sábado, 10 de março de 2007

O SENTIMENTO DO TEMPO

    
        
O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas: é que, da nossa própria prisão, de dentro de nós mesmos, conseguimos extrair imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância.
     
André Malraux (1901-1976), A Condição Humana (1933)
    
    
    
    
    
O Pensador (1880), Auguste Rodin (1840-1917)





A UMA RAPARIGA
  
Somos assim aos dezassete.
Sabemos lá que a vida é ruim!
A tudo amamos, tudo cremos.
Aos dezassete eu fui assim.
Depois, Acilda, os livros dizem,
Dizem os velhos, dizem todos:
“A Vida é triste! A Vida leva,
a um e um, todos os sonhos.”
  
Deixá-los lá falar os velhos,
Deixá-los lá... A Vida é ruim?
Aos vinte e seis eu amo, eu creio.
Aos vinte e seis eu sou assim.
  
Sebastião da Gama (1924-1952)
Pelo sonho é que vamos (1953)
  
  


  
Complex Presentiment: Half-Figure in a Yellow Shirt  (1928-32)
Kasimir Malevich
Oil on canvas; State Russian Museum, St. Petersburg




    
    
    
AOS CINQUENTA ANOS...
  
Aos cinquenta anos sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
Se me quero patriarca, pai de família, como acabei sendo,
ou se me quero livre pelas ruas nocturnas
como quando não acabei de descobri-las
em décadas de andá-las, perseguindo
sequer o amor mas corpos, corpos, corpos.
Sou de Europa ou de América? De Portugal
ou Brasil? Desejo que toda a humanidade
seja feliz como queira, ou quero que ela morra
do cogumelo atómico prometido e possível?
Não sei. Definitivamente, não sei.
Julgas que estou deitado num leito de rosas?
— perguntava ao companheiro de tortura Cuauhtemoc(1).
Mas, mesmo destituído, preso e torturado,
ele era o Imperador, descendente dos deuses.
Eu não descendo dos deuses. O corpo dói-me,
que envelhece. O espírito dói-me de um cansaço físico.
As belezas de alma, seja de quem forem, deixaram de interessar-me.
Resta a poesia que me enoja nos outros
a não ser antigos, limpos agora do esterco
de terem vivido. E eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido. Aos 50 anos
nem sequer a raiva dos outros ainda me sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo.
Outros que tentem e descubram:
que digam ou não digam é-me indiferente.
  15/06/1970
Jorge de Sena (1919-1978)
40 Anos de Servidão
  
______________________
(1) Cuauhtemoc tornou-se, em 1520, no 11º e último imperador dos Astecas, após a morte do sucessor de Montezuma II. Ambos simbolizam o fim de uma civilização, em virtude das conquistas expansionistas castelhanas de que Hernán Cortés foi um dos agentes, ao aprisioná-los.
  
   



Il cervello del bambino (1914), Giorgio de Chirico 
  
  


SOU UMA CRIATURA
 
de São Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada
 
é o meu pranto
que não se vê
 
desconta-se
vivendo
  

Como esta pedra
Como esta pedra
A morte
Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Sentimento do Tempo (1933)
trad. de Orlando de Carvalho
Lisboa, Dom Quixote, 1971 (Cadernos de poesia ; 17)
    


    
    
Hands [1954], Paul Strand (1890-1976)

    
    
    
INSCRIÇÃO
  
Os velhos deixam o mundo
felizes
o seu peso
os filhos descansam do cuidado
e imaginam a partida
choram a finitude quando ainda os sentem
no leito de morte
na dor quotidiana dos últimos dias
amam a distância das horas fugidias
  
por vezes os mortos pensam as flores
oferecidas
grinaldas coroas
e vão sublimes em direcção à terra condividida
cósmica.
  
Chuva de Época,Ponta Delgada, 2005.
  



  
  
A Condição Humana I   (1933), René Magritte (1898-1967)
  
    
        
O PODADOR
  
Devagar a tesoura poda o arbusto
tornando-o de realidade em desejo
da forma. O que me atrai, a flor,
a folha de fuligem, os troncos curvos
para os pardais escuros e ocultos.
  
