Tu eras aquela que eu mais queria
Para me dar algum conforto e companhia
Era só contigo que eu sonhava andar
Para todo o lado e até quem sabe talvez casar
Ai o que eu passei só por te amar
A saliva que eu gastei para te mudar
Mas esse teu mundo era mais forte do que eu
E nem com a força da música ele se moveu
Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
Pra te levar ao concerto
Que havia no Rivoli
Era só a ti que eu mais queria
Ao meu lado no concerto nesse dia
Juntos no escuro de mão dada a ouvir
Aquela música maluca sempre a subir
Mas tu não ficaste nem meia hora
Não fizeste um esforço pra gostar e foste embora
Contigo aprendi uma grande lição
Não se ama alguém que não ouve a mesma canção...
Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
Pra te levar ao concerto
Que havia no Rivoli
Foi nesse dia que percebi
Nada mais por nós havia a fazer
A minha paixão por ti era um lume
Que não tinha mais lenha por onde arder
Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
Pra te levar ao concerto
Que havia no Rivoli
“Paixão”,
letra de Carlos Tê cantada por Rui Veloso
Piano,
teclados e acordeão: Manuel Paulo
Guitarra
acústica: Miguel Mascarenhas
Baixo:
Zé Nabo
Percussão:
André Rocha
Bateria:
Alexandre Frazão
Vozes:
Paulo Ramos, Berg, Sandra e Dora Fidalgo
Possíveis tópicos para discussão:
A influência
da música na construção da identidade.
A relação
entre a indústria musical e a promoção de estereótipos.
A importância
de uma educação sexual que inclua a discussão sobre relacionamentos saudáveis.
Eu cá acho que aquela atriz do Bay Watch, a
Pamela Anderson deveria ser condenada pelo mau exemplo que deu às mulheres da
minha geração. Ainda por cima ela era daquelas mulheres que podia ter tudo e
depois divorcia-se lá do outro brutamontes que lhe batia para se casar com ele
outra vez? Mas que mau exemplo era aquele? Já viste a quantidade de exemplos
que nós recebíamos só pela televisão no domingo à tarde? É que ela não era bem
como a Elizabeth Taylor que se casou duas vezes com o Richard Burton mas pelo
meio, antes e depois, lá se foi casando com mais 7 e não era só ele que lhe
batia, aquilo era uma tourada para todos os lados, mas a Pamela Anderson? De
fato banho laranja e cabelo ao vento, podia ter qualquer nadador salvador aos
seus pés e teima de ir para aquele idiota? Já viste o que é que ela estava a
dizer às mulheres adolescentes da altura como eu? Dizia primeiro que era
possível fugir daquele inferno mas que depois se pode escolher voltar para ele?
É um dos meus ódios de estimação. Sim, tu falas do Woody Allen e que te recusas
a ver mais filmes dele, e eu … aliás… nem precisamos ir mais longe, já ouviste
bem as letras do Carlos Tê do Rui Veloso? Há lá pior campanha de manipulação do
que ouvir a canção do rubi todas as férias, em cassete, dentro do carro, a
caminho do Algarve no verão?
Achas normal fazer uma canção daquelas?
Mesmo sabendo que não gostavas comprei-te um bilhete para ires àquele concerto?
Mas como é que isto pode ser uma canção de amor que uma família inteira canta
dentro do carro enquanto come sandes de atum com maionese e bebe
Bongo-sumo-rei-da-selva enquanto está parado na fila de trânsito de sábado ao
final da manhã para atravessar a ponte?
Tu já reparaste bem na letra daquela
canção? Eu lembro-me dos meus pais a cantarem e lembro-me de pensar: Mas
por que raio é que ele comprou um bilhete para um concerto de uma banda que ela
não gostava? E por que raio ficou à espera que ela gostasse de propósito só
para lhe agradar? Mas tem de ser assim, no amor? Oh, lá vens tu com as tuas
teorias de romance de algibeira… a curiosidade, a curiosidade… ouve lá bem a
letra… espera aí que eu agora não me lembro… como é que é, como é que começa?
Ah! Começa assim: Tu eras aquela que eu mais queria… estás a ouvir bem? Já não
tem nada a ver com os dois, começa logo com uma queixa, tipo: estás a ver,
estás a ver? Eu gostava tanto de ti e tu népia, ainda te atreves a deitar-me
fora que sou tão incrível e gosto tanto de ti… e vai por aí fora… e porque é
que ele gostava dela? Para lhe dar conforto e companhia… sim não gostava do que
dizia ou do que fazia ou do que era… gostava dela para lhe dar conforto e
companhia… já viste bem? E depois ele diz: era só contigo que eu sonhava andar,
para todo o lado e até, quem sabe?, talvez casar… quem sabe? Sim, quem sabe… já
viste a imagem de romance que isto passa a uma miúda de 8 anos… olha como ele
está triste, ele até te tinha escolhido e tu? Népia…e depois continua… Ai o que
eu passei só por te amar, A saliva que eu gastei para te mudar. Para te mudar?
