domingo, 25 de janeiro de 2026

À espera dos bárbaros, Konstantínos Kaváfis



 À espera dos bárbaros


O que esperamos nós em multidão no Forum?


Os Bárbaros, que chegam hoje.


Dentro do Senado, porque tanta inacção?

Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?


É que os Bárbaros chegam hoje.

Que leis haveriam de fazer agora os senadores?

Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.


Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?

E às portas da cidade está sentado,

no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?


Porque os Bárbaros chegam hoje.

E o Imperador está à espera do seu Chefe

para recebê-lo. E até já preparou

um discurso de boas-vindas, em que pôs,

dirigidos a ele, toda a casta de títulos.


E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,

hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?

E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,

e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?

E porque levavam hoje os preciosos bastões,

com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?


Porque os Bárbaros chegam hoje,

e coisas dessas maravilham os Bárbaros.


E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores

para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?


Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.


Porque, subitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?


Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.


E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.


Konstantínos Kaváfis




terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nada diz mais de nós que a nossa casa, Maria Augusta Tavares

Maria Augusta Tavares

 

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares(1), metade Paço de Arcos, portanto, dois anos e meio. Moro sozinha, sou cuidadosa. É raro alguma coisa ser danificada. E quando a obsolescência planejada atua, imediatamente conserto ou substituo o produto. Então, por que não raro, malgrado o pequeno espaço, está sempre a surgir a necessidade de um novo item? Consumismo? Compensação?

Tenho pensado sobre essa “necessidade”. Na busca por resposta, socorri-me dos mais belos versos que conheço sobre a casa, a nossa casa(2).

Eu não saberia dizer quantas vezes já reli esse precioso livrinho que tem por objeto a casa. Com muito gosto, eu o transcreveria inteiro, porque todo ele é poesia genuína. “Se você deseja com seu coração ou se é com seu sonho – sua solidão – o que mais almeja, se é com seu corpo e sua peleja que realmente quer fazer sua casa, não importa a forma que ela possa ter, pois a casa é para ser sentida, para ser vivida, para ser amada e ser possuída, não para se ver.” 

O poeta está a nos dizer que a casa é uma coisa viva. Nas suas palavras, tudo na casa é levitação, magia, sonho. A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. Embora, em termos objetivos, eu viva dentro dela, a minha casa vive dentro de mim. Ela me espera, ela me revela e nada diz mais de mim que a minha casa.

Lembro de ter passado uns dias em Santiago do Chile, onde fui hóspede de uma velha senhora, talvez menos velha do que eu, hoje, registro que faço, porque só agora posso comparar a casa dela à minha, para concluir por uma diferença fundamental entre ela e eu. Nas fotos – havia muitas espalhadas por toda a casa –, os figurinos exibidos pelas pessoas e os lugares ao fundo permitiam supor que ela pertencera a uma classe social abastada. A culinária também indicava gosto refinado. Uma alcachofra assada com ervas, que me foi servida por ocasião da minha chegada, era, ao mesmo tempo, simples e elegante. Não havia dúvida que a prática de alugar um quarto em casa era recente. Em contraste com o passado que a casa me sugeria, chamava atenção o estado do fogão, da geladeira, dos pratos, das panelas, dos talheres.  

A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. 

Por mais empobrecida que ela estivesse, continuava morando num endereço de gente rica. No lugar dela, eu teria encontrado uma forma de eliminar a precariedade que a cozinha anunciava. Logo a cozinha, espaço de criatividade, merecia melhor tratamento. Não concebo a ideia de usar pratos rachados, com as bordas desgastadas, panelas com fundos descascados, talheres desemparelhados, toalha desbotada. Os alimentos devem ser servidos em pratos que os realcem. As bebidas, em copos adequados. A tessitura da magia que a casa guarda passa por essas escolhas. E não deve ser privilégio de rico. Há feiras de produtos usados em ótimo estado de conservação, onde pagamos uma ninharia para garantir a beleza da casa, se a mesma for prioridade.

Da mulher em si eu não lembro. Não lembro o nome dela ou como era o seu rosto. À época, ainda não havia celular para os registros fotográficos, que se tornaram quase obrigatórios. Mas nunca esqueci a situação precária daquela cozinha. O descaso com os objetos me fez pensar que aquela mulher estava à espera da morte. Eutanásia é um serviço caro, ela não o teria contratado. Portanto, ainda sem data para morrer. Os serviços funerários, cujo preço não faz jus ao propósito, mesmo que ela os tivesse antecipado, têm uso imprevisível. Enfim, ainda estava viva, tinha direito a fazer planos. Substituir aquelas velharias por peças novas podia dar alma nova à sua casa e, por extensão, a si mesma.

