sexta-feira, 3 de julho de 2015

Mário Viegas (1948-1996)

  
António Mário Lopes Pereira Viegas começou a sua carreira no TEC – Teatro Experimental de Cascais - após a interrupção do curso na Escola de Teatro do Conservatório Nacional. Actor, encenador e declamador fez do teatro português uma marca internacional. Um verdadeiro mestre da cultura em Portugal, Viegas adaptou e traduziu diversas obras de autores estrangeiros como o irlandês Samuel Beckett.

A sua atividade teatral irrequieta e irreverente como a sua vida que necessitava de uma constante liberdade criativa proporcionou, na sua diversidade, grandes criações artísticas.
Mário Jacques e Silva Heitor, Os actores na Toponímia de Lisboa. Lisboa: Câmara Municipal, 2001.



Mário Viegas declama a "Cantiga dos ais", Armindo Mendes de Carvalho


"O Teatro foi sempre a minha vida e a minha morte", Mário Viegas

     Nota biográfica

     António Mário Lopes Pereira Viegas nasceu em Santarém a 10 de Novembro de 1948 (e faleceu a 01 de Abril de 1996). Inicia-se no teatro amador no Circulo Cultural Scalabitano com 17 anos onde representa Trágico á força de Anton Tchekhov.
     Torna-se aluno do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde iniciou o seu percurso no teatro académico ao mesmo tempo que frequentava aulas noturnas no Conservatório Nacional de Teatro, também, em Lisboa. A sua carreira é finalmente impulsionada em Julho de 1966 com a peça A Maluquinha de Arroios no Teatro Experimental de Cascais (TEC), texto de André Brun com encenação de Carlos Avilez 10. Por exercer uma atividade que lhe era negada por lei enquanto estudante, Viegas foi expulso do conservatório e “chumbou” o segundo ano da faculdade em 1968.
     A sua estreia como ator profissional considera-se ter começado na TEC em 1968 com a peça O Comissário de Policia, com texto de Gervásio Lobato, e encenação de Avilez, onde Viegas participou como figurante, com apenas 20 anos. (Jacques e Heitor 2001:135)
     Ingressou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto para dar continuação a sua formação em História, local onde participou em diversas atividades culturais e artísticas do Teatro universitário do Porto, e foi de novo chamado ao TEC onde foi abordado pela PIDE e enviado para cumprir serviço militar, fase que descreve como uma fase marcante da sua vida pessoal e artística, em que esteve impedido de atuar em publico por três anos « (apesar de atuar às escondidas)».
     Afirma ainda que contudo esta fase:
[…] deu-me uma certa energia e uma certa disciplina, que afinal eu tenho – porque se não fosse assim eu não aguentava estar a fazer quatro peças ao mesmo tempo. (Mário Viegas, Entrevista de Viriato Telles, in Auto-Photo Biografia (não autorizada), pp. 167.)
É como declamador que o seu nome começa a ser bastante conhecido, rompendo com as tradições de João Villaret e impondo-se como o grande diseur de poesia em Portugal nos anos 70. (Ramos 1989:408) Neste período grava quatro discos, participa no programa televisivo Disco e Daquilo (1973/74) e representa a peça Oh Papá, Pobre Papá, a Mamã Pendurou-te no Armário e Eu Estou tão Triste, texto de Artur Kopit e encenação de João Lourenço na Casa da Comédia em 1973.
Em 1974 funda o Grupo de Teatro Feira da Ladra, traduzindo e trabalhando na peça Eva Péron de Copi que sofre várias repressões por parte da Embaixada da Argentina e nunca chega a ser estreada.
Em 1975 estreia-se no cinema e 1976 na Rádio como declamador e em folhetins.
Neste ano torna-se ainda coautor e intérprete da série televisiva Ninguém (com Artur Semedo) e da série infantil Peço a palavra.
Para complementar a sua formação artística Mário Viegas participou em 1977 no Curso de Atores e Dramaturgia de Augusto Boal e começa a sua carreira na Barraca, da qual foi um elemento fundador.
Em 1978 inicia na RDP um programa semanal de divulgação de poesia Portuguesa, Palavras Ditas que continua ate 1982, e que é também editado como uma série televisiva de 13 episódios. Em conversa com a Professora Vera San Payo e João Lourenço é-nos dito:
[…] o Villaret criou um estilo de dizer poesia, mas o Villaret era o Villaret a dizer poemas […] e ele ficava bem a dizer aquele estilo […] mas ficava mal nos outros […] nos que imitam Villaret […].
[…] fez o programa Palavras ditas para a televisão e era uma maravilha […], corria Portugal com os poetas […] em sítios […] com clima muito pós 25 de Abril, quase comícios […] e aparecia a dizer poemas e as pessoas pensavam que os poemas eram dele […] ele chamava tanto a si os poemas, ele dizia-os de uma forma tão pessoal, tão pessoal, que ele era um poeta […] (Conversa com Vera San Payo e João Lourenço - Apêndice II)
Viegas era sem sombra de dúvida um homem «[…] muito ligado à palavra […] gostava que os textos tivessem palavras […] palavras muito significativas ele gostava muito de as dizer com tudo o que ele achava que elas tinham para dizer […]» (Apêndice II)
Ao longo dos anos 80 destacam-se a fundação do Novo Grupo, sediado no Teatro Aberto, onde interpretou várias obras (ver Apêndice I) e encena o espetáculo Confissões numa Esplanada de Verão (que incluía as peças Trágico á força de Tchekhov, A mais Forte de August Strindberg, O Homem da Flor na Boca de Pirandello e A Última Gravação de Beckett). Concebe e encena ainda O Esfinge Gorda, colagem de textos de Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa e José de Araújo).
Em 1985 assume a direção artística do Teatro Experimental do Porto (TEP), onde encena e participa como ator em diversos espetáculos. (ver Apêndice I)
A sua atividade teatral irrequieta e irreverente como a sua vida que necessitava de uma constante liberdade criativa proporcionou, na sua diversidade, grandes criações artísticas.
Mário Jacques e Silva Heitor in Os actores na Toponímia de Lisboa, pp. 135 Em 1988 deixa o TEP para fundar a Companhia Teatral do Chiado (CTC) que «[…] nasceu da ideia de fazer uma companhiazinha com meia dúzia de tarecos e sem dinheiro […]» (Viegas 2003:165), algo que ainda hoje é ouvido da boca dos atores da companhia que se referem à mesma como “a Companhia Teatral do Chiado reduzida”; Viegas investiu na companhia recorrendo a fundos próprios.
Fundada por Mário Viegas, Juvenal Garcês e Eduardo Firmino, a companhia estreou-se em 1991 com a apresentação com quatro espetáculos. Eram eles A Birra do Morto; 3 Atos de Beckett; O Cantinho de Maria e Mário Gin Tónico Volta a Atacar. Napeça A birra do morto, Viegas participou como ator, encenador, diretor artístico e produtor. Este texto de Vicente Sanches já tinha sido encenado por si no TEP em 1986.(foto do programa no Anexo III)

