quinta-feira, 13 de maio de 2010

SIGNO INSULADO

    
Natália Correia, Furnas, 1975.

    
    
MÃE ILHA
    
Limão aceso na meia-noite ilhada,
O relógio na torre da Matriz
Põe o ponteiro na hora atraiçoada
Da ilha que me deram e eu não quis.
    
Mas, ó de alvos umbrais Ponta Delgada!
Meu prefixo de pastos, a raiz
É de calhau e de onda encabritada:
Um triz de hortênsia e estala-me o verniz.
    
Atamancada em fama a tosca ilhoa,
Só na praça e no prelo é de Lisboa,
Seu gesto, cãibra de garça interrompida.
    
No mais, osso campesino e duro
É fervor, é fogo e fé que juro
Ao lume e às flores da Graça recebida.
    
Natália Correia (1923-1993), Sonetos românticos,
Lisboa, Edições O Jornal, 1990.
    
    

Natália Correia (1923-1993), poeta, escritora, natural da ilha de S. Miguel residiu em Lisboa onde faleceu.
    
         
TÓPICOS DE ANÁLISE
  • Segundo a concepção de Natália Correia, esta composição poética é um “Soneto Romântico”.
  • O conceito nataliano de “Mátria”.
  • “ilhoa” e “Lisboa” opõem-se e atraem-se.
  • O sujeito poético, por contiguidade ou proximidade, espelha ambos os espaços (“ilhoa” e “Lisboa”).
  • A conjunção adversativa “Mas” (verso 5) marca uma dualidade do sujeito poético entre oquerer (1ª estrofe) e o ser (2ª, 3ª e 4ª estrofes), pelo que a escrita do poema corresponde a uma autoconsciencialização, aceitação e superação desta dualidade interior.
  • A “Graça” (verso 14) corresponde a uma força superior (pagã/cristã?) de que o sujeito poético foi, ao longo da vida, receptáculo passivo.


         
José Carreiro
       
TEXTOS DE APOIO
         
         
Logo ao começar, lê-se em epígrafe “Visando a unidade,/ o soneto é o ouro/ da culminação da Obra Poética.”
O soneto, forma que já muito dissera a Florbela Espanca, Antero de Quental, Camões ou Bocage, é o assunto central do primeiro capítulo deste livro. Quatro sonetos sobre sonetos, “Ars Aurifera”. Interessante será citar precisamente o início “Do soneto que sémen e ovo inclui”, ou seja, o soneto é aqui chave por representar o uníssono do masculino e do feminino, esse “Misterioso nó que em sacra escrita/Cismos e abismos une.”
A outra parte do título diz respeito ao “romântico”. À vista desarmada poder-se-ia pensar que se trata de um livro de sonetos de amor. Mas a palavra “românticos” assume aqui um outro significado, englobando também este primeiro: a apropriação de uma linguagem mais ligada à poesia romântica de Garrett, por exemplo. E, ainda que continuemos a sentir um forte eco do surrealismo e até de um certo simbolismo, aqui, a linguagem é realmente outra, mais interior, menos imagética, mais psíquica. Não é uma característica que se aplique a todos os poemas, mas à maior parte.
[…]
Mas, sendo este um espírito de reflexão e de derradeira retrospectiva, não é de estranhar que o terceiro capítulo, “Mãe Ilha” vá resgatar as figuras marcantes não na obra poética de Natália, mas em toda a sua obra, precisamente a Mãe e a Ilha. Há que não esquecer que Natália era açoreana de origem e que foi criada pela mãe, pianista, uma vez o seu pai teria fugido para o Brasil. Aliás, o quarto soneto tem como subtítulo “sempre que ouço piano”, referência inequívoca á figura da Mãe: um e outro são indissociáveis nas obras de Natália.
     
         
         
*
         
         
Raízes geográficas e regionalistas, bem como uma recuperação dos valores do passado, são marcas distintivas de "Mãe Ilha" (p. 23), transfiguração simbólica de um telurismo insular.
Composta esta parte por cinco sonetos, evoca o pentágono em que se inscreve o homem, o sexo ao centro, assegurando a continuidade e também o términus de uma evolução biológica e espiritual de harmonia e de equilíbrio.
Uma onda de magia, um certo secretismo envolve esta "Mãe Ilha"; aqui convoca sentimentos simultaneamente carnais e espirituais, num jogo de ocultação e desvendamento indelevelmente perceptível; da carne se intui o espírito; da dimensão insular se intui a universal. De uma comunhão panteísta se depreende a por demais conhecida imagem da "Mátria", da ilha, confessa Natália, "que me deram e eu não quis" (p. 23). Mas esta rejeição, enforma, acima de tudo, o eterno retorno, porto de abrigo para onde convergem todas as forças centrípetas e de onde divergem as centrífugas que levam a autora a afirmar: "Ó mãe completa da manhã ao ocaso, / Pastora dos meus sonhos, minha haste." (p. 24). Exausta e ferida, nela encontra o abrigo "de mãe esperando". "Ilha de fadas", onde "Reinava o Amor e não havia Rei." (p. 25). Ilha "da infância oclusa", onde a música do piano impunha a plenitude e a harmonia com a vida cósmica, tornando-se mediadora do divino, em busca da perfeição.
     
“Entre Eros e Thanatos (em torno de Sonetos Românticos de Natália Correia)”, Isabel Vaz Ponce de Leão in Natália Correia 10 anos depois, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2003, p. 63http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/7039/3/nobracompletanatalia000119637.pdf
         
         
SUGESTÕES DE LEITURA
        
       
► SIGNO INSULADO     
   
o sofrimento está dentro da ilha
o sofrimento é da ilha
a ilha está no fundo dum poço
no fundo dum poço sofre uma ilha     
  
o sofrimento está dentro do poço
o sofrimento é do poço
o poço está no fundo da ilha
no fundo da ilha sofre um poço    
  
o poço secou no fundo da ilha
o sofrimento é a secura da ilha
a secura está no fundo dum poço
no fundo dum poço secou uma ilha    
  
o mar está todo por fora da ilha
o mar é quanto não cabe na ilha
o mar é quanto não cabe no poço
no fundo do mar morreu uma ilha    
  
enlouquecer é morrer numa ilha
na ilha morta no fundo do mar
no poço secura por dentro da ilha
no fundo do poço correcto lugar
    
José Martins Garcia (1941-2003),
Invocação a um poeta e outros poemasAngra do Heroísmo, Col. Gaivota, 1984
    


José Martins Garcia nasceu na Criação Velha, Ilha do Pico, a 17 de Fevereiro de 1941. Professor, ensaísta, escritor e poeta. Faleceu em Ponta Delgada, em 2003.


Inquietação insular e figuração satírica em José Martins Garcia, Urbano Bettencourt. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 2013.


    
    


           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2010/05/13/ilha.aspx]
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