domingo, 19 de junho de 2016

Ana Cristina César


Ana Cristina Cesar deixou em sua breve passagem pela literatura brasileira do século XX uma marca indelével. Tornou-se um dos mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970, justamente pela singularidade que a distanciava das “leis do grupo”. Criou uma dicção muito própria, que conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino - pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época. 
Entre fragmentos de diário, cartas fictícias, cadernos de viagem, sumários arrojados, textos em prosa e poemas líricos, Ana Cristina fascinava e seduzia seus interlocutores, num permanente jogo de velar e desvelar. Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, A teus pés, Inéditos e dispersos, Antigos e soltos: livros fora de catálogo há décadas estão agora novamente disponíveis ao público leitor, enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, dos escritos da carioca, Armando Freitas Filho. Dos volumes independentes do começo da carreira aos livros póstumos, a obra da musa da poesia marginal - reunida pela primeira vez em volume único - ainda se abre, passados trinta anos de sua morte, a leituras sem fim.


“Ana C. concede ao leitor aquele delicioso prazer meio proibido de espiar a intimidade alheia pelo buraco da fechadura. Um dos escritores mais originais, talentosos, envolventes e inteligentes surgidos ultimamente na literatura brasileira.” - Caio Fernando Abreu, 1982



“Um texto ultrassintético, desdobrável em muitas leituras, mas nunca esgotável. Eu sou apenas um eterno deslumbrado com a poesia, a prosa e a pessoa da carioca.” - Reinaldo Moraes, 1982



“Entre Ana e o texto, entre Ana e a vida, havia a elipse, o prazer do pacto secreto com seu possível interlocutor. A isso ela chamava ‘páthos feminino’. Disso, ela fez seguramente a melhor e a mais original literatura produzida dos anos 1970.” - Heloisa Buarque de Hollanda, 1984



“Ela não foi - ela fica - como uma fera.” - Armando Freitas Filho, 1985



“Ana Cristina Cesar deixou uma obra poética absolutamente singular no panorama da literatura brasileira do século XX.” - Joana Matos Frias, 2005



“Ana Cristina, assim como outros poetas de sua geração, debate-se com o agora.” - Viviana Bosi, 2013




ANA CRISTINA CESAR
 
(1952-1983)


Nasceu no Rio de Janeiro. Viveu um ano em Londres, em 1968. Escreveu para revistas e jornais alternativos, saiu na antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque. publicou, pela Funarte, Mestrado em comunicação, lançou livros em edições independentes: Cenas de Abril e Correspondência Completa. Dez anos depois, outra vez a Inglaterra, onde, às voltas com um M.A. em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Ao retornar, descobriu São Paulo e fixou residência no Rio. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu A Teus Pés. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.
Biografia constante do livro A Teus Pés, Quarta Edição, da série Cantadas Literárias da Editora Brasiliense. 

"A poesia de Ana Cristina Cesar caracteriza-se por ser predominantemente confessional, mas o tom de intimidade, não nos deve enganar, pois é apenas um lance de sedução estética. A correspondência, realmente, como apontou Armando Freitas Filho, teve bastante influência sobre a sua dicção poética. Ela cria um verdadeiro jogo de linguagem: textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário. A poesia torna-se, desta forma, uma inquietante reflexão sobre o próprio fazer literário".  (p. 22)
"Assim percebemos que o texto-colagem da poeta instaura um sujeito estilhaçado, uma memória construída através da subjetividade fincada no corpo coletivo da linguagem. Seu método de composição baseia-se na apropriação incessante de versos e trechos de outros escritores que ela distorce, desloca, alude, readapta, reescreve, parafraseia e parodia. É uma obra que faz uma reflexão constante sobre a natureza do literário".  (p. 27)

"Os poemas de Ana Cristina Cesar, inserida no clima da geração 70, revelam, entre as muitas características que marcaram a produção poética daquela época,  as seguintes: atração pelo insólito do cotidiano; ênfase na experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira; volta à primeira pessoa, à escrita da paixão e do medo como caminho eficaz no sentido de romper o silêncio e a perplexidade que tomaram de assalto a produção cultural no início da década; o sentido de asfixia, experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; valorização do coloquialismo; culto do instante, eixo fundamental da nova poesia e do binômio arte e vida. / O binômio arte e vida era a consolidação de uma visão de mundo que valorizava o aqui e o agora: a ideia do presente,eliminando a ideia de futuro." (p. 55)

Textos extraídos da excelente obra de
 Arminda Silva de Serpa "Lições sobre asas e abismos; uma leitura da poesia de Ana Cristina Cesar", a partir de uma tese de doutorado.  Fortaleza> Imprece, 2009.   Metadados: Poesia da geração 70;  Poesia e comportamento; Poesia brasileira anos 1970. Crítica de Poesia.


