domingo, 25 de janeiro de 2026

À espera dos bárbaros, Konstantínos Kaváfis



 À espera dos bárbaros


O que esperamos nós em multidão no Forum?


Os Bárbaros, que chegam hoje.


Dentro do Senado, porque tanta inacção?

Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?


É que os Bárbaros chegam hoje.

Que leis haveriam de fazer agora os senadores?

Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.


Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?

E às portas da cidade está sentado,

no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?


Porque os Bárbaros chegam hoje.

E o Imperador está à espera do seu Chefe

para recebê-lo. E até já preparou

um discurso de boas-vindas, em que pôs,

dirigidos a ele, toda a casta de títulos.


E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,

hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?

E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,

e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?

E porque levavam hoje os preciosos bastões,

com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?


Porque os Bárbaros chegam hoje,

e coisas dessas maravilham os Bárbaros.


E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores

para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?


Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.


Porque, subitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?


Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.


E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.


Konstantínos Kaváfis




Sem comentários: