sexta-feira, 4 de maio de 2018

Manuel da Fonseca






MaNUEL DA FoNSECA



     ÍNDICE

  • “Manuel da Fonseca” – verbete do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
  • Manuel da Fonseca e o neorrealismo
  • Prefácio à Obra Poética de Manuel da Fonseca, por Mário Dionísio (1969)
  • A lírica social de Manuel da Fonseca
  • As estratégias crítico-sociais na obra poética de Manuel da Fonseca
  • Os elementos simbólicos na poesia de Manuel da Fonseca
  • Última entrevista a Manuel da Fonseca (1993)
  • Ligações externas
  • Leitura orientada de textos de Manuel da Fonseca:
Data
Género
Publicação
Título da composição
Incipit
1940
Poesia
Rosa dos Ventos
O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
1940
Poesia
Rosa dos Ventos
Vida:
1940
Poesia
Rosa dos Ventos
Entontecido
1940
Poesia
Rosa dos Ventos
Quando chega domingo,
1940
Poesia
Rosa dos Ventos
Olhai o vagabundo que nada tem
1940
Poesia
Rosa dos Ventos
Das casas que ninguém construiu
1941
Poesia
Planície
Em Cerromaior nasci.
1972-73
Poesia
Poemas para Adriano
Tejo que levas as águas
1972-73
Poesia
Poemas para Adriano
Tu que vens agora de Montemaior
1973
Conto
Tempo de Solidão
A surpresa, de mistura com um indefinido receio e o imediato desejo de mais acautelada perspetiva de observação, levava os transeuntes a afastarem-se de esguelha para os lados do passeio.









MANUEL DA FONSECA
(Santiago do Cacém, 1911 – Lisboa, 1993)


Fez a instrução primária em Santiago, no meio de uma família oriunda de Castro Verde e do Cercal do Alentejo. Em Lisboa, frequentou o Colégio Vasco da Gama, o Liceu Camões, a Escola Lusitânia e, ainda, a Escola de Belas-Artes. Nas férias, regressava a Santiago (Cerromaior, nas suas obras), a casa dos avós, ou, posteriormente, de uma tia. 
Exerceu actividades muito díspares, quer na área do comércio, quer na da indústria, tendo ainda trabalhado em jornais e revistas e numa agência de publicidade. «Em Cerromaior nasci. / Depois, quando as forças deram / para andar, desci ao largo. / Depois, tomei os caminhos / que havia e mais outros que / depois desses eu sabia.» 
Se estivermos atentos aos seus livros, saberemos muito mais do A., pois a sua obra é fortemente autobiográfica, já que as personagens que recriou (delineadas por forças internas) e a realidade, nela descrita, estão intimamente ligadas a experiências vividas e a uma unidade psicológica extremamente coesa. «Uma vez lançado, a realidade e a invenção, mascaradas, jogam às escondidas comigo – nunca sei ao certo, em cada momento, qual delas preside ao que escrevo», disse em entrevista. 
Respirando e vivendo as memórias do Alentejo, este é, na verdade, parte de um todo, e Santiago é o espaço do conhecimento e tempo da revelação, memórias indeléveis do seu primeiro mundo. A infância, a adolescência e o mítico Largo serão condicionantes da sua criatividade, observáveis em qualquer dos seus livros; e a ideia de se assumir cumulativamente como vagabundo é tão normal que a repete, tanto na sua poesia ou ficção como em prefácios ou entrevistas, deixando-nos assim uma imagem repassada por uma grande dor inicial: a de uma casa que verdadeiramente nunca teve. «Antigamente, o Largo era o centro do mundo. Hoje é apenas um cruzamento de estradas... Era através do Largo que o povo comunicava com o mundo... O Largo é o lugar da igualdade (mas, depois)... a vida mudou-se para o outro lado da vila.» 
Antigamente: a infância, a alegria, a paixão, o equilíbrio e a comunhão vivida no Alentejo, tudo foi substituído pela visão do adulto, pela dor, cinzas e solidão encontradas na cidade. Os pontos de vista do escritor, que evoca o antes, donde o Largo e o Alentejo representarem as raízes embebidas no mítico e na idealização, e a presentificação dorida do agora, onde se observa a omnipresença dos olhos-ouvidos, «ouvidos para ouvir / e olhos para ver», indicar-nos-ão as duas perspectivas adoptadas pelo poeta e ficcionista, numa visão sempre terna e generosa, mas que reflectem bem a sua personalidade. 
É pois natural que um tom confessional e coloquial, vivo, ressalte da sua escrita; que o narrador seja também personagem; e que as primeiras figuras, líricas e heróicas, caracterizadas por um excesso de vida e de paixão, se tenham transformado em figuras nostálgicas, exiladas, solitárias e inadaptadas à realidade em que vivem: «André Juliano, meu amigo de infância, como nós mudámos!» Um «ano de grande fome» foi o momento em que perdeu o paraíso e lhe definiu a passagem para outros espaços. É o «forno» que se desmorona, em Seara de Vento, é a mudança operada em Adriano, em Cerromaior
A sensualidade, a expressão espontânea (porque mais interior e verdadeira), a organização plástica, a ductilidade semântica e a sua originalidade esbatem-se, nas últimas obras, apesar de nelas guardar o essencial, integrando e coordenando as multissignificações simbólicas em que o A. sempre foi mestre, porque a criação poética é isso mesmo, intimamente ligada a um falar interior, aos objectos que navegam no nosso corpo secreto. Por isso, «tudo o que há no novelista preexistiu, em embrião, no poeta», e será difícil estudar a sua ficção ou a sua poesia como produções autónomas. 
«A observação do homem e dos seus problemas – esclarece em entrevista – tem de ser contada de um modo pessoalíssimo». Ora é este pressuposto que o impede de cair em «clichés» e em empolgamentos ideológicos. A perspectiva neorrealista, na sua obra, emerge cândida e com naturalidade pelo facto de descrever camponeses e patrões naqueles espaços alentejanos, associada à grande capacidade de ternura e compreensão dos seus semelhantes. Donde, ao escrever «Aquela raça de lavradores antigos acabou-se» não o faça contra o próprio lavrador, mas contra as adversidades e alterações que acabaram por deteriorar o ancestral equilíbrio vivido, no Largo, pelo homem alentejano, apaixonado e violento, porém compassivo e companheiro. 
São essas transformações que o escritor acabou por retratar através dos olhos e da sensibilidade do menino ou rapaz que se defronta e abre aos problemas da sua região natal, repostas pelo adulto que as observa como factos que o ultrapassam mas que não explicará através da perspetiva da luta de classes. «Sou barco de vela e remo / sou vagabundo do mar... não tenho rota marcada.» Desta forma, foram os seus dramas e lutas interiores que lhe realizaram a obra, espelhando o conflito entre o mundo mítico, primeiro, e a realidade social posterior, injusta, sim, mas para a qual não propôs qualquer solução, já que foi cético quanto ao advento de um mundo melhor. Trata-se, na verdade, de uma ideologia muito pessoal, que olha o passado afetivamente, como se o preferisse, o que não impede que a sua obra se inscreva no espírito e movimento neorrealista, ainda que de forma mais universal, ao colocar o indivíduo num centro e num plano diferentes daqueles para que aponta a realização coletiva.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997



MANUEL DA FONSECA E O NEORREALISMO


Assentada esta sólida pedra inicial do Neorrealismo, não tardariam muitos meses que aparecesse o primeiro grande livro de poemas do movimento. Trata-se de Rosa dos Ventos, de Manuel da Fonseca, em edição do autor, e datada do verão de 1940. Não vamos espraiar sobre esta obra poética de excecional nível, a provar imediatamente que a batalha pelo conteúdo era já a batalha pela forma. A Presença não apresenta, apesar das suas preocupações estetizantes, qualquer obra que se lhe superiorize. Em Rosa dos Ventos encontram-se mesmo alguns dos poemas formalmente mais belos deste século. (José Gomes Ferreira dá-nos o seguinte depoimento: «[ ... ] Dos livros de versos iniciais do Movimento [...] o mais belo foi, sem dúvida, Rosa dos Ventos, de Manuel da Fonseca, publicado em 1940 por cotização dos amigos que assim quiseram prestar homenagem à sua personalidade inconfundível [...]», in Memória das Palavras, Portugália Editora, 1.ª ed., 1965, p. 211). Que se tratava, porém, de uma reviravolta temática na poesia portuguesa, a continuar com inspiração bastante superior às primeiras produções que haviam aparecido no Sol Nascente, assinadas por Mário Dionísio, e, em definitivo, muito acima da boa vontade versificatória de António Ramos de Almeida, não pode haver quaisquer dúvidas. É o primeiro livro, além do mais, da realidade trágica do Alentejo. Dele dirá Mário Dionísio, dois anos depois (Mário Dionísio, «Ficha-6», Seara Nova, ano XXI, n.º 766, 18 de Abril de 1942, pp. 151-153):
[...] Quando falo em Manuel da Fonseca revelar o Alentejo, penso em qualquer coisa de muito semelhante ao Alentejo se revelar a si próprio. Qualquer coisa como se aquelas figuras que aparecem, a espaços, especadas, imóveis e sombrias no meio da grande planície, começassem subitamente […] a falar-nos delas, da terra e dos senhores que as esmagam.
         
