quinta-feira, 11 de outubro de 2007

CRIAÇÃO VELHA (José Carreiro)


      
      
          
              
CRIAÇÃO VELHA
          
I
          
Movem-se quilhas pelas ribanceiras
os putos elevam areias, brincam com os forcados
e por guloseimas trocam as fisgas.
            
No caminho vertem, sacodem as ancas as raparigas.
Colhem olhares, ditos e manguitos que se fazem entre os rapazes.
Soletram-se as carnes com gestos desajeitados.
Nos quintais há o odor a rosmaninho,
uma emanação volátil dos corpos.
            
Passo os dias sem mais nada
apenas um ligeiro cuspir nas mãos antes de pegar na enxada.
Aguardo que o boi tresmalhado se erga e desfigure em gente.
Pareço estar separado dos ritos dos mitos
e das estações.
O que eu sei.
Perla ou imago pode o limo parecer.
          
Por vezes repelidos do chão em ardência
revivemos os lastros dias
imensos desejos.
Por vezes sonhamos
e não fazendo disso um árduo sentido
levamos horas infindas a lavar a escoroar
levamos e trazemos e desculpamos as vociferias.
           
Aqui faz sentido agora a toda a hora
na nossa pressa e gentes
o bafio dos sótãos
a palha quente nas arribanas.
      
II
      
– É aqui que a gente passa o tempo
cordialmente e sem muito o que fazer
é aqui que a gente ri muito muito desmesuradamente
ah a gente ri, faz festas, tudo é assim
muito cordialmente
é assim que a gente gosta
leva o nosso homem para casa e
faz muito amor muito
é assim que a gente gosta.
              
Virgínia deu seu seio
Virgínia sofre por suma
aquela boca imaculada impoluta.
Ó ribeiro manso.
Ali, mesmo junto às pedras,
aquecidas as mãos pousadas sob o dorso, o campo rigoroso.
            
Na metalurgia antiga, a liga, a obra fundida interminada
cobre sem que se possam separar o metal e o fel.
No lugar da Criação Velha
a mulher do ferreiro não diz as antigas lendas.
Se a mulher terminar na montanha a liga, o lugar no casal
é porque se deu a união no forno no cadinho do ferreiro e dela.
             
In Arraianos nºVII. A vida nas aldeas
Santiago de Compostela, Alvarellos Editora, Janeiro 2008, p. 123.
      
      






CARREIRO, José. “Criação Velha”. Portugal, Folha de Poesia: artes, ideias e o sentimento de si, 11-10-2007. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2007/10/criacao-velha.html (2.ª edição) (1.ª edição: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/10/11/lugares1.aspx)


quarta-feira, 12 de setembro de 2007

ULISSES NA ILHA DE CIRCE (José Carreiro)

Flor de Lotus (National Papyrus Center, Giza, Egipto)

      



ULISSES NA ILHA DE CIRCE
     
      
I. ULISSES
    
Que força é esta ou que prazer identifico
no lótus que me ofereces?
O que eu posso comer faz-me diverso de meus companheiros.
O chão reparte a flor de lótus
sendo a escolha uma ordem: o prazer.
Lançarei os braços em toda a certeza do espaço
e voltarei ao mar corrido este torpor que sinto.
Eu demoro, prudente, e mais me separo
de quem me espera.
Algo em mim será sem retorno.
     
    
II. CIRCE
    
Um sopro aclara a falange redita pelo sol.
Um canto obscuro vem trazer a raiva
de me saber traída.
Como podes escolher a outra casa
como posso ser nada se me destino a ti.

    
Chuva de Época, Ponta Delgada, 2005.





CARREIRO, José. “Ulisses na ilha de Circe”. Portugal, Folha de Poesia: artes, ideias e o sentimento de si, 12-09-2007. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2007/09/flor-de-lotus.html (2.ª edição) (1.ª edição: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/09/12/ulisses.aspx)


quarta-feira, 20 de junho de 2007

CAMÕES, HERÓI HUMANISTA

                 

               
               
                 
HUMANISMO CÍVICO EM OS LUSÍADAS 
                   
Por: José Maria de Aguiar Carreiro
              
               
                             
              
              
DIMENSÃO EXEMPLAR DA HISTÓRIA NARRADA
              
A história narrada em Os Lusíadas tem uma dimensão exemplar, por apresentar factos e figuras como modelos a seguir, bem como atitudes a evitar (estas em menor número).
              
Quem são as personagens agentes de feitos ilustres notáveis?
              
