quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

PARA COMIGO, Joaquim Manuel Magalhães

Joaquim Manuel Magalhães,
Para Comigo, 2018


Inverno em Vila Real. O nevão
cobria a rua do liceu.
Uma luva de cabedal amodorrado
no tampo, o vapor do alento
liga-nos à toada de um remoinho.
O meu tumulto ensombra-te.

Um pombo protegido no beiral,
a cabeça na plumagem de procela.
Tu calado, eu afeito ao silêncio, delineava-se
no papelão do compêndio uma letra
do nosso nome em conjunto,
única sílaba fora de alfabeto algum.
Que bem tão mal na confeitaria, sem o padrão ainda,
se convinha, se faltava à aula, na sediciosa ocasião
de um inaugural amor.

O foro furtivo já desagregava.
Nem te projetaria sequer
na luta em sobressalto do meu rumo.
Porém, sempre que falarem da neve
e o que for teu vier pela avenida

algo do desaparecimento, quem sabe, te recordará.


Joaquim Manuel Magalhães, Para Comigo, Relógio d’Água, 2018





JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

"Odiaria ser um totalitário do gosto"

Joaquim Manuel Magalhães publica neste mês de Novembro a mais recente reunião da sua poesia tal como a pretende preservar: Para Comigo. O poeta, o mais instigante ensaísta da poesia portuguesa, eminente tradutor de, entre outros, Kavafis, afirma querer concentrar-se apenas na escrita dos seus versos.

Seria difícil imaginar um poeta português de quem se aguardasse com tanta expectativa um novo livro de poemas como Joaquim Manuel Magalhães. Representa, na poesia portuguesa, algo diferente de um ponto de ruptura. A sua poesia constitui uma realidade muito menos unívoca. E, por isso, incomparavelmente mais aliciante. Nunca à sua escrita interessou o grito excessivo, fosse ele a declaração inflamada, ou a recusa “moderna” de uma prosódia próxima do falar, do discurso, da vida. Se usou e usa metros tradicionais, também subverte a unidade do verso, com processos que variamente boicotam o que é apenas a aparência plácida da tradição.
Contrariando um entranhado viés cultural, o do “francesismo” (de que já Eça se sentia culpado), aproximou-se da tradição anglo-saxónica. Poetas norte-americanos tão diferentes como e. e. cummings, Wallace Stevens ou Frank O’Hara, mas também ingleses, como Philip Larkin, Thom Gunn, Ian Hamilton, ou Michael Hofmann, poderão ter criado afinidades, mas nunca continuidades ou seguidismos, na poesia de Joaquim Manuel Magalhães. Intersectava-os uma recusa muito heterogénea da grandiloquência, a expressão sóbria e desafectada, um apego indesmentível ao fugitivo “real”. Esse mesmo que viria a ser, entre nós, motivo de tantos desentendimentos, logros e mal-entendidos, num certo mundinho por vezes crismado de “meio”. É ainda possível ler, em Para Comigo: “Apenas o real.” Talvez não por acaso, dois livros de Joaquim Manuel Magalhães se chamaram Consequência do Lugar, um título autónomo e uma reunião de parte da sua poesia.
Estreado com Poemas (edição policopiada num envelope de António Palolo, 1974), desde cedo na sua bibliografia levou a cabo aquela que é a mais radical operação de reescrita da poesia portuguesa. Muito antes de chegarmos ao mais recente momento desse dinâmico reescrever, Para Comigo (Relógio D’Água, 2018), encetou diversas alterações, dentro dos poemas que integravam cada título autónomo. Em cada novo livro de poesia que publicava, ia rasurando e reagrupando, excluindo conjuntos, ou reduzindo-os em número de composições — numa imparável ordem de reescrita. Quando pela primeira vez coligiu os poemas que “pretend[ia] preservar”, como então escreveu, em Alguns Livros Reunidos (Contexto, 1987), fazia-a já “com inúmeras alterações”. E, uma vez mais, havia deslocações modificadoras de poemas, os quais, em certas instâncias, transitavam de um para outro grupo de textos. Nessa primeira reunião, autonomizaram-se dois livros que longamente permaneceriam isolados: Os Dias, Pequenos Charcos (Presença, 1981), Segredos, Sebes, Aluviões (Presença, 1985). Mais tarde, quando voltou a reunir, em Consequência do Lugar (Relógio D’Água, 2001), “o conjunto de livros que”, dizia, “sinto serem a primeira parte de uma obra que se pôde ir continuando”, manter-se-iam igualmente autónomos: Uma Luz com Um Toldo Vermelho (Presença, 1990), A Poeira Levada pelo Vento (Presença, 1993) e Alta Noite em Alta Fraga (Relógio D’Água, 2001). Foi, no entanto, Um Toldo Vermelho que mais intensificou a acção reorganizativa e modificadora da poesia reunida de Joaquim Manuel Magalhães. Uma “Nota” que encerrava o livro decidia, liminarmente: “Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior.” São palavras para serem tomadas à letra. Assim foi, e será, ao que tudo indica. Um Toldo Vermelho aglutinava num só volume livros anteriores submetidos a profundas e decisivas alterações. Um gesto que eliminava diversos nexos frásicos, carregando o tom elíptico, optando por uma textura muito menos narrativa do que declarativa. Mais do que relatar uma situação, a sua poesia passou a constatar o núcleo, o sumo de tudo. Ao longo de todo este processo, não se deve reter apenas o processo da escrita, mas o que parece ser uma vontade de declarar obliquamente. Talvez seja desaconselhável fixar demasiada importância num cotejo literal e obsessivo de variantes. Não apenas porque se trataria de um exercício de futilidade, mas por estarmos diante de realidades textuais que mutuamente se excluem. Se daqui resulta um paradoxo, poderá ser razoavelmente indiferente. No entanto, Um Toldo Vermelho e, sobretudo, o novo Para Comigo parecem compelir uma leitura autónoma do que se concentrou num só livro. Para Comigo constitui, hoje, o que Joaquim Manuel Magalhães pretende preservar e fixar da sua poesia.
Tocado pelo serialismo de Anton Webern, transportou para a sua poesia actual a preocupação com a individualidade sonora de cada palavra que comparece nos seus poemas, de forma a evitar a repetição vocabular e a promover a exclusão sistemática de sonoridades que lhe desagradam na nossa língua. Todas estas preocupações, contudo, não devem fazer pensar numa poesia formalista, como a de Joaquim Manuel Magalhães de forma nenhuma é.

O processo de reescrita da sua poesia prévia parece-lhe comparável ao que fez Carlos de Oliveira com as notificações que foi fazendo aos livros dele?

Carlos de Oliveira é um dos poetas portugueses do séc. XX que eu mais admiro. Tive a sorte de o Eugénio de Andrade ter feito com que nos encontrássemos. Só estive essa vez com ele, mas ficou-me uma memória inapagável de amabilidade e generosidade. Era também um homem com uma presença encantadora. Admirei muito as mudanças que ele introduziu ao quase completo conjunto da sua obra, reunido a seguir em Trabalho Poético. Lembro-me de ter sentido um grande prazer em escrever sobre esse facto. É óbvio que tal atitude me marcou. O Herberto Helder deve ter sido o poeta português desse século que mais alterou a sua obra, mas desse trabalho nele nunca retirei admiração. (Aliás, se estivermos atentos, também encontramos uma grande pluralidade de alterações no Eugénio e no Cesariny, por exemplo. Contudo, também admiro poetas que nunca nada mudaram, nem uma vírgula, como Jorge de Sena, por exemplo. Odiaria ser um totalitário do gosto. Prefiro a consciência de cada um poder fazer o que mais lhe agrada, a ser guarda-fiscal de nenhuma atitude.)

Contudo, eu tive que ir mais longe para conseguir recuperar um pouco da minha obra que passara a detestar, por razões não meramente declarativas, mas morfológicas e fonéticas. Pensei muito e quem me ajudou a perceber melhor o caminho por onde me re-encontrar foi uma profunda atenção à obra de Anton Webern, tanto musical como teórica. É a Anton Webern que devo, de facto, tudo o que me fez re-escrever e ficar feliz com isso.
A sonoridade que busca tem alguma relação com a sua adopção do Acordo? Parece-lhe que ele o auxilia nessa procura fonética?

O Acordo Ortográfico não me poderia auxiliar em nada. É uma mera convenção (ainda gostava de passar por outro antes de morrer). Ajuda a mente a ter de aprender regras ortográficas novas e esse processo contribui para o cérebro não se anquilosar em passados. Todas as rotinas de mim mesmo me inquietam, assim tive de fazer um tanto de ginástica neuronal, uma vez que detesto fazer ginástica física. Nunca percebi bem estas inquietações de alguns, a começar cá por casa. A primeira lição da caducidade das ortografias tive-a em muito pequeno. A minha avó recebeu um recado de uma funcionária, onde lhe dava conta da necessidade de chegar mais tarde por ter de ir à “miça”. A minha avó tentou corrigi-la e eu ouvi esta resposta educada: “A senhora percebeu, não foi? Então não se preocupe.” (Gostei sempre do encantamento do erro, nos outros e em mim.)

As ortografias terão de ter mais razoabilidade, mas no fundo são convenções com que se pode brincar. A fonética e tudo o daí para mais dentro já não se compadece com acordos. Dependem do evoluir da própria língua, tanto por via erudita como popular. Mas estas coisas aprendem-se ao aprender português. Razões metafísicas para se indispor com isto não passam da liberdade para alucinar.
Julgo que haverá palavras que eu ortografo com acentos, por exemplo, sempre que tenho dúvidas de que uma homofonia qualquer me vá poder fazer perder o sentido do que escrevo. Aí não sigo o acordo. Mas também no tempo do anterior já o não seguia em várias ocasiões.
Portanto, nada da ortografia me poderia ajudar nas minhas tentativas fonéticas ou morfológicas. Só existe uma alteração ortográfica, que pretendo que seja uma homenagem a Pessoa: o modo como ele grafou “desasocego”. (Embora esta situação, que na edição crítica das suas obras me entusiasmou e por quem estimei o perspicaz investigador, se tivesse tornado uma história um pouco suja quando ele aceitou escrever do modo que toda a gente o fazia, na sua edição vulgar.) Por mim, fiquei muito feliz por poder manifestar o meu apreço pelo Pessoa e pelo seu Soares de um modo que não fosse uma citação de outro qualquer facto verbal de todos eles.
Quando muda palavras de lugar no verso, as desloca, suprime outras, ou acrescenta, responde sempre a um “apelo” semelhante, a uma vontade igual, uma qualquer razão, ou razões? Que tipo de razões ou intuições aí haverá?

Como explico no título que dei aos dois conjuntos de poemas, a partir da nova edição desenhada pela Vera Velez, não há intenção para fora de mim absolutamente nenhuma. Fiquei contente com a acalmia que em mim se instalou. Agora nunca mais olharei para este volume na Relógio D’Água. O Francisco Vale e o Carlos, seu filho, serão as pessoas práticas para tomarem conta do seu destino. Eu nada mais tenho a introduzir ou a retirar. Os livros passados desapareceram para mim. Sei que eles existiram, mas não quero saber deles. Agora volto a ter mente para trabalhar no muito que tenho pronto para isso. Pela legislação atual, se ainda se lembrarem de mim, podem publicar o que quiserem de aqui a setenta anos depois da minha morte (que vontade de rir).

Podia dizer o que foi o Galopam [retomado em Para Comigo] desenhado por Vera Velez? Não teve edição comercial?