Quando eu substituo uma peça, seja um móvel ou um quadro na parede, quando troco a moldura da velha fotografia, até quando frito o ovo numa panela nova que não gruda, sorrio para a vida. Não é por consumismo que renovo a casa, mas porque namoro a novidade por alguns dias. À medida que as coisas se gastam, eu me gasto junto, porque eu e a casa nos doamos reciprocamente. Talvez por isso seja recorrente ouvir: “Sua casa tem a sua cara.” Afirmação que recebo como elogio. Ou, como diz um dos meus netos, “vovó mora em casa de boneca”. Ora, é um carinho que me vem através da casa, porque, simultaneamente, eu sou a casa e a boneca.

Sobretudo quando envelhecemos a casa é o nosso espaço privilegiado. É onde passamos a maior parte do nosso tempo. Se a vida importa, é imperativo que a nossa integração nesse espaço se dê pelo prazer, pelo pertencimento, para que nos doemos a ela por inteiro, sem queixas, sem autocomiseração. Nas palavras do poeta, essa inteireza equivale a “dar os nossos pés, dar nossos artelhos, dar as nossas pernas, dar nossos joelhos, dar os nossos sonhos, nossos pesadelos, dar as nossas coxas, dar o nosso sexo, os nossos adeuses e nossos amplexos, dar o nosso pelo e nossos apelos: dar nosso universo.”

 

Maria Augusta Tavares, “Nada diz mais de nós que a nossa casa”. In: https://jornalmaio.org/a-casa-a-nossa-casa/, 07-01-2026

______________

(1) Paraíba, Brasil.

(2) LEÃO, Gonzaga. Casa somente canto, Casa somente palavra. Coleção Viventes das Alagoas, 1995.

 


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

História Antiga, Miguel Torga

 



História Antiga

 

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto1
E duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,

O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos

Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,

Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu

Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;

Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

 

Miguel Torga, “História Antiga”,
in Diário I, 1941 (3 de janeiro de 1932 a 15 de agosto de 1941)


Vocabulário

1 Cabresto: correia ou peça de couro colocada na cabeça de um animal (como um burro ou cavalo) para o controlar e conduzir.

 


Proposta de escrita

Escolhe uma das opções apresentadas abaixo e elabora um comentário, explicando de que modo o poema desenvolve essa ideia:

Opção A: O bem pode manifestar-se mesmo nos contextos de maior crueldade.

Opção B: Uma pequena esperança pode transformar o mundo.

(Areal Editores, dezembro de 2025)

sábado, 29 de novembro de 2025

Tu estás aqui, Ruy Belo

 


TU ESTÁS AQUI


Estás aqui comigo à sombra do sol

escrevo e oiço certos ruídos domésticos

e a luz chega-me humildemente pela janela

e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou

Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano

e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama

que uso para ser também isto este bicho

de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos

quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem

o que sei o

que faço ou então sou eu que julgo que o sabem

e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras

e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou

outra coisa

esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior

a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço

bem entendido o que faço com este braço

Estás aqui comigo e à volta são as paredes

e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa

e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho

e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer

Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado

passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes

esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa

essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol

Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso

diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome

este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro

nome embora no mesmo nome este nome

de terra de dor de paredes este nome doméstico

Afinal fui isto nada mais do que isto

as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto

a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome

que não merda

e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das

outras coisas

Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto

pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa

uma coisa para além disto que não isto

Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo

é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos

mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos

tu és em cada gesto todos os teus gestos

e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como

a palavra paz

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas

perdoa pagares tão alto preço por estar aqui

perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui

prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente

deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias

e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer

sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


Ruy Belo, Toda a Terra. Lisboa, Moraes Editores, 1976


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Feia, Carolina Deslandes




FEIA

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia"
Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia"

A extrema direita que eu assumo é ter na mão direita um punho que carrega uma caneta
Voz armada com bala de chumbo, tiro seguido de fumo, sou mulher e sou poeta
Querem voltar atrás no tempo, plantar o medo cá dentro, gritam "Deus, Pátria е Família"
E um marido que traga sustento ou mais um olho cinzento, diz quе foi contra a mobília