Mas que raio de história é esta? Então ele gostava dela ou não? E depois fica pior,
espera, espera, ouve bem a letra que eu acho que nunca reparaste bem… O que eu
passei só por te amar … sofreu sozinho, não aceitava não ser correspondido,
certo? E porquê? Ele explica: Mas esse teu mundo era mais forte do que eu, ou
seja, ela tinha vontade própria, tu já viste bem a lata da miúda? Pensava lá à
maneira dela, e ele coitado que queria tanto até, talvez, quem sabe, um dia
casar com ela, e ela nem percebia a sorte que tinha? Olha que coisa! E ele vai
mais longe e diz – não só ela tinha lá um mundo dela mais forte do que ele como
nem com a força da música ele se moveu. Ah! E claro, era o mundo dela que se
tinha de mover, não era o dele… isto fazia-me uma confusão quando eu ouvia isto
no carro dos meus pais, eu no banco detrás de mini saia, eles de camisolas sem
alças a cantar e a abanar a cabeça lá à frente. Mas o pior ainda está para vir…
ele já tinha percebido que o mundo dela era mais forte do que ele, certo? e que
ela não ia lá nem mesmo com a força da música, certo? E o que é que ele se lembra
de fazer?
Vou cantar para ti que vale a pena, ora ouve-me
bem, vou dar o meu melhor: Mesmo sabendo que não gostavas, Empenhei o meu Anel
de Rubi, Pra’ te levar ao concerto que havia no Rivoli.
E eu não cantei com tanto ímpeto, mas
aquilo é tudo muito sentido, imaginas como não deve ser em concerto, tudo de
isqueiro, os namorados de mão dada, elas a suspirar, a ver se ele empenha o
anel da avó deles isso é que é sinal de amor e tal… E ela tem mais é que se
sentir culpada porque era só a ti, que eu mais queira / Ao meu lado no concerto
nesse dia, Juntos no escuro de mão dada a ouvir / Aquela musica maluca sempre a
subir…
Ora, ele tinha tudo planeado, a música a
dar, eles a sentirem muito, tudo a cantar mas ela não ficou nem meia hora, já
viste, a desgraçada? Então eu empenhei o meu anel de rubi que roubei à minha
avó e ela nem fez um esforço para gostar e foi-se embora?
Então mas ele não sabia que ela não
gostava? E se sabia para que é que ele a levou até um concerto que já sabia que
não era do agrado dele? E se ela lhe fizesse o mesmo? Não lhe ocorreu que esta
podia ter sido uma má escolha, nem lhe ocorreu que a poderia estar a torturar,
já viste o que é ires a um concerto de uma banda que odeias? É que para ler uma
pessoa ainda pode fechar os olhos, mas num concerto não dá para fechar os
ouvidos… E o que é que ele conclui desta bonita ideia? Que se calhar era melhor
terem ido jantar fora? Ou ir a uma peça de teatro? Ou passear num jardim? Ou
perguntar-lhe de que música gostava? Não, claro que não. Ele aprendeu uma
grande lição: NÃO SE AMA ALGUÉM QUE NÃO OUVE A MESMA CANÇÃO!
Olha que porra!
E como se não chegasse, e para provar que
não tinha percebido nada do que lhe tinha acontecido, ele volta a repetir que
mesmo sabendo que não gostavas, empenhei o meu anel de rubi, para te levar ao
concerto que havia no Rivoli. E lá entra a harmonicazinha ainda a dar um tom de
alpendre americano ao pôr do sol… que carago! Nunca mais me esqueci desta
canção! Puxa!J
Dedicado a Keli Freitas, Crista Alfaiate e
Isabel Campante e a uma belíssima noite passada a atrapalhar o trânsito na
praça de D. Duarte em Viseu.
José Joaquim Cesário Verde nasceu a 25 de
fevereiro de 1855, num terceiro andar da Rua dos Fanqueiros, ou seja, em plena
Baixa pombalina.[1] O país atravessava um período
de relativa estabilidade, mas, se o pano de fundo era otimista, o mesmo se não
pode dizer da conjuntura. As chuvas anormais da Primavera haviam provocado uma
crise nos cereais, o que, num país sem caminhos-de-ferro, implicava literalmente
a fome.
Nesse domingo - dia em que se celebrava
São Cesário – as cheias tinham alagado grande parte do país, incluindo a zona à
volta de Lisboa, onde o pai possuía terras. As exportações de vinho e de azeite
estavam estagnadas. Corriam boatos, absurdos é certo, mas tidos como verdadeiros,
de que o governo se preparava para mandar soldados para a guerra da Crimeia. Por
causa das pestes - primeiro a da cólera e, depois, a da febre-amarela - que
invadiram o país em 1856 e 1857, Cesário passou uma longa temporada na quinta
que a família possuía em Linda-a-Pastora.
O pai, José Anastácio Verde
(1813-1888), era um lavrador dos arredores de-Lisboa e o único proprietário da
firma «J. A. Verde», uma
loja de ferragens fundada em 1808. Ao contrário do que se supõe, isto não fazia
dele um pequeno-burguês. Pelo contrário: José Anastácio pertencia ao importante
grupo dos «negociantes» de Lisboa matriculados no Tribunal do Comércio, o que lhe
conferia um status superior. Para além dos artigos de ferro, a sua loja vendia
um pouco de tudo: camisolas de algodão, chinelas de trança, botinas de duraque,
fazendas e oleados. Mas não era apenas dela que retirava o seu rendimento: este
vinha também, talvez até sobretudo, das quintas que explorava nos arredores de
Lisboa.
