segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A UM CRUCIFIXO (Antero de Quental)


   
                                           
  
  
A UM CRUCIFIXO

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! E olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eco o eco de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojaras de novo à campa os membros lassos...

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...

E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouvirás perguntar — de que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? —
    
Antero de Quental, 1862
   
  

   
   
A UM CRUCIFIXO
Lendo, passados 12 anos, o soneto da parte 1ª que tem o mesmo título.
            
Não se perdeu teu sangue generoso,
Nem padeceste em vão, quem quer que foste,
Plebeu antigo, que amarrado ao poste
Morreste como vil e faccioso.

Desse sangue maldito e ignominioso
Surgiu armada uma invencível hoste...
Paz aos homens e guerra aos deuses! ‑ pôs-te
Em vão sobre um altar o vulgo ocioso...

Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti começa, um homem novo:
De ti data essa trágica linhagem.

Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,
Lembraremos, herdeiros desse povo,
Que entre nossos avós se conta Cristo.
    
Antero de Quental, 1874
   
                 
   



Os sonetos completos de Anthero de Quental, publicados por J. P. Oliveira Martins. - [1ª ed.]. - Porto : Livraria Portuense de Lopes, 1886, pp. 20 e 63.
   
   

   



O pessimismo de Antero é mais alegre que o seu otimismo e a sua fé mais desoladora do que a sua descrença.
É que ‑ creio ser o primeiro a observá-lo ‑ aquelas pessoas a quem é mais conforme a tristeza do que a alegria, quando por acaso alegres (realmente, presumo) não estão em si como na tristeza. Isto dá-se com outras faculdades. Edgar Pöe, por exemplo, é mais contente no seu terror do que na sua alegria.
[...]
Com Antero de Quental se fundou entre nós a poesia metafísica, até ali não só ausente, mas organicamente ausente, da nossa literatura. [...]
      
"Fragmentos inéditos de Fernando Pessoa”, Jacinto do Prado Coelho. In: Revista Colóquio/Letras. Documentos, n.º 8, julho de 1972, pp. 53-54.
      
     

      
Puygybel, CRUCIFIX (v.1)  
     
     

O PENSAMENTO DE DEUS NOS SONETOS
     
Em “Palavras de um Certo Morto” e “A um Crucifixo”, encontramos um Antero fortemente influenciado por uma série de leituras sobre a vida de Jesus, principalmente a de Renan, sobre as quais tece comentários:
Quanto mais estudo, mais me parece aquilo uma fantasia sentimental, um resto da velha crendice [...]. O grande valor desse livro é todo lírico, pessoal, subjetivo; histórico, muito pouco. O mais curioso é que apesar disso (devia dizer, por isso mesmo) a Vie de Jésus se vai tornando centro de uma nova igreja cristã, de uma igreja em que se adora Cristo como “o mais divino dos humanos”, um “mestre inimitável da vida espiritual”.[...] O Cristianismo morreu totalmente: em corpo e alma. Não é só a lenda cristã que a razão moderna rejeita; é o espírito cristão, o sentir cristão, tudo. [...]. (Antero de Quental –Subsídios para a sua Biografia, 1948, vol. II, p. 23)
    