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia"
Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia"

Vocês odeiam as mulheres e quando matam as mulheres, querem chorar e acender velas
Mas metade do mundo são mulheres e a outra metade do mundo é feita dos filhos delas
Um país sem casa nem conforto, querem falar do aborto, querem nos tirar os livros
Sou filha de Abril, saí do esgoto, nasci pronta para o confronto e eles gritam-me aos ouvidos

Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia"
Ó Mãe, eu nasci num país
Nasci num país que me odeia
Dizem: "Deixa passar a louca"
Dizem: "Deixa passar a feia"

Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Num país
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Ó Mãe, eu nasci
Deixa passar a feia


Carolina Deslandes


domingo, 2 de novembro de 2025

Algumas proposições com pássaros e árvores, Ruy Belo


 

Algumas proposições com pássaros
e árvores que o poeta remata
com uma referência ao coração

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

 

Ruy Belo (1933-1978), Homem de Palavra(s), 1970

 



Oficina de escrita criativa

 

Reescreve o poema seguindo as instruções. No novo poema:

  • mantém o número de versos;
  • divide-o em duas estrofes;
  • altera a posição dos versos como entenderes;
  • passa sistematicamente as formas verbais que se encontram na primeira pessoa do singular para a primeira do plural;
  • começa e termina cada estrofe com o verso «Eu passo e muda-se-me o coração» alterado para Nós passamos e muda-se-nos o coração.

 

(In Entre Palavras 9, António Vilas-Boas e Manuel Vieira. Leya/Sebenta, 2013)








sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Fala apócrifa de Camões, David Mourão-Ferreira



FALA APÓCRIFA DE CAMÕES


É inútil buscarem o meu signo

procurarem-me em ruas ou retratos

sequer em grutas gritos manuscritos

muito menos em fósseis ou em falsas


pistas que de meus ossos não existem

É inútil julgarem-me comparsa

de quem quer que julgou viver comigo

já que em lugar algum terei passado


comigo mais que um prazo muito exíguo

mais ambíguo aliás e mais escasso

que o vivido com Bembo ou com Virgílio


com Petrarca Ariosto ou Garcilaso

Só estes os contei por meus amigos

E só de astros que tais rompe o meu rasto


David Mourão-Ferreira


In “No veio do cristal”, parte de Obra poética: 1948-1988. Lisboa: Presença, 1988, p. 397

domingo, 31 de agosto de 2025

O lixo, Luís Fernando Veríssimo

 



Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

- Bom dia...

- Bom dia.

- A senhora é do 610.

- E o senhor do 612

- É.

- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...

- Pois é...

- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...

- O meu quê?

- O seu lixo.

- Ah...

- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...

- Na verdade sou só eu.

- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.

- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...

- Entendo.

- A senhora também...

- Me chame de você.

- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...

- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...

- A senhora... Você não tem família?

- Tenho, mas não aqui.

- No Espírito Santo.

- Como é que você sabe?

- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.

- É. Mamãe escreve todas as semanas.

- Ela é professora?

- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?

- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.

- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.

- Pois é...

- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.

- É.

- Más notícias?

- Meu pai. Morreu.

- Sinto muito.

- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.

- Foi por isso que você recomeçou a fumar?

- Como é que você sabe?

- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.

- É verdade. Mas consegui parar outra vez.

- Eu, graças a Deus, nunca fumei.

- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...

- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.

Você brigou com o namorado, certo?

- Isso você também descobriu no lixo?

- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.

- É, chorei bastante, mas já passou.

- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...

- É que eu estou com um pouco de coriza.

- Ah.

- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.

- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.

- Namorada?

- Não.

- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.

- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.

- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.

- Você já está analisando o meu lixo!

- Não posso negar que o seu lixo me interessou.

- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.

- Não! Você viu meus poemas?

- Vi e gostei muito.

- Mas são muito ruins!

- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.

- Se eu soubesse que você ia ler...

- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?

- Acho que não. Lixo é domínio público.

- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?

- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...

- Ontem, no seu lixo...

- O quê?

- Me enganei, ou eram cascas de camarão?

- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.

- Eu adoro camarão.

- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...

- Jantar juntos?

- É.