CIÚMES

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
Tão distraidamente.

Abril/68



Tenho uma folha branca
                            e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
                            e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma vida branca
                            e limpa à minha espera.


5.2.69



O nome do gato assegura minha vigília
e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa

o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e

perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era
marca do meu rosto,  garra no meu seio.


2.10.72


E penso
a face fraca do poema/ a metade na página
partida
Mas calo a face dura
flor apagada no sonho
Eu penso
A dor visível do poema/ a luz prévia
Dividida
Mas calo a superfície negra
pânico iminente do nada.



“Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares”

Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os
pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que
enjôo me dá o açúcar do desejo.



é aqui
por enquanto
ainda não tem
cortina
tapete luz indireta
amenizando a noite
quadro nas paredes



Noite carioca

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio
Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento
a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum
segredo.


Mocidade independente

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem
medir as conseqüências. Por que recusamos ser proféticas?  E
que dialeto é esse para a pequena audiência de serão?  Voei pra
cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma
graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por
você, e furiosa: é agora, nesta contramão.



Nada disfarça o apuro do amor.
Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.



A ponto de

partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que
nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.



Esqueceria outros

pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos


O Homem Público N. 1

Tarde aprendi
bom mesmo 
é dar a alma como lavada.
Não há razão 
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita 
que vai sendo cortada
deixando uma sombra 
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
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De
Ana Cristina Cesar
Portsmouth 30-6-60  Colchester 12-7-80
São Paulo: Instituto Moreira Salles; Livraria Duas Cidades, sd.
Um "caderno de desenho"  espiralado reproduzindo anotações e desenhos
de Ana Cristina Cesar durante sua estada na Inglaterra. Uma bela edição em honra da musa do final do século 20 que persiste no culto  de admiradores. Reproduzimos duas imagens e recomendamos a obra para colecionadores e bibliófilos. Livro-objeto. Memorabilia.

INVERNO EUROPEU

Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme de leite é desconjunturado e a subjetividade se parece com um roubo inicial.
Recomendo cautela. Não personagem do seu livro e nem que você queira não me recorta no horizonte teórico da década passada. Os militantes sensuais passam a bola: depressão legítima ou charme diante das mulheres inquietas que só elas? Manifesto: segura a bola; eu de conviva não digo nada e indiscretíssima descalço as luvas (no máximo) à direita de quem entra.
         (De A teus pés, 1982)

NOITE CARIOCA


Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiro no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.
                   (De A teus pés, 1982)

TRAVELLING

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. ‘É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco

MARFIM

A moça desceu os degraus com o robe
monografado no peito: L. M. sobre o coração.
Vamos iniciar outra Correspondência, ela
propôs. Você já amou alguém verdadeiramente?
Os limites do romance realista. Os caminhos do
conhecer. A imitação da rosa. As aparências
desenganam. Estou desenganada. Não reconheço
você, que é tão quieta, nessa história. Liga
amanhã outra vez sem falta. Não posso
interromper o trabalho agora. Gente falando por
todos os lados. Palavra que não mexe mais no
barril de pólvora plantado sobre a torre de
marfim.

COMO RASURAR A PAISAGEM

a fotografia
é um tempo morto
fictício retorno à simetria

secreto desejo do poema
censura impossível
do poeta


PSICOGRAFIA

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não sou e digo
a palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto


CÉSAR, Ana Cristina.   Inéditos e dispersos: prosa / poesia. Organização Armando Freitas Filho.  3ª edição.   Instituto Moreira Salles, Editora Ática, 1998.   205 p +16 f. de fotos ilus. p&b   15x22 cm.   ISBN  85-080718-7.  Apoio da Lei de Incentivo à Cultura. Ministério da Cultura. Inclui prosa, poesia e desenhos da autora, copiados dos arquivos da poeta depois de sua morte pela mãe Maria Luiza e Grazyna Drabik e logo selecionados pelo organizador da presente edição.  O texto é o mesmo da 2ª. edição.  Col. A.M. 
       Veja também POEMA VISUAL de Anqa Cristina César

Estou atrás

do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra

28.5.69


Fisionomia

não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outrart
outra a dor que dói


houve um poema
que guiava a própria ambulância
e dizia: não lembro
de nenhum céu que me console,
nenhum,
e saía,
sirenes baixas,
recolhendo os restos das conversas,
das senhoras,
"para que nada se perca
ou se esqueça",
proverbial,
mesmo se ferido,
houve um poema
ambulante,
cruz vermelha
sonâmbula
que escapou-se
e foi-se
inesquecível,
irremediável,
ralo abaixo.



