domingo, 26 de setembro de 2021

Crítica literária


Petição de princípio

 

I - A crítica é um trabalho de violência: coloca as obras diante daquilo que elas não são, impondo-lhes um critério que lhes é exterior.

 

II - A crítica é comprometida: responde por uma imagem de mundo e de literatura. Nesta estrita medida, a crítica é sempre programática — confronta aquilo que as obras são com aquilo que elas poderiam ser.

 

III - A crítica é o lugar de uma experiência tanto afectiva quanto racional. O distanciamento e a proximidade são, na mesma proporção, a sua condição.

 

I - A crítica é um produto do risco. A possibilidade de erro é directamente proporcional ao risco assumido.

 

V - A crítica é um trabalho contra o mundo, contra a literatura. Se esta é um movimento de produção do mundo através da modelação de representações, a crítica é um trabalho de subtracção do mundo a si mesmo.

 

VI - A crítica é um exercício sobre a linguagem. Na literatura, como em todas as artes, o mundo tem tamanho da linguagem na qual se produz. O sentido de uma representação é função da linguagem com que se realiza. As suas potenciais riqueza experiencial, densidade semântica, e valor, estão-lhe indexados.

 

VII - A crítica não é um instrumento de mediação: é parte do processo de constituição da coisa em representação.

 

VIII - Enquanto instituição, a crítica é sempre supletiva. Enquanto olhar interior à produção e à recepção, é constituinte.

 

Helder Gomes Cancela, “Petição de princípio”, blogue Contra Mundum Crítica, 2012-09-18

 



 

Crítica literária

 

Por "crítica literária" pode-se entender a produção de um discurso acerca de um texto literário individual ou da obra global de um autor, independentemente da situação de comunicação que desencadeia e/ou particulariza esse discurso. Este entendimento da noção de "crítica literária" permite conjugar quatro vectores fundamentais. Em primeiro lugar, e na linha construtivista de autores como René Wellek (veja-se sobretudo R. Wellek, 1963 e 1981) e J. W. Atkins (veja-se Atkins 1934), salvaguarda a possibilidade de se identificar uma narrativa interna da crítica literária que, desde a Antiguidade até aos nossos dias, se orientou para a visibilidade relevante do crítico enquanto protagonista de um comentário acerca de textos considerados artísticos. Em segundo lugar, e na linha de autores como Northrop Frye (veja-se sobretudo N. Frye, 1970), aquele entendimento não desvincula a situação de ensino da literatura do exercício da crítica literária. Em terceiro lugar, afasta a noção de crítica literária da disputa estéril (desconstrucionista vs. Formalista) acerca do seu estatuto de "arte" ou de "ciência". Em quarto lugar, permite contemplar realidades no exercício moderno da crítica literária como as que decorrem do protagonismo assumido pelo crítico nos meios de comunicação, e que, no essencial, assentam em convicções como a de Albert Thibaudet quando assegurava que «a crítica tal como a conhecemos e praticamos é um produto do século XIX» (ª Thibaudet, 1930: 7).

A crítica literária tem um papel relevante na dinâmica interna de qualquer cultura nacional, na medida em que é por ela que se articula o diálogo entre as propriedades das obras e as exigências literárias de um determinado período. É através das apreciações críticas que melhor se pode discernir os dispositivos de recepção e as configurações de valor estético em jogo numa determinada situação histórico-literária. Esta irrecusável historicidade da crítica torna-a um dos instrumentos mais vivos de que se pode dispor para compreender as tensões actuantes num tempo político, num lugar social e numa tradição cultural.

Dependente como está dos quadros de referência, de conhecimento e de experiência do próprio crítico, a crítica literária está condenada à interpretação e, consequentemente, nunca pode ser neutra nem inocente. Mesmo as pretensas virtudes de uma crítica académica fundada em critérios de cientificidade e/ou articulada por uma linguagem universalizante e objectiva estão hoje em dia despidas de credibilidade, tanto teórica como prática. Porque invariavelmente se confunde o que é científico com algo que é meramente tecnológico, misturando nesse processo rigor com tecnicidade, essas virtudes são meras ilusões que só encontram eco numa outra piedosa ilusão: a de uma epistemologia inocente da investigação universitária.

