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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Catarina Eufémia


Grandes Portugueses: Catarina Eufémia, símbolo da revolução

Ver, na íntegra, o programa apresentando na RTP, em 1974-05-18, por João Martins, comemorativo do vigésimo aniversário da morte da trabalhadora rural Catarina Eufémia, símbolo da resistência antifascista, a 19 de maio de 1954, em Baleizão, no Alentejo:



  
      Versos em homenagem a Catarina Eufémia (1928-1954)

      CANTAR ALENTEJANO | Vicente Campina




Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

Vicente Campina
Este poema foi musicado por José Afonso, no álbum «Cantigas de Maio», editado no Natal de 1971
Disponível em: http://www.pcp.pt/actpol/temas/pcp/catarina/index.htm

Gravura de José Dias Coelho, sobre o assassinato de Catarina Eufémia, em Baleizão, em 1954,
quando lutava com os operário agrícolas por melhores salários.


LAIVOS DE AQUENTEJO  |  Luísa Vilão Palma


O panal era branco em rendas de suor, como a cal que a Ti Liberta fervia no azado, ao fundo da rua do monte. O ervaçal no empedrado. O monte era o rumo dos dias nas tardes calmosas. Deixava a tarimba ao luzir do buraco, enquanto o cão ansiava a bôla de farelo, impaciente. A cauda do animal agitava-se na cadência dos passos da mulher.
O patrão podia aparecer a qualquer hora. O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de coração apaixonado na metáfora do escritor.

— Bom dia, Ti Liberta, já soube da desgraça?
-Oh! home, o que dizes tu?

O olhar da mulher fraquejou, começou a toldar-se, fundindo-se na sombra da azinheira solitária que o artista empresta à tela camponesa as tuas mãos em gesto ritmado no movimento da foice as paveias soam a queixume de quem implora o pão

..hás de fazer do teu lenço vermelho a única bandeira viva sobre a terra...

Sim, a desgraça, ti Liberta. Ela caiu. Ali mesmo.

Entre a terra e o céu. Lá. Pelo Maio calmoso das aceifas escureceu o sol tardiamente, beijando-lhe a face pela última vez. Lá. Onde a imensidão. Vagueiam gestos ousados em lágrimas de sangue da mulher.
O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de ódio no retrato da tirania.

Ti Liberta, abra os olhos.

Já faz tempo que a ceifeira, na voz de todas as ceifeiras, deixou rolar a foice entre o trigal, desesperada. Foi por mor do acrescento de uns tostões à jorna.
Ficou tamanho eco no infinito da gente que lutou até à exaustão.
A tua foice, Catarina.
Alentejo, vestimos os teus panos. Tu matas-nos a sede

Luísa Vilão Palma


RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA  |  Ary dos Santos

Retrato de Catarina Eufémia. Edição [Lisboa : s.n., s.d.]
Texto do cartaz: [Poema] "Retrato de Catarina Eufémia" de José C. Ary dos Santos
URL http://sinbad.ua.pt/cartazes/CT-ML-II-887


Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

José Carlos Ary dos Santos


AO RETRATO DE CATARINA | Carlos Aboim Inglez

Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta

Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido

Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura

Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto

Carlos Aboim Inglez


CATARINA EUFÉMIA | Francisco Miguel

Na vasta planície os trigos não ceifados.
Ao longe oliveiras batidas pelo sol.
Tu serena caminhas para os soldados
com a ideia, para todos um farol.

A brisa não se levantara.
Ias armada apenas da razão.
Contigo os milhões que têm, fome
contigo o povo que não come e que ali cultiva o nosso pão.

O monstro empunhava as armas de aço.
Tu pedindo a paz serena caminhavas
levando um filho no colo outro no regaço.

As armas dispararam, tu tombaste.
Com teu sangue a terra foi regada.

