quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

DAS UNNENNBARE (Antero de Quental)



          
              
DAS UNNENNBARE


Ó quimera, que passas embalada
Na onda de meus sonhos dolorosos,
E roças c’os vestidos vaporosos
A minha fronte pálida e cansada!

Leva-te o ar da noite sossegada…
Pergunto em vão, com olhos ansiosos,
Que nome é que te dão os venturosos
No teu país, misteriosa fada!

Mas que destino o meu! e que luz baça
A desta aurora, igual à do sol posto,
Quando só nuvem lívida esvoaça!

Que nem a noite uma ilusão consinta! 
Que só de longe e em sonhos te pressinta…
E nem em sonhos possa ver-te o rosto!
Antero de Quental, 1864
       
         
           
GÉNESE E TRADIÇÃO DA SAUDADE NO DISCURSO LÍRICO
Das Unnennbare’ figurou nas Primaveras Românticas, secção Poesias diversas, (…) sem variação alguma a respeito da lição dos Sonetos Completos, onde foi incluso no segundo período (1862-66). A palavra alemã do título significa «indizível», «inefável», e António Sérgio acrescenta: “ e não vemos muito forte razão para que o autor a preferisse a inominável, que empregou alhures, ou a inefável” (Sérgio, 1943: 168).
‘Das Unnennbar’, segundo a distribuição levada a cabo por António Sérgio foi colocado entre os que exprimem o desejo de evadir-se. Predomina um sentimento pessimista, um mundo indefinido, longínquo e vago. Exprime o desejo de evasão. O poeta luta entre o ideal e o real, sonho e a realidade, onde se poderá encontrar uma fusão da temática da traição amorosa com a da traição da vida. Como afirma Maria Manuela Gouveia Delille, no seu estudo “A Recepção Literária de H. Heine no Romantismo Português (De 1844 A 1871), “em relação à temática da traição, (…) ela ocupa, dentro da obra global de Antero, um lugar de relevo” (Delille, 1984: 189). Ainda sobre esta temática a autora esboçou um estudo comparativo entre Antero e Heine. A autora fala de afinidades psicológicas e estéticas entre Antero e o autor do Intermezzo. Não se limitando à imitação mais ou menos livre da lírica de Heine, Antero ‑ seguindo o seu próprio pendor filosófico e pessimista ‑ tende a generalizar a traição, a vê-la essencialmente como uma traição da existência ou do universo (Delille, 1984: 189).
A leitura que Antero faz da arte transporta em si uma visão mais otimista, considerando-a “a única coisa que ainda podia fazer saltar nos peitos todos os corações capazes de nobremente baterem por alguma coisa boa e bela”, acrescentando que “quem crê na Arte crê no belo, no bom, isto é no Amor e em Deus, e com estes elementos pode tudo perder-se mil vezes, que mil vezes será tudo salvo” (Antero de Quental, Cartas I (1852-1881), Ed. Comunicação/ Universidade dos Açores, 1989: pp.15-6).
Desde Primaveras Românticas, a obra de Antero de Quental enraíza nos modelos literários de Lamartine, Victor Hugo e, secundariamente, Heine e Baudelaire, em paralelo com o modelo ideológico de Hegel (Machado, 1996: 80). Não podemos deixar de mencionar a influência das ideias da ‹‹Filosofia do Inconsciente›› de Hartmann, um discípulo de Schopenhauer como o próprio Antero refere numa carta a Oliveira Martins (Antero de Quental, 1989: p.347).
Antero abre caminho para a Poesia metafísica nova em Portugal, sobre o qual Fernando Pessoa afirmou: “Com Antero de Quental se fundou entre nós a poesia metafísica, até ali não só ausente, mas organicamente ausente na nossa literatura” (Pessoa, 1986: pp.182-3).
Na obra de Leonel Ribeiro dos Santos, intitulada Antero de Quental Uma Visão Moral do Mundo, no capítulo Poesia e Filosofia em Antero de Quental, o autor refere que Fernando Pessoa lia a poesia anteriana como uma “poesia metafísica” (Cf. Santos, 2002:15), em Poemas Completos de Alberto Caeiro, escreve: “Não nos espantemos, que uma coisa é o poeta a outra o filósofo ainda que sejam a mesma .” (Fernando Pessoa, 1994:41). Leonel Santos acrescenta que recentemente Nuno Júdice, corroborando a declaração de Antero de que nele o filósofo se exprimiu largo tempo através do canto do poeta, vê no preferencial cultivo da forma poética do soneto o sintoma do espírito essencialmente filosófico (Cf. Santos, 2002: 15). Nuno Júdice aproxima Antero do seu contemporâneo Nietzsche.
No entanto, nem sempre esta questão da relação entre poesia e filosofia em Antero de Quental foi interpretada de forma linear.
Há, outras vozes que afirmam existir a persistência de um conflito no espírito de Antero, entre, por um lado, as exigências racionais do filósofo e, por outro, o sentimento do poeta. Sobre esta questão Oliveira Martins declara:
Na luta entre o pensamento de estoico e a imaginação metafísica, o seu espírito atribulado não conseguiu manter o equilíbrio, porque as suas exigências de crítico e filósofo (…) contrariavam ou contradiziam as suas visões de poeta. À maneira que a inteligência se lhe cultivava, que o saber lhe crescia, que a experiência o educava com mais de um caso doloroso ou apenas triste – apurava-lhe a imaginação até ao ponto de ver claramente o que para o comum dos espíritos são apenas conceções do entendimento abstrato. A sua poesia despe-se então de acessórios: não há quase uma imagem; há apenas linhas, mas essas linhas de estátuas incorpóreas têm uma nitidez dantesca (Oliveira Martins, 1984: LXXVII).
          