Mário Dionísio, no prefácio que em 1963 escreveu para os Poemas Completos de Manuel da Fonseca, explica-nos ainda a forma como este se integrou no grupo dos neorrealistas, facultando-nos um depoimento precioso sobre o espírito e a atmosfera criada por essa juventude que se reunia nos cafés da Baixa de Lisboa, pela qual o futuro autor de Cerromaior tanto se deixaria atrair (Prefácio a Poemas Completos de Manuel da Fonseca, Coleção «Poetas de Hoje», Portugália Editora, 1963, pp. XIV-XV):
[...] um coração pulsando por todos os humilhados e ofendidos (líamos muito Dostoievski, apesar do que terá parecido), uma obstinada recusa a ser feliz num mundo agressivamente infeliz, uma ânsia de dádiva total e o grande sonho de criar uma literatura nova, radicada na convicção de que, na luta imensa pela libertação do homem, ela teria um papel inestimável a desempenhar contra o egoísmo, os interesses mesquinhos, a conivência, a indiferença perante o crime, a glorificação de um mundo podre [...] o Neorrealismo, que tanta gente assegura ter nascido por decreto de não sei que forças tenebrosas, insensíveis aos valores estéticos e cegas para tudo o que irremediavelmente distingue um artista do homem comum de que ele emerge, foi assim que surgiu. Assim, apenas assim, espontaneamente, exaltante, fraternal ingenuidade ‑ desses tantos jovens que foram ao encontro uns dos outros pelo seu pé, irresistivelmente movidos por um mesmo espírito de recusa, uma mesma esperança no homem (que eles sabiam só poder querer dizer: os homens), uma mesma necessidade interior de dizer tudo isso em versos, em romances, em contos capazes de acordarem um país inteiro para a sua própria realidade nacional.
           
Manuel da Fonseca tinha a coragem de proclamar em 1940, no poema «Domingo» de Rosa dos Ventos:
[...] eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
           
Tal passagem polémica, bem dentro do espírito do período tão bem evocado por Dionísio, pode dar a impressão, fora do contexto, de que a série de trinta e uma poesias que constitui Rosa dos Ventos nada é mais do que um estendaI de diatribes políticas. Nada de mais falso. E, todavia, essa explosão isolada encontra-se em sintonia profunda com o maravilhoso espírito do poeta, que não se limita já à compaixão ou à denúncia dos males da sociedade, por imperativo abstrato de justiça social, como parece ser ainda o caso de Sinal de Alarme, de Ramos de Almeida.


Alexandre Pinheiro Torres, “Neo-Realismo (1935-1950)” in História da Literatura Portuguesa. Volume 7: As Correntes Contemporâneas (dir. Óscar Lopes e Mª de Fátima Marinho, Lisboa, Publicações Alfa, 2002, pp. 219-220).




