quinta-feira, 4 de julho de 2013

LISBOA


           

   
Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar.
E as árvores soturnas não se mexem.
Estio!
Não se vêem bulir as árvores, em bloco, ou aos arcos, estampadas…

Elegante Lapa! Sol fosco, paisagem da manhã.
A gente do sítio, pobreza e riqueza, ainda recolhida.
Aqui uma janela discreta que se abre, preta, cega.
Ali outra fechada.
E esta alternância, bastante irregular, vai-se repetindo, repete-se…

E eu, ai eu! prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!
                     
Irene Lisboa
Revista de Portugal 
nº 3, 1938
                 
                  
No poema de Irene Lisboa é feita a descrição de um bairro de Lisboa, a Lapa. No entanto, não se trata de uma descrição precisa, pormenorizada, como fazendo parte de textos narrativos. Aqui o que assume maior importância não é o lugar, o espaço exterior, mas as impressões que alguns aspetos particulares desse espaço provocam no sujeito lírico; a forma pessoal, única, como este os vê – «Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar». Essa visão subjetiva, original, da realidade traduz-se na seleção de vocabulário e na criação de associações de palavras pouco usuais – o verbo «cair» no 1º verso, em vez de «voar»; as «árvores soturnas» (personificação); «uma janela discreta». Está igualmente nas exclamações, expressivas apesar de sintéticas. – «Estio!», «Elegante Lapa!». O sujeito vai-nos transmitindo a sugestão desse lugar como se fosse acumulando «pinceladas» – «Aqui uma janela / Ali outra recolhida».
E, por fim, o que ressalta deste esboço de descrição é a expressão de um sentimento individual – «E eu, ai eu! prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!»
                 
Guia de aprendizagem. Disciplina de Português. Unidade 4. Ensino Secundário Recorrente, 
Lisboa, Ministério da Educação – Departamento do Ensino Secundário, 1997. Nº de Depósito Legal – 115 892/97
               

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/01/largo-de-cacilhas.html

              
              


DE CACILHAS RIO A LISBOA

De cacilhas rio a lisboa
insane chove triste
                                          ai u é
o navio a travessia inane
que outras foram neste dizer
                                          ai u é
                                          d’outras falta o destino
         
Fernando Martinho Guimarães, Cacilhas, 08/01/1993
apenas um tédio que a doer não chega, Lisboa, Edições Fluviais, 2005

             
             
 
© José Carreiro

              


TODOS OS DIAS

Todos os dias, depois do almoço,
era o das duas e quinze Ermesinde
S. Bento, a porta aberta 
manualmente
e a sedução do aviso: 
partir
em caso de emergência. Todos os 
dias
era esse horror vacui cheio de
parêntesis, prédios, subúrbios,
gente que saía a correr na 
pressa
de chegar à rua para 
repartir
talvez com um ou outro 
vagabundo
a mesma indiferença pela vida.
               
Carlos Bessa, Em partes iguais
Lisboa, Assírio e Alvim, 2004

           

                


LISBOA ANTIGA
Lisboa, velha cidade, 
Cheia de encanto e beleza!
 
Sempre a sorrir tão formosa,
 
E no vestir sempre airosa.
 
O branco véu da saudade
 
Cobre o teu rosto linda princesa!

Olhai, senhores, esta Lisboa d'outras eras,
 
Dos cinco réis, das esperas e das toiradas reais!
 
Das festas, das seculares procissões,
 
Dos populares pregões matinais que já não voltam mais!

Lisboa, velha cidade,
 
Cheia de encanto e beleza!
 
Sempre a sorrir tão formosa,
 
E no vestir sempre airosa.
 
O branco véu da saudade
 
Cobre o teu rosto linda princesa!

Olhai, senhores, esta Lisboa d'outras eras,
 
Dos cinco réis, das esperas e das toiradas reais!
 
Das festas, das seculares procissões,
 
Dos populares pregões matinais que já não voltam mais!
               