  


Companhia Teatral do Chiado (CTC)

O que antes era quase uma arrecadação do Teatro Municipal S. Luiz tornou-se rapidamente a sala-estúdio - e única sala até hoje - da Companhia Teatral do Chiado.
Oferecida pela Câmara municipal de Lisboa a sala era pobre em condições; no entanto o público suportava essa falta de condições em prol do teatro que Viegas lhes conseguia oferecer; um teatro onde predominava o ator e a palavra, numa enorme simplicidade.
Os espetáculos eram simples também na sua estética. Com o dinheiro atribuído pela Secretaria de Estado da Cultura para a realização de um único espetáculo, Viegas levou à cena quatro espetáculos.
Mas nem essa dificuldade monetária põe de parte a atração do público pela companhia ou pelos seus membros. Os espetáculos esgotam, não existem lugares vazios na plateia e rapidamente se espalha a palavra de que a Companhia Teatral do Chiado tem uma nova obra em cena e que deve ser vista. Amigo passa a palavra a amigo – porque não existe melhor publicidade do que a palavra, que precisa apenas de um começo e, logo, o fio condutor se dividiu em múltiplas linhas de contacto – e é, novamente, sala cheia. Mário Viegas chamava-lhe «um teatro pobre no bom sentido da palavra. Sem meios, mas com toda a sinceridade» e era isso que o público procurava nesta companhia e em Viegas – um teatro e atores sinceros que lhes oferecessem algo diferente das superproduções de outros grupos. Não existia uma explicação estética para os cenários inexistentes ou para os projetores de poucas cores. «[…] nós temos meia dúzia de projetores, e a maior parte dos que temos foram roubados. […] Roubei mesmo, de roubar, em vários teatros onde fui» diz Viegas em entrevista a Ana Maria Ribeiro «[…] parece que a falta de dinheiro é incentivo ao talento, mas não.» (Viegas 2003:197)
Ainda hoje, tantos anos após a criação desta companhia, o estilo – se é o que podemos chamar assim – mantem-se o mesmo. Espetáculos como Broadway Baby, As obras completas de William Shakespeare em 90 minutos ou O gato contam todas com acessórios simples, facilmente removíveis e focam-se no ator e no que este traz para o palco que nada tem do tamanho ou maquinaria dos teatros nacionais mas, ao mesmo tempo, nada perde por isso.
O humor de Mário Viegas transmitiu passa por conceitos diversificados do cómico: há grandes diferenças entre o humor farsesco de Vicente Sanches, inserido no contexto Português, e o humor trágico Beckett. (Viegas 2003:151)
[…] Para ele a arte não e apenas um processo de realização, uma afirmação ética e expressão pessoal de criatividade […] O público existe, não como um conjunto de espectadores, mais ou menos interessantes, escondidos na sombra; […] o público existe como um grupo de pessoas com quem estabelece comunicação no sentido da palavra, como recetor e emissor. (Mário Viegas, Entrevista de João Porto para Jornal de Letras, artes e ideiasin Auto-Photo Biografia (não autorizada), pp. 151.)
Em homenagem ao ator e encenador, a Companhia Teatral do Chiado é hoje em dia o Teatro Estúdio Mário Viegas.