OBRA POÉTICA
DE MANUEL DA FONSECA
PREFÁCIO DE MÁRIO DIONÍSIO


Mil novecentos e trinta e sete. Ou trinta e oito. Lisboa era então bem diferente deste formigueiro de automóveis, snack-bars e bichas de autocarros, discotecas, televisão e barbitúricos ao deitar com que andamos todos a fazer de grande cidade cosmopolita. Vivíamos ainda nas ruas de Cesário. Havia árvores. E becos, com certeza. E boqueirões. E «focos de infeção», tal como hoje. Mas a fúria de demolição dos pequenos prédios e dos bairros tranquilos ainda não começara nem rigorosamente se poderia prever que o futebol estava destinado a transformar-se, dentro em pouco, no grande problema nacional. A cidade era maior: nem toda a gente se conhecia, as crianças iam a pé para a escola., conversava-se. Conversava-se! E, acima de tudo ‑ eis talvez, com efeito ‑ a diferença maior ‑, Lisboa tinha um centro. Um centro natural aonde toda a gente acorria, na amarela mansidão dos elétricos, para fazer compras, tomar café, ver gente. Para saber, hora a hora, como iam as coisas em Espanha. Para ter notícia, enfim, do «que é que há», já que tudo se passava (se diria passar-se) nesse palmo de ruas e casas que vai do Rossio à Praça de Camões. E, nesse centro, outros centros havia, dois ou três, de frequência obrigatória, que faziam da Baixa o centro, não da cidade, que vagamente para lá dela existia, mas do mundo. (Exatamente como, naquela terra adormecida de que nos fala um dos mais belos livros de contos que conheço. O Fogo e as Cinzas, antes de ser «apenas um cruzamento de estradas», «antigamente o Largo era o centro do mundo»…) Dois ou três centros de frequência obrigatória, onde se descobria, destruía, refazia o sentido dos dias: a Brasileira do Chiado, de reputação firmada desde as batalhas do modernismo, e a outra, a do Rossio, de tradições diferentes, onde íamos ouvir o que diriam disto e daquilo o Rodrigues Miguéis (com a Páscoa Feliz premiada pela Casa da Imprensa havia pouco), o Manuel Mendes e o Armindo Rodrigues, o José Gomes Ferreira mais a sua camisola norueguesa, e que não parecia ainda exatamente o Zé Gomes de hoje, mas afinal o era, escrevendo, sem dizer nada a ninguém, o seu «quase diário» desses anos só na aparência tranquilos, a que chamou «Heroicas» (Terra: // endurece mais! // Recusa a abrir-te em cova / para esconder o Poeta / no silêncio das raízes: // Deixa-o apodrecer no chão // como uma bandeira de carne de remorsos). As «Heroicas», que vieram a registar a sua conhecida resolução: «Junto a minha voz ao coro dos poetas mais novos. Recuso-me a ter mais de vinte anos.» E esses poetas mais novos éramos nós, alguns de nós ou todos nós, que constituíamos sem plano deliberado um terceiro centro, sem residência fixa ‑ ora o Portugal, ora o Madrid, ora o Palladium ‑, onde os que acabavam de chegar para essas e outras refregas se encontravam a todas as horas, com dúzias de poemas, de projetos de artigos e capítulos de romance, para reformar, como todas as «gerações» literárias, o homem e o mundo. Se essa «geração» (sempre entre aspas) se distinguiu sensivelmente das que a precederam e das que se lhe seguiram pela visão do mundo e pela maneira de vivê-la e se algo de realmente novo ela trouxe à literatura portuguesa (como já não parece muito irritante admitir), não é esta a ocasião ideal para analisá-lo. Até porque, se a Lisboa de então, esses cafés e essas discussões intermináveis, esses anos de efusiva alegria de descoberta e de possibilidade apenas, neste momento me ocorrem, e neste tom inesperadamente saudosista que a mim mesmo surpreende, é só porque foi aí, nesse clima exaltante de encontro e de largada, que conheci o Manuel da Fonseca. E porque não sei compreender um poeta e a sua obra desligando-o e desligando-a da realidade em que nasceu, de que nasceu, que ele veio, a seu modo, enriquecer e, enriquecendo, transformar.
Quem o trouxe ao nosso grupo? Não me lembro, não sei. Mas sei o que o levou até lá. Sei que foi exatamente o mesmo que levava a juntarem-se nesses cafés de Lisboa, como nos de Coimbra e do Porto, de Vila Franca ou de Santiago do Cacém, por essa mesma data, muitos jovens, universitários ou não (e muitos não): um coração pulsando por todos os "humilhados e ofendidos " (líamos muito Dostoievski, apesar do que terá parecido), uma obstinada recusa a ser feliz num mundo agressivamente infeliz, uma ânsia de dádiva total e o grande sonho de criar um literatura nova, radicada na convicção de que, na luta imensa pela libertação do homem, ela teria um papel inestimável a desempenhar contra o egoísmo, os interesses mesquinhos, a conivência, a indiferença perante o crime, a glorificação dum mundo podre. E na convicção, também, assaz ingénua, que só a vulgar injustiça da fogosidade juvenil naturalmente ditava, de que toda a arte não fosse essa, precisamente essa com que se sonhava, mais não fazia, no fundo, do que ajudar a prolongar o mundo detestável. Porque o neorrealismo, que tanta gente assegura ter nascido por decreto de não sei que forças tenebrosas, insensíveis aos valores estéticos e cegas para tudo o que irremediavelmente distingue um artista do homem comum de que ele emerge, foi assim que surgiu. Assim, apenas assim, espontaneamente, da inquietação, da generosidade e da ingenuidade – da fecunda, exaltante, fraternal ingenuidade ‑ desses tantos jovens que foram ao encontro uns dos outros pelo seu pé, irresistivelmente movidos por um mesmo espírito de recusa, uma mesma esperança no homem (que eles sabiam só poder querer dizer: os homens), uma mesma necessidade interior de dizer tudo isso em versos, em romances, em contos capazes de acordarem um país inteiro para a sua própria realidade nacional. Que não era só a dos cafés das cidades, a das academias e das revistas literárias antiacadémicas, como em breve se começou a ver, sobretudo no romance, quando os gaibéus, as campaniças, os gandareses apareceram em livros que, embora pouco bem recebidos pela gente do oficio, depressa conquistaram um público vasto e novo, para o qual até então a literatura não existia. E foi aí, nessa residência instável, creio que numa tarde de grandes projetos, no desaparecido Café Madrid ‑ sonhava eu então, com mais alguém, com um I Certame de Arte Moderna (pinturas e poemas pelas paredes, conferências, recitais, concertos) que nunca se realizou por falta de local apropriado ‑ , foi aí, nesse arsenal de esperanças ou ousadias que ousadamente identificávamos com as esperanças do século, que Manuel da Fonseca nos apareceu , tão irritado com as «torres de marfim» (vocabulário obrigatório na época) e tão disposto a tudo reformar como qualquer de nós. Nos apareceu, não se sabia de onde, com a sua gabardina quase branca, um monóculo insólito, o seu sorriso malicioso de quem sabe sempre que há ainda outra coisa e esse mundo de transformação que por força irrompia de cada cena que contava, crescia, pouco a pouco nos envolvia numa realidade irreal mas mais verdadeira do que a imediata (por isso a para isso éramos nós realistas), cuja fecundidade literária, dentro de poucos anos, os contos de Aldeia Nova revelaram.
Eu pasmava, ao ouvi-lo contar à roda dos amigos qualquer acontecimento trivial a que ambos tínhamos assistido. Com a minha lamentável, incorrigível tendência para tentar reduzir as coisas ao que elas efetivamente são, esforçava-me por trazê-lo à sensatez: «Mas não foi nada disso!». Ele, porém, não interrompia a sua história senão para dizer, com o mais delicado dos sorrisos, os olhos quase fechados: «Foi tal, foi tal. É que não reparaste bem.» E continuava. E continuávamos rodos a ouvir a sua história, que não era nunca a história, mas se animava de pormenores, de iluminações burlescas, de situações irresistíveis. Foi assim que primeiro conheci essas terras e gentes que haviam de encher os seus poemas e os seus contos, sob nomes inventados ‑ Aldeia Nova, Cerromaior, Valmorado, Albarrã... ‑ e de que Fonseca falava como dum mundo fabuloso que atravessara há muitos anos, de antemão sabedor que teria o dever de contá-lo um dia a toda a gente. E foi decerto ainda esse poder de continuamente tudo recriar, essa atitude permanente de narrador-criador nato, essa força espontânea de tornar fascinante a realidade mais comezinha («Olhai o vagabundo que nada tem / e leva o sol na algibeira») que tão depressa transformou o desconhecido dum dia , que nos aparecia com os bolsos cheios de poemas (o sol na algibeira) , em fugas furtivas a um quotidiano intolerável (abandonada a Escola de Belas-Artes, trabalhava numa drogaria; era este o seu drama imediato), no amigo definitivo. No amigo com quem passei algumas das melhores horas de então, pelo dia fora e pela noite dentro, falando, falando, falando, lendo e ouvindo, ouvindo e lendo, projetando, reconstruindo o mundo todo, a vida toda: «Domingo que vem / eu vou fazer as coisas mais belas //que um homem pode fazer na vida.» No amigo que recebeu um dia, nesses tempos difíceis para quem começava (um tempo sem editores, sem prémios de revelação ou de confirmação, sem entrevistas nos jornais logo após o primeiro livro ou o primeiro projeto de livro), a prova máxima de admiração: ver outros amigos ‑ que eram outros tantos autores de livros na gaveta ‑ quotizarem-se para que fosse atirada para o mundo uma obra em que punham todas as esperanças e se chamava Rosa dos Ventos: «Ó mar Atlântico / à beira donde sofremos, / quando virá a maré-cheia da partida? / Ó ar de vendavais, / quando, quando?»
