segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Há amores que expiram, Luísa Sobral

 


Há amores que expiram. E, assim como os pacotes de leite, na dúvida,é melhor deitar fora.

***

Três meses. Três meses exatos. Talvez ele se tenha dado esse tempo de forma consciente, um tempo limite: três meses, nem mais um dia.

Cheguei a casa vinda do mercado e não o vi. Estranhei. Ao longo daqueles noventa e um dias, já tínhamos implementado algumas rotinas; chegar do mercado e vê-lo à porta de casa de braços estendidos, pronto para me ajudar com as caixas de produtos que tivessem ficado por vender, era uma delas.

Arrastei as caixas para dentro de casa e fui procurá-lo à horta. Tudo estava onde tinha sido deixado no dia anterior. Voltei para casa para preparar o almoço.

Demorei algum tempo a ver o papel. Era pequeno e estava escondido entre a cesta da fruta e um castiçal. Tinha tres linhas apenas, uma por cada mês, a folha de papel de um caderno rasgada à pressa: "Não sou feliz aqui. Não quero desperdiçar o tempo que me resta nesta vida num lugar onde não faço a diferença. Este é o teu sonho. Perdoa-me. Assinei uma procuração para que consigas passar a casa para teu nome. Amo-te, Klaus." "Amo-te" sobressaia no meio de todas aquelas palavras, como nos jogos em que temos de descobrir qual a palavra que não pertence.

Permaneci sentada à espera do sinal de desmoronamento, aquele segundo que antecipa o fim do mundo. Não veio. Não veio naquele dia, nem no seguinte, nem nas semanas que se sucederam, nem nunca. Talvez nunca tivéssemos deixado de ser apenas amigos e esse tenha sido o nosso equivoco. Talvez tivéssemos simplesmente deixado de nos escolher ao acordar, ou talvez nos tenhamos escolhido durante todos aqueles anos para não desistirmos de acreditar no amor. É mais fácil fingir do que desistir. Somos capazes de simular grandes paixões para não lidarmos com a solidão, para não olharmos para trás. Talvez o nosso amor tenha sido apenas isso, fé.

In: Nem todas as árvores morrem de pé, Luísa Sobral. Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2025, pp. 211-213

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