E ali à luz do sol que tudo ardia
dava mais um passo a nossa caminhada.
Na boca da mulher assassinada
certeza da vitória nos sorria.

o sol que o teu sangue viu correr
que teus camaradas viu ali aflitos
ouvirá amanhã os nossos gritos
quando o novo dia amanhecer

Que nessa terra heróica - Baleizão -
onde se recolhe o trigo branco e loiro
teu nome gravado em letras de oiro
tem já cada um no coração

Francisco Miguel

QUANDO A FLOR DE TRIGO FOR DE PAZ, BELA CATARINA | Eduardo Fonseca







Eduardo Valente da Fonseca


CATARINA EUFÉMIA | Sophia Andresen

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, 1972



ANTÍGONA E CATARINA EUFÉMIA: FIGURAÇÕES DA JUSTIÇA EM SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
[…]
Se observarmos o poema “Carta aos amigos mortos” encontraremos, por sinal, uma imagem que é notável síntese do enfrentamento realizado nessa poética, a de fazer frente: “Aqui me resta apenas fazer frente/ Ao rosto sujo de ódio e de injustiça” (Andresen, 2003 [1962]: 46). O mesmo sintagma, fazer frente, também está mencionado precisamente no poema “Catarina Eufémia”, que integra a última parte, intitulada “Em memória”, do volume dual. Trata -se de uma conhecida personagem histórica que, após ter sido morta em 19 de maio de 1954 por um membro da Guarda Nacional Republicana, foi consagrada como símbolo de luta do proletariado rural português durante o regime salazarista. Podemos, inicialmente, dizer que seu fazer frente resulta em um dos poemas mais explicitamente políticos do conjunto da obra poética andreseniana. Mas não somente. As noções de justiça que ali são articuladas talvez sejam as que mais esclarecem que tipos de reivindicações e protestos Sophia Andresen faz quando demanda justiça em seus poemas. Primeiramente, podemos apontar, sim, o cunho político, potencializado pela personagem identificada com uma vítima factual, além da inclusão de várias informações sobre aquele crime, detalhes perceptivelmente retirados da imprensa. Devemos apontar também a literal busca de justiça que o último verso preconiza: “E a busca da justiça continua” (Andresen, 2004 [1972]:74).
Alguns exemplos confirmam-nos que tal episódio do assassinato daquela trabalhadora transformou-se numa alegoria da luta desigual e da conduta ilibada por parte do lado mais fraco. Isso é encontrado nos versos de Francisco Miguel, de um poema intitulado “Catarina Eufémia”, que relata uma exemplaridade em desvantagem: “Tu serena caminhas para os soldados/com a ideia, para todos um farol” (Miguel, apud PCP). Nos versos de vicente Campinas, em “Cantar alentejano”, depois musicado por José Afonso, é sublinhada uma busca de justiça semelhante à referida por Sophia, mas claramente transferida às mãos de outros trabalhadores, que, por terem testemunhado o crime, mantêm a mesma luta: “Acalma o furor campina/Que o teu pranto não findou/Quem viu morrer Catarina/Não perdoa a quem matou” (Campinas, apud PCP).