CÉSAR, Ana Cristina.  Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 504 p.  13,5x21 cm.   Curadoria editorial: Armando Freitas Filho. Capa e projeto gráfico: Elisa von Randow. Foto da capa Cecília Leal.   ISBN 978-85-359-2351-3  Col. A.M.

sumario

Polly Kellog e o motorista Osmar.
Dramas rápidos mas intensos.
Fotogramas do meu coração conceitual.
De tomara-que-caia azul-marinho.
Engulo desaforos mas com sinceridade.
Sonsa com bom-senso.
Antena da praça.
Artista da poupança.
Absolutely blind.
Tesão do talvez.
Salta-pocinhas.
Água na boca.
Anjo que registra.

deus na antecâmara

Mereço (merecemos, meretrizes)
perdão (perdoai-nos, patres conscripti)
socorro (correi, vaiei-nos, santos perdidos)

Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pêlos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sanguinária

(sangue e amor se aconchegando
hora atrás de hora)

Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir

filho
pai
e
fogo

DE-LI-BE-RA-DA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós (com a gente) se dando

HOMEM: ACORDA!

3.7.69 

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/ana_cristina_cesar.html 




Poeta Ana Cristina César será a homenageada da Flip em 2016

Após prestar tributo ao modernista Mário de Andrade, festa literária aposta em autora ‘marginal’

Reprodução/Luciana Whitaker/Folhapress
Ana C. em imagem de maio de 1975 que está no acervo do Instituto Moreira Salles, no Rio

‘Ela pertence à última geração consagrada na poesia brasileira. É uma obra que ressoa ainda hoje’, afirma curador
FOLHA
O par de óculos escuros mais famoso da poesia brasileira vai desfilar pelas ruas de pedra. É que a próxima edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece de 29 de junho a 3 de julho de 2016, resolveu homenagear uma moça carioca fora do cânone literário: a poeta Ana Cristina César.
O anúncio foi feito na sexta (13) pela organização do evento, que, após prestar tributo a Mário de Andrade neste ano, agora aposta em um nome com menos cara de medalhão. É uma autora famosa pela poesia, mas que também deixou uma produção em prosa, caso de seus ensaios.
“A Flip tem isso. Uma hora pega um autor já consagrado, em outra um em processo de consagração. É o caso da Ana Cristina e do Millôr Fernandes [homenageado em 2013]”, diz o curador Paulo Werneck.
Ana C., como gostava de ser chamada, morreu em 1983, aos 31 anos, e deixou uma obra curta, que hoje está completa em “Poética” (Companhia das Letras, 2013), organizada por Armando Freitas Fi- lho, melhor amigo da autora.
A escritora surgiu na geração mimeógrafo, no seio da chamada poesia marginal. Estava na antologia “26 Poetas Hoje”, lançada nos anos 1970 por Heloísa Buarque de Hollanda. Fazia parte da mesma turma de Cacaso, Chacal, Torquato Neto e Francisco Alvim.
As poesias mimeografadas tinham tudo a ver com o contexto de censura da ditadura: era mais fácil fazer edições artesanais, fora dos circuitos culturais. Assim, os livros eram vendidos de mão em mão.
Tanto que a primeira obra de Ana publicada comercialmente foi “A Teus Pés” (1982), pela Brasiliense, seu livro mais famoso. Mas trazia poemas que já haviam circulado em edições artesanais, como “Cenas de Abril” e “Correspondência Completa”, de 1979.
Ana e sua geração usavam o coloquialismo, recebendo influência do cinema e da cultura pop —mas sem esconder a erudição da autora. Com essa linguagem, poetas marginais renovavam a proposta estética do modernismo de 1922.
“Ela pertence à última geração que se consagrou na poesia brasileira. É um trabalho que ressoa na poesia contemporânea”, diz Werneck. “Sem ela, hoje não existiriam Alice Sant’Anna, Bruna Beber e Ana Martins Marques.”
O acervo de Ana C. está no Instituto Moreira Salles, no Rio. São mais de 600 itens — de onde, com os holofotes sobre a autora, podem brotar inéditos. (MAURÍCIO MEIRELES)




Ana Cristina Cesar é a homenageada da Festa Literária de Paraty 2016


Depois de Clarice Lispector numa das primeiras edições, é agora a vez de outra autora de culto ser consagrada na FLIP.

