sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

JURA (Antero de Quental)



Two Faces
1994
Ceramic
25cm x 28cm x 21cm cm
Photographer: Adrian Flowers

            
          
JURA

Pelas rugas da fronte que medita
Pelo olhar que interroga ‑ e não vê nada...
Pela miséria e pela mão gelada 
Que apaga a estrela que nossa alma fita... 

Pelo estertor da chama que crepita 
No último arranco d'uma luz minguada... 
Pelo grito feroz da abandonada 
Que um momento de amante fez maldita... 

Por quanto há de fatal, por quanto há misto 
De sombra e de pavor sob uma lousa... 
Oh pomba meiga, pomba da esperança! 

Eu to juro, menina, tenho visto 
Coisas terríveis ‑ mas jamais vi coisa 
Mais feroz do que um riso de criança!
     
Antero de Quental
    
       
Um dos sonetos supremos da rejeição, pertencente ao segundo ciclo da poesia anteriana (1862-1866), é o que se intitula Jura. O sujeito da enunciação nele invoca sucessivamente várias instâncias através das quais se leem o questionamento do ser e do mundo, o desencontro do poeta com o ideal numa sociedade onde reinam a injustiça e o absurdo. Mas é sobretudo no final que o sujeito da escrita, após ter jurado por tudo o que ressuma sofrimento e desencanto, pronuncia a negação total do mundo e dos seus valores ao constatar o superlativo da crueldade no riso de uma criança.
Na primeira quadra está inteiro o Antero pensador, cuja inquietação, de natureza religiosa, procura em vão uma via redentora: a concentração da testa enrugada, o olhar que sonda espaços fechados («e não vê nada» ... ). A injustiça, o absurdo, consubstanciais à experiência humana, patenteiam-se nos versos terceiro e quarto em que a miséria se coliga com o destino insensato (a mão gelada) para apagar o ideal (a estrela que a alma fita).
Longe vem ainda o nirvana, miragem que há de rondar o Antero da maturidade e que estava então tão à moda, associada ao pessimismo da filosofia germânica. Mas pessimista já Antero então o é (sua face noturna, segundo Sérgio). Antes do desejo de tudo esquecer, de deixar para trás a vontade, o que impera aqui, neste soneto, expresso em todos os matizes lexicais da segunda quadra, é a indignação, é a revolta, ou um «ressentimento contra a vida», como o definiu Joaquim de Carvalho no seu ensaio A Evolução Espiritual de Antero (Lisboa, 1929, separata da Seara Nova, p. 41).
Os dois primeiros versos da segunda quadra («Pelo estertor da chama que crepita / No último arranco d'uma luz minguada...») representam uma situação limite, a do fracasso do Homem na busca do invisível, do insondável ou, como já o disse Eduardo Lourenço, noutro contexto, a demanda de uma religião-outra: «a da Consciência como expressão imanente do divino em nós» (Jornal de Letras de 11/06/1991, p. 9).
Nessa procura, que é toda a poesia de Antero, de um universo que não seja absurdo, onde a finalidade da grande maquinaria cósmica fosse a Liberdade, a plena interioridade do eu, identificada com o ideal, há um elemento de tonalidade cristã com muita força: a Dor, que irrompe, com o seu cortejo de superlativos semânticos, nos versos sete e oito ‑ «Pelo grito feroz da abandonada / Que um momento de amante fez maldita».
Essa dor, que no quarto e último ciclo da poesia anteriana se torna plangentemente impessoal e universal, abrindo caminho ao clima metafísico do espanto e da dor em Raul Brandão, serve aqui de antecâmara à aparição da morte. Esta – note-se – não será, neste contexto, a Mors Liberatrix, que, subvertendo, resgata, do célebre soneto dedicado a Bulhão Pato, aquela que propicia a iniciação, mas, ainda perto da visão ultrarromântica, o ponto extremo da dor, próximo da loucura («Por quanto há de fatal, por quanto há misto / De sombra e de pavor sob uma lousa...»).
A estes acentos nervalianos sucede-se a ironia transcendental do fecho do soneto: o último verso do primeiro terceto («Oh pomba meiga, pomba da esperança!») e o primeiro do segundo terceto («Eu to juro, menina, tenho visto») contrastam violentamente (e o transporte acrescenta ainda esse impacto) com os dois versos finais, carregados de verdade e do julgamento inapelável da espécie humana: «Coisas terríveis ‑ mas jamais vi coisa / Mais feroz do que um riso de criança!».
[…]
Ler mais: "Antero revisitado. Reflexão a partir de um soneto", Urbano Tavares Rodrigues. Congresso Anteriano Internacional – Actas [14-18 outubro 1991]. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1993.
        

         
A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/02/14/jura.aspx] 
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