponta da sua lança / A cruz de Cristo levava.» Este foi um período da história que alterou a estrutura familiar: o homem partia para a guerra, estando ausente do lar em terras distantes, enquanto a mulher ficava em casa aguardando a chegada do marido daí a uns anos. No caso de Bela Infanta, podemos verificar o elemento feminino, a infanta, que se encontra nesta situação: há anos que o seu marido partiu em viagem para terras longínquas e também há anos que ela espera ansiosamente a chegada do marido, a quem se mantém fiel até ao fim do romance.
Podemos caraterizar o marido da infanta através dos sinais que ela dá ao cavaleiro para que este lhe dê notícias sobre o marido, de quem aguarda pacientemente o regresso: «- Levava cavalo branco, / Selim de prata doirada; / Na ponta da sua lança / A cruz de Cristo levava.» Deste modo, é de realçar o papel deste cavaleiro valoroso, de espírito guerreiro e de cruzada, amante a Deus, que defendia a cristandade do ataque dos infiéis.
O capitão da armada, que não se identifica logo como marido da infanta, sujeita-a a um conjunto de provas plenas de simbolismo para testar a fidelidade da mulher. Assim, começa por lhe dizer que, pelos sinais que a infanta lhe dera, o viu morrer numa estacada: «- pelos sinais que me deste / Lá o vi numa estacada / Morrer morte de valente: / Em sua morte vingava.», ao que a infanta responde : «- Ai triste de mim, viúva, / Ai triste de mim, coitada! / De três filhinhas que tenho, / Sem nenhuma ser casada!... ». O amor é evidente nesta expressão de pesar que sugere o claro sofrimento da infanta pela morte do marido e pela situação em que deixa as três filhas, por casar.
O segundo passo dado pelo capitão é perguntar à infanta o que daria ela como recompensa a quem lhe trouxesse o seu marido. A infanta disponibiliza-se, então, a fazer uma série de ofertas ou dádivas que representam o estatuto social e económico (classe nobre) e que nos permitem identificá-la como uma fidalga abastada. Através de várias sequências a infanta mostra o seu despojamento total para reaver o marido: «Dera-lhe oiro e prata fina, / Quanta riqueza há por i.», «- De três moinhos que tenho, / Todos três tos dera a ti; / Um mói o cravo e a canela, / Outro mói do gerzeli: / Rica farinha que fazem! / Tomara-os el-rei p’ra si.», «- As telhas do meu telhado / Que são de oiro e marfim.», «- De três filhas que eu tenho, / Todas três te dera a ti: / Uma para te calçar, / Outra para te vestir, / A mais formosa de todas / Para contigo dormir.»
Cada uma das figuras principais constituintes das provas tem um valor simbólico. O «oiro», a «prata fina» e toda a riqueza que haja são bens materiais bastante valiosos. O ouro é o mais precioso dos metais, é o metal perfeito, é o símbolo da riqueza material, é, pois, por sua vez, o princípio ativo, masculino, solar. A prata é o símbolo da pureza, está ligada à dignidade real, representa a sabedoria divina, é o princípio passivo feminino, lunar, aquoso, frio. O moinho é o recetáculo ou o veículo de uma força sagrada, encerrada no som da palavra, que se pode mover em benefício próprio. O número três, que qualifica quer o número de moinhos da infanta, quer o número de filhas que tem, é universalmente um número fundamental, é o número perfeito, expressão da totalidade, da conclusão. O marfim é o símbolo da pureza, o símbolo do poder por ser material de grande dureza.
