quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

CARTA DE LONGE

Monumento ao Emigrante Açoriano, Ponta Delgada




CARTA DE LONGE

Maria,
flor do meu coração,
é raro o momento do dia
em que não penso em ti e no nosso filho,
como o trouxesse pela mão
ou contigo pelo braço...

Juro-te que nunca vi nada que se pareça
com o calvário do emigrante!
O Sol nasce sem brilho,
frio e distante...
O corpo parece sem vida
e a Vida sem razão de ser ...

Acredita, minha querida,
por mais que te estremeça,
já não sei compreender
tudo o que me passa,
num prenúncio de desgraça,
por esta pobre cabeça...

O coração, escaldante como o lume,
o pensamento, vazio e incerto,
perdido em estranho ciúme,
nos espinhos de um remorso,
doloroso e encoberto...

Cuidados pela criança e receios de alguma doença,
longe da tua presença
cousas loucas, ideias negras, de morte,
a cada hora - tão longe e tão perto!

Mas, peço-te, minha santa,
não desesperes também
da tua triste sorte
e do meu negro destino...

Tudo, afinal, é o que tem de ser!...
Lembra-te que és mulher,
lembra-te que és Mãe,
põe os olhos no céu, reza e canta,
reza, cantando ao nosso menino!

Não leves a mal, mas juro-te, Maria,
que tudo daria
para outra vez cavar a nossa horta
contigo sentada no degrau da porta
e o menino à tua beira,
a engatinhar pela eira...

Nada melhor!
A nossa terra cavada, com tanto amor e suor,
de sacho em punho,
arregaçado, de chapéu de palha,
a bom cavar...

Depois, em junho,
a lida das searas,
a bom ceifar,
e a monda das vinhas,
na alegria do nosso cantar...

E o regresso, pela tardinha?
Tu descalça, leve e mimosa,
a blusa de chita cor de rosa,
a cintura fina e a saia rodada,
ao lado do peito a talha,
de volta da bica, cheia e fresquinha...

Vejo-te ainda,
como num espelho,
toda de vermelho,
tão pobre e tão rica,
tão pura e tão linda,
princesa e rainha
- e eu encantado...

Depois, a nossa ceia, ao canto da cozinha,
quente e perfumada ...
E o serão, junto ao tear,
com o menino a tagarelar?

Nada no mundo,
nada, podia pagar
o meu sono descansado,
junto ao teu corpo adorado,
doce e profundo...

Por ventura, já te acudiu ao pensamento,
ao embalares a criança,
no que seria este tormento,
se não fosse a confiança
que tenho em ti e no teu amor,
fiel e eterno?

Querida Maria:
Ninguém pode compreender
- só Deus Nosso Senhor -
toda a tortura deste inferno
noite e dia!

Pois, por mim, nos cardos da saudade,
só tudo te poderei descrever,
de todo o coração e ao natural,
nas suas cores e com o devido brilho,
se o céu, na sua vastidão e clara imensidade,
fosse o papel
e a tinta azul do mar,
num luzeiro de beijos, a voar,
para ti e nosso filho,
como sou, até à eternidade,
o sempre teu – MANUEL


Manuel Ferreira, julho de 1956.



"(A)riscar o Património", Sofia Carolina Botelho, 2014-10-10. 
Ponta Delgada - Campo de São Francisco e Monumento ao Emigrante Açoriano.




