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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nada diz mais de nós que a nossa casa, Maria Augusta Tavares

Maria Augusta Tavares

 

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares(1), metade Paço de Arcos, portanto, dois anos e meio. Moro sozinha, sou cuidadosa. É raro alguma coisa ser danificada. E quando a obsolescência planejada atua, imediatamente conserto ou substituo o produto. Então, por que não raro, malgrado o pequeno espaço, está sempre a surgir a necessidade de um novo item? Consumismo? Compensação?

Tenho pensado sobre essa “necessidade”. Na busca por resposta, socorri-me dos mais belos versos que conheço sobre a casa, a nossa casa(2).

Eu não saberia dizer quantas vezes já reli esse precioso livrinho que tem por objeto a casa. Com muito gosto, eu o transcreveria inteiro, porque todo ele é poesia genuína. “Se você deseja com seu coração ou se é com seu sonho – sua solidão – o que mais almeja, se é com seu corpo e sua peleja que realmente quer fazer sua casa, não importa a forma que ela possa ter, pois a casa é para ser sentida, para ser vivida, para ser amada e ser possuída, não para se ver.” 

O poeta está a nos dizer que a casa é uma coisa viva. Nas suas palavras, tudo na casa é levitação, magia, sonho. A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. Embora, em termos objetivos, eu viva dentro dela, a minha casa vive dentro de mim. Ela me espera, ela me revela e nada diz mais de mim que a minha casa.

Lembro de ter passado uns dias em Santiago do Chile, onde fui hóspede de uma velha senhora, talvez menos velha do que eu, hoje, registro que faço, porque só agora posso comparar a casa dela à minha, para concluir por uma diferença fundamental entre ela e eu. Nas fotos – havia muitas espalhadas por toda a casa –, os figurinos exibidos pelas pessoas e os lugares ao fundo permitiam supor que ela pertencera a uma classe social abastada. A culinária também indicava gosto refinado. Uma alcachofra assada com ervas, que me foi servida por ocasião da minha chegada, era, ao mesmo tempo, simples e elegante. Não havia dúvida que a prática de alugar um quarto em casa era recente. Em contraste com o passado que a casa me sugeria, chamava atenção o estado do fogão, da geladeira, dos pratos, das panelas, dos talheres.  

A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. 

Por mais empobrecida que ela estivesse, continuava morando num endereço de gente rica. No lugar dela, eu teria encontrado uma forma de eliminar a precariedade que a cozinha anunciava. Logo a cozinha, espaço de criatividade, merecia melhor tratamento. Não concebo a ideia de usar pratos rachados, com as bordas desgastadas, panelas com fundos descascados, talheres desemparelhados, toalha desbotada. Os alimentos devem ser servidos em pratos que os realcem. As bebidas, em copos adequados. A tessitura da magia que a casa guarda passa por essas escolhas. E não deve ser privilégio de rico. Há feiras de produtos usados em ótimo estado de conservação, onde pagamos uma ninharia para garantir a beleza da casa, se a mesma for prioridade.

Da mulher em si eu não lembro. Não lembro o nome dela ou como era o seu rosto. À época, ainda não havia celular para os registros fotográficos, que se tornaram quase obrigatórios. Mas nunca esqueci a situação precária daquela cozinha. O descaso com os objetos me fez pensar que aquela mulher estava à espera da morte. Eutanásia é um serviço caro, ela não o teria contratado. Portanto, ainda sem data para morrer. Os serviços funerários, cujo preço não faz jus ao propósito, mesmo que ela os tivesse antecipado, têm uso imprevisível. Enfim, ainda estava viva, tinha direito a fazer planos. Substituir aquelas velharias por peças novas podia dar alma nova à sua casa e, por extensão, a si mesma.