Porque não é inocente o seu olhar, o crítico literário, seja qual for o plano institucional em que se coloque (académico ou jornalístico) relaciona-se com a literatura, sobretudo com aquela que é sua contemporânea, através de um certo grau de cegueira, como bem observou Paul de Man (P. de Man, 1971), ou através de uma espécie de cegueira interessada que leva o crítico a unicamente ver aquilo que quer ou pode ver. No domínio da crítica literária, faz plenamente sentido a afirmação de M. Merlau-Ponty de que "só encontramos nos textos aquilo que colocamos neles" (1962: viii). Esta é uma realidade inexorável, embora de aceitação difícil quando somos (e nos sentimos) actores culturais coetâneos de uma qualquer prática crítica. No entanto, é ela que agencia a heterogeneidade litigante do conhecimento, e com ela o pulsar agonístico por que uma cultura nacional vive internamente cada um dos seus tempos próprios numa intensa conversação entre diferentes comunidades interpretativas, recorrendo ao conceito de Stanley Fish (S. Fish, 1980), isto é, entre diferentes crenças, diferentes interesses ideológicos, políticos, sociais, sexuais, estéticos; em suma, entre diferentes feixes de estratégias e de normas culturalmente institucionalizadas que coexistem numa relação reciprocamente definidora.

Ao actuar em sinédoque no interior de um quadro literário nacional, o crítico literário torna-se o protagonista mais visível de uma comunidade interpretativa que nele se reconhece por oposição a outros olhares (outras sinédoques) de outros críticos (outras comunidades). Neste sentido, os discursos de todos esses críticos, quando vistos na sua relação contraditória, tornam-se uma espécie de erros necessários que, por si mesmos, não traçam o perfil de uma época. Contudo, na medida em que não emergem de indivíduos isolados, embora por eles se revelem, mas de um ponto de vista público e convencional, esses erros contribuem decididamente para a configuração do perfil de verdade de uma época, pois, na sua contingência, representam (reforçam) horizontes intersubjectivos de crenças e de valores actuantes no seio de uma sociedade. É por isso que os conflitos mais ou menos apaixonados que ciclicamente surgem no seio da comunidade literária (portuguesa ou qualquer outra) ultrapassam em muito as questões consideradas especificamente artísticas, incorporando no debate, de um modo mais ou menos explícito, argumentos (isto é, crenças e valores) de carácter ideológico, político, filosófico ou religioso.

A importância de que a literatura ainda se reveste nos nossos dias decorre do facto de que ela, através da sua capacidade intrínseca de representação, continua a conter em si as possibilidades de um conhecimento insubstituível do homem e do mundo. Nada existe no mundo que a literatura não possa exprimir. Por outro lado, é ainda através da literatura que melhor podemos ter acesso à experiência de vida de uma época ou à interioridade do seu tempo social e cultural.

Esta dimensão fascinante do literário impõe a prioridade inescapável da vinculação do texto a uma realidade que, ao lhe preexistir, estabelece as condições de inteligibilidade solidária através da qual o texto literário oferece o seu dizer no seio de uma cultura. E é exactamente por essa mesma dimensão que o gesto crítico também ganha relevo intelectual e significado cultural. Ao se constituir inevitavelmente em interpretação de um texto literário, a crítica outra coisa não faz que reconhecer a construção e a permanência da literatura como interpretação (interpelação) de estratos do conflito humano nela representado. Cada uma nutre-se da interpretação da outra num diálogo intelectual nem sempre pacífico, mas inexoravelmente dinâmico e activo, ou tão dinâmico e tão activo quanto as circunstâncias culturais e históricas o permitem ou exigem. Em suma, pode-se afirmar que é pelo cruzamento da literatura com a crítica, numa representatividade mútua feita de encontros e desencontros com a verdade de cada uma delas, que a vivacidade do rosto de uma época se torna mais nítida nos seus contornos culturais.