Atirada para o mundo é bem o termo. Pois que esse e outros livros, que viriam, quase não chegavam às livrarias (que não gostavam muito de mostrá-los), esgotavam-se de chofre, havia quem os copiasse à mão, os soubesse de cor, os recitasse em pequenas coletividades, perto e longe de Lisboa, onde a poesia nunca tinha tido entrada. E, na verdade, se outros poetas houve e haveria mais sábios, mais originais na criação de ritmos e imagens, mais justamente arrumáveis em caixa alta (porque não?) na história da poesia, dificilmente alguns outros terão experimentado essa indizível felicidade de saber que o seu canto ia ao encontro duma verdadeira fome de poesia ardentemente sentida por milhares de pessoas. O que não era tão extraliterário (é bom lembrar) como costuma dizer-se para arrumar o assunto sem sobressaltos de consciência. E se passava (lembremo-lo também) alguns anos antes de todos os Les yeux d 'Elsa e J'écris ton nom terem começado a dar a volta ao mundo e a transformar, por moda literária e outras enganosas circunstâncias, todo o mundo e ninguém em poeta resistente (que , afinal, já se sabe, toda a gente sempre fora, mas que afinal, como também se sabe, o seria por muito pouco tempo...)
Sim, já se falara do Alentejo ou da Beira, de Trás-os-Montes ou do Algarve, de inquietações e aspirações porventura bastante mais próximas das nossas do que então nos parecia. O que só não víamos (quem o não via) porque o entusiasmo da descoberta e a pressa apaixonada de gritá-la inevitavelmente tapavam o que só o tempo e a experiência permitem descobrir. Mas basta, creio eu, comparar a poesia de uma Florbela Espanca ou dum Francisco Bugalho com a de Manuel da Fonseca ou a prosa dum Fialho (nos fatalmente citados «Ceifeiros») com a do autor de Aldeia Nova para se ver a mudança de perspetiva, que se operava. E, com a mudança de perspetiva, o que profundamente se alterou na expressão estética do Alentejo.
Do Alentejo? Caminho perigoso…
Que me parece perigoso desde que, em entrevista relativamente recente, Manuel da Fonseca sentiu a necessidade de declarar: «Já houve um crítico que afirmou que eu nasci para falar do Alentejo. Eu nunca falei do Alentejo como se fosse de lá ‑ como se fosse um camponês a falar de camponeses, como se fosse um burguês da vila. Faço-o sempre, ou tento fazê-lo, como homem da cidade que sou. Cidade, aqui, no que o termo significa de interesse e de sentimento dos problemas do meu tempo. Daí sentir-me de igual modo à-vontade para falar de Lisboa e mais de quem cá vive.» («Diálogo com Manuel da Fonseca», em Gazeta Musical e de Todas as Artes n.º 109-110. Lisboa, abril-maio de 1960) Com estas palavras, suponho eu ter Manuel da Fonseca desejado mostrar o seu desagrado pelo que eu próprio escrevi, há vinte e um anos, a propósito da sua poesia e dos contos de Aldeia Nova, que acabava de aparecer. Terá Fonseca razão. Entre todas as singularidades deste mundo, até pode acontecer que um poeta tenha razão sobre a sua poesia. Mas quero antes crer que, ou o poeta não leu tudo o que nessa altura sobre ele escrevi, ou alguma coisa esqueceu (vinte e um anos é tempo!) desse distante artigo, aliás tão repassado de admiração, daquela autêntica simpatia e vontade de entendê-lo, de que Fonseca, felizmente, sempre se viu rodeado. Se, nesse artigo, eu efetivamente dizia: «Manuel da Fonseca não é um poeta de múltiplos problemas. Manuel da Fonseca nasceu para revelar o Alentejo» era para logo acrescentar esta homenagem máxima: «Mas não se julgue, por favor, que se trata de escrever contos ou poemas sobre o Alentejo. Quando falo em Manuel de Fonseca revelar o Alentejo, penso em qualquer coisa de muito semelhante a o Alentejo se revelar a si próprio. Qualquer coisa como se aquelas figuras que aparecem, a espaços, especadas, imóveis e sombrias no meio da grande planície, começassem subitamente […] a falar-nos delas. da terra e dos senhores que as esmagam.» (Mário Dionísio, «Ficha 6», em Seara Nova, ano XXI, n.º 700. Lisboa, 18 de abril de 1942, p. 151.)
Dizia-o então, repito-o hoje, E repito-o, como é óbvio, não para limitar o belo poeta de «Mataram a Tuna!», de «Poente» ou de «Manhã de Maio», o grande narrador de «Nortada» ou de «Noite de Natal», de tantas páginas de Cerromaior, de algumas de Seara de Vento, a qualquer populismo, a um regionalismo que nunca o tocou e com que o realismo se viu e vê frequentemente confundido por quem o ignora, mas, bem pelo contrário, para precisar de que imediato e circunstancial se nutre o que há de mais universal e permanente na sua obra, de que verdade particular e de que tom caracterizadamente local ela parte para atingir esse interesse e esse sentimento dos problemas do seu tempo, a que Fonseca se refere. E a que eu me referia.
Manuel da Fonseca não é um ilusionista, um desses magos da palavra (e há-os de invejável perícia e sedução) que baralham as cartas, cortam o baralho em quatro, separam os naipes e os misturam para de novo os separem e tirarem o trunfo da manga do casaco. Tudo nele é voz dum homem inteiro que fala sem rodeios. Que ignora os rodeios. Que os detesta. Que não pode separar-se, nem aos géneros, nem aos tons, nem aos temas. As palavras, cujo segredo possui na própria naturalidade e na máscula candura da sua origem popular, são para ele meio de expressão apenas. Não as trabalha, trabalha com elas. Ele mesmo disse na citada entrevista: «Ser espontâneo dá-me muito trabalho.» Mas este trabalho refere-se, sem dúvida, a um domínio muito diferente do da reinvenção de carácter linguístico, da criação vocabular ou da desarticulação sintática. Não se trata nunca, para ele, de jogar com possibilidades adormecidas que as palavras ocultam e de encontrar uma realidade própria e nova nesse mesmo jogo, que expressão ainda é. Quando Manuel da Fonseca diz: «É preciso que a realidade seja já em mim pura invenção para que eu a reconstrua, para que eu a cante» («Diálogo com Manuel da Fonseca», em Gazeta Musical e de Todas as Artes, número citado), parece-me evidente estar ele a referir-se a um campo preferentemente psíquico, aos mecanismos da recordação, à transfiguração pela distância, à tal «memória das coisas mais distantes», de que falou. A referir-se, e apenas, a uma busca de unidade interior, psicológica e temática, sentimental e ideológica, que o dia-a-dia põe em perigo e só a surda reelaboração de anos, o velhíssimo mergulho no «tempo perdido», permite reencontrar: «Só com o tempo», diz Fonseca, «a experiência adquirida ganha em humanidade aquilo que poderá perder em realidade.»
Unidade de homem e unidade de obra (eis-nos bem longe do famoso labirinto em que o artista moderno gostosamente se divide), ambas tão sólidas, com efeito, que se torna impossível encontrar uma separação essencial entre a sua poesia e a sua prosa de ficção (elas interpenetram-se), como entre o seu conto e o seu romance, as personagens das suas narrativas e as da sua poesia (poesia com personagens, é verdade), entre estas personagens todas e o próprio poeta . O «bêbado do Zé Limão» tanto aparece na poesia, «Nocturno», como num conto, «Névoa». O mesmo sucede com Zé Cardo. Quase o mesmo com o sapateiro Estroina. Com quase todos e quase tudo. A aldeia de Planície («Tudo isto tão parado / e o céu tão baixo») não deve ser longe, de qualquer modo não está literariamente muito longe do descampado onde «Viagem» começa: «E, em volta, sobreiros e trilhos de carros. Tudo deserto e silencioso.» O Rui de «O primeiro camarada que ficou no caminho» não é o menino de «Sete-estrelo», o mesmo de «Viagem» e o mesmo de «Nortada»? E ainda o mesmo que, com o nome de Adriano, nasceu em Cerromaior e se ausentou seis anos por Lisboa, nos estudos? O mesmo ainda que fala pela boca do poeta nos «Poemas da Infância» ou pela boca do qual o poeta fala? Por sua vez, o homem cercado, tanto é o Tóino Revel de Cerromaior como o «Maltês» de Planície ou o Palma de Seara de Vento. Ou o poeta. Sempre e só o poeta, mesmo quando se reinventa na pele dos outros. O poeta cercado pela vida: «Mas tudo isso, que era tudo para nós, / não era nada da vida!... / Da vida é isto que a vida faz. [...] / isto de tu seres a esposa séria e triste / de um terceiro-oficial de finanças da Câmara Municipal!...» O poeta cercado e desafiando o cerco: «Que o meu canto seja / no meio do temporal / uma chicotada de vento / que estremeça as estrelas / desfaça mitos / e rasgue nevoeiros / ‑ escancarando sóis!» E tudo isto ‑ aí teremos de chegar ‑ tudo isto, que não deve confundir-se com mera repetição de figuras e assuntos, pobreza de imaginação, tudo isto obsessivamente se processa em função do alentejano e do Alentejo, com cor e sabor de Alentejo, com solidão e desespero e humanidade e violência e sobranceira independência de alentejano e de Alentejo: é Alentejo. São Alentejo as suas figuras principais e as que ele misteriosamente ergue antes nós, com uma nitidez surpreendente, em dois traços e logo faz desaparecer. É Alentejo toda essa poesia de doce espanto, doce e rude, como outra não temos, da «terra bravia de fomes / com piteiras aceradas / como pontas de navalhas / em esperas de encruzilhadas», dessas aldeias perdidas («Nove casas. / duas ruas, / ao meio das ruas / um largo, / ao meio do largo / um poço de água fria»), desse «Horizonte / todo de roda / caiado de sol», desses «campos, campos, campos / abertos num sonho quieto», a poesia desta imensidão que se diria deserta («Quem vem lá na distância, / que nem a seara mexe / nem o pó se levanta / dos caminhos sem vento?») e é afinal habitada por uma humanidade que ninguém ainda descobrira, porque é preciso tê-Ia visto de perto e de dentro para se saber que existe. Que existe. Que não é só «rebanho que se levanta com o dia, lavra, cava a terra, ceifa e recolhe, vergado pelo cansaço e pela noite». Que respira, que ama, que sonha, ri e chora como qualquer de nós: a Maria Campaniça («Debaixo do lenço azul com sua barra amarela, os lindos olhos que tem!»), o Jacinto Baleizão («que foi a África»), a Rosa Charneca, de barraca de feira em barraca de feira, os Antónios Valmorim, por quem tremem «os seios de Nena / sob corpete justinho», a densa, imensa multidão anónima dos porcariços, dos vagabundos, dos malteses, que afinal têm nome. E é desse Alentejo redescoberta que esta poesia nasce e cresce. Esta poesia que sobe duma noite igual à de «Viagem»: «… um grupo de homens, do meio do largo, abre a voz cantando. É uma toada lenta e desgarrada, feita de vozes rudes». Que sai da terra como a canção de Cerromaior: «... não era mais que um lamento esvaído entre o céu baixo, de nuvens pardacentas e a planície vermelho-escura, empapada de água. Semelhava um apelo dorido aos animais e à terra». Como esse canto que se confunde com o vento, que é o mesmo vento que atravessa ‑ instabilidade e augúrio ‑ toda a obra do autor: «Adriano sentia os bandos afastarem-se. Por fim, não sabia já se ainda era a canção ao longe, ou o gemer do vento pelas ruazinhas escuras.» E nós sabemo-lo? Lida (ou ouvida) a poesia de Manuel da Fonseca, poderemos já separá-la dessa mesma terra e desses mesmos homens, carne e sangue da planície sem fim, onde nascem, penam e morrem? E poderemos voltar a pronunciar a palavra Alentejo sem forçosamente a evocar?
Não há só camponeses nesta voz. Já se sabe que não. Manuel da Fonseca vê também ‑ e com que prazeres de minúcia... ‑ o mundo da vila e da cidade. E vê-o, muitas vezes, com os olhos duma pequena burguesia que tem ainda um pé no campo e outro na urbezinha provinciana, já irremediavelmente enleada nas rodagens do papel selado, mas onde a revolução industrial leva tempo a penetrar. A chegada da diligência, com gente coberta «do pó das longas distâncias» é um acontecimento, tanto para os homens do Largo como para os empregados da Câmara, «fechados na penumbra das paredes, / curvados pràs secretárias / fazendo letra bonita». «[...] / carimbando, pondo selos, / bocejando, bocejando, / bocejando» ou para os «empregados no comércio / desenrolando fazenda medindo chita / […] sentados nas secretárias do comércio / cabeças pendidas jovens-velhinhos / escrevendo no Deve e Haver somando somando». As visões e alusões desta obra enchem-se de acontecimentos e sentimentos triviais da vida corrente duma pequena burguesia medíocre e suficiente, que, aliás, Manuel da Fonseca sempre vê e narra e canta e ironiza com a ternura de quem pensa que, no fundo, os homens são, em grande parte. apenas aquilo que as circunstâncias lhes permitem que sejam.
Obra que documenta. Bem o vi, não há muito, durante os debates dum congresso científico, realizado em Lisboa. Eu ouvia, da boca de especialistas, a situação dos doentes mentais no nosso campo, especialmente no Alentejo. Via esses «campos, campos, campos» sem um psiquiatra, esses doentes conduzidos pela estrada entre os cavalos da Guarda Republicana, atados a rodas de carro, metidos na prisão, à falta de hospital e de médico. Seguia essa viva descrição de casos concretos de rezas, benzeduras, bruxarias. Ouvia condenar «a existência de preconceito de segregação sistemática dos portadores de doenças e anomalias mentais, preconceito que importa combater, embora seja tolerado e, de certa forma, apoiado pela própria legislação vigente» (Actas do I Congresso Nacional de Saúde Mental. promovido pela Liga Portuguesa de Higiene Mental. Lisboa, novembro de 1961, p. 266). E, enquanto o ouvia, não me saíam da cabeça as dramáticas cenas do louco Daninhas na cadeia de Cerromaior, com que abre o romance de Manuel da Fonseca, escrito dezassete anos antes. Na sua linguagem técnica, os especialistas falavam de muitos homens como aquele, «completamente nu, com as mãos escuras enclavinhadas nos varões das grades», gritando. Falavam daquele «corpo mirrado, saliente de ossos», que Fonseca descrevera dezassete anos antes: «Só as pernas avolumavam ponteadas de buracos negros. E, na cabeça calva, faces lívidas, queixo recuado, os olhos guardavam um terror de demência, dilatados de espanto pelo próprio grito que lhe escancarava a boca.»
A obra de Manuel da Fonseca documenta, como toda a arte. E documenta, muitas vezes, de maneira direta: os «bandos de camponeses, homens e mulheres envoltos em mantas» que, ainda nesse Natal, haviam percorrido as ruas da vila, cantando loas ao Deus-Menino, «eram gente sem trabalho»; a telefonia que surge, de súbito, na venda duma aldeia desgarrada transforma os homens e as suas relações, a sua visão do mundo. Mas tal documento é quase involuntário e nunca um rol de provas. Obra de poeta, e de poeta medularmente avesso à objetividade, ela é sempre intencional e parcial sem a intenção de sê-lo. Enquanto o que se passa no campo (se conta, se comenta, se imagina) é nela, geralmente, apaixonado e violento, desgraçado e heroico, profundamente humano, grave, limpo, o que na vila se passa (se conta, se interpela, se imagina) é, quase sempre, ou ridículo (o Senhor Administrador a quem a pedrada duma criança leva o chapéu e logo pensa num caso de política; a Menina Tonta que «tem a cabeça cheia de farelos»; o pobre do Sr. António ‑ «tão novinho e já era o Sr. António» ‑ que disse «Vou morrer. / E morreu! morreu de congestão!»), ou repugnante (a Mariazinha Santos «que um dia se quis entregar / que era o que a família desejava / para que o seu futuro ficasse resolvido»; «o homem bem-amado entre todos / com uma nota de cem na mão estendida»), ou apenas mesquinho. Mesquinho de incompreensão («que era indecente aquela marcha / parecia até coisa de doidos»), de ambição medíocre, de preconceitos míseros, que desvirtuam e lentamente asfixiam uma imagem ideal de vida que, na poesia de Manuel da Fonseca, quase sempre se identifica com tudo o que a infância e a adolescência têm de ingénuo e generoso e transparente e que a vida embacia, adultera e destrói.
Imagem e destruição que decerto explica o conceito de liberdade do poeta, que, desde os primeiros versos, parece obedecer a um impulso irreprimível, entre tecido de ansiedade e desencanto, muito mais voltado contra a sociedade ‑ a sociedade que impõe normas, deveres, limitações ao puro prazer individual de viver ‑ do que contra esta ou aquela sociedade. Dum lado, a Vida – invocada, a princípio, deslumbradamente, com maiúscula, a vida «olímpica / firme // gloriosa», o secreto encantamento perante os «seios nascendo debaixo das blusas», o Tóino que uma vez chegou ao largo «com um vidro extraordinário», as manhãs de maio, com o seu céu azul, «assim azul, sem mais nada do que a cor azul […] feito para este não pensar: / as mãos nos bolsos e o passo lento…» (tudo logo, contudo, amargamente cortado por um remorso impertinente: «E é isto o que não devia ser em mim: / ‑ que importa que não sirvas para mais nada, / manhã de maio, / se para isto serves!»). Do outro lado, a vida (já sem maiúscula) organizada em formas sociais que contrariam e esmagam o que há de mais instintivo e intuitivo no poeta. No poeta que «tem olhos de água para refletirem todas as cores do mundo» e «escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo». Que defende, contra tudo e todos, a sua ingenuidade original, a sua imaginação que é livre e livre se quer, o seu secreto conhecimento «de grutas, de barrancos, / e de passagens desconhecidas». Que os defende contra as prisões que vê na escola, no escritório, na repartição, na rede pegajosa de obrigações, deveres, convenções, preconceitos que tornam irrespirável (sobretudo) a vila e a cidade.
Nos «Poemas da Infância», toda a saudade vai para «as tardes assim / sem livros nem ardósia». Em «Tragédia», a tragédia do pobre Sr. António é pela escola que começa: «Foi para a escola e aprendeu a ler / e as quatro operações de cor e salteado. / Era um menino triste: / nunca brincou no largo.» Na «Manhã de Maio», essa odiosa recordação domina-o: «A escola... Isso foi um inferno: / tinha que fazer contas / e perdia os dias inteiros sentado na carteira, / enquanto, lá fora, um moço que nem tinha nome, / e era exposto da Câmara, / corria pelas ruas / e ia armar aos pássaros, nos bebedoiros!» Em O Fogo e as Cinzas, o narrador lembra com visível orgulho: «Na escola éramos temidos. Passávamos as tardes de castigo e, um dia, armámos uma desordem medonha. […] Fomos expulsos.» E, no «Retrato», o herói conta a imensa satisfação com que, após o exame, verificou ter esquecido de repente tudo o que aprendera na escola: «Senti-me límpido e feliz, de novo criança. A vida era bela, e diante de mim abriam-se caminhos radiosos: ia voltar a ser um pequeno rei na minha vila!» O que anda bem próximo ‑ teremos de sublinhá-lo ‑ do conceito de liberdade expresso por Fernando Pessoa no célebre poema que começa: «Ai que prazer / Não cumprir um dever, / Ter um livro para ler / E não o fazer! / Ler é maçada, / Estudar é nada.» e que termina, como todos sabemos, com o argumento definitivo: «O mais do que isto / É Jesus Cristo, / Que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca…» E o que está na raiz e na seiva dum grito tão espontâneo e tão belo como «Mataram a Tuna!» ‑ pequenina obra-prima, onde todos os elementos estéticos da poesia de Manuel da Fonseca se juntaram num sortilégio que nos seduz e arrasta, com os seus «domingos amarelos verdes azuis encarnados / vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos», sem nos deixar tempo nem vontade para atentarmos um pouco naquele «qualquer coisa de louco e heroico», que é, todavia, a chave do seu pensamento poético.