José Galhardo e Amadeu do Vale

"Lisboa Antiga", por Riko Dorilêo



           
 


             
LISBOA-94
Descri do tempo: a vida arrependeu-se
se de todas as promessas, dia a 
dia
irrompendo e rompendo o 
infinito
do que chamamos febre, 
labareda
acesa desde sempre. Neste 
corpo
há um princípio de alma a 
respirar
como fogo roubado a outro 
fogo
que mais ninguém conhece — ergueu-se a 
chama
e ondula ainda em cada gesto 
meu
a decompor-se ao longo de mil 
gestos
das pessoas autómatas, varrendo
a atmosfera das ruas, o 
prazer
de repetir retratos entre as 
curvas
da pálida cidade 
boquiaberta
em fim de quarta-feira. De 
improviso
a memória atravessa essa uma 
abertura
pelo meio de portas mal fechadas,
caleidoscópio histérico de 
encontros
em bares e restaurantes sob as luzes
cada vez mais à deriva. O pensamento
dilui-se ao ritmo dos lugares-comuns
no quase inútil mapa dos sorrisos
agora sobrepostos — 
engrenagens
nocturnas, reticências prolongando
as falas sempre vás dos vãos amigos,
poeira de mil sonhos dissipados,
melodia espectral, oásis mudo,
palácio em ruínas, coração.
                
Fernando Pinto do Amaral, Às Cegas, 1997
           




© José Carreiro



ELEGIA DE LISBOA

“Nas nossas ruas, ao anoitecer”,
abre-se num olhar a pena 
errante
de quem se ilude em passos vagarosos,
em mais um jogo incerto de cem 
luzes
sob este céu tão baço. Como sempre,
os mudos automóveis sobem, descem
ruas e ruas rumo a outras 
ruas
polvilhadas de gente que 
regressa
sem ter partido- insectos ondulando
ao som das lentas horas fatigadas,
rostos esfarrapados de 
trabalhos
inúteis como a tarde que se 
entrega
às doces mãos secretas do 
crepúsculo
vibrante no declive dos 
telhados
em degraus sobre o Tejo. 
Devagar
cola-se ao espírito a membrana 
escura
dos sonhos que perdi ou que pedi
há tantos anos à 
eternidade
e agora se dispersam na 
colmeia
das pequenas janelas reacesas,
no bafo das famílias 
indiferentes
no seu “tinir de loiças e talheres”,
suspensas de ecrãzinhos onde vêem
outras famílias e outras 
indiferenças
até ao infinito. As sombras crescem
quando a lua aparece e pouco a 
pouco
a solidão retoma os seus direitos,
devora o que ainda resta do 
azul
e eu vou descendo a pé, já transformado
num perverso turista 
acidental
e condenado a “combater em 
vão
o velho tédio” ocidental, em 
bares
onde reagem faces conhecidas
em acenos voláteis que se cruzam
com esse aroma surdo e espesso e 
dócil
das vozes que por vezes me esvaziam
qualquer recordação. Bairro nocturno
confundo os teus caminhos-labirinto,
os nomes das vielas 
inconstantes
e ao percorrê-las «temo que me avives
uma paixão» recente, a 
esvoaçar
ainda não defunta, mas 
talvez
moribunda por entre a marabunta
que vai enchendo, enxameando as 
caves
onde se compra e vende cada 
rosto
e onde mergulho cego e surdo e fico
senhor da sua imagem, de 
repente
unida às gargalhadas tão ingénuas
das viciosas bocas florescendo
na treva, procurando novas 
bocas
algures. Cá fora, a verde camioneta
recolhe as sensações de mais um 
dia
exausto. Recomeço o meu circuito,
arranco e desço mais um pouco, 
até
à zona antigamente industrial,
aos pálidos felizes contentores
sob a penumbra imensa dos guindastes
quase irreais. Alguns amigos entram
em armazéns de espuma onde exercito
os fúteis bocejantes sentimentos,
a mais falsa alegria, a 
peregrina
febrícula do espírito embrulhado
em whisky ou nas falas 
transparentes
de alguém que por acaso eu 
poderia
talvez amar- “ I´m so crazy for you!”-,
mas não há “ nunca nada de ninguém”,
só esta bílis negra que me 
espera
á saída dos últimos 
lugares
acompanhando agora o rio que alastra
e se mistura à crónica 
euforia
de uns “ tristes bebedores” que mal trauteiam
frágeis franjas de música boiando
no seu vazio que é também o 
meu
quando parto agarrado a um 
volante
e na aragem dos vidros entreabertos
saboreio um cigarro que se evola
só para ti, Lisboa. Sempre quis
pulsar ao mesmo ritmo que tu,
transpor este deserto e 
conseguir
em golfadas de versos 
libertar
o encarcerado sopro do teu peito-
- cidade atravessada  de 
armadilhas
traindo e atraindo cada 
gesto
das poucas silhuetas ainda 
vivas
sob os pilares da ponte. Ò vã Lisboa,
cai sobre mim o peso dos teus sonhos,
“quimera azul” da minha dor sem pátria,
e entre dois semáforos suplico-te:
apaga do meu corpo o 
sobressalto
dos seres de carne e osso, dessa 
estranha
realidade apenas 
virtual
que me despe de todos os 
fantasmas
e fica projectada no 
silêncio
das cinco e meia, enquanto vou seguindo
a “correnteza augusta das fachadas,”
as pombalinas rectas, um 
cortejo
de iluminadas cinzas. Uma 
estrela
parece ter sorrido para 
mim
como se finalmente esta 
cidade
me confiasse a rota 
imperceptível
das suas ondas a perder de vista-
-“ marés de fel, como um sinistro mar,”
caudal por onde singro e me despeço
do sangue de quem solta, solitário,
algum suspiro em quarto 
derradeiro
até ser minha a cor da tua voz,
ó morte a que abandono luz e sombra,
o grito do meu nada ainda em fuga,
mas de súbito em paz entre os teus braços.
                   