Necessário se faz que nos reportemos ao clima anticlerical, tão em voga no período, no qual “[ a] Igreja era o alvo de todos os ódios e violências. Mas a Igreja não se destruía, sem se destruir o Cristianismo. E para o Cristianismo desaparecer, era preciso, em primeiro, fazer desaparecer o Cristo.” (NEVES, M. O Grupo dos Cinco – Dramas Espirituais.Lisboa, Livraria Bertrand, 1945, p. 206)
Torna-se inegável a mudança de postura dos escritores portugueses em relação ao tratamento dispensado a Jesus; dos primórdios da literatura até os dias de Antero, se críticas houve, estas foram dispensadas apenas ao clero (Cantigas de Escárnio e Farsas de Gil Vicente), permanecendo intocável a figura de Jesus. Somente na geração de 70 passará a ser arguida a divindade do mesmo.
Para nosso poeta, entretanto, “[ o] seu Deus [continua a ser] apenas de natureza íntima” e “Cristo não é Deus. É um homem extraordinário, símbolo da vida” (NEVES, M. O Grupo dos Cinco – Dramas EspirituaisLisboa, Livraria Bertrand, 1945, p.45), ao qual Antero nunca renunciou.
Sua visão de um Cristo humanizado provém de que “renuncia aos dogmas da Igreja, entrega-se aos mitos da ciência, do progresso, da liberdade e da revolução.” (Ibidem, p.44)
Essa mudança na postura dos escritores portugueses da época deu-se pelos motivos expostos neste trabalho, citados a partir de 3.1.
É esse Cristo, tornado humano, que encontramos em “A um Crucifixo” (1874) (há outro soneto com o mesmo título, de 1862, já citado à página 19) e em “Palavras de um Certo Morto” […]
Colocado por António Sérgio no Ciclo do Apostolado Social, o de 1874 é resposta ao de 1862, escrito doze anos antes, cujos últimos versos são: “De que serviu o sangue /Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário?” Como se não houvesse solução de continuidade, o segundo assim se abre: “Não se perdeu teu sangue generoso,” pois dele “Surgiu armada uma invencível hoste...” Chama-lhe “plebeu antigo” – ao seu olhar de homem do século XIX, socialista, que nele põe, de certo modo, a origem do proletariado –; “vil e faccioso” – através do olhar dos contemporâneos de Jesus, que o viam como um subversivo da ordem política e religiosa.
Enquanto, no soneto de 1862, se lamentava a “inutilidade do sacrifício de Cristo”, neste, doze anos depois, verifica-se o erro da conclusão anterior, “pois que, se de facto o ritmo do viver do Cristo não ritmou até hoje a sociedade existente, criou um pensamento revolucionário enérgico, que modelará talvez a do porvir.” (SÉRGIO, A.Sonetos. Organização, prefácio e anotações. Lisboa: Couto Martins, 1956, p.122)
É esse Cristo que, junto a Hegel e Proudhon, Antero considera “aqueles a quem mais ama e a quem mais deve.” (Ibidem, p.123)
Humanizado, considerado um ancestral dos homens (“Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto, / Lembraremos, herdeiros desse povo, / Que entre nossos avós se conta Cristo.”), torna-se Ele o orientador “[ d]a Ecclesia pressa de um novo Cristianismo.” (Ibidem, p.124)
      
Antero de Quental: Uma trajetória com Deus, Helen Araujo Mehl. 
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, setembro de 2003, pp. 62-63.
   
   
   