Também nos versos de Ary dos Santos, de “Retrato de Catarina Eufémia”, “Catarina morrendo alpendurada/do alto de uma foice” é uma imagem da integridade, do posicionamento político, da atitude de resistência e da dura punição recebida, “de corpo inteiro como ninguém foi/de pedra e alma como ninguém quer” (Santos, apud PCP). “Ao retrato de Catarina”, de Carlos Aboin Inglez, aponta um embate e a ameaça a uma lei ditada pelo poder, conflitos rigorosamente reprimidos: “Quando o teu altivo porte/Fazia sombra ao patrão/Sua lei ditou-te a sorte/Negra bala foi teu pão” (Inglez, apud PCP). Se essas leis tortuosas, do patrão e da guarda, remetem-nos à peça de Sófocles e aos desmandos de Creonte diante da postura moral de Antígona, percebemos no poema de Sophia uma justiça humana igualmente corrompida. Já que Díkē já foi exilada, vivemos nós o exílio de sua ausência. […]
Temos já na primeira estrofe [do poema de Sophia Andresen] a informação de que Catarina ficou exposta e de que estava grávida. A edição de maio -junho de 1954 do jornal o camponês, “órgão dos Camponeses de Portugal”, portanto, dos próprios trabalhadores e da época daquela ocorrência, com o título “Uma camponesa”, afirma que “o ódio dos fascistas pelos camponeses teve a sua mais infame expressão”, ao que complementa ao relatar que um “grupo de camponeses” foi recebido a “rajada de metralhadora”, quando “à frente iam camponesas com os filhos ao colo”. A reportagem menciona Catarina Eufémia ainda como uma dessas mulheres, das quais se destacou ao dizer “Nós temos fome e queremos é falar com os de Penedo Gordo”, frase que, segundo esse relato, resultou em uma agressão que a derrubou: “grávida, caída no chão e segurando um filho que trazia ao colo, gritou -lhe «nós temos fome e queremos paz»”. De acordo com a publicação, “o tenente assassino metralhou friamente a camponesa dando-lhe morte imediata e ao filho que trazia no ventre” (o camponês, apud PCP).
No Diário do Alentejo, de 21 de maio de 1954, também do mesmo mês do facto ocorrido, é relatado que “a morte foi provocada pela pistola-metralhadora do sr. Tenente Carrajola, que comandava a força da G.N.R” e confirma as informações trazidas no jornal camponês: “No momento em que foi atingida, a infeliz mulher tinha ao colo um filhinho, que ficou ferido, em resultado da queda. A Catarina Efigénia [assim aparece o seu nome naquela publicação] tinha mais dois filhos de tenra idade e estava em vésperas de ser novamente mãe” (Diário do Alentejo, apud PCP).
O jornal Avante!, órgão Central do Partido Comunista Português, de abril de 1955, ano seguinte ao ocorrido, com um subtítulo “Catarina Eufémia não morreu!”, além de mencionar diversas homenagens realizadas àquela camponesa, narra que essa reportagem de o camponês foi lida em voz alta a muitos trabalhadores em reuniões em todo o país, do que podemos deduzir que foi daquele primeiro jornal a versão que a mitificou. No Avante! de 24 de maio de 1974, sob o título de “Grande jornada popular em memória de Catarina”, aparece resumido que “Catarina Eufémia, militante do Partido Comunista Português, caiu, na flor da vida, em Baleizão, à frente de uma greve. Depois, o seu nome tornou -se bandeira e chegou aos confins do mundo, a toda a parte onde o proletariado trava a sua luta pela instauração do socialismo” (Avante!, n. 198, abril de 1955, apud PCP), sublinhando, desse modo, o caráter político e partidário do fato. Dentre os jornais que compõem o dossiê organizado pelo PCP, disponível em rede, o periódico Militante, de 1989, confirma tal versão: “grávida e com o pequenito José Adolfo, de 8 meses, ao colo, esta avança decidida, confiante e sem temor, para o diálogo” (Militante, apud PCP).
