Elegia
Às vezes
era bom que tu viesses.
Falavas de
tudo com modos naturais:
em ti
havia
a harmonia
dos frutos
e dos animais.
Maio
trouxe cravos como outrora,
cravos
morenos, como tu dizias,
mas cada
hora
passa e
não se demora
na
tristeza das nossas alegrias.
Ainda
sabemos cantar,
só a nossa
voz é que mudou:
somos
agora mais lentos,
mais
amargos,
um novo
gesto é igual ao que passou.
Um verso
já não é maravilha,
um corpo
já não é a plenitude,
tu
quebraste ritmo, o ardor,
ao
partires um a um
os ramos
todos da tua juventude.
Não
estamos sós:
setembro
traz ainda
um fruto
em cada mão.
Mas os
homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direção.
Eugénio de Andrade, Amantes sem dinheiro, 1950
___________
1 Elegia: poema de assunto
triste ou de lamentação.
Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes
tópicos:
-
importância das referências temporais;
-
valor simbólico dos elementos da natureza;
-
aspetos formais e recursos estilísticos relevantes;
-
descrição do estado de espírito do «eu».
Observação: Relativamente
ao terceiro tópico, são exigidos dois aspetos formais e dois recursos
estilísticos.
Explicitação de cenários de resposta
Importância das
referências temporais
A
importância das marcas de tempo é visível no poema, na medida em que:
- o
uso de formas verbais no pretérito imperfeito do indicativo («era», «Falavas»,
«havia», «dizias» - vv. 1, 2, 3 e 7), no pretérito perfeito do indicativo
(«trouxe», «mudou», «passou», «quebraste» - vv. 6, 12, 15 e 18) e, também, no
presente do indicativo («passa», «não se demora», «sabemos», «somos», «é», «não
é», «não é», «Não estamos», «traz», «não bebem»-w. 9, 11, 13, 15, 16, 17, 21, 22
e 25), marca a oposição passado/presente como um dos tópicos centrais do texto;
-
as referências de tempo, ao longo do poema («Às vezes», «Maio [...] outrora»;
«cada hora», «Ainda», «agora», «já não», «já não», «juventude», «setembro [...]
ainda», «já não» - w. 1, 6, 8, 11, 13, 16, 17, 20, 22 e 25). sublinham, de modo
sistemático, a consciência do sujeito de que a sua relação com o «tu» se
encontra em progressiva degradação, evidente num «agora» marcado pelo envelhecimento,
desprovida de encantamento e de fulgor. (De facto, a «harmonia» e a «plenitude»
associadas ao tempo passado estão circunscritas, no presente, apenas aos sinais
residuais dessa relação-vv.11-15 e w. 22-23);
- …
Valor simbólico dos
elementos da natureza
No
poema, a natureza é representada pelos seguintes elementos: «frutos»,
«animais», «cravos», «ramos», «fruto», «as aves e os ventos» (w. 5, 6, 20, 23 e
24). Assim se configura, simbolicamente, a presença de alguns dos elementos
primordiais: Terra («frutos», «animais», «ramos», «fruto») e Ar («as aves e os
ventos»); note-se que também o Fogo (sugerido por «cravos morenos» e «ardor» -
w. 7 e 18) e a Água («bebem» -v. 25) convergem nesta figuração simbólica.
Por
outro lado, os elementos da natureza estabelecem, ainda, uma oposição simbólica
entre:
- a
natureza que se renova («Maio trouxe cravos como outrora» -v. 6) e a plenitude
da vida, que já não se recupera;
- a
paixão inicial e plena (associada à «harmonia», à floração primaveril dos «cravos»
e a «Maio») e a situação de perda atual (representada pelos «ramos partidos» e
pelo «fruto» de «setembro», já outonal, indiciando o fim de um ciclo).
