sábado, 18 de outubro de 2008

FERNANDO PESSOA REVISITADO


evocações
FERNANDO PESSOA
E OS ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS 
             
               
       
   
         
           
           
CARTA À MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA
     
     
     
     
Meu querido Fernando: Imagina você a falta que nos faz? Ainda há poucos dias, numa rua onde parámos a falar de si, o Almada me disse: O Fernando faz muita, muita falta! Na mágoa deste desabafo, pareceu-me reconhecer a mesma inconfessada sensação que a sua ausência, algumas vezes, me dá: a de ter feito uma partida que os seus amigos não mereciam. Quase apetece acusá-lo, gritar à sua memória: Você não tinha o direito de nos deixar tão cedo!
     
Mas o seu mestre Caeiro é quem tinha razão:
     
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
     
Na verdade, a fixação da nossa presença física, seja em que forma for, é o que tem menos importância; e vem daí, por certo, o enorme esforço que tenho de fazer para recordar a sua. Não sei que névoa me afasta da próxima realidade dela. É uma imagem embaciada, talvez pela comovida lembrança da sua delicadíssima discrição. O Fernando passou por aqui em bicos de pés, coerente com o conselho dado às companheiras por uma das veladoras do seu "Marinheiro": « – Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes.»
     
Em nada do que você usava se reflectia a fútil premeditação de exibicionismo. No entanto, toda a sua vulgaríssima indumentária, desde o chapéu aos sapatos, era, não sei porquê, espantosamente diversa da de toda a gente. Sei lá que tinha? Uma expressão inconfundível, um jeito especialíssimo, dado por si, sem querer.
     
Os seus gestos nervosos, mas plásticos e cheios de correcção, acompanhavam sempre o ritmo do monólogo, como a quererem rimar com todas as palavras. De quando em quando, pequenos risos (risinhos, é que diz bem), de criança triste a quem fazem cócegas, vinham festejar, alegremente, as descobertas do espírito – suas ou alheias, porque o Fernando não sabia reprimir o prazer que lhe causava a graça ou a simples alegria dos seus amigos.
     
A sua ironia, também de qualidade sui generis, era aguda, intencional, oportuna, mas sempre delicada e transparente, sem crueldades felinas. Nunca ouvi ninguém queixar-se de ter sido atingido por ela, nem assisti a que fizesse, na susceptibilidade de quem quer que fosse, a mais leve arranhadura. Era como aqueles gatos de boa raça que metem as unhas para dentro, quando brincam...
     
No acaso dos diálogos – aos quais nunca impunha, ditatorialmente, a direcção do seu espírito –, esperava que coubesse aos outros a sua vez de falarem para os escutar com atenção. Porém, no seu olhar, lia-se qualquer coisa parecido com o receio de que o supusessem perscrutador.
O seu discreto temperamento ajudava-nos pouco o desejo de lhe fazermos qualquer pergunta mais familiar, mais íntima. Como inquirir-lhe da saúde, sem ter medo de magoá-lo em qualquer parte da alma? Era difícil, sabe? Quanto mais perguntar-lhe: Que faz esta noite? Aparece amanhã? Chegava a ter a impressão de devassar-lhe a intimidade, quando o encontrava, às vezes, na rua...
     
Quando ia só, ou como se o fosse, apesar de não ser o que se chama, em linguagem doméstica, um abstracto ou distraído (pois a sua atenção, por mais repartida que estivesse, era sempre suficiente para apreender o que se passava à sua volta), costumava aflorar aos seus lábios estreitos o sorriso de quem lê uma carta confidencial, amiga e interessante.
     
Nada em si afastava quem o procurasse; antes pelo contrário – a não ser, a alguns dos mais orgulhosos ou tímidos dos seus amigos, a certeza de que você era incapaz, sem fortes razões justificadas, de procurar fosse quem fosse.
     
O seu sentimento de intimidade não era fruto de egoísmo nem de vulgar misantropia: era-o, sim, do profundo respeito que o Fernando tinha por si próprio e pelo que nos outros estimava que também fosse respeitável. Daí, a impossibilidade de abrir à curiosidade dos seus mais assíduos companheiros uma fresta por onde pudessem espreitar a sua vida sentimental:
     
«Não há quem saiba se eu gosto de ti ou não porque eu não fiz de ninguém confidente sobre o assunto.» Esta frase, cujas palavras sublinhadas o foram por si, é de uma das primeiras cartas que o Fernando dirigiu àquela a quem escreveu nove anos mais tarde: «... Se casar, não casarei senão consigo. Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são coisas que se coadunem com a minha vida de pensamento.»
     