Em 2014, pedi à Vera Velez — ela tem feito livros magníficos — se quereria fazer uma 2.ª edição de Um Toldo Vermelho e uma edição de um livro novo chamado Galopam. Ela fez-me dois livros lindíssimos e de um despojamento de gosto extremo. Assim o senti, quando os fui buscar.

A tiragem de ambos os livros foi apenas de 100 exemplares cada um. Com esses livros escondi-me da maioria do público leitor. Nunca foram postos à venda e só os dei a amigos. Nunca ninguém revelou nada, pelo que estou muito agradecido. Agora que o tempo foi passando, comecei a sentir-me mais seguro no desprendimento das mundanidades poéticas, para que não tenho jeito, mais desprendido do mundo das vozes que peroram e até das imensas gargalhadas que dava quando encontrava na rede comentários. Diziam mal e eu ficava muito satisfeito. Ao menos, tudo isso me afastou de tornar-me um poeta vendável em demasia ou um mestre-escola a conduzir discípulos, sempre detestei e afastei alguém que eu sentisse que era isso. Só consigo gostar dos poetas que nunca se tornam isso verdadeiramente em vida. Decidi então juntar os dois livros, neste PARA COMIGO. Foi este o caminho. Certo ou imperdoável, é-me indiferente.
E em relação à acalmia? Pode falar dela? Consegue explicar o que é?

Uso acalmia para designar um enfado de que nunca me livrava com os meus livros de versos. Sempre que me chegavam às mãos não conseguia gostar deles. Quando comecei a poder juntar livros publicados, tentava resolver a situação com emendas parcelares. De novo não me sentia bem. Nunca gostei da minha poesia, mas no fundo tinha-lhe um inquietante amor, precisava daquilo para o meu dia-a-dia e para o meu equilíbrio íntimo. Não me pergunte porque precisava. Mas eu sentia que só por aí me libertaria do tédio que foi, para mim, ser professor durante tantos anos.

Subitamente percebi. Publiquei a 1.ª edição de Um Toldo Vermelho. Mas senti que o livro estava mal organizado. Precipitara-me sobretudo nas sugestões que dera para a separação das estrofes. Revi tudo com os livros da Vera [Velez], os quais me mostraram imenso graficamente. Aprendi com ela acerca do espaço dos versos num livro. Sobretudo fui capaz de perceber que podia aplicar a ambos os livros os meus intuitos. Agora juntei-os e, repito a palavra, “acalmei” de todo aquele fervilhar. Nunca mais, sinto-o com segurança, mexerei em Para Comigo. Melhor dizê-lo mais enfaticamente que nunca mais o lerei. Só se alguém me apontar alguma gralha ou outra, o que eu reencaminharei para o Francisco e o Carlos se quiserem voltar a publicá-lo em qualquer altura.
Estou tão grato a tanta gente que me ensinou. À Judith Beatriz de Sousa que me deslumbrou com a literatura no liceu de Vila Real, onde tive a felicidade de ela estar antes de vir a fixar-se no Camões de Lisboa. Nunca esquecerei Maria Helena da Rocha Pereira ou Vítor de Aguiar e Silva, na horrível Coimbra, gigantes e ambos atentos ao miúdo que lhes devia largar tanto disparate. Depois aprendi a própria forma como eu gostaria de ensinar com Vitorino Nemésio. Tudo tão bom e de imensa sorte.
E posso perguntar alguma coisa sobre esse “muito que tem pronto”?

Pode. Escrevi nestes anos imensa coisa. Não consigo escrever, mesmo pequenas notas, sem as minhas canetas de tinta permanente, os objetos que mais adoro e de que preciso em uníssono com os bicos muito grossos e os papéis por onde a tinta corre com prazer acrescentado. Dependo completamente delas para escrever seja o que for, nem as listas do que trazer do supermercado consigo fazer sem elas.

Tudo aquilo que escrevi foi passado a fotocópias e desordenei por completo a própria ordem arbitrária. Depois guardei. Era uma montanha de fotocópias, mais de cinco mil, bastante mais.
Saí do país com aquilo. Fui para a Grécia, Atenas. Durante três anos, mais de um mês cada ano, arranjaram um hotel com duas mesas no quarto de que eu não saía, a ver o que fazer com aquilo. Claro que saía, mas sempre no continente. Quem andava pelas ilhas era o Pratsinis e a mulher e o João. Sempre me dei mal com o mar e não era por se chamar Egeu ou Jónico que me punha a querer andar por ele.
Esse trabalho resultou em imensos grupos de um poema só, talvez demasiado longos, ainda não sei. Grupo atrás de grupo vou eu começar a escrever agora, sem me lembrar de outra coisa senão a pequena vibração que lhes senti. Vamos a ver o que acontecerá. Se um livro, se dois. Isso ainda não sei. Até pode ser que resultem três. Por isso usei a palavra muito, é a que eu ouço de mim para mim.
O seu poema Homossexualidade, concebe-o como libelo, síntese, nota, “documento histórico”, no sentido em que possa fazer especialmente referência (oblíqua ou não) a uma época específica? Ou foram (são?) todas as épocas assim? Ou há outro sentido, tensão organizadora, motivação?

Quando escreviHomossexualidade foi um pouco por sentir que Portugal estava a afastar-se de vários países que eu respeitava. A maior mágoa, devo confessá-lo, foi o atraso relativamente a Espanha. Não acredito na função social da poesia, mas escrevê-lo foi tornar tudo mais óbvio para quem me tivesse lido. Desde a minha primeira publicação que nunca abdiquei de que a base do que escrevia tinha a ver com a minha identidade sexual. Fala um pouco da crítica portuguesa que nunca ninguém tivesse referido esse elemento essencial. Foi um espanhol (Miguel Casado) e um francês (Fernando Curopos) quem, naturalmente, falou pela vez primeira nessa obviedade e, para mim, banalidade.

Em Junho de 2010, Portugal mudou, nesse aspeto. Pude logo nesse mesmo mês casar-me com a pessoa com quem vivia desde os meus 18 anos, em 1964.
Este assunto, todavia, merece-me umas certas considerações.
Em primeiro lugar, não foram os homossexuais por si só que conseguiram essa modificação. Foi o facto de a realidade da luta que começara, no mundo Ocidental, com os Stonewall Riots e se expandira pouco a pouco por todo esse mundo que começou a mostrar um caminho de afirmação a muitos homossexuais, se não a todos os homossexuais. Essa afirmação foi tendo múltiplos ecos expansivos. Mas só começou verdadeiramente a atuar no mundo social quando as/os heterossexuais compreenderam essa mesma luta. Foi o convencimento das/dos heterossexuais que conseguiu imenso ajudar a alterar as leis. Eles estavam maioritariamente nos locais que podiam proceder a essas alterações e fizeram-nas acompanhados por vários homossexuais a quem pediram ajuda para proceder a essa alteração. Se as/os homossexuais se voltarem para uma não relação prática e efetiva com o mundo maioritário das/dos heterossexuais que os escutam, terão muito a perder.
Bom, isto é um pouco como o que se passou com o 25 de Abril. Dificilmente a oposição civil ao Estado Novo teria alguma vez sido capaz de um derrube desse regime, é um facto que nunca o conseguiu. Foram os militares, talvez só pudessem ser eles, que tudo derrubaram. Curiosamente nunca quiseram assumir um poder só para si. Pediram auxílio aos núcleos políticos que se agitavam no tecido português da altura. Esses políticos ajudaram os militares e o facto é que o novo regime nunca caiu em nenhuma tirania. Os homens contra a situação puderam avançar por os militares lhes terem aberto o caminho e pedido a sua ajuda.
O mesmo com as alterações legislativas de 2010. Os homossexuais sempre combateram por esse espaço de equidade, mas nada puderam introduzir eles próprios nas leis constitucionais. Foi a crescente atenção dos heterossexuais politicamente representativos que, sem dúvida aconselhando-se com homossexuais, que permitiu essa mudança. Num certo sentido foram os heterossexuais quem permitiu a abertura aos homossexuais e ajudou na alteração legal. Foi um trabalho duro por parte das/dos homossexuais, mas foram heterossexuais quem pôde legislativamente avançar.
Hoje, quando ouço ou leio referências a uma pseudo-heteronormatividade fico muito crispado. Primeiro, porque foram as/os heterossexuais a prescindir dos direitos que tinham para aceitar e incluir a pluralidade das orientações sexuais. Segundo, por terem tornado inteiramente iguais às deles todas as prerrogativas legais. Terceiro, porque entre as/os heterossexuais sempre houve distinções comportamentais muito claras, tal e qual quanto as havia entre as/os homossexuais (por isso invocar libidos pessoais tornando-as dogmáticas é não saber pensar: a libido é inelegislável e do foro sempre enigmático e belo de cada indivíduo). Todos os que falaram antes nessa heteronormatividade foram pensadores e ativistas que estavam a tentar pôr a claro as suas reivindicações. Depois de todas essas alterações em tantos países é um tanto absurdo repisar nelas nesses países. Se pensarmos em termos da globalidade das nações sem dúvida que teremos de ter sempre essa ideia presente, mas não entre os que já não têm normatividade contra que reagir. Não me esqueço, porém, que o movimento LGBTI será sempre de continuar ativo e nós a não nos afastarmos dele.
O problema das normatividades encontra-se sempre preso não às maiorias sexuais, mas a quase todas as religiões que sufocam o mundo. São as religiões que introduzem essas normatividades e as fazem atuar. Não vale a pena perder mais tempo com esta óbvia questão.
Por uma questão de verdade meramente biográfica, tenho alguns grandes amigos que são profundamente católicos e, por acaso, inteiramente heterossexuais. Foi onde encontrei sempre um espírito completamente livre em questões sexuais. Talvez por neles o facto religioso não necessitar nunca de se tornar um facto de moral oblíqua. Deve haver outros assim noutras religiões. Mas eles são indivíduos, as religiões são massificações alienantes.
Só para concluir. Hoje em dia persiste a doença mais difícil de curar: a fobia. Penso que muita gente padece dessa fobia, entre as/os heterossexuais e entre as/os homossexuais. Mas isso é uma outra questão. Há por exemplo uma fobia, para lá da junção dos sexos, que diz: só a esquerda aceita o ser homossexual (uma parvoíce absoluta). Alguns dessa mesma esquerda portaram-se ridiculamente, fobicamente, quando um membro de um partido de direita se afirmou como homossexual. Fiquei envergonhado com o que li e ouvi. Este é um caso de homofobia por parte de homossexuais, o que me desgosta porque parecem esquecer-se dos séculos que se viveram e se esquecem do respeito que devemos pelas opções de cada um.
Num poema seu, anterior, leio: “Detesto a poesia. Essa tarefa/ debruada de troca social.” Detesta? O que acha mesmo sobre a poesia? O que lhe apetece dizer sobre ela?

Repare. Embora a fonética da palavra “detesto” me mostre que está a referir poemas que me desagradam já, afirmo-lhe que continuo a pensar que detesto a poesia. Aquela que surge para ser poesia, a que se afirma antes de tudo o mais como cartão-de-visita, a que apressadamente procura de imediato um pedestal. Escrevem-se várias coisas que o tempo se encarregará de esquecer ou a que o tempo (dizendo melhor, o contínuo refazer dos gostos pelas várias épocas) lhes atribuirá um sentido. Querer ver para além disto, no imediato, sempre me pareceu má teoria (não sei se existe alguma boa sobre este assunto) e mau impulso. Sempre combati as imensas teorias com que me fui defrontando (tenho o testemunho de imensas pessoas de que nunca me ouviram defender nenhuma, pelo contrário sempre procurei desligar delas a sua atenção aos versos — é o acaso de se ser professor. Sempre me ri dos que se punham em bicos de pés para serem avistados com papéis agitados ao vento dos leitores. Isso mesmo em que me pareço tornar agora, não é?