A autora carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983) é a homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) que vai realizar-se no Brasil entre 29 de Junho e 3 de Julho. E é também uma homenagem à Poesia Marginal, de que ela era considerada o expoente. Além de poeta, foi crítica literária e tradutora.
“A poesia é uma força na FLIP: é sintomático que o livro da Matilde (Jóquei) tenha sido o mais vendido na FLIP 2015, e o da Bruna Beber (Rua da Padaria) tenha sido o mais vendido em 2013. E a poesia contemporânea brasileira tem a marca de Ana Cristina”, explica ao PÚBLICO Paulo Werneck, o curador desta festa literária.
Desde a primeira edição, em 2003, é a segunda vez que aquele que é o mais importante festival literário brasileiro terá como homenageada uma mulher, depois de, em 2005, ter sido a escritora Clarice Lispector (1920-1977) a escolhida. Na última edição da FLIP, o autor homenageado foi o escritor Mário de Andrade.
No próximo ano não se comemora nenhuma efeméride relacionada com a escritora que tem a poesia reunida publicada no livro Poética (Companhia das Letras, 2013), organizado pelo poeta Armando Freitas Filho, indicado pela família como curador literário da obra depois da morte da autora no Rio de Janeiro.
“A intenção é jogar luz sobre uma autora extraordinária, nada mais do que isso. Ana C. morreu há quase 35 anos, é um bom momento para voltar a sua obra”, afirma Paulo Werneck lembrando que entre os poetas que estiveram nas últimas edições da FLIP, Ana Cristina Cesar é uma espécie de marca fundamental.



A autora que em Portugal tem a sua poesia publicada na antologia Um Beijo que Tivesse um Blue (edições Quasi, 2005, com selecção e prefácio de Joana Matos Frias) “influenciou profundamente” toda uma geração de poetas brasileiros como Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Bruna Beber, Mariano Marovatto, Marília Garcia e até Gregorio Duvivier. “Para não falar em Francisco Alvim, Eucanaã Ferraz, Carlito Azevedo, ou mesmo na Matilde Campilho”, lembra ainda Werneck. “Queremos sublinhar essa influência e fazer conhecer melhor a obra de Ana Cristina. Além disso, a homenagem convoca a geração da Poesia Marginal, que tem poetas muito importantes e activos, alguns em vias de consagração”, acrescenta.
O curador da FLIP explica que esses poetas marginais dos anos 1970 (época da ditadura militar no Brasil), da chamada “Geração Mimeógrafo’, tinham um “ímpeto admirável” de divulgação das obras através de meios alternativos. Faziam-no à margem do mercado editorial - na praia, em festas, através de espectáculos e de performances, bem ao espírito desses anos 70 mas com uma relação directa com o que se passa hoje em dia. Estes autores fizeram também "uma leitura fundamental" de Drummond e dos grandes poetas do modernismo brasileiro. “Vai ser bonito ver isso tudo em Paraty”, conclui o curador que estará à frente da programação da festa literária pelo terceiro ano consecutivo. 
Alguns poemas de Ana Cristina Cesar estão incluídos na importante antologia26 poetas hoje (1976), organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, que foi sua professora e onde a autora carioca aparece ao lado de outros colegas do movimento Poesia Marginal, como Cacaso (Antonio Carlos de Brito), Chacal, Francisco Alvim, Charles Peixoto, Geraldo Carneiro, Waly Salomão, Eudoro Augusto.
Mas a obra que a revelou aos leitores brasileiros e fez começar um culto que se tem estendido por décadas, como lembra a organização da FLIP em comunicado, foi o primeiro livro da célebre colecção Cantadas Literárias, da editora Brasiliense, A teus pés que reunia três livros publicados por Ana Cristina Cesar em edição artesanal: os versos de Cenas de Abril, aCorrespondência completa (longa carta endereçada a “My dear”) e o diárioLuvas de pelica





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Ana Cristina César, ‘poeta marginal’ dos anos 70, será homenageada na Flip

A poetisa carioca é a segunda mulher a ser celebrada na maior festa literária do país