Aspetos formais e recursos
estilísticos relevantes
De
entre os recursos estilísticos presentes neste poema, salientam-se os
seguintes:
-
personificação do tempo («Maio trouxe», «cada hora / passa e não se demora»,
«setembro traz ainda / um fruto em cada mão» - vv. 6, 8-9, 22-23), associando o
amor aos temas da mudança e do ritmo cíclico das estações;
-
metáforas / imagens («cravos morenos», «ao partires um a um / os ramos todos da
tua juventude», «os homens, as aves e os ventos / já não bebem em ti a direção»
- vv. 7, 19-20, 24-25), contribuindo para a representação da perda;
- antítese
(«na tristeza das nossas alegrias» - v. 10) ou formulações antitéticas («um
novo gesto é igual ao que passou» -v. 15), salientando o carácter paradoxal das
emoções;
-
estruturas paralelísticas, marcando ora uma ligação entre o tempo passado e o
presente («Como outrora, / [...]como tu dizias»; «somos agora mais lentos,/
mais amargos» - vv. 6-7, 13-14), ora a associação entre poesia e erotismo («Um
verso já não é a maravilha, I um corpo já não é a plenitude» - w. 16-17);
- adjetivação
(«modos naturais», «cravos morenos», «mais lentos,/ mais amargos,/ um novo
gesto é igual» - vv. 2, 7, 13-15), descrevendo a perceção disfórica da mudança;
-
uso reiterado do advérbio de negação («não» - com cinco ocorrências), o qual,
conjugado com outras expressões adverbiais e conjuncionais de valor contrastivo
ou restritivo («Só», «já», «Mas»), acentua a tendência disfórica geral;
-
recurso aos dois pontos (w. 2, 12 e 21), reforçando a intenção explicativa do
discurso (de tom evocativo e intimista);
- …
Relativamente a aspetos
formais, temos, por exemplo:
-
composição constituída por cinco quintilhas;
-
esquema rimático variado, com presença de rima Interpolada, emparelhada e
cruzada, e ainda de versos brancos;
-
grande diversidade métrica, com versos que variam entre três e doze silabas;
- …
Nota - Para a atribuição
da cotação referente ao conteúdo deste tópico, é considerada suficiente a apresentação
de quatro elementos, sendo obrigatoriamente indicados dois recursos estilísticos
e dois aspetos formais.
Descrição do estado de espírito
do «eu»
O
sujeito poético mostra-se:
-
nostálgico, ao evocar um tempo de harmonia plena, associado ao «tu» e aos seus
«modos», similares aos da natureza;
-
amargamente consciente da perda do tempo edénico da relação, substituído por um
tempo presente disfórico, ao inventariar os fatores que eliminaram a plenitude:
a «tristeza» das próprias «alegrias», o passar inelutável de «cada hora», a
adulteração das vozes e dos gestos, a rotina que toma «um novo gesto [...]
igual ao que passou», a incapacidade de sentir a «maravilha» da poesia e a «plenitude»
erótica, a perda da «juventude»;
-
infeliz, ao realçar a sensação pessoal de perda, embora reconheça ainda os vestígios
de uma relação que persiste (cf. 3.ª estrofe e vv. 21-23);
-
lúcido, ao reconhecer a precariedade, a fragilidade do relacionamento, não se
mostrando esperançoso, antes sugerindo que antevê a aproximação inevitável do
fim (pois o «tu» deixou de ser o polo que irradia o fulgor necessário ao «eu»);
- …
(Fonte: Exame Nacional do Ensino
Secundário. 12.º Ano de Escolaridade (Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de agosto).
Curso Geral – Agrupamento 4. Prova Escrita de Português
A nº 138 e respetivos critérios de classificação. Portugal, GAVE [IAVE], 2003, 2.ª
fase)
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Eugénio de Andrade por Carlos Carneiro (1953) |
Texto de apoio
Da obra Amantes sem dinheiro (1950), o poema “Elegia” é composto por cinco quintetos, de versos heterométricos, entre quatro e doze sílabas poéticas, sendo a maioria constituída por versos mais longos. Há algumas rimas emparelhadas, interpoladas (ABCCB/DEFFE), toantes e consoantes (havia/harmonia, plenitude/juventude).
Elegia é uma composição lírica por meio da qual se lamenta com profunda tristeza acontecimentos dolorosos; referindo-se sempre à temática melancólica. No texto em questão, o eu-lírico, num tom melancólico, recorda um tempo passado. A partir da segunda estrofe, a ideia de tristeza, gradativamente, ganha força. Esse sentimento articula-se à ideia de tempo que passa, reiterado pelos verbos, na sua maioria, no pretérito imperfeito e, no presente. Os substantivos que marcam as estações do ano “maio” e “setembro” e outros: hora, demora, agora, outrora também reforçam essa ideia da passagem temporal. Sob essa perspetiva, o poema se estrutura, retoricamente, em dois momentos distintos. Os sete primeiros versos remetem às lembranças passadas e significativas que relembram momentos de plenitude da vida: “Às vezes era bom que tu viesses/ Falavas de tudo com modos naturais: em ti havia/ a harmonia/ dos frutos e dos animais”. A ideia é reforçada pelos advérbios “às vezes” e “bom” e, reiterada pelos substantivos “harmonia” e “maio”, que por sua vez, remete à alegria, juventude da vida, à primavera que renova a natureza “cravos morenos”.