Apesar da riqueza dos bens que a infanta se predispõe a oferecer-lhe, o cavaleiro vai recusando as várias ofertas: «- Não quero oiro nem prata / Não vos quero para mi: / Que darias mais, senhora, / A quem no trouxera aqui ?», «As telhas do teu telhado / Não nas quero para mi: / Que darias mais, senhora, / A quem no trouxera aqui ?», «As tuas filhas, infanta, / Não são damas para mi: / Dá-me outra coisa, senhora, / Se queres que o traga aqui.» Por fim, o cavaleiro faz uma proposta à infanta, a de que ela se entregue a ele, proposta essa que é mal recebida pela infanta que se sente ofendida e que leva ao desejo que o cavaleiro seja castigado: «- Cavaleiro que tal pede, / Que tão vilão é de si, / Por meus vilões arrastado / O farei andar aí / Ao rabo do meu cavalo. À volta do meu jardim. / Vassalos, os meus vassalos, / Acudi-me agora aqui !» Este é um castigo típico da época da narrativa e da classe a que a mulher pertence.
É de salientar neste romance a presença dos valores nobres próprios de um estrato nobre-cavaleiresco e de uma comunidade através da personagem «bela infanta», a qual se revela fiel ao negar-se ao capitão, forte e determinada quando o ameaça com uma punição, nobre de espírito pela conduta que segue, e de grande respeito. As ofertas que propõe mostram também a sua humildade, nomeadamente quando se predispõe a ceder as suas três filhas ao capitão.
No final do romance, o cavaleiro revela a sua verdadeira identidade ao mostrar à infanta o anel que diz ter repartido com ela e de que ela tem a outra metade. A repartição do anel está relacionada com a origem etimológica (grega) da palavra «símbolo», pois a este anel partido e depois reajustado, os antigos chamavam «symbolon». O anel serve para indicar uma ligação, para «vincular», é o signo de uma aliança, de um meio de reconhecimento, é o símbolo de um poder ou de um laço que nada pode quebrar. Em Bela Infanta, o anel é o símbolo e prova da união do marido e da mulher. O reconhecimento do marido é feito pelo anel. A repartição do anel serviu de símbolo à separação do casal. Quando o cavaleiro regressa da guerra, mostra a sua metade à infanta, juntando-se as duas metades, o que simboliza a união de novo dos esposos.
Atualmente, a palavra «símbolo» designa um signo que representa um objeto através de uma relação natural e intrinsecamente motivada. De igual modo, o anel é um símbolo, designa uma realidade: a união, o compromisso do casal. «Símbolo» e anel têm, portanto, em comum o facto de remeterem para uma realidade.
Podemos reconhecer nesta composição o valor das componentes discursivas narrativa e dramática. A componente épica não está de todo ausente (a referência aos apetrechos de guerra e à vida guerreira em «terra sagrada»). De facto, reconhecemos algumas marcas narrativas, poucas: marcas subjetivas de tempo (o tempo da Expansão e das Cruzadas), de espaço: o jardim onde a «bela infanta» aguarda a chegada do marido, as personagens (a infanta e o capitão, e alguns elementos que nos permitem a caraterização das mesmas).
Por outro lado, verificamos que o texto, que se apresenta maioritariamente em forma de diálogo, obedece a uma estrutura interna de modelo dramático: temos, em primeiro lugar, a exposição com a apresentação das personagens (a «bela infanta» e o capitão), e a apresentação da situação que é responsável pelo desenrolar da história (quando a infanta avista a chegada da armada), o que vem alterar a ordem inicial. Constitui, pois, o elemento desestabilizador. A situação perturbadora é acentuada quando a infanta pergunta ao capitão da armada se viu o seu marido nas terras longínquas por onde andou. Em segundo lugar, temos o momento da identificação do mundo pelo cavaleiro e a notícia de que o cavaleiro o viu morrer (momento de forte intensidade dramática em que a situação perturbadora se acentua). Num terceiro momento, temos a expressão de pesar pela luta da infanta e a apresentação das propostas que não são aceites pelo capitão da armada. Num quarto momento, temos a presença do conflito: quando o cavaleiro propõe à infanta que se entregue a ele; o que constitui o elemento desencadeador e, ao mesmo tempo, o clímax (momento de grande intensidade dramática) e a ameaça da infanta ultrajada. Num momento final, temos o desfecho ou o desenlace com a resolução do conflito através da revelação da verdadeira identidade do capitão, o que permite que a ordem seja restabelecida. O romance acaba abrutamente com a revelação da identidade por parte do cavaleiro.