Há aquele poema seu, em que lhe dizem, depois de 74, que podia “deixar em paz os poetas ingleses”. Agora de que nacionalidade seriam esses poetas? Já não seriam espanhóis?

Desculpe, mas eu não disse nada disso. Quando a seguir ao 25 de Abril me dirigi ao Diário de Lisboa onde sempre escrevi sobre a poesia inglesa que ia saindo, umas coisas pouco boas, mas que podiam talvez desviar para fora do francesismo dominante as atenções de quem podia ler. Cheguei lá e levava um texto sobre George Steiner (que não era um poeta). Publicaram-no, mas chegou um engajado qualquer ao pé de mim a dizer-me, com a alegria que ambos partilhávamos, que podia deixar de escrever sobre poetas ingleses. A insinuação era de que eu era livre agora para poder escrever sobre poetas portugueses o que, no seu pensamento, eu não faria por causa da censura prévia, sei lá. Nunca mais escrevi nada para esse jornal, sobretudo pelo choque de não perceberem que eu não estava a escrever nada contra o meu desejo. Eu quis escrever aquilo. Já antes eu havia falado sobre muitos poetas portugueses e continuaria a fazê-lo depois.

Em poesia portuguesa, o que é que o Joaquim Manuel Magalhães não “deixa em paz”? Ou seja, o que é que lê com prazer, interesse, vontade?

Sobre poesia portuguesa eu creio ler tudo, mesmo a situação atual de a melhor poesia estar em livros que não aparecem nas livrarias, por serem publicados em editores sem distribuição. (Também isso é irrelevante, porque também já não há livrarias.) Leio porque leio, é um hábito que me ficou desde que me lembro, desde a altura dos meus 14/15 anos a amar a poesia da Florbela e do Gomes Ferreira. Tive um pai extraordinário, que só queria para mim o que eu quisesse, abriu-me uma conta numa livraria que ele depois pagava. Nunca pensou que eu lhe fosse gastar tanto dinheiro em livros, ainda por cima sendo ele um homem que nunca gostara de ler, poderia ter gostado, mas não gostou. O meu pai é uma figura cimeira na minha vida, um pouco mais acima de outro cimo que é a poesia portuguesa (sem esquecer que sempre a li em contraponto com a poesia de várias outras línguas). Nessa altura já era capaz de ler em francês e em inglês e em espanhol. Nunca fiz uma leitura provinciana da nossa poesia, por isso me espanto com as cotoveladas que os poetas dão uns aos outros por causa do seu lugarzinho efémero. Mas hoje sei bem que sempre foi assim e encolho os ombros.

O que lhe sugere uma cidade, como Lisboa, sem livrarias? A situação no Porto não é excessivamente diferente, ressalvadas algumas excepções.

Mostra-me um demasiado vazio, sobretudo por nesses armazéns apenas se encontrarem estes livros inúteis que dizem ter um público. Um gosto público que se abastece de nada, nem sequer sabe se gostará de ler. Gosta de ler o que para ali está. Mas em Londres, Paris, Madrid também já não há livrarias ou boas casas para poder comprar discos. Encontrei uma em Berlim, mas também já deve ter desaparecido. Falam em globalização. Mas onde encontrar tanto o antigo como o novo a não ser nas Amazon europeias ou equiparáveis? (Digo europeias por as de fora da Europa obrigarem a desalfandegações incomportáveis e abomináveis.) Parece que os das alfândegas se estão a vingar das que perderam.

Passa-se isso com tantas lojas tão úteis, como por exemplo as boas que existiam ligadas às belas-artes. Toda a gente se lembra de outras ainda, por certo.
Parece-lhe que o “momento” da poesia portuguesa é especialmente interessante?

Não sei nada de momentos, apenas sei de sentimentos. Tenho muito bons sentimentos para com a nossa escrita poética em volta do início dos anos 70. Já sabe que não irei falar do poeta pelo qual tenho mais afeto, por uma questão de decoro.

Desde essa altura e avançando por ordem decrescente de idades, começava por referir obras de Alberto Pimenta, Fernando Assis Pacheco, António Franco Alexandre, Paulo da Costa Domingos, Rui Baião e Gil de Carvalho. Quase pela mesma altura, apareceu a obra do agora silencioso Fernando Luís Sampaio. Também José António Almeida. Mais adiante Rui Pires Cabral e José Miguel Silva, logo a seguir a eles Manuel de Freitas. Também Jorge Roque, mas ele é transgénero, escreve prosas e eu leio-as como poemas, não se deve zangar por eu dizer isto, espero bem. Não lhe parece que é para sentir uma emoção feliz?
Espero não me esquecer de alguém. Que me insinuaria?
Entre os mais novos, estou muito atento a três. Frederico Pedreira, Sebastião B. Cerqueira e Fábio Neves Marcelino.
Lembro-me, ou creio que me lembro, de dizer que traduzir era bom para não escrever, ou (o tom pareceu-me esse) porque não escrevia, porque traduzia. Se me lembro bem, e disse isto, ainda se aplica, para si? Continua a traduzir? Posso saber alguma coisa sobre isso, e sobre o que acha da tradução, tal como a faz?

Pergunta excelente para poder continuar a responder à anterior. Ler poesia estrangeira sabendo a língua original é um ato de tradução muito profundo. Quando me deu para traduzir, só traduzi porque gostava de o fazer com alguns autores. Porque num certo momento da minha vida gostava dessa atividade. Hoje não gosto, por isso não me vejo a traduzir mais seja o que for. Tal como não me vejo a escrever mais artigos sobre qualquer coisa. Perdi o gosto e foi uma boa conquista, pois pude caminhar mais para dentro de mim. Continuo, porém, esse ato de tradução que é ler em línguas estrangeiras, sobretudo os que vão sendo o mais recente, sem o que sufocaria.

Nesse campo, contudo, parece-me que só houve uma tradução que me tivesse dado e continue a dar um grande gosto. Foram os poemas todos que Kavafis nos quis deixar. É a única tradução completa e talvez a que tenha menos erros. Mas não sou eu quem se deve pronunciar. Só um crítico que saiba mesmo grego moderno. Os que não sabem ou devem ficar calados ou não trepidar não sei por que mecanismos pessoais. Foi para mim uma tradução fulcral, não só pelo desde sempre tão amado poeta, como pela companhia da figura imensamente culta que partilhou comigo a tradução, o Nikos. Estou sempre a aprender coisas sem fim com ele, mesmo fora do campo estrito de Kavafis. Às vezes passamos um dia a falar e ao fim do dia traduzimos uma estrofe. Havia um intuito de traduzir os poemas inacabados que ficaram depois da sua obra, mas já nem isso me apetece, não iria acrescentar grande coisa, apenas satisfazer curiosidades. Não quero, repito, perder mais tempo com outras coisas que não sejam os meus versos.
Devo depreender que não quer dizer mais sobre o ter deixado de querer traduzir e escrever artigos?

Ter deixado de traduzir ou de escrever artigos foi um ato de limpeza que resultou de um modo retumbante comigo. Traduzir é perder tempo, dá muito trabalho, a maior parte das vezes as coisas ficam tortas em português e percebemos logo que não resultam bem e não pode ser de outra forma. Os artigos têm um peso que nos entristece, percebemos no sangue quanto tudo é passageiro e ficamos sem fôlego para o que gostamos mesmo de viver ou escrever. Agora percebo isso. Ajudou-me a respirar melhor, como a poesia sempre faz. E a ter todo o tempo que me resta (e que será sempre pouco) apenas para me entregar a ela.

Nunca gosto de falar de poesia de um modo tão abstrato, sinto-me ridículo. Por isso digo que o que aconteceu com as traduções de poemas e com os artigos tem a ver com uma alteração radical dentro de mim. A casa da praia e o que havia em Lisboa foi tudo vendido depois de termos passado a viver aqui. Senti-me tão bem neste largo espaço que já nem compreendia como viver fora dele. É cerca de uma aldeia da freguesia do Carvalhal, que pertence ao Bombarral, fica a três quartos de horas de camioneta direta até Lisboa. Mas é mais do que suficientemente longe, está longe de ser o que chamamos um arrabalde. O Carvalhal é muito bonito, mas eu vou sobretudo ao Bombarral. É uma vila meia morta, com ruínas, uma grande mata e onde as pessoas são muito simpáticas. Gosto daquela tranquilidade meio ativa, do café a que vou, entre outras coisas mais. Fazer esta escolha foi muito benéfico. Deixar as outras casas, como deixei as traduções e os artigos, fortaleceu-me as “emotions recollected in tranquility” (do Wordsworth de quem gosto muito e que foi o primeiro poeta que tratei nas minhas primeiras aulas) com muito mais vigor e com uma passagem do tempo muito boa. No fundo está tudo como bom estrume donde os versos brotem. Senti sempre Lisboa como uma pequena cidade absurda, vou lá para um ou outro pequeno afazer e logo volto. Que ninguém pense em bucolismo, sou o invés desse tema. Pense-se antes num “hortus conclusus” (no seu sentido latino original, sem qualquer ligação ao modo como o cristianismo o folclorizou) até onde me chega (graças à internet) o recente de tudo quase dois dias depois de ter sido posto à venda. Talvez se trate, também, de extravagância, uma coisa de que gosto imenso.
Nota: Esta entrevista foi feita por escrito. As perguntas e demais textos seguem o Acordo Ortográfico de 1945. JMM segue o Novo Acordo Ortográfico. “Aderi ao acordo ortográfico imediatamente, um acordo é algo irrelevante para a língua, só os místicos fumarentos supõem que é importante, mas não passa de uma renovação de feitiços.” (JMM)

Miguel Manso, Público, 2018-10-26



 


Joaquim Manuel Magalhães, um poeta não domesticável /premium

Depois de quase 10 anos em silêncio e um corte radical na sua poesia, surge agora um novo livro, "Para Comigo", onde promete continuar a afugentar leitores e todos os que querem vasculhar a sua vida.

