sábado, 14 de setembro de 2013

O VAGABUNDO (Manuel da Fonseca)

“ Enrico Natali, Subway
”
NYC Subway, 1960 by Enrico Natali

  
                        
O VAGABUNDO

Das casas que ninguém construiu
me deram esta para morar:
ficou-me o céu como tecto
e o vento como lençóis...
Dos trapos que atiram fora
me permitiram um para eu vestir.
Das chuvas que caem do tecto do meu lar
me consentiram abafos para as quatro estações.
(Ah, se não fosse às vezes fazer sol...)
Das mulheres que ninguém quer
me negaram a última de todas,
a última de todas as mulheres!
E quando notaram que eu parecia um homem,
pois tinha
ouvidos para ouvir
e olhos para ver,
em todas as estradas do mundo
me gritaram:
‑ Mendigo, vai ver o fim das estradas todas do mundo!
                
Manuel da Fonseca, série «O vagabundo e outros motivos alentejanos»
in Rosa dos Ventos, 1940
                
                

LEITURA ORIENTADA DO POEMA «O VAGABUNDO»
               
O uso repetitivo das preposições (das, dos) no poema foi utilizado para enumerar todas as privações que o vagabundo passa, ou seja, não ter uma casa para se abrigar, roupas adequadas para vestir, proteção contra mudanças atmosféricas ou alguém para amar. As privações do personagem do poema apresentam um realce maior através da descrição feita da “casa” que o vagabundo habita que tem “o céu como tecto e o vento como lençóis...”. Essa descrição encerra em si uma imagem extremamente lírica e que leva o leitor a visualizar essa “casa” e esse personagem.
Também a repetição do pronome oblíquo (me) em conjunto com os verbos (deram, permitiram, consentiram, negaram e gritaram) reforça as atitudes de desprezo da sociedade em relação ao vagabundo, que mesmo quando as pessoas notam que ele “parece um homem”, o comportamento continua sendo o mesmo, isto é, de indiferença e descaso sobre a situação desumana em que se encontra.
Essa indiferença é enfatizada pela expressiva pontuação do poema e pela presença do pronome “todas” ao remeter ao substantivo “estradas” que primeiramente vem precedido do substantivo (todas as estradas), ou seja em uma posição de realce com a finalidade de destacar que em “todas as estradas do mundo” as pessoas tem a mesma atitude em relação ao vagabundo e por isso o querem longe delas e o mandam “ver o fim das estradas todas do mundo”.
Assim, a vida do vagabundo, do mendigo, do maltês é de um andarilho que por nada possuir, não tem para onde ir, nem hora para chegar. O seu viver é em liberdade, sob o leito imensurável do descampado, tendo como teto o céu e o vento como lençóis, porém, sem direito a um abrigo contra as chuvas, nem uma mulher como companhia e tendo que vestir os trapos que os outros jogam fora. Ou seja, uma vida destituída de direitos, de confortos, de dignidade e cercada pelo desprezo e pela indiferença social. Desse modo, se percebe que a intenção do poeta não é simplesmente denunciar a miséria do corpo, mas também da alma. Afinal, o vagabundo representa uma figura não só privada de bens materiais como também da sua dignidade como ser humano em decorrência do abandono e do desdém de que é vítima socialmente.
               
Dissertação de mestrado de Rosilda de Moraes Bergamasco, 
Universidade Estadual de Maringá, 2012, pp. 115-116.
             