Não será evidente a relação entre aquela imagem ideal de vida, este conceito de liberdade e o partido que o poeta espontaneamente sempre toma pelas figuras que, vítimas da sociedade (ou da sua incompreensão ou da sua perseguição organizada), de algum modo vivem à margem dela ou em conflito com ela e contra ela se erguem, sozinhas, armadas apenas com a força do seu amor ou da sua raiva, dispostas a tudo, exceto a capitular? O vagabundo, «sem escala marcada / nem hora para chegar» mais o seu «desejo de ir embora pelo mundo», com «o céu por teto e o vento como lençóis», mas «o sol na algibeira»; o maltês, que não rouba («guarde a espingarda, senhor, / sou um homem sem trabalho») e, muito menos, pede («Não aceitei como esmola: / antes roubar que pedir»); o homem só que faz frente a quantos vierem («Cercaram-me num montado; / puseram joelho em terra; / gritaram que me rendesse / à lei dos caminhos feitos. / Mas eu olhei-os de longe, [...] / O rosto apenas virado, / que só vi em meu redor / dez pobres ajoelhados / perante mim, seu senhor»), o homem só que faz frente a quem vier e ao que vier, sem permitir que o lamentem («Dá-me raiva ouvir seja quem for lamentar-se. Eu nunca me lamento», diz o Zorro de «A Testemunha»; e o Palma da Seara de Vento: «Eu não quero que me chorem»), o homem só, destemido, bravo, de poucas falas e gesto rude e pronto, que pode estar do outro lado mas tem jus à admiração desde que bravo (o tio de Adrianito ou Rui Parral, o «Maltês» ou António Vargas, o Palma ou Adriano Serpa), eis a figura mais querida de Manuel da Fonseca, mais acabada, mais cuidada, o seu símbolo maior, o seu herói, eis o poeta.
Ei-lo inteiro, pelo menos até às últimas páginas de Seara de Vento, onde o grito final da velha Amanda Carrusco («Digam à minha neta! Digam-lhe que ela tem razão! Um homem só não pode nada») parece anunciar como que uma canalização de todo esse desespero de desafio, dessa violência primitiva que em muitos casos mais parece um desvairado amor que se volta do avesso por não poder compreender-se nem cumprir-se, desse ambiente de navalhas, de vento, de luar, e de tudo o que tão irresistivelmente o aproxima de Lorca e tão decisivamente dele o afasta. Como acontece nesse poema de espanto e encanto que, daqui a muitos anos, alguém talvez suponha um genuíno romance popular: «Não era noite nem dia. / Eram campos, campos, campos.» Espanto e encanto onde prossegue, já com um sabor e num halo de lenda, o prestígio do herói que tudo dobra à sua vontade, o amor supremo e fatal, a vida toda que se joga num minuto, e, ao fundo, Alentejo.
E, nesse fundo de Alentejo, o homem todo. Cercado. Cercado e violentamente trabalhado por uma angústia que nunca é, para Manuel da Fonseca, de natureza metafisica e se explica, ao contrário, por questões bastante físicas, como sejam o pão e o trabalho. Confronte-se o À espera de Godot com o poema dramático A Casa no Vento. Nos dois casos, dois homens que se apoiam nos extremos da desolação. Mas , enquanto na peça de Beckett os homens perderam há muito toda a noção do que são e do que esperam, no poema de Fonseca a angústia que os domina sabe, muito chãmente, a fome. Eis o avesso de Beckett:
«Segundo Homem ‑ [...] Um pedaço de pão ou uma febra assada... Hem, que dirias tu a uma febra assada?
«Primeiro (angustiado) ‑ Cala-te.
«Segundo ‑ E uma golada de vinho?...
«Primeiro ‑ Cala-te! (numa brusca ansiedade) Talvez que nessa terra a gente consiga, talvez!...»
É a fome que faz dos outros dois homens ‑ dois homens exatamente como eles, açoitados pela mesma ventania ‑ os ladrões que assaltam o casebre. «Ao que a gente chegou», diz o Segundo Ladrão. «Assaltar quem tem tanto como nós…» E é ainda a fome que vai mergulhando na loucura o Primeiro Homem, uma loucura atravessada por um fio de lucidez, de onde brota a frase final, tão obstinada e precisa na sua imprecisão: «Tu não ouves? Não ouves que nos chamam, lá das nossas casas? É de lá, é de lá que gritam!...»
Toda a temática de Manuel da Fonseca se reduz a dois motivos, intimamente solidários, que, em vários tons e andamentos, sem cessar se repetem: uma ansiedade de viver em conflito com uma realidade social que torna essa vida impossível de ser plenamente vivida e uma decisão de intervir nos destinos do mundo o, que, optando por um ato de desespero, acaba por esbarrar com a sua própria ineficácia que, entretanto, se não reconhece como tal e torna, assim, possível o constante recomeço. Do primeiro ao último dos poemas de Fonseca, incluindo tudo o que na sua prosa é ainda poesia, esses dois motivos maiores, desdobrados, ou reduzidos a pequenas sínteses, se entrecruzam e repetem. A incompatibilidade com a vida e a ansiedade de vida («Que ansiedade de mar largo, / ai que desejo de vida!»); a necessidade de agir («… horas abertas, / rasgadas por minhas mãos ansiosas / de lúcidos temporais! [...] // Penso: / se as não rasgar por minhas mãos / a Vida não as dará jamais»); a convicção de que agir é partir («Eu vou-me embora para além do Tejo / não posso mais ficar!»; «e parto / para os longes mais longes das distâncias mais longas / sei lá de que destinos ignorados»). Mas, ao contrário do que faria esperar tanta insatisfação e ansiedade, o poeta não parte, ninguém parte: «Só nos peitos rugem marés-cheias de largada, / só os olhos são barcos a navegar»; «E fico desgraçado de ficar.» E ilude a necessidade de partir pelo grito, pelo ato de desespero, de desvairado desafio, que em toda a obra se repete: o camponês de «Nortada» pega fogo à casa do lavrador; o Tóino Revel, de Cerromaior, incendeia a eira da Casa Vã; António Palma entrincheira-se no casebre e resiste alucinadamente até ao último cartucho. Um grito de raiva contra o mundo inteiro, que logo se revela eco apenas dessa mesma raiva, mais fraqueza que força, e que, impotente, se esbate e muda em desalento total: «Em que dia nos vamos suicidar?» Mas, mal s e extingue, regressa: «Abre os olhos e olha / abre os braços e luta / Amigo / antes da morte vir / nasce de vez para a vida.» Uma «vida» a que só falta a ingenuidade da maiúscula para ter a comovedora transparência das «Sete Canções da Vida» ou das «Canções da Beira-Mar», onde tudo começou, onde tudo recomeça. Sempre a partir de zero.
E é por aí, decerto, que a obra de Manuel da Fonseca atinge um valor de símbolo que excede o mundo pessoal do poeta, exprime um clima e nos faz compreender a aceitação invulgar e imediata que sempre a acolheu. Porque nos retrata. Porque ela sonha e grita, e, sonhando e gritando, sobretudo explica. Nos explica.
Dizem que a arte diretamente ligada à realidade imediata corre o perigo de desatualizar-se depressa. Que envelhece. Que passa. Sobretudo numa época em que tudo à nossa volta se altera com rapidez surpreendente. É bem possível que muitos terceiros-oficiais de finanças já não se reconheçam no «Romance do Terceiro-Oficial de Finanças» nem no «Coro dos Empregados da Câmara». Com efeito, talvez já não se aborreçam do mesmo modo. Devem já ter o seu automóvel (comprado a prestações), com que andam para trás e para diante nas ruas da vila e nas estradas que vão dar a outras vilas. A filha da Senhora-vizinha de crepes de viúva e a do Dr. Valente irão agora, sem dúvida, até ao café fumar o seu cigarro e falar do caso da Marilyn com os empregados do comércio local, que ligam o transístor para o mesmo posto que se está a ouvir na venda de António Barrasquinho. Certamente os rapazes do Largo se desinteressaram da Lua. Têm a televisão. O Largo deixou de ser o centro do mundo. É apenas um cruzamento de estradas.
Mas, apesar disso, através disso, contra isso – talvez por isso ‑, a poesia de Manuel da Fonseca continua a existir com a sua frescura inicial e a sua energia, a sua capacidade de comover e seduzir, o seu reservatório de sonho, o seu mistério. Porque, se algum mistério na poesia há, só pode ser este interminavelmente descobrir e nos fazer descobrir que em cada coisa que o homem produz e em si produz ‑ uma palavra, um ato de renúncia ou de revolta, um silêncio de espanto ou uma marcha Almadanim – em cada coisa, que sem ela morreria, sempre vive e arde uma riqueza interior que não se esgota, a lava da tal razão que a razão desconhece, uma força de prodígio, um apelo irresistível que vai de homem a homem, que muda, mudará os homens e as coisas; o apelo que ilumina e aquece toda a obra de Manuel da Fonseca, todo o seu encantamento e toda a sua violência, toda a sua rudeza e toda a sua ternura: «Tu não ouves? Não ouves que nos chamam lá das nossas casas? É de lá, é de lá que gritam!...»