O anel é o elemento unificador do encontro com a verdade dos factos. O número sete simboliza um ciclo completo, uma perfeição dinâmica. O sete indica o sentido de uma mudança depois de um ciclo concluído e de uma renovação positiva, é o número da conclusão cíclica e da sua renovação, o símbolo duma totalidade em movimento ou de um dinamismo total, indica a passagem do conhecido para o desconhecido. No romance, as sete pedras do anel repartido remetem para o fim de um ciclo (o da ausência do marido da infanta que termina com o seu regresso) e para a fidelidade dos heróis.
Podemos estabelecer um paralelo entre a «bela infanta» deste romance com a Penélope do grande clássico da literatura que é a Odisseia de Homero. Tal como a infanta, também Penélope é o paradigma da fidelidade conjugal, pois esperou anos pelo regresso do marido, Ulisses, que esteve ausente da sua terra Ítaca, e do seu lar porque esteve na guerra de Tróia. Tendo muitos pretendentes que a tentam conquistar, Penélope, tal como a infanta, mantém-se fiel ao marido até ao último momento. O regresso do marido é ansiosamente desejado por ela que pede continuamente informações sobre ele, com quem se preocupa. Esta preocupação e desejo de regresso do marido é também evidente na infanta.
Em relação ao estatuto social também verificamos a mesma situação: tanto Penélope como a «bela infanta» pertencem à realeza, pois uma é esposa do rei de Ítaca e a outra é infanta.
Penélope e a infanta possuem o dom da beleza: «bela infanta» e a beleza dada por Atenas a Penélope. Ambas esperaram longos anos pela chegada dos respetivos maridos e, como tal, no momento do regresso, já não são muito novas: a infanta tem três filhas em idade de casar e Penélope tem um filho já crescido. Ambas são esposas e mães.
Os valores afetivos e morais ocupam um lugar relevante neste romance e na Odisseia através do amor e da fidelidade que caraterizam e dominam a ação da infanta e de Penélope. Ambas possuem uma nobreza de caráter que permite que permaneçam fiéis aos respetivos maridos.
Tal como o marido da infanta, Ulisses não se dá logo a conhecer, ele faz-se passar por um mendigo e só reconhece a sua identidade a Penélope após ter feito a prova do tiro de flecha que o reconheceria como Ulisses. O mesmo se passa na Bela Infanta: o marido só dá a conhecer a sua verdadeira identidade depois de mostrar o seu anel.
Como é próprio da literatura tradicional, neste romance estão presentes vários motivos-tópicos, tais como o ato de pentear os cabelos que qualifica a infanta; o pente (que, simbolicamente, dá força, nobreza, capacidade de elevação espiritual à individualidade); a «nobre armada» que qualifica o capitão na sua apresentação; o «cavalo branco» e o «selim de prata doirada» que caraterizam a classe a que o marido da infanta pertence; as senhas do marido; as «três filhas» que simbolizam a perfeição e a revelação da verdadeira identidade pelo marido.
A popularidade deste romance é, sem dúvida, merecida e provavelmente deve-se aos vários exemplos de contaminação dos temas da balada europeia, entre os quais o lirismo inerente à situação de espera da infanta sentada no seu jardim; as «provas» com que o marido sujeita a esposa, carregadas de simbolismo, e o reconhecimento pelo «anel» que o tornam numa linda composição.
Após a leitura deste romance, podemos concluir que é um belíssimo romance de tradição novelesco em que as virtudes do caráter e a fidelidade feminina ocupam um lugar de destaque numa estrutura de progressão dramática que atinge um clímax e a que se segue um desfecho de final feliz.