- Não quero dar trabalho.

- Trabalho nenhum.

- Vai sujar a sua cozinha?

- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.- No seu lixo ou no meu?


VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. RJ: Objetiva. 2002.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Fui eu, madre, lavar meus cabelos, João Soares Coelho


 

Fui eu, madre, lavar meus cabelos
a la fonte e paguei-m’eu delos
        e de mi, louçana.

Fui eu, madre, lavar mias garcetas
a la fonte e paguei-m’eu delas
        e de mi, louçana.

A la fonte [e] paguei-m’eu deles;
aló achei, madr’, o senhor deles
        e de mi, louçana.

[E], ante que m’eu d’ali partisse,
fui pagada do que m’el[e] disse
        e de mi, louçana.

 

João Soares Coelho, in Cantigas Medievais Galego-Portuguesas, vol. 1, edição coordenada por Graça Videira Lopes, Lisboa, BNP/IEM/CESEM, 2016, p. 614.

 

 

NOTAS

paguei-m’eu delos (verso 2) – agradei-me deles.

louçana (verso 3) – formosa.

garcetas (verso 4) – tranças.

aló (verso 8) – ali.

ante (verso 10) – antes.

fui pagada (verso 11) – fiquei agradada.

 

1. Complete o texto seguinte, selecionando, para cada alternativa, a opção adequada.

A composição poética apresentada é uma CANTIGA DE AMOR / CANTIGA DE AMIGO / CANTIGA DE ESCÁRNIO, como se verifica, entre outros aspetos, pelo facto de a enunciação poder ser atribuída a UMA DONZELA / UM TROVADOR / DUAS FIGURAS EM DIÁLOGO.

No que respeita à estrutura do poema, observa-se que a SEGUNDA ESTROFE / TERCEIRA ESTROFE / QUARTA ESTROFE se encontra desvinculada do esquema paralelístico e que o segundo verso da primeira estrofe é retomado no primeiro verso da SEGUNDA ESTROFE / TERCEIRA ESTROFE / QUARTA ESTROFE (leixa-prem).

 

2. Indique a figura a quem o sujeito poético se dirige e qual o papel que desempenha nesta cantiga.

 

3. Explique de que modo as duas primeiras estrofes contribuem para a caracterização do sujeito poético, com base em dois aspetos relevantes.

 

4. Na terceira estrofe, é referida uma figura masculina: «o senhor deles» (verso 8).

Explicite a importância desta figura para o desenvolvimento temático do poema.

 

 

Chave de correção:

1. A composição poética apresentada é uma CANTIGA DE AMIGO, como se verifica, entre outros aspetos, pelo facto de a enunciação poder ser atribuída a UMA DONZELA.

No que respeita à estrutura do poema, observa-se que a QUARTA ESTROFE se encontra desvinculada do esquema paralelístico e que o segundo verso da primeira estrofe é retomado no primeiro verso da TERCEIRA ESTROFE (leixa-prem).

 

2. Na resposta, devem ser desenvolvidos os dois tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

A figura a quem o sujeito poético se dirige e o papel que desempenha nesta cantiga podem ser indicados do modo seguinte:

- o sujeito poético (a donzela) tem como destinatário a mãe («madre»);

- o papel desempenhado por essa figura é o de confidente (da donzela).

 

3. Na resposta, devem ser desenvolvidos dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

As duas primeiras estrofes contribuem para a caracterização do sujeito poético do modo seguinte:

- ao lavar os «cabelos» (v. 1) e as «garcetas» (v. 4) na fonte, a donzela mostra-se satisfeita com a sua beleza;

- a autocaracterização da donzela como «louçana», no refrão, revela a sua vaidade;

- a expressão «e de mi», no refrão, sugere que o elogio («louçana») não se refere apenas aos cabelos (podendo resultar do facto de a donzela ver o próprio reflexo nas águas da fonte).

 

4. Na resposta, devem ser desenvolvidos os dois tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

A importância da figura masculina para o desenvolvimento temático do poema é a seguinte:

a referência ao «senhor deles» (v. 8) remete explicitamente para o contexto amoroso da cantiga, associado ao tópico do encontro entre a donzela e o amigo (num cenário natural);

as palavras do amigo reforçam o sentimento de felicidade expresso pela donzela.