Desse modo, com base nas informações da imprensa, vemos que os versos de Sophia de Mello Breyner Andresen exaltam esse fazer frente de Catarina, que ao contrário da maioria das mulheres de seu tempo, não ficou “em casa a cozinhar intrigas”, pois “era preciso que alguém não recuasse”, e “Porque eras a mulher e não somente a fêmea” (Andresen, 2004 [1972]: 74). Chamamos a atenção também para o contraste entre a frontalidade e a obliquidade, valores estendidos a uma postura. Fica-nos claro o apoio do poema à posição de reivindicação, à greve, ao pedido de melhorias do pagamento, ao comprometimento partidário e à resistência daquela trabalhadora, assim como à denúncia e condenação daquela morte. Contudo, além de uma leitura político-partidária, encontramos na menção a Antígona um ponto chave, fundamental para que possamos elucidar a proposta de justiça desse poema, uma possibilidade de sanar a caótica injustiça circundante: “Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste” (Andresen, 2004 [1972]: 74).
Ora, encontramos na tragédia de antígona a encenação ao extremo do embate entre duas leis, de um lado, a do soberano, promulgada por um humano, que rege as relações interfamiliares da cidade, priorizada pela personagem de Creonte, e, do outro, a lei eterna, de origem divina, prescrições que regem as relações dentro das famílias, o comportamento na casa, os ritos, defendida pela personagem de Antígona. Lembremos que essa filha de édipo foi condenada dentro da lei humana exatamente por ter colocado a lei familiar e sagrada acima dos decretos do soberano e que a thémis que ela optou por respeitar dizia respeito ao funeral de um de seus irmãos, a cumprir essa obrigação sagrada, primeira, ritual. Ao lermos o fim da célebre reportagem de o camponês, n. 44, maio -junho de 1954, sobre a morte de Catarina Eufémia encontramos uma informação relevante sobre o desfecho daquele assassinato: “O corpo da camponesa foi levado para Beja [...]. Depois os fascistas fugiram com o corpo da desventurada camponesa não deixando que os trabalhadores lhe fizessem o funeral” (o camponês, apud PCP). Notemos que somente no dia 21 o Diário do Alentejo noticiava seu enterro: “O funeral realizou -se ontem, saindo do hospital de Beja para o cemitério de Quintos. Centenas de pessoas vieram de Baleizão para acompanharem o préstito” (Diário do Alentejo, apud PCP).
Se o rito funeral de Polinices e o de Catarina Eufémia foram ambos interditados7 por decretos que feriam uma lei primeira e eterna, vemos que Sophia coloca, indiretamente, como irmãos daquela camponesa todos os trabalhadores que a pretenderam enterrar com honras, assim como condiciona o próprio poema na função de uma Antígona, de prestar reverência ritual a um familiar morto, em uma espécie de epitáfio.
Se Antígona é o enfrentamento em torno de uma justiça, nos versos andresenianos percebemos ser essa justiça defendida como prioridade. Portanto, mesmo a justiça que deveria ser a terrestre, de díkē, com seu mostrar com autoridade como deve ser (cf. Benveniste, 1995: 110 -111), jamais poderia sobrepujar a de thémis, um direito fundamental humano. Quando isso ocorre, há um indício de que, de fato, a personificada díkē foi mesmo exilada da cidade dos homens, da sociedade, do país, do mundo, como na Idade de Ferro do poema de Hesíodo, o que nos leva a concordar com Paula Alves (cf. Alves, 2000), com algum acréscimo nosso no que diz respeito à identificação de uma esperança na obra poética de Sophia.
O que sobretudo pretendemos apontar com a leitura desse poema, “Catarina Eufémia”, de maneira central, como uma síntese mesmo do que acontece nessa poesia, é que, ao exigir justiça, em meio a todo um tempo da enunciação referido como caótico, ameaçador, injusto, Sophia de Mello Breyner Andresen, acima da questão política, exige uma ordem hierárquica entre díkē e thémis, de modo que, à lei do direito, da política e jurídica, jamais possa ser dado o privilégio de ferir uma lei primeira, eterna, sagrada, dos laços basilares do homem. Nesse ponto há uma esperança em seus versos.
Virgínia Bazzetti Boechat, “Antígona e Catarina Eufémia: figurações da justiça em Sophia de Mello Breyner Andresen”, artigo baseado na tese de doutorado intitulada Do projeto à forma justa: Sophia de Mello Breyner Andresen, aprovada em 2011, pela USP.
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7 A noção dessa proibição permanece sobretudo se nos lembrarmos que a reportagem de o camponês foi largamente divulgada entre os camponeses e proletariado, assim como entre os membros da esquerda de variadas classes sociais e seus conhecidos, tendo sido, sem dúvida, a que predominou no imaginário da população.