Quando eu substituo uma peça, seja um móvel ou um quadro na parede, quando troco a moldura da velha fotografia, até quando frito o ovo numa panela nova que não gruda, sorrio para a vida. Não é por consumismo que renovo a casa, mas porque namoro a novidade por alguns dias. À medida que as coisas se gastam, eu me gasto junto, porque eu e a casa nos doamos reciprocamente. Talvez por isso seja recorrente ouvir: “Sua casa tem a sua cara.” Afirmação que recebo como elogio. Ou, como diz um dos meus netos, “vovó mora em casa de boneca”. Ora, é um carinho que me vem através da casa, porque, simultaneamente, eu sou a casa e a boneca.

Sobretudo quando envelhecemos a casa é o nosso espaço privilegiado. É onde passamos a maior parte do nosso tempo. Se a vida importa, é imperativo que a nossa integração nesse espaço se dê pelo prazer, pelo pertencimento, para que nos doemos a ela por inteiro, sem queixas, sem autocomiseração. Nas palavras do poeta, essa inteireza equivale a “dar os nossos pés, dar nossos artelhos, dar as nossas pernas, dar nossos joelhos, dar os nossos sonhos, nossos pesadelos, dar as nossas coxas, dar o nosso sexo, os nossos adeuses e nossos amplexos, dar o nosso pelo e nossos apelos: dar nosso universo.”

 

Maria Augusta Tavares, “Nada diz mais de nós que a nossa casa”. In: https://jornalmaio.org/a-casa-a-nossa-casa/, 07-01-2026

______________

(1) Paraíba, Brasil.

(2) LEÃO, Gonzaga. Casa somente canto, Casa somente palavra. Coleção Viventes das Alagoas, 1995.

 


terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Nunca me atrevo a falar de ti, Zbigniew Herber

 NUNCA DE TI


Nunca me atrevo a falar de ti
vasto céu do meu bairro
nem de vós telhados que detendes as cascatas de ar
belos telhados felpudos cabelos das nossas casas
nem de vós chaminés laboratórios de tristeza
abandonadas pela Lua pescoços esticados
nem de vós janelas abertas-fechadas
que rebentais quando morremos além-mar

Nem sequer consigo descrever a casa
que conhece todas as minhas fugas e regressos
apesar de pequena não sai debaixo das pálpebras fechadas
nada conseguirá devolver-me o cheiro do reposteiro verde
nem o ranger das escadas por onde levo a lamparina acesa
nem a folhagem sobre o portão

Em verdade gostaria de escrever sobre o puxador do portão da casa
sobre o seu toque áspero e rangido amigável
e mesmo sabendo muito sobre ele
repito tão-só uma ladainha de palavras comum cruel

Cabem tantos sentimentos entre dois batimentos cardíacos
tantos objetos podem ser acolhidos entre duas mãos

Não vos admireis que não saibamos descrever o mundo
e que só tratemos as coisas pelos nomes com ternura

 

Zbigniew Herber, Poesia Quase Toda. Cavalo de Ferro, 2024.

Tradução: Teresa Fernandes Swiatkiewicz

 

 

SOBRE O AUTOR

Zbigniew Herbert (Lviv, 1924 – Varsóvia, 1998) foi um poeta e ensaísta polaco, considerado pela crítica uma das figuras mais marcantes da literatura europeia da segunda metade do século XX.

Durante a guerra, participou na resistência armada antinazi. Já na vigência do regime estalinista no seu país, foi diversas vezes impedido de publicar por se recusar obedecer à estética oficial. O seu primeiro livro de poesia, Strun switl (Corda de Luz) data de 1956. Seguiram-se vários outros, incluindo o célebre Pan Cogito (Sr. Cogito), de 1974 (ambos a editar em Portugal).

Considerado um poeta do histórico, do filosófico, do político e, ao mesmo tempo, do individual, Herbert foi igualmente um exímio ensaísta, tendo o volume Um Bárbaro no Jardim, de 1962, ou os ensaios recolhidos em Martwa Natura z wedidlm (Natureza Morta com Brida), de 1993 (ambos editados na Cavalo de Ferro), ajudando a consolidar a sua enorme reputação internacional.