 

{bibliografia}

J. W. Atkins: Literary Criticism in Antiquity (2 vols.), London, 1934; Maurice Merlau-Ponty: Phenomenology of Perception, London, 1962; Northrop Frye: The Stubborn Structure, London, 1970; Paul de Man: Blindness and Insight. Essays in the Rhetoric of Contemporary Criticism, Minneapolis, 1971; René Wellek: (a) "The Term and Concept of Literary Criticism", in Concepts of Criticism, New Haven, 1963; (b) "Literary Criticism –A Historical Perspective", in What is Criticism, Paul Hernadi (org.), Bloomington, 1981; Stanley Fish: Is There a Text in This Class? The Authority of Interpretative Communities, Cambridge (Mass.), 1980.

 

“Crítica Literária”, verbete de Manuel Frias Martins,

in: E-Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia, 2009-12-30.

Disponível em: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/critica-literaria/

 


sábado, 25 de setembro de 2021

Jácome Armas, Conjunto Homem




Conjunto Homem é tanto uma experiência literária como um ensaio filosófico. Um pensamento que tem como referências L. Wittgenstein ou Gonçalo M. Tavares e que articula de forma original conhecimentos da lógica formal, da psicologia e das neurociências. Apresenta-se como uma simples demonstração da incapacidade do Homem para abranger a Natureza na sua totalidade, como uma crítica ao racionalismo e ao new age como visões completas do Mundo, e como uma tentativa de utilização de recursos estilísticos em provas da lógica formal e científicas.

 

“A Companhia das Ilhas apresenta Conjunto Homem Jácome Armas”, http://companhiadasilhas.pt/wp-content/uploads/2015/12/press-kit-Conjunto-homem.pdf [Upload: 2015-12-02]

 

 

Carta 1 Da Natureza para o Homem

 

Caro Homem, disse a Natureza, sabias que o teu maior erro foi teres inventado o espelho?

 

(E o Homem sentiu-se estúpido: não sabia.)

 

Mas não, disse a Natureza.

 

(E o Homem sentiu-se ainda mais estúpido: tinha sido enganado.)

 

Então a Natureza disse: O teu maior erro foi teres coberto o Mundo com espelhos. Agora, sem te aperceberes, sempre que olhas pela janela e tentas pintar o que vês, acabas por pintar-te a ti próprio. No fim, ainda levantas o quadro e dizes: O Mundo.

 

(O Homem ouviu, calou-se e saiu convencido de que ia provar à Natureza que era capaz de ver o Mundo e todas as suas cores.)

 

(Até hoje o Homem falhou.)

 

Jácome Armas, Conjunto Homem (ilustrações de Pedro Solá)

Lajes-Pico, Companhia das Ilhas, 2014, p. 11

 

Olhar para o mundo nunca consiste numa relação neutra de apreensão. Para ver não basta abrir os olhos, para compreender não basta traduzir essa percepção para uma representação consciente. O ver está já condicionado pela representação e esta nunca é alheia à experiência do objecto. Os condicionamentos implicam-se e multiplicam-se, numa relação que não é estritamente cumulativa ou linear.

 

Pretender possível que a experiência humana tenha um acesso luminoso ao mundo na sua essência seria negar a própria ideia de cultura. Enquanto cultura, a experiência dá tanto a ver quanto deturpa para que o visível caiba dentro da percepção, das linguagens e das representações.

 

Esta relação entre a representação e o real surge como o problema central do livro Conjunto Homem de Jácome Armas (nascido em 1985, especializado em física teórica). É um livro híbrido e inquieto: nem ensaio nem poesia, mas um espaço problemático onde os temas são tratados com a liberdade de pensamento e de experimentação que ambos proporcionam.

 

No plano temático, a sua principal virtude é não reduzir o problema ao binómio representação/objecto, mas mostrar que ele implica um terceiro termo: o sujeito, o ser humano, entendido como sentimento e espaço de experiência representacional.

