sábado, 30 de maio de 2020

Amar o perdido deixa confundido este coração (Drummond)



Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma, 1951




Drummond em quatro tempos

Amar o perdido

Ler um poema é deduzir referências que o poeta deixa implícitas ou que vamos suprindo por conta própria, como se junto de cada frase do poema houvesse um asterisco remetendo para uma nota ao pé da página – só que a nota está em branco, e cabe ao leitor preenchê-la. Tem um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece um dos mais simples, mas sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. É o poeminha “Memória” (em “Claro Enigma”), talvez um dos primeiros que li do poeta, pois aparecia manuscrito em fac-símile na Enciclopédia Delta-Larousse, que foi a Internet da minha infância. Diz o poema: “Amar o perdido / deixa confundido / este coração. // Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não. // As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, / essas ficarão”.
Quatro estrofezinhas, cada uma com quinze sílabas métricas, numa cadência 5-5-5 cujo ritmo implacável é reforçado pelo “ão” com que se encerram. A estrofe inicial não tem mistério: “Amar o perdido deixa confundido este coração”. À primeira vista é o tema da perda da pessoa amada, um dos grandes lugares comuns da poesia lírica. Mas eu penso que CDA se refere a algo mais sutil: o amor que só brota após a perda. Como ocorre com a amante do poema “Caso do vestido” (em “A Rosa do Povo”), que confessa à mulher cujo marido roubou: “Eu não tinha amor por ele / ao depois amor pegou”. Ou então a fórmula que ele estabelece no poema “Perguntas” (também em “Claro enigma”), em que o Poeta vê um “fantasma” no espelho trazendo-lhe recordações da infância e dizendo-lhe, ao se despedir: “Amar, depois de perder”. O que talvez seja a versão drummondiana para outro lugar comum: “eu era feliz e não sabia”.
Amar o perdido confunde o coração do poeta porque insinua a possibilidade de que na verdade só amamos o que não temos. Nosso objeto preferencial de amor é o sonho, a utopia, o inalcançável – ou, mais realistamente, o ainda inalcançado. Somos todos Don Juans a quem a conquista fascina e a posse provoca o tédio. Ou então somos crianças freudianamente impelidas por pulsões de tal magnitude que nada as satisfaz, nem mesmo a conquista do objeto desejado. O desejo que não foi satisfeito hoje nunca poderá ser satisfeito amanhã, porque nesse caso estaremos satisfazendo apenas o desejo de amanhã. Basta ter desejado em vão por um minuto para continuar desejando por toda a Eternidade.
O verdadeiro desejo nunca é satisfeito, porque o que no fundo desejamos é um objeto total, um arquétipo platônico que funde em si todas as possibilidades daquele ser – e o que obtemos na vida real é o objeto real, com suas incompletudes e defeitos. É como desejar o Oceano e poder apenas encher as mãos em concha. Amamos o que é conquistado, mas amamos ainda mais o que não conquistamos, porque é um sonho que não se desvalorizou em realidade.