POEMAS AOS HOMENS DE NOSSO TEMPO: A POESIA DE GRADES E O ESTADO NOVO PORTUGUÊS

Além da ameaça e da opressão, o tema da justiça é trazido a Grades também pelo seu viés oposto: a injustiça unida à violência. O poema “Catarina Eufémia”, publicado em 1970 na coletânea e posteriormente em Dual, de 1973, tem seu nome em homenagem à mulher cuja morte tornou-se símbolo de resistência e contestação do Estado Novo. Catarina Eufémia Baleizão era uma assalariada rural da cidade de Baleizão, região alentejana, mãe de três filhos. Nascida em 1928, era muito pobre e assim viveu, trabalhando em empregos sazonais nos latifúndios do Alentejo, onde, desde meados da década de 1940, era comum o “clima de agitação social entre os trabalhadores rurais”.274
Em maio de 1954, os trabalhadores de Baleizão organizam uma greve e “Catarina integra uma marcha de resistência até a residência do patrão. Pretendiam aumentar de 16 escudos para 23 escudos a jornada das mulheres na campanha da ceifa”.275 Nesse trajeto, a mulher é morta a tiros pelo Tenente Carranjola, da Guarda Nacional Republicana. Ela tinha o filho de oito meses no colo quando foi atingida. Alguns relatos da época, inclusive a notícia que é dada no periódico Diário do Alentejo, afirmam que a ceifeira estava grávida, mas essa informação não foi confirmada.
Catarina é vista como símbolo da mulher forte, mãe e militante, e sua morte tornou-se tema ligado à justiça, à busca pela igualdade social e ao combate do poder violento do regime do Estado Novo. É por meio dessa temática que Sophia Andresen apresenta Catarina […]
É evidente logo na primeira estrofe que Catarina Eufémia é a mulher que luta pela justiça, “porque tua lição é esta: fazer frente”. O primeiro tema a que a voz poética se refere é a justiça, e podemos pensar na reflexão que influencia a autora, o que a leva a inserir o adjetivo “grega” no poema qualificando a palavra “reflexão” quando o poema é publicado em Dual, aparecendo desta maneira: “O primeiro tema da reflexão grega é a justiça”.277
Catarina, segundo a voz poética, é uma mulher que rompe a condição comum para a época da mulher que fica em casa, que não tem sua autonomia em relação ao marido: “Pois não deste homem por ti / E não ficaste em casa a cozinhar intrigas / [...] E não serviste apenas para chorar os mortos”. Além de ser vista como uma mulher mais independente, a voz poética também a insere como uma pessoa que não hesitou diante da força do poder, como sugere a terceira estrofe: “Tinha chegado o tempo / Em que era preciso que alguém não recuasse”. Mas esse combate teve a morte como preço, e a terra “bebeu um sangue duas vezes puro”, pois ela estava grávida e era inocente, lutava pela igualdade.
A voz poética separa Catarina da condição de fêmea, dizendo “porque eras mulher e não somente a fémea”, isto é, a trabalhadora foi além da sua condição animal e do seu instinto, buscando algo que é fundamental para o humano, sobretudo para as mulheres: sua igualdade. É Importante considerar que a voz poética marca o posicionamento de Catarina como uma mulher que foi além do seu papel feminino instituído por uma sociedade pautada na figura do homem. A busca pela justiça e pela igualdade da ceifeira aproxima-a de Antígona, que não recua diante da decisão de Creonte, o governador de Tebas, de deixar seu irmão morto Polinices sem os ritos de passagem. Na tragédia de Sófocles, a mulher tem uma postura de embate ideológico, pois contesta o valor das ordens terrenas do governador Creonte diante das ordens dos deuses. Ela também morre por suas crenças e por sua ação desafiadora de buscar a todo custo aquilo que seria justo, isto é, sepultar seu irmão sob os ritos da religião.
O poema se encerra com um único verso, “A busca pela justiça continua”, que pode ser lido pela busca de justiça em relação à morte de Catarina e aos abusos de poder em geral cometidos pelo governo que assassina a ceifeira. A morte dessa mulher, para a voz poética, é um símbolo da justiça e do combate contra as mazelas que atingem a todos e por isso dá voz ao imaginário daqueles que se opunham ao regime salazarista.
Grades: uma leitura do projeto po-ético de Sophia de Mello Breyner Andresen, Nathália Nahas. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2015

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274 ROSAS, Fernando; BRITO, J. M. Dicionário de História do Estado Novo. Venda Nova: Bertrand, 1996, vols. I e II, p. 240.
275 Ibidem.
277 ANDRESEN, S., Obra Poética, edição de Carlos Mendes de Sousa, 2.ª ed. Alfragide: Editorial Caminho, 2011, p. 594



 


segunda-feira, 10 de junho de 2019

10 de junho de 1977 - discurso de Jorge de Sena




Discurso proferido na cidade da Guarda, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de junho de 1977 — o primeiro depois da “Revolução dos Cravos”.

É para mim uma honra insigne o ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou. Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. 
Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. 
Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.
Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que regressou,] em 1570, tão pobre como partira, mas com Os Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta.
Por dezassete anos, recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal. 


