segunda-feira, 2 de setembro de 2013

PAR DEUS, COITADA VIVO (CANTIGA DE AMIGO)

                
                  
A ausência do amigo (possivelmente por estar de serviço ao rei) desespera a menina que ameaça soltar os cabelos e largar as ofertas dele como forma de mostrar que está desimpedida.
              
            

                    
                
          
Par Deus, coitada vivo,
pois non ven meu amigo;
pois non vem, que farei?
meus cabelos, con sirgo
eu non vos liarei.

Pois non ven de Castela,
non é viv’, ai mesela,
ou mi-o detem el-rei:
mias toucas da Estela,
eu non vos tragerei.

Pero m’eu leda semelho,
non me sei dar conselho;
amigas, que farei?
en vós, ai meu espelho,
eu non me veerei.

Estas doas mui belas
el mi-as deu, ai donzelas,
non vo-las negarei:
mias cintas das fivelas,
eu non vos cingerei.
            
Pêro Gonçalvez Portocarreiro
          
Fontes manuscritas:
BN 918 / V 505
          
Audição da cantiga:
             
Glossário e notas (©2011-2012 Littera – FCSH) :
v.4: sirgo - fio de seda
v.5: liar - ligar, atar
v.7: mesela - miserável, desgraçada
v.9: Estela - Povoação de Navarra, a oeste de Pamplona, e em pleno coração do reino navarro (aqui indicará um tecido aí fabricado)
v.11: Ainda que eu pareça alegre
v.12: conselho - remédio, solução
v.16: doa - dádiva, presente
v.18: negar – esconder
v.19: As cintas (faixas ou cintos) eram presentes habituais entre namorados (bem como as toucas, antes referidas)
           
Descrição dos processos formais de versificação:
Cantiga de Amigo
Mestria
4 estrofes singulares quanto à rima e uníssonas quanto à rima b: 6’a   6’a   6b   6’a   6b
Todas as estrofes são capdenals (v. 5)
Palavra-rima: «que farei»
              
Leitura:
            
Na cantiga “Par Deus, coitada vivo”, a menina espera por seu amigo (namorado), queixando-se às confidentes por ele não voltar. Num dos versos percebe-se o motivo da sua ausência: “ou mi-o detem el-rei”.
A menina, apesar de ter recebido presentes (dõas) que indicam compromisso ‑ o sirgo (fita) e a touca ‑, perante a demora do seu amigo, fica indecisa, colocando a possibilidade de romper com a relação caso ele não apareça, nomeadamente quando diz que não se enfeitará com os presentes que dele recebeu, dando, assim, a entender que está desimpedida.
Para continuar a leitura desta cantiga, consulte a orientação didática que consta em professoraelianatedesco.blogspot.pt.
                