Os Verdes estavam a meio da escala
social, mais próximos das camadas superiores do que das inferiores.[2]
Basta olhar o local onde estava situado o seu estabelecimento comercial, com
quatro grandes portas sobre a rua, ou as casas que habitaram – especialmente a de
Linda-a-Pastora - para nos apercebermos de que viviam bem. Em 1878, quando,
pretendendo construir um forte no Alto de Caxias, o Estado quis expropriar
algumas das terras que a família trazia arrendadas ao Marquês de Pombal, Cesário
avaliá-las-ia em 2 contos de réis, uma quantia bastante elevada. Numa carta
datada de 29 de maio de 1878, declarava fazerem os ditos terrenos parte «dum prazo
do qual eu pago ao Marquês de Pombal 303,5 litros de trigo e 303,5 de cevada
com laudémio de vintena». Quanto à soma por ele calculada, dizia-a justa, não
só por as terras serem muito férteis, mas por as ter tratado, no anterior mês
de outubro, «com adubos caros, que tiveram importantes despesas de transporte»,
e ainda por estarem guarnecidas de oliveiras, uma boa fonte de receita.[3]
A família Verde era oriunda de Génova. Provavelmente
fugidos de uma das convulsões políticas ocorridas naquela cidade-estado, os Verdes
tinham emigrado, no século XVIII, para Portugal. Cesário era trineto de
Giovanni Maria Verde, o genovês que, em 1731, se casara com Ana Maria de Pré,
tendo decidido, pouco depois, vir para Lisboa. Fora um filho destes, de seu nome
Manuel Baptista, quem montara a loja, ao Alto de Santa Catarina, que José Anastácio
mudaria para um local mais central. Em 1842, este herdaria ainda a quinta de seu
tio, João Baptista, morto sem deixar filhos.
Cesário viria a mudar de residência
ainda em criança. Foi viver para o prédio que o pai comprara no começo da Rua do
Salitre, ao lado do Passeio Público (atual Avenida da Liberdade), um local tido
como mais salubre do que a Rua dos Fanqueiros. Aos dez anos fez, com êxito, o
exame de instrução primária. Por morar na freguesia do Sagrado Coração de Jesus,
foi examinado por uma das mesas organizadas na Academia das Ciências. Não se
sabe que tipo de estabelecimento escolar frequentou, mas é possível que tenha aprendido
a ler com base no manual de António Feliciano de Castilho, o mais popular à época.[4]
Uma vez que o pai insistira em que ele deveria aprender contabilidade, bem como
francês e inglês, é possível que tenha frequentado igualmente a Aula de Comércio, à Boavista.
Cesário não se limitou a estudar o que lhe
iam ensinando na escola: gostava de ler tudo o que lhe vinha parar às mãos. Em
casa (tal como, mais tarde, entre os amigos), ouvira falar de autores – Montesquieu,
Quinet, Balzac, Taine, Spencer, Dickens, Byron, Daudet, Baudelaire, Zola,
Mérimée – que o deliciaram. Desde cedo o pai notou que o primogénito se interessava
pelas artes, um gosto, imaginou, que teria herdado do
tio-avô João Baptista (amigo e cunhado do pintor Domingos Sequeira, e ele próprio
um pintor), o qual possuía uma boa biblioteca.[5]Não creio que, como Eça ou Batalha Reis, Cesário fosse sócio
do Grémio Literário, mas, além de ter ao seu dispor os livros do tio,
frequentava as livrarias da Baixa.
O pai nunca pretendeu cortar-lhe as
asas. Liberal em política, era tolerante em casa.[6]
Apesar de ter planeado que o filho viesse a dirigir a loja, deixava-lhe uma grande
margem de liberdade. Aliás, a família era singularmente culta. Cesário já não
conhecera o tio-avô, nem, muito menos, Domingos Sequeira, mas vira alguns dos
quadros deste, entre os quais o bonito óleo da sua prima-segunda, Maria
Benedita Vitória, sentada ao cravo.[7]
As conversas com João de Sousa Araújo, o filho de um comerciante de Coimbra que
a família imaginava poder vir a casar com Júlia (a irmã mais velha de Cesário),
estimularam-no, o que não quer dizer que o mundo estivesse a seus pés. Cesário não
frequentara Coimbra,
não havendo tido acesso, portanto, às novidades literárias
que chegavam de Paris. Mesmo o que acontecia nos círculos intelectuais lisboetas
lhe passava, em grande parte, ao lado. Era adolescente quando se realizaram as
Conferências do Casino, mas não há qualquer indicação que nos permita pensar
que delas tenha ouvido falar. A sua vida social reduzia-se ao círculo familiar.
A adolescência de Cesário foi marcada
pelo anticlericalismo, um traço herdado do pai. Aos dezasseis anos, dizia ele
ao presumível cunhado: «Eu fujo a sete pés de tudo o que é sério, sisudo,
severo etc. etc. porque lhe acho um cheirozinho a incenso, que me faz lembrar
as antigas naves dos lúgubres conventos, que repercutiam o eco dos fúnebres
passos dos ferais monges.» Os Verdes pertenciam aos sectores das classes médias
atraídos pelos ventos revolucionários que vinham da Europa.
