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| Maria Augusta Tavares |
Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa
casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito,
colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar
pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não
exatamente. Para ser precisa, metade Intermares(1), metade Paço de
Arcos, portanto, dois anos e meio. Moro sozinha, sou cuidadosa. É raro alguma
coisa ser danificada. E quando a obsolescência planejada atua, imediatamente
conserto ou substituo o produto. Então, por que não raro, malgrado o pequeno
espaço, está sempre a surgir a necessidade de um novo item? Consumismo?
Compensação?
Tenho pensado sobre essa “necessidade”. Na busca por
resposta, socorri-me dos mais belos versos que conheço sobre a casa, a nossa
casa(2).
Eu não saberia dizer quantas vezes já reli esse
precioso livrinho que tem por objeto a casa. Com muito gosto, eu o
transcreveria inteiro, porque todo ele é poesia genuína. “Se você deseja com
seu coração ou se é com seu sonho – sua solidão – o que mais almeja, se é com
seu corpo e sua peleja que realmente quer fazer sua casa, não importa a forma
que ela possa ter, pois a casa é para ser sentida, para ser vivida, para ser
amada e ser possuída, não para se ver.”
O poeta está a nos dizer que a casa é uma coisa viva.
Nas suas palavras, tudo na casa é levitação, magia, sonho. A casa sente, a casa
escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. Embora, em termos
objetivos, eu viva dentro dela, a minha casa vive dentro de mim. Ela me espera,
ela me revela e nada diz mais de mim que a minha casa.
Lembro de ter passado uns dias em Santiago do Chile,
onde fui hóspede de uma velha senhora, talvez menos velha do que eu, hoje,
registro que faço, porque só agora posso comparar a casa dela à minha, para
concluir por uma diferença fundamental entre ela e eu. Nas fotos – havia muitas
espalhadas por toda a casa –, os figurinos exibidos pelas pessoas e os lugares
ao fundo permitiam supor que ela pertencera a uma classe social abastada. A culinária
também indicava gosto refinado. Uma alcachofra assada com ervas, que me foi
servida por ocasião da minha chegada, era, ao mesmo tempo, simples e elegante.
Não havia dúvida que a prática de alugar um quarto em casa era recente. Em
contraste com o passado que a casa me sugeria, chamava atenção o estado do
fogão, da geladeira, dos pratos, das panelas, dos talheres.
A casa sente, a
casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada.
Por mais empobrecida que ela estivesse, continuava
morando num endereço de gente rica. No lugar dela, eu teria encontrado uma
forma de eliminar a precariedade que a cozinha anunciava. Logo a cozinha,
espaço de criatividade, merecia melhor tratamento. Não concebo a ideia de usar
pratos rachados, com as bordas desgastadas, panelas com fundos descascados,
talheres desemparelhados, toalha desbotada. Os alimentos devem ser servidos em
pratos que os realcem. As bebidas, em copos adequados. A tessitura da magia que
a casa guarda passa por essas escolhas. E não deve ser privilégio de rico. Há
feiras de produtos usados em ótimo estado de conservação, onde pagamos uma
ninharia para garantir a beleza da casa, se a mesma for prioridade.
Da mulher em si eu não lembro. Não lembro o nome dela
ou como era o seu rosto. À época, ainda não havia celular para os registros
fotográficos, que se tornaram quase obrigatórios. Mas nunca esqueci a situação
precária daquela cozinha. O descaso com os objetos me fez pensar que aquela
mulher estava à espera da morte. Eutanásia é um serviço caro, ela não o teria
contratado. Portanto, ainda sem data para morrer. Os serviços funerários, cujo
preço não faz jus ao propósito, mesmo que ela os tivesse antecipado, têm uso
imprevisível. Enfim, ainda estava viva, tinha direito a fazer planos.
Substituir aquelas velharias por peças novas podia dar alma nova à sua casa e,
por extensão, a si mesma.
Quando eu substituo uma peça, seja um móvel ou um
quadro na parede, quando troco a moldura da velha fotografia, até quando frito
o ovo numa panela nova que não gruda, sorrio para a vida. Não é por consumismo
que renovo a casa, mas porque namoro a novidade por alguns dias. À medida que
as coisas se gastam, eu me gasto junto, porque eu e a casa nos doamos
reciprocamente. Talvez por isso seja recorrente ouvir: “Sua casa tem a sua
cara.” Afirmação que recebo como elogio. Ou, como diz um dos meus netos, “vovó
mora em casa de boneca”. Ora, é um carinho que me vem através da casa, porque,
simultaneamente, eu sou a casa e a boneca.
Sobretudo quando envelhecemos a casa é o nosso espaço
privilegiado. É onde passamos a maior parte do nosso tempo. Se a vida importa,
é imperativo que a nossa integração nesse espaço se dê pelo prazer, pelo
pertencimento, para que nos doemos a ela por inteiro, sem queixas, sem
autocomiseração. Nas palavras do poeta, essa inteireza equivale a “dar os
nossos pés, dar nossos artelhos, dar as nossas pernas, dar nossos joelhos, dar
os nossos sonhos, nossos pesadelos, dar as nossas coxas, dar o nosso sexo, os
nossos adeuses e nossos amplexos, dar o nosso pelo e nossos apelos: dar nosso
universo.”
Maria Augusta
Tavares, “Nada diz mais de nós que a nossa casa”. In: https://jornalmaio.org/a-casa-a-nossa-casa/,
07-01-2026
______________
(1) Paraíba, Brasil.
(2) LEÃO, Gonzaga. Casa somente
canto, Casa somente palavra. Coleção Viventes das Alagoas, 1995.

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