António Quadros escreve que foi com Antero que entrou na cultura portuguesa moderna a poesia filosófica (Cf. Santos, 2002: 16) tendo a sua poesia reflexos das leituras de Kant, Hegel e Hartmann, nomeadamente no que respeita ao vocabulário difícil e poeticamente árido. Sem dúvida que esta relação intercultural luso-alemã e a convergência reintegradora entre poesia e filosofia constitui um momento de alto relevo para o nosso estudo comparativo.
António Quadros chega à conclusão de que é impossível isolar, no espírito e na obra de Antero, a dimensão poética da dimensão filosófica, impossibilitando assim, de atribuir o primado à poesia ou à filosofia (Quadros, 1991: 549).
Antero confessa que sempre foi a inquietação do filósofo, a indagação da Verdade, o que o moveu, mesmo enquanto poeta.
Em Cartas, II, Antero escreve:
Nos mesmos poetas, era o fundo mais do que a forma que me atraía. Mas, na minha impaciência, na minha impetuosidade, saltava dali e a linguagem abstrusa, o formalismo, a extraordinária abstração de Hegel não me assustavam nem repeliam; pelo contrário: internava-me com audácia aventureira pelos meandros e sombras daquela floresta formidável de ideias, como um cavaleiro andante por alguma selva encantada à procura do grande segredo, do grande fétiche, do Santo Graal, que para mim era a Verdade, a verdade pura, estreme, absoluta…
Era uma grande ilusão, como todos os Santos Graais: mas essa ilusão me levou gradualmente da imagem para o pensamento, fez-me sondar o que toda a alta poesia pressupõe, mas esconde tanto quanto revela, e ‑ para quê encobrir esta minha velha e inveterada pretensão? ‑ fez de mim um Filósofo! Um filósofomanqué, talvez, porque, afinal, ainda não revelei ao mundo o meu Apocalipse, nem sei se chegarei a revelá-lo (…) Mas, em todo o caso, pretensão ou realidade, o certo é que o filósofo, que por muito tempo só se exprimiu pela boca do poeta, acabou por confiscar, por absorver, por devorar o pobre poeta, e agora que este acabou, impõe-se ao filósofo (para não passar por um assassino gratuito e aleivoso) a obrigação de ser gente por si só e de falar pela própria boca. A coleção dos meus Sonetos é o testamento do pobre poeta que acabou. Entro agora numa fase nova, e tenho jurado consagrar-me daqui em diante, todo e exclusivamente, ao trabalho de coordenação definitiva das minhas ideias filosóficas e, se tanto puder, à exposição metódica e rigorosa das mesmas. Afinal, aquilo de que o mundo mais precisa, nesta fase de extraordinário obscurecimento da alma humana, é de ideias, é de filosofia ‑ e a Poesia, voltando a adormecer nos recessos mais misteriosos do coração do homem, tem de ficar à espera até que o novo Símbolo se desvende e novos Ideais lhe forneçam um novo alimento, lhe insuflem nova vida (…) e então voltará a cantar. O mundo (este mundo) está velho: e a Poesia só está à vontade num mundo novo, jovem, enérgico (Quental, 1989: 748-749).
         