Foi um dos poetas mais amados e mais seguidos da poesia portuguesa recente até à publicação, em 2010, de Um Toldo Vermelho, um livro que contem aquilo que Joaquim Manuel Magalhães considera ser o que se salva de tudo o que escreveu. O gesto teve a força de um cataclismo para os leitores e admiradores: muitos não lhe perdoaram, outros recusam-se a tentar sequer ler o que resultou de todos os cortes, rasuras, substituições. Dos 21 livros publicados restam pouco mais de 100 páginas que voltarão a ser revistas e cortadas e publicadas em edição de autor, em 2014.
Nesse mesmo ano surge Galopam e nova edição autor. Cerca de 100 exemplares para distribuir por amigos. Quase uma década depois do gesto iconoclasta que, de resto, sempre esteve latente quer no conteúdo, quer na forma da sua escrita, reaparece com Para Comigo (Relógio D’ Água). A obra, que chegou agora às livrarias, reúne a terceira e derradeira versão de Um Toldo Vermelho e Galopam. Finalmente em paz com o seu passado poético, Joaquim Manuel Magalhães diz-se pronto para começar uma nova fase da sua vida.
Fomos visitá-lo à casa que partilha com o poeta João Miguel Fernandes Jorge, perto do Bombarral. Mudaram-se para lá há mais de 20 anos. As árvores, os arbustos, as flores que João Miguel plantou nessa altura cresceram e formam um pequeno bosque colorido a lembrar a Europa do Norte. Joaquim diz que “não tem jeito” para jardinagem mas “adora o bosque, especialmente em dias de chuva”. Este ano aconteceu terem ambos livros novos a sair na mesma editora e na mesma semana. É a primeira vez que tal acontece em mais de quarenta anos de relação. Também não têm o hábito de mostrar um ao outro o que vão escrevendo, apenas o fazem quando os livros estão prontos. Quem lhes conhece as obras sabe como são dois universos totalmente distintos.
A casa cheia de livros e quadros é um refúgio familiar e acolhedor. Alheios ao que se passa no meio literário, nas academias, nas redes sociais, vêm cada vez menos a Lisboa, preferem as Caldas da Rainha onde têm amigos e Joaquim já não se imagina a ser empurrado para relações, atenções, leituras que não quer. Tornou-se ainda mais seletivo e exigente, mas a generosidade para com os outros é igual: uma das premissas desta entrevista era poder falar sobre os bons livros de poesia que 2018 lhe deu. Prefere falar da poesia dos outros. Sobre a sua é parco e assertivo, sem direito a elucubrações líricas que, de alguma forma, sirvam para “vistoriar” aquilo que ele acolhe, recolhe ou despede. Defende aguerridamente o seu direito à mudança e está-se nas tintas para o que os leitores querem dele, se se sentiram traídos, se vão lê-lo ou não. De qualquer forma já tinha avisado:
“Melhor não lesse
quem por dever
E se interpretou aqui
um exercício de sintaxe
uma retórica minada de prosódia
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.”
(Um Toldo Vermelho, 2010)
No seu ensaio Com Voz Torva e sem Arrependimento, Maria Filomena Molder defende que JMM retirou da sua poesia toda a sedução, mas manteve o demoníaco, a torpeza e a astúcia. Com Agustina, sabemos que nenhuma sedução “retém os nossos passos nem constrói monumentos de paz, pelo contrário a produz uma virtude de pacotilha que é a submissão” e, tanto a vida como a poesia de JMM sempre se pautaram por uma vivência radical da liberdade, a sua e a dos outros. Não perceber que na raiz da obra Magalhães se encontra mais a rebeldia e o acidente que a busca de verdades ou a afirmação identitária que parece hoje ser a demanda de todos artistas. “Sou a vida que me atravessa”, declara nesta tarde de domingo e chuva. “Só escrevo a minha biografia”. Com a mesma ênfase recusa todas as ideias feitas e todas as expectativas que se colaram à sua poesia e à sua pessoa.
Para Comigo é assim o livro mais radical de JMM. Toda a narratividade desapareceu, toda a imagem concreta, direta desapareceu, restam palavras antigas, esquecidas, palavras novas como se pronunciadas na primeira manhã do mundo. Resta (e não é pouco) uma toada, uma musicalidade que evoca as Cantigas d’ Amigo, as canções tradicionais que aos poucos se sobrepõe a tudo e se torna viciante. É quase impossível ler este livro sem a ajuda de um dicionário e isso pode ser muito frustrante para os leitores porque impede que se entre no poema logo à primeira ou segunda tentativa. É preciso ficar ali, aceitar o desnorte, a asfixia, a sensação que tudo aquilo nos escapa como uma língua desconhecida. O tempo e o espaço volatilizaram-se, não há boias nem botes salva-vidas.
Talvez, nunca como agora a poesia de JMM esteja tão impregnada de real. Já não é um real evocado, descrito, já não há cidades, nem quartos, nem corpos. O real é essa contínua sensação de afogamento, de perda, de estranhamento, de incerteza naquilo a que chamamos dias e horas, factos, acontecimentos. O real é tudo o que não sabemos como explicar. Como nomear, como agarrar.  É esse estilhaçamento que encontramos neste livro, onde só um passado remoto se parece salvar. Um passado feito de minérios, plantas, restos de vozes, restos de imagens, uma natureza metamórfica em oposição a materiais sintéticos, artifícios técnicos, fraudes de strass e musselina. Houve um tempo em que JMM era menino, usava calças de surrobeco (burel/lã) e tinha uma bisavó alemã que lhe dirigia imprecações, vivia entre montanhas imóveis e estava atento a tudo o que ainda não possuía nenhuma história…
“Bugalho. Cárcere carteiro.
Razia, buril
Furtava o confim azinhaga.
Ia ter contigo.
Cio num botão de sal.
Ponteei-o, sépia vinil.
Grés a calcinar.
Comedida veemência.
Ideia e saga.
À tardinha anda passear.
Cicatriza-te em mim.”
(Para Comigo, Um Toldo Vermelho, 2018)
Depois de ter sido crítico literário, professor catedrático na Faculdade de Letras, retirou-se para o bosque. Desistiu do meio literário português? Porquê?
Não, nunca usaria para mim a palavra desistir, diria que nunca lá estive pessoalmente. Mas penso ter estado sempre atento, como hoje ainda estou, às palavras vagantes dos outros. Fiz duas ou três amizades que resistiram a muitos escolhos, sobretudo porque não gostei de grupos literários, preferi sentir-me livre e observar de fora com a maior atenção. Mesmo catedrático, tal como alguns outros colegas meus, não me acomodei, mantive toda a atenção e sempre falei do mais antigo e do mais novo, num ímpeto que tinha a ver comigo como pessoa e com os alunos a quem pude prestar mais atenção. Fiz sobretudo isso e muito menos tornar-me um angariador de posições afastadas dos alunos para me promover económica ou socialmente. Nunca procurei sequer ser um catedrático de uso externo, como também se faz.
De qualquer forma nunca teve uma relação fácil com esse “meio literário”.
A primeira pessoa (de qualidade) que conheci quando cheguei a Lisboa foi o Manuel Gusmão. Depois o João Miguel [Fernandes Jorge] e logo a seguir o António Palolo. Ele foi o nosso primeiro amigo conjunto e nós sentimos logo a diferença que era estar com alguém das artes plásticas e alguém do meio literário. As pessoas das letras dão menos atenção ao novo e são muito mais conflituosas. Nos artistas essa atenção ao novo não era conflituosa. O espírito sempre foi outro, mais aberto. Por isso, toda a minha vida me relacionei mais com gente das artes plásticas que da literatura. Ainda hoje os meus grandes amigos são das artes. No final dos anos 60 não era tão conflituoso, mas havia os grupos fechados. E eu detesto a situação de grupo. Aos poucos, o ambiente literário foi-se tornando mesquinho e eu infelizmente voltei a perceber essa mesquinhez quando apareceu a internet, os blogues, as redes sociais e as pessoas começaram a mandar-me coisas que eram ditas aí. Eu pressenti logo que a internet potenciava a malignidade e que quanto mais medíocre fosse uma pessoa mais ela era capaz de escrever coisas insultuosas. Lembro-me de já então pensar: olha aqui está a nova PIDE. Podem dizer o que quiserem e como ninguém lhes exige que se justifiquem ficam impunes.
Também foi sempre muito crítico em relação à massificação da cultura.
Isso hoje atenuou-se muito em mim. Mas essa posição vinha de coisas muito íntimas como o facto tão simples de eu precisar muito de solidão. Eu preciso mesmo de solidão. Eu preciso mesmo de não me sentir empurrado para fazer coisas, para leituras, para as palavras… Mas hoje em dia o que mais me incomoda já não é isso mas a circulação de um discurso de ódio. A ideia de que existe crítica literária é falsa já, pela simples razão de que os próprios jornais se aglomeraram a essa net tão típica. Coisas para a paciência e para ver o que virá a suceder.
No entanto, começou a sua carreira na televisão, no final dos anos 60.
O programa chamava-se “Os Homens, os Livros e as Coisas”, foi em 1969. Depois do 25 de Abril as pessoas pensaram que eu tinha sido expulso da televisão. Mas na verdade o que aconteceu foi uma pequena história fascinante: quando acabei o curso era muito novo e o catedrático Joaquim Gonçalves Rodrigues, um homem ligado ligado ao regime, chegou a dirigir a Mocidade Portuguesa e se considerava um “fatimista”, veio convidar-me para ficar a dar aulas na Faculdade de Letras. Mas disse-me que para isso gostava que eu deixasse de fazer programas na televisão. Eu, muito espantado, perguntei-lhe “mas porquê?”. E ele respondeu: “Porque eu acho que você agora deve estudar, aprofundar, tem que ir investigar muito lá para fora, a televisão vai torná-lo superficial”. Senti que aquele homem me tinha dado uma lição de vida extraordinária. E que aquele homem era de uma extrema inteligência nas suas relações com os outros. Percebi o que estava em causa e deixei a televisão.
Pode a poesia sobreviver à girândola consumista que tudo engole, a um público pouco lido e sobretudo pouco disponível para o atrito ou está destinada a ser sempre para uma elite reduzida?
Sempre se leu pouco. Sempre se leu pouco poesia. Dantes as distâncias e os preços afetavam o pouco acesso aos livros. Mais antes ainda, aquilo sobre que pousavam as palavras era para um reduzido número, optou-se por a cantar, para servir em festas da cidade e dos ricos senhores que as governavam. Às vezes, esses senhores acontecia gostarem mesmo do que ouviam e patrocinarem alguns para escreverem para eles ou para os seus espaços em que agrupavam rolos com palavras.
Hoje em dia vive-se uma época com coordenadas sociais diferentes, naturalmente, e isso repercute-se nas compras, o que afeta as editoras que vivem estritamente para a venda. Eu creio que, mesmo assim, a disponibilidade para a leitura deve ter-se alargado a uma percentagem maior de gente. Só que essa percentagem é sobretudo de gente que acredita na publicidade e se habituou a aconselhar-se com ela. O fito da publicidade é impingir produtos. O que é impingido, porém, não se pode afastar muito do gosto geral. Os escritores estão atentos a isso. A publicidade acaba por os auxiliar se se inscreverem no que a publicidade entende por gosto geral.
Foi sempre assim. Hoje parece-nos mais evidente, sei lá. Houve livros muito bons que tiveram uma difusão por via do gosto geral, estou a pensar em Werther como um exemplo. Houve livros muito maus que se venderam enormemente, como A Rosa do Adro, de já nem sei que autor e que se tornaram esquecimento. Todos os anos em que andei em escolas e liceus e faculdades como aluno, eu via claramente que todos os meus colegas não liam, raramente encontrei uma exceção a isto. Quando me tornei professor, descobri que também a maioria dos meus colegas, próximos da literatura, não liam para lá dos seus interesses imediatos, isto é, liam o que lhes era preciso. Gostam de se sentir especialistas, aquilo que mais mata a literatura e o seu ensino. Alguns até tentaram ser poetas, um ou outro teve editoras, mas na sua maioria eram maus, poucos foram os que sobreviveram desse modo. Deve haver várias pessoas que passaram por esta realidade. Talvez outros não tenham passado, como em tudo.
A poesia pode criar dificuldades, rugosidades que a afastam desse gosto geral ou apenas o alcançam mais tarde no tempo. Há poetas que continuam a publicar tijolos e as editoras podem não se importar, pois eles supostamente vendem, pois se souberam aproximar de um gosto geral na maneira da sua organização de palavras e sentimentos. Outros não conseguem, não se importam, não querem desistir da sua conceção construtiva de emoções e de buscas. Se escolherem esse caminho, se o tiverem escolhido em momentos longínquos já no tempo, sempre teriam pouca repercussão. Depois há os poetas maus e os prosadores maus, isso é outra questão.
Por mim não gostaria de me tornar um poeta de leitores, por feitio. Da mesma maneira pela qual não gosto de ter demasiados amigos, tenho amigos, mas não muitos. Contudo, a poesia e não o poeta sempre foi para quem quiser.
“ — O que achas que ele fez?
— Uma coisa que esteve sempre a fazer e que só ele pode fazer.
— O quê?
— A reler os seus versos hoje e a recolher os despojos, que com os batimentos das ondas ficam lavadas de ouro e imundice  em vez de os embalsamar: é que, mesmo profetizando contra si próprio, conseguiu não ter o coração de cinza.”
(Maria Filomena Molder, sobre Joaquim Manuel Magalhães em Dia Alegre, dia Pensante, dias Fatais)