MANUEL FERREIRA – O HOMEM E A OBRA

[…] Manuel Ferreira o jornalista, Manuel Ferreira o poeta, Manuel Ferreira o escritor, Manuel Ferreira o investigador histórico, Manuel Ferreira o autonomista convicto.
Desde muito cedo, ainda estudante no então Liceu de Ponta Delgada, Manuel Ferreira manifestou um profundo interesse pela escrita, obtendo então, vários prémios nos Jogos Florais. No ano lectivo de 1935-1936, foi um dos fundadores e chefe de redacção do jornal académico Arco –Íris, onde prestou homenagem a diversos valores nacionais e reacendeu uma entusiástica campanha em prol da construção de um monumento ao poeta das Odes Modernas, em Ponta Delgada.
Após concluir o curso geral do Liceu, Manuel Ferreira ingressou, no então, Serviços Municipalizados de Abastecimento de Água da Câmara Municipal de Ponta Delgada, chegando a chefe daqueles serviços. Mas, apesar das exigências da sua vida profissional, assim como, da orientação de uma exploração agro-pecuária, Manuel Ferreira nunca deixou de se interessar pelo jornalismo.
De Novembro de 1937 a Setembro de 1943 foi redactor e chefe de redacção do Correio dos Açores, e colaborou durante anos no então semanário Açoriano Oriental, de que também foi chefe de redacção, de Julho de 1963 a Outubro de 1965.
Reassumiu a chefia da redacção do Correio dos Açores em Dezembro de 1965 e aí se manteve até Maio de 1975, desenvolvendo e apoiando uma das mais acesas campanhas daquela década, a nível insular, nomeadamente na defesa do regime autonómico e dos interesses dos Açores, em particular da Ilha de S. Miguel, podendo considerar-se o principal impulsionador do terceiro movimento autonomista, na década que antecedeu o 25 de Abril e num período em que os próprios dirigentes e responsáveis administrativos quase descriam dos princípios e ideais da autonomia.
Na defesa da cultura e dos valores açorianos, numa persistente campanha jornalística, conseguiu que os dezanove Municípios dos Açores atribuíssem o honroso galardão de Cidadão Honorário dos Açores ao Cardeal Costa Nunes e ao cientista José Agostinho, e obteve do Município de Ponta Delgada a construção de um mausoléu condigno no Cemitério de S. Joaquim, para as cinzas do Padre Gaspar Frutuoso, há mais de trinta anos esquecido num jazigo particular.
Mesmo depois de abandonar o Correio dos Açores em 1975, o decano dos jornalistas açorianos não deixou o jornalismo e passa a colaborar com frequência no Açoriano Oriental continuando a tratar de temas de interesse regional com a lucidez, com a tenacidade e com a frontalidade que sempre o caracterizaram, seguindo sempre o lema que regeu e rege toda a sua vida: alto como as estrelas e livre como o vento. O seu ex-libris tem sido sempre a sua norma de vida, quer nos bons, quer nos maus momentos.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados, Senhora e Senhores Membros do Governo as agruras da vida têm sido uma presença quase constante na vida de Manuel Ferreira, as doenças, as 9 operações sucessivas, e pior que tudo, a morte do filho na flor da idade. Mas nada disto o derrotou, nem o derrota. Diríamos que lhe dão ainda mais força, mais força para investigar, mais força para escrever e mais força para lutar. E foi após a morte de seu filho, após o maior desgosto da sua vida que Manuel Ferreira, começou a sua grande actividade literária com a publicação do seu primeiro livro O Barco e o Sonho, em 1979, que representou um êxito sem precedentes no mundo ilhéu, com honras de autêntico best-seller açoriano - em dois meses foram vendidos cerca de 2 000 livros - e que serviu de tema ao telefilme de Zeca Medeiros com o mesmo nome, na RTP/Açores.