Fisicamente, Cesário não parecia
português. Era loiro e tinha olhos azuis, facto a que o sangue (francês e genovês)
que lhe corria nas veias não seria alheio. Alguns anos depois, um amigo
descrevia-o como «um rapaz alto, direito, elegante, simpático, cabelo curto, alourado,
olhos azuis, vestindo sempre fato azul, de jaquetão, de corte inglês, sapatos
amplos, com todo um ar britânico, que ele parecia querer aparentar».[8]
Todas as fontes indicam ter-se preocupado com a indumentária, uma forma de se
destacar dos empregados de escritório que, a seu lado, circulavam pela Baixa. Muitos
anos depois da sua morte, Macedo Papança contaria ao filho que Cesário
misturava o estilo dandy com o boémio, o que se traduzia nas calças aos quadrados,
no jaquetão azul-marinho e na lavallière vermelha que costumava usar.[9]
O desgosto provocado pela morte da
irmã, que tinha dezanove anos, coincidiu com o fim da adolescência de Cesário.[10]
Pouco depois era introduzido, pelo pai, nos mistérios do comércio. A loja do
Sr. José Anastácio ocupava o rés-do-chão do prédio de gaveto entre a Rua dos Fanqueiros
e a Rua da Alfândega, facto que permitia a Cesário ter uma vista privilegiada sobre
o Terreiro do Paço. O escritório, onde fazia a escrita, transformou-se num
posto de observação. Mas não se pense que descurava as funções de escriturário.
A primeira carta sobre negócios que redigiu, com data de 17 de janeiro de 1872,
seguia as regras do ofício. Nem nesta, nem nas centenas que depois escreveu, se
nota qualquer sinal de enfado. Tudo indica, pelo contrário, que apreciava aquela
vida regrada, a ponto de ter começado a imaginar novos empreendimentos, tais
como o aumento de exportação da fruta das quintas para Inglaterra e para a Alemanha,
países de onde a firma importava artigos fabris.
Ao contrário de Fernando Pessoa, com
quem por vezes é comparado, Cesário não era um assalariado comercial, mas o
filho do patrão, e tanto quanto podemos avaliar teve uma infância feliz. Mesmo
sendo verdade que a vida nem sempre lhe sorriu, manteve a sua placidez: gostava
do emprego, sentia-se bem entre os seus e apreciava as mudanças sazonais de
domicílio. Como outros, teve de enfrentar provações – desde mortes na família ao
não reconhecimento do seu talento -, mas isso não o conduziu a lamúrias sobre a
pátria. A sua melancolia era sossegada, o seu pensamento, claro, e não acreditava
em Deus porque nunca o vira. Sabia que a realidade era apenas aquilo que tinha diante
dos olhos: nunca albergou sonhos metafísicos. O seu objetivo era tão-só pôr em
palavras, as mais adequadas, o que sentia quando se passeava pelas ruas de
Lisboa ou pelo campo saloio:
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos,
Etangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o
olfacto!
[…]
Apesar de ser o maior poeta da sua
geração, quando, a 19 de julho de 1886, morreu, ninguém deu por nada. Na
Sociedade Recreio Operário, na Rua dos Remédios (tão perto da casa onde tinha vivido),
uma banda abrilhantou o baile proletário; na Nova Rossini, na Rua do Sol ao
Rato, a filarmónica dos Alunos de Guilherme Cossul deliciou os pequeno-burgueses;
no Jardim da Estrela, no de São Pedro de Alcântara e no Largo de Belém,
ouviram-se concertos ao ar livre; o cavaleiro Alfredo Tinoco fez as delícias do
público tauromáquico; na Esplanada dos Recreios, viu-se um bruxo fazendo
truques de prestidigitação e, no Teatro Chalet, representou-se, mais uma vez, a
peça O Duque de Viseu, de Henrique Lopes de Mendonça. Imperturbável, a cidade
continuou a sua lida.
Não apenas a cidade, mas os intelectuais.
Não fosse Silva Pinto, e os poemas de Cesário apenas existiriam, dispersos, em jornais
esquecidos. Do seu rosto, apenas se conhecem duas fotografias, o que finalmente
pouco importa, uma vez que temos o admirável esboço de Columbano, no qual ele surge
com um ar espantado.[11]
Cesário
Verde, um génio ignorado, Maria Filomena
Mónica. Lisboa, Alêtheia Editores, 2007, pp. 15-23, 149, 150.
[1] Alguns autores afirmam ter Cesário nascido na
Rua da Padaria, mas não é correto. Ver o artigo de Pedro da Silveira, «As casas
de Cesário», Diário de Notícias, 22 de junho de 1986, em que diz
ser mais provável ter ele nascido na esquina da Rua dos Fanqueiros com a da
Alfândega, uma vez que o batismo foi registado na Igreja Paroquial da Madalena
(a que aquela rua pertencia). Aparentemente, o pai instalara a loja nos números
2 a 8 da Rua dos Fanqueiros, tendo decidido ir morar para o prédio que ocupa o
atual n.º 9 (ao invés do que sucede com o da loja, o imóvel deve ter sido
deitado abaixo).
[2] Entre 1822 e 1842, data da sua morte, João
Baptista Verde fora acionista do «Banco de Lisboa», o que evidentemente o
colocava acima da pequena burguesia (em 1822, tinha 12, em 1824, 24, e, em
1835, 30 ações; ver Registo Geral dos Accionistas, 1822-1846). Agradeço
a Jaime Reis a informação.