Efetivamente, um crítico do New York Times chegou a afirmar à data: «num mundo justo, Zbigniew Herbert teria há já muito sido galardoado com o Prémio Nobel».

https://www.wook.pt/autor/zbigniew-herbert/1127886/122

 

 

SINOPSE DE POESIA QUASE TODA

Poesia Quase Toda, com seleção a cargo do Prémio Nobel de Literatura J. M. Coetzee e da poeta e tradutora Alissa Valles, contém uma amostra significativa dos nove livros publicados em vida por Zbigniew Herbert, entre 1956 e 1998, e poemas inéditos do seu arquivo pessoal, nunca antes divulgados, constituindo um volume essencial para se conhecer a sua obra poética, uma das mais marcantes do século XX e praticamente inédita em Portugal.

https://www.wook.pt/livro/poesia-quase-toda-zbigniew-herbert/30921435

 

SOBRE A TRADUTORA

A tradutora Teresa Fernandes Swiatkiewicz é uma das mais importantes tradutoras de literatura polaca para língua portuguesa e já traduziu vários livros de Wysława Szymborska, Olga Tokarczuk, Stanisław Lem, entre outros. Venceu o Grande Prémio de Tradução Literária pela adaptação para português de Casa de dia, casa de noite, de Olga Tokarczuk. Em 2020, recebeu uma menção honrosa pela tradução do livro Viagens, também de Olga Tokarczuk. Em 2012 a tradutora foi galardoada pelo Presidente da Polónia com a Cruz de Ouro da Ordem de Mérito.

https://www.camoes.pl/2024/10/21/zbigniew-herbert-em-portugues-no-livro-poesia-quase-toda/

 

CRÍTICAS

Não deixa de surpreender a diversidade de modos como a poética de quatro jovens polacos, contemporâneos entre si - Czeslaw Milosz (Nobel de Literatura em 1980), Tadeusz Róžewicz, Wislawa Szymborska (Nobel de Literatura em 1996) e Zbigniew Herbert -, respondeu aos terríveis acontecimentos que assolaram a Europa, e em particular a Polónia, na primeira metade do século XX. Mas a poesia de Herbert foi outra coisa: desde os primeiros livros, em particular desde o terceiro que, num tom que frequentemente tocou a sátira (e o sarcasmo), envoltos porém num lirismo belo e surpreendentemente quotidiano, recorreu à mitologia greco-romana como exemplo para plasmar a sua visão de mundo, à qual não faltou a voz do icónico Senhor Cogito, o seu alter-ego. É, na minha opinião, uma das maiores, se não a maior voz poética europeia do século XX, à qual não fez falta o prémio maior para se tornar uma das maiores inspirações das gerações seguintes, polaca e não só, que nela se inspiraram e reviam.

João Luís Barreto Guimarães

https://www.wook.pt/livro/poesia-quase-toda-zbigniew-herbert/30921435

 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Paz, Tomaz Kim

 

Óbidos, 2024-09-11 (Fotografia: José Carreiro)

PAZ

Aqui foi a casa:
Alva a toalha e o pão,
O berço além.

Breve a canção:
Bater de asa
O sorriso de mãe.

Veloz a hora:
Agora,
Só o coaxar noturno e certo
Das rãs,
Enche o campo deserto.

 

Tomaz Kim (Lobito, 1915 – Lisboa, 1967)

(Pseudónimo de Joaquim Fernandes Tomaz Monteiro-Grillo)

 

Linhas de leitura do poema:

  • Repara que a estrutura fragmentada do poema (versos curtos e ausência de pontuação) contribui para a transmissão do tema da passagem do tempo/efemeridade da vida.
  • Que significados podem ser atribuídos às imagens da "toalha alva", do "pão", do "berço" e do "sorriso de mãe"? Como essas imagens contrastam com o "coaxar noturno e certo / Das rãs" e o "campo deserto" na terceira estrofe?
  • O título do poema é "Paz". Como interpretas essa escolha, considerando que o poema evoca tanto a memória de um passado afetuoso quanto a desolação do presente?