Nada pode o olvido

A segunda estrofe do poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (em “Claro Enigma”) diz: “Nada pode o olvido / contra o sem sentido / apelo do Não”. É um poema sobre a perda amorosa, à primeira vista muito simples, mas a facilidade de Drummond é enganosa. Seu método criativo parece com o de Paul MacCartney, que dizia: “Eu pego uma idéia simples e vou complicando, vou complicando… Então, quando ela está bem complexa, eu começo a simplificar de novo”. É escusado dizer que a simplicidade que se obtém no final do processo é de caráter distinto da que o artista teve como ponto de partida.
Voltando ao poema, é preciso deixar claro que o poeta se refere ao Olvido, o Esquecimento. Já vi esse poema transcrito por aí com o absurdo erro de dizer: “Nada pode o ouvido…” É o típico caso da contaminação oral da pronúncia, agravado pelo fato de que, enquanto aqui no Nordeste a gente em geral pronuncia “ól-VI-do”, no Sudeste muita gente diz “ôl-VI-do”, o que ajuda a confundir.
Portanto, o Esquecimento nada pode contra o apelo absurdo, o apelo sem significado do Não. Eu sempre empanquei diante deste verso. Por mais que tente analisá-lo, nunca chego a fechar um resultado. É uma verdadeira dízima periódica poética, a gente pode continuar dividindo por todos os “século seculóro”, como diz o matuto, e nunca vai fechar a conta.
O Poeta parece estar dizendo que o Não (a negação, a impossibilidade, a proibição, a ausência, todos os correlatos dessa idéia básica) tem um apelo sem sentido. Esse “apelo” do Não não é uma imagem poética que me diga alguma coisa. Podia ser uma porção de coisas relativas ao Não, mas… apelo? Posso explicar racionalmente o uso dessa palavra, mas um verso, como uma piada, não é para ser explicado, é para ser apreendido num segundo. Se isto não acontece, de nada adianta explicar. O “apelo do Não”, portanto, é uma imagem poética que me entra por um ouvido e sai pelo outro.
Mas enfim – o Poeta nos garante que o apelo do Não existe, e que é algo contra o qual nada pode o Esquecimento, o Olvido. O Não impõe suas próprias regras às quais não podemos fugir, e à luz da primeira estrofe (“Amar o perdido deixa confundido este coração”) podemos aceitar que este Não se refere à perda, à ausência, à impossibilidade de ter ou de continuar tendo. E contra isto, nada pode o esquecimento. É inútil (ou é impossível) esquecer a perda, mesmo que ela seja sem sentido.
Analisar um poema desse jeito é uma coisa chata, que eu comparo com querer interpretar um quadro da Van Gogh analisando a composição química das tintas. A gente só deve fazê-lo quando o poema for opaco, quando a gente não estiver encaixando as frases, quando a conta não bater. Aí, vale parar e tentar ler o poema como se fosse a resolução de uma equação, onde cada linha é um resultado lógico de uma operação invisível que ocorreu na mente do autor entre uma linha e a seguinte.

As coisas tangíveis

A terceira estrofe do poema de Drummond, “Memória”, diz assim: “As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão”. Sendo um poema sobre a perda amorosa, a primeira leitura destes versos refere-se à ausência – nossa mão, que antes sentia a presença de algo concreto, tocável, tangível, não a sente mais. Vejo uma sutileza curiosa no uso desta imagem da “palma da mão”. Porque me parece que o ato de tocar, experimentar, acariciar algo se dá primeiro pelas pontas dos dedos, que funcionam para nós como as antenas de alguns insetos. O tato que temos nas pontas dos dedos é muito mais refinado e mais reconhecedor de diferenças do que a palma da nossa mão. Por que a palma da mão? Porque ela serve, mais do que para tocar, para reter. Para estabelecer a posse. Na informalidade dos bate-papos amorosos vangloriamo-nos dizendo: “Fulana tá aqui, olha, na minha mão” – e estendemos a palma para reforçar. Se algo não pode mais ser sentido na palma da nossa mão, não nos pertence mais.
Essa imagem me lembra os versos de outro poema do mesmo livro (“Claro Enigma”), o belíssimo “Campo de Flores”, onde o poeta diz: “Seu grão de angústia amor já me oferece / na mão esquerda. / Enquanto a outra acaricia / os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura / e o mistério que além faz os seres preciosos / à visão extasiada”. Esta imagem da mão acariciante me evoca os versos sensuais de Bob Dylan em “I Threw it All Away” (“Eu Joguei Tudo Fora”), canção de 1969: “Um dia eu tive montanhas na palma da minha mão / e rios que fluíam o dia inteiro…” E vejam com que delicadeza Drummond passa da mera posse física para a posse em seu sentido mais pleno, a posse da pessoa total e de tudo que ela inclui, ao dizer que a mão não acaricia apenas os “cabelos”, mas também a “voz”, o “passo”, a “arquitetura”…
E tem mais.  Observem o duplo sentido da palavra “insensível”.  Insensível é aquilo que não sente (“você é uma pessoa insensível”), e também aquilo que não pode ser sentido, imperceptível (“houve uma mudança insensível de temperatura”).  Portanto, as coisas que antes eram tocadas com as mãos já não são sentidas – nem sentem.  A ausência, como a presença, é um fenômeno recíproco. Tudo que toca é tocado. Toda mão que acaricia é também acariciada no mesmo gesto. E tudo que não podemos sentir também não nos sente.
É como a reciprocidade da dor, registrada em outro poema do mesmo livro, “A Um Varão, Que Acaba de Nascer”: “Este é de resto o mal / superior a todos: / a todos como a tudo / estamos presos. E / se tentas arrancar / o espinho de teu flanco, / a dor em ti rebate / a do espinho arrancado”. Quando a ausência se instaura, não existe mais sofrimento mútuo nem prazer mútuo: apenas a falta de contato entre duas “coisas” que, mesmo tangíveis, mesmo possíveis de alcançar com a mão, não se sentem mais uma à outra.