No entanto, a conjunção “mas” rompe com o passado harmônico. Do verso oitavo até o final do poema, o eu-lírico revela sua melancolia diante do tempo que passa. A rutura temática é reiterada pela introdução da adversativa (mas), e a mudança do tempo verbal. Assim, no segundo momento do texto, vislumbra-se um paradoxo que indica o conflito alegria/tristeza: “na tristeza das nossas alegrias”, mas o sentimento que se instala é a tristeza/melancolia, reforçada por adjetivos negativos intensificados por advérbios “mais lentos”, “mais amargos”, por paralelismos negativos “Um verso já não é a maravilha/ um corpo já não é a plenitude”.
A ideia de melancolia cresce, gradativamente, perante a construção linguística, que mostra mais um rompimento na sintaxe, na semântica e sonoridade do poema, com o verso “tu quebraste o ritmo, o ardor”. O tempo que passa é o responsável pela melancolia, uma vez que faz perder o “ardor”, os “ramos da juventude”, com a chegada da velhice, também anunciada pelo outono que chega (o mês de setembro). Nos versos finais, há uma oscilação entre a esperança e a melancolia: o outono ainda traz a vida simbolizada “um fruto em cada mão”. Porém, nos dois últimos versos, a adversativa “mas” em consonância à negativa “não” volta a reforçar a angústia do eu-lírico (metáfora de sua obra) diante da nova realidade da vida: “Mas os homens, as aves, e os ventos /já não bebem em ti a direção”.
A esperança que passa à melancolia e à angústia pode ser reiterada, no plano sonoro, pela aliteração das sibilantes e assonância das vogais “o” e “i”, lembrando um sussurro de lamento. Assim, a musicalidade se configura, nesse poema, a partir do plano fono-semântico, uma vez que a ideia de música inicia-se já com o título “Elegia”, ressaltada por outros vocábulos: cantar, voz e ritmo, e reverberada pelas repetições sonoras: rimas, aliterações, períodos longos que evidenciam um ritmo monótono e contínuo, como a própria elegia lembra num tom de desabafo.
Nota-se que o uso do pronome “tu” é, na verdade, um recurso estilístico usado pelo poeta (como fizera em outros poemas), que revela a proposta de um “voltar-se para si”, numa atitude reflexiva.
Os quatro elementos da natureza são constantes na poesia de Eugênio de Andrade, no “retrato” que faz do homem e da vida. É nesse sentido que em “Elegia” presentificam-se os elementos: a terra, simbolizada pelos vocábulos frutos, animais, cravos, ramos e mão; o ar, nas metáforas “aves” e “ventos”; o fogo, revelado pelo substantivo “ardor” e a água, subentendida pelo verbo “bebem”. A presença dos elementos na poesia reforça a ideia da busca da comunhão do homem com a natureza e seu ciclo (o tempo passa). A vida é revelada pelo poder da palavra poética eugeniana.
Observa-se que toda a construção poemática revela a melancolia do eu-lírico, mas em relação a quê? A resposta pauta-se em algumas leituras possíveis: a melancolia cantada pode ser em relação à consciência do tempo que passa e com ele, o homem envelhece, restando apenas os momentos lembrados. Ou, num plano mais metafórico, pode-se entender que a angústia do eu lírico advém da consciência de que como a vida e o homem, a palavra também passa; “Um verso já não é a maravilha/ Mas os homens, as aves e os vento/ já não bebem em ti a direção”.
No que diz respeito ao efeito de sentido causado pela leitura e pelas estruturas textuais, a sensação de desalento vislumbrada pelo leitor na escrita configura-se desde o título, confirmando-se na adjetivação expressiva, na sonoridade das vogais fechadas e no poder verbovisual das palavras.
CARREIRO, José. “Às
vezes era bom que tu viesses, elegia de Eugénio de Andrade”. Portugal, Folha
de Poesia, 05-05-2020. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2020/05/ainda-sabemos-cantar.html
LUSOFONIA Plataforma de apoio ao estudo da
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