A filosofia é cada vez menos reconhecida pelo seu parentesco com a ciência e cada vez mais compreendida nas suas afinidades com a arte e a poesia, como emergente de uma mesma «poesia transcendental» («Die transcendentale Poesie ist aus Philosophie und Poesie gemischt. Im Grunde gefasst sie alle transcendentale Functionen, und enthält in der That das Transcendentale überhaupt.») (Novalis, 1981: 536).
Para Antero o soneto era considerado a forma lírica por excelência, como sendo a expressão do lirismo do coração. Antero conjuga inteligência e sentimento e uma vez trabalhado o sentimento pela inteligência e assim sublimado em ideia, o poeta deve procurar a forma capaz de conter e exprimir essa unidade de sentimento e ideia, num todo simples, orgânico e completo, sendo o soneto a forma poética que melhor realiza isso. Encontramos esta ideia no texto de 1861 «Nota a João de Deus» (Quental, Prosas, I, Coimbra: Imprensa da Universidade, 1923: 128-136).
Ainda sobre a teoria do soneto, Antero declara que vertera neles o melhor da sua filosofia, numa carta a Carolina Michaëlis, Antero diz que não procurou intencionalmente o soneto para se exprimir poeticamente, mas que essa forma arcaica e quase caída em desuso se lhe impôs naturalmente (Quental, 1989: 748-749).
Existe ainda um testemunho de Oliveira Martins que realça a simbiose de sentimento e ideia na poética pessoal de Antero:
Antero é sabiamente um poeta na mais elevada expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a inteligência mais crítica, o instinto mais prático, a sagacidade mais lúcida, que eu conheço. É um poeta que sente, mas é um raciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa. Inventa e critica. Depois, por um movimento reflexo da inteligência, dá corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou. […] Antero de Quental não faz versos à maneira dos literatos: nascem-lhe, brotam-lhe da alma como soluços e agonias. Mas, apesar disso, é requintado e exigente como um artista: as suas lágrimas hão de ter o contorno de pérolas, os seus gemidos hão de ser musicais. As faculdades artísticas geradoras da estatuária e da sinfonia são as que vibram na sua alma estética. A noção das formas, das linhas e dos sons possui-a num grau eminente: não já assim a da cor, nem a da composição. Aos quadros chama painéis com desdém e por isso mesmo tem horror à descrição e ao pitoresco. É artista no que a alma contém de subjetivo. A sua poesia é escultural e hierática, e por isso fantástica. É exclusivamente psicológica e dantesca: não pode pintar, nem descrever: acha isso inferior e quase indigno. (Martins, 1984: LXVII).
        
Não podemos deixar de realçar a grande proximidade entre a poesia e a filosofia na obra de Antero. O poeta entendia a poesia não como puro culto da forma, como cultivo da «arte pela arte» mas sim a poesia com uma missão revolucionária, uma poética comprometida com o destino moral da Humanidade, reconhecendo o carácter filosófico dos sonetos.
Meti neles [nos últimos sonetos] o melhor da minha Filosofia, à espera do dia em que a possa desenvolver largamente e em boa prosa (Quental, 1989: 802).
        
Como afirma Leonel Ribeiro dos Santos, tal como para Schiller e Schelling, também para Antero “a poesia constitui o saber originário da humanidade e é dela que se alimenta a especulação ao longo da história. A poesia antecipa a filosofia e a ciência e antes que o pensamento indague algo, já o coração o adivinhou ou o sentimento o pressentiu” (Antero de Quental uma Visão Moral do Mundo, temas portugueses, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002, p. 38). [Cf. «’Ideia poética’ e ‘ideia filosófica’. Sobre a relação entre poesia e filosofia na obra de Antero de Quental». http://www.centrodefilosofia.com/uploads/pdfs/philosophica/9/6.pdf]
Ao longo da nossa pesquisa encontrámos analogias entre o ponto de vista de Schiller e de Antero no que respeita à poesia. Em O Sentimento da Imortalidade, Antero expõe as suas ideias relativamente à antecipação da poesia relativamente à filosofia e à ciência, “ o que é ciência foi já poesia: o sábio foi já cantor: o legislador poeta: e a evidência, uma adivinhação, um admirável palpite, cujas profundas conclusões são ainda o espanto, e porventura o desespero das mais rigorosas filosofias.” (Quental, 1973: 248) antecipadamente já Schiller nas Cartas sobre a Educação Estética (9ªcarta) afirmara: «Antes que a verdade difunda a sua luz vitoriosa nas profundezas dos corações, a força poética capta já os seus raios e os cumes da humanidade resplandecerão, mesmo se nos vales ainda reinam as trevas da noite» [«Ehe noch die Wahrheit ihr siegendes Licht in die Tiefen der Herzen sendet, fangt die Dichtungskraft ihre Strahlen auf, und die Gipfel der Menschheit werden glanzen, wenn noch feuchte Nacht in den Talern liegt»] (Schiller, 1989: 594).
Em suma, a derradeira mensagem de Antero prende-se com uma procura incessante da virtude, da santidade, da renúncia ao egoísmo, do Bem (Cf. Santos, 2002: 47).
Universidade do Minho - Instituto de Letras e Ciências Humanas, dezembro 2008.
       