 


quarta-feira, 17 de julho de 2024

Vivo numa outra terra, Sérgio Godinho


 

VIVO NUMA OUTRA TERRA

Contigo, na nossa terra
quisera eu bailar
contigo, eu trocara a jura
de a gente se amar
contigo, na nossa terra
quisera eu viver
mas vivo numa outra terra
a trabalhar
e a ganhar
p´ra viver
e a viver
p´ra ganhar

Eu sei que na minha terra
há gente a lutar
quisera eu estar lá com eles
sem ter que emigrar
mas tanto atirei semente
sem ter colher
que pedi um passaporte
para emigrar
e ganhar
p´ra viver
e viver
p´ra ganhar

Eu fui lavar saudades ao Tejo
a aguinha doce deu-me logo um beijo
eu fui lavar saudades ao Douro
abraços desses valem mais do que ouro

Aqui em terra distante
vivo mal e bem
sinto saudades imensas
de quem me quer bem
tenho um salário melhor
não há que duvidar
mas era na minha terra
que eu queria estar
e ganhar
p´ra viver
e não ter
que emigrar

Haja um dia que vem vindo
quem dera que já
em que eu faça uma viagem
de cá para lá
e que o trabalho me renda
sem ter de emigrar
que eu viva na minha terra
a trabalhar
e ganhar
p´ra viver
e não ter
que emigrar

Eu fui lavar saudades ao Tejo
a aguinha doce deu-me logo um beijo
eu fui lavar saudades ao Douro
abraços desses valem mais do que ouro

 

Letra, música e interpretação de Sérgio Godinho, do álbum Campolide. Editora Orfeu, 1979

 

QUESTIONÁRIO

1. Estabelece a correspondência entre cada uma das estrofes indicadas na coluna da esquerda e o seu assunto, na coluna da direita:

1.ª estrofe

2.ª estrofe

4.ª estrofe

5.ª estrofe

A.   O sujeito poético descreve a sua vida atual. 

B.   O sujeito poético manifesta um desejo para o futuro. 

C.   O sujeito poético revela um desejo e explica por que razão não pode ser realizado. 

D.  O sujeito poético explica a causa da sua situação atual. 

 

2. De acordo com a leitura da letra da canção “Vivo numa outra terra”, de Sérgio Godinho, classifica cada afirmação que se segue como verdadeira ou falsa. Procede à correção das afirmações falsas.

2.1. O título sugere o tema da emigração.

2.2. O tema do poema é a vida em terra estrangeira e o desejo de retornar à terra natal.

2.3. O sujeito poético está dividido entre viver mal (devido ao baixo salário) e bem (por estar quase na sua terra).

2.4. Na quinta estrofe, o sujeito poético expressa o desejo de ir e voltar da sua terra natal.

2.5. O sentimento dominante no poema é o desejo de enriquecer, expresso principalmente na terceira, quarta e sexta estrofes.

2.6. O tempo verbal predominante na quinta estrofe é o pretérito perfeito.

2.7. Há três refrões no poema: os quatro versos finais das estrofes 1 e 2; as estrofes 3 e 6; os quatro versos finais das estrofes 4 e 5.

2.8. Conclui-se que o sujeito poético está satisfeito com a sua vida na terra estrangeira.

 

RESPOSTAS

1.Chave de correção: C-D-A-B

1.ª estrofe: O sujeito poético revela um desejo e explica por que razão não pode ser realizado. 

2.ª estrofe: O sujeito poético explica a causa da sua situação atual. 

4.ª estrofe: O sujeito poético descreve a sua vida atual. 

5.ª estrofe: O sujeito poético manifesta um desejo para o futuro. 

2.1. Verdadeiro.

2.2. Verdadeiro.

2.3.  Falso. O sujeito poético está dividido entre viver mal (por estar longe da sua terra) e bem (devido ao salário melhor).

2.4. Falso. Na quinta estrofe, o sujeito poético expressa o desejo de um dia poder voltar à sua terra natal e trabalhar lá sem precisar emigrar.

2.5. Falso. O sentimento dominante no poema é a saudade, expressa principalmente na terceira, quarta e sexta estrofes.

2.6. Falso.O tempo verbal predominante na quinta estrofe é o presente do conjuntivo, que é usado para expressar um desejo ou vontade.