[3] A correspondência manteve-se durante meses,
com o Estado a oferecer apenas 1 600 000 réis, quantia que Cesário julgou
diminuta, não sendo possível saber-se qual o resultado final. Ver Joel
Serrão, Cesário Verde: Obra Completa, Lisboa, Horizonte,
2003, pp. 245-46. Além destes terrenos e da quinta de Linda-a-Pastora, a
família possuía outras terras perto (no Casal de Liceia e no do Rodízio). Em
1849, o pai de Cesário arrendara ainda terrenos, em Vale de Nogueira, Caneças,
pelos quais pagava um foro anual de 1200 réis. Ver Gonçalo Monjardino Nemésio,
«Os Verdes, uma família genovesa em Portugal», separata de Genealogia e
Heráldica, n.º 9/ 10, 2003.
[4] António Feliciano de Castilho, Método
Castilho para o ensino do ler e do escrever, Lisboa, Imprensa
Nacional, 1853 (2.ª ed.).
[5] Como se vê pelo testamento, foi este tio que
deixou ao pai de Cesário as terras, em Caxias, que arrendava à família Rio
Maior (a qual entroncava na do Marquês de Pombal). Os Verdes eram, portanto,
vizinhos de Isabel, condessa de Rio Maior, com quem não conviveriam, dada a
diferença entre o respetivo estatuto social. Ver Maria Filomena Mónica
(org.), Isabel,Condessa de Rio Maior; Lisboa,
Quetzal, 2002. Fardado de Voluntário Real do Comércio, João Baptista Verde
seria pintado pelo seu futuro cunhado, Domingos Sequeira, junto à irmã, Maria
Benedita Vitória (o quadro encontra-se no Museu Nacional de Arte Antiga).
[6] Há quem, como Rocha Martins, tenha afirmado
que o pai de Cesário era miguelista – o que Joel Serrão reproduz –, mas tudo
indica o contrário. Ver Joel Serrão, «A infância de Cesário Verde», Diário
Popular, 26 de fevereiro de 1959. Como nota João Pinto de Figueiredo,
além das suas relações com o tio e com Domingos Sequeira, ambos liberais, as
convicções anticlericais do patriarca tornam a tese improvável. Ver a
interessante obra de João Pinto de Figueiredo, Cesário Verde, Lisboa,
Presença, 1986. Lamenta-se que o autor tenha decidido não incluir notas de
rodapé.
[7] De facto, está a tocar numa espineta, um
antepassado do cravo. Além deste óleo, existe outro da mesma menina, ao lado do
irmão mais novo, no Museu Nacional de Arte Antiga.
[8] Henrique Marques, Memórias de um
Editor, citado em Joel Serrão (org.), Obra Completa de Cesário
Verde, Lisboa, Portugália, s.d., p. 116.
[9] Alberto de Monsaraz, Cesário Verde e
Macedo Papança, separata da Revista Municipal, n.º
66, 1956.
[10] A irmã de Cesário morreria em 1872, pelo que
o casamento com João de Sousa Araújo nunca se realizou.
[11] Feito de memória, este desenho aparece, em
gravura, na primeira edição do Livro de Cesário Verde.
O dia em que
Cesário Verde morreu
No princípio de julho, começara a debandada dos ricos; ficar em Lisboa era
o cúmulo da ignomínia social. Centenas de poemas e folhetins pequeno-burgueses
denunciam a miséria, atacam os ricos e troçam dos padres: a 19, às cinco horas
da manhã, com os pulmões destruídos pela tuberculose, morreu Cesário Verde.
Tinha 31 anos e vira o fim chegar "como um medonho muro".
Em 1886, Portugal era um país predominantemente rural. Fora de Lisboa e do Porto, não havia verdadeiramente
cidades. A maior parte da população - 8 em cada 10 portugueses - vivia no
campo, trabalhando uma terra pouco fértil mal distribuída. A norte do Mondego
predominava a pequena propriedade, cultivada por camponeses e rendeiros pobres;
a sul, o latifúndio. Ao contrário do que sucedia nalguns países europeus, a
maioria dos senhores residia nas cidades, administrando as suas terras por
intermédio de feitores; só um punhado de proprietários rurais se interessava o
suficiente pelas suas explorações para aí tentar introduzir as inovações que
sabia estarem a ser utilizadas no estrangeiro. Mas, num país que dispunha de
uma mão-de-obra barata inesgotável, como Portugal, a mecanização raramente foi
um êxito. Apesar de, em 1843, na Granja Real de Mafra, terem sido exibidas
várias máquinas agrícolas, quarenta anos mais tarde o seu número era
extremamente reduzido. Dos três produtos cultivados em grande escala, o trigo,
a vinha e o arroz, só com o primeiro era possível utilizá-las. Assim, a maioria
dos trabalhos agrícolas continuou a ser feita por trabalhadores rurais,
camponeses ou assalariados, com os métodos que os seus pais e avós usavam há
séculos.
Nas cidades, a Civilização penetrou mais facilmente. Depois das tempestades da primeira metade do século,
Portugal atravessou um período calmo, durante o qual um grupo de políticos
enérgicos se entregou à exaltante tarefa de modernizar o País. Durante alguns
anos, a realidade correspondeu às expectativas. A indústria desenvolveu-se:
Lisboa especializou-se na estamparia de tecidos e na metalurgia; o Porto, na
fiação e tecelagem de algodão. Apesar do esforço do Fontismo no que diz
respeito a vias de comunicação, o mercado interno estava longe de se encontrar
unificado. Em muitas aldeias, os camponeses continuavam a comer o que produziam
e a vestir o que o artesanato local Ihes fornecia, como sempre haviam feito.