            

             
            
O VAGABUNDO NA ESPLANADA
           
A surpresa, de mistura com um indefinido receio e o imediato desejo de mais acautelada perspetiva de observação, levava os transeuntes1 a afastarem-se de esguelha2 para os lados do passeio.
Pela clareira que se abria, o vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha, despreocupadamente, avenida abaixo.
Cerca de cinquenta anos, atarracado3, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisola interior, o casaco, puído4 nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas5 dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada, aba6 às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta7.
Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso8 do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade.
Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade.
Alheado9, mas condescendente10, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação mas também pelo simples motivo de ter mais e melhor em que pensar.
O que não sucedia aos transeuntes. Os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos11, da deambulante12causa do seu espanto. E à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em qualquer circunstância e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios13, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos14 de prepotências15, sempre humilhados e sempre a fingir que nada disso lhes acontecia.
Num instante, embora se desconhecessem, aliava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos, do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fomes que o homem havia de sofrer. No entanto, alguém disse:
– Devia ser proibido que indivíduos destes andassem pela cidade.
E assim, resmungando, se dispersavam, cada um às suas obrigações, aos seus problemas.
Sem dar por tal, o homem seguia adiante.
Junto dos Restauradores, a esplanada atraiu-lhe a atenção. De cabeça inclinada para trás, pálpebras baixas, catou pelos bolsos umas tantas moedas, que pôs na palma da mão. Com o dedo esticado, separou-as, contando-as conscienciosamente. Aguardou o sinal de passagem, e saiu da sombra dos prédios para o Sol da tarde quente de Verão.
A meio da esplanada havia uma mesa livre. Com o à-vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se.
Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pelas soalheiras16 um sorriso de bem-estar.
Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação.
Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal e enrolou-lha nas canelas. O homem apanhou-a, abriu-a. Céptico17, mas curioso, pôs-se a ler.
O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se18, circunvagando19os olhos, como se gritassem: “Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!” Nas caras, descompostas pelo desorbitado20melindre21, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda22 raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada.
Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sob o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
– Não pode…
E calou-se. O homem olhava-o com tanta benevolência.
– Disse?
– É reservado o direito de admissão – tornou o rapaz, hesitando. - Está além escrito.
Depois de ler o dístico23, o homem, com a placidez24 de quem, por mera distração, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:
– Que direito vem a ser esse?
– Bem… – volveu o empregado. – A gerência não admite… Não podem vir aqui certas pessoas.
– E é a mim que vem dizer isso?
O homem estava deveras surpreendido. Encolhendo os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada pelas caras dos circunstantes25. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe.
– Talvez que a gerência tenha razão – concluiu ele, em tom baixo e magoado. –Aqui para nós, também não me parecem lá grande coisa.
O empregado nem podia falar.
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente:
– Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim, não me importo.
             
Manuel da Fonseca, Tempo de Solidão, 1973
               
_________________________
1.      transeunte: caminhante; peão.
2.      esguelha (de): de lado; de soslaio.
3.      atarracado: baixo e grosso.
4.      puído: gasto pelo uso.
5.      Ripas: tiras de madeira.
6.      Aba: friso, borda.
7.      alvacenta: esbranquiçada.
8.      anguloso: ossudo.
9.      alheado: distraído.
10.    condescendente: bondoso.
11.    Oblíquos: na diagonal.
12.    deambulante: que passeia ao acaso.
13.    Compadrios: favoritismos
14.    submersos: cobertos; invadidos.
15.    prepotentes: autoritários; poderosos.
16.    soalheira: exposição ao sol.
17.    céptico: em atitude de dúvida, incrédulo.
18.    empertigar-se: encher-se de vaidade; ensoberbecer-se.
19.    circunvagando os olhos: olhando em volta
20.    desorbitado: excessivo; exagerado.
21.    melindre: ofensa
22.    hedionda: horrível
23.    dístico: letreiro
24.    placidez: calma
25.    circunstantes: pessoas presentes



© Diário de Notícias
               
                
LEITURA ORIENTADA DO CONTO «O VAGABUNDO NA ESPLANADA»
               
1 - O ESPAÇO
Ao contrário de muitas narrativas de Manuel da Fonseca (cfr. O Fogo e as Cinzas),O Vagabundo na Esplanada decorre em espaço urbano, lisboeta: primeiro acompanhamos o protagonista na avenida (atual Avenida da Liberdade) e depois nos Restauradores. Tal implica naturalmente a consequência de ela se passar num espaço social muito distinto do das narrativas alentejanas do mesmo autor.
               