 

Fonte: Exame Final Nacional de Literatura Portuguesa (Prova 734) - Ensino Secundário (11.º Ano de Escolaridade - Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho | Decreto-Lei n.º 62/2023, de 25 de julho). Portugal, IAVE, 2025 (2.ª Fase)

 


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Ao acaso da estante, Nuno Júdice


 

AO ACASO DA ESTANTE

Abro um livro de poesia, gasto pelos anos,
e de dentro dele saem dois bilhetes de cinema
e uma fotografia. Já não me lembro que filme
foi esse que vimos, numa tarde de outono; mas
o teu rosto, de súbito, ganha uma realidade que
o tempo gastou, tanto como esse livro de poesia,
que nunca cheguei a ler. No entanto, se esses
poemas não me ficaram na memória, o teu nome,
os teus olhos, as tuas mãos que escorregavam
pelo amor de uma tarde de cinema, ainda
hoje permanecem comigo. Onde estás? Que
fazes? Que voltas deste na tua vida? Mas
não procuro respostas: e assim te voltei
a guardar, nesse livro que já não sei
onde está, na mesma página em que pus
os bilhetes de um cinema que há muito fechou.

 

Nuno Júdice, Uma Colheita de Silêncios, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2023, p. 44.

 

1. Refira de que modo os objetos encontrados dentro de «um livro de poesia» (verso 1) contribuem para a evocação do passado, tendo em conta os versos 1 a 7.

 

2. Explicite o contraste entre esquecimento e memória sugerido nos versos 3 a 11, com base em dois exemplos.

 

3. Analise o valor expressivo das perguntas presentes nos versos 11 e 12.

 

4. Explique a importância das referências ao «livro» (versos 1, 6 e 14) para o desenvolvimento temático do poema, destacando dois aspetos pertinentes.

 

 

Chave de correção

1. Na resposta, devem ser desenvolvidos os dois tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

Os objetos encontrados dentro de «um livro de poesia» (v. 1) contribuem para a evocação do passado do modo seguinte:

- fornecem um contexto espácio-temporal ao episódio evocado («cinema» v. 2; «tarde de outono» v. 4);

- possibilitam a reconstituição do rosto do «tu», através da memória («o teu rosto, de súbito, ganha uma realidade» v. 5).

 

2. Na resposta, devem ser desenvolvidos os dois tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

O contraste entre esquecimento e memória sugerido nos versos 3 a 11 pode ser explicitado com base nos exemplos seguintes:

- o «filme» (v. 3), enquanto elemento esquecido («Já não me lembro que filme / foi esse que vimos» vv. 3-4), é apresentado como contraponto da figura rememorada pelo sujeito poético(«mas / o teu rosto, de súbito, ganha uma realidade» vv. 4-5);

- os «poemas» (v. 8), que não «ficaram na memória» (v. 8), contrastam com a identidade e os traços da figura evocada («o teu nome, / os teus olhos, as tuas mãos» vv. 8-9), que são relembrados pelo sujeito poético («ainda / hoje permanecem comigo» vv. 10-11).

 

3. Na resposta, devem ser desenvolvidos os dois tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

O valor expressivo das perguntas presentes nos versos 11 e 12 pode ser analisado do modo seguinte:

- as interrogações, formuladas na ausência de um interlocutor, exprimem desconhecimento acerca do percurso e da situação atual da figura evocada;

- as três perguntas realçam a presença do «tu», através da interpelação.

 

4. Na resposta, devem ser desenvolvidos os dois tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

A importância das referências ao «livro» (vv. 1, 6 e 14) para o desenvolvimento temático do poema pode ser explicada com base nos aspetos seguintes:

- o livro é associado aos momentos de abertura e de fecho do poema («Abro um livro» v. 1; «assim te voltei / a guardar, nesse livro» vv. 13-14);

- a possibilidade de nele guardar os objetos que evocam acontecimentos passados confere ao livro um relevo que contrasta com o carácter acidental da ação que dá início ao poema (igualmente sugerido pelo título) e com a aparente desvalorização do seu conteúdo literário («esse livro de poesia, / que nunca cheguei a ler» vv. 6-7).

 

Fonte: Exame Final Nacional de Literatura Portuguesa (Prova 734) - Ensino Secundário (11.º Ano de Escolaridade - Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho | Decreto-Lei n.º 62/2023, de 25 de julho). Portugal, IAVE, 2025 (1.ª Fase)