No litoral, as fábricas produziam alguns bensde consumo simples, tecidos, pás e enxadas,
tabaco, papel e rolhas. Apenas se exportavam conservas de peixe e cortiça.
Entre 1850 e 1880, a indústria crescera vagarosamente, mas crescera: em 1850, o total de cavalos-vapor
existentes era de 938; em 1880 subira para 7000. No têxtil, cortiças e tabacos,
existiam agora fábricas com mais de 500 operários. Infelizmente, Portugal estava
suficientemente perto da Europa para que os progressos destes países ensombrecessem
o que aqui se passava. Em 1881, um membro da comissão do Inquérito Industrial
que o Governo mandou efetuar escrevia desencantadamente: "Levam-nos um
grande avanço as nações industriais, tocaram quase a meta, quando nós
principiámos ainda a caminhar", e acrescentava "Esforços e energias
de que valem, se os passos que nós damos para diante são sempre fartamente
compensados por outros mais largos e mais rápidos que eles dão no mesmo
sentido?".
Na agricultura, as coisas não tinham corrido mal. O Minho exportava quantidades razoáveis de vinho e
gado para os ricos mercados europeus; o Sul, laranjas, maçãs, figos, azeite e
amêndoas. Mas em meados de 1880, Portugal começou a ter rivais temíveis nos
mercados europeus. A exportação de gado ressentiu-se imediatamente, sofrendo o
Minho uma severa recessão: nos "leilões dos estrangeiros", o
concorrente consegue vencer-nos "por uma cotação que nos desvia". O
modelo fontista entrava em crise.
Na indústria também havia problemas: o mercado interno estava a ser invadido por produtos
estrangeiros que aqui chegavam a preços baixíssimos. Os velhos pólos artesanais
estagnavam. Mesmo as fábricas urbanas se sentiam ameaçadas. Serralheiros e
tecelões, caldeireiros e marceneiros apelam ao Governo para que faça qualquer
coisa por eles, nomeadamente que dificulte a importação dos produtos
estrangeiros; mas ainda teriam de aguardar alguns anos, antes que uma resolução
fosse tomada. O relativo liberalismo do Fontismo no que diz respeito ao
comércio externo colapsava.
Mais grave do que tudo isto era a situação das
finanças do Estado. Em 1886, o Governo regenerador tentara
alterar os impostos, mas defrontou-se com enormes resistências. A braços com um
motim declarado entre Braga e Guimarães, devido a rivalidades locais, decidiu
não forçar a reforma tributária. Pediu antes ao rei que adiasse as Cortes. Mas
este considerou que, ao fim de 5 anos, o governo de Fontes estava
"gasto". Apesar de o ano agrícola ter sido bom, o otimismo da
Regeneração desaparecera. Mais ou menos conscientemente, toda a gente se
apercebia que o futuro seria negro.
Em fevereiro desse ano, o chefe dos progressistas, José Luciano de Castro, era chamado ao poder. Poucas
semanas depois, o rei D. Luís dava-lhe o que havia recusado ao seu antecessor,
isto é, a dissolução do Parlamento. No Verão de 1886, vivia-se um daqueles
intervalos ditatoriais que atravessaram a vida do constitucionalismo
monárquico. (…)
Fontes Pereira de Melo foi muito criticado por ter corrompido tudo e todos.
Enquanto as libras foram chegando, tudo correra de feição. Mas os banqueiros
estrangeiros tinham-lhe fechado as portas. O cenário mudava.
De facto, assistia-se ao começo de uma grave crise, que atingiria o seu máximo em 1891. O clima de
tolerância em que os Portugueses tinham vivido nas últimas décadas iria
desaparecer. Ouviam-se já os gritos de "Vida Nova", os apelos
autoritários que com a subida de D. Carlos ao trono atroariam os ares. Um dia
viria, em que os "povos humilhados" se levantariam, de punhais
aguçados, para derrubar uma monarquia odiada.
Em 1886, Lisboa era uma cidade muito diferente do que
tinha sido trinta anos antes.
A sua população, trezentos mil habitantes, tinha dobrado. Do campo, haviam
chegado milhares, os homens primeiro, para trabalhar como estivadores ou
pedreiros, a família depois. Em parte devido à pressão dos recém-chegados, em
parte porque o alargamento dos limites urbanos era uma forma de obter novas
receitas para o Estado, a cidade alastrava. Ao lado de uma indústria
incipiente, visível sobretudo para os lados de Xabregas e Alcatra, a cintura
saloia espraiava-se por todo o lado, Mafra, Benfica, Lumiar.
Os laços ao campo permaneciam fortes. A infância rural deixava saudades que não desapareciam
facilmente. Com os seus espaços apertados e o tempo normalizado, a cidade
parecia asfixiante aos novos habitantes. Não surpreende, pois, que, nos quentes
dias de Verão, o povo deixasse a capital, com cestos repletos de talhadas de
melão, damascos e pão-de-ló, a caminho das hortas. Para os que ficavam, havia
os bailes "campestres" sob as parreirinhas dos cafés e das sociedades
recreativas, além da música ao ar livre nos coretos pintados de fresco. No dia
18 de julho de 1886, um domingo, não faltavam distrações. No Beco das Olarias,
o "baile campestre" era acompanhado por uma banda tocando um
"variadíssimo reportório"; na sociedade Recreio
Operário, na Rua dos Remédios à Lapa, a banda "abrilhantava"
o baile proletário; na Nova Rossini, na Rua do Sol ao Rato,
entre o bazar e o lanche, a filarmónica dos "Alunos de Guilherme
Cossoul" deliciava os ouvintes pequeno-burgueses. Nos Jardins da Estrela,
de S. Pedro de Alcântara e no Largo de Belém, entre as 5 e as 7 da tarde, os
domingueiros podiam ouvir belos concertos ao ar livre. De entre as solicitações
do dia, a mais popular era certamente a tourada que, nessa tarde, se realizaria
no Campo Santana, e na qual tomavam parte os irmãos Roberto e o conhecido
cavaleiro Alfredo Tinoco. Os espetáculos noturnos também eram aliciantes. Na
Esplanada dos Recreios, poder-se-ia ver um bruxo que fazia truques de
prestidigitação ou, no Teatro Chalet, a peça "O Duque de
Vizela".