A UM CRUCIFIXO – ANTERO DE QUENTAL: MACROANÁLISE
   
O poema intitulado “A um crucifixo” [“Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços”], do poeta português Antero de Quental, foi escrito em 1862. Nele, o eu-lírico dirige-se a um interlocutor específico; ele direciona sua voz poética ao Cristo materializado em um crucifixo. Pelo título, percebe-se que o poeta volta seu olhar contemplativo à imagem de Jesus pregado no madeiro, ressaltando sua missão salvadora aqui na Terra. Ele está diante de um crucifixo e, nele, visualiza o Messias no momento de suas dores de agonia.
Na primeira estrofe, ocorre o que se chama de "flashback", onde o eu-lírico se volta para o próprio Cristo, numa espécie de resgate do instante de sua crucificação (Paixão de Cristo). A sinfonia das palavras transporta o leitor para o mistério da cruz. Há o regresso até o monte Calvário, sendo testemunhas do sacrifício do Cordeiro para a remissão dos pecados da humanidade. Esse confronto temporal (passado e presente) será necessário para a resolução, posterior, das incertezas que povoam a mente do eu-poético.  Ao mesmo tempo em que há um lamento da inutilidade de seu martírio, o Cristo é relembrado como um homem bom, que almejava um ideal: usar a sua morte como exemplo de vida e uma forma de redenção do povo. São descritos os últimos momentos de sua vida e o quanto ele acreditava que sua passagem aqui na terra fosse capaz de preencher o vazio existencial do ser humano.
Na segunda estrofe, ainda num passado presentificado, a voz poética lança mão de um questionamento: “Por que morreu sem eco, o eco de teus passos,/ E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?”. A incerteza quanto à repercussão de sua ação na Terra é resultante da descrença total dos valores mundanos. A grande indagação feita aqui diz respeito à fé, que passou a ser desvinculada da instância mística e centrada na questão ética, manifestada na procura por uma nova ideia sobre o seu sentido. Sendo assim, a fé figura como uma forma de elevação, desprovida do simbolismo religioso, vinculada mais à moral e à ética. Ela passa a ser uma abstração, um conceito a ser pensado, e não um sentimento subjetivo e dogmático do homem. Por esta razão, aconselha-se ao Cristo que não regresse ao mundo como prometera, pois sua morte não teve a repercussão que lhe era almejada. Suas palavras foram abafadas e a mesma terra que tanto necessitava de uma luz, sair da enfermidade, permaneceu doente. É como se a sua morte tivesse causado certa provocação, mas, no fim, tudo continuou igual (é a mesma terra erma, sob o mesmo ermo céu).
É na terceira estrofe que se atribui a culpa ao responsável pela “castração” da divindade do cristo: a própria humanidade. Neste momento, o tempo verbal retorna ao presente, como forma de se analisar a ressonância deste facto nos dias vigentes. E a constatação é clara. Após presenciar a grande prova do amor de Deus para com os homens, ao dar seu filho único para remir os pecados do mundo, a humanidade permaneceu incrédula, contemplando, estática, as marteladas que ela mesma apregoava nos “membros lassos...”. Neste mesmo terceto, nota-se a repetição do adjetivo "mesmo(a)", quatro vezes, que acentua a constatação de que a sociedade não sofreu alteração. A mesmice dessa humanidade incapaz de aprender as lições do Mestre continua imutável.
No último terceto, já frustrado com a “mortificação” da fé humana, seca de vida e vazia de esperança, e descontente com o não cumprimento dos preceitos divinos, Cristo ainda é interrogado: “E ouviras perguntar — de que serviu o sangue/ Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? —”. O eu-lírico, numa visão angustiante e desesperada na busca pela verdade, indaga o crucificado a respeito do valor que sua morte teve (ou deixou de ter) para os homens. Esta angústia é fruto da visão que o eu - lírico alimenta ao contemplar o suplício de Cristo. Na verdade, somos nós as urzes do Calvário; eram os nossos pecados de Cristo carregou nos ombros na Via Sacra (a cruz); e, o mais evidente, também nós fomos marcados com os cravos que perpassaram seus membros debilitados; temos as chagas em nossos membros para não esquecermos que, um dia, um homem as tomou em favor da nossa salvação. Com esta pergunta, é encerrado o soneto.
A resposta seria dada por Antero, doze anos depois. Em 1874, o poeta escreve outro soneto, também intitulado “A um crucifixo”, onde reafirma a validade do martírio de Cristo e coloca a humanidade como herdeira do seu trono celeste. Enquanto, no soneto de 1862, lamentava-se a “inutilidade do sacrifício de Cristo”, pondo em dúvida a missão do Salvador, cujo exemplo não foi suficiente para abrandar o caos do mundo e o sofrimento dos seus filhos, neste, verifica-se o erro da conclusão anterior.
Como se não houvesse solução de continuidade, o segundo assim se abre: “Não se perdeu teu sangue generoso”, visto que não morreu em vão, pois dele “Surgiu armada uma invencível hoste...”. A vinda de Jesus à terra é apresentada com caráter revolucionário. O Mártir, do qual se fala no poema, é a fonte da verdadeira e futura luta plebeia do mundo socialista. É este Cristo humanizado, sangrando, morrendo (para os que não acreditavam) como maldito, atiçando o desprezo, que aparece liberto e lembrado ao morrer pelos que estão à margem: “Lembraremos, herdeiros desse povo,/ Que entre nossos avós se conta Cristo.”. Jesus é chamado de “plebeu antigo”, aludindo à sua origem humilde (filho de carpinteiro e dona de casa), além de expressar o caráter de sua missão terrena, voltada para os pobres. Em se tratando do século XIX, pode-se dizer que há, nesta nomeação (apóstrofe), a identificação da origem do proletariado. A morte do Cristo “como vil e faccioso” é vista pelo olhar do homem antigo, que enxergava, nele, um revolucionário e agitador da classe oprimida, contra a ordem política e religiosa da época cristã.
Esse povo evocado é bem digno descendente do Cristo que morreu pregado na cruz. Porém, não se trata de uma plebe passiva, amedrontada e incapaz de reação perante a desgraça. Aqueles que o poeta considera herdeiros do “sangue generoso” de Jesus são os que lutam: “Do pobre que protesta foste a imagem / Um povo em ti começa, um homem novo”. O povo assume a dimensão do herói coletivo, apostolado da pura fé plebeia.
Por fim, a mensagem que transparece do soneto analisado (“A um crucifixo – 1862”) é a recusa por parte do ser humano em não acreditar na verdade. O facto de se viver num mundo tão camuflado por aparências, banalizou a verdade como algo vão, insuficiente para garantir a vida em sociedade e nos meios que dela constituem o cotidiano do homem moderno. Por isso, a desvalorização da verdade e o questionamento de sua ausência pelo poeta. A humanidade conhecia a verdade irrevogável, mas a ignorou, pactuando, ela própria, com o crime efetuado contra aquele que varreu o pecado da face da terra.
   
"Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso." (Bertolt Brecht)
        
               
A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
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 Estudos e Ensaios: Antero de Quental, Joaquim de Carvalho
     

 [Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/02/10/a.um.crucifixo.aspx]
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