Fernando Pinto do Amaral, A cinza do último cigarro, 2000
              

© José Carreiro





À ESPERA DO PRIMEIRO ELÉCTRICO

Outros que critiquem
o planeamento do território,
os crimes urbanos, a 
droga
que pacifica os 
estados
aparando sedições virtuais.
Apetecia-me comer, agora,
mas os poemas só têm valor 
real
(isto é, monetário) na 
lua
de Bergerac. No Martim Moniz,
em perpétua demolição,nem 
cheques
aceitam — quanto mais 
versos
que não rimam com nada.

Tenho à minha frente o futuro,
um futuro de três 
cervejas
e talvez de um charro,
se encontrar alguém. Um futuro 
breve
(a redimir ou não nas ruas mais altas),
nenhuma vontade de 
amor
e os pés acentuadamente azuis
— fétidos, sem dúvida alguma.

Já me propus, em dias de tédio maior,
escrever um poema vário, curar-me
destas ladainhas pouco edificantes.
Não deu, paciência. Consola-me ao 
menos
a irrefutável pobreza do quotidiano.
Estamos bem um para o 
outro
(mas uns trocos davam jeito, com real ou 
sem
ele — e eu não sei arrumar carros).

A noite lá faz o que pode.
             
Manuel de Freitas, Os Infernos Artificiais2001
             
Estátua do Marquês de Pombal, Lisboa, 1930.

               
ULISSES – OLISIPO

Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o 
romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu 
coração
eu, a minha solidão, o meu 
transe

A chaminé na cidade deita o fumo da minha 
angústia
o meu desespero projecta a minha 
intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha 
cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu 
coração

O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o 
ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou a cantar.
Grande a nostalgia do teu néon 
luminoso
a sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso

Aqui a enorme cidade aqui a 
tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céu.
                 