Em 1886, já tinham sido introduzidas em Lisboa algumas
das inovações que facilitavam a vida urbana: em 1848,
tinham aparecido os primeiros candeeiros a gás e, em 1878, haviam sido
instalados, no Chiado, seis candeeiros elétricos. Não se pense, contudo, que
esses melhoramentos se propagaram rapidamente. Grande parte das ruas da cidade
eram de terra, malcheirosas e escuras. A muitas das suas vielas e escadinhas, a
civilização não chegara. A 18 de Julho, um grupo de habitantes de Alfama pedia
insistentemente à Câmara de Lisboa que mandasse regar as ruas do bairro, pois o
vento estava a levantar enormes ondas de poeira, que invadiam casas e lojas.
Nos bairros antigos, a higiene era deplorável. Com traseiras, pátios e quintais apinhados de
galinhas, coelhos e porcos, as casas estavam infestadas de parasitas. Apesar de
a recente captação do rio Alviela ter permitido instalar uma rede de
distribuição de água ao domicílio, o benefício chegava a poucas casas. Nos
mercados, as condições sanitárias eram péssimas, fazendo com que muitos dos
géneros consumidos pelas classes populares estivessem estragados. Os fiscais
tentavam pôr cobro à situação, mas não chegavam para as encomendas. No mercado
central, a 17 de julho, tinham sido inutilizadas, como impróprias para consumo,
81 pescadas, 76 peixes-espadas e 1200 carapaus: era uma gota no oceano.
Com os seus pregões e cheiros, gritos e correrias, a
vida nestes bairros era animada. Até
certo ponto, o bairro reproduzia a aldeia originária, com as suas redes de
lealdades e rivalidades. Muita gente nascia e morria ali, sem ter saído dos
seus limites estreitos: era ali que trabalhava, namorava e se zangava. Como em
todos os universos fechados, as brigas eram frequentes, assumindo por vezes um
carácter violento. A 18 de julho, um casal da Mouraria fora atacado, na cama,
por uma vizinha que brandindo um garfo os feriu de tal forma que tiveram de ser
conduzidos ao Hospital de S. José. Um pouco acima, António Martins socava
barbaramente a sua amante Maria Engrácia; noutro ponto da cidade, o padeiro
José Dias da Silva era preso por arremessar à amante, Ana de Jesus, uma bilha
que lhe despedaçou a cara. Certas zonas da cidade, depois do sol posto, Alfama,
a Mouraria ou o Bairro Alto, eram particularmente perigosas. O policiamento era
ineficaz. Só os criminosos mais azarentos, como o Bexiga, acabavam presos. O
povo de Lisboa era uma amálgama muito particular. Juntava gente variada, do
operário fabril ao descarregador, da criada ao artesão, do pequeno funcionário
ao caixeiro. Formavam a massa dos "pequenos", da "ralé", da
"canalha", que ganhava o pão com o suor do seu rosto. Se entre o
pequeno lojista e o operário havia um mundo de diferenças, estas tendiam a
esbater-se quando os poderosos entravam em cena. Era contra os da
"alta" que os "pequenos" se definiam.
Cidade portuária, a zona ribeirinha era uma das mais ativas
de Lisboa. Pelas docas de Alcântara, Ihe chegava o
carvão que consumia nas suas fábricas; pela de Santos, as mercadorias
coloniais; pela do Cais do Sodré, os melões e o vinho de Almeirim, o trigo do
Alentejo, as melancias de Setúbal, o peixe que abastecia a cidade. Fragateiros,
varinas e descarregadores povoavam este cenário luminoso e febril. Todos os
dias atracavam grandes transatlânticos, despejando mercadorias. No sábado, o
movimento da alfândega fora, como de costume, intenso: para o Maranhão,
seguira, no Bragança, um carregamento de feijão; para Hamburgo,
no Davis, 171 fardos de cortiça; para Liverpool, no Ter, 147
caixas de maçãs, 630 caixas de cebolas e 17 caixas de tomates; para Bordeaux,
no Mokla, 226 caixas de sardinhas. De Newcastle, a bordo
do Catarino Richard, chegara um carregamento de carvão.