Mário Dionísio, 1969
Prefácio à Obra Poética de Manuel da Fonseca, Lisboa, Editorial Caminho, 1984, 7ª ed. revista pelo autor, pp. 19-39


              

A LÍRICA SOCIAL DE MANUEL DA FONSECA


Mesmo com a clara adesão do poeta às causas sociais que se revela na sua poesia, através da sua escrita, ele soube demonstrar que ética e estética não são valores antagônicos na produção de uma obra literária, mas podem estar presentes de forma coerente e equilibrada. Para tornar sua poesia um espaço privilegiado de crítica social, o poeta empregou algumas estratégias discursivas, tornando-a repleta de particularidades. No que se refere à linguagem, Manuel da Fonseca conseguiu, apesar do objetivo do movimento neorrealista em utilizar apenas uma linguagem clara, objetiva, sem sentidos ocultos, ir além e através de uma escrita que privilegia a oralidade, a espontaneidade, comungar com a realidade sofrida do homem alentejano e expressá-la de modo prosaico e comovente, tornando sua poesia imbuída de um lirismo encantador. Além do mais, ao utilizar-se de termos simbólicos na sua linguagem foi capaz de retratar de forma mais nítida e poética a atmosfera de opressão que pairava sobre as vidas dos homens da planície alentejana e sobre Portugal.
Com o seu desejo, a sua ânsia de viver que surge como a tônica da temática da sua poesia revelou versos que podem ser considerados hinos à vida e também demonstram como a vida pode ser destruída, desvalorizada, oprimida, injustiçada, aprisionada de várias maneiras. Situações essas que tornam o ser humano frustrado, desesperado, desesperançado, sem expectativas de um futuro melhor. Entretanto, o único modo encontrado pelo poeta para combater as agressões, as privações à que o homem oprimido é submetido foi através da revolta que se expressa através do grito. Ou seja, da denúncia aos conflitos que afligem a espécie humana em um ambiente social que se mostra adverso a um projeto de vida digna e em liberdade, isto é, a uma vida plena de direitos e livre de opressões e convenções. Ao dar preferência a temas relacionados às formas de privações e de misérias de que os homens das classes menos favorecidas são vítimas, consequentemente o poeta se elege também como porta-voz dessas classes e por isso procura apontar e denunciar as injustiças sociais.
Injustiças que o poeta encontra na região do Alentejo um campo fértil para tentar combater através do seu canto. É esse espaço geográfico, humano e social retratado nos poemas de Manuel da Fonseca que aparece como símbolo maior das formas de opressão perseguidas pelo poeta para lutar. Mesmo que o Alentejo presente nos seus versos seja uma recriação da sua habilidade imaginativa, ele tem a sua gênese no espaço real, onde o poeta viveu e observou a realidade desse povo. Por isso, o Alentejo de Manuel da Fonseca revela, além dos aspetos geográficos desse espaço, os aspetos humanos e sociais. Ou seja, a realidade de um povo que leva uma vida sofrida em razão das relações sociais, econômicas e políticas que se estabelecem nesse espaço. Relações que se referem à exploração do trabalho dos camponeses pelos grandes agrários e que tornam esse espaço um campo onde a luta de classes é bem evidente e searas de ódio, de violência e de miséria são semeadas.
Searas que se apresentam bem manifestas na configuração das personagens presentes nos poemas de Manuel da Fonseca. Suas personagens demonstram todo um universo de frustração, de revolta por levarem uma vida cujas condições sociais são desesperadoras. Por representarem classes sociais exploradas por um sistema econômico e político opressor essas personagens tornam-se sínteses desse período histórico sombrio que envolve a região e Portugal. E também por isso, dessas personagens, especialmente da figura do maltês, brotam uma força e uma coragem que faz delas o símbolo de uma resistência às injustiças que o homem desse período sofreu.

 Lírica e sociedade: um olhar sobre a obra poética de Manuel da Fonseca, Dissertação de mestrado de Rosilda de Moraes Bergamasco, Universidade Estadual de Maringá, 2012.



AS ESTRATÉGIAS CRÍTICO-SOCIAIS NA OBRA POÉTICA DE MANUEL DA FONSECA


As estratégias discursivas utilizadas pelo poeta produzem uma poética de cunho social, neorrealista.
Analise a obra poética de Manuel da Fonseca, seguindo as seguintes linhas de leitura propostas por Rosilda Bergamasco:

  • a linguagem utilizada pelo poeta, em especial, o uso de símbolos como forma de revelar aspetos da realidade social e política de Portugal;
  • as temáticas presentes na poesia e que comprovam o comprometimento do poeta com a vida e a sua luta contra todas as formas de cercear e privar o ser humano de uma vida digna e em liberdade;
  • o espaço alentejano retratado pelo poeta e que revela tanto a beleza dessa região quanto as relações sociais, económicas e políticas que se estabelecem e tornam o Alentejo povoado por uma gente sofrida e injustiçada;
  • e, a presença de personagens nos poemas de Manuel da Fonseca e que evidenciam as peculiaridades do homem alentejano e as injustiças sociais sofridas por homens que habitualmente não tem direito a voz.
Bergamasco: 2012



OS ELEMENTOS SIMBÓLICOS NA POESIA DE MANUEL DA FONSECA


A NOITE Os momentos difíceis enfrentados por Portugal são simbolizados por um elemento recorrente nos versos de Manuel da Fonseca: a noite. […]
Assim, a noite nos poemas de Manuel da Fonseca é um elemento quase sempre com conotação negativa, um momento que carrega consigo a dor, a morte e a solidão e por essa razão custa a passar.

O VENTO Símbolo universal da pura cólera, dos elementos em fúria, em vários poemas de Manuel da Fonseca, o vento é representado dessa forma e age transformando negativamente o espaço retratado. Porém, o poeta pretende chamar a atenção do povo para a necessidade de lutar contra esse “vento” e mostrar que é possível combatê-lo.

O SOL Símbolo de força, de vigor, de entusiasmo, de vida. Características essas que estão faltando ao povo português, que se encontra envolto nas brumas de uma noite infinita. O sol funciona também como denotação de um estigma, nomeadamente quando o poeta mostra a vida sofrida dos trabalhadores do campo.

A ÁGUA em Manuel da Fonseca a água é uma promissão, uma necessidade, um valor do que é natural e espontâneo.

Nota-se, assim, que os elementos da natureza na poesia de Manuel da Fonseca são utilizados para compor e simbolizar o cenário de atrocidades e desgraças que se abatem sobre Portugal, como é o caso da noite e do vento, bem como simbolizam a forma do poeta revoltar-se e tentar levar o leitor a lutar para que esse cenário se transforme em um espaço puro e transparente como a água, alegre e lúcido como um dia de sol, sem espaço para crimes e atitudes obscuras.


ÚLTIMA ENTREVISTA A MANUEL DA FONSECA
(1993)





Morreu um neorrealista, um escritor que recusava esse rótulo de estilo - e, com ele, a memória duma época de miséria e ousadias, de tertúlias e repressão. Ficaram livros, depoimentos, as crónicas nos jornais, e a entrevista que hoje publicamos, a última que deu, no poiso duma das suas últimas tertúlias
Nuno Lopes


MANUEL DA FONSECA
"Escrevo porque sou do contra"


