sábado, 6 de outubro de 2012

MORS-AMOR (Antero de Quental)

  
Dürer, CAVALEIRO E A MORTE (1513, gravura a cobre, col. particular)



         
         
      MORS-AMOR
       
      A Luís de Magalhães.
      
     Esse negro corcel, cujas passadas
     Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
     E, passando a galope, me aparece
     Da noite nas fantásticas estradas,
     
     Donde vem ele? Que regiões sagradas
     E terríveis cruzou, que assim parece
     Tenebroso e sublime, e lhe estremece
     Não sei que horror nas crinas agitadas?
     
     Um cavaleiro de expressão potente,
     Formidável, mas plácido, no porte, 
     Vestido de armadura reluzente,
     
     Cavalga a fera estranha sem temor:
     E o corcel negro diz: "Eu sou a Morte!"
     Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"
        
Antero de Quental
            


           
TEXTOS DE APOIO
         
Este soneto é uma breve composição dramática, de personagens alegóricas. – Segundo o «otimismo lúgubre e paradoxal» de Antero, com que superava a crise pessimista, a Morte identifica-se com o Amor, porque ambos exprimem o anseio vão de realizar a perfeição do género humano através do indivíduo (segundo Hegel).
           
Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada. Século XIX. Do Romantismo ao Realismo. Poesia, Lisboa, Editora Ulisseia, 1985, 2ª edição.
      
         
*
         
         
A errância em que Antero se demorou ao longo de muito da sua vida é um facto que talvez oculte a realidade de alguém que gostaria de se estabilizar - e que o conseguiu no interregno, próximo do fim, de Vila do Conde. Muitas das imagens da sua poesia transportam a ideia desse ser viajante, instável, para cujo movimento a única explicação possível será a de uma condenação. A terra é um lugar em que o poeta terá de expiar uma pena que ele não aceita ‑ pela simples razão de que não sabe o motivo dessa condenação. É certo que, num plano imediato, temos em Antero a condição do ilhéu que não se satisfaz com os limites que a Natureza lhe impõe - indo procurar no continente uma satisfação pessoal e intelectual que o solo natal não oferece. Esse afastamento (regressamos ao tema do exílio) que não é imposto, talvez tenha determinado o sentimento inconsciente de culpa que se irá refletir neste aspeto da sua poesia, em termos inconscientes. Aquilo que mais obviamente vem dar testemunho desta situação é a conflitualidade que se projeta nas oposições, nos duplos contrários, que por vezes se deixam ver materializados: o «Mors-Amor» sendo a figuração mais explícita desses espectros que constantemente se atravessam no seu caminho, obrigando-o a olhar-se no espelho de visões que o forçam à constante deceção de si próprio.”
        
Nuno Júdice, O Processo Poético ‑ Estudos da Teoria e Crítica Literárias, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1992. ISBN: 9789722705202
         
          



         
          