Uma mulher, poetisa e expoente da literatura marginal brasileira nos anos 70, será a homenageada da próxima Festa Literária de Paraty. Ela é Ana Cristina César (1952-1983), carioca que foi ícone literário de sua geração e cuja obra – em poesia, tradução e crítica literária – convida a um resgate que ainda está por acontecer. A escolha da Flip, que após 13 anos de existência põe pela segunda vez uma autora feminina em destaque (a primeira foi em 2005, com Clarice Lispector), endossa os movimentos de mulheres em prol de liberdades individuais e direitos coletivos que ganham, desde outubro, as ruas do país. Por outro lado, põe em foco a Poesia Marginal, movimento do qual fez parte e que eclodiu com a antologia 26 poetas hoje (1975), de Heloísa Buarque de Hollanda.
Paulo Werneck, que é o curador da Flip pelo terceiro ano consecutivo, conta que Ana C. (como os amigos a chamavam), estava na mesa de discussão sobre os homenageados da festa há algum tempo. “Este ano ela se impôs graças à importância de sua obra, mas também pelo fato de a poesia contemporânea funcionar muito bem na Flip”, afirma o curador. Vale lembrar que, na última edição da festa, a jovem poetisa portuguesa Matilde Campilho foi uma das autoras mais celebradas nas mesas literárias e também nas livrarias – seu livro de estreia, Jóquei (editora 34), foi o título mais vendido em Paraty. Dois anos atrás, na edição de 2013, outras duas jovens poetisas, Ana Martins Marques e Bruna Beber, brilharam também – e Rua da padaria (Record), de Beber, foi o título mais vendido daquele ano.
Ainda que um revival de Ana Cristina César já tenha se esboçado em 2013 com a publicação pela Companhia das Letras da antologia Poética, pode-se esperar muito mais a partir de agora. Elizama Almeida, assistente cultural da curadoria de literatura do Instituto Moreira Salles, que detém o acervo da escritora no Rio de Janeiro, comemora: “Ana C. foi incluída no grupo da Poesia Marginal, mas nunca deixou de se destacar dentro dele, com uma voz própria. Há inclusive uma tradição clássica em sua obra, influenciada por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira", explica a pesquisadora. Entre as influências de fora, aparecem especialmente as inglesas Katherine Mansfield e Sylvia Plath, que ela traduziu ao português.

Não sei como poderei pegar no sono. A literatura me perturba. Uma caixa cheia de cartões-postais me perturba. A renúncia me perturba. Até uma caixa d’água, um otorrino gauche, um índice onomástico. Tomo tudo na veia"
ANA C. EM CARTA DIRIGIDA AO AMIGO E POETA ARMANDO FREITAS FILHO

A poesia da carioca é marcada por um tom confessional, direto e de grande coloquialidade. Seus primeiros livros,Cenas de abril e Correspondência completa, foram editados de maneira 100% independente e caseira, pela própria autora e por seus colaboradores e amigos mais próximos, o poeta Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda. Em 1982, surge seu primeiro livro lançado por uma editora (a Brasiliense): A teus pés. “Esse foi o primeiro livro da série Cantadas literárias, que tem uma importância enorme por ter lançado não só Ana Cristina, mas escritores como Caio Fernando e Marcelo Rubens Paiva”, diz Paulo Werneck. Para Elizama Almeida, A teus pésamplia o espectro da autora, “porque ela sai do fazer experimental e passa, em um ambiente mais formal, a dialogar com um público mais amplo, que a consagrou”.

Escrever é a parte que chateia, fico com dor nas costas e remorso de vampiro. Vou fazer um curso secreto de artes gráficas. Inventar o livro antes do texto. Inventar o texto para caber no livro. O livro é anterior. O prazer é anterior, boboca"
ANA C. EM CARTA DIRIGIDA A HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA

A morte precoce de Ana C., que se suicidou aos 31 anos, é um tema que permeia as discussões sobre a escritora. Mas tanto o curador como a pesquisadora preferem afastar essa lupa ao analisar seu legado. “A homenagem da Flip tem o objetivo, junto ao público, de ajudar a apresentar um autor  que ainda não se conheça e também desfazer lugares comuns ao redor dele. No caso da Ana Cristina, esse é um aspecto, mesmo evocando uma força e até certo mistério, que limita sua obra”, opina Werneck. Elizama diz que as portas do IMS estão abertas a pesquisadores e interessados no vasto universo da poetisa. E esclarece: “Os momentos mais difíceis na vida dela foram os dois últimos anos antes do suicídio, segundo relatam amigos, e as cartas que ela deixou. Ana era uma pessoa alegre e inteligente, e seria errado que sua morte servisse de chave de leitura principal de sua obra”, diz a especialista, que recomenda o documentário Bruta Aventura em Versos, de Letícia Simões, aos curiosos.
A 14a edição da Flip acontece entre os dias 29 de junho e 3 de julho de 2016. E, no rastro desta homenagem, a poesia marginal deverá impregnar a programação, assim como – espera-se – a voz literária (normalmente silenciada) das mulheres.