Mas as coisas findas

O poema “Memória” de Carlos Drummond de Andrade (no livro “Claro Enigma”) se encerra com esta singela estrofezinha: “Mas as coisas findas / muito mais que lindas / estas ficarão”.  É uma estrofe perfeita, em todos os sentidos, para fechar este poema sobre a perda e a ausência. Como falei no primeiro comentário, o poema tem quatro estrofes, cada estrofe três linhas, cada linha cinco sílabas. A contagem das sílabas métricas varia de leitor para leitor; eu as leio assim: “Amar o perdido (2-3) / deixa confundido (1-4) / este coração (1-4). // Nada pode o olvido (3-2) / contra o sem sentido (1-4) / apelo do Não (2-3). // As coisas tangíveis (2-3) / tornam-se insensíveis (1-4) / à palma da mão (2-3). // Mas as coisas findas (3-2) / muito mais que lindas (3-2) / essas ficarão (3-2).” A leitura métrica da última linha (que teoricamente seria 1-4, “es – sasficarão”) vira “essasfi-carão”, claramente influenciada pela das duas linhas anteriores, o que não ocorre com a última linha da segunda estrofe, quando isto forçaria um cacófato (“apelu-donão”).
É um poema minúsculo e de grande simetria, mesmo admitindo as variações de ritmo descritas acima. A simetria é reforçada pela reiteração de rimas toantes centradas na vogal “I” nas linhas 1 e 2 de cada estrofe, e na sonoríssima rima em “ÃO” nas terceiras linhas. (Se eu fosse escrever um Decálogo para jovens poetas eu incluiria: “Economize a rima em “ÃO”, a qual, como as armas de fogo, só deve ser usada em casos de absoluta necessidade”).
O poeta fala da perda daquilo que foi amado, mas se consola dizendo que existe algo mais importante do que as coisas lindas: são as coisas findas. “Findas” significa encerradas, terminadas.  As coisas que acabaram, ficarão. Vejam que belo paradoxo!  Nossa sensação intuitiva é de que se essas coisas se acabaram, não ficaram. Drummond sugere o contrário. As coisas findas ficarão porque provavelmente se cristalizaram, despregaram-se da realidade (que é fluxo, transformação, incerteza) e tornaram-se Forma, Idéia – tornaram-se Memória. Vejam com que segurança o poeta usa este termo no futuro, “ficarão”. Me lembra o que disse Mário Quintana: “Esses que aí estão / atravancando meu caminho / eles passarão / eu passarinho”. É como se dissesse: “eles passarão, eu ficarei”.
Que passarinho é este que fica? Maldo eu que seja o rouxinol cantado celebremente pelo inglês John Keats, no poema “Ode To a Nightingale”, que examino no capítulo “S” do meu “ABC de Ariano Suassuna” (e que examinei em maior detalhe nesta coluna: “A eternidade dos pássaros”, 8.9.2004). É o pássaro imortal que canta o mesmo canto por toda a eternidade. É a memória, que preserva em seu âmbar as coisas findas. Que na ficção científica foi assim definida por Frank Herbert (“Duna”): “Arrakis ensina a mentalidade da faca: cortar aquilo que está incompleto e dizer – Agora está completo porque termina aqui”.
 

QUESTIONÁRIOS

O tema do poema “Memória" de Carlos Drummond de Andrade é
(A) o sentimento de que as melhores lembranças da vida permanecerão.
(B) a saudade dos tempos em que tudo era mais fácil de amar.
(C) o desejo de retornar aos antigos amores do passado.
(D) o pedido para que o coração não se confunda.
(E) a vontade de encontrar amores perdidos.
https://brainly.com.br/tarefa/21904999

***

1) Uma das características da poesia de Drummond é que ela passa por diversas fases, indo de textos mais convencionais a outros mais experimentais. Sobre a estrutura poética de “Memória”, é correto afirmar:
(A) Cada uma das quatro estrofes apresenta três versos e cada um deles apresenta cinco sílabas poéticas.
(B) Cada uma das quatro estrofes apresenta três versos e cada um deles apresenta um número de sílabas poéticas diferente do anterior.
(C) O poema apresenta estrofes irregulares e versos com cinco sílabas poéticas cada.
(D) É possível contar as estrofes, mas não é possível fazer a contagem das sílabas poéticas.
(E) A organização dos versos e das estrofes não importa para a construção do sentido poético.