ANTERO DE QUENTAL, PERSONALIDADE PATOLÓGICA OU CONFLITO EXISTENCIAL?
A pureza de sentimentos, a justeza dos princípios, o idealismo do seu humanismo, na senda de uma vida melhor e mais justa para todos, é a marca deste homem que acreditava «na espiritualização permanente do Universo, numa cadeia universal das existências e numa prodigiosa espiral em que a ascensão dos seres à liberdade é a causa final de tudo, que a santidade é o termo de toda a evolução, que o Universo não existe nem se move senão para chegar a esse supremo resultado, que o drama do ser termina na libertação final pelo bem».
Para si próprio muito pouco conseguiu para além de um sucessivo acumular de desilusões, do sentimento de total inutilidade e do desejo de morrer contente, se conseguir, ao menos, viver seis meses a verdadeira vida de homem que é a da ação por uma grande causa».
Personalidade extremamente cativante, foi um destacado pensador da Geração de 70 pelo fascínio que em todos exercia devido à sinceridade e generosidade das suas ideias, bem patente nestas duas citações de Eça: «Antero que desembarcara em Lisboa como um apóstolo do socialismo, a trazer a palavra dos gentílicos, em breve nos converteu a uma vida mais alta e fecunda; ...; e do Cenáculo, de onde, antes da vinda de Antero nada poderia ter nascido além da chalaça, versos satânicos, noitadas curtidas a vinho de Torres, e farrapos de filosofia fácil, nasceram, mirabile dictu, as Conferências do Casino, maio e junho de 71, aurora de um mundo novo, mundo puro e novo que depois, oh dor! creio que envelheceu e apodreceu…» ou ainda «em Coimbra, uma noite, ..., avistei sobre as escadas da Sé Nova, …, um homem, de pé, improvisava...; deslumbrado, toquei o cotovelo de um camarada, que murmurou, por entre os lábios abertos de gosto pasmo: ‑ É o Antero!... ‑ E, sentados nos degraus da igreja, outros homens, …, escutavam, em silêncio e enlevo, como discípulos, …, então, …, destracei a capa, também me sentei num degrau, ..., a escutar no enlevo, como um discípulo. E para sempre assim me conservei na vida» (Eça de Queirós, in «Um génio que era santo»).
Os numerosos estudos da obra e da vida de Antero são bem significativos do fascínio que este «místico sem Deus» (Leonardo Coimbra) exercia sobre todos pelo amor à virtude, ao bem e à justiça. Personalidade marcada pelos contrastes, o Antero luminoso e o Antero noturno (António Sérgio), a luz e as trevas, o ideal e o desalento são facetas de uma mesma personalidade que tragicamente transporta em si ‑ corcel e cavaleiro-a morte e o amor, («Mors-Amor»):
MORS-AMOR
Esse negro corcel, cujas passadas 
Escuto em sonhos, quando a sombra desce, 
…………………………………………....
Donde vem ele? ………………………….
…………………………………………….
Um cavaleiro de expressão potente,
…………………………………………….
Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: «Eu sou a Morte!» 
Responde o cavaleiro: «Eu sou o Amor!»
Antero de Quental (1874-80)

Este poema ilustra particularmente bem a sua tragédia íntima de conter em si a aspiração ao amor mais puro e o desalento mais desesperado ou, em outros termos, a luta que sempre travou entre a Razão e a sua «natureza conservadora» traduzida no seu desejo de regresso à paz do Nirvana infantil e materno. Esta mesma questão pode ser entendida como a dialética freudiana entre o instinto de morte e o instinto de vida, motor de todo o investimento afetivo, profissional, social, político.
O homem que a si próprio se considerava um pessimista debatendo-se, sobretudo a partir dos 32 anos (1874), quase em permanência, com a ideia de morte, não era para Eça considerado um doente mas «um génio que era um santo».
Algumas questões se levantam:
‑ Tratava-se de uma doença mental ou, tão-somente, da acentuação de traços da personalidade definida por Oliveira Martins como «quimérica, estoica, mística, misantropa» neste homem possuído de um verdadeiro espírito de missão, oscilando entre a crença no bem e o desalento mais pessimista?
‑ Qual a influência, no pessimismo doentio do Poeta, da «sociedade néscia, acanhada, sufocadora» em que vivia e de uma época em que dominava o pensamento de Schopenhauer, o niilismo de Leconte de Lisle e o «romantismo piegas» ?
‑ Qual o peso do romantismo filosófico e social (Hegel, Quinet, Michelet, Proudhon, Victor Hugo e vários outros)?
‑ Podemos aceitar a opinião de Oliveira Martins que «os sonetos são a refração das agonias morais do nosso tempo vividas na imaginação de um poeta»?
Vejamos o que nos diz António Sérgio:
«Mas não nos esqueçamos, sem embargo de tudo, de que o pessimismo doentio do nosso poeta se ajustava com o ambiente intelectual da época, ‑ que foi aquela em que Schopenhauer esteve em plena voga; em que dominou o niilismo de um Leconte de Lisle e o satanismo do autor de «La mort des pauvres»:
C'est la Mort qui console, hélas; et qui fait vivre; 
C'est le  but de la vie, et c'est le seul espoir 
Qui, comme un elixir, nous monte et nous enivre, 
Et nous donne le coeur de marcher jusqu'au soir... 