ampliar foto
Ana C. INSTITUTO MOREIRA SALLES

Ana Cristina Cesar, uma morta vivíssima em Paraty

Mais de 30 anos depois da sua morte, a obra da "moça eterna" vive nas novas gerações de poetas. A escritora brasileira é a homenageada da FLIP e ganhou uma fotobiografia.
Ana Cristina Cesar (1952–1983) é a autora homenageada da 14.ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) que começa nesta quarta-feira e termina domingo. Ricardo Araújo Pereira, o convidado português, participa sexta-feira na sessão Mixórdia de Temáticas com a escritora e cronista brasileira Tati Bernardi, numa conversa moderada pelo humorista Gregorio Duvivier.
Quem vai à FLIP sabe que “as mesas de poesia fazem um grande sucesso”, explica ao PÚBLICO Paulo Werneck, o curador pelo terceiro ano consecutivo daquele que é o mais importante evento literário brasileiro. Falou-se muito deMatilde Campilho no ano passado, mas em edições anteriores houve Alice Sant’Anna, Bruna Beber e  Ana Martins Marques – “três poetas sensacionais da geração que está se firmando na poesia brasileira”. “Elas sempre roubam a cena.”
Por isso, esta escolha foi também “uma questão de observação”. Ana Cristina “está viva na obra dessas poetas, está sendo lida, tem uma enorme importância actual”, acrescenta Paulo Werneck. “Os seus companheiros de geração, que na época eram undergroundcomo Armando Freitas Filho, hoje estão consagrados”.
A sessão de abertura da festa nesta quarta-feira terá como convidado principal o poeta brasileiro Armando Freitas Filho, que foi amigo de Ana Cristina Cesar e é o responsável pela edição da sua obra. Ao seu lado estará o cineasta Walter Carvalho, autor de um documentário sobre a vida e a obra deste poeta, Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície. O filme será exibido a seguir à conversa moderada por Eucanaã Ferraz, poeta, consultor de literatura do Instituto Moreira Salles (IMS) e organizador de Inconfissões – Fotobiografia de Ana Cristina Cesar, que terá lançamento em Paraty. Segue-se um sarau com vários poetas da nova poesia marginal, herdeira dos poetas marginais dos anos 1970/80.

Moça eterna

A escolha de Ana Cristina Cesar como autora homenageada representa “uma renovação da FLIP importantíssima”, explica Armando Freitas Filho ao telefone, antes de partir para Paraty. Isto porque uma escritora que morreu com 31 anos é colocada ao lado de escritores muito mais velhos, como Carlos Drummond de AndradeManuel Bandeira, Graciliano Ramos ou Oswald de Andrade, homenageados em edições passadas.
“Deu um tom mais alegre” à festa literária, e “mais intenso” também, porque apesar de Ana Cristina ter morrido há 33 anos, a escritora mantém, década após década, “uma inserção, uma importância e uma necessidade” cada vez maiores. “Ela é uma morta viva, vivíssima!”, diz o autor de Rol, que em Portugal tem publicada Uma Antologia (2006) nas edições Quasi.
ACERVO ANA CRISTINA CESAR/INSTITUTO MOREIRA SALLES
Foi aliás nesta editora, e no mesmo ano, que saiu em Portugal uma antologia da obra de Ana Cristina Cesar, Um Beijo que Tivesse um Blue, organizada pela professora universitária Joana Matos Frias. Valter Hugo Mãe, que foi editor das Quasi juntamente com Jorge Reis-Sá, lembra que quando os dois criaram a colecção para autores brasileiros ponderaram um conjunto de autores, e que o nome da Ana Cristina Cesar aparecia em todas as conversas. “Subitamente estávamos a conversar com o Armando Freitas Filho, convidando-o para editar connosco, e ele colocava a obra da Ana Cristina Cesar como obrigatória, quase nos motivando a dar prioridade à edição dela antes da edição dele”, conta o escritor, que está a terminar o seu próximo romance e é um dos portugueses com mais sucesso na história da FLIP.
Valter lembra-se também de visitar o pai da poeta na sua casa no Rio de Janeiro, e de este ter ficado comovido ao ser-lhe formalizado o convite dos editores portugueses. “Havia em quase todos os poetas brasileiros renomados uma quase frustrada ofensa por nunca haverem sido publicados em Portugal. Isso foi assim com Manoel de BarrosFerreira Gullar ou Armando Freitas Filho. O pai de Ana Cristina, junto a uma janela por onde se viam os edifícios vizinhos, espreitou e disse-me que aquele era ‘um dia de luz’. Havia uma triste alegria em imaginar que a obra da filha chegaria a Portugal. Foi muito especial”, lembra o escritor, que já não estava na editora em 2006, quando o livro foi efectivamente publicado por Jorge Reis-Sá.
Para Valter não há dúvida de que a obra de Ana Cristina deixa um carinho muito peculiar nos seus leitores. “Inevitavelmente impressionados com a juventude com que nos deixou, creio que encontramos nos seus poemas uma maturidade surpreendente e um certo olhar astuto sobre o mundo”, diz, enfatizando o quanto gosta dela. “Há uma tragédia do tipo estrela rock que a envolve, mas nada nessa dimensão pop que se lhe colou a destitui da beleza ou da inteligência."
Por sua vez, Armando Freitas Filho lembra que se trata de uma poesia que “abriu muitas frentes para muita gente” e que esta homenagem na FLIP é o reconhecimento da arte de Ana Cristina Cesar, uma arte que teve escassíssimos quatro anos de vida publicada: o primeiro livro é de 1979, o último de 1983. “Fez cinco livros magros, de poucas páginas, e com eles teve essa repercussão, logo no começo. O seu primeiro livro teve logo uma segunda edição, o que para poeta é uma verdadeira façanha”, explica Freitas Filho. “Isso deu uma alegria à festa literária, esta é a FLIP da moça eterna, compreende?”.

