segunda-feira, 26 de abril de 2021

Estrada Nacional (Rui Lage)


 

EN 15

 

Encosto à berma da estrada nacional 15

para tirar a bexiga do aperto

em que se achava.

Faço pontaria a uma esteva

cativa de moita empoeirada,

na caruma um delta depois

uma enseada.

Miro de soslaio as aldeias agarradas,

quais carraças,

ao dorso insone dos montes

e verto, sob um pinheiro, as toxinas do passado.

 

Longos uivos à lua destinaria, feito lobo,

em pleno traço contínuo,

ou nele faria tosco sapateado,

não me chegasse já o ruído

de outro carro fugitivo,

o clarão dos seus faróis que recortam, no alcatrão,

o meu perfil acrescido.

 

Mais avisado será bater em retirada:

às quatro da madrugada

só pode ser o futuro, esse gatuno,

e assim a sacudo

mal sacudida

— assim te sacudo como quem

sacode a vida.

 

 

EN 213

 

Cada luz que vacila mas resiste

como um farol longínquo, no mar,

ou nos olhos de um moribundo,

ilumina o teu passeio nocturno.

 

Cada luz que o vento destapa

nas encostas dos montes,

ao agitar a trama dos bosques indistintos,

ilumina a porta da tua casa

a chave na tua mão.

 

Não dormes sozinha, quero que o saibas,

mas sempre acompanhada

 

na terra prometida que existe

cheia de aldeias e estradas

na minha cabeça deitada.

 

 

EN 212

 

De infracção mais grave não sei:

deixar que mãos ausentes me conduzam

a sentidos proibidos

ou que os falsos deuses do amor me desmandem

entre acidente e contingente.

 

Cumpra a brigada de trânsito a sua missão:

cace-me a carta

onde se obstina a tua fotografia,

reboque-me a carcaça sinistrada

 

ou de castigo me leve a carripana

e me deixe apeado na valeta, pois

de infracção mais grave não sei:

conduzir fora de mão

conduzir contra o coração.

 

 

EN 2

 

Escavo as trevas à força de faróis:

aponto à estrada florestal

esses dois minúsculos sóis

com que inauguro galerias provisórias,

claustros, arcadas, naves arbóreas,

e de halos breves conjuro cancelas,

muros velhos, veredas, levadas.

 

O seu clarão torna visível o invisível,

traz as coisas para a existência:

marcos quilométricos, apeadeiros,

serrações assombradas,

pilares de pesadelo que suspendem sobre os vales

absurdos viadutos aéreos.

 

Com faróis ilumino porque não tenho luz própria:

cego viajo, como a traça,

às voltas, às voltas,

tão negro como a noite que lá fora me cerca,

peixe dos abismos, toupeira,

cometa.

 

 

EN 206

 

Sou a floresta que se fecha sobre a estrada,

à minha volta as montanhas assobiam

— finco as raízes mas o vento me desterra

quando sopra do teu lado

e erguendo-me nos ares faz-me em pedaços

rodopiar com as folhas nas valetas.

 

Tretas, dirás, pois ninguém se entrega inteiro:

fica tudo a meio, e mesmo a verdade

é sempre metade de algo a mais ou a menos,

e só não mentimos sobre o que não compreendemos.

 

Finco as raízes mas o vento me desterra

porque vem do teu lado,

traz-me o corpo dividido, caído em muitas partes;

nunca fiz questão, confesso, de o ter todo:

tirava só o que precisava e do resto

andava dorido.

 

Agora, de todas as partes partido, o corpo

passa noites em claro à procura de caminhos

de regresso a mim

e dói-me por vezes num sítio qualquer

que deve ficar do teu lado,

um cabelo na boca ou o fantasma

de um braço amputado.

 

Quando chegar

não poderei reconhecê-lo.

 

 

EN 314

 

Ardidas há muito as velas de ignição

que davam centelha ao meu antigo

e primeiro coração.

 

Agora sou apenas um ponto morto,

sem tracção: rolo sem atrito

mas também sem aflição.

 

A estrada adormece em bosques propícios

a emboscadas, mas já não tenho crenças

que mereçam ser cobiçadas.

 

E os meus sonhos, até os meus sonhos

me parecem guiados lá do alto por sinais de GPS.

 

 

CM 122

 

A pele dos estofos é ainda a tua,

e o calor do banco dianteiro.

 

Radiador vazio,

o meu coração sobreaqueceu.

 

Desço o vidro e ponho a cabeça de fora

a ver se o vento ma limpa

ou ma leva.

 

O gelo reduz no asfalto.

 

O cigarro que lhe atiro:

há instantes apenas acendido

pela tua mão soberana,

provinciana, emigrante.

 

A pele dos estofos é ainda a tua,

e o calor do banco dianteiro

 

e a minha alma um cinzeiro

que não posso despejar.

 

Rui Lage, Estrada Nacional. Lisboa, INCM, coleção Plural, 2016


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