segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Há amores que expiram, Luísa Sobral

 


Há amores que expiram. E, assim como os pacotes de leite, na dúvida,é melhor deitar fora.

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Três meses. Três meses exatos. Talvez ele se tenha dado esse tempo de forma consciente, um tempo limite: três meses, nem mais um dia.

Cheguei a casa vinda do mercado e não o vi. Estranhei. Ao longo daqueles noventa e um dias, já tínhamos implementado algumas rotinas; chegar do mercado e vê-lo à porta de casa de braços estendidos, pronto para me ajudar com as caixas de produtos que tivessem ficado por vender, era uma delas.

Arrastei as caixas para dentro de casa e fui procurá-lo à horta. Tudo estava onde tinha sido deixado no dia anterior. Voltei para casa para preparar o almoço.

Demorei algum tempo a ver o papel. Era pequeno e estava escondido entre a cesta da fruta e um castiçal. Tinha tres linhas apenas, uma por cada mês, a folha de papel de um caderno rasgada à pressa: "Não sou feliz aqui. Não quero desperdiçar o tempo que me resta nesta vida num lugar onde não faço a diferença. Este é o teu sonho. Perdoa-me. Assinei uma procuração para que consigas passar a casa para teu nome. Amo-te, Klaus." "Amo-te" sobressaia no meio de todas aquelas palavras, como nos jogos em que temos de descobrir qual a palavra que não pertence.

Permaneci sentada à espera do sinal de desmoronamento, aquele segundo que antecipa o fim do mundo. Não veio. Não veio naquele dia, nem no seguinte, nem nas semanas que se sucederam, nem nunca. Talvez nunca tivéssemos deixado de ser apenas amigos e esse tenha sido o nosso equivoco. Talvez tivéssemos simplesmente deixado de nos escolher ao acordar, ou talvez nos tenhamos escolhido durante todos aqueles anos para não desistirmos de acreditar no amor. É mais fácil fingir do que desistir. Somos capazes de simular grandes paixões para não lidarmos com a solidão, para não olharmos para trás. Talvez o nosso amor tenha sido apenas isso, fé.

In: Nem todas as árvores morrem de pé, Luísa Sobral. Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2025, pp. 211-213

domingo, 23 de agosto de 2026

"A dor de Madalena" (1868), Arnold Böcklin (1827-1901)

 

The Magdalene with Christ / The Lamentations of Mary Magdalene on the body of Christ (1868)


Na pintura de Arnold Böcklin, a cena de Maria Madalena junto ao corpo de Cristo pode ser lida como muito mais do que uma simples representação devocional. O que nela se vê é uma construção visual de forte ambivalência, em que o luto, a sensualidade e a morte se cruzam de modo inquietante. O véu e os cabelos da figura feminina não se limitam a cobrir o corpo masculino: eles desenham uma superfície de mediação entre o corpo exposto e o olhar do espectador, convertendo o gesto de ocultação numa forma subtil de erotização.


Essa ambivalência é central para a força simbólica da obra. O corpo de Cristo surge como corpo interrompido, já sem a energia vital que o animava, mas ainda presente como matéria sensível. Madalena, por sua vez, não aparece como figura etérea ou angelical, mas como mulher de presença física intensa, com traços de maturidade corporal que reforçam a densidade humana da cena. O decote e o peito de matrona, longe de enfraquecerem a leitura, ampliam-na: sugerem plenitude corporal, fecundidade e nutrição, mas também uma feminilidade marcada pelo tempo, pela perda e pela experiência. A imagem, assim, não opõe simplesmente espiritualidade e carne; antes mostra como a carne permanece no interior da espiritualidade.


É precisamente nesse ponto que a obra ganha espessura simbólica. A dor de Madalena não é apenas dor religiosa; é também dor do desejo, da perda do corpo amado, do término da presença física que era fonte de prazer e de vínculo. O véu e os cabelos que cobrem Cristo podem ser entendidos como gesto de piedade, mas também como uma espécie de última carícia visual. Há aí uma tensão entre proteção e posse, entre recato e contacto, entre sacralização e memória do prazer. Böcklin transforma o luto em matéria plástica de grande complexidade emocional.