2.7. Verdadeiro.

2.8. Falso. O sujeito poético não está totalmente satisfeito com a sua vida na terra estrangeira, pois sente saudades imensas da sua terra natal e de quem lhe quer bem. 

(Adaptado de: Diálogos 7, Fernanda Costa e Luísa Mendonça. Porto Editora, 2011)




CAMPOLIDE (1979), Sérgio Godinho

A imagem é um retrato quase banal: um homem e uma caixa de viola numa estação de comboios, um relógio onde ainda não são duas horas, um cartaz na parede com o mesmo homem e a mesma viola, gente normal em volta. O homem da viola é Sérgio Godinho, a estação, lê-se no painel de azulejo sobre a porta, é Campolide. Há 35 anos, o homem, a viola e a estação tornaram-se num disco com dez canções sem tempo.

«Campolide» é o sexto álbum de originais de Sérgio Godinho, quarto gravado e publicado após o 25 de Abril e o regresso a Portugal do compositor. É, também, o segundo e último que grava para a etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade.

«Campolide», porém, não é sequer o título de qualquer das canções deste álbum. Chama-se assim, apenas, porque foi gravado nos estúdios localizados no 103-C da Rua de Campolide, ao tempo propriedade da empresa de Arnaldo Trindade e conhecidos como «estúdios de Campolide», onde gravaram algumas das mais importantes figuras da música portuguesa.

Foi aqui, por exemplo, que em 1969 Adriano Correia de Oliveira registou o histórico «O Canto e As Armas», sobre poemas de Manuel Alegre. Adriano cumpria o serviço militar, tal como Rui Pato, que o acompanhou à viola: «O disco foi gravado durante duas noites de patrulha da polícia militar do alferes Adriano, com ele fardado e com a pistola, o capacete e a braçadeira poisados em cima do piano, e o jipe a passear por Lisboa, com a cumplicidade de certos militares amigos», contaria Rui Pato, muitos anos depois.

Adriano foi apenas uma das vozes que se fizeram ouvir nos estúdios de Campolide, que durante anos estiveram para Lisboa um pouco como os estúdios de Abbey Road para a capital inglesa. De Zeca Afonso a Fausto Bordalo Dias, passando por Carlos Mendes, Maria da Fé ou Tony de Matos, praticamente não houve nome grande da música portuguesa que por ali não tenha passado. Não admira, pois, que acabasse por ser nome próprio de um disco. Este, de Sérgio Godinho.

«Campolide», publicado em 1979, tem uma ficha técnica de luxo: Carlos Zíngaro, Pedro Caldeira Cabral, Pedro Osório, Guilherme Inês, Luís Caldeira ou José Eduardo são alguns dos participantes, a que se juntam as colaborações especiais de Adriano Correia de Oliveira, Fausto, José Afonso e Vitorino. Dos dez temas desse disco, destacam-se “Arranja-me um Emprego”, “Cuidado com as Imitações”, “Espectáculo” ou “Lá em Baixo”. Ou “Quatro Quadras Soltas”, o único registo que reúne de uma assentada Sérgio, Fausto, Adriano e Zeca.

De resto, não é gratuito dizer que a vida musical de Sérgio Godinho está, desde o início ligada a Campolide: foi para a Sassetti, outra editora histórica, sedeada na Avenida Conselheiro Fernando de Sousa, que gravou dois discos a partir do exílio («Os Sobreviventes», em 1971, e «Pré-Histórias», em 72) e os dois primeiros após a revolução («À Queima-Roupa», em 74, e «De Pequenino se Torce o Destino», em 76) . Depois, já na Orfeu, é nos estúdios de Campolide que grava o aclamado «Pano-Cru», de que fazem parte algumas das suas canções mais emblemáticas, como “Balada da Rita”, “A Vida é Feita de Pequenos Nadas”, “Feiticeira” e, principalmente, “O Primeiro Dia”. E, finalmente, «Campolide».