Criança autora

No documentário Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planícieé lida a carta de despedida que Ana Cristina César escreveu para Armando Freitas Filho antes de se suicidar no Rio de Janeiro em 1983, na sequência de uma longa depressão, poucos meses depois do lançamento do seu livro de poemas A Teus Pés na importante editora Brasiliense. “Fiz quatro livros póstumos [Inéditos e DispersosEscritos de Inglaterra, dedicado aos seus ensaios sobre tradução; Escritos no Rio, reunindo textos publicados em jornais; e, em conjunto com Heloísa Buarque de Hollanda, Correspondência Incompleta, que acaba de ser reeditado em ebook], porque por vontade expressa dela à mãe as coisas e [os] papéis dela ficaram aqui em casa”, conta o curador da obra, que em 2003 reuniu toda a sua poesia em Poética(Companhia das Letras) e que diz não estar a pensar publicar mais inéditos da escritora. O que existe agora no acervo de Ana Cristina Cesar à guarda do IMS é material para os investigadores, acrescenta. 
Ana Cristina Cesar aos dois anos, em 1954 WALDO CESAR/ACERVO ANA CRISTINA CESAR/INSTITUTO MOREIRA SALLES
A poesia de Ana Cristina César, explica ainda, baralha três matrizes: a conversa coloquial, a carta e o diário. “Dali sai um texto muito instigante porque parece que ela está falando directamente com cada leitor.” Às vezes, o leitor esquece-se até de que está a ler um livro. "Parece que se está a ler uma confissão particular, secreta; ou melhor, uma inconfissão. Tudo elaborado de uma maneira muito fina. É um texto baseado em coisas fúteis e ao mesmo tempo é exigente. Não é um poema que você lê uma vez e passa para outra folha. Você sempre tem vontade, pelo menos, de ler uma outra vez para ver se compreendeu bem aquilo. E não é nada pernóstico, pelo contrário, é até uma escrita simples que põe você interlocutor.”
O título da primeira fotobiografia dedicada a Ana Cristina Cesar é aliásInconfissões. É editada pelo IMS, que na sua casa em Paraty irá ter uma exposição dedicada à homenageada.
Eucanaã Ferraz, que organizou esta fotobiografia, onde também colocou poemas e textos em manuscritos e dactiloscritos, não conheceu pessoalmente Ana Cristina Cesar. Para ele, como escreve na introdução, ela era “apenas uma fotografia na parede”, tal como no verso de Drummond, mas tornou-se muito real à medida que o trabalho avançava.
Numa conversa telefónica, o poeta explica ao PÚBLICO que ao organizar este livro experimentou aquilo que todos sabemos teoricamente: qualquer biografia é uma narrativa que tem uma dimensão ficcional. À medida que ia recolhendo as imagens e os muitíssimos manuscritos, e que ia pedindo depoimentos, Eucanaã ia escolhendo. “Essa Ana é uma Ana minha. É uma ficção, estou construindo uma fala que implica escolhas, abandonos, idiossincrasias. É uma fotobiografia feita por mim, pelas minhas escolhas dentro do material a que tive acesso, por isso muito aleatória.”
Eucanaã entendeu também como é absolutamente verdade que um biografo se envolve com a personagem que vai criando. “Ela vai ficando real. Fui ficando encantado com Ana Cristina e fui-me envolvendo muito mais do que estava até então. Eu só conhecia a poesia dela e os textos sobre poesia, nunca tinha lido as cartas.”
E quando as leu, ficou encantado. Ligava para Armando Filho e para Heloísa Buarque e dizia-lhes: “Mas que moça adorável!”. Utilizava a palavra “moça” porque ali não estava a poeta Ana Cristina mas “uma moça com problemas muito banais": dinheiro, um director da escola que ela achava reaccionário, escolhas de que se arrependia... “Tudo me pareceu de uma banalidade tão grande, e foi essa banalidade que me encantou porque ela se tornou muito real”, diz Eucanaã, lembrando que Ana Cristina já era poeta na infância. “Ela tem produção aos dez, 12 anos, e são poemas interessantes. Antes de escrever, ditava poemas para a mãe. E mais tarde tinha uma editora a que chamou Problemas Universais para publicar os próprios poemas. O que passa pela cabeça dessa menina? Ela tinha ambição de carreira literária aos dez anos. Não é uma autora criança. É uma criança autora. É uma outra dimensão.”