Manuel Ferreira, até à data, já publicou 32 livros, encontrando-se o 33.º livro já no prelo, a ser publicado muito brevemente, e que vem completar a trilogia da Simbologia do Açor, trilogia esta compostas pelas obras: A Simbologia do Açor na Heráldica dos Municípios Açorianos, publicada em 1986; Açores – Origens, Raízes e História, que foi publicada em 1999 e muito brevemente o terceiro volume desta trilogia O Açor Eterno.
São três obras que abordam a presença do Açor ao longo da nossa história açoriana, nos diversos ramos de actividade, nomeadamente nas áreas da heráldica militar e dos vários organismos corporativos, indústria, comércio, transportes e comunicações,  bancos e caixas económicas, associações recreativas, humanitárias e desportivas, filatelia, literatura, numismática, entre muitos outros, havendo também referências a sectores relacionados com o continente português, assim como, com as nossas comunidades de imigrantes dos Estados Unidos da América, do Canadá e do Brasil.
O Açor só aparece como elemento mágico, verdadeiro ícone e constante arma de combate, com a primeira e grande cruzada dos Autonomistas Micaelenses e com o triunfo da Autonomia Administrativa em 1895.
Manteve-se em lume brando, com uma ou outra erupção acidental, nas primeiras décadas do século passado, tendo Manuel Ferreira tentado reacender a chama nos anos setenta, enquanto chefe de redacção do Correio dos Açores.
Após o 25 de Abril intensificou-se o culto do símbolo por todos os lados e sectores. Nos últimos 30 anos surgiram cerca de 500 pequenas e grandes sociedades, algumas tiveram curta duração, com o Açor nos seus logótipos ou integrado no próprio nome empresarial.
O primeiro volume da trilogia: A Simbologia do Açor na Heráldica dos Municípios Açorianos, apresenta uma extensa e acidentada crónica sobre cada um dos vinte e quatro Municípios Açorianos - hoje reduzidos a 19 Municípios – numa luta heróica, de séculos de isolamento e incompreensão. Tendo sido criados vinte e quatro concelhos, cinco acabaram por ser extintos, no rescaldo da revolução liberal, nomeadamente a Vila de Água de Pau e a Vila das Capelas, em S. Miguel (1853); a Vila de São Sebastião na Ilha Terceira (1855); a Vila do Topo em S. Jorge (1855) e a Vila da Praia na ilha Graciosa (1867), tendo sido a justificação a «falta dos recursos e elementos necessários para ter administração regular».
A Simbologia do Açor constitui uma simbiose entre o documento histórico e a prosa expositiva do autor, tornando-o numa leitura agradável, coisa rara em livros de referência, como é o caso do presente livro. A Simbologia do Açor, não é unicamente um livro de palavras. É acima de tudo um livro de uma ideia. A ideia da identidade açoriana, demonstrada através da história e vivida ao longo dos séculos. Não é por acaso que a obra abre com a transcrição da carta de D. Afonso V a seu tio, o Infante D. Henrique, datada de 2 de Julho de 1439, concedendo-lhe licença para povoar, as então, sete ilhas dos Açores, o que significa que ainda as ilhas não eram conhecidas na sua totalidade e nem tão pouco alguma delas povoada, e já a identificação da sua unidade arquipelágica era feita através do nome Açores que, deste modo, as nomeava a todas sem a nenhuma dar nome próprio. Os nomes, pelo menos os actuais, viriam mais tarde, muitos deles mais ou menos fiéis às denominações das antigas cartografias catalã e maiorquina do mestre Angelino Dulcert e seus seguidores até Valseca.
Com a chegada dos primeiros colonos, e com a consequente e inevitável constituição de pequenos núcleos, criam-se os primeiros concelhos. É precisamente aqui que a unidade das ilhas se estabelece com base não nas desigualdades evidentes, quer de tamanho, quer de riqueza ou de importância existentes entre elas mas sim, na equalização da dignidade municipal que a todos e a cada um dos seus concelhos é concedida.
Manuel Ferreira apresenta-nos, aqui nesta obra, uma pesquisa alargada dos diversos símbolos heráldicos dos então, 24 Municípios Açorianos e a sua bizarra e curiosa evolução até aos nossos dias.