Essa leitura não elimina o sentido cristão da cena; pelo contrário, aprofunda-o. Na tradição iconográfica, Maria Madalena é uma figura de penitência, de amor extremo e de adesão dolorosa ao corpo de Cristo. Em Böcklin, essa tradição é reconfigurada por uma sensibilidade simbolista, interessada menos na narração literal do episódio bíblico do que na sugestão de estados interiores. A pintura deixa de ilustrar um momento sagrado e passa a condensar uma experiência humana universal: a do desejo que perde o seu objeto, a da beleza ferida, a da vida que se retira e deixa atrás de si apenas a memória corporal.


Deste modo, a obra pode ser entendida como uma meditação sobre a sexualidade e o fim do prazer, mas num sentido profundamente simbólico. Não se trata de erotismo explícito, nem de uma leitura redutora do sagrado, mas de uma fusão entre corpo e perda, entre atração e ausência. Böcklin faz do véu, do cabelo e da anatomia de Madalena elementos de uma linguagem visual que diz, ao mesmo tempo, ternura, desejo, morte e transcendência. É nessa fusão que reside a intensidade perturbadora da pintura.


domingo, 25 de janeiro de 2026

À espera dos bárbaros, Konstantínos Kaváfis



 À espera dos bárbaros


O que esperamos nós em multidão no Forum?


Os Bárbaros, que chegam hoje.


Dentro do Senado, porque tanta inacção?

Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?


É que os Bárbaros chegam hoje.

Que leis haveriam de fazer agora os senadores?

Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.


Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?

E às portas da cidade está sentado,

no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?


Porque os Bárbaros chegam hoje.

E o Imperador está à espera do seu Chefe

para recebê-lo. E até já preparou

um discurso de boas-vindas, em que pôs,

dirigidos a ele, toda a casta de títulos.


E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,

hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?

E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,

e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?

E porque levavam hoje os preciosos bastões,

com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?


Porque os Bárbaros chegam hoje,

e coisas dessas maravilham os Bárbaros.


E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores

para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?


Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.


Porque, subitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?


Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.


E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.


Konstantínos Kaváfis




terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nada diz mais de nós que a nossa casa, Maria Augusta Tavares

Maria Augusta Tavares

 

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares(1), metade Paço de Arcos, portanto, dois anos e meio. Moro sozinha, sou cuidadosa. É raro alguma coisa ser danificada. E quando a obsolescência planejada atua, imediatamente conserto ou substituo o produto. Então, por que não raro, malgrado o pequeno espaço, está sempre a surgir a necessidade de um novo item? Consumismo? Compensação?

Tenho pensado sobre essa “necessidade”. Na busca por resposta, socorri-me dos mais belos versos que conheço sobre a casa, a nossa casa(2).

Eu não saberia dizer quantas vezes já reli esse precioso livrinho que tem por objeto a casa. Com muito gosto, eu o transcreveria inteiro, porque todo ele é poesia genuína. “Se você deseja com seu coração ou se é com seu sonho – sua solidão – o que mais almeja, se é com seu corpo e sua peleja que realmente quer fazer sua casa, não importa a forma que ela possa ter, pois a casa é para ser sentida, para ser vivida, para ser amada e ser possuída, não para se ver.” 

O poeta está a nos dizer que a casa é uma coisa viva. Nas suas palavras, tudo na casa é levitação, magia, sonho. A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. Embora, em termos objetivos, eu viva dentro dela, a minha casa vive dentro de mim. Ela me espera, ela me revela e nada diz mais de mim que a minha casa.