Devagar os ramos caem e os que o
podador despreza vão entrar na gé-
nese da nova terra. É inevitável
que tudo isto me crie nostalgia.
Não há um estalido simples, corte só,
  
nem morte só, a morte daqueles
ramos estendidos pelo gradeamento
a viver naturalmente entretanto.
  
O podador escolhe assim a aparên-
cia da obra que devagar executa,
  
na ordem e no capricho da folhagem
para sempre jovem e ágil.
   
Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
Três Rostos, Lisboa, Assírio & Alvim, 1989
    



    
A EQUAÇÃO
        
O sentido e o rumo do futuro estão inscritos no que fazemos agora. No presente. É a nossa intenção que põe ordem no futuro. Fabricamos uma perspectiva em que nós somos o centro. Não é a perspectiva da pintura. Não, isso é assunto de arte ou de artifício. Existe num quadro para constatar a mudança de planos. Esta perspectiva de que falo é a que gera a ideia de tempo.
        
Quando se passa do prazer à dor sentimo-nos em mudança. Mesmo quando não somos capazes de estabelecer uma relação entre os dois termos da mudança. Na sua origem, o curso do tempo é a distinção entre o que se quer, entre o que se deseja e o que se possui. Reduz-se, assim, à intenção seguida por um sentimento. Não se sente, senão, por instantes. O sentimento do tempo, a duração, não é homogénea. É feita da poeira de instantes. Deve-se a um grupo de instantes que ficam rigidamente ligados pela perspectiva. Pelo traçado da memória humana.O sentimento do tempo, de duração, é o da ordem das lembranças. A sua representação deve-se a uma arte: a memória.
        
É à nossa consciência que cabe tecer uma teia, urdir uma trama com instantes. E com ambas, fabricar o tecido que nos dá a sensação continuada de ser. De existir. É este tecido que sustenta o leito do tempo.
        
Nele vogamos com a rapidez do devir. Com ideia e acção não descobrimos o que é quietude. Com ideia e acção não descobriremos, alguma vez, o que é o silêncio.
        
Por isso, talvez não haja tempo fora dos desejos e das lembranças. Talvez não haja tempo fora das imagens que se sobrepõem aos objectos que as invocam. Talvez seja esta sincronicidade, esta coincidência, que constrói a aparência do tempo e do espaço.
        
O sentimento do tempo, a espera e o desespero, nascem da nossa perspectiva. Talvez, um dia, possamos saber a operação, o modo, para distinguir planos neste novo tipo de espaço: o tempo.
        
Queremos ver, hoje, nesse operador o mecanismo que faz passar do sentimento do tempo para a ideia de tempo. Queremos atribuir-lhe a capacidade de estabelecer a duração real. Inventámos o relógio. O símbolo que representa o tempo no espaço. É pela posição no espaço dos ponteiros que dizemos estar a medir o tempo real.
        
    
O Relógio Astronómico na Praça da Cidade Velha, de Praga, feito pelo relojoeiro Mikulas de Kadan e Jan Sindel



       
É no espaço o modo natural de representar as sensações. As simultâneas. As vindas de todos os lados do corpo e da alma. É no espaço, o modo natural, de armar o leito do tempo. Não admira, portanto, que o espaço e o tempo dependam da velocidade com que neles nos representamos. A esta representação chamamos teoria da relatividade. O curso do tempo é, então, a percepção de diferenças entre sensações que se parecem. A sua sucessão é a abstracção do movimento no espaço. Quando consciente, torna-se numa intenção. Da intenção, pouco a pouco consciente de si e dos seus efeitos sairá uma direcção. Uma extensão. Amarrou-nos a tempo, ao tempo. A forma abstracta de representar as mudanças no universo. Foi lá no nada e no caos, que a eternidade aconteceu. Connosco sucedeu uma intenção. Ordenou as sensações, os sentimentos e os pensamentos. Com a ordem, aprendemos a contar até dez!
[…]


       
       
    
Salvador Dali, A Persistência da Memória (1931)


    
Salvador Dali, "A Desintegração da Persistência da Memória" (1952-1954)
Salvador Dali, A Desintegração da Persistência da Memória (1952-1954)




[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/03/10/tempo.aspx]
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