                   
        
                   
       

PESSIMISMO GERADO PELO CONTRASTE ENTRE A REALIDADE E O IDEAL
[…] Caracterizando-se por uma imaginação fértil e incontrolada que seduz e desencaminha, a quimera é representação de desejos que a frustração transforma em fonte de sofrimento, tornando os «sonhos dolorosos» pela consciência do fracasso gerado pela ilusão, exprimindo o sujeito poético o seu desgaste, cansaço e desilusão na sua «fronte pálida e cansada».
Marca romântica, a noite é terreno fértil para o devaneio e as divagações quiméricas do sujeito poético, que assume uma postura ansiosa e interrogativa, mas desde logo sabedor da inutilidade da sua demanda.O que quer saber é como identificar ou classificar a ideia que se lhe apresenta: «Que nome é que te dão os venturosos/No teu país, misteriosa fada!».Há uma oposição de sujeitos e de sentimentos: o sujeito poético autoapresenta-se num estado de dor, palidez, cansaço, ansiedade, enquanto noutro espaço longínquo e vago outros são venturosos, mas ambos ligados pela exaltação imaginativa e indagando do mistério. Essa oposição explicita-se no primeiro terceto, onde o sujeito poético lamenta a sua sina distinta da dos outros, porque não lhe é possível ver: há uma «luz baça» que torna iguais a aurora e o sol-posto, ou permanente, de tal forma que a luz que o dia traria, iluminando a razão e o pensamento para encontrar respostas às questões levantadas e para a demanda que o sujeito poético empreende, torna impossível alcançar o objetivo, a revelação do conhecimento, ou a luz não é suficiente dada a consciência da realidade experienciada como drama e tortura. É desta forma que não se pode dizer, não se sabe dizer, dar resposta ou nome ao que se procura ou interroga.10 Daí que o soneto termine com um pedido ou desejo: «Que nem a noite uma ilusão consinta!». A noite é momento favorável ao devaneio, ao sonhar acordado, e, dominando a quimera os sonhos do sujeito poético, logo ele, corrigindo ou excluindo, recusa a marca da individualidade, expressão única e específica de uma existência, isto é, rejeita a ilusão que o atormenta: nem aí (à noite) «possa ver-te o rosto!».
José Emanuel Pereira Guerreiro, A ideia da morte nos sonetos de Antero de Quental, Faro, Universidade do Algarve, 2008.
           
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(8) Cf. a análise dos sonetos de tendência noturna.
(9) Este ato de nomear, de dar nome, surgirá também, no século XX, na poética de Sophia de Mello Breyner Andresen: «De longe muito longe desde o início/O homem soube de si pela palavra/E nomeou a pedra a flor a água/E tudo emergiu porque ele disse». (Cf. «Com Fúria e Raiva» in Obra Poética. Lisboa, Caminho, volume III, 1991, p. 199). A palavra dá existência ao real; dar nome às coisas é conhecê-las e emprestar-lhes sentido, decifração do mundo, revelação que instaura e configura o mundo. O ato de descobrir é identificado com o nomear – é a palavra que confere o ser às coisas, segundo Heidegger e a ideia platónica de que aquele que conhece os nomes conhece igualmente as coisas.
(10) «A inefabilidade é mais, no caso romântico português, uma incapacidade de dar voz à intensidade do sentimento ou sofrimento.». Cf. Maria de Lourdes Ferraz. «Poética» (s.v.) in Helena Carvalhão Buescu (coord.). Dicionário do Romantismo Literário Português. Lisboa, Editorial Caminho, 1997, p. 429.
         




A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
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 [Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/02/20/das.unnennbare.aspx]
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