Por trás dos óculos escuros

Nas variadíssimas imagens desta fotobiografia, Ana Cristina Cesar parece “uma menina de hoje”, reforça Eucanaã. “Aquelas roupas, aquele cabelo, aqueles óculos, aquela postura, aquela pose – e sobretudo aqueles poemas. Que são muito contemporâneos porque a poesia contemporânea fez aqueles poemas serem contemporâneos. Muitos poetas hoje escrevem influenciados pela Ana Cristina. Ela é o poeta mais influente na poesia contemporânea no Brasil, não tenho dúvida”, afirma o investigador. “À época, nos anos 70, ela não era tão contemporânea. Se você olhar a produção dos seus companheiros de geração, ela parece um pouquinho deslocada para trás. Os outros tinham versos muito curtinhos, eram instantâneos da realidade. Enquanto a Ana tendia a uma elaboração maior, a uma atenção maior à tradição poética, a uma conversa com João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Drummond, e com poetas estrangeiros como T.S. Eliot ou Sylvia Plath. Ela tinha uma atenção grande a isso, era muito intelectualizada, o que de certo modo a aproximava do poeta Cacaso, da sua geração, mas a distanciava, por exemplo, de poetas como Charles ou Chacal, porque aqui interessava muito mais uma atitude contracultural.”
A escritora em Valparaíso, no Chile, meses antes da sua morte WALDO CESAR/ANA CRISTINA CESAR/INSTITUTO MOREIRA SALLES
A poesia de Ana Cristina é também fragmentária, mas cada fragmento tem uma densidade biográfica, de retrato. “Não temos muito a noção de como esses retratos se ligam uns aos outros, o que dá à sua poesia uma sensação muitas vezes de hermetismo, de uma conversa um pouco enigmática. Por isso o leitor tem muita dificuldade em entrar. A poesia dela é muito fechada, tudo parece que flui como um retrato do dia-a-dia, do quotidiano, não acontece nada de extraordinário. O vocabulário, os arranjos, tudo parece muito coloquial mas tem muitos cortes; as coisas não se emendam, há buracos, há muitos vazios. A poesia dela é muito estranha. Parece que você está assistindo a uma coisa a que não tem acesso. É como se fosse uma private joke."
Nas fotografias, em que Ana Cristina Cesar aparece muitas vezes de óculos escuros, de certo modo isso também se nota. “Essa impressão de que ela está lhe dando acesso só a uma parte da coisa. Tem um certo desejo de enigma ali, uma certa recusa de se dar inteiramente. Fazer uma fotobiografia de alguém que deixou produzir tantas imagens de si mesma e ao mesmo tempo parece que nunca dá acesso ao personagem inteiro é uma coisa muito perturbadora e muito sedutora”, conclui Eucanaã Ferraz. Durante os próximos dias, o enigma Ana Cristina Cesar será desvendado em Paraty. 


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