Permitam-me ainda um esclarecimento. Na melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. 
Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. 
Também dos limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente, tanta gente como este.
Sejamos francos e brutais. Há neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles, e deseja recordar-se deles. Mas o país, pura e simplesmente, na situação económica que herdou e em que se encontra e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha, ao contrário do que faziam e fazem portugueses do território nacional, que mandavam o seu dinheiro para o anonimato dos bancos da Suíça. 
Deste modo, celebrar as Comunidades Portuguesas no dia do santo nacional que celebrou a expansão imperial do país é, ao mesmo tempo, um belo ideal e um cálculo muito prático. Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral. 
O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido é um imperativo imarcescível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura, que como no caso de Portugal, foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. Nenhum internacionalismo que se preze de ter os pés na realidade e na matéria de que somos feitos, pode negar ou ignorar essas realidades tremendas que são uma língua ou muitas, uma raça ou várias, uma cultura por mais adaptável ou capaz de absorção que ela seja, que se identificam com um nome secular – Portugal no nosso caso, aqui e agora.
Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. 
Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Mas o restituir a quem o podia ler e o podia sentir mais fundamente um pouco de confiança em horas difíceis, é um acto de caridade, essa virtude que não é só cristã porque é, desde antes do cristianismo, a própria essência da civilização: a solidariedade humana quando a dor nos fere. E o ter sido usado, manipulado e treslido como Camões o foi, ou denegrido como também foi desde a publicação do seu poema, é um dos preços que a grandeza paga neste mundo. 
Camões e a sua obra têm pago esse preço como todos os outros. Deixem-me todavia recordar-vos que o grande aproveitacionismo de Camões para oportunismos de politicagem moderna não foi iniciado pela reacção. Esta, na verdade, e desde sempre, mesmo quando brandindo Camões, sentia que as mãos lhe ardiam. Aqueles oportunismos foram iniciados com o liberalismo romântico e com o positivismo republicano. E se o Estado Novo tentou apoderar-se de Camões, devemos reconhecer que ele era o herdeiro do nacionalismo político e burguês, inventado e desenvolvido por aquele liberalismo e aquele positivismo naquelas confusões ideológicas que os caracterizavam e de que Camões não tem culpa: tê-la-iam por exemplo dois homens que merecem o nosso respeito: Almeida Garrett e Teófilo Braga. E quanto à reacção mais recente em face de Camões, eu lembro apenas dois pequenos exemplos em que a censura o proibiu, se não estou em erro: o caso do jornal de Vila do Conde, em que um tio de José Régio usava publicar os clássicos, citando-os convenientemente, e o da revista Vértice, de Coimbra, que fazia o mesmo.
E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outro eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida: o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando, no liceu, líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. 
Claro que nós todos íamos logo ler as passagens “proibidas” e lendo-as assim, com olhos libidinosos, perdíamos a grandeza delas: a majestade do sexo e do amor, a magnitude da liberdade e da tolerância, a inocência magnífica do prazer físico e da paixão erótica, que, acima de tudo, Camões cantava e celebrava nessas passagens com uma abertura de espírito e uma audácia espantosas. Será possível que os frades o tenham feito alterar algumas coisas antes de publicar Os Lusíadas. Mas, em face de algumas daquelas que lá ficaram, temos de reconhecer que, mais do que aquilo, só um poema francamente pornográfico, incompatível com a dignidade e o decoro da grande epopeia que Camões desejou escrever e escreveu.
Tem-se dito que o grande protagonista da epopeia é o povo português, e na verdade o povo aparece, segundo as tradições clássicas, representado apenas pelos seus heróis, aqueles que Camões seleccionou para o efeito, à excepção dos marinheiros anónimos que acompanhavam Vasco da Gama ou os seus guerreiros anónimos sem os quais não haveria a magnificente descrição da batalha de Aljubarrota ou análogos momentos. Aqueles marinheiros, como o próprio Vasco, são deificados, ou transfigurados epicamente na Ilha dos Amores, em condições sem dúvida moralmente impróprias de quem deixara família em Portugal, mas altamente consentâneas, se me permitem a rudeza, com a promiscuidade sexual notória do povo português, ao mesmo tempo que de acordo com as convenções épicas e mitológicas pelas quais os heróis se dignificavam no conhecimento (que aqui uso no sentido intelectualmente neo-platónico e no sentido obscenamente público) das entidades divinas. Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos, e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas.