Criados nos anos 60, os estúdios de Campolide viriam mais tarde a mudar de mãos, mas não de rumo. Como Estúdios Rádio Triunfo, depois Namouche, e finalmente Xangrilá, o 103-C da Rua de Campolide continuou até há pouco tempo a acolher vozes e personagens importantes da música portuguesa. Agora, restam as memórias de algumas gravações que fizeram história. Como o disco de Sérgio Godinho.

Notícias de Campolide, setembro de 2014. Disponível em: https://viriatoteles.com/imprensa/imprensa-2010/269-um-disco-um-estudio-uma-historia.html


terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Havia muito sol do outro lado (Crónica de José Eduardo Agualusa)

https://pixabay.com/


     Havia muito sol do outro lado

Aquilo tornara-se um vício. Ele ouvia um telefone a tocar e logo estendia o braço e levantava o auscultador.

– E se fosse para mim?

Os amigos faziam troça:

– No consultório do teu dentista?

Uma noite estava sozinho, no Rossio, à espera de um táxi, quando o telefone tocou numa cabina ao lado. Era no fim da noite e chovia: uma água mole, desesperançada, tão leve que parecia emergir do próprio chão. Ruben enfiou as mãos nos bolsos do casaco.

– É claro que não vou atender – disse alto. – Não pode ser para mim. Se atender este telefone é porque estou a enlouquecer.

O telefone voltou a tocar. Não chegou a tocar cinco vezes. Ele correu para a cabina e atendeu.

– Está?

Estava muito sol do outro lado. Era, tinha de ser, uma tarde de sol.

– Posso falar com o Gustavo?

A voz dela iluminou a cabina. Ruben pensou em dizer que era o Gustavo. Estava ali, àquela hora absurda, abandonado como um náufrago na mais triste noite do mundo. Tinha direito de ser o Gustavo (fosse ele quem fosse).

– Você não vai acreditar, mas a sua chamada foi parar a uma cabina telefónica.

Ela riu-se. Meus Deus – pensou Ruben – era como beber sol pelos ouvidos.

– Não brinques! És tu, Gustavo, não és?…

Sim ele tinha o direito de ser o Gustavo:

– Infelizmente não. Você ligou para uma cabina telefónica, no Rossio, eu estava à espera de um táxi e atendi.

Quase acrescentou: "pensei que pudesse ser para mim". Felizmente não disse nada. Ela voltou a rir:

– Tenho a sensação de que esta chamada vai ficar-me cara. Sabe onde estou?


Pulau Penang


Estava em Pulau Penang, na Malásia, e dali, do seu quarto, num hotel chamado Paradise, podia ver todo o esplendor do mar.

– Nunca vi nada com esta cor – sussurrou – só espero que Deus me dê a alegria de morrer no mar.

Ele ficou em silêncio. Aquilo parecia a letra de um samba. Ela começou a chorar:

– Desculpe que vergonha… Nem sequer sei como se chama.

Ruben apresentou-se: – Ruben, 34 anos, trabalho em publicidade.

Pediu-lhe o número de telefone e ligou utilizando o cartão de crédito. Aquela chamada ficou-lhe cara. Casaram oito meses depois. Ele diz a toda a gente que foi o destino. Ela, pelo sim pelo não, proibiu-o de atender telefones.

José Eduardo Agualusa, A substância do amor e outras crónicas. 3.ª edição, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2009, pp. 53-54

 ***


Escreve um pequeno comentário, entre 80 e 100 palavras, sobre o sentido global do texto de José Eduardo Agualusa, atentando na caracterização de Ruben, nas atitudes perante o telefonema oriundo de Pulau Penang e na importância do destino na vida das pessoas.

(Proposta de escrita por Carla Marques e Inês Silva, em Contos & Recontos 7. Lisboa, ASA2013, p. 152)

 

       Sugestão de resposta:

O sentido global do texto é mostrar como o destino pode intervir na vida das pessoas, de forma surpreendente e maravilhosa.

Ruben é uma personagem solitária, que tem o hábito de atender telefones alheios, na esperança de encontrar alguém que lhe fale.