2) Reconhece-se em “Memória”:
(A) utilização de versos livres e brancos, sem rimas.
(B) as rimas mudam a cada estrofe, rompendo com a musicalidade poética.
(C) rígido esquema rítmico, marcado por a/a/b.
(D) a repetição do som “ão” não importa para os sentidos construídos pelo poema.
(E) as rimas no poema são acidentais e não obedecem a nenhum tipo de regra.

3) A primeira estrofe permite inferir que:
(A) as experiências amorosas significam aprendizado.
(B) os sentimentos não obedecem à razão, mas a impulsos incontroláveis.
(C) não se ama o que se possui, mas apenas o que não se tem.
(D) o sentimento repousa sobre a razão do coração.
(E) amar o que não se possui gera inquietação e tensão.

4) O termo “olvido” (segunda estrofe) significa:
(A) ouvido.
(B) sentido.
(C) lembrança.
(D) esquecimento.
(E) riqueza.

5) Pode-se depreender da segunda estrofe:
(A) O “Não” significa o consolo do eu-lírico diante do amor perdido.
(B) O “apelo do Não” se refere à perda do ser amado.
(C) É possível esquecer o amor perdido.
(D) O “apelo do Não” significa a superação da perda.
(E) Não há sentido em amar, porque a perda do que se ama é inevitável.

6) Segundo o contexto, “As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão”, quando:
(A) esquece-se de um amor.
(B) ama-se o que foi perdido.
(C) nega-se o objeto amoroso.
(D) confunde-se a razão, pela perda da possibilidade de amar.
(E) aceita-se a vida e as suas perdas.

7) A última estrofe, em diálogo com o texto como um todo, permite afirmar que:
(A) as coisas terminam definitivamente, mesmo se lindas.
(B) tudo na vida é passageiro e termina, mesmo quando parece eterno.
(C) as coisas que acabam são as coisas lindas.
(D) as coisas lindas permanecem, mesmo quando parecem ter terminado.
(E) as coisas lindas estão predestinadas a acabarem.

8) O autor do poema é estudado em qual das escolas literárias?
(A) Simbolismo
(B) Romantismo
(C) Modernismo
(D) Arcadismo
(E) Barroco

9) Carlos Drummond de Andrade é contemporâneo a:
(A) Manuel Bandeira
(B) Cruz e Sousa
(C) Gonçalves Dias
(D) Machado de Assis
(E) Padre Anchieta

10) O poema, lido em diálogo com seu título “Memória”, sugere que:
(A) a fé em alguma religião permite que se conceba a eternidade.
(B) tudo o que existe perde seu valor com a passagem do tempo.
(C) as coisas se desmancham e definham rapidamente no dia-a-dia.
(D) a memória guarda mais momentos ruins do que bons.
(E) a memória eterniza as belezas da vida.

11). O uso de “este” antes de “coração” (terceiro verso) posiciona o substantivo com relação ao eu-lírico. Essa condição é garantida pela classe gramatical conhecida por:
(A) pronome indefinido.
(B) pronome pessoal.
(C) pronome demonstrativo.
(D) conjunção.
(E) numeral.

12) Dentro do contexto em que se apresenta, o “Não”, tradicionalmente conhecido por ser um advérbio de negação, é classificado como:
(A) adjetivo
(B) pronome demonstrativo
(C) pronome indefinido
(D) interjeição
(E) substantivo

13) O uso do pronome pessoal do caso oblíquo em “tornam-se insensíveis” contribui para a construção da:
(A) voz reflexiva
(B) voz ativa
(C) voz passiva sintética
(D) voz passiva analítica
(E) voz ativa e passiva

14) A última estrofe se opõe aos sentidos construídos pelas estrofes anteriores. Essa oposição de significados é explicitada no uso do conectivo “Mas”, classificado sintaticamente como:
(A) conjunção coordenativa aditiva.
(B) conjunção coordenativa alternativa.
(C) conjunção subordinativa adverbial condicional.
(D) conjunção coordenativa adversativa.
(E) conjunção coordenativa conclusiva.