 

Neste sentido, perguntar pelo mundo é perguntar pelo homem e pelas suas linguagens, do mesmo modo que perguntar pelo homem significará inevitavelmente perguntar pelo mundo no qual se inscreve e com o qual interage. Interrogar a razão será desembocar no sentimento, interrogar o sentimento será desembocar nos limites da representação e da própria ideia de verdade. Perguntar pelo objecto é interrogar o sujeito, interrogar o sujeito é deparar-se com o objecto:

 

«Proposição 15 As janelas da tua casa são transparentes.

 

(De fora, o Mundo pode olhar para dentro e ver o estado da tua casa. Não tão bem quanto tu: a casa é grande e o alcnce do Mundo também tem limites. Àquilo que tu chamarias Sentimento o Mundo chamaria humor.)

 

Þ As entradas dos sentidos são duplas: se vês o Mundo o Mundo também te vê a ti e, claro, vês-te a ti próprio.»

 

Jácome Armas, Conjunto Homem, p. 12

 

 

O livro, de tom aforístico, é um trabalho de interrogação sobre a própria linguagem. Embora se estruture segundo o esquema aparentemente lógico de um encadeamento argumentativo (Definição, Proposição, Conjectura, Exemplo, etc.), ele subverte de facto a linearidade do discurso dedutivo, afirmando uma arbitrariedade lógica só acessível ao discurso da poesia:

 

«Lema 14 O humor nunca desaparece.

 

(Mesmo que feches todas as janelas o mundo vê sempre uma paisagem: as janelas fechadas.)»

 

Jácome Armas, Conjunto Homem, p. 12

 

 

Dedicado, entre outros, a Gonçalo M. Tavares e Wittgenstein (e assumindo com isso as dívidas e as influências), o livro adopta a dimensão de uma pesquisa que a si mesmo recusa as condições de verificabilidade. Tratar-se-á mais de construir os problemas do que de enunciar respostas, ou de não enunciar outras respostas que não aquelas que possam elas mesmas ser sujeitas à dúvida e à revogação.

Diferente será a questão de saber qual o critério de verdade (ou de qualidade, assumindo a preponderância do discurso literário no livro) a partir do qual a validade das teses é susceptível de ser avaliada. O género ensaio tem sempre como critério implícito de verdade a argumentabilidade das teses, a garantia de que elas sejam contra-argumentáveis. A literatura pode prescindir da argumentabilidade, acolhendo a possibilidade da aporia ou da contradição interna. Talvez resida aqui um dos principais méritos deste livro de Jácome Armas: ele escapa-se e questiona os critérios e a autoridade de ambos os registos.

 

Helder Gomes Cancela, blogue Contra Mundum Crítica, 2014-10-16

 

* * *

 

Para abrir, isto não é um artigo de crítica. Nem o Fazendo se dá a ares de espaço para resenhas, nem este escriba tem bagagem intelectual para uma análise crítica aprofundada a este livro, não obstante o facto de ter o seu autor em grande estima pessoal e condições praticamente nulas para escrever sobre o seu trabalho com um mínimo razoável de objectividade.

A primeira vez que li Conjunto Homem, quando o Jácome o acabou de escrever há alguns anos, entusiasmou-me sobretudo o humor acutilante da sua escrita e a refinada crítica ao New Age que está subjacente, luta em que nos unimos passados alguns anos da puberdade. A minha reduzida capacidade de analisar o objecto que tinha em mãos na altura (na verdade eram só algumas folhas agrafadas) deixou-me ao lado de outras ideias bem mais interessantes que o livro contém. Felizmente a recente edição pela Companhia das Ilhas, com as ilustrações do pintor Pedro Solá e uma “embalagem” mais jeitosa que as tais folhas agrafadas, de ume a oportunidade de o reler com uma perspectiva mais alargada (e conhecimentos que, embora muito superficiais, sempre me permitem identificar melhor as referências às ideias dos “ilustres” a quem o livro é dedicado).