                
CENA DE AMOR NA IDADE MÉDIA
                
Sinto uma paixão extrema por esta cantiga de amigo de Pero Gonçalves. Penso um dia dedicar-lhe todo um ensaio. Ou, talvez, tudo acabe como agora em considerações motivadas por interesses afins.
Há, no poema de Echevarría, um tempo futuro em que congelados, feito imagens, havemos de ficar olhando a barra do horizonte. Um tempo sem expectativas? Espectadores sem futuro? Não, se a figura da morte presente no poema não for reduzida à ideia de fim. Alguém, como quem mexe um botão ou abre um livro, pode vir a nos ligar, mantendo o "espaço aberto".
No fundo, é isto que me encanta há muito nesta cantiga medieval.
Idade Média, tempo em que amar seguia os rigorosos padrões da "arte de trobar", segundo sobretudo os preceitos da cantiga de amor, em que ele, o amador, mesmo que coitado, era o autor da sua própria dor de amor, o senhor da sua "coita". Amar à maneira de amigo era ele fazer uma cantiga para ela, a amiga, que ora era a filha "velida" a driblar a censura da mãe ou o olhar cúmplice da ama; ora, uma pobre coitada a carregar sobre o próprio corpo as leis de um Estado em que Deus e El-Rei eram os senhores absolutos da lei e da grei.
E é esta última, a coitada, a que fala às amigas na cantiga de Pero Gonçalves.
O que, afinal, me encanta nessa cantiga?
Simplesmente isto: um corpo de mulher que se desnuda dos excessos das convenções do amor.
Mas esse corpo é ele mesmo um objeto extraordinário, já que dá a ver para muito além da sua nudez. "Fremosa e não segura". Feliz ou desgraçada? Pouco importa. A resposta mais justa tem de levar os dois estados em conta. É toda ela um corpo acumulativo, pois quanto mais se despoja dos objetos de adorno - as "dõas", ou seja, as prendas do enxoval que asseguram a promessa de casamento do soldado-cavaleiro a serviço da pátria - mais se cobre dum vestido de talho mais justo e rigoroso, como se fosse um estranho adereço, o avesso da liberdade nua e crua. E, nesse sentido, apresenta-se a hipótese do trabalho interpretativo desta comunicação: "Dõas mui belas", significam, em suma, que, desde o princípio da literatura, a qualidade do amor é um valor quantitativo.
Sim, é isto, sendo mais que isto. Pois, quanto mais se afasta do recato que guarda a "prez" impulsionadora do cantar de amor, mais a amiga se fará objeto de escárnio e maldizer, o que significa, no âmbito do poético, um sujeito digno de deslouvor, ou mais tragicamente ainda, no nível da censura imposta à ordem social, poder vir a ser a imagem da bela jovem que pelo amor-paixão vai-se transformando até chegar, louca de amor, morta por amor, à figura horrenda de si, a metamorfose limite: a feiticeira.
Optando por não se reconhecer no espelho - numa atualíssima dualidade em que o leitor não sabe se se trata do espelho ele mesmo ou das outras donzelas, reflexo especular da virgindade - a jovem põe a nu, interpelando-o, "o aparato verbal e a sociedade a que serve" (L. C. Mímesis Lima, Desafio ao Pensamento. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000, p. 334).
Preferimos lê-la assim, "espaço aberto": um corpo generosamente fraturado que se projeta para o futuro; uma referência não abolida, mas fortemente abalada nas suas formas sociais e culturais. Ao fim e ao cabo, mesmo que o que mude seja o "género" de composição em que ela venha a ser cantada ou, à força, contra a sua vontade de potência, lhe seja reservada a fogueira da Santa Inquisição, essa mulher está a caminho de uma outra idade. Uma alteridade.
Toda a beleza será louvada assim como toda a nudez será castigada? (Tempo houvesse, seria interessante uma comparação entre a cantiga de amigo de Pero Gonçalves, a "Balada apócrifa" de Luiza Neto Jorge e a "Inês de manto" de Fiama Hasse Pais Brandão: "Olhai os lírios do campo/meninas de saia rodada/íris de teias de aranha/desvendam o mar nas searas [...] // Os soldados em manobras/têm noite por espingarda/Colhei os lírios do corpo/meninas de saia travada" (Jorge, 1993:46); "Teceram-lhe o manto/para ser de morta/assim como o pranto/se tece na roca [...] // O vestido dado/como a choravam/era de brocado/não era escarlata//Também de pranto/a vestiram toda/era como um manto/mais fino que roupa", F. H. P. Brandão, Obra Breve. Lisboa, Teorema, [1991], p. 31-2).
Não sei. Sei que vem se aproximando uma outra imagem no espelho. Descabelada, destoucada, desagrilhoada, logo, sem rosto. Nua em pêlo, portanto? Melhor, em cabelo. Essa pode ser a expressão movente da imagem dessa donzela como representação-efeito de um sujeito fraturado em trânsito na literatura portuguesa. Seja o exemplo das mães desesperadas pela partida dos filhos no início da conquista das Índias, n'Os Lusíadas ("Qual em cabelo: 'Ó doce e amado esposo'", IV, 91,1), seja o exemplo dos desempregados do fim das Índias, os comerciantes aborrecidos, em "O sentimento dum ocidental" de Cesário Verde ("Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!", J. F. Silveira, Cesário Verde: Todos os Poemas. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995, p. 117). Cesário, um poeta que está na zona de turbulência desse roteiro e que tem tudo a ver com a questão proposta por este Seminário. Cenas da vida moderna e mundialização da cultura: "Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo".
O mundo? "Que mundo! Coitadinha!" (Silveira, 1995:95). Talvez o poeta de "Contrariedades" respondesse assim à questão, ele, que meditando sobre a Idade Média e a sociedade mercantilista, revelou-se um exacerbado analista de corpos mortificados pelo trabalho no espaço aberto pela modernidade, em que assistia ao declínio da aura e do sentido do belo. ("Eu que medito um livro que exacerbe,/Quisera que o real e a análise mo dessem" são versos hoje célebres de "O sentimento dum ocidental".)
                