Até certo ponto, isto é verdade. E é-o por algumas razões camonianamente importantes. Antes de mais, na filosofia que Camões assume e torna extremamente pessoal, os deuses pagãos possuem, como atributos do Deus supremo, invisível e silencioso, e como seus intermediários agentes, uma realidade autêntica que a criação artística faria necessariamente mais palpável e concreta. E é assim que nós vemos tão nitidamente Vénus, a Afrodite originária e primeva, um dos deuses anteriores a tudo, e também a deusa do amor que este sim, é todo poderoso – como a não veríamos? Ela é a amante, a esposa, a mãe, tudo o que o princípio feminino significa dentro e fora da nossa humanidade, naquelas complexidades psico-sexuais a que Camões se compraz em aludir, servindo-se de alusões mitológicas que parecem meros ornamentos ao longo da epopeia inteira. E como não veríamos Baco ou Diónisos, receoso de ser castrado da sua lendária glória de conquistador da Índia? Se, como descendentes de Luso, descendemos dele, e ele é o nosso pai receoso do triunfo e da liberdade dos filhos? Como não veríamos Júpiter, se ele é de certa maneira a providência divina, sempre disposta a sucumbir, mesmo incestuosamente, às atracções do amor? Estes deuses, na dialéctica camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra, e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. 
E é neste mesmo sentido que as referências a Cristo devem ser entendidas nos contextos camoneanos: ele é, supremamente, para Camões, o princípio divino que, como um fogo de vida, desce a encarnar-se humanamente, mas é também o homem, o herói humano que, pelo seu sacrifício, ascende ou regressa ao divino. E é este heroísmo do apostolado e do sacrifício o que, em toda a sua epopeia, Camões propõe continuamente pela referência ou pela narrativa. Até Inês de Castro, a grande matriarca do poema, ascende à glória épica pelo seu sacrifício de amor. Porque para o amor, para todas as formas de amor, Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é, para ele, a todos os níveis, a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor, não há heróis, nem há homens dignos desse nome. E amor, mesmo numa epopeia que transborda de feitos bélicos e de acções guerreiras, não existe sem uma infinita e total tolerância, um respeito pelos outros povos, as outras raças, as outras culturas, as outras religiões, ao ponto de, como já tenho chamado a atenção, o conceito de santidade ou a palavra santo se aplicar a todos, sem distinção alguma, cristãos, muçulmanos, brâmanes, etc., e até – não o esqueçamos – a uma ninfa que se deixa possuir, por bem requestada, na Ilha dos Amores. 
Este Camões de amor e tolerância permeia Os Lusíadas. Mas já se disse que, além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele-mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta, e o qual constantemente interrompe a narrativa para invectivar com o maior desassombro (lembremo-nos de que as ordens daquele D. Sebastião a quem o poema é dedicado, dirigidas aos seus imperiais governadores, chamando-os à virtude e à dignidade, não tinham de tom diverso senão a diferença que vai de uma carta oficial a uma poesia de génio). E há nisso de Camões ser central uma enorme e profunda verdade que é o Camões-homem e o Camões-poeta. Não só ele se colocou, nos seus cálculos arquitectónicos do poema, nessa posição, e assim se colocando, se apresenta como a culminação da aventura portuguesa que ele conta, como o herói que o é por ser quem transforma Portugal numa obra de arte, acima das contingências históricas e da mesquinhês humanas. 
O Camões que na epopeia espreita ou se mostra a cada momento, roubando mesmo alguma realidade estética a tudo e todos, nós conhecêmo-lo e entendêmo-lo de outro volante do políptico que é a sua obra: o grande poeta lírico que é também um grande pensador, e que, na obra lírica como na épica, se apresenta como resumo e epítome da humanidade mesma, e não só do povo português. Ele é o homem em si, aquele ser que se busca continuamente e ao amor que o projecta para dentro e para fora de si mesmo, e é, como Luís de Camões, o predestinado para ser, ao mesmo tempo, o poeta-herói supremo que realiza, isto é, torna real para a eternidade da poesia, a história de Portugal, e a embarca nos navios de Vasco da Gama para unir o Ocidente ao Oriente. Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico, e o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças , e – ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns – regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo. E essa construção ele trazia, reunindo o Portugal disperso, para o que ele deixara a vida, como disse, pelo mundo em pedaços repartida. 
Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o “bicho da terra tão pequeno” contra o qual se encarniçam os poderes do mal.
Haverá ainda quem diga que esse homem cantou a expansão imperial, apesar de tudo, as conquistas imperiais do Oriente, e está portanto fora do nosso tempo e do nosso espaço históricos, e a sua epopeia ofende a consciência das Ásias e das Áfricas. Mas ele cantou a expansão portuguesa, na medida em que considerava que esta expansão era ou deveria ser a civilização ocidental levada a toda a parte, no que tinha de moralmente digno e de socialmente responsável. Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África.
Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos. Isso Camões cantou: e vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. 
O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. 
Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida.