Centro Universitário da FEI, Vestibular 2º/2012

***

Considerando o poema “Memória” e o livro Claro Enigma, assinale a alternativa correta.

a. Apesar de possibilitar uma leitura fluida e ritmada, “Memória” aborda a temática da transitoriedade, opondo aquilo que é claro ao que é enigmático, procedimento característico dessa fase da poesia de Drummond.

b. Ao contrário de grande parte dos poemas de Claro enigma, que exploram as formas poéticas clássicas, “Memória” retoma a estética do primeiro modernismo, tanto pelos versos livres como pelo humor.

c. A confusão a que o poeta se refere relaciona-se à temática predominante em Claro enigma, elemento responsável pela diferenciação entre essa obra e as anteriormente publicadas por Drummond: a temática amorosa.

d. A oposição entre “coisas tangíveis” e “coisas findas” exemplifica o caráter religioso presente na poesia de Drummond desde sua estreia, em 1930, até os livros publicados postumamente.

e. Por se tratar de um soneto, a estrofe final resume a ideia central do poema: aquilo que já acabou pode se tornar belo mesmo que escape à memória, pois só a morte dá sentido à existência humana.


***

Sobre esse texto, é correto dizer que

a) a passagem do tempo acaba por apagar da memória praticamente todas as lembranças humanas; quase nada permanece.
b) a memória de cada pessoa é marcada exclusivamente por aqueles fatos de grande impacto emocional; tudo o mais se perde.
c) a passagem do tempo apaga muitas coisas, mas a memória afetiva registra as coisas que emocionalmente têm importância; essas permanecem.
d) a passagem do tempo atinge as lembranças humanas da mesma forma que envelhece e destrói o mundo material; nada permanece.
e) o homem não tem alternativa contra a passagem do tempo, pois o tempo apaga tudo; a memória nada pode; tudo se perde.

(Ita 2005)

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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Como fazer um poema visual



A poesia visual, para além de trabalhar a polissemia das palavras, explora também significados associados à disposição das palavras na folha.



POEMA VISUAL 0 – CALIGRAMA / WORD ART

O termo caligrama refere-se a um texto, habitualmente um poema, em que há uma associação entre a disposição gráfica das palavras e/ou letras e o seu conteúdo.

Por exemplo, no caso do poema de Ronaldo Azeredo, a repetição da letra -v- e a forma como esta preenche a página remetem para a ideia de velocidade, que corresponde à palavra que é trabalhada.



No caligrama «Escada», de Jaime Salazar Sampaio, a disposição das linhas e das palavras representa uma escada e o seu patamar. Através da metáfora utilizada na expressão «escada forrada de palavras» associa-se a realidade das palavras à realidade da escada através da representação de uma imagem em que as palavras acompanham os degraus. Quando se chega ao patamar, volta-se rapidamente ao ponto de partida.



Explora tua criatividade, desenhando caligramas com as tuas palavras ou utilizando formas pré-definidas que se relacionem com o tema que pretendes desenvolver:

  • Por exemplo, escolhe um objeto para ser o tema do teu poema. Boas sugestões para iniciantes podem ser animais ou comidas favoritas.

  • Desenha um contorno simples no papel ou no computador. Se estiveres a usar o papel, desenha com um lápis, não com uma caneta.

  • Escreve o teu poema normalmente. Tenta descrever como o assunto te faz sentir. As palavras serão encaixadas no teu desenho, portanto, não o torne muito longo (entre 6ª 12 linhas é, provavelmente, um bom tamanho).

NÃO É OBRIGATÓRIO RIMAR!

  • Escreve (a lápis ou no computador) o teu poema dentro da forma. Não há problema se ainda não couber bem dentro dos limites, porque é aqui que descobres se precisas aumentar ou diminuir a escrita.

  • Decide se precisas aumentar ou diminuir a tua escrita em certas partes do desenho, então apaga o teu primeiro rascunho e escreve o poema novamente. Podes repetir este procedimento até ficares satisfeito com o resultado.