Bibliografia:
- GRAÇA, Natália Maria Lopes Nunes, Formas do Sagrado e do Profano na Tradição Popular, Edições Colibri, Lisboa, 2000.
- PINTO-CORREIA, João David, Romanceiro Oral da Tradição Portuguesa, Edições Duarte Reis, Lisboa, 2003.

Lídia Pereira, 2012-02-21
http://reflexoessobretextosliterarios.blogspot.pt/2012/02/normal-0-21-false-false-false.html

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VARIANTE PORTUGUESA QUE PARECE UMA VERSÃO MAIS MODERNA DO ORIGINAL ANTIGO

Dona Clara, Dona Infante1
Estava no seu jardim,
Penteando tranças de oiro
Com seu pente de marfim,
Sentada numa almofada
De veludo carmesim.
Botou os olhos ao mar
E avistou formosa armada:
Capitão que a governava
Que bem a traz preparada!
Saltou em terra ele só
Com a viseira calada,
Vem saudar a dona Infante
Que assim triste lhe falou:
– «Viste tu o meu marido
Que há tempo que me deixou?»
– «Teu marido não conheço,
Diz-me que sinais levou.»
– «Levou seu cavalo branco
Com sua sela dourada,
Na ponta de sua lança
Uma fita encarnada;
Um cordão do meu cabelo
Que lhe prendia a espada.
Se porém tu não viste,
Cavaleiro da cruzada,
Ó triste de mim viúva,
Ó triste de mim coitada!
De três filhas que eu tenho
E nenhuma ser casada.»
– «Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras, senhora,
A quem o trouxera aqui?»
– «Dera-te tanto dinheiro
Que não tem conto nem fim;
E as telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.»
– «Não quero oiro ou dinheiro
Que me não pertence a mi:
Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi.
Quanto deras mais, senhora,
A quem o trouxera aqui?»
– «Dera-te as minhas joias
Que não têm peso e medida;
Dera-te o meu tear de oiro,
Roca de prata polida.»
– «Não quero oiro nem prata:
Com ferro minha mão lida.
Sou soldado, ando na guerra,
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Das três filhas que eu tenho,
Eu tas dera a escolher,
São formosas como a lua,
Como o sol a amanhecer.»
– «Eu não quero tuas filhas,
Não me podem pertencer.
Sou soldado, ando na guerra;
Nunca teu marido vi:
Mas quanto deras, senhora,
A quem no trouxera aqui?»
– «Não tenho mais que te me dar
Nem tu mais que me pedir.»
– «Inda tens mais que dar,
Não estejas a mentir;
Tens teu leito de oiro fino
Onde eu quisera dormir.»
– «Cavaleiro que tal diz
Merece ser arrastado
Em roda do meu jardim
Aos pés de um cavalo atado.
Vinde cá, criados meus,
Castigai este soldado.»
– «Não chames os teus criados
Que criados são de mi.»
– «Se tu és o meu marido
Porque me falas assim?»
– «Por ver se me eras leal
É que disfarçado vim.
Lembras-te, ó dona infante,
Quando eu daqui saí,
O anel de sete pedras
Que contigo reparti?
Se as tuas não perdeste,
As minhas ei-las aqui.»
– «Vinde cá, ó minhas filhas,
Vosso pai é já chegado.
Abri-vos, portão de jaspe
Há tanto tempo fechado!
Folgai, folgai, meus vassalos,
Que é Dom Infante a meu lado.»

Almeida Garrett, Romanceiro

_____________________________
Nota de Almeida Garrett:
1 Infante no feminino é um latinismo dos séculos XV e XVI, que nunca foi popular, me persuado.


INTERTEXTUALIDADE (PARÓDIA)



Tira-me Essa Fatiota

Estando a bela infanta a fazer uma compota
deitou os olhos ao mar e viu chegar uma frota.

- Meu capitão, onde está o meu marido janota?
- Não o vi, nem o conheço, tem algum sinal de nota?

-Era grande e bonito, educado e poliglota,
com um cabelo fofinho, parecia uma marmota.

- Numa ilha muito longe, sofremos grande derrota,
ess 'homem por lá ficou, em terreno cipriota.

- Ai coitadinha, que fico viúva nesta casota,
vá buscar o meu marido, que é seu compatriota.

- Aquilo fica lá longe, a viagem é grandota,
que me daríeis senhora se trouxesse esse idiota?

- Dar-vos-ei se vós quiserdes, meio quilo de compota.
- Não quero a vossa comida, inda agora vim da lota.

- Dar-vos-ei um burro velho, as moscas tão bem enxota.
- Não quero dessas montadas, eu transporto-me de mota.

- Das três filhinhas que tenho, uma é bem espigadota,
lava a roupa e a loiça, já cozinha e tricota.

- Gosto de mulheres mais velhas, não quero a vossa filhota,
que mais daríeis, senhora, se eu fosse a terra remota?

- Não tenho mais que vos dar, minha paciência já esgota,
só se, capitão, quiserdes que vos dê esta capota?

- Assim é mais do meu gosto, dispa lá a fatiota,
tire essa roupa pesada, quero o seu corpo em pelota.

- Tire daí as mãozinhas, sou mulher muito devota,
acudi aias, criados, que est’homem me amarrota.

- Não chames, mulher, criados, vais ser alvo de chacota,
são também os meus criados, olha pra mim, ó Carlota:

Sou o teu marido, sou, venho um bocado mais cota.
Mas olha prò meu cabelo, é ou não é de marmota?!

Romanceiro tradicional: versões factícias / Nuno Neves ; rev. Fernando Villas-Boas. – 1.ª ed. - Algés: Publicações Serrote, 2011. - 64 p.: il. ; 21 cm. - ISBN 978-989-65745-3-3


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