O Teatro na Política

A 17 de Agosto de 1993, Mário Viegas escreveu um texto, que publicou, em que explicava a criação do seu último espetáculo Enquanto se está à espera de Godot.
Afirma que a sua conceção durou seis meses «de forçado silêncio, de enormes sofrimentos» da companhia. Claramente desiludido pelo rumo do teatro em Portugal Viegas torna a referir este texto no final deste mesmo espetáculo (Viegas 2003:190)
Poderíamos, talvez dizer que, se não fosse pela sua participação ativa na vida politica o humor de Viegas, a sua visão, o seu trabalho em palco tanto como encenador e ator e, até mesmo, a sua escolha de repertório e traduções não teriam sido os mesmos. Viegas “sustentou” a CTC com baixos subsídios do estado e já sabia que seria assim.
Eu nem concorri aos subsídios da Secretaria de Estado da Cultura porque disse tão mal do dr. Santana Lopes e da sua política que achei, por coerência e por dignidade, que não devia pedir dinheiro. O dinheiro não é dele, é de todos nós que pagamos os impostos […]
Mário Viegas, Entrevista de Ana Maria Ribeiro,
 in Auto-Photo Biografia (não autorizada), pp. 197

A 06 de Setembro de 1995 baseia-se no Manifesto Anti-Dantas para criticar o Primeiro-ministro em funções Cavaco Silva num texto a que chamou Manifesto Anti-Cavaco e que apresentou no S. Luiz. Viegas participou em diversos comícios, e viveu em plenitude o espírito pós 25 de Abril.

http://marioviegasparaquasetodos.blogspot.pt/2012/10/manifesto-anti-cavaco.html

No mesmo ano, candidatou-se a deputado, como independente nas listas da União Democrática Popular, e posteriormente à Presidência da República Portuguesa (também apoiado pela UDP), adotando o slogan “O sonho ao poder”, e procurou apoio no meio universitário lisboeta.
Adota como lemas de campanha a frase de Eduardo de Filippo “os atores vivem a sério no palco, o que os outros na vida representam mal”.
Os seus slogans de campanha possuíam também eles um certo toque teatral: “Viegas amigo! O Mário está contigo!!”; “Mário só há um! O Viegas e mais nenhum!” e “O Mário que se lixe! O Viegas é que é fixe!”

http://marioviegasparaquasetodos.blogspot.pt/2012/07/nesta-patria-onde-terra-acaba-e-o-mario.html


«CANDIDATURA À PRESIDÊNCIA - O monólogo mais feroz e alucinado feito entre nós»
http://marioviegasparaquasetodos.blogspot.pt/2013/02/mario-viegas-o-mal-amado.html




Ligação a Beckett

A 18 de Abril de 1959 Ribeirinho levou à cena, no Teatro da Trindade a peça À espera de Godot de Samuel Beckett e foi através desta encenação que o dramaturgo Irlandês chegou a Portugal.
[…]
Não é difícil perceber que existia uma ligação entre Mário Viegas e Samuel Beckett. Não só por este se tratar do seu autor preferido mas também pela personalidade deste (ver Capítulo 2).
Encontrava nos trabalhos de Beckett também, «[…] talvez […] uma certa poesia, algo não muito concreto mas universal; as pessoas não percebem, sentem […]»; o facto deste não ser «[…] um autor muito realista; ter assim uma escrita enigmática […] (Apêndice II) e o reduzido número de personagens eram fatores muito apelativo nos trabalhos de Beckett, uma vez que permitiam a Viegas uma maior liberdade para moldar e estruturar o texto e os seus intervenientes à sua maneira.
[…] as coisas que ele gostava, que eram muito claras, […] o Beckett e os poetas […] gostava e gostava muito […] e queria muito partilhar também com os outros. (Conversa com Vera San Payo e João Lourenço - Apêndice II)

