quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

NO TEMPLO (Antero de Quental)


            



        
NO TEMPLO

I


O Povo há de inda um dia entrar dentro do Templo,
E há de essa rude mão erguer-se sobre o altar;
E há de dar de piedade um grande e novo exemplo,
E, ao púlpito subindo, o mundo missionar.

Heis de essa voz solene ouvir — na nave augusta
O canto popular ao longe soará;
E a pedra, carcomida às mãos do tempo e adusta,
Ansiosa palpitando, o hino escutará!

O Povo há de fazer-se, então, bispo e levita;
E será missa-nova a missa que disser:
E há de achar ao sermão por tema o que medita
Hoje confuso e está na mente a revolver.

Então, por essa imensa abóbada soando,
Há de correr o som de um órgão colossal;
E uma outra cruz no altar, outro esplendor lançando,
Há de radiar luz nova às letras do missal.

Dia santo há de ser esse de festa estranha!
Com a mão calosa mão o Povo toma a cruz,
Amostra-a à multidão e — Cristo na Montanha —
Missiona... e a fronte, entanto, inunda-se de luz!

Então o seu doce olhar será como o espelho
Doce, que o filho tem no olhar de sua mãe
E, tendo numa mão erguido o Evangelho,
Com a outra aponta ao longe o vago espaço, além...


II


Ninguém o dia sabe ao certo: entanto, vemos
Pelos sinais do céu que a aurora perto está...
Pelas constelações é que esse espaço lemos...
A estrela do pastor desmaia...Ei-lo vem já!

…………………………………………………………..

Sabeis que missa nova essa é que diz o Povo?
E o órgão colossal que, em breve, vai soar?
Qual é o novo altar e o Evangelho novo?
E o tema do sermão que às gentes vai pregar?

O Evangelho novo é a bíblia da Igualdade:
Justiça, é esse o tema imenso do sermão:
A missa nova, essa é missa de Liberdade
E órgão a acompanhar...a voz da Revolução!
       
Antero de Quental, 1864
Odes Modernas
        
        
*
        
        
        
O PENSAMENTO DE DEUS NAS ODES
      
A poesia que quiser corresponder ao sentir mais fundo do seu tempo, hoje, tem forçosamente de ser uma poesia revolucionária. Que importa que a palavra não pareça poética às vestais literárias do culto da arte pela arte? No ruído espantoso do desabar dos Impérios e das Religiões há ainda uma harmonia grave e profunda para quem a escutar com a alma penetrada do terror santo deste mistério que é o destino das Sociedades!
Antero de Quental, “Nota Final às Odes Modernas
[…]
As marcas da transformação social a que Antero se propunha, com as ideias que tinha de Justiça, se evidenciarão pelos temas tratados, enquanto que, pelo vocabulário por ele usado, se tornará patente a preservação de uma crença que, arraigada, permanecerá.
Essa temática vai se destacar nas odes, tornando evidente a ligação entre o humano e o divino, evidenciando o conflito pessoal de nosso autor:
O Povo há de inda um dia entrar dentro do Templo,
E há de essa rude mão erguer-se sobre o altar;
E há de dar de piedade um grande e novo exemplo,
E, ao púlpito subindo, o mundo missionar.
      
Ao lado de um vocabulário específico – nave, altar, canto, hino, bispo, missa, sermão, abóbada, órgão, cruz, esplendor, missal – parece-nos haver uma variação do apostolado que, de religioso, passa a social. A liturgia é a mesma: a expressão verbal no-lo atesta, mas tudo é outro.
O Antero de “espírito naturalmente religioso” permanece, tendo, apenas, sofrido uma metamorfose na maneira de ver o mundo:
Ninguém o dia sabe ao certo: entanto, vemos
Pelos sinais do céu que a aurora perto está...
Pelas constelações é que esse espaço lemos...
A estrela do pastor desmaia...Ei-lo vem já!
       
Essa estrofe, de conotação política, anuncia-nos o dia, bem próximo, em que o povo invadirá o templo para dizer a “missa nova”, cujos temas serão a Igualdade, a Justiça, a Liberdade, cantados pela voz revolucionária das ruas:
Sabeis que missa nova essa é que diz o Povo?
E o órgão colossal que, em breve, vai soar?
Qual é o novo altar e o Evangelho novo?
E o tema do sermão que às gentes vai pregar?