Esses ilustres são Gonçalves M. Tavares, António Damásio, Godel, Wittgenstein, Russel, Oliver Sacks e Freud, e o Jácome garantiu-me que foi a eles a quem roubou as ideias. Apesar desse saque estamos perante algo muito diferente de uma mera colagem de ideias alheias. A reciclagem é total e, embora formalmente construído como uma demonstração matemática, está (felizmente) muito longe da tradição textual académica.

Trata-se, na forma, de uma demonstração lógica, constituída por proposições, axiomas, teoremas, etc., estilisticamente entra no plano poético (por vezes da parábola), e tematicamente no fi losófico, mas na realidade todas estas regras são subvertidas. Essa é uma das valências, objecto híbrido por natureza o bicho é difícil de enfiar em qualquer prateleira, e não perde coerência por isso. Conjunto Homem está dividido em três partes – Lógica, Percepção e Sentimento – e usa dois personagens principais como estereótipos – um matemático e um guru – que, pela sua visão redutora do mundo, vão sendo maltratados ao longo das páginas (com, diga-se de passagem, excelente efeito no domínio da exemplificação). Há um movimento que se vai criando durante o livro, parte da frieza racional no início e desemboca nos afectos. Os artifícios formais da demonstração e o encadeamento sequencial dos vários quadros que nos vão sendo apresentados cria, inicialmente, a ilusão de uma rigidez matemática, ilusão essa que se desconstrói a si própria até que nos desembrulha um ideal profundamente humanista. Uma apologia às relações humanas e do homem com a natureza, que se move entre os extremos do binómio razão/sentimento.

Neste sentido há um paralelo do livro do Jácome com a obra principal de Baruch Espinoza, Ética, que é inevitável (para lá das mais óbvias parecenças formais). O livro de Espinoza também se desenvolve como uma demonstração geométrica. Começa com conceitos “simples” sobre Deus e a natureza que se vão construindo e complexificando cada vez mais, chegando cada vez mais próximo duma descrição filosófica do que é o ser humano até que atinge aquilo que era a intenção inicial do autor: uma justificação lógica do dever ético; um apelo racional à ética nas relações humanas. O do Jácome consegue ser mais poético. Esconde quase sempre toda a bagagem filosófica e científica da qual parte, e dissolve-a por várias camadas de significado. No fi m chega a algo muito simples, e muito bonito.

 

Pedro Lucas, jornal Fazendo, 2014

 

* * *

 

Wittgenstein, numa tentativa de construir uma linguagem desambígua e universal, concluiu que há determinadas coisas que o Homem pensa e sente cuja expressão não poderá́ ser levada a cabo através da recorrência ao discurso lógico e coerente, mas sim à poesia. Um homem que se dedique à matemática – o Matemático – é um homem que domina o pensamento lógico. Se pudéssemos atribuir a este uma forma geométrica, diríamos um quadrado, não pela forma da sua silhueta, mas pela forma como vê o Mundo: uma estrutura rígida com ângulos rectos. Mas enquanto o Matemático pensa ser capaz de lidar com um crescente grau de complexidade, simplesmente porque é capaz de escrever numa folha de papel o símbolo ∞, existe outro tipo de homem – o Guru – para o qual ∞ não é mais do que um mero limite, inalcançável pela lógica. Conjunto Homem apresenta-se como uma simples demonstração da incapacidade do Homem para abranger a Natureza na sua totalidade, como uma crítica ao racionalismo e ao new age como visões completas do Mundo, e como uma tentativa de utilização de recursos estilísticos em provas da lógica formal e científicas.

 

Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer, “Saída: CONJUNTO HOMEM, de Jácome Armas”, in Comunidades, 2014-09-03




Sobre o autor:

Nascido no Faial, em 1985, Jácome Armas é, atualmente, um dos mais brilhantes físicos europeus. Licenciou-se em Engenharia Física pela Universidade de Aveiro, com uma passagem pela Irlanda, para estudar Física Teórica durante um ano no Trinity College, em Dublin, ao abrigo do programa Erasmus. Completou o Mestrado em Estudos Avançados em Matemática Aplicada na Universidade de Cambridge, Inglaterra, e o Doutoramento em Física Teórica no Niels Bohr Institute, na Dinamarca.