2 - AÇÃO
O começo ex-abrupto
Qualquer um de nós, se fosse contar esta história perante a turma, poderia começar assim: Eu vou contar a história de um vagabundo que há dias vi aqui em Lisboa e que era uma figura muito original… Etc. Depois prosseguiria mais ou menos ao modo de Manuel da Fonseca.
Mas na história, falta esta entrada, pois ela inicia-se ex-abrupto, abruptamente, sem preparação, mergulhando o leitor logo na ação ‑ o que é muito vulgar em narrativas modernas.
Duas sequências
O conto é constituído por duas sequências: a primeira, quando o protagonista desce a avenida, e a segunda, quando ele se encontra na esplanada do café dos Restauradores. Nos dois casos, manifesta-se uma profunda oposição circunstantes-vagabundo.
quiproquó, a ironia
A expressão latina qui pro quo significa equívoco, confusão de quem toma uma pessoa por outra. Nitidamente, o conto acaba com um quiproquó, que o leitor assume como irónico: um vagabundo maltrapilho, por equívoco, considera-se o cliente mais merecedor de ocupar a esplanada (destinada a pessoas de um estatuto económico acima dos limites da subsistência elementar, o que não era o caso dele).
         
3 - PERSONAGENS
O vagabundo
Não oferece dúvida que o vagabundo (com minúscula, pois ele é anónimo) seja o protagonista do conto. É-o um pouco passivamente, em particular na primeira sequência. O resto, que é o principal, são a sua postura, o seu modo de caminhar, os seus ares, e isso provoca grande perturbação quer nos transeuntes da avenida quer nos utentes da esplanada do café dos Restauradores.
O narrador idealiza-o muito; a gente duvida mesmo da possibilidade da existência dum “vagabundo” assim.
Releia-se o retrato desta original personagem e repare-se que primeiro o leitor apenas o “vê”, depois aprecia-o externamente (e já lhe descobre singularidades inesperadas) e por fim apercebe-se de alguns traços psicológico-morais seus, também eles singulares.
A partir do final da primeira sequência o vagabundo passa a ser referido como homem, até à exaustão – dez vezes. Falha de redação? Intencional?
Os transeuntes e os clientes da esplanada
Se a descrição do vagabundo parece beneficiá-lo, a dos transeuntes e dos clientes da esplanada (personagens coletivas) parece dar deles uma ideia excessivamente negativa, mesmo cruel: do espanto inicial passam à inveja e rejeição quase racista, sem fundamento nos hábitos comuns dos portugueses.
Há paralelismo nas reações dos transeuntes e dos clientes da esplanada.
Na perspetiva do conto, o marginal protagonista revela-se muito mais simpático ao leitor que as pessoas comuns, o que é verdadeiramente o mundo às avessas. Afinal as pessoas comuns são quem mantém os marginais, é a elas que eles recorrem nas mais variadas circunstâncias, pois eles não assumem a responsabilidade básica de garantir a sua subsistência.
Além disso, o café não é uma instituição de caridade ou domínio público, como a avenida, mas uma casa onde tem de haver regras que garantam a sua sobrevivência económica.
O empregado do café é um figurante.
O narrador é heterodiegético, não participante, e utiliza uma focalização externa, a de alguém, como que a de um dos circunstantes, particularmente atento ao que se passou e compreensivo para com o protagonista.
               
4 – O TEMPO
tempo da história é reduzido a dois breves momentos, com um intervalo (elipse) de permeio. A sucessão das duas sequências segue a ordem linear do tempo.
tempo cronológico leva-nos talvez para antes de 1974.
                