O Evangelho novo é a bíblia da Igualdade:
Justiça, é esse o tema imenso do sermão:
A missa nova, essa é missa de Liberdade
E órgão a acompanhar...a voz da Revolução!

Sua chegada a Coimbra e o encontro com as novas filosofias provocaram nele, sem dúvida, uma mudança que trouxe como consequência uma postura diversa diante do mundo: daí em diante surge uma desordem consciente que tentará romper a relação com o estágio inicial da fé indubitável.
À centralização dada à figura de Deus no período anterior, sucede-se uma descentralização, provocando uma divergência interna, o que acarretará a redução da crença anterior e nunca sua eliminação total. O que se acentua, nesse momento, é uma transposição do núcleo original para uma área social que, passando a ser vista com a mesma Verdade de todas as suas crenças, vai fazer, mais uma vez, brilhar a voz do poeta Antero de Quental.
        
“O pensamento de Deus nas Odes” in Antero de Quental: Uma trajetória com Deus,
 Helen Araujo Mehl. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, setembro de 2003, pp. 51-52.
        
        
*
        
        
[…] Engajado no sonho socialista de mudança (via influência de Proudhon), o poeta aceita, em 1880, o convite para presidir o Partido Socialista, afastando-se dos preceitos republicanos. Socialismo este que não pode ser entendido como militância política, mas essência do ser que ele era, isto é, segundo Eduardo Lourenço, em ensaio de 1979, Antero ou o socialismo como utopia:
Para Antero, a ideia nova, o socialismo como Revolução dos tempos modernos, como o cristianismo fora a do mundo antigo, é antes de tudo o triunfo da Ideia, isto é, a assunção de um sentido absoluto do destino histórico da humanidade em termos de Consciência. Ou melhor ainda, de autonsciencialização. (LOURENÇO, Eduardo. Poesia e Metafísica: Camões, Antero e Pessoa. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1983, p. 148)
        
eis, ao seu modo, o socialismo e o cristianismo, assim versificado nestas quadras do poema de 1864, No Templo:
O Povo há de inda um dia entrar dentro do Templo,
E há de essa rude mão erguer-se sobre o altar;
E há de dar de piedade um grande e novo exemplo,
E, ao púlpito subindo, o mundo missionar.

Sabeis que missa nova essa é que diz o Povo?
E o órgão colossal que, em breve, vai soar?
Qual é o novo altar e o Evangelho novo?
E o tema do sermão que às gentes vai pregar?

O Evangelho novo é a bíblia da Igualdade:
Justiça, é esse o tema imenso do sermão:
A missa nova, essa é missa de Liberdade
E órgão a acompanhar...a voz da Revolução!
      
no tom do que clama, a voz firme do poeta, na certeza ideológica e missionária das verdades que ‘prega‘, em sua oratória a ênfase da atitude que deve ser tomada, estilisticamente representada nas imposições desejadas: “há de” e nos verbos: entrar, erguer, dar, subir, dizer, pregar. Nas palavras em maiúsculas: Templo, Povo, Evangelho, Igualdade, Justiça, Liberdade e Revolução, a personificação da utopia socialista, cujos elementos litúrgicos, não simplesmente católicos, mas cristãos, lhe serviam de ponte para o discurso poético e revolucionário: altar, púlpito, missa, órgão, sermão, bíblia. […]
Antero, oriundo de uma família católica, ainda que a religião enquanto símbolo de uma instituição cristã tenha sido sempre um paradoxo com a sua fé, que desde menino descobriu por meio da biblioteca do tio, Filipe de Quental, inúmeras leituras científicas e filosóficas que o levaram a questionar as ‘verdades‘ apregoadas. Reflexões e anseios que mais tarde, amadurecido nas leituras, mas eternamente inquiridor, poetizaria no soneto Ignoto Deo […].
         
Neilton Limeira Florentino de Lima. Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 2007, pp. 58-59.
          
         
A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER:
      

Proudhon e o socialismo anteriano“, Acílio da Silva Estanqueiro Rocha. Revista Portuguesa de Filosofia. Universidade Católica Portuguesa - Faculdade de Filosofia de Braga, 1991.
    
     


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/02/12/no.templo.aspx]
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