A sua vida é um bom exemplo de como o mundo se transformou numa pequena aldeia graças ao desenvolvimento tecnológico. A viver na Dinamarca, ensina Física Teórica na Universidade de Amesterdão, na Holanda. Há cerca de 10 anos, fundou o projeto “Science & Cocktails”, que potencia eventos onde se pode falar de ciência enquanto se ouve música, aprecia arte e desfruta de um bom cocktail, e que tem expressão na Dinamarca, na Holanda, na Bélgica e na África do Sul. Faz tudo isto com o Faial e os Açores sempre no pensamento.

Em 2014 a Companhia das Ilhas editou o seu livro Conjunto Homem, um ensaio filosófico que ilustra bem o seu ímpeto de descrever o mundo não apenas sob a perspetiva da ciência. Mais recentemente, já em 2021, a prestigiada editora britânica Cambridge University Press anunciou a publicação de Conversations on Quantum Gravity, livro onde Jácome Armas entrevista 37 físicos sobre a busca pela teoria da gravidade quântica.

 

Maria Pinheiro, “Jácome Armas – Espero, um dia, criar um centro de estudos avançados no Faial ou no Pico” in Tribuna das Ilhas, 2021-04-21 




 


Poderá também gostar de:

https://www.tsf.pt/programa/sinais/emissao/jacome-armas-4014094.html


 

domingo, 19 de setembro de 2021

Poesia e mel

Frederico Lourenço 


Se disséssemos hoje a um jovem poeta que achamos os seus versos «doces», o jovem poeta ficaria ofendido de morte. Mas se alguém tivesse feito esse elogio a um poeta grego ou romano, ele teria ficado desvanecido e encantado. Aliás, não precisamos de viajar tão longe no tempo: Camões teria ficado imensamente lisonjeado. Pois era essa a finalidade da poesia: ser doce. 

Por isso havia tantas lendas sobre poetas antigos cujo talento era explicado pelo facto de abelhas terem deixado mel nas suas bocas quando ainda eram bebés. Por isso se estabeleceu naturalmente a correlação mel/poesia; por isso se começou a pensar no poeta como uma abelha. O poeta grego Baquílides disse de si mesmo que era uma abelha. E no «Íon» de Platão, Sócrates afirma esta coisa extraordinária: «Os poetas dizem-nos que é em fontes de mel, em certos jardins e pequenos vales das Musas, que eles colhem os versos, para, tal como as abelhas, no-los trazerem, esvoaçando como elas. E falam verdade! Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada» («Íon» 534a-b; tradução de Victor Jabouille). 

«Manda-me amor que cante docemente», escreve Camões no início da Canção 7. Na Canção 3, fala-nos em «doce melodia» e «doce pensamento»; na Canção 5 numa «doce voz»; um verde ramo na natureza faz um «doce ruído» (Canção 9). E «O sulmonense Ovídio, desterrado», lembrando-se com saudade dos «doces» filhos, só tem como companhia a «sua doce Musa» (Elegia 3). Não será doce a mais? 

O século XX (e talvez já o século XIX) virou as costas à doçura na poesia, certamente porque a banalização do açúcar na culinária estragou as conotações positivas da glicose que o mel tinha emprestado à literatura. Quando, no romance «Brideshead Revisited», o narrador se refere à quinzena romântica com Sebastian em Veneza com as palavras «I was drowning in honey», sabemos que algo mudou desde que Camões escreveu «Manda-me amor que cante docemente». 