5 – CONTO NEORREALISTA
A narrativa neorrealista, que surge com o início da II Guerra Mundial, tem inspiração marxista e consequentemente intenta transformar as sociedades capitalistas no sentido do mundo utópico do socialismo (utópico, pois até hoje falharam todas as tentativas para o concretizar).
Situando frequentemente a ação em meios populares, onde as ideias comunistas não tinham implantação, esta narrativa recorre a um processo de oposição, de contraste entre uma personagem ou um grupo de personagens que, por quaisquer razões, questionam o meio ambiente e se aproximam das posições ideológicas do autor, e os circunstantes. É com certeza sobre este processo que assentam os exageros desta história – que intentam denunciar pretensos males do mundo capitalista.
Repare-se no desenlace: ele parece sugerir que afinal, se o vagabundo tem dinheiro para pagar a despesa, cessam as objecções à sua presença no café.
               
6 - APRECIAÇÃO
Há três aspetos marcantes no conto: as singularidades do vagabundo, as violentas reações dos circunstantes e o quiproquó do desenlace. Eles condicionam a adesão, conforme se aceitarem ou se recusarem.
A rejeição do vagabundo pelos circunstantes parece-nos exagerada e isso afeta o sentido da ironia final.
Manuel da Fonseca, que também foi poeta, na descrição do vagabundo recorre a expressões particularmente delicadas.               
Sobre O vagabundo na esplanada" in Português 10º Ano Página Pessoal de José Ferreira, 2011-06-04.
               

7 – FICHAS DE TRABALHO


                
                



PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER:
           
 Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Manuel da Fonseca, por José Carreiro. In: Folha de Poesia, 2018-05-04, disponível em https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/05/manuel-da-fonseca.html


 Poesia útil e literatura de resistência” (A literatura como arma contra a ditadura e a guerra colonial portuguesas), José Carreiro


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/14/o.vagabundo.aspx]

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Natália Correia: A Feiticeira Cotovia


Natália Correia, por João de Sousa



A exposição itinerante Natália Correia: A Feiticeira Cotovia, organizada pela Direção Regional da Cultura e seus Serviços Externos, no ano em que se assinalou o nonagésimo aniversário do nascimento e vigésimo aniversário da morte de Natália Correia (Ponta Delgada, 1923 – Lisboa, 1993), é constituída por quatro grandes temas que visam colocar em evidência o polimorfismo da criação literária nataliana, cuja audácia lhe valeu a proscrição de várias obras pela Censura, em vigor no contexto do regime do Estado Novo (1933-1974).

Consagrada a esta figura incontornável das áreas cultural e política nacionais da segunda metade do século vinte, a presente exposição dá ênfase à ação cívica no empenhamento em várias causas humanitárias, entre as quais, a defesa da liberdade, a denúncia dos regimes autoritários, a causa feminina, a defesa do património nacional e da paz universal.

A exposição reúne um conjunto de quadros pintados por Natália Correia e objetos pessoais, entre vários outros documentos inéditos, onde o destaque incide nos relatórios dos censores às obras proscritas durante o Estado Novo. É igualmente de realçar a integração do vídeo da estreia nacional, em 2005, no Teatro Municipal Mirita Casimiro, da peça inédita Auto do Solstício do Inverno, encenada pelo Teatro Experimental de Cascais, sob a direção do encenador Carlos Avilez.
Coordenação de Sílvia Massa.
http://www.culturacores.azores.gov.pt/agendaNovo/default.aspx?id=3257
http://www.culturacores.azores.gov.pt/agendaNovo/default.aspx?id=4548

Exposição "Natália Correia a feiticeira cotovia"



Esta mostra, organizada pelo Governo dos Açores no âmbito das comemorações regionais do 90.º aniversário de nascimento e 20.º da morte da grande escritora açoriana, foi inaugurada na Academia da Juventude, na Praia da Vitória, a 13 de setembro de 2013, dia do aniversário de Natália Correia.








          
PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE:
        
 Um retrato de Natália Correia”, Ana Maria Pacheco do Nascimento. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, Atlântida - Revista de Cultura, vol. LVIII, 2013.