  • Por fim, apaga o contorno da tua forma, de modo que sejam apenas as palavras do teu poema que criam a imagem! Se estavas escrevendo a lápis, agora podes passar as palavras com a caneta!  (https://www.poetry4kids.com/lessons/how-to-write-a-concrete-poem)


Para criares o teu poema, à maneira dos poetas “concretistas”, podes também utilizar um gerador de poesia visual ("Wordcloud generator" ou "Nuvem de Palavras"disponível nas hiperligações a seguir:





POEMA VISUAL 1 – CORTAR PALAVRAS

Pega em algo que escreveste recentemente.
Pode ser uma nota ou uma mensagem de texto (sms).
Extrai um fragmento do texto.
Podes reescrevê-lo, imprimi-lo e recortá-lo.
Junta as palavras novamente para criar um poema.

Até que ponto a alteração das palavras te permite enfatizar as partes importantes do poema?

Os primeiros artistas que criaram poemas desta maneira quebraram muitas regras e conceitos pré-concebidos sobre a escrita poética. 

"Tipografia Bizzeffe", Ardengo Soffici


POEMA VISUAL 2 – APROPRIAÇÃO

Apropriação: a prática de incorporar elementos de um trabalho literário ou visual pré-existente com a finalidade de criar um novo objeto artístico.

Carrie Mae Weems, no exemplo que se segue, apropriou-se de fotografias de afro-americanos do séc. XIX.

"From Here I Saw Happened And I Cried" (1995)

A artista ampliou e reimprimiu as fotografias em vermelho, reenquadrando-as com as suas próprias palavras gravadas em vidro.
Weems justapõe o texto e a imagem para criar algo novo.
Por causa dessas mudanças, como experiencias o retrato de forma diferente?

Seleciona uma fotografia importante para ti e transforma-a, utilizando um editor de imagem (saturação da cor, luminosidade, contraste, nitidez…).
A seguir, sobrepõe as tuas próprias palavras à imagem, isto é, diz algo importante sobre a tua fotografia. (Que mistério estará oculto na frase poética que criaste?)





POEMA VISUAL 3 – COLAGEM

Recorta figura(s) ou objeto(s) de fotografia(s).
Combina as imagens de uma maneira que nunca verias na vida real.
Atribui um título ao trabalho, com as palavras selecionadas numa citação favorita, filme ou poema.


Como é que um título emprestado altera o significado de uma obra de arte?

Onde vês mais poesia visual?
Onde vês poesia visual na tua vida?


Fonte: «How to Make a Visual Poem», The J. Paul Getty Museum, 2013 (adaptado)




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terça-feira, 26 de maio de 2020

Balada Astral, Miguel Araújo




Miguel Araújo - Balada Astral

Quando Deus pôs o mundo
E o céu a girar
Bem lá no fundo
Sabia que por aquele andar
Eu te havia de encontrar

Minha mãe, no segundo
Em que aceitou dançar
Foi na cantiga
Dos astros a conspirar

Que do seu cósmico vagar
Mandaram o teu pai
Sorrir pra tua mãe
Para que tu
Existisses também

Era um dia bonito
E na altura, eu também
O infinito
Ainda se lembrava bem
Do seu cósmico refém

Eu que pensava
Que ia só comprar pão
Tu que pensavas
Que ias só passear o cão
A salvo da conspiração
Cruzámos caminhos,
Tropeçámos num olhar
E o pão nesse dia
Ficou por comprar

Ensarilharam-se
As trelas dos cães,
Os astros, os signos,
Os desígnios e as constelações
As estrelas, os trilhos
E as tralhas dos dois


Balada Astral
Letra e música: Miguel Araújo
Miguel Araújo: Voz e guitarra acústica
Inês Viterbo: Voz
Maria Vasquez: Acordeão
João Martins: Saxofone Alto e arranjo de sopros
Paulo Gravato: Saxofone Tenor
Rui Pedro Silva: Trompete
Paulo Perfeito: Trombone
David Lloyd: Violino
Pedro Romualdo: Guitarra acústica
Diogo Santos: Piano
Pedro Santos: Baixo Eléctrico
Mário Costa: Bateria
Bruno Ribeiro: percussões

Gravado, misturado e masterizado por João Bessa nos Boom Studios em Dezembro de 2013.
Produzido por João Bessa, João Martins e Miguel Araújo