Mas uma coisa não mudou: a glicose como combustível da criação. No fundo, terá sido por esse motivo (não consciencializado) que os poetas antigos associaram a poesia ao mel. Não era tanto que a poesia fosse mel; era mais o facto de a ingestão de mel (para povos que não tinham ainda açúcar) produzir mais facilmente poesia. Porque a imaginação também precisa de combustível: os escritores que recorreram ao vinho (Baco, esse grande inspirador!) estavam, no fundo, a recorrer ao açúcar que existe no vinho («Baco das uvas tira o doce mosto»: Lusíadas 4.27), do mesmo modo como os nerds que deram ao mundo os nossos computadores e telemóveis (com todos os seus aplicativos e software) se alimentaram de Coca-Cola, de donuts e daqueles hambúrgueres das cadeias americanas que contêm mais açúcar do que qualquer sobremesa num restaurante em Portugal. Eu diria, até, que se não fosse a dieta americana de açúcar a estimular as mentes dos cientistas, nunca o homem teria chegado à lua nem me seria possível consultar manuscritos da Bíblia ou de Vergílio online no meu computador. Sem combustível (açúcar), nada surge «por puro engenho e por ciência» (citando Lusíadas 5.17). 

Mas voltando à Grécia arcaica: diz o poeta Álcman que vozes belas a cantar poesia são «vozes de mel»; e Píndaro (de quem se dizia que abelhas tinham deixado mel na sua boca quando era bebé) afirma que um poema, para ser de qualidade superlativa, tem de voar de um tema para outro «como uma abelha». Na sua Bucólica 1, Vergílio fala em abelhas depois de ter referido «fontes sagradas». E Platão, como vimos, falou em «fontes de mel» Coube a Gian Lorenzo Bernini fazer, em Roma, a síntese perfeita de tudo isto, com a sua «Fontana delle Api».  

“Poesia e Mel”, Frederico Lourenço, 2021-09-19

https://www.facebook.com/frederico.maria.lourenco/posts/413506840138759



"Fontana delle Api",
por Giovanni Lorenzo Bernini,
na Piazza Barberini


domingo, 12 de setembro de 2021

VÍCTOR JARA


Homenagem a Victor Jara
por Carlos Matamala Rivas, 1979



 

O antigo militar chileno Pedro Barrientos foi condenado, no dia 27 de Junho de 2016, por um tribunal na Flórida (Estados Unidos da América), por tortura e homicídio do cantor Víctor Jara, em Setembro de 1973. Jara foi preso após o golpe conduzido pelo general Pinochet, em 1973, que derrubou o presidente Salvador Allende, eleito em 1970 com o apoio da Unidad Popular (UP).

O golpe fascista, suportado pela CIA e precedido de um bloqueio económico, levou à instauração de um regime militar liderado por Pinochet, que durou 17 anos. Allende, o presidente eleito, morreu durante o ataque ao Palácio La Moneda, sua residência oficial em Santiago, em 11 de Setembro de 1973.

Na preparação do golpe, o poder económico promoveu uma campanha mediática contra o governo da UP, em conjunto com a paralisação da rede de transportes e a fuga de capitais.

Víctor Jara, cantor, autor e dramaturgo, era um dos apoios mais destacados de Allende e do seu governo, suportado por socialistas, comunistas e outros sectores populares. Aos 40 anos, Jara foi preso no Estádio Chile (hoje Víctor Jara), torturado e morto. A 16 de Setembro, o seu corpo foi encontrado junto ao recinto desportivo cravejado de balas.

 

«Livra-nos de aquele que nos domina na miséria, traz-nos o teu reino de justiça e igualdade»

A obra de Víctor Jara é dominada pela relação com o seu Chile, particularmente com a realidade dos camponeses explorados. Os seus pais eram inquilinos na propriedade de uma poderosa família latifundiária; a sua mãe era descendente de índios Mapuche. Numa entrevista concedida em Moscovo, Jara conta que a música entrou na sua vida através das canções que surgiam no trabalho do campo e, particularmente, da sua mãe, que «tocava muito bem guitarra e cantava maravilhosamente».

Em «Plegaria a un labrador», transforma os versos católicos do Pai Nosso numa canção libertadora, de unidade camponesa na luta contra a exploração a que eram sujeitos. Durante o governo de Salvador Allende a reforma agrária chilena teve um aceleramento profundo e alcançou mais de seis milhões de hectares.