Jorge Fernandes Da Silveira, Revista SEMEAR 6, Rio De Janeiro, 21 De Novembro De 2000
                
                
INTERTEXTUALIDADE
                
Um exemplo de uma tendência de retoma intertextual […] é constituído pelo poema «Desalento» de João de Deus, que ostenta o sintomático subtítulo de «Retoque da lírica DV do Cancioneiro da Vaticana». O autor de Campo de Flores reescreve o poema de Pêro Gonçalvez de Portocarreiro, atualizando a sua linguagem e aproximando-o transitivamente dos leitores. Esta reelaboração poética reativa semanticamente a composição multissecular, abrindo-lhe novos horizontes interpretativos:
                
DESALENTO

Trago uma cisma comigo:
Não torna o meu terno amigo!
Triste de mim, que farei!
Cabelo, já não te ligo…
Nunca mais te ligarei!

Lá se finou em Castela…
Vede que desgraça aquela!
Ou lá mo detém el-rei!
Toucas da serra da Estrela,
Já nunca mais vos porei!

Se um ar alegre assemelho,
Ai amigas, sem conselho
Nem juízo, que farei!
Já me não assomo ao espelho…
Nem jamais me assomarei!

Ricas prendas! Todas elas
Me deu ele: sim, donzelas,
Que não vo-lo negarei!
Ah meu cinto de fivelas,
Nunca mais te cingirei!
                
João de Deus, Campo de Flores, 1893
                
Como vemos, João de Deus, através da paráfrase, manteve-se muito próximo do arquétipo de Portocarreiro, conservando a estrutura estrófica e rimática e preservando, ao nível sémico e temático, o seu conteúdo, atualizando apenas alguns vocábulos (mesela/desgraça; leda/alegre; doas/prendas;).
                 
Un Chant Novel: A inspiração (neo)trovadoresca na poética de Jorge de Sena, Sílvia Marisa dos Santos Almeida CunhaUniversidade de Aveiro- Departamento de Línguas e Culturas, 2008, pp.
                 
                 
João de Deus de Nogueira Ramos nasceu em São Bartolomeu de Messines, Algarve, no dia 8 de março de 1830 e faleceu em Lisboa no dia 11 de Janeiro de 1896. Frequentou o curso de Direito na Universidade de Coimbra e, acabado o curso, dedicou-se ao jornalismo e à advocacia em Coimbra, Beja, Évora e Lisboa. Ligado inicialmente ao ultra-romantismo, depressa o abandonou seguindo uma estética muito própria. As suas poesias foram reunidas na colectânea Campo de Flores, publicada em 1893, incluindo-se nesta duas obras anteriores: Flores do Campo e Folhas Soltas. Dedicou-se à pedagogia, resultando daí a Cartilha Maternal, publicada em 1876 e tendo como fim o ensino da leitura às crianças.
                 
                 
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 Poesia trovadoresca galego-portuguesa: síntese didática
 Cantigas medievais galego-portuguesas – projeto Littera: a presente base de dados disponibiliza, aos investigadores e ao público em geral, a totalidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses, as respetivas imagens dos manuscritos e ainda a música (quer a medieval, quer as versões ou composições originais contemporâneas que tomam como ponto de partida os textos das cantigas medievais).

► Programa televisivo "Neste lugar onde... a poesia dos trovadores" da série Um mais um igual a um. Natália Correia, Carlos Alberto Vida, RTP, 1981.
               

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/02/par.deus.coitada.vivo.aspx]
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