E aqui está a primeira música a sair do lote das faixas que fazem parte das "Crónicas da Cidade Grande". Esta versão foi gravada mesmo assim, ao vivo nos Boom Studios, sem cortes nem edições. Aquele saravá do coração ao João Martins e ao João Bessa, que produziram o disco comigo, e a todos os músicos cujo talento e generosidade compõe este novo álbum
Obrigado ao grande André Tentugal pelo vídeo. Um grande beijinho à Inês Viterbo por cantá-lá tão bem. Obrigado à Rádio Comercial pela força, mais uma vez. E claro, aquele saravá ao Luis e à Maria, cujo casamento serviu de mote a esta Balada Astral e permitiu que eu conhecesse os talentos de uma tal Inês, que eu desconhecia até esse dia. Espero que gostem!" Foi assim que Miguel Araújo Jorge que apresentou o seu novo tema. Digam o que acharam de "Balada Astral".

Miguel Araújo - Crónicas da Cidade Grande



domingo, 24 de maio de 2020

OVA ORTEGRAFIA, Maria Velho da Costa



UM TEXTO DE MARIA VELHO DA COSTA
Em Outubro de 1973, recebi no interior da Guiné mais uma daquelas encomendas que o meu querido amigo e poeta J. H. Santos Barros me ia fazendo chegar como contributo para a minha sanidade mental e sobrevivência no pântano. Era a manifestação possível de amizade por parte de quem já fizera a sua experiência de sobrevivência em Angola.
Essa encomenda incluía um precioso livrinho de Maria Velho da Costa, «Desescrita», editado nesse mesmo ano e que trazia um notável texto curto intitulado «Ova ortegrafia». Publicado anteriormente no jornal «República» em Junho de 1972, era um inteligente e sagaz exercício literário e linguístico sobre a censura, melhor dizendo, sobre os censores, os «cortadores» da palavra, da língua.
Convocando, em registo derrisório,  alguns chavões do discurso político dominante e também os preconceitos contra o experimentalismo literário, mimetizando  a «escrita do corte»  (a cortegrafia), «Ova Ortegrafia» constituía ainda assim uma manifestação de experimentalismo, instaurava no seu interior imprevistas e subtis derivas semânticas e constituía uma denúncia da instituição censória, jogando abertamente no terreno do inimigo, a quem o texto seria dado a  ler.
Deixo abaixo o texto, em dupla evocação:  da autora e  de J. H. Santos Barros, falecido abruptamente a 20 de Maio de 1983.
 Urbano Bettencourt, 2020-05-24



OVA ORTEGRAFIA
Maria Velho da Costa
Ecidi escrever ortado; poupo assim o rabalho a quem me orta. Orque quem me orta é pago para me ortar. Também é um alariado. Também ofre o usto de ida. Orque a iteratura deve dar sinal da ircunstância, e não tem ustificação oral. E ais deve ter em conta todos os ofrimentos, esmo e rincipalmente os daqueles ujo rabalho é zelar pela oralidade e ordem ública – os ortadores.
Eu acho que enho andado esavinda omigo e com a grei, com tanta iberdade de estilos e emas e xperimentalismos e rocadilhos  que os ríticos e  eitores dizem arrocos e os ortadores, pelo im pelo ão, ortam. A iteratura eve ser uma oisa éria e esponsável. Esta é a minha enúncia ública. (Eço esculpa de esitar nalguns ortes, mas é por pouco calhada neste bom modo de scrita usta ao empo e aos odos).
Izia eu que o ortuguês que ora, nesta ora de rudência e sforço, se não reduz à orma imples, não erve a vera íngua da Pátria. (Por enquanto só orto ao omeço, porque a arte de ortar não é fácil; rometo reinar-me até udo me aír aturalmente ortado e ao eio e ao im).
Outros jovens me eguirão o rilho. Odos não eremos emais para ervir na etaguarda os que, em árias frentes, por nós se mputam.
A issão do scritor é dar estemunho e efrigério aos e dos omentos raves da istória, ao erviço dos ideais da sua omunidade; ervir a oz do ovo, espeitar a oz dos overnantes egítimos.
Olegas, em ome da obrevivência da íngua, vos eço pois:
Reinai-vos a ortar-vos uns aos outros
como eu me ortei.
(«Desescritas». Afrontamento, 1973)
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