 Reportagem da RTP Açores sobre a exposição "Natália Correia: a feiticeira cotovia". URL: http://videos.sapo.pt/QBUNhzlZCwCVV7nGa2PK, 2013-09-16.


S.O.S.! S.O.S.! (José Gomes Ferreira)

  
             
          
CAFÉ
1945-1946-1947-1948
I
       
Quem foi o arquitecto,
que fez este Café?
tão longe da Natureza 
e tantos homens de pé?

Criado: põe esta gente na rua!
E abre um buraco no tecto
que eu quero ver a lua.
           
LIX
              
Todas as noites toca um telefone na Lua.

Sou eu, sou eu a marcar o número automático dos poetas de hoje
para gritar cá de baixo em código de astros:

Está lá? Está lá? Aqui Terra, zero, zero, zero, zero, zero.
S.O.S.! Fome, ódio de mil patas, tiranos com cutelos de cinzas,
bandeiras de pele humana, olhos furados de cardos,
mortos que só vêem o céu através dos caminhos das raízes
‑ e as mães a baterem nos filhos
para lhes ensinarem a instrução primária das lágrimas.

Aqui escravos, preguiça, azorragues de chumbo derretido,
exportação de tédio dos palácios dos ricos, carregamentos de bocejos,
suor em latas para discursos de demagogos,
mordaças com restos de bocas de cadáveres,
fúria de túmulos, guerra, raptos, incestos, automóveis imbecis,
saques, mandíbulas nos olhos a roerem o azul
‑ e os dedos de súbito de ferro-em-brasa nos seios das mulheres,
lodo de sol aparente
que continuam a ser deusas nos jantares de cerimónia
com os colos luzidios das horas empertigadas.

Aqui planeta zero, zero, zero, nada, torres de musgo,
punhais a rasgarem noites em vez de chagas,
países de arame farpado, vulcões de sangue,
batalhas trespassadas do frio dos esqueletos concretos
‑ e ainda por cima a carne das mulheres só é real um momento,
um momento apenas
e em vão tentamos fixá-la com um sopro de frio
no rasto deste defunto com um caixão às costas
cheio de corações vivos.
S.
O.S.! S.O.S.!

Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas!
Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio
e vinde salvar-nos!

Vinde salvar os homens
para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,
só a serem homens,
homens apenas,
homens sempre,
de manhã até à noite,
semi-homens,
infra-homens,
super-homens,
ex-homens...

E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos, fartos
desta desistência
de já nem quererem ser deuses!

Nem de transformarem os cavalos em relâmpagos!
               
José Gomes Ferreira, Poesia III
Portugália Editora, 1971 (4ª edição), pp. 135, 193-194
                 
              
ORIENTAÇÃO DE LEITURA
                
Atenta no poema n.º «LIX» da série «Café». As perguntas que se seguem dizem respeito ao segmento textual desde «S.O.S.! S.O.S.!» até «Nem de transformarem os cavalos em relâmpagos!».
1. O excerto inicia-se com um apelo repetido.
1.1. Identifica o(s) interlocutor(es).
1.2. Que Ihe(s) é solicitado?
2. «para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos».
2.1. Segundo o sujeito poético, qual é o pesadelo dos homens?
3. Explica o sentido de: «semi-homens» e «infra-homens».
4. «E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos, fartos / desta desistência / de já nem quererem ser deuses!»
4.1 Interpreta a repetição do adjetivo «fartos».
4.2 Na tua opinião, os homens já desistiram de querer ser deuses («de já nem quererem ser deuses»? Fundamenta a tua resposta.
5. Parece-te possível que os homens transformem «os cavalos em relâmpagos»? Justifica.
6. Apresenta uma interpretação para a mancha gráfica do excerto.
7. O excerto começa por uma frase sugestiva: «S.O.S.! S.O.S.!» Justifica a afirmação.
               
Adaptado de Página Seguinte. Português 10º Ano, Filomena Alves e Graça Moura, Lisboa, Texto Editores, 2007.
            