São muitas. São os heróis da navegação, da conquista, os reis portugueses que dilataram a Fé e o Império, que difundiram a civilização nas terras de África e Ásia; são também aqueles cujo nome ficou na História por actos de excepção… (cf. Canto I, 1-2)



              
Os Lusíadas, canto I



              
Em Os Lusíadas, especialmente a partir do Canto V, no final de cada Canto, há partes que não são narrativas, porque o poeta aproveita para tecer os seus comentários e críticas. Contudo, segundo os cânones da epopeia, o Poema de Camões deveria ser alheio à pessoa do poeta. É neste sentido que Luís António Verney, no séc. XVIII, faz as seguintes críticas:
              
“Errou o Camões em não sustentar sempre o carácter e grandeza do seu herói, que abaixa sensivelmente no canto VIII, do meio para diante. Errou nas enfadonhas digressões que introduz por toda a parte. Errou em acabar quase todos os Cantos com exclamações mui fora de propósito e muito contra o estilo da epopeia.” (in Carta VII do Verdadeiro Método de Estudar, Editorial Presença, p. 168).
              
De opinião oposta à anterior, Eduardo Lourenço, dois séculos mais tarde, diz o seguinte:
              
“Os Lusíadas não são a primeira epopeia realista dos tempos modernos, mas a primeira que nada perdeu da sua força, graças ao fulgor da sua forma, quer dizer, graças à sua autonomia de poema humanista, de realidade escrita” (“Camões e o tempo ou a razão oscilante” in Poesia e Metafísica, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1983, p. 34)
              
Um dos propósitos de tais intromissões do poeta é o de doutrinar e construir, por cima do tradicional herói guerreiro, um novo tipo de herói, o humanista.
              
              

O HERÓI POSSÍVEL
              
Camões, em Os Lusíadas, apresenta o heroísmo em termos teóricos, programáticos, havendo uma distância entre a perfeição idealizada e o plano da realidade.
              
Primeiro, Camões anuncia as formas de comportamento que o herói deve evitar (Canto VI, 95-96): não descansar à sombra dos louros conquistados pelos seus antecessores e evitar a ociosidade, inércia e comodismo.
              
Depois, anuncia o programa em forma afirmativa (Canto VI, 97-99): necessidade de exercício, esforço da coragem e capacidade de enfrentar todo o tipo de sofrimento.
              
Assim, advêm-lhe não só honras próprias, isto é, do seu próprio mérito, como também coragem para enfrentar os perigos de guerra e para dominar o medo e a comoção – manifestações exteriores que se forem moldadas dão-lhe uma superioridade moral e uma serenidade intelectual.
              
Numa sociedade justa e bem organizada, um homem destes será chamado ao desempenho de cargos de responsabilidade: será chamado “contra vontade sua, e não rogando” (Canto VI, 99). Requer-se um homem desprendido do poder, que aceite exercer cargos mesmo sem o desejar, apenas movido por uma consciência cívica de servir a pátria.
              
O bom herói, ou bom português, deve renunciar a tirania, a ociosidade, a cobiça, as “honras vãs”, o “ouro puro” (cf. Canto IX, 92-95) –  pois,
              
Melhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.
              
Cumpridos estes preceitos,
              
Sereis entre Heróis esclarecidos
E nesta Ilha de Vénus recebidos
(Canto IX, 95)
              
Apesar de tal prémio, este tipo de herói ainda não corresponde, por completo, ao ideal ético do poeta dos tempos novos.
              
              

O PODER DO POETA
              
Em última análise, quem premeia os nautas com uma ilha mitológica é o próprio vate ao resgatá-los do esquecimento (da lei leteia), dispensando-lhes a fama e imortalidade no e atravésdo seu canto.
              
O rudo canto meu, que ressuscita
as honras sepultadas,
as palmas já passadas
dos belicosos nossos Lusitanos,
para tesouro dos futuros anos,
convosco se defende
da lei leteia, à qual tudo se rende.
(Ode VII)
              
              
Nas estâncias 83 a 87 do Canto VII, Camões chega a enumerar as pessoas que não merecem a glória que o canto do poeta dá: os lisonjeiros; os que actuam movidos por um interesse pessoal em prejuízo de um bem comum e do seu rei; os que actuam movidos pela ambição (os que sobem ao poder por influências, compra de cargos de importância), permitindo dar largas aos seus vícios; e os que exercem despoticamente o poder.
              
O poeta chega ao ponto de se queixar do facto de a aristocracia portuguesa, representada na pessoa de Vasco da Gama, não ser amiga das Musas:
              
Que ele, nem quem, na estirpe, seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga
(Canto V, 99)
              
Por isso, diz, não é por Vasco da Gama que as Musas (o poeta) cantam; é pela pátria:
              
Às Musas agradeça o nosso Gama
O muito amor da pátria, que as obriga
A dar aos seus, na lira, nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga
              
E mais: “se este costume dura” Portugal ficará pobre em heróis:
              
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque quem não sabe arte, não na estima.
              
Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias nem Aquiles feros.
(Canto V, 97-98)
              
Sem Virgílio não há Eneias, sem Camões, Gama.
              
Em toda a sua poesia, a começar no canto épico, há a expressão, quase cansada, de uma decepção causada por uma crise inerente à sua época.
              

              
O HERÓI HUMANISTA
              
“A melhor forma de serviço público e de empenhamento cívico, aquela em que se logra a desejada simbiose entre a vida activa e a vida contemplativa, é a do homem de intelecto, do humanista, que é simultaneamente um homem de acção, um soldado. Por isso tanta importância tem no nosso discurso histórico-literário o topos das Armas e Letras.
              
Doravante a ideia de mérito e experiência individual, sempre que se trate de eleger alguém para lugares de responsabilidade pública, vai sobrepor-se à ideia de linhagem e privilégio de nascimento.” (Luís de Sousa Rebelo, A tradição clássica na literatura portuguesa, Lisboa, Livros Horizonte, 1982).
              
Nesta ordem de ideias, há uma visão de conjunto sobre os heróis portugueses como sendo imperfeitos (cf. Canto V, 92-97), por não ultrapassarem o desenho tradicional do herói cavaleiresco.
              
O poeta diz ter vergonha destes heróis, porque são ignorantes, ao contrário dos Antigos, como Octávio que,
              
[…] entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos
(Canto V, 95)
              
As figuras da Antiguidade são o paradigma humanista da associação das ARMAS e das LETRAS.
              
Da galeria de heróis de Os Lusíadas, Nuno Álvares Pereira é aquele que Camões decide construir à medida do novo conceito de herói, pois é representado como excelente na capacidade de discursar (cf. Canto IV, 14-21) e excelente no campo de batalha (cf. Canto IV, 28-44).
              
Mesmo que historicamente Nuno Álvares Pereira tenha sido um bom estratega e orador, naturalmente que Camões o estilizou tão à maneira de Fernão Lopes que, por sua vez, já o havia tornado lendário.
              
Mas, convenhamos,  em Os Lusíadas, Camões é o único que comporta majestosamente estas duas qualidades: a conciliação das Armas e das Letras.
              
Se repararem, quando se fala da epopeia Os Lusíadas o nome que vem imediatamente à mente é o de Camões e não o de um herói literário. Os Lusíadas não nos remetem senão para o seu criador; ao passo que, no que toca a outras epopeias, ocorrem-nos os nomes de Ulisses, Eneias, El Cid, Tristão, Hamlet, D. Quixote, isto é, os respectivos heróis literários.
              
“Para compensar uma tal ausência – cujo mistério se repercute sobre a imagem global da nossa literatura – temos uma espécie de herói-vivo, cuja lenda verídica teve o condão de se converter em existência ideal, como é apanágio da ficção perfeita. Referimo-nos, naturalmente, ao próprio Camões, herói da sua própria ficção, e que se tornou para um povo inteiro bem mais mítico e, mesmo, bem mais heróico que os heróis exaltados pelo seu Poema.” (Eduardo Lourenço, op. cit.)
              


              
AUTOMITIFICAÇÃO
              
“Com efeito, o esforço original de automitificação através do qual Camões tenta escapar à insignificância e ao esquecimento […] não é uma descoberta de Camões. Constitui a vivência mais inovadora do seu tempo cultural.” (Eduardo Lourenço, op. cit.)
              
Na estância 154 do Canto X, o poeta caracteriza-se:
              
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
[…]
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.
              
A seguir, na estância 155, pede para servir o rei e a pátria através do seu canto.
              
Em Os Lusíadas, podemos ver a encarnação dos ideias do humanismo cívico na figura do poeta, numa associação do homo politicus e homo theoreticus.
              
O poeta apresenta-se com os mesmos termos que refere César:
                                                                 
 
Vai César sojugando toda França
E as armas não lhe impedem a ciência;
Mas, nũa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
(Canto V, 96)
                   
Olhai que há tanto tempo que, cantando
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A Fortuna me traz peregrinando,
[…]
Nũa mão sempre a espada e noutra a pena
                 
(Canto VII, 79)
                 
                  
Aliás, o naufrágio do próprio poeta é tomado como objecto quer da narração épica quer do canto da deusa Tethis:
              
“Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço o Canto que molhado
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapado,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa.”
(Canto X, 128)
              
              
O poeta é cantado como infeliz, mas honroso pelo seu canto.
              
A glória que mais alta se levanta é a dos heróis que Camões narra, mas é também a
sua.
              

José Maria de Aguiar Carreiro

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/06/20/lusiadas.aspx] 



           
        
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