terça-feira, 27 de setembro de 2016

Na minh’Alma há um balouço











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O RECREIO

Na minh’Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar –
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

– E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

– Cá por mim não mudo a corda
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

– Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Oiro, 1937


Os versos 3 e 4 correspondem à primeira fala, em discurso direto, da criança. Portanto, o travessão no final do segundo verso e o travessão no início do quinto verso demarcam o início e o fim da fala do menino de bibe.




Esgarçada – desfeita.
Folia – alegria, festa, dança, farra.





Estopada – maçada.

Indez -criança.








AUDIÇÃO DO POEMA:
Produção e voz de Luís Gaspar, Estúdio Raposa - audiocast, 30-01-2015

ANÁLISE FORMAL DO POEMA:
O poema é composto por seis estrofes, seguindo o esquema quadra + dístico. A rima é cruzada na quadras (abab) e em cada dístico há sempre um primeiro verso branco (versos 5, 11 e 17) e um outro que rima com os segundo e quarto da quadra imediatamente precedente, seguindo, pois, um esquema do tipo cb. Todos os versos têm sete sílabas métricas (heptassílabo ou redondilha maior).

PROPOSTA DE COMENTÁRIO DE TEXTO:
Elabore um comentário global do texto que acabou de ler, focando os seguintes tópicos:
  • significados da imagem que o poema desenvolve e sua ligação com o título
  • presença de elementos narrativos
  • registo de língua
  • recursos estilísticos e sua expressividade
  • ritmo e composição formal

CENÁRIO DE RESPOSTA:
Integrados no comentário global do texto, devem ser focados os seguintes tópicos:
  • Significado do “balouço” como imagem desenvolvida no poema e sua relação com o título
A visualização da Alma,·como sede·de um "balouço" (instabilidade), "à beira·dum poço" (situação de risco), com a corda “esgarçada” (perigo iminente) e utilizado por uma “criança” (inconsciência do perigo), compõe uma imagem que significa uma maneira insensata, insegura, ‘louca’ de estar na vida e a descrença na validade de uma atitude ponderada.
O título aponta para uma dupla dimensão: descritiva (o balouço, o menino a brincar) e irónica (a recusa da vida adulta, a aceitação da morte prematura).
  • Presença de elementos narrativos
A imagem nuclear do poema é desenvolvida como quem conta uma história, com as categorias próprias da narratividade: espaço – a “Alma” com seu “poço” e seu “balouço”; tempo – “sempre”, “um dia”; ação – “a balouçar”, “a brincar”; personagens – o “menino de bibe”; narrador.
Este caráter narrativo do desenvolvimento da imagem cria distanciação, sugerindo o desdobramento do “eu”.
  • Registo de língua
Marcas de oralidade e de registo familiar: frases interrogativas, inacabadas, e o uso do presente do indicativo, simulando a instabilidade do discurso oral; expressões típicas da linguagem familiar – “Era uma vez”; “Cá por mim”; “Grande estopada”.
O uso deste registo de língua coaduna-se com o tom de narração oral que o poema tem.
  • Recursos estilísticos e sua expressividade
   - imagem
   - aliteração e assonância
   - reiteração
   ………….
   (Deve ser comentado o efeito de intensificação expressiva dos recursos apontados.)
  • O ritmo e a composição formal
A alternância regular de três quadras e três dísticos gera um movimento rítmico, tradutor do movimento balanceado da imagem poética e, ao mesmo tempo, do desdobramento temático em duas instâncias: o narrador e a personagem (o “menino”).
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano 
(plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto)
Curso de Carácter Geral – Agrupamento 4. 1997, 2ª fase.


QUESTIONÁRIO DE LEITURA:
1. Responde, no teu caderno, às alíneas seguintes, selecionando as opções corretas.
1.1. Ao afirmar que na sua alma "há um balouço/Que está sempre a balouçar" (vv. 1-2), o sujeito poético chama a atenção para…
     a. o seu temperamento instável.
     b. a sua incapacidade de crescer.
     c. a sua mente infantil.
1.2. Embora seja difícil subir para o "balouço", há um menino de bibe que brinca sempre nele. Isto revela, face ao perigo iminente, a sua...
         a. maturidade.     b. coragem.      c. inconsciência.
2. Foca a tua atenção nas primeiras três estrofes.
2.1. Por que motivo se pode considerar perigosa a atitude do menino? Fundamenta a tua resposta com elementos textuais.
2.2. Como reage o sujeito poético perante a possibilidade de afogamento?
3. Apresentam-se, abaixo, os assuntos abordados nas três últimas estrofes. Ordena-os, respeitando a progressão temática do poema.
    A. O sujeito poético conclui que mudar a corda era, afinal, fácil, mas admite não ter tido essa ideia.
    B. O sujeito poético afirma que não vale a pena mudar a corda, pois tal mudança exigiria um grande esforço da sua parte.
    C. O sujeito poético considera que o menino deve baloiçar, ou seja, divertir-se enquanto está vivo.
    D. O sujeito poético coloca a hipótese de o menino morrer afogado, mas não encara o facto como grave.
4. O sentimento que perpassa neste texto poético é facilmente captado pelo leitor, a partir da pontuação e outros sinais auxiliares de escrita e da sua estrutura estrófica.
4.1. Que sinais de pontuação mais contribuem para a sua expressividade?
4.1.1. Indica os valores discursivos que transmitem.
4.2. Descreve a estrutura estrófica do poema.
4.2.1. Que ideia poderá transmitir essa disposição estrófica? (Assinala, no teu caderno, a opção correta.)
     a. O ritmo inquieto e frenético do baloiço.
     b. O ritmo agitado e irregular do baloiço.
     c. O ritmo monótono e regular do baloiço.
5. O poema intitula-se "O recreio". Embora, no início do poema, o título transmita uma conotação positiva, a noção de recreio vai, progressivamente, adquirindo uma conotação negativa. Justifica.

(Para)Textos 9, Ana Paiva et alii. Porto Ed., 2013

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