António Gancho, O Ar da Manhã
Lisboa, Assírio & Alvim, 1995
              
                

LISBOA

Do rio Lis, boa, Lisboa diz
«Eu sou do rio Lis, boa».
Lisboa é, Lisboa tem
ralé, gente bem,
gentio da Guiné,
ladrões de quem,
a Sé, o dia mais o Tejo
e finalmente Lisboa é tudo o que vejo.
Fé em tudo o que tem
a verdade de ela ser de todas e
entre todas a maior 
cidade
de ela ser entre todas a mais bela 
cidade
e à janela Lisboa poisa 
triste
olhando além o 
cais
e a tudo quanto existe diz
«Mais, mais, mais».
Lisboa, sempre,
quente no Verão,
mais álvida no Inverno,
Lisboa, desce, então,
do rio Lis, boa,
eterna parábola do que no seu nome soa.
E Lisboa vem para baixo desce
faz-se mais baixo, acho e cresce 
que
Lisboa desde o Lis para boa ou para 
flor
diz e sempre diz e mil vezes diz.
«Sim, eu sou Lisboa por favor».
               
António Gancho, O Ar da Manhã, 1995
             

© José Carreiro

           
LISBOA, 4 DE JULHO DE 2004 (DOMINGO)

Há uma glória neste lugar solar
por sobre a sombra, o desabrigo,
ladeando ventos, passos, vozes,
pássaros de 
água

Há sob o sol antigo (sol alheio, de sobranceria)
um acolhimento, como se ele apenas 
contigo
houvesse agora entendimento e no 
princípio
da praia, solitário, te esperasse.

Para trás ficou a cidade — a cidade-estuário,
a cidade azul levantada pelo rio, a cidade olhada,
percorrida, no bater do coração de tanto Verão —.

amarga e amada e na tarde da terra o 
trabalho
avança, contigo para o sem-nome da distância,
solitária e azul
               
Maria Andresen, Livro das Passagens
Lisboa, Relógio d’Água, 2006
           
            
LISBOA, INVERNO DE 2006

Pelo grande azul que ao sol se mistura
e a leve toldação de 
névoa
esta é uma manhã em que está 
ela

E com ela assim passamos e tocamos
não no mistério mas nesta face 
clara

Aqui no grande Terreiro da cidade não há o
contínuo coro das cigarras, metálico, 
estridente
e sem monotonia, canto da terra 
encarnada

Solo que do solo sobe como se eco do sol fosse
Sobe como estrídulo louvor em lugares deificados

Aqui não há isso, mas modulações 
ventosas
vindas na linha de água ao fundo da 
manhã

Por isso aqui em manhãs de sol e sob o 
frio
a alma sobe e podes procurá-la – ela estará

Colada ao sítio das cigarras, ao sol agradecida
desadornada e alvíssima como se não houvesse havido ida
              
Maria Andresen, Livro das Passagens, 2006
          

            

AVENIDA ALMIRANTE REIS

Os corpos encostados à parede
talvez recordem paisagens brancas,
uni inverno ucraniano com 
árvores
perdidas na neve. Que outros 
olhos
viram estes olhos? Eu passo por eles,
eles não me vêem. Partilham a 
garrafa
de vinho, um pente. E a montra do café,
 apagada e triste, serve-lhes de espelho.
               
José Mário Silva, revista Relâmpago nº12, Abril 2003
           




            
CIDADE

Imensa, troglodita, ambiciosa,
vai a cidade até à praia;
perdeu no campo as rochas cor-de-rosa,
e o mar, se a busca, evita-a, não desmaia,
antes se ergue negro contra o desconforto.

O rio leva casas debruçadas
que já, com o tempo, foi cavando em 
arcos
de perfil sem cal, inclinado e morto...
e leva também barcos.

No céu, as nuvens correm desviadas,
enquanto o Sol, em dardos, sobre o mar as crava.
           
Jorge de Sena, Coroa da Terra, 1946
           


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/07/04/lisboa.aspx]