Lembro de ter passado uns dias em Santiago do Chile, onde fui hóspede de uma velha senhora, talvez menos velha do que eu, hoje, registro que faço, porque só agora posso comparar a casa dela à minha, para concluir por uma diferença fundamental entre ela e eu. Nas fotos – havia muitas espalhadas por toda a casa –, os figurinos exibidos pelas pessoas e os lugares ao fundo permitiam supor que ela pertencera a uma classe social abastada. A culinária também indicava gosto refinado. Uma alcachofra assada com ervas, que me foi servida por ocasião da minha chegada, era, ao mesmo tempo, simples e elegante. Não havia dúvida que a prática de alugar um quarto em casa era recente. Em contraste com o passado que a casa me sugeria, chamava atenção o estado do fogão, da geladeira, dos pratos, das panelas, dos talheres.  

A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. 

Por mais empobrecida que ela estivesse, continuava morando num endereço de gente rica. No lugar dela, eu teria encontrado uma forma de eliminar a precariedade que a cozinha anunciava. Logo a cozinha, espaço de criatividade, merecia melhor tratamento. Não concebo a ideia de usar pratos rachados, com as bordas desgastadas, panelas com fundos descascados, talheres desemparelhados, toalha desbotada. Os alimentos devem ser servidos em pratos que os realcem. As bebidas, em copos adequados. A tessitura da magia que a casa guarda passa por essas escolhas. E não deve ser privilégio de rico. Há feiras de produtos usados em ótimo estado de conservação, onde pagamos uma ninharia para garantir a beleza da casa, se a mesma for prioridade.

Da mulher em si eu não lembro. Não lembro o nome dela ou como era o seu rosto. À época, ainda não havia celular para os registros fotográficos, que se tornaram quase obrigatórios. Mas nunca esqueci a situação precária daquela cozinha. O descaso com os objetos me fez pensar que aquela mulher estava à espera da morte. Eutanásia é um serviço caro, ela não o teria contratado. Portanto, ainda sem data para morrer. Os serviços funerários, cujo preço não faz jus ao propósito, mesmo que ela os tivesse antecipado, têm uso imprevisível. Enfim, ainda estava viva, tinha direito a fazer planos. Substituir aquelas velharias por peças novas podia dar alma nova à sua casa e, por extensão, a si mesma.

Quando eu substituo uma peça, seja um móvel ou um quadro na parede, quando troco a moldura da velha fotografia, até quando frito o ovo numa panela nova que não gruda, sorrio para a vida. Não é por consumismo que renovo a casa, mas porque namoro a novidade por alguns dias. À medida que as coisas se gastam, eu me gasto junto, porque eu e a casa nos doamos reciprocamente. Talvez por isso seja recorrente ouvir: “Sua casa tem a sua cara.” Afirmação que recebo como elogio. Ou, como diz um dos meus netos, “vovó mora em casa de boneca”. Ora, é um carinho que me vem através da casa, porque, simultaneamente, eu sou a casa e a boneca.

Sobretudo quando envelhecemos a casa é o nosso espaço privilegiado. É onde passamos a maior parte do nosso tempo. Se a vida importa, é imperativo que a nossa integração nesse espaço se dê pelo prazer, pelo pertencimento, para que nos doemos a ela por inteiro, sem queixas, sem autocomiseração. Nas palavras do poeta, essa inteireza equivale a “dar os nossos pés, dar nossos artelhos, dar as nossas pernas, dar nossos joelhos, dar os nossos sonhos, nossos pesadelos, dar as nossas coxas, dar o nosso sexo, os nossos adeuses e nossos amplexos, dar o nosso pelo e nossos apelos: dar nosso universo.”

 

Maria Augusta Tavares, “Nada diz mais de nós que a nossa casa”. In: https://jornalmaio.org/a-casa-a-nossa-casa/, 07-01-2026

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(1) Paraíba, Brasil.

(2) LEÃO, Gonzaga. Casa somente canto, Casa somente palavra. Coleção Viventes das Alagoas, 1995.