As suas cartas de amor! Porque você amou, Fernando, deixe-me dizê-lo a toda a gente. Amou e – o que é extraordinário – como se não fosse poeta. Na evidente espontaneidade dessas cartas, que o Destino quis pôr nas minhas mãos, não se encontra um vestígio de premeditação formal, de voluntária intelectualidade.
     
Que admirável exemplo de humana integração no organismo da Vida! Lê-se qualquer delas – escolhida, ao acaso, entre as dezenas que a totalidade constitui – e logo nos ocorre esta pergunta, forrada de espanto: Como teria sido possível ao mais poeta dos homens e ao mais intelectual dos poetas portugueses (e, aqui, a palavra portugueses tem uma importância muito especial) libertar a tal ponto o coração da literatura?! (...)
     
Boa noite, Fernando. Não preciso dizer-lhe que sinto, nem por que sinto saudades suas. Mas não lhe peço que volte. Que temos aqui, que possa interessá-lo ou, o que é mais triste, merecê-lo? Não temos nada, bem sabe, de que você não conheça já melhor do que nós, o vazio sem fundo, a mentira sem remédio, a trágica inutilidade...
     
     
Carlos Queirós, «Carta à memória de Fernando Pessoa»
in Presença, nº 48, Julho de 1936 (extractos)

       

        
       

  


     
À MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA
     
     
Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão —
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida — esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
— Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga; as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver —
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me: transformemos
A nossa natural angústia de pensar —
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!
          
     
António Botto
In Antologia de poemas portugueses modernos
por Fernando Pessoa e António Botto.
Coimbra, Nobel, 1944. pp.189-190.
Reeditado em Canções e Outros Poemas, Edições Quasi, 2008
              
          


     
     
       



PESSOA REVISITED
     
     
Esta noite encontro-te, poeta.
Esta noite, que não é antiquíssima,
nem idêntica por dentro
ao silêncio,
sendo apenas o lúcido abismo
da minha insónia,
sigo da margem
o rio dos teus versos.
Alguma vez todos os poetas
se encontram contigo.
Mesmo os menores como eu
ou o meu vizinho do lado,
que é contabilista, não faz versos
e arrepela violino nas horas de lazer.
Esta noite olho e penso
os versos reaccionários,
em que reinventaste o sentido das palavras
e te negavas.
Negavas-te na irónica contradição
dos conceitos escalpelizados
e até
na matemática escorreita da correspondência comercial,
com o mesmo à vontade
com que um Einstein especula com espaços interestelares
e a diurna e esquisita noite galáctica.
O teu génio desmedido
frustrava em ti
o burocrata para uso externo.
E rias, alto
como um insulto amargo,
por detrás
do Álvaro de Campos snob,
ou oculto
na frieza geométrica e longínqua
do Ricardo Reis.
Cerebrais, frios, são,
dizem,
os teus versos.
São-no como quem fala, lenta,
pausadamente,
dissimulando na garganta o nó da angústia.
Diante
da alheia ignorância do tempo absurdo,
com a miopia e o bigode estreito
do manga de alpaca a fingir cabotismos,
habitavam
o génio e a náusea.
Com o gesto banal e repetido de quem
acende o cigarro
abriste as portas do espanto
e fizeste acreditar que eram as da dispensa.
Por isso
hoje nos limitamos a entrar,
por isso dormimos hoje com a cabeça
nos teus versos,
falamos com ar despreocupado
no Pessoa, à hora do café
e visitamos-te com secreta religiosidade.
Agora que tu te foste,
sem que déssemos por tal,
desapercebido, caminhando nos bicos dos pés,
como o fazias em vida,
em vão te buscamos,
em vão rezam por ti compridas laudas
em jornais a ressumar cultura,
em vão te imitamos,
em vão a estridência do nosso arrependimento.
 onde moras não há som
e nem sequer te incomodam no leito
as duras pedras e a terra húmida das raízes.
No dia 30 de Novembro de 1935
aqui fazia sol
e eu, na beira do passeio,
via passar os eléctricos sem os entender
e resumia o sonho à nitidez gulosa
do pão com manteiga,
sentado a milhares de quilómetros da tua morte.
Perdoa pois se não fui
ao teu enterro anónimo.
     
