quarta-feira, 19 de abril de 2017

Antero de Quental ou o suicídio sem fim


A presença de Antero de Quental no panorama cultural português apresenta uma similitude, até certo ponto paradoxal, com a vida de Antero ele-mesmo. Com efeito, o Antero de Quental que a história registou é o de um intelectual profundamente envolvido nas grandes causas do seu tempo. Associa-se-lhe deste modo uma áurea de presença excessiva. Dele dizemos que é «uma figura que se impõe». Já os seus contemporâneos assinalavam nele essa qualidade de presença afirmativa. Por outro lado, nos momentos em que a vida lhe exigiu recolhimento, e mesmo alguma clausura face aos acontecimentos, a sua ausência nunca foi interpretada como demissão de intervenção na vida cultural; mesmo ausente, o pensamento e a personalidade de Antero – disso são muitos os testemunhos convocáveis –, irradia em excesso. Sabe-se que ele lidava mal com esse facto. 
Avesso ao que de mundano tem a intervenção social e cultural, pelo imediatismo que se lhe associa, Antero propõe-se recolocar o debate literário e filosófico no seu lugar certo: o pensamento. À voragem do acontecimento só raramente a paciência do pensar sabe responder sem cair na vertigem do imediato. A consequência desta impossibilidade foi, no poeta, motivo de desespero. Nele, o pensamento era ânsia de resolver, e nisso se debatia.
A tragicidade não está na morte ela-mesma, mas na sua confirmação previamente anunciada. A contradição, qual seja a forma com que ela se apresente, é o sinal dessa desesperança. Por mais que se insista na fórmula que acompanha o nome próprio – «Antero, o poeta-filósofo» –, nunca o traço será inclusivo.
A acreditar no próprio, a justeza da fórmula estará apenas na cronologia que ela indica. No entanto, o depois – o filósofo que ocupou o lugar do poeta –, não significa uma dicção contra o antes, apenas (e pouco não é), que a contradição mudou de lugar. 
A convocação da disciplina é, para o pensamento, a recentração do que lhe é essencial: o próprio pensar. O que está em jogo não é um mero conflito intra-psíquico de alguém que viveu atormentado; o que é biografável não pode obscurecer o que na grafia está para além – ou aquém –, do vivido. No poeta e no polemista há a consciência de ambas as coisas. Se o conflito, por exaltação da escrita, ou pela proximidade física e mental dos que na polémica se envolvem, deriva para a simples luta das influências, logo o pensador se enoja com a distância entre o que é e o que devia ser. Se a imposição do epíteto – apesar do Eça –, está condenada a abrir todos os «In Memoriam», também em Antero de Quental é justo lembrar que a santidade não é uma questão pessoal, mas a destinação do próprio universo.
Nisto, a procura da influência funciona por contágio. E Antero sofreu, assumidamente, contágios à velocidade vertiginosa do comboio do seu tempo. Os anos de aprendizagem na Coimbra que perdura como mito, revelam um Antero decidido a escapar ao atavismo cultural em que Portugal mergulhara.
Mas já aqui se vê o que, para o autor de «Bom Senso e Bom Gosto», é questão: não a fórmula literária, antes as ideias; não o autor do momento, antes as novas correntes de pensamento que ressoam pela Europa; não o imobilismo do elogio mútuo, antes a assumpção sofrida da incessante procura de respostas, ainda que impossíveis; não o seguidismo face a filosofias, mesmo que da grandeza das de Hegel, Proudhon, Comte ou Hartmann; antes a pessoal resolução das dicotomias que atravessavam o pensamento filosófico. 
Que a contradição prevaleça sobre o fixismo das ideias moldáveis para todas as ocasiões, não é motivo de espanto. Em Antero, no poeta como no filósofo, foi na aguda consciência das contradições que a pulsão para o pensamento encontrou o seu terreno. Como o chão da sua terra natal, também o seu pensamento e personalidade sofrem abalos que exigem refundações permanentes.
O mal-estar que o caso Antero imprimiu (para o futuro dele e passado nosso), reside na exemplaridade que nele se conjuga com o sentimento da irredutível distância entre o ser e o dever ser. Por isso a exigência da dinâmica evolução do cosmos e do homem era nele causa de sofrida preocupação. Com razão dizia Fernando Pessoa que, em Antero de Quental, o pessimismo era mais alegre que o seu optimismo, e a sua fé mais desoladora que a sua crença.
A confrontação com a exemplaridade tornou-se algo a que não mais podemos resistir. Mesmo que assobiemos para o lado, ou que nos deixemos enlevar pela avenidas do progresso sem fim, sempre a revisitação de Antero nos reconduz ao confronto com a sombra, que em nós tende para a felicidade auto-satisfeita.
Não é a Questão Coimbrã, os seus porquês e para quês, que merece o nosso espanto; é sim que ela tenha sido. Mais ainda: a frequência com que a ela regressamos faz crescer em nós o sentimento de torpor de ela hoje não ser. Nem o que nela estava em causa foi resolvido – por mais vitória que lhe consagremos nas literaturas passivas –, nem, por outro lado, a figura de Antero se dissolve no espírito da época. Essa época hoje já não é. Leia-se isto em toda a sua extensão. 
Das Conferências do Casino se pode dizer o mesmo às avessas. A sua proibição não provoca espanto – que tantas (mesmo que poucas) se tivessem realizado, sim. Eis um risco que hoje não corremos: os comissários da cultura estariam na primeira fila da assistência.
Sem Penélope que fie e desfie, sem regresso a uma Ítaca que nunca foi, nem inimigos visíveis com que se possa confrontar, o suicídio de Antero de Quental continua acontecendo.

Fernando Martinho Guimarães
Ponta Delgada, https://www.facebook.com/fernando.m.guimaraes/posts/10211122023440550, 2017-04-18




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