Enquanto crítico literário evitava o atrito que não evitava enquanto poeta?
Nunca escrevi sobre nenhum livro de que não gostava. Preferia silenciar-me. O problema foi mesmo eu deixar de viver bem com esse trabalho. Aquilo criava-me confusão, desestabilizava-me. Embirrei com o que estava a fazer, de tal modo que nem quis reunir em livro esses últimos textos. Quando me mudei para aqui percebi que tinha que me dedicar a uma coisa só. É muito importante haver quem discuta os livros. Sobretudo isso; quem discuta. Agora na internet as pessoas não discutem nada. Manifestam bronquidões e não se justificam porque estão no anonimato. Se o não estão, limitam-se a formar um impulso qualquer que lhes dá e não é nunca qualificado. Esta coisa da internet das redes sociais e das caixas de comentários é profundamente cobarde, não cultural. Causa-me preocupação e temo que seja a partir dela que nasçam novas tiranias. Pois aquilo já está configurado para ser o ser. Ao mesmo tempo, vontade de ferir o outro e alienação. Esta leva sempre a ditaduras. Uma sociedade inteira ali metida pode destruir a sociedade do diálogo, da complacência, do aprofundamento de ideias.
A internet faz-me lembrar o que foram, no princípio do século XX, os movimentos de alteração da literatura. Dou um exemplo: o Manifesto anti-Dantas do Almada Negreiros. O Almada era um autor que, quando confrontado com as pessoas da sua geração, era um escritor menor e um artista menor. Ele é contemporâneo de gente magnífica como o Santa Rita Pintor, o Sá-Carneiro, sobretudo o Pessoa. Também este teve que reagir ferozmente em defesa do Raul Leal ou do António Botto ou da Maçonaria, mas agiu com uma finura, uma ironia tão subtil, uma genialidade que o Almada nunca conseguiu. Para mim o Manifesto anti-Dantas é um bom equivalente absoluto das redes sociais: é o escrever por ódio e para dar nas vistas.
Um dos homens que eu mais admiro na literatura portuguesa é Jorge de Sena. Mas ele tem duas coisas que não percebo por serem talvez negativas: a agressividade resultante do seu ressentimento muito ligado ao seu imaginário. Ele estava fora e isso levou a que muita gente o procurasse ignorar ou não lhe prestasse a devida atenção. Penso muita vez que um poeta violento pode atirar assim por se pensar não amado. No fundo, é um caso muito complicado para ele mesmo.
Nos anos 80 falava da “bertrandização” da cultura e hoje isso tornou-se mais evidente que nunca com os conglomerados editoriais e a progressiva marginalização das editoras e livrarias independentes.
Eu não vejo as coisas assim. Porque isto fez com que aparecessem muito mais pequenas editoras que são muito importantes. E na Assírio & Alvim comprada restam dois grandes poetas que eu admiro, Herberto Helder e António Franco Alexandre. Embora o pareça, não foi um grande triunfo para a Porto Editora. Limitou-se a esses dois. Para mim o grande problema das editoras portuguesas foi o incentivar muito um gosto que é fácil, sobretudo na ficção. Perceberam que quanto mais banal fosse um livro mais vendia e então passaram a apostar apenas nisso. Há um grande desequilibro entre a quantidade de ficção publicada e a sua qualidade.
Durante estes últimos anos publiquei dois livros em edição de autor. Isso fez-me feliz. Agora pensei que estava a ser um pouco cobarde em continuar a fazer livros só para os amigos. Então de novo entreguei a palavra ao difícil encontro com essa figura que é o leitor sem cabeça. Contudo, mesmo agora, não sei o que vou fazer a seguir.
A minha admiração vai toda para o que fazem as pequenas editoras. E ainda há umas pequenas livrarias em Lisboa, a Letra Livre e a Paralelo W e agora a Poesia Incompleta, onde consigo encontrar os livros que vão saindo nessas pequenas editoras, e aí podemos encontrar muito boa poesia, sobretudo mais afoita do que a dos conglomerados.
Por exemplo?
Dou um exemplo de uma coisa muito boa que saiu em edição de autor, as pequenas ficções de Maria de Fátima Borges chamadas Vai Chover Amanhã. A autora vive nos Açores, é a melhor ficção que eu li neste ano. Ela tinha publicado na Cotovia e depois nunca mais conseguiu editar. Um livro de um uso admirável da nossa língua. Histórias que são simultaneamente ternas e de uma grande densidade. Outro livro que me fascinou pela mágoa, por algum sentimento soterrado, Ultimato, de Diogo Vaz Pinto, (na Língua Morta) uma aventura verbal espessa, torva e subtil muito atrativa e bem conseguida. Outro, Shots de Manuel de Freitas, (na Averno) uma obra exímia de envolvimentos culturais, construída com elementos muito pessoais, doces mesmo quando surge alguma amargura. Dois livros de Paulo da Costa Domingos, (na Frenesi) Jocasta e Dizimar, breves e muito densos, com uma escrita sempre singular, em grande tensão sintática e declarativa. Uma incógnita chamada Iluminuras, de um certo Théodore Fraenckel (na Douda Correria), sobre o qual eu tenho uma opinião muito peculiar: admirei sempre a poesia de Fernando Guerreiro, um poeta que pode ser considerado um dos precursores destas editoras pequenas, quase sem distribuição nos grandes escaparates. Sempre gostei do peculiar uso do seu olhar e, mais pessoalmente, o facto de ele, sem sequer imaginar, me salvar tantas vezes, no espaço de trabalho ora o bar da faculdade ora a própria faculdade em si, com a sua simples presença. Agora saiu este livro e eu acho que é um pseudónimo do Fernando Guerreiro (a menos que ele me desminta). O último, é de alguém que tem editora menos restrita e poder nos jornais, o que não representa para mim nada que me incomode, Pedro Mexia. Aderi de imediato a este Poemas Escolhidos (na Tinta da China). Com um título oblíquo, desafiante na sua maneira próxima de quem o lê, na sua auto expressão. A sua obra organiza-se e cria um livro bem consistente, com poemas de uma placidez por vezes até amarga, para mim sempre envolventes.
São livros que eu experimento como muito centrais no âmbito da renovação da nossa linguagem poética durante este ano e por isso sinto a necessidade de os referir.
Todos eles são intensamente diferentes entre si e isso é muito bom. Sempre me incomodaram muito os grupos na poesia portuguesa; os Surrealistas, a Poesia 61, coisas tacanhas que só sobressaíram porque lá dentro tinham poetas muito bons, como o imenso Cesariny e o António Maria Lisboa ou a Luiza Neto Jorge. Imagine-se o que seria hoje o Orfeu se não tivesse tido o Fernando Pessoa e o Sá Carneiro? Era um conjunto de pessoas interessantes e nada mais.
A sua forma de lutar contra a tal “bertrandização” é frequentar apenas pequenas livrarias e pequenas editoras independentes?
Gosto muito das pequenas editoras, onde também se publica o bom como o mau como o sofrível. Gosto muito também de livros de autor. Veja a Maria de Fátima Borges; vive na Ribeira Grande de S. Miguel. A Joana não pode imaginar a porcaria dita cultural que por esse arquipélago viceja nos pequenos jornais provincianos, nas opiniões de que se deveriam envergonhar, nos autores que por ali existem. Se ela não pode respirar nessa envoltura, fica em casa e publica o seu livro longe de todos. Haveriam de a publicar no continente, ao menos, depois em qualquer outro sítio. Mas o continente já é o que é para si próprio. A ninguém interessa uma pessoa que mal sai da sua terra e se habituou habilmente à sua carapaça, que deve ser muito bem escolhida. Não escreve muito. Então com algum dinheiro guardado dá-se ao prazer de publicar de maneira a não ser incomodada.
Uma vez entrei numa livraria, uma Bertrand, e perguntei por um livro. Era de uma pequena editora, mas tinha tido distribuição. A senhora que me atendeu disse-me: «Não, não temos. Nós só vendemos livros de editoras sérias.» Portanto, os conglomerados são o que são. Editoras sérias. Não vale a pena bater mais no ceguinho.
Escreveu “o poeta maior é aquele que, por um lado, enceta um diálogo com o passado deixando que em si se ouça a força da tradição, na memória e, por outro lado, sabe desligar-se da convenção, da tradição indo além do que já foi feito numa cultura”. Quem são os seus poetas maiores?
Há poetas maiores entre os quais escolheria certos poetas trovadorescos e, no domínio estrito do português, um ou outro no Cancioneiro de Resende: podem ter escrito somente um poema excelente que a literatura não os esquecerá. Houve António Ferreira e houve Camões. A seguir ao humanismo e ao maneirismo não encontro nenhum poeta. Há muitos, mas eu não tenho o gosto ajustado a eles, o que pode ser, sem dúvida, uma injustiça, daquelas que o gosto prega. Só o venho a encontrar em Cesário, em Pessanha, em Pessoa e em Sá-Carneiro. A seguir ainda não sei, ainda não houve tempo para a distância capaz de compreender e sedimentar. Mas há alguns que, sem eu ter dúvidas, me parecem grandes ou a caminho disso. No século XX tivemos muito bons poetas e também já nestes inícios do século XXI. Mas terão todos de esperar um pouco mais. Não me levem a mal.
É possível chegar a ser um grande poeta sem conhecer bem aquilo que nos precede?
A minha atenção para os mais novos tem exatamente a mesma dimensão com aquilo que já existe, que já foi feito. Tem que haver esse conhecimento do que já foi feito senão não sabemos usar, manobrar a Língua. A nossa capacidade de lidar com a Língua depende do mais aprofundado conhecer, quer do seu passado, quer da sua evolução. Eu ficaria sem pé se não conhecesse a poesia antiga e a poesia mais recente. Se eu não conhecer o mais novo fico no nevoeiro, mas se não conhecer os antigos é como se perdesse completamente o pé. É uma situação que me custa a imaginar. A poesia tem poucos leitores porque não há este conhecimento e as pessoas habituaram-se à superficialidade. A poesia não depende da venda, nem sequer da publicação de um livro. A poesia pode ser apenas uma circulação dentro de nós e com essa circulação nos vamos ao encontro de outros livros. Se a poesia que circula dentro de um poeta não for mais do que um diktat, mal vai o poeta. Repare-se como poetas recentes, o Eugénio de Andrade ou o Herberto Helder tinham um conhecimento profundo do ‘antes’.