            
JOSÉ GOMES FERREIRA (1900-1985)
UMA TESTEMUNHA PARTICIPANTE DO SÉCULO XX
              
José Gomes Ferreira nasceu no Porto em 1900. Embora tivesse conhecido o lançamento de Orfeu Presença e consequente manifestação dos dois momentos do modernismo aristocrático, como vimos, o poeta não se sente solicitado por ele e vai realizar-se, a seu tempo, seguindo outros rumos. Poesia (de 1948), Poesia II (de 1950)e os mais volumes da sua obra em verso surgem em plena fase da maturidade do poeta que assim se exprime em 1931, ao dar início à sua carreira poética: «... de repente, em 8 de Maio, às dez horas da noite... escrevi de jorro e sem esforço a minha primeira cristalização de poesia autêntica, com a sensação de quem abria uma porta secreta para uma zona interdita de riqueza confusa... ». Uma data histórica, sem dúvida, para o poeta e para a literatura portuguesa, pelo que de superiormente belo tem sabido encontrar na tal riqueza confusa de que atrás se falou.
É com a geração neorrealista que o poeta sintoniza, embora confesse o sortilégio que nele exercia o velho Gomes Leal que encontrava, por vezes, nos seus passeios com o Pai (A Memória das Palavras) e se sinta na sua poesia a presença de João de Deus e, principalmente, de Raul Brandão ‑ «o meu mestre secreto», como declara. Mas pende, de facto, para a linha da geração neorrealista do Novo Cancioneiro.
Literatura Prática (sécs. XIX-XX) 11º Ano, Lilaz Carriço, Porto Ed., 1986 (4ª ed.), p. 510.
            
            
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 Poesia útil e literatura de resistência” (A literatura como arma contra a ditadura e a guerra colonial portuguesas), José Carreiro

  
                      

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/13/S.O.S.aspx]

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

DOMINGO (Manuel da Fonseca)

 Susana Monteiro, “Manuel da Fonseca”, in Diário do Alentejo. Prémio Stuart de Desenho de Imprensa na categoria de Ilustração, 2011.
Susana Monteiro, “Manuel da Fonseca”, in Diário do Alentejo.
Prémio Stuart de Desenho de Imprensa na categoria de Ilustração, 2011.
           
           
DOMINGO

Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»...
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
‑ porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!

Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!

Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores...

Penso isto, e vou a grandes passadas...
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modo
se estranha a minha voz...
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
‑ ao sol
como num ritual consagrado a um deus! ‑
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida...
Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura...
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos...
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bom feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés...
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
‑ rapaz, traz-me um café...
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
‑ Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol...
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
‑ ... no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água...
... um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou...
O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?... ‑
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou...
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes...
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó...
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!
… … … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!
                    
Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, 1940
             
              
Audição do poema «Domingo» de Manuel da Fonseca

              
              
Analise o poema «Domingo» de Manuel da Fonseca, procurando seguir estas linhas de leitura:
  • a linguagem utilizada pelo poeta, em especial, o uso de símbolos como forma de revelar aspetos da realidade social e política de Portugal;

  • as temáticas presentes na poesia, que comprovam o comprometimento do poeta com a vida e a sua luta contra todas as formas de cercear e privar o ser humano de uma vida digna e em liberdade;

  • o espaço alentejano retratado pelo poeta, que revela tanto a beleza dessa região quanto as relações sociais, económicas e políticas que se estabelecem e tornam o Alentejo povoado por uma gente sofrida e injustiçada;

  • a presença de personagens no poema de Manuel da Fonseca que evidenciam as peculiaridades do homem alentejano e, eventualmente, as injustiças sociais sofridas por homens que habitualmente não tem direito a voz.
            
                

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 Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Manuel da Fonseca, por José Carreiro. In: Folha de Poesia, 2018-05-04, disponível em https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/05/manuel-da-fonseca.html



[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/12/domingo.aspx]