terça-feira, 21 de janeiro de 2014

PORQUE O MELHOR, ENFIM. (Camilo Pessanha)


Cimetière du Père-Lachaise (foto de José Carreiro, 07-06-2014)

               
  
  
Porque o melhor, enfim, 
É não ouvir nem ver... 
Passarem sobre mim 
E nada me doer!

— Sorrindo interiormente, 
Côas pálpebras cerradas, 
Às águas da torrente 
Já tão longe passadas. —

Rixas, tumultos, lutas, 
Não me fazerem dano... 
Alheio às vãs labutas, 
Às estações do ano.

Passar o estio, o Outono,
A poda, a cava, e a redra, 
E eu dormindo um sono 
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso 
O leito me reserva 
No prado extenso e raso 
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope... 
E, esvelto, a intervalos 
Fustigue-me o galope 
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato, 
A brigas tão propício, 
Onde o viver ingrato 
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras 
Ruam pelas quebradas, 
Com choques de armaduras 
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até, 
Infame e vil da rua, 
Onde a torva ralé 
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera, 
Selvagem nos conflitos, 
Com ímpetos de fera 
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos! 
Horas jamais tranquilas, 
Em brutos pugilatos 
Fracturam-se as maxilas...

E eu sob a terra firme, 
Compacta, recalcada, 
Muito quietinho. A rir-me 
De não me doer nada.
  
Camilo Pessanha
  
  
Nota bibliográfica coligida por J.G. Elzenga:
Autógrafo pertencente a Carlos Amaro, atualmente perdido.
Publicações anteriores à segunda edição de Clepsidra:
Seara Nova, (de 24 de Agosto de 1940), com a indicação "Um inédito de Camilo Pessanha".
  
  

                 

  
Cimetière du Père-Lachaise (foto de José Carreiro, 07-06-2014)


Em «Porque o melhor, enfim, / É não ouvir nem ver... / Passarem sobre mim / E nada me doer! / ‑ Sorrindo interiormente, / Co'as pálpebras cerradas, / As águas da torrente / Já tão longe passadas.» ‑ é bem evidente o seu desencanto e até desespero face à vida que ama e que lhe foge, que o reduzirá ao nada, traduzido com despeito, realçando o negativismo dessa mesma vida que já o não atinge «Debaixo de uma pedra», mas que, mesmo assim, lhe dói o tê-la perdido e por isso o sentir-se morto antes de o ser, por um lado é o grito do inconformismo com o seu destino de mortal, por outro, um prenúncio de esperança no otimismo mais ou menos verdadeiro, nessa etapa desconhecida.
Lilás Carriço, Literatura Prática 11º Ano. Porto, Porto Editora1986 (4ª ed.) (1ª ed. 1977), p. 348
  
  
Cimetière du Père-Lachaise (foto de José Carreiro, 07-06-2014)

  
  
Se há tensão entre a transitoriedade do mundo e o desejo de fixação, a morte despontará também, nos versos de Pessanha, como o único modo de manter-se fora da ação corrosiva do tempo, uma vez que ela é a própria anulação do tempo. Mas a morte não poderá jamais ser um lugar de chegada efetiva, ela é uma promessa que não se cumpre, um horizonte imaginado e almejado, mas não verdadeiramente atingido. A famosa (e impossível) síntese que Pessoa tão bem expressou nos versos da Ceifeira – “ter a tua alegre inconsciência / e a consciência disso” (PESSOA, 1986, p. 144) – é como um sonho de morte também revelado por Pessanha:
Porque o melhor, enfim, 
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim 
E nada me doer! [...] 

Roubos, assassinatos! 
Horas jamais tranqüilas, 
Em brutos pugilatos 
Fracturam-se as maxilas... 

E eu sob a terra firme, 
Compacta, recalcada, 
Muito quietinho. A rir-me 
De não me doer nada.”
  
O que causa estranheza nesses versos é que o espaço da morte é por demais familiar, e não uma pura ausência de sensações; donde se conclui que não é possível dizer a morte, já que ela vem contaminada com algo da vida. Por isso a morte não pode libertar-se de seu estatuto de promessa; ela é, paradoxalmente (ao menos nos versos de Pessanha), o lugar da própria eternidade, mas de uma eternidade impossível de atingir. A poesia de Pessanha inscreve-se, portanto, nessa tensão entre um desejo de apagamento e a constatação de sua impossibilidade, o que evidencia que a linguagem é incapaz de uma auto-anulação, ela sempre fala demais, fala além do desejado. Ou melhor, a linguagem fala sempre demais ou de menos; por um lado é excessiva, por outro, insuficiente.
É esse caráter sempre falhado que remete a uma compreensão da linguagem enquanto alegoria que procuro assinalar aqui, isto é, uma forma de significação sempre marcada pela arbitrariedade, incapaz de alcançar um sentido último e verdadeiro, ao contrário do símbolo, que revelaria um ideal de plenitude e totalidade.
  
O Naufrágio das Caravelas”, Izabela Guimarães Guerra Leal. 
In: O MARRARE - Periódico do Setor de Literatura Portuguesa da UERJ, Número 7 (2006) - ISSN 1981-870X
  
  
Cimetière du Père-Lachaise (foto de José Carreiro, 07-06-2014)

  
  
 [Em] “Porque o melhor, enfim,/ É não ouvir nem ver…”, […] o anseio maior do poeta é por estar morto e enterrado, sem sentir nada, indiferente ao que se passa do lado de fora da tumba. O ideal de felicidade é […] negativo: "
E eu sob a terra firme,
[...]
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.
Como podemos perceber, […] a felicidade provém da supressão dos motivos da dor, da eliminação da vulnerabilidade do sujeito. Não é algo positivo, que se obtenha pelo esforço ou pela sorte. Não é satisfação. Pelo contrário, é uma condição negativa.
Mapa da língua, Paulo Franchetti, 2009-04-05.
  

Cimetière du Père-Lachaise (foto de José Carreiro, 07-06-2014)


  
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/01/21/porque.o.melhor.enfim.aspx]
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