Porém, considera que os poetas menores também fazem falta…
Para mim é evidente que tudo brota de um terreno bem preenchido de adubo. Tem de haver uma flutuação plural de gostos, de conseguimentos falhados, de escolhas, de sinalização das boas e das más escritas. Daí pode surgir um ou outro poeta capaz de perceber e de irromper.
Também escreveu que há uma certa poesia portuguesa que é “uma sabotagem esplêndida iniciada com os modernismos…”. Há muitos impostores e imposturas na literatura em geral e na poesia em particular?
É provável que haja imposturas, a começar pelas necessidades publicitárias, cá e por todo o lado. É evidente que na poesia também. Quer um exemplo português entre vários? Manuel Alegre, não que ele seja por si próprio uma impostura, uma vez que deve acreditar no valor do que escreve. Mas porque instituições sem vergonha e critério ajudam a torná-lo uma impostura.
“Gente da minha idade, outros mais novos do que eu, devem a si [Herberto Helder] nunca terem conseguido ser melhores. Também se não fossem de você, valha a verdade, seriam pigmeus de outro (…) A poesia portuguesa que se lhe seguiu só era interessante quando não estava colada a si”. Depreendemos deste seu texto que não gosta de autores que não descolem do mestre, que escrevam apenas epigonicamente?
Eu só consegui começar a escrever coisas para que pudesse olhar, quando me libertei, como é comum a todas as adolescências, de José Gomes Ferreira e também de Florbela. Depois veio Herberto contagiar-me. Mas eu tinha consciência disso. Portanto, só quando me li e não encontrei nada desses três é que comecei a mostrar a mostrar os meus versos, muito antes ainda de pensar em publicá-los. Se começo a ler um autor e sinto que é influenciado por mim, não gosto. Detesto alguém que me siga.
Reza a história que o Joaquim terá sido o fundador do chamado “Grupo do Cartucho”, que abriu uma forma de realismo na poesia portuguesa. Mas talvez não tenha sido bem assim…
Bem, isso não é a história, são as historietas. Coisas que certos néscios resolveram inventar. Esse Cartucho começou assim. Disse ao pai do João, com quem muito simpatizava e com quem falava imenso, que me apetecia publicar um livro que fosse papéis amarrotados com poemas impressos e atirados para dentro de um cartucho como “aquele ali” [estava um pousado numa beira lá em casa]. Enquanto o João se afastou logo da minha ideia, o pai dele entusiasmou-se. Disse-me que o fizesse, ele me daria os tais cartuchos, os fios e uma pequena máquina para a eles fixar os fios da embalagem. Eu iria começar essa ideia.
Uns dias um pouco adiante, encontrámo-nos com o António num bar de Óbidos. Não me lembro absolutamente nada acerca da razão, mas estava lá o Moura Pereira. Quando disse ao António o que ia fazer, ele ficou logo entusiasmado, começou a falar de juntarmos aos poemas figos secos e castanhas, por aí fora. Claro que eu só queria papéis amarrotados com poemas impressos. O João entusiasmou-se com o facto de o António entender a ideia e quis entrar, abdicando do seu sozinhismo. Por uma questão de delicadeza, não sei quem entendeu alargar a presença ao quarto elemento. Não gostei muito, mas calei-me. Assim surgiu o “Cartucho”.
Parece que foi um grupo deliberado, se tudo foi assim ocasional? Ninguém pensou em nenhum intuito programático e limitaram-se a mandar-me poemas seus para esse efeito. Tinha esse grupo o intuito do real? As pessoas lembram-se de coisas, vem um e lembra-se de mais qualquer uma. Se a exprime cai no poço do equívoco.
“Apenas o real
Diferendo. Árduo impacto.
Drenam o visível,
Atípico e controverso
zarcão.
Superfície e miragem,
Passaporte, coturno.”
(Para Comigo, Um toldo vermelho, 2018)
“Regressar ao real”, como escreveu num poema. Ainda é isso que deseja, o Real?
Esse regressar ao real que escrevi num poema era uma reação ao que me cercava, ou seja, os ditames da Poesia 61. Que eram apenas manobrismos de toda a ordem e eu não percebia porque é que tinham banido os grandes escritores de uma mera geração anterior determinante, que sempre estiveram ligados ao real, que funcionava neles como o suporte de uma ideologia. Uma coisa premente naquela altura. Eu não estava a falar em termos de futuro mas de passado. Regressar ao real, ao realismo queria eu, porque gostava de Cantigas de Amigo, do Fernão Lopes, dos Lusíadas e, porque gosto muito, do Cesário Verde. Essa oposição que era feita à nossa tradição poética mesmo que muito recente desagradava-me. Era uma coisa bolorenta. Para mim o “regresso ao real” era tão só o regresso à poesia de que eu mais gostava. E depois pegaram logo nesse verso como se fosse uma bandeira minha quando eu nunca tive bandeiras. É tão curto como isto. Não é ditame nenhum. O que a poesia viesse a ser era com ela. Na verdade comecei por escrever esta frase num ensaio sobre António Osório em quem tinha havido esse retorno e depois voltei a usar a ideia em três versos nada ideológicos ou programáticos. Agora, na última versão, já só tem três palavras: apenas o real.
Eu não tenho culpa que não haja pessoas que saibam ler-me e não percebam as coisas que eu escrevo. Isto não é, nunca foi, um programa. Foi, quando muito, uma lamúria. Porque havia gente que estava a ser hostilizada, quer pelo Estado Novo quer pelas ditas atitudes de maus poetas dos anos 60.
Eu gosto muito da Luiza Neto Jorge, mas a Poesia 61 era mesmo um grupo de ataque, de exclusão, o inverso da minha maneira de ser. Ainda hoje. Porque para mim a poesia sempre foi uma forma de diálogo, mesmo que seja um diálogo de confronto, mas ainda assim um diálogo e não exclusão. A poesia quando deixa de ser diálogo é uma coisa pavorosa porque entra no circuito do banimento. Sempre compreendi a poesia como um espírito de diálogo, uma atenção acesa a todos os outros que procurassem um poeta.
Outra das coisas que o Joaquim Manuel Magalhães trouxe também para a poesia portuguesa foi a narratividade, algo muito marcante para muitos poetas das gerações seguintes.
Hoje já não sou nada narrativo. Isso desapareceu completamente. Mas foi outra fuga. Foi a minha fuga dos ingleses e americanos que eram muito narrativos. Embora, actualmente, eles próprios estejam a afastar-se dessa narratividade. Há poetas novos de que gosto muito, o americano de origem vietnamita Ocean Vuong onde a narratividade é só uma insinuação; o inglês Andrew McMillan, em quem dificilmente encontramos uma precisa narratividade. A primeira poesia que me marcou vinda desse universo foi o Dylan Thomas, onde eu encontrava narrativa e não gostava; a par de transbordamento grandiloquente de calculadíssimas metáforas. Acabei por decidir fazer uma tese de doutoramento sobre ele, o Dylan Thomas, em vez de fazer uma tese sobre o Philip Larkin de quem eu gostava muito mais. Dava-me mais gozo o confronto.
O confronto é-lhe fundamental, não é?
É.
Mas detesta a agressividade. Não é um paradoxo?
Não, não é. O confronto é uma necessidade de ir ao encontro do outro e consentir que ele se aproxime de nós com uma sua divergência qualquer. A agressividade é um ato de prepotência, o murro e a bofetada (e a vontade de extermínio) que eram situações sempre invocadas nos chamados manifestos vanguardistas. Dentro dos fascismos e do bolchevismo. Perante a hecatombe que foi o trágico século XX, em que esses manifestos futuristas soviéticos ou do ocidente europeu, dadaistas, ou expressionistas, a civilizações vacilou. Muito a custo se foi erguendo até aos dias de hoje. Não me chamem pós-modernista, por favor; eu estou muito dentro, no meu gosto, do modernismo de Pound e de Eliot, dos anos 10 do século XX em que eles atuaram dentro de um espaço esvaziado pela morte (a primeira guerra). Mas só muito depois dessa data, Pound se tornaria um criminoso real e Eliot se converteria num seguidor da ala mais conservadora do anglicanismo. Até ao advento do fascismo ocidental, a obra destes dois foi uma força na minha formação.
Muito cedo e num tempo adverso assumiu a homossexualidade publicamente, nomeadamente através de uma poesia onde esta aparecia profundamente ligada ao afeto. Se as canções nunca falavam do amor homossexual, a sua poesia  passou a falar.
Descobri a minha identidade sexual, não a minha realização sexual, quando andava ainda na escola primária. Tinha noção de para quem gostava de olhar. Isso vem de antes da adolescência. Eu tive essa capacidade porque tinha a silenciosa atenção de um heterossexual esclarecido, o meu pai. Foi determinante. A partir daí não tive mais medo de nada. E um facto é que nunca ninguém me hostilizou pessoalmente. Exceto dois futuros jornalistas de nada, que, em meados dos anos 60, na casa do Nuno Júdice, nos receberam fingindo que estavam a tocar-se entre eles. Uma coisa ridícula em que nem sei como o Júdice consentiu. Por mim, limitei-me a soltar uma gargalhada e sair dessa casa idiota.
A partir de que momento é que percebeu que era esse o caminho, cortar, tirar, mudar, refazer tudo o que tinha escrito antes?