Numa nota mais pessoal

Mário Viegas era caracterizado por aqueles que o conheciam melhor de diversas maneiras.
Viriato Teles descreve a vida de Viegas como:
[…] um corrupio de cenas e emoções, poemas e paixões, amigos e bebedeiras. Poucos atores conseguem aguentar um ritmo de trabalho tão intenso como este Mário Viegas, mas menos ainda são capazes de que a essa intensidade corresponda uma tão grande dose de prazer. (in Viegas 2003:165)

Cristina Peres em 1993, em crónica a Mário Viegas (Viegas 2003:195) referia-se ao ator como «um grande encadeador de palavras, às quais vem dedicando a vida.»
João Lourenço (Apêndice II) descreve Mário Viegas como sendo muito inteligente, muito culto e bem preparado, mas nada humilde.
A sua irmã, Hélia Viegas, em entrevista ao seminário regional O Mirante descrevia-o como uma pessoa excecional, desde cedo muito dotado de um espírito muito crítico.
Era uma pessoa espetacular, com uma auto-disciplina rigorosa que exigia muito de si. Na família era uma pessoa observadora, calada, com muita graça. Tinha uma linha satírica e de crítica social que já vinha do meu pai e do meu bisavô Francisco José Pereira. Nasceu com eles. Em casa era uma pessoa normal, que gostava de estar em família, sobretudo nos últimos 20 anos.
Após a minha conversa com Vera San Payo de Lemos e João Lourenço, fiquei a conhecer um Mário Viegas irreverente, curioso e cheio de vida. Estar com ele significava espera o inesperado e o mesmo se pode dizer do seu trabalho.
As interpretações funcionavam com ele muito bem, sempre. Mas havia noites em que ele era genial. (…) Fazia umas coisas que nós ficávamos de boca aberta. O que ele conseguia tirar da personagem e transmitir ao público. Ele era sempre um bocadinho diferente não é? Mas havia noites espantosas não é? Eu lembro-me de o ver… o que este homem fez. Ele não era possível de fazer igual. De vez em quando o público tinha esse prémio, de quem o assistia, de ver, de vez em quando, qualquer coisa genial. (João Lourenço - Apêndice II)
A sua personalidade levava-o a actos que marcavam qualquer um. Desde o roubo – da ideia da transgressão, do “contra” – até ao comer as folhas após decorar as falas da peça. O seu lado crítico era integrado em quase tudo o que fazia. Vimos nos capítulos anteriores algumas das suas “peças políticas” como Manifesto Anti-Cavaco ou Europa não! Portugal nunca! e podemos ainda acrescentar uma crónica ao Diário de Notícias intitulada Retratos do público feito a partir da bilheteira onde Viegas fazia uma analise do público baseando-se nas perguntas feitas à bilheteira sobre o espetáculo.
(…) ele entrevistou a bilheteira que era a D. Emília e então ela que escrevesse um catálogo de perguntas, uma lista de perguntas das pessoas que telefonavam para lá. “Tem desconto? Quanto tempo dura? É chato? Tem catálogo? É drama?” depois ele a partir dessas perguntas fazia um retrato do público. Ele era um poeta muito bem visto por isso também tinha esse pensamento sobre o teatro e sobre a sociedade. Tinha esse lado crítico contra a burguesia, contra as pessoas instaladas, contra o sistema. (Vera San Payo de Lemos -Apêndice II)
Viveu a vida a alta velocidade e com um gosto invejado por muitos. Fez teatro pela arte e não pelo dinheiro e nunca se conformou com a visão dos outros, mantendo sempre firme a sua posição em relação à sociedade e à política. Recusava-se a traduzir as obras mas tinha sempre uma opinião sobre a tradução dos outros e, seja em que palco estivesse, deixava sempre a sua marca.
João Lourenço: Mas era muito inteligente, muito vivo. Muito engraçado.
Vera San Payo de Lemos: Faz muita, muita falta. (Apêndice II)




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  • Mário Viegas... e Tudo, documentário realizado em 1997 por Maria João Rocha e produzido por Fernanda Teixeira para a RTP.


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