sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CONTEMPLAÇÃO (Antero de Quental)


Nadia Moro
         
          
CONTEMPLAÇÃO

Sonho de olhos abertos, caminhando 
Não entre as formas já e as aparências, 
Mas vendo a face imóvel das essências, 
Entre ideias e espíritos pairando... 

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando, 
Visões sem ser, fragmentos de existências... 
Uma névoa de enganos e impotências… 
Sobre vácuo insondável rastejando... 

E dentre a névoa e a sombra universais 
Só me chega um murmúrio, feito de ais... 
É a queixa, o profundíssimo gemido 

Das coisas, que procuram cegamente 
Na sua noite e dolorosamente 
Outra luz, outro fim só pressentido... 
Antero de Quental
        
           
              
ANTERO E A POESIA DE IDEIAS
[…] Neste último texto, [«Contemplação»,] a ideia despe-se da sua função alegórica e do seu trajeto doutrinário, para ser puramente uma ideia de Poesia, isto é, a afirmação do abstrato e do musical pela negação do mundo e pela negação do próprio conceito condutor e da sua manifestação apreensível corno som: «o profundíssimo gemido» do «Mundo», «fumo ondeando, visões sem ser». A paragem confunde-se com a inexistência das coisas, porque a sua busca, que persegue ainda e sempre o absoluto, é um «sonho de olhos abertos caminhando», e é portanto o processo, a narrativa perdida, que se fixa numa contemplação ideal que só a linguagem pode vincular, e, de forma excecional, o discurso poético. As ideias são aqui assimiláveis aos espíritos, e «pairam», na hesitação da interrogação e da evanescência, na perda da temporalidade que no entanto se configura entre a saudade do objeto que progressivamente recua, inatingível, lamentosamente buscando ele-próprio o seu fim de alteridade luminosa e de Ideal perseguido. Como Orfeu, ele canta uma perda irreversível; mas olha em frente, e o seu canto transmite-o às coisas, e faz delas o sinal da busca incessante que a morte não detém, porque o outro que se busca está também em si, e é matéria da interrogação. Assim, a Ideia pode ser plural, porque é aspiração de uma realidade inatingível, e por isso múltipla nas várias formas entrevistas, ou nos caminhos que para ela se ensaiam. A forma monológica do soneto encerrou, na poética anteriana, essa deriva conceptual que, de Platão a Hegel, delineia um percurso por que passa o texto romântico-simbolista, e que em Antero de Quental se enriquece pela descoincidência dos tempos de criação poética, fazendo da sua figura literária um mito ambíguo e incontornável, um vulto manifesto mas obscuro que a dificuldade do conhecimento (objetiva ou subjetiva) sempre, apesar de tudo, engrandece.
Maria Alzira Seixo, “Antero e a poesia de ideias
 in Congresso Anteriano Internacional – Actas [14-18 outubro 1991]. 
Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1993.
         
         
         
Nadia Moro
          
         
O EVADIR-SE
Em “Oceano Nox”, continua Antero a ouvir a “voz interior” que faz ascender a um plano mais elevado – o da consciência – os elementos do mundo visível. Em sua busca de respostas, o mar, o vento, o Céu procuram-nas tanto quanto ele: “Que inquieto desejo vos tortura, / Seres elementares, força obscura? / Em volta de que ideia gravitais?” A resposta não vem, mas se percebe o “Inconsciente imortal” por “Um bramido, um queixume, e nada mais...”
Complementando a ideia do soneto anterior, em “Contemplação” são as coisas que procuram explicações, ideia já surgida em “Lacrimae Rerum”: “É tudo, em torno a mim, dúvida e luto; / E, perdido num sonho imenso, escuto / O suspiro das coisas tenebrosas...”
Se a consciência da separação entre o humano e tudo o que se situa “em torno”, mas também acima e para além dele é aquilo que preside a esta relação [...], convém notar que essa consciência se produz numa forma de vida interior – o sonho – e que, portanto, é esta [...] a forma racional de ser consciente. (GONÇALVES, 1981, p. 49/50)
      
A ideia do sonho (“Sonho de olhos abertos, caminhando...”) é, para Antero, o meio pelo qual se cria uma relação entre o “eu” (sujeito) e as “coisas tenebrosas” de “Lacrimae Rerum”, ou as “Visões sem ser, fragmentos de existências...”, de “Contemplação”: o poeta, agora, também faz parte das “coisas”: “Entre ideias e espíritos pairando...”, Antero procura, entre as “coisas”, “[...] cegamente / Na sua noite e dolorosamente / Outra luz, outro fim só pressentido...”
Esse misturar-se entre as “formas incompletas” traduz em Antero sua doutrina pampsiquista que, juntando o naturalismo ao espiritualismo, terá em “Redenção” o seu momento supremo: “E eu compreendo a vossa língua estranha, / Vozes do mar, da selva, da montanha... / Almas irmãs da minha, almas cativas!”
Da exterioridade das aparências do “mundo ante mim” passa ele à exterioridade das pseudoideias [...]: do realismo das “névoas” percecionadas transita para o realismo dos “inteligíveis”; paira entre “ideias” e entre “espíritos”, – como objeto entre objetos, como coisa entre coisas; [...] (SÉRGIO, s.d., p.47)
    
         Para Antero, nas palavras de Oliveira Martins, “no mundo inorgânico existe um espírito que se agita nessas formas, buscando libertar-se” (SÉRGIO, 1956, p.295), inclui-se a teoria segundo a qual, estaria presente o pampsiquismo tão pregado por ele. […]
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, setembro de 2003, pp. 83-84.


A angústia existencial. Figurações do poeta. Diferentes configurações do Ideal.
PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER:
      

   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/02/21/contemplacao.aspx]
Enviar um comentário