     
     
Rui Knopfli, in O País dos Outros (1959)
Memória Consentida. 20 Anos de Poesia 1959/1979, I.N.-C.M., 1982.
         
       
  
        
        
PESSOA
     
     
Onde tu estás, sem teres nunca voltado de parte nenhuma,
sem vontade de partir para onde nunca chegarás, porque aí
é já ontem, encontro-me contigo. Mandas-me sentar: e ambos,
à mesa de um dos cafés da Eternidade, escrevemos cartas que
nunca ninguém irá receber. Mas tu ris-te, sabendo que Ele,
o inCógnito, as está a ler, e também possivelmente a escrever,
através de ti, para um outro que tem o teu rosto e as tuas mãos,
e no entanto não és tu, e me está a olhar, agora. E tu dizes-me:
é um fantasma! E ris-te mais, nesse limbo onde começa a descer
um crepúsculo a que, noutro lugar. se chamaria a Morte: mas que
tu sabes ser mais do que a morte e, ao mesmo tempo, uma vida
a que ninguém ousará aspirar.
E fazes um silêncio, pensando naquela a quem escreveste as
cartas que nunca ninguém leu além de ti, nem ela própria, que
tu olhavas, num escritório cheio de sol e de vento, pensando em
barcos e em velas, enquanto ela pensava no que tu sentirias por
ela, sem saber que o que tu sentias só ela o podia sentir, nesse
reflexo de um tempo onde ela seria, apenas, a sombra de alguém
que poderia ter sido. (E essa súbita sombra turva a tua sombra,
que eu olho, e me assombra.)
     
     
Nuno Júdice,
in Um Canto na Espessura do Tempo, Quetzal, 1992
          
            

        
FERNANDO PESSOA
     
     
Vem ver agora o meu país que já
não tem Camões nem Índias para achar
 tem Pessoa e o império que não há
sentado à mesa como em alto mar.
A viagem que faz é só por dentro
e escreviver-se a única aventura.
No pensamento é que lhe dá o vento
ele é sozinho uma literatura.
Eis vida vidinha cega e surda
ditadura do não do só do pouco.
Ser homem (diz Pessoa) é ser-se louco.
Heterónimo de si na hora absurda
viajando no sentir escreve sentado.
E é Pessoa: “futuro do passado”.
     
     
     
Manuel Alegre,
in Sonetos do Obscuro Quê, Publ. Dom Quixote, 1993
          
              
          
FERNANDO PESSOA
     
     
Oculto no seu corpo e no seu nome
(Aranha que negava a própria teia
Que tecia),
Poeta da Poesia
Sibilina e cauta,
Foi o vidente filho universal
Dum futuro-presente Portugal
Outra vez trovador e argonauta.
     
     
Miguel Torga,
 in Poemas Ibéricos, Ed. de Autor, 1965
          


         
A FERNANDO PESSOA (ELE MESMO)

Cada verso é uma esfinge ter falado.
Mas quanto mais explícito ela o diz,
Mais tudo permanece inexplicado
E menos se apreende o que ela quis.

Erra um sussurro, tão etéreo e alado
Que nem mesmo silêncio o contradiz.
E o ouvi-lo, ou ávido ou irado
Na busca dum segredo sem raiz,

É como se em pensar - um descampado -
Passasse fugitiva e intensamente
O Tempo todo inteiro projectado

E a sombra ali marcasse, na corrente
Do nada para o nada, inda passado
E já futuro, a ficção do presente.

Reinaldo Ferreira, in PoemasVega, 1998
            
        
       
            
          



F. P.
       
       
De rosto em rosto a ti mesmo procuras
e só encontras a noite por onde entraste
finalmente nu – a loucura acesa e fria
iluminando o nada que tanto procuraste.
       
        
Eugénio de Andrade (5-4-1978)
 in O Outro Nome da Terra, 1988



         
      
             
     
 
              
                


FERNANDO PESSOA
       
       
Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo.

Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um de deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas.
       
       
Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Livro Sexto, Ed. Salamandra, 1962
      
      




[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/10/18/revisitarpessoa.aspx]      




Poderá também gostar de:
Enviar um comentário