O segundo volume desta trilogia: Açores: Origens, Raízes e História, contém mais de 500 reproduções fotográficas, a maior parte delas encontram-se em cores fidedignas, abrangendo os séculos XIX e XX. Nesta obra, podemos constatar que o Açor aparece por tudo que é lado e em mil e uma estilizações. Aparece nas acções e impressos de banco, montepios, caixas económicas; flutua nas bandeiras de vários navios das marinhas de guerra, mercante, de pesca ou de recreio; circula em dezenas de capas de livros, jornais, revistas e ex-libris; estampa-se em cerca de 20 brasões e estandartes militares, quer sejam do Exército, da Marinha ou da Aviação; enobrece-se no pincel de artistas como Roque Gameiro, Alonso Campos, Jorge Colaço, Tomaz Borba Vieira ou Domingos Rebelo, etc, etc.
O terceiro volume da trilogia O Açor Eterno, aguardaremos mais um mês para podermos ter o prazer de desfrutá-lo.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados, Senhora e Senhores Membros do Governo, entre a publicação de O Barco e o Sonho, seu primeiro livro e a de O Açor Eterno, seu 33.º livro, Manuel Ferreira ofereceu aos leitores uma viagem no tempo, dando-lhes a conhecer importantes pilares do nosso passado, como por exemplo, no domínio da Política com as obras: Vitorino Nemésio e a Sapateia Açoriana – Loucura ou Traição, Pedras para o Templo; no domínio da História com: Açores – Armas e Barões Assinalados, Penhascos Dourados, O Ilhéu da Vila, A Ilustre Marquesa de Ponta Delgada, Ponta Delgada – a História e o Armorial, O Explorador Micaelense – Roberto Ivens, Galeria Ressuscitada, A Simbologia do Açor na Heráldica dos Municípios Açorianos, Açores: Origens, Raízes e História, Antero Imortal; da Arte com as obras: Pedras que Falam – A Ermida de Nossa Senhora dos Remédios da Lagoa, Manuel António de Vasconcelos – O Homem e o Artista, O Caricaturista Micaelense – Augusto Cabral; no domínio da Etnografia Regional com: A Viola dos dois Corações; do Social com a obra: Ribeira Chã – A Via Sacra de um Povo, de um Padre e de uma Igreja; no domínio da Economia, do Comércio e da Indústria com as obras: Cultura da /Vinha em Santa Maria e S. Miguel, Os Cem Anos da Melo Abreu, Açoriana de Seguros – Cem Anos, Turismo em S. Miguel - Cem Anos; do Jornalismo: Manuel António de Vasconcelos – O Primeiro Jornalista Micaelense e o Açoriano Oriental; no domínio da Literatura temos as obras: O Segredo das Almas Cativas, O Morro e o Gigante e O Barco e o Sonho, entre outras. Estes dois últimos livros constituem uma obra-prima, um retrato fiel dos costumes, do modo de ser, de estar e de sentir do homem e da mulher açorianos, antes do desabrochar da democracia. Apesar das diferenças formais existentes, os livros de Manuel Ferreira não deixam de revelar uma notável unidade de pensamento, de objectivo e até mesmo de temática. Todos eles têm como cenário estas ilhas e como intenção o louvor e a valorização dos Açores, o dar a conhecer aos açorianos quem na realidade são, mas também, o que não devem e o que devem querer.
É de salientar que as capas de todos os livros de Manuel Ferreira são da autoria do pintor Tomás Borba Vieira.
Manuel Ferreira é também um poeta. Para além dos inúmeros poemas que escreveu mas que nunca publicou, temos o poema Carta de Longe. Há semelhança de Armando Côrtes-Rodrigues e de Carreiro da Costa, Manuel Ferreira quis também nos presentear com uma Carta de Longe. Manuel Ferreira conseguiu transpor para o papel todo o dramatismo, todo o sofrimento, toda a tristeza e toda a saudade que sente um imigrante, em terras longínquas. […]

Maria José Duarte, Horta, Assembleia Legislativa dos Açores, 22-02-2006
http://base.alra.pt:82/Doc_Intervencao/I466.pdf
http://base.alra.pt:82/Diario/VIII32.pdf





             
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