 

Levanta-te e olha as tuas mãos

Para crescer, estende-as aos teus irmãos

Juntos iremos unidos pelo sangue

Agora e na hora da nossa morte

Ámen

(Victor JaraPlegaria a un labrador)

 

«Lembro-me de ti, Amanda, correndo para a fábrica onde trabalhava Manuel»

Em «Te Recuerdo Amanda», o cantor chileno canta uma história de amor entre dois jovens operários. Dando-lhes o nome dos seus pais, Amanda e Manuel, Jara faz da canção um retrato da aliança social entre camponeses e operários chilenos que permitiu eleger um presidente com uma agenda progressista e transformadora num continente dominado por ditaduras militares.

Mas os versos retratam, também, a dureza do trabalho. Os operários vão trabalhar para a serra e, quando a sirene toca, muitos não voltam, «tampouco Manuel».

Os problemas das mulheres estão presentes na obra de Jara; numa entrevista em Cuba afirma: «A mulher não é uma escrava: é igual ao homem e tem os mesmos direitos. Pedir à mulher pureza e dedicação ao lar, e ao homem não, é ser esclavagista.»




«Nenhum canhão destruirá o sulco do teu arrozal»

Com a guerra do Vietname contestada dentro e fora dos Estados Unidos da América, Víctor Jara escreve em 1971 um álbum intitulado El derecho de vivir en paz. A canção homónima que abre o disco é toda ela dedicada ao povo vietnamita, que, à época, sofria com a ocupação parcial norte-americana, numa luta pela independência, já depois de derrotado o colonialismo francês.

Víctor Jara foi nomeado embaixador cultural do Chile por Salvador Allende, e viaja pela América Latina e pela Europa, onde participa num acto mundial contra a guerra no Vietname, em Helsínquia.

O governo chileno, dirigido por Allende, adoptou uma política internacional de respeito pela autodeterminação dos povos. O Chile integrou o movimento dos países não-alinhados, fomentou um clima de paz e cooperação na América Latina e a resolução pacífica dos conflitos.

Em Dezembro de 1972, a menos de um ano do golpe, Salvador Allende discursa na Assembleia Geral das Nações Unidas, onde denuncia as pressões externas, o bloqueio económico-financeiro e a manipulação da opinião pública chilena conduzidos pelos EUA.

 

«Somos cinco mil»

Víctor Jara morreu após tortura no Estádio Chile, em Santiago, dias depois do golpe de 11 de Setembro de 1973. Os poucos companheiros que com ele partilharam o complexo desportivo, transformado em campo de concentração, e sobreviveram contam que até ao fim cantou, tocou guitarra e escreveu. Mesmo com as mãos fracturadas pelos militares, Jara ainda cantou o hino da Unidad Popular, contam testemunhas.

Pouco antes de morrer, escreveu um último poema, em que denuncia o terror dos golpistas, que fica conhecido como Estadio Chile.

 

Somos cinco mil 
nesta pequena parte da cidade. 
Somos cinco mil.
Quantos seremos no total, 
nas cidades e em todo o país? 
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam 
e fazem andar as fábricas.

Quanta humanidade 
com fome, frio, pânico, dor, 
pressão moral, terror e loucura!

Seis de nós se perderam 
no espaço das estrelas.

Um morto, um espancado como jamais imaginei 
que se pudesse espancar um ser humano.

(Último poema de Victor Jara)

 

Víctor Jara está sepultado no Cemitério Geral de Santiago, para onde foram trasladados os seus restos mortais em 2009, numa cerimónia que contou com mais de 12 mil pessoas. O Estádio Chile, transformado em campo de concentração em 1973 e local da sua morte, foi renomeado Estádio Víctor Jara em 2003.

 

“Jara: O direito de viver em paz”, https://www.abrilabril.pt/internacional/jara-o-direito-de-viver-em-paz, 2016-07-03