As atitudes perante o telefonema de Pulau Penang são de curiosidade, encantamento e coragem. Ruben decide arriscar-se a conhecer a mulher que lhe ligou por engano, e acaba por se apaixonar e casar com ela.

O destino é a força que une as duas personagens, que vivem em lugares tão distantes e diferentes.

O texto é uma celebração do amor e da magia do acaso.


quinta-feira, 20 de abril de 2023

A cidade - crónica de José Saramago

 

A cidade

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. Se cometera algum crime, se pagava culpas de antepassados, ou se apenas se retirara por indiferença ou vergonha – não se sabe. Talvez um pouco de tudo isto, tão certo é que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos nós a nossa casual existência. Vivia o homem fora dos muros da cidade, e dessa segregação deliberada ou imposta acabou por fazer um pequeno título de glória. Mas não podia evitar (isso não podia) que nos olhos lhe pairasse a névoa melancólica que envolve todo o ser desterrado.

Algumas vezes tentou entrar. Fê-lo não por um desejo irreprimível, nem sequer por cansaço da situação, mas por mero instinto de mudança ou desconforto inconsciente. Escolheu sempre as portas erradas, se portas havia. E se lhe aconteceu julgar que entrara na cidade, talvez sim, mas era como se a par da cidade real houvesse imagens dela, inconsistentes como a sombra que nos olhos se tornava mais e mais densa. E quando essas imagens se desvaneciam, como o nevoeiro que das águas se desprende ao toque luminoso do sol, era o deserto que o rodeava, e ao longe, brancos e altos, com árvores plantadas nas torres e jardins suspensos nas varandas, os muros da cidade brilhavam outra vez inacessíveis.

De dentro vinham rumores de festa. Assim lho dizia, mais do que os sentidos, a imaginação. Rumores de vida seriam, pelo menos. Não a morte solitária que é a contemplação obstinada da própria sombra. Não o desespero surdo da palavra definitiva que se escapa no momento em que seria, melhor que uma palavra, uma chave. E então o homem rodeava as longas muralhas, tateando, à procura da porta que obscuramente lhe estaria prometida.

Porque o homem acreditava na predestinação. Estar fora da cidade (se disso tinha real consciência) era para ele uma situação acidental e provisória. Um dia, no dia exato, nem antes, nem depois, entraria na cidade. Melhor dizendo: entraria em qualquer parte, que a isto se resumia o seu esperar. Que a névoa da melancolia se tornasse noite, seria um mal necessário, mas também provisório, porque o dia predestinado traria uma explicação. Ou nem isso, sequer. Um fim, um simples fim. Uma abdicação já serviria.

O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de altos muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de travar e vencer. E que nesta primeira luta teria de lutar consigo mesmo. Ninguém sabe nada de si antes da ação em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.

Veio a batalha. Como nos poemas de Homero, também os deuses entraram nela. Combateram a favor e contra, algumas vezes uns contra os outros. O homem que lutava para viver dentro dos muros da cidade cruzou espada e palavras com os deuses que estavam do seu lado. Feriu e foi ferido. E a luta durou longos e longos dias, semanas, meses, sem tréguas nem repouso, ora junto às muralhas, ora tão longe delas que nem a cidade se via, nem se sabia bem já que prémio estaria no fim do combate. Foi outra forma de desespero.

Até que um dia o terreno da luta ficou livre e desimpedido, como um estuário onde as águas descansam. Sangrando, o homem e o deus que lhe ficara olharam de frente as portas, abertas de par em par. Havia um grande silêncio na cidade. Ainda amedrontado, o homem avançou. A seu lado, o deus. Entraram – e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio. Cidade de José se lhe quisermos dar um nome.

José Saramago, Deste mundo e do outro
Porto Editora, 2018. Recurso disponível em: https://recursos.portoeditora.pt/recurso?id=17681323

 

Deste Mundo e do Outro reúne, em 1971, através da Editorial Arcádia, 61 crónicas que haviam sido publicadas entre 1968 e 1969 no jornal A Capital.

