quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

BICHO DA TERRA - cântico em honra de Miguel Torga

    
      
     
       
     
BICHO DA TERRA
     
“Nada há de permanente debaixo do sol” (Eclesiastes)
     
     
Sei do condão da mente e do condão da carne
sobre a mente. O sexo tangível da idade.
Eu sou a veloz condução dos congéneres bichos
que são da terra, que se agitam nos telhados
e desviam nossos olhares para lá das paredes sujas.
Atrevo e atiro para o chão as trevas e as glórias altas
faço e desfaço altos silos, combatentes reprogramações –
partes de um mesmo todo indefinido e inteligente?
Tudo é aluído na terra e será conforme a dor.
Modulo no vazio. Nem uma lápide, um livro ou uma oração
perdurarão no tempo.
É limitada a rede com que um homem se diz
e, no entanto, deseja
cortada rede com que principia
cortados fios que tece.
Deixarei estas palavras na crueza do corpo
num amplo quarto de um manicómio ou de uma prisão.
     
José Maria de Aguiar Carreiro
     
     
     
Nabucodonosor II, Rei de Babilónia. Pintura de William Blake, c. 1805. 
                 
           
           
O FRACO MOMENTO DA VIDA
     
Pode um homem querer mais do que é
ou apenas abarcar o prazer momentâneo
imaginar o belo, o infinito
     
pode um homem supor ser desejado por alguém
tão igual ao desejo que nem se aperceba da figura
do olhar e das palavras de uma casa que não é a sua.
Como olhar-se ao espelho, ver a pele envelhecida e dizer sou eu
quando estão as sensações fora do alcance da pele
dir-se-á velho? velho
que palavras inventará para esconder as falhas da carne
o bloqueio do desejo pela mente cansada
augura ele uma decrépita e eterna valia?
     

José Maria de Aguiar Carreiro

                      [Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2007/01/17/bichodaterra.aspx]
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