O Mort, vieux capitaine, il est temps! levons l'ancre! 
Ce pays nous ennuie, ô mort! Appareillons! 
Si le ciel et la mer sont noirs comme de l'encre. 
Nos coeurs, que tu connois sant remplis de rayons!
(Baudelaire).
No ficcionismo romanesco avultava então um Flaubert, que aos 13 anos havia escrito: 'Si je n'avais dans la tête et au bout de ma plume une reine de France au quinzième siècle, je serais totalement dégouté de la vie et il y aurait longtemps qu'une balle m'aurait délivré de cette plaisanterie buffonne qu'on appele la vie'».
(A. Sérgio)

Embora pareça evidente que o ambiente português e europeu influenciou fortemente Antero, não nos parece legítimo considerá-lo um fator relevante para a sua morte, Com efeito, muitos outros, nacionais ou estrangeiros, por vezes igualmente pessimistas, como Baudelaire, Flaubert, etc., lidaram diferentemente com a realidade pessimista retrógrada e sobreviveram a ela.
No que diz respeito à personalidade, António Sérgio não hesita em considerar a face luminosa expressa nas poesias das odes modernas e a face noturna de grande parte dossonetos, como uma acentuação de características humanas que todos possuímos. Sérgio explica a dualidade de Antero por «uma mente iluminada, hospeda de um corpo infinitamente afligido, vítima de uma tortura ininterrupta e diabólica em que o eu superior espiritual racional e ético luta permanentemente contra o eu inferior biológica e sensível». Nesta discutível visão cartesiana do homem corpo e do homem espírito, a mente, o pensamento, a razão, são apresentadas como fonte da luz e do bem-estar enquanto que o corpo e os instintos seriam a origem de todos os males e de todas as trevas satânicas do homem. O próprio Antero daria argumentos a favor desta análise, ao explicar o insucesso do seu trabalho em Paris como tipógrafo por só o seu espírito ser revolucionário, por natureza ser conservador.
Deste conflito interno entre a razão e a parte «desgrenhada», «sanguinolenta» e de «fumo e fogo embriagada», nos fala o próprio Antero na «Tese e Antítese I», (1862-74).
       
Ler mais: “Antero de Quental, personalidade patológica ou conflito existencial?”, José Dias Cordeiro, Congresso Anteriano Internacional – Actas [14-18 outubro 1991]. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1993.
        
              
COMENTÁRIO DE TEXTO
        
Analise e comente o texto, focando os seguintes aspetos:
• o caráter alegórico
• as marcas de narratividade
• o conceito de amor
• a expressividade do titulo a nível fónico e semântico
• inserção no universo poético anteriano
          

        
CHAVE DE CORREÇÃO
            
No seu comentário você deve reconhecer, quer na temática desenvolvida, quer nos processos discursivos, as marcas do universo poético de Antero de Quental.
A alegoria, patente na caminhada do cavalo e do cavaleiro, traduz a inquietação do eu poético dividido entre o poder do amor e da morte. Se a morte é remédio para nos libertar da dor existencial, o amor é capaz de vencer o receio da morte. Este conceito de amor radica na ideia de um sentimento puro e sempiterno que corresponde ao anseio de realização da perfeição.
As marcas de narratividade presentes (v.d. personagens, tempo, espaço, ação, narrador homodiegético, discurso direto) tornam expressiva a mensagem, na medida em que se volve em conto o que releva da interioridade do eu.
O título em latim, em que as duas palavras aparecem separadas por um travessão, poderá querer significar a correlação existente entre os dois significados (já referida na abordagem do primeiro item); deverá também salientar-se a similitude das palavras a nível fónico, constituídas quase pelos mesmos fonemas.
Este soneto poderá considerar-se representativo de uma fase anteriana em que, apesar do fascínio pela ideia da morte, se sente ainda um laivo de otimismo, crendo que o amor é capaz de dominar essa mesma morte.

           
Manuela Cabral, Lurdes Alarcão e Maria Graciete Vilela, Português A – 12º Ano. 
Preparar os Exames Nacionais, Porto, Areal Editores, 2002.
        

A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/10/06/MORS.AMOR.aspx]
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