Pode deixar de ser este o caminho. Eu não sei o que vai acontecer a seguir. É a poesia que me conduz a mim e não eu a ela. As coisas aconteciam-me. Acontecia-me por vezes escrever um poema que eu achava poder ser interessante. Como me aconteceu escrever milhares de outros que rasguei. A minha poesia esteve sempre a mudar. A mudança mais drástica resultou do facto de, finalmente, eu me ter encontrado bem com um livro, que foram esses dois que fiz em edição de autor. Porque esse Um Toldo de 2010, eu também não me encontrei bem com ele, não gostava da construção do livro. Por exemplo, havia poemas em que eu pedi para colocarem cada estrofe numa página. Devia estar maluco. O leitor não é obrigado a perceber um maluco. (risos) Eu não fui inteligente nesse livro. Só me encontrei verdadeiramente com estes dois livros o novo Um Toldo Vermelho e Galopam que agora estão reunidos no Para Comigo.
Muitos leitores seus não lhe perdoam esta mudança drástica, não percebem onde quer chegar, o que aconteceu para ter feito alterações tão profundas naquilo que era a sua poesia.
Não há nada que perceber. Eu senti-me bem com estes novos livros. Não faço aquilo que fazia antes, que era assim que um livro era publicado eu passava a não gostar dele. Ficava com pena de não gostar do livro e começava logo a mudar um bocadinho aqui, um bocadinho ali. Mas isso trazia sempre coisas atrás que sempre me mantinham no desagrado. Então resolvi atalhar caminho. Não por palavrinhas, não por imagens, mas por radicalizações gramaticais. Ajudaram-me imenso, livraram-me de tanta ganga…
Mas tornou-se uma poesia muito mais difícil. Desnorteia-nos, deixa-nos sem chão. Usa maioritariamente palavras que desconhecemos, palavras antigas cujo significado já ninguém lembra.
Nunca fui um poeta de grande público. De qualquer forma até pode acontecer que se atenue essa estranheza e alguém surja que já se habitou a esta nova toada. Mas não me tornei um escritor hermético. Está lá tudo às escâncaras. Só não repito o que digo. Todas essas palavras remetem para a minha infância. Quando era muito criança saía de casa da minha avó, ia brincar para a rua de terra batida, fazia uns buracos e depois deitava água e fazia umas bolinhas. Ia fazendo, fazendo até ter dez bolinhas. Enquanto eu brincava as mulheres, os rapazes passavam por mim e aquelas conversas, aquelas palavras entrecortadas que eu apanhava permanecem em mim até hoje. Podem ser um tanto arrevesadas, mas nunca o foram para mim.
“Cinzentos em fusão os olhos uma ousadia.
O tapete de cairo picava-nos uníssono.
Afugentei o navio
Que para mim navegava.”
(Para Comigo, Galopam, 2018)
Maria Filomena Molder escreveu no seu ensaio “Com a Voz Torva e Sem Arrependimento” (Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais) que a partir do livro Um Toldo Vermelho (2010), o Joaquim apagou a sedução da sua poesia.
Sim. Aconteceu, não fiz de propósito. Simplesmente enveredei por uma respiração nova. Mas eu sei que tudo o que eu escrevi para trás existe, que há bibliotecas, que as pessoas podem ler aquilo. No entanto, como só vai poder ser re-editado 70 anos depois de eu morrer, quero lá saber. Se aparecerem poemas desses na internet é de novo um fartar vilanagem que não terei a oportunidade de ler, pois lhes sou indiferentes.
Essa nova respiração visa, em última instância, chegar ao silêncio?
O que eu quis foi simplesmente não me repetir. É um trabalho a partir de mim. Os que verdadeiramente gostavam da minha poesia compreendem a minha mudança. Não destruí nada, não foi uma coisa que eu persegui, foi um lugar de mim a que cheguei. E quando aqui cheguei, senti, pela primeira vez na vida, que gostava da minha poesia. Finalmente gosto do que fiz, portanto a partir daqui não vou alterar mais nada, vou escrever outras coisas.
E que coisas são essas?
São coisas que já estão escritas e agora têm que ser aglutinadas e onde, curiosamente, eu me aproximo de novo de uma certa discursividade. Mas é preciso que se perceba que isto não é um combate por nada. É só a minha vida de escrita.
Há um livro onde declara que o seu apreço profundo “vai sempre para poetas onde se respira muito amplamente esse “seja o que for” que a poesia pode ser.” É isso que gostava que os leitores se permitissem encontrar nos poemas do livro Para Comigo, que acaba de publicar?
Não sei nem quero saber dos leitores. Se tivesse alguns, o que preferia era que me deixassem chamar-lhes a atenção para os poetas de quem gosto. Só isso seria bom.
Considera que ler poesia não é descodificar ou decifrar mensagens, e a sua preocupação não é gerar consensos, granjear admiradores.
A poesia, ela, ergue-se em torres solitárias e tem de tratar das suas torres, o que lhe causa imenso trabalho. Ou então entender que são torres de atenção, de acompanhamento. Ou mesmo torres de convívio: há sempre uma sala com cadeiras onde um poeta se pode sentar com os outros da literatura de quem gosta.
Tem dedicado parte da sua vida ao ofício de traduzir e tem uma visão muito exigente do que é e não é uma boa tradução.
Para mim só é tradução o que aparece em versão bilingue e possa ser comparado por aqueles que conheçam as duas línguas. Não encontro que seja tradução aquilo que não tendo sido escrito pelo poeta que se está a traduzir se transforme em português bonito. Muitas vezes estamos a ler poetas de outras línguas num português supostamente aliciante quando na língua original aquilo não o era. Há tradutores que escrevem aquilo que eles querem escrever e não o que o poeta realmente escreveu. Defendo uma tradução equidistante; nem literal, nem bonitinha mas uma tradução que se possa fazer. E nem tudo se pode traduzir, especialmente em poesia. Eu, por exemplo, sou incapaz de traduzir poetas que tenham esquemas rimáticos. Cada tradutor deve reconhecer os limites da sua liberdade e da sua literalidade.
Kavafis, ao qual dedicou tanto tempo da sua vida, foi um poeta determinante para si?
Não. É muito mais determinante o Cesário Verde. É verdade que também gostei muito do T. S. Eliot,, como lhe disse, mas hoje já não gosto tão profundamente e, o que o Eliot escreveu a partir de 1926, irrita-me. Sobretudo, irrita-me a critica dele, é muito pedante. Pior: ele criou grupos de seguidores, a sua Teoria Crítica deu origem ao New Criticism americano, e a outras felonias.
Nos anos 90 deu-nos a conhecer, através das suas traduções, vários poetas espanhóis. Continua a seguir a poesia espanhola?
Continuo a seguir todas as poesias de que conheça a língua. Temos de reconhecer os nossos limites e expressar que de línguas que não sabemos pouquíssimo podemos com rigor conhecer. Apoiar-me na tradução de alguns, o que é sempre uma opção arriscada, talvez me alerte, me ajude, mas bem sei que não poderei nunca lá chegar por esse modo cego.
Qual a sua opinião sobre a política cultural portuguesa atual?
Bem gostava que começasse a existir uma política cultural consistente e que não mudasse de governo para governo. Mas como? Para que serve o Instituto Camões a não ser para que uns tantos se preguicem? Para que serve o Ministério da Cultura? Se esta ministra e este primeiro-ministro não conseguirem resistir ao populismo, está tudo arrumado. Um dia haverá alguém que não andará a pagar milhões dos contribuintes para organizar viagens sempre aos mesmos escritores, normalmente maus escritores. Mesmo se fossem bons, para que serviria gastar sempre tanto dinheiro só para eles andarem daqui para acolá no mundo? De autarquia para autarquia. De bacoquice em bacoquice. Uma política cultural tem de ser respeitável. Assim não é. Haveria de encontrar-se a qualidade no cinema, nas artes, no teatro, etc. Mas como se conseguirá esse objetivo, se o mecenas Estado não é capaz de se elevar acima das banalidades comuns? Nem sequer reforça o seu apoio, com tanto livro e tanta obra magnífica esquecida. Anda sempre atrás dos vivos que o procuram e que tem de manter calados.
Um governo que conseguisse, no domínio da cultura, estabelecer uma plataforma escrita de aceitação permanente de situações culturais, ganharia a minha total admiração nesse domínio específico. Mas a está a ver isso possível? No fundo, esta questão incomoda-me muito pouco. Se querem feiras que façam feiras. Nem dou por elas. Só me pus a pensar nisto por sua causa. Veja lá o que me provoca nos neurónios e eu a julgar que esses assuntos estavam esquecidos dentro de mim.
Há quem pense que o Joaquim Manuel Magalhães é um homem de direita, no entanto diz sentir que estamos a viver o melhor momento político desde o 25 de Abril.
Mas eu nunca fui de direita. Eu era contra o partido comunista, mas hoje também já não sou tão anticomunista, embora possa alterar as minhas posições. Não me importo nada que sejam de direita e gostem de mim. Nunca me senti de direita. Mas se a extrema-direita gostasse da minha poesia, então eu teria que revê-la ainda mais (risos). Eu respeito muito as pessoas de direita como da esquerda. Tanto me alegra que goste de mim alguém do Bloco de Esquerda como do CDS.
Agora, estou a adorar este governo. Nunca houve desde o 25 de Abril um governo com o qual eu me sentisse tão bem, tal como nunca houve um Presidente da República que eu admirasse como admiro este. Ele sabe ser, com muita dignidade, um motor de contenção de erros vindos do Governo e da oposição. Tem tido sempre um discernimento de perceber quando a esquerda não errava e quando a esquerda errava e o mesmo com a direita. E depois do Cavaco Silva… Tenho uma admiração enorme por este quadro político que foi criado no país. Pelo menos deixámos de ser tão economicamente perseguidos enquanto cidadãos. Continuamos a viver mal, mas respiramos e vamos mantendo, sobretudo se pensarmos nos mais pobres, um pequeno equilíbrio digno.
Nunca ninguém o consegue apanhar pois não? Está sempre a transformar-se noutra coisa, em permanente metamorfose…
Só escrevo a minha vida, o que se atravessa na minha vida. Mas não é só a minha vida, é também o que leio, o trabalho que a própria Língua opera em mim. E estou sempre atento aos outros, mesmo aos que, como me diz, não simpatizam comigo ou rejeitam o que eu escrevo. Que posso eu fazer?