    Ao princípio da madrugada do passado dia 11 de Março falecia Manuel da Fonseca. Contava 81 anos de idade e mais de meio século de atividade literária. Esta é provavelmente a sua última entrevista, dada no seu paradeiro habitual, o Café Expresso, ao largo da Misericórdia, em Lisboa - primeira de uma série, integrava-se num projeto que procuraria traçar o perfil não só do escritor como do cidadão.
    Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém e começou por escrever no jornal local: «Há sempre aquela ‘gavetazinha’ que um rapaz tem na escrivaninha e que sem o saber vai lá uma pessoa de família, uma tia... e foi assim que começaram a aparecer os meus primeiros escritos em alguns jornais. Eu escrevo, não desde 38, mas logo no início de 30, as pessoas é que não sabem e não me cabe informá-las.»
EXPRESSO - O Manuel da Fonseca é considerado um precursor do neorrealismo em Portugal. Há um tempo atrás afirmou que não era tanto assim, neorrealismo era uma palavra que nem lhe passava pela ideia...
MANUEL DA FONSECA - E assim é! Sinto-me mal em relação a isso. Eu nem sequer disse que era neorrealista. Foram os críticos que acharam que eu era neorrealista, eu não disse nada. No fundo, era um indivíduo que lá tinha a minha ideia sobre o que seria - isso era antes uma palavra para defesa da vida e à defesa da Censura. Foi uma palavra que o Joaquim Namorado arranjou para fugir à Censura.
EXP. - Se tivesse de lhe dar um nome, qual seria?
M.F. - Talvez dissesse antes uma literatura de realismo dialético, mas não sei.
HERBERTO HELDER - (intervindo da mesa ao lado, que o Café Expresso é tertúlia dos clientes de sempre) Um realismo lírico...
M.F. - Lírica é toda a nossa literatura, até a mais dramática. A gente começa a escrever porque são aquelas coisas que acontecem perante o ambiente em que nós nascemos. Quando nascemos somos contra, é próprio de quem nasce estar contra os que cá estão. Toda a arte está contra. Escrevo porque estou contra!
Comecei a escrever porque de tudo o que já experimentara era o que melhor fazia. Escrevi em vários jornais - ganhava bem, cerca de 400$00 por crónica, e escrevia duas por semana. E certo que no República ganhava menos, mas eles também tinham dificuldades e não era só isso que contava. Acho que o escritor deve ser um profissional e como tal viver da economia própria do produto que faz, e isso, é claro, também obriga a determinadas coisas...
EXP. - Como por exemplo?
M.F. - A publicidade, as entrevistas, os comentários...
EXP. - Isso não será fazer parte de uma engrenagem em que tempos atrás se recusava a participar?
M.F. - E não participo. Eu não sei de nada. Isso é com o editor, ele é que sabe. Os meus livros por exemplo, continuam a vender. Não se diz nada, não se faz publicidade, mas eles vendem!
EXP. - E quanto a uns livros que estão prometidos?
M.F. - Se começo a escrever, nunca mais paro. E dia e noite e não tenho sossego. Por isso estou parado. Também não preciso. Arrumei uns papéis e logo se verá. De facto, tenho um que começaria com o fim da 1 Guerra Mundial e depois viria até ao 25 de Abril. Seriam três volumes, mas não sei... E depois, é como lhe digo, não ando tão necessitado como isso. Talvez noutro tempo.
EXP.- Trata-se de um romance Histórico?
M.F.- O romance histórico é um romance menor; é uma pequena história, e esta é própria do indivíduo e não do todo. Não é criação.
EXP. - E o sucesso do Memorial do Convento?
M.F. - Tem uma coisa rara que era muito comum no século XIX e que o Saramago faz muito bem, a ironia. Mas não deixa de ser uma pequena história.
EXP. - Então a literatura deve apenas refletir o presente?
M.F. - Claro está! Não há futurismos na literatura. O único homem que falou de futuro, e no sentido técnico, é o Júlio Verne. De resto, não há futuro, o presente já é futuro.
EXP. - Veio para Lisboa muito cedo. Como vê a evolução da cidade?
M.F. - Lisboa é muito bonita e eu gosto muito: é uma aldeia. Veja por exemplo a Estefânia. Aquele bairrozinho para onde vim morar quando vim do Alentejo está agora irreconhecível; e ainda bem. Lisboa está diferente e para melhor, mas ainda continua a ser aquela Lisboa que me levou a gostar ainda mais do Alentejo, do meu Alentejo. Tudo é ao contrário desse Alentejo, e por isso eu aprendi a gostar ainda mais dele. As pessoas zaragateiam, fazem-nos má cara, mas são encantadoras. Lá fora, há tanta gente nas ruas, e não acontece nada. Aqui basta darmos dois passos para encontrarmos uma discussão, uma exaltação, mas isso é vida, é cor.
EXP. - É fado...?
M.F. - Gosto de tudo que vem do povo. Pode ter nascido nas vielas ou até ter raízes africanas, não se sabe, mas é do povo e eu gosto. Temos aquela Amália que é um caso sério, uma grande senhora. E tínhamos o Alfredo Marceneiro. Cheguei a ser amigo do Marceneiro, fomos presos juntos e estive muitas vezes na sua casa.
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M.F. - Havia ali na Rua Morais Soares um café de camareiras, a Rosa Branca: umas pequenas que faziam uns brindes e depois nós comprávamos. Conversava-se e ouvia-se o fado. As duas por três, houve lá qualquer coisita entre dois pretendentes e uma camareira e, zás pás trás, pancadaria geral - eu fiquei na mesma cela que o Alfredo. Passei a ir com ele aos fados. Certa vez fomos ouvir a Amália ali para o Bairro Alto, ia também connosco o Carlos de Oliveira, e o Alfredo puxou de debaixo da mesa um álbum onde guardava crónicas minhas... Outra vez, também nos fados, vimos um homem já velhote, baixinho, assim como que apagado, não se fazendo anunciar, e de repente o povo apercebe-se da sua presença, levanta-se e aplaude-o. Era o Teixeira de Pascoaes!
EXP. - O fado foi também uma forma de aproximar o povo dos considerados grandes poetas...
M.F. - Então não foi? Teve um papel muito importante. A Amália, e depois outros. Veja por exemplo esse grande rapaz, o Ary, o Ary dos Santos, as coisas bonitas que fez. E o Carlos do Carmo? E um rapaz que também fez isso, aquelas voltas, é magnífico!
EXP. - A memória é uma constante no que diz.
M.F. - No viver, sim. Está ali o Herberto Helder que é um dos grandes poetas, e meu amigo. Aqui estamos todos reunidos, bebemos qualquer coisa, e conversamos como iguais, não há cá essas coisas de «eu sou mais importante que tu portanto cala-te».
EXP. - Definiria assim o seu estilo de viver...
M.F. - Não tenho a noção do tempo. Quero é estar à volta de uma mesa com uns amigos. Uma vida simples e pura. Ando muito a pé, tenho amigos estranhos, converso aqui e ali, oiço muito, e lá nos encontramos nas tabernas.
EXP. - E como se movimenta nos meios literários?
M.F.- Muito mal. É uma jogada fina. Dizes bem de mim que eu digo bem de ti, nós é que somos bons. E um mundo com muita hipocrisia. Eu não frequento os meios literários, sou muito malcriado porque digo logo o que sinto. Aliás nisso sou como o Lobo Antunes. Hoje há uma intelectualidade balofa, uma vaidade de calça de ganga: grandes parangonas nos jornais deste e daquele escritor, mas tudo é efémero, nada vai ficar - como a rosa daquele poeta francês. Veja por exemplo o Fernando Pessoa. Eu conheci o Manuel Martins da Nóbrega, que foi patrão do Fernando Pessoa. Costumava dizer às vezes, quando ia ao escritório e via a máquina de escrever em determinado lugar: «O meu Fernando esteve cá a trabalhar.» Veja esta singeleza de ter convivido com um génio e a forma simples e grande ao mesmo tempo ao dizer «o meu Fernando», é muito bonito, quase comovedor até...
EXP. - E em relação aos críticos?
M.F. - São uns senhores muito altos que não sabem do que falam, põem um adjetivo seguido de outro com um ponto de exclamação a meio, e nós não percebemos nada. O melhor é ler o livro!
EXP. - E com a política?
M.F. - A política é trágica e já não me interessa no sentido que me interessou. Mas continuo a ir ao Alentejo e a falar com os camponeses. E continuo no PCP, embora em relação ao atual momento não disponha de dados para estar aqui a falar. As circunstâncias do mundo mudaram-se e a política mudou-se. Mas devo-lhe dizer que também não é como os jornais dizem. Mas enfim, eu sou do contra na política.

EXPRESSO, 20-03-1993




Ligações externas

 

Espaços de sentido: a construção do lugar na ficção de Manuel da FonsecaMaria da Glória Alhinho dos Santos, Lisboa, Instituto Superior de Psicologia Aplicada, 2002
Lírica e sociedade: um olhar sobre a obra poética de Manuel da Fonseca, Rosilda de Moraes Bergamasco, Universidade Estadual de Maringá, 2012.
Entre memórias e palavras: o Neo-realismo de Manuel da Fonseca, Marcos Vinicius Fiuza Coutinho, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2012:
Índicecap.1cap.2cap.3cap.4cap.5cap.6cap.7cap.8cap.9.



Fonte:
LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO. 
Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/manuel_da_fonseca.htm, 2013-08-27. 
2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/manuel_da_fonseca.htm, 2016.


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