Jorge de Sena, Paris, 3 de Junho de 1977






O 10 de Junho só regressou em 1977

A democracia só aceitou comemorar o 10 de junho três meses depois da revolução. Não deixou de ser feriado mas, em 1975, o governo apelou "à batalha da produção".

Em 10 de junho de 1974, apesar da revolução que tinha acontecido três meses antes, e que execrava o espírito do “Dia de Portugal”, houve feriado na mesma. O que não houve foram comemorações oficiais – o feriado estava tão associado à ditadura que o novo regime não quis oferecer pompa nem circunstância a um dia que servia ao regime salazarista-marcelista para exaltar o império falhado.
Aconteceram coisas, mesmo assim. Uma “manifestação popular de apoio ao Movimento das Forças Armadas” levou a que dois dos heróis do 25 de abril, os generais António de Spínola e Francisco Costa Gomes aparecessem num terraço do Palácio de Belém a agradecer o apoio dos 15 mil manifestantes, segundo contas do Diário de Lisboa.
A manifestação – “convocada por diversas forças democráticas” – tinha começado no Marquês de Pombal, descido a avenida da Liberdade, passado pelos Restauradores e subido até ao Largo Camões, homenageando o poeta com ramos de flores. Rumou a seguir a Belém e o aparecimento dos dois generais na varanda do Palácio de Belém foi “a grande apoteose”, escreve o Diário de Lisboa.
O 10 de junho de 1975 continuou a ser feriado, mas o governo liderado pelo general Vasco Gonçalves apelou aos portugueses para irem trabalhar em nome da “batalha da produção”, tal como a Intersindical. Carlos Carvalhas, que anos mais tarde será secretário-geral do PCP e a 10 de junho de 1975 era secretário de Estado do Trabalho, disse nesse dia em que muitas empresas, incluindo privadas, não fizeram feriado: “Os trabalhadores que em todo o país abdicaram do seu feriado são exemplos verdadeiramente revolucionários que esperamos ver frutificar”.
Para o então secretário de Estado do Trabalho, “a posição que se assume perante a batalha da produção é que distingue os verdadeiros dos falsos revolucionários”. Carlos Carvalhas estava em visita à empresa Cometna, que produzia válvulas e estava em regime de autogestão. Dias antes, a 27 de maio de 1975, tinha sido preso o administrador, Alfredo Alves.
A delegação governamental que visitou algumas empresas que recusaram o feriado incluía, além de Carlos Carvalhas, o ministro do Trabalho major Costa Martins; o ministro da Indústria João Cravinho, que será mais tarde ministro de governos PS e ainda o 1º tenente Judas que nessa visita sentenciará: “A revolução não pode aceitar os que não trabalham”.
Em 1976 não se passou nada de relevante – o candidato a Presidente da República Ramalho Eanes andava em campanha eleitoral entre Buarcos e Coimbra para as eleições que se realizariam daí a duas semanas, a 27 de junho. Numa das intervenções, falou de Camões. Pinheiro de Azevedo, outro dos candidatos presidenciais, andava pelo Algarve em visita na qualidade de chefe do governo.
O 10 de junho tal como hoje o conhecemos só foi criado em 1977, sob o nome “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Foi comemorado oficialmente na cidade da Guarda, com as presenças do então Presidente da República Ramalho Eanes e do primeiro-ministro Mário Soares. Jorge de Sena, o escritor radicado há muito tempo nos Estados Unidos, fez um discurso extraordinário em defesa de Camões – incluindo a justificação de que não se poderia chamar a Camões “fascista”.
“Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu”, disse Jorge de Sena.
Ana Sá Lopes, Sol, 2017-06-09



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  CAMÕES, HERÓI HUMANISTA                  
O ideal de homem virtuoso é, para Camões, o daquele que, como ele, for possuidor de «honesto estudo / Com longa experiência misturado». Camões é o herói humanista d' Os Lusíadas.

 Programa “Jorge de Sena”, da série “A Ideia e a Imagem”, Álvaro Manuel Machado, RTP1, 1978-06-15. Disponível em: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/jorge-de-sena/

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