Joana Emídio Marques, Observador, 2018-12-02







JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
O regresso do mestre bonecreiro

Depois do radical corte que operou, em 2010, com a sua obra poética e crítica, a última grande figura tutelar da poesia portuguesa reafirma aquele gesto, e abre margem para novas visões e revisões num novo livro: Para Comigo.
Para que o tempo se mostre, que outra perspectiva mais clara há do que colocar uma pedra entre coisas de natureza perecível? Como uma mágica, a sua imóvel ênfase levará a que, em seu redor, tudo envelheça. Uma pedra sobre um assunto basta, por vezes, como denúncia daquilo que deve o seu poder inquietante a um certo arranjo das circunstâncias.
No início de 2010, quando Joaquim Manuel Magalhães surpreendeu os seus leitores ao publicar “Um Toldo Vermelho” –  volume que terminava com um aviso de que esse livro excluía e substituía toda a obra poética anterior –, conseguiu provocar algum tumulto. Esse premeditado efeito veio subtrair aquela obra à cadeia de nexos que corporizara, numa articulação com os textos ensaísticos que este crítico-poeta publicou ao longo de décadas, nessa que permanece como a mais influente leitura da poesia portuguesa contemporânea.
Para a persuasão dos seus argumentos, JMM soube valer-se de um efeito de exemplaridade da sua própria obra poética, que sinalizava a par e passo as descobertas do seu exercício crítico, como quem prova a carne e, através da carne, sabe reflectir uma lição e modelo, instituindo também “uma certa genealogia”.
No “novo pacto” que preconizara – primeiramente numa recensão a um livro de António Osório, mais tarde transposta para versos, no poema “Princípio” –, Magalhães argumentava que, em face do desgaste a que se chegara numa urgência de arrancar a voz a “efeitos de recusa”, talvez só restasse, por fim, rejeitar esse precipício que via desenhar-se “no meio de frases destruídas,/ de cortes de sentidos e de falsas/ imagens do mundo organizadas/ por agressão ou por delírio”. Assim, e em nome da diferença, depois de um tão deslumbrado alheamento, a tarefa do poeta que buscasse “voltar junto dos outros”, talvez não pudesse ser feita senão num “regresso às histórias e às/ árduas gramáticas da preservação”.
Uma década mais tarde, num ensaio que integra o volume “O Mosaico Fluido”, de 1991, Fernando Pinto do Amaral devolve criticamente o eco que a poesia de JMM manifestou, e fala de “uma narratividade que não receia descer a pormenores de índole quotidiana ou biográfica; uma atenção descritiva que se volta para tudo o que rodeia e impressiona o sujeito, mesmo e sobretudo certas realidades menos tradicionalmente ‘poéticas’; uma vontade confessional que, sem atingir a ênfase umbilicalmente derramada de outros autores, não abdica, ainda assim, de conseguir uma comunicação afectiva de tom intimista com o leitor; enfim, algo a que, numa óptica global, poderíamos chamar, um pouco apressadamente (...) um retorno à ânsia de mimesis em relação ao real, perdidas as ilusões de fazer da escrita um instrumento radicalmente alterador, o poeta remete-se ao sábio uso de uma linguagem por vezes na fronteira com a música, essa especial conjugação de palavras, sons e ritmos, esse fluxo verbal ‘muito cantável’ que a tradição insiste em considerar poesia.”
“Um Toldo Vermelho” causou bastante perplexidade e mereceu as maiores reservas da parte da crítica, com Luís Miguel Queirós (crítico que deve a preponderância das suas leituras menos a uma fulgurante intuição pessoal do que à capacidade de realizar censos e representar uma opinião alargada) a mostrar-se céptico quanto à possibilidade de JMM impor a sua vontade, substituindo os antigos poemas pelas novas versões, que daqueles detinham meros vestígios, detritos, ecos aprisionados entre ruínas. Mas, entretendo essa hipótese, Queirós sustentou que, em termos práticos, o gesto sacrificial e prenhe de violência do poeta significaria apenas que “a poesia portuguesa contemporânea teria perdido um dos seus nomes mais relevantes e, triste contrapartida, teria ganho um poeta de uma deprimente mediocridade”.
Volvidos oito anos, e com um longo silêncio de permeio, Magalhães regressa para emendar a mão. “Um Toldo Vermelho” deveria ter sido o último livro, ou o único – a obra completa –, mas agora, segundo disse na primeira de duas entrevistas (as primeiras em décadas), também este já não vale, e é mais outro livro que deve ficar como vaso quebrado, porque (imagine-se) se tratou de um acto um tanto precipitado; e se o poeta não abdica do golpe de ruptura, começou a ver nele outros desacertos, portanto: “deitem-no fora, ignorem”. Aqui, o leitor diz, desculpe, sr. autor, mas: merda! Mais de não sei quantas revisões e reuniões, conselhos de guerra e o raio, tanta algazarra, tantas baixas, e não, ainda não era aquela; agora é que é!? Na justificada suspeita face aos caprichos do autor, o mais natural é que o leitor, ao saber da edição de uma nova reunião do que ficou para trás, pergunte qual será o prazo de validade de “Para Comigo”.
Estamos de volta às versões de antigos poemas – ex-poemas, no fundo –, como se o poeta os houvesse submetido a um efeito de penitência, entregando o corpo, para sair reduzido a detalhes carbonizados, num minimalismo grotesco, a gramática implodida, sínteses com o cilício à perna; a própria linguagem torna-se excremencial, e os poemas, que ainda temos impregnados na memória como melodia aparecem aqui reduzidos aos “ossos que não se desfazem quando um corpo arde”. Resta uma espécie de desgosto e luto, o ver sacrificados versos tão marcantes a uma teoria desfiguradora, num livro-tese que parece deleitar-se com uma forma de necrologia de um cada vez mais incerto passado poético.
No meio de arritmias, frases destruídas, da própria sintaxe macerada, e de uma variação que se fica por cortes de sentidos, estas versões parecem boas para telegramas enviados através de linhas inimigas, à espera que do outro lado algum leitor possa recompô-los, devolvê-los à sua digna e comovente força humana, em que é central um balanço entre a aspereza e o alto grau de sedução, entretecendo esses “recônditos rumores” que traduzem, a um tempo, as frases que escapam da boca de uma língua que sonha e os murmúrios que escuta de outras, num tão profícuo diálogo além fronteiras.
A estas novas variações do exercício de irada rejeição que começou com “Um Toldo Vermelho” está subjacente uma nova articulação crítica que, agora sim, soçobra nos seus vícios retóricos, na necessidade de forçar à sensibilidade dos leitores um laxante teórico que, se não deixa de ser curioso nas suas premissas, se mostra atrozmente limitante quando aplicado aos versos, os quais, na melhor das hipóteses, inspiram a nossa piedade: “Na cómoda/ um mortiço talher./ Eremita painel./ Lúdica inflação,/ gonorreia.// O malversado recoloca/ o sardónico pluvial/ no íntimo equinócio.// O nexo do planeta inunda/ bidé, hidrângea, a campina rubi./ Rútilo tumor/ de vaia folhetim.// O cardo, o rícino/ disseminam.// O promontório./ Um passe aflito./ Carbúnculo, assédio à prova./ O precipício.” 
JMM quer-nos dar a comer pão com vidros e ainda quer ouvir que o acepipe está uma delícia. É bom que o leitor e o crítico rasguem o canal digestivo todo, dêem quantas voltas forem necessárias para não lhe vir dizer simplesmente que isto não presta. Nem é que o leite esteja azedo, ou que a dobrada a tenham servido fria, é que o poeta pirou de excessos de teoria, de um desejo de radicalidade não acompanhado nem pelos poemas e nem sequer pela língua, que sai disto como se se estivesse a tentar aplicar-lhe princípios da cozinha molecular, mas não para enriquecê-la, antes para embrutecê-la em nome de uma austeridade tresloucada. Como se a alta cozinha pudesse dar um salto senil e permitir-se estratégias de alimentação forçada, uma vez que, como ficou claro, depois da publicação de “Um Toldo Vermelho” foi o público da poesia que não se dispôs a comer daquele pão.
Ainda que a prosódia imponha um gosto traumático à língua, exarando os versos de repetições, é o exercício que se torna repetitivo, como alguém que se converte a uma religião tarde na vida, e prova a sua fé por via de uma extrema devoção; devoto a um ponto em que se julga marcado por estigmas, se arrepende de tudo, revisitando o passado, numa purga brutal, produzindo uma poesia que mais não faz que auto-penitenciar-se. É evidente que, após o tumulto inicial, logo o desesperado golpe que se quis segundo uma disciplina de samurai, revelou a inquietação de um puro vândalo, ao sacrificar aquilo que tornava a sua poesia admirável, coesa, uma obra atravessada pela vida de um homem, entregando-a num eco estropiado, como se não houvesse mais a possibilidade de cantar fosse o que fosse, nem o desencanto nem outro real que não a experiência do martírio diante das hélices devastadoras do ruído. E tudo o que restasse fosse uma gravação cheia de cortes, sendo impossível escutar-se um só verso na sua inteira e disponível graciosidade, ficando apenas estilhaços, uma cadeia de absurdas mnemónicas. E o leitor, ao invés de amar os versos, agora é como se tivesse de aturá-los em nome de uma antiga afeição, ouvi-los gemer das mazelas de uma bomba de fragmentação...
A lição, diz o poeta que a foi buscar a Anton Webern. Terá pretendido alcançar o estilo mais depurado, cristalino, um extremo de concisão e intensidade, evitando repetições (?), mas o que se sente é a camisa-de-forças que a imobiliza, e a transposição parece demasiado literal, uma forma de fundamentalismo. O verso fossiliza-se, é um resto, um caco, e é demasiado fácil mostrar como o que se perdeu foi o ouvido, e a linguagem passou a ser o reflexo da própria catástrofe. “Sedimento depredado./ O físico perito na afronta.// Conluio de um infiltrado, presumo/ que de prerrogativa./ Tetina rebarbadora,/ um afrodisíaco sebento.// Tribo contrita e devoluta./ Ameno bário de harpia./ Não devoram na fome,/ não acumularam todavia/ pânico laboral.// Sábios em economia acessória,/ pelotão de acne no ripanço./ O vitríolo exímio/ na retina.// Aterro de continente falsário./ Degredam uma sobra./ A sarjeta.”
Entre os tantos enterros que proporcionou à sua obra, e as diversas vezes que voltou para profanar os sucessivos túmulos, a bibliografia de JMM tem a sua própria biografia, uma bastante dramática. Mas não são apenas os saltos daqui para ali, os cortes e emendas, são as disposições testamentárias de um autor que publica e logo se indispõe não só com o antes feito, os poemas, mas ainda, e até mais, com as leituras deles feitas. Por isso, não abdica da última palavra. Não só faz e desfaz, se pudesse talvez também perseguisse o leitor até casa, lhe desse indicações precisas, até a que horas, com que luz devem ser lidos os seus versos. E se ignorado, ralha, e ainda quer reaver os livros... “Não tinhas que gostar disto, não era isso o que quis dizer, dá cá, lê assim, não está muito melhor?, não está?, não está?, não percebes nada.”
Se há autores que fazem um silêncio atroador para não perturbar a leitura do que deixaram escrito, outros ficam ali, pendurados no ombro a querer explicar-se, e guiar o leitor; tornam-se controladores, possessivos não só em relação aos seus textos como às interpretações. A própria poesia tinha-nos já habituado às birras e desmandos de um autor que, não tão solitário assim, parecia na verdade ter a ambição de dirigir uma orquestra, e que também parecia querer compor a sua audiência, dizendo que queria ser lido por estes e não por aqueles. E parece haver, de facto, como também notou Luís Miguel Queirós, um Dr. Jekyll para o Mr. Magalhães, já que, em 2001, numa nota de lucidez na sua anterior reunião da obra que ficara para trás, no volume “Consequência do Lugar”, lembrava que “estes assuntos são secundários para o leitor ideal, aquele que só quer ler e partir para o que é dele com essa leitura. De qualquer forma ficam estes limites para outros leitores, que procurarão o inútil: vistoriar o que eu acolho, recolho ou despeço.” E talvez aqui já não fosse o poeta mas, num assomo de lucidez, o crítico, Dr. Jekyll, que, dando-se conta dos excessos do outro, introduzia esta ressalva, como um açaime para impedir que o outro se ponha a morder os leitores, aqueles que não cedem a mordomias para com os autores, e nem ligam aos anúncios afixados nas vedações e cercas da literatice.
Às tantas, talvez seja preciso lembrar que é o leitor quem, tendo os livros para lá, nas estantes, decide se os há-de ler e como, se de trás para a frente, se saltando, rasgando folhas, sublinhando este verso, riscando aquele. E o autor que sossegue, já que os livros publicados entram na jurisdição de quem dispõe deles para dar-lhes o sentido que bem entenda.
Mas se tantas vezes JMM fez questão de chamar a si de novo os livros, e tantas vezes com perda para os poemas, e se neste teatro fastidioso, depois de um tão enfático golpe, uma vez mais regressa e traz novamente uma revisão do programa (depois de dois livros em edições de autor, fora do mercado – cem exemplares distribuídos pelos amigos, agora reunidos em “Para Comigo”), o leitor questiona-se: o que vem a ser tudo isto? Que salsifré, que apoteose busca JMM? Porque vem dar por escrito uma entrevista, antecipando-se um mês à chegada do novo livro às livrarias, com o entrevistador e crítico que mais se dobra a oferecer as costas para que o poeta venha mandar uns recados, dar conta do que andou a fazer? Só faltou assinar ele mesmo a recensão, com tudo o que o outro veio repetir, como aluno de primeira fila debitando as palavras que salvou nos apontamentos. E que outra evidência podia comprovar melhor que o actual programa não se sustenta sem um pós-operatório complicado, sem que JMM sinta que tem de ser ele mesmo a preparar a sua recepção, fazer a caminha, usando lençóis com uma contagem de fios inaudita, servindo-se, para isso, de um delegado de propaganda literata, crítico de mão mole, dessas em que qualquer um pega, e de que tantos têm sabido servir-se para assinar o que gostariam de ver escrito sobre as suas obras?
E é afinal nesta entrevista, encenando um regresso depois do silêncio, que se colhem alguns indicadores cruciais para se concluir que “Para Comigo” é ainda um gesto mais do que um livro de poemas, e um que precisa ser prolongado, pois não pode ser lido ou apreciado sem orientação crítica. Ora, como o próprio Magalhães frisou em “Um Pouco da Morte”, “Há, no mais fundo da poesia, uma sinceridade inimiga da retórica”. Essa sinceridade é o que mais machucado sai na depredação a que os poemas foram sujeitos. O poeta que quis brincar aos mestres do silêncio, premeditou a sua reentrada em cena, isto depois do fracasso em provocar um flagelo, deixando órfãos os que tinham ido beber no seu charco o reflexo das estrelas. Mas ao contrário da imagem de serenidade, a do poeta desinteressado da mundanidade, o que transpareceu foi a inquietação de alguém que desafiou o esquecimento, convencido de que viriam mendigar-lhe sinais de fumo, fogo, só para ter o esquecimento a respirar-lhe junto ao pescoço, a fazer o que tão bem faz a tantos e tão admiráveis autores. E aqui apetece citar “O Homem que Falou”, de Jean Giono, num desses acasos que nos servem as mais furiosas rimas: “Como podem ver, este homem tinha uma espécie de sarna a roê-lo em sítios onde não podia coçar-se sozinho.” 


Diogo Vaz Pinto, Jornal i, 2018-12-11

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