Nos anos 90, José Saramago, na conferência intitulada “A crónica como aprendizagem: uma experiência pessoal”, afirma: “Vários pontos, nessas crónicas, poderão ser retidos se se quiser caracterizar, no seu autor, tanto uma forma de escrever como um modo de sentir: em primeiro lugar, certa coincidência de atitude entre a crónica e o poema lírico (articulação com o momento presente, brevidade do texto, possibilidade de captação das ressonâncias evocativas do seu sentido); em segundo lugar, a prática constante de uma prosa medida, susceptível de criar no escritor um treino dos recursos estilísticos em função da densidade e da economia expressivas; em terceiro lugar, o hábito de colocar em conjunção de interesses a dinâmica do tempo que se vive, a sensibilidade do sujeito que o vive e as potencialidades verbais susceptíveis de definirem essa mesma expressão.”

Ler mais em: https://www.josesaramago.org/conferencia/a-cronica-como-aprendizagem-uma-experiencia-pessoal/

 



Do livro Deste Mundo e do Outro, selecionámos a primeira crónica (possivelmente na esperança de ter sido esta a 1.ª crónica escrita pelo autor, mas sem dados que nos permitam tal afirmação). “A cidade”, é o seu nome. Uma qualquer cidade, uma crónica que começa como uma história para crianças, com “Era uma vez…”, levando-nos pois, por ora, para um universo ficcional. Esta cidade sem nome (para já), é rodeada por muros e, fora deles, vive um homem. Não se sabe porquê, adiantando o autor algumas hipóteses e admitindo, desde logo, que “tão certo é que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos nós a nossa casual existência.” Uma primeira lição, um primeiro alerta para uma ética que paira sobre os que vivem dentro dos muros da cidade e que lhes impede uma visão clara. Este homem, que é o protagonista da história, não consegue, ele próprio, discernir acerca do que é real ou não, tantas são as imagens ensombradas que se adensam ao seu redor sempre que tenta entrar na cidade/no real, afinal tão longe do seu alcance, tão longe do deserto em que se encontra, tão inacessível. Este homem imagina uma cidade em festa, uma cidade plena de vida e vai “tacteando, à procura da porta que obscuramente lhe estaria prometida.” Ele acredita estar predestinado a entrar, “Um dia, no dia exacto, nem antes, nem depois….”, como acredita que, nesse dia, lhe chegará a explicação de tudo. Mas o homem não sabe

…que as cidades que se rodeiam de altos muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de travar e vencer. E que nesta primeira luta teria de lutar consigo mesmo. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor. (sublinhado nosso).

Segundo alerta do autor: o primeiro combate do homem deve ser consigo próprio, de nada lhe adiantando querer forçar uma batalha, querer entrar num real que lhe é exterior, quando não se empenhou ainda o suficiente na acção que é o conhecer-se a si mesmo. Está o autor a dirigir-se ao leitor ou a si próprio? Cremos que a ambos. A advertência apela, sobretudo, ao cuidado a ter com “as cidades que se rodeiam de altos muros (ainda que brancos e com árvores)”, ou seja, cuidado com o que nos é dado como “natural” e verdadeiro.

Depois de uma batalha em que “Como nos poemas de Homero, também os deuses entraram…”, as portas estão, finalmente, “abertas de par em par” e paira “um grande silêncio na cidade.” Homem e deus entram na cidade, “e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.”

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio. Cidade de José se lhe quisermos dar um nome.

Assim termina a crónica. “Cidade de José…”, cidade de José Saramago, dizemos nós, a cidade na qual o autor entra após uma batalha consigo próprio, a batalha do conhecimento interior, a batalha a que incita os outros homens, se assim quiserem derrubar os muros que não lhes deixam ver dentro de si. Numa palavra: a cidade da consciência.

Sobre as crónicas de José Saramago, ler mais em: Crónica: Literatura de Compromisso ou a Urgência da Palavra, Maria de Fátima Palmela de Faria Roque. Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

 


CARREIRO, José. “A cidade - crónica de José Saramago”. Portugal, Folha de Poesia: artes, ideias e o sentimento de si, 20-04-2023. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2023/04/a-cidade-cronica-de-jose-saramago.html