Os contrastes entre ricos e pobres eram enormes. É verdade que os milionários portugueses eram
patéticos quando comparados com os seus parceiros europeus, mas em face da
miséria indígena qualquer ser com o mínimo de sensibilidade se chocaria. No
centro da cidade, entre portais e vãos de escada, amontoavam-se cegos,
estropiados, crianças abandonadas e velhos paralíticos. Para muitos, os pobres
faziam parte da ordem do Universo e a injustiça social de que eram vítimas era
tão natural como o facto de um sobreiro não ter nascido um pinheiro, como mais
tarde escreveria Fernando Pessoa. Os miseráveis eram objectos que Deus colocara
no caminho dos ricos para que estes pudessem exercer a caridade, nas festas e
nos bazares variados, como o que, na véspera, tivera lugar no passeio da
Estrela, durante o qual as senhoras da Lapa leiloaram entre si os despojos
oferecidos.
Mas não havia caridade que bastasse para este caudal imenso de costureiras pálidas e
tísicas, artesãos desempregados de olhar rebelde, vendedeiras esmagadas pelo
peso da carga, velhas abandonadas que falavam sozinhas, coxos, cegos e manetas.
Nesse Verão de 1886, os albergues noturnos abarrotavam de gente suja e
esfarrapada que, aos milhares, ali ia em busca de uma sopa e de uma enxerga. Os
jornais transmitem os gritos dos que viviam aflições: a Assunção da Glória,
viúva, moradora na Trav. de S. João de Deus apelava ao público para que lhe
desse qualquer coisinha, pois não tinha família que lhe valesse; a Amália
Vidal, moradora na Rua da Mouraria, pedia a uma alma caridosa que lhe pagasse o
quarto escuro donde estava em risco de ser despejada. Havia outros recursos,
mas eram mais arriscados. Nesse dia, o marítimo José Maria fora preso, por ter
roubado dois gorazes do mercado da 24 de Julho.
Os trabalhadores ganhavam salários irrisórios e estavam sempre à beira do desemprego.
Alimentavam-se, ano após ano, a pão, sopa e batatas, uma ementa insuficiente
que ajuda a explicar as altíssimas taxas de mortalidade de Lisboa e do Porto.
As doenças que mais mortes causavam eram a tuberculose pulmonar e as
pneumonias. Havia quem não aguentasse esperar: Luísa, criada de servir,
atirava-se, na tarde de 18 de julho, de um terceiro andar na Rua do Oiro para a
rua após ter sido despedida; o cozinheiro Cândido da Silva lançava-se ao Tejo.
As condições de trabalho eram atrozes: a duração do dia de trabalho era longuíssima e a
segurança nas oficinas inexistente. Todos os dias se verificavam acidentes:
fiandeiras que ficavam sem dedos, pedreiros que caíam de andaimes, vidreiros
que arruinavam os pulmões, mineiros que ficavam soterrados. A 18 de Julho,
quando trabalhava na construção de uma linha de caminho-de-ferro, Sebastião
Pereira, de 30 anos, fora subitamente esmagado por um penedo que se soltara, enquanto
Manuel do Ó caia de uma tábua durante um descarregamento no cais. Perante este
espetáculo, até os mais acérrimos defensores do liberalismo foram forçados a
vergar. A ideia de que o Estado tinha de intervir para proteger os mais fracos
foi-se espalhando.
O nível cultural da população era baixíssimo: oito em cada dez portugueses não sabia ler nem
escrever, situação que na Europa só encontrava paralelo nos mais remotos cantos
do Império Austro-Húngaro. Apesar da retórica, o regime não tinha sido capaz de
melhorar a instrução do povo. Apenas em Lisboa e no Porto se tinham verificado
alguns progressos, mas mesmo esses eram ridículos. Nas cidades, organizados
pelos operários e pelos republicanos, alguns organismos faziam esforços
louváveis para educar as massas, mas a tarefa era grande de mais para os seus
fracos recursos. Muitas vezes, a atividade destas associações limitava-se a
conferências doutrinárias, como a que, nesse domingo, Manuel de Arriaga,
proferia na Associação Escolar e Eleitoral de Sacavém.
No meio de todas estas desgraças, os ricos gozavam
imperturbavelmente os frutos da terra.
Os contratos com o Estado, as grandes companhias monopolistas, os
"negócios" tinham gerado os famosos "barões" da
Regeneração, os "novos ricos" de quem surdamente toda a gente sentia
inveja. Existia também uma camada de burgueses com tradições, ricos e cultos,
muitos deles estrangeirados, de entre os quais se destacava o conde de Daupias,
dono da fábrica de lanifícios que o seu avô Ratton fundara em 1839, ao Calvário.
No seu belo palacete, mesmo ao lado da fábrica, Daupias mantinha um salão
permanentemente aberto, em que os seus amigos, alguns pertencentes à melhor
nobreza do Reino, se reuniam para ouvir bons concertos e para se deliciar com
os jantares que o cozinheiro francês lhes preparava. Acima deles, havia uma
velha aristocracia "caquética e caturra", como Eça de Queirós lhe
chamava, ciosa dos seus pergaminhos, mas minada nos seus fundamentos pela
abolição dos morgadios. Estes aristocratas levavam geralmente uma vida
recatada, apenas entrecortada por bailes diplomáticos ou receções no Paço.
Viviam em palácios decrépitos, paredes meias com os pobres que, em momentos de
magnanimidade, gostavam de proteger.
À volta do rei, uma pequena corte de amigos e dependentes
partilhava rotinas e hábitos.
No Verão, seguiam para Sintra, Cascais ou Mafra. A família real passara essa
semana de julho, em Sintra. Depois de ter ouvido a missa dominical na capela
real, durante a qual se tocara a polka que o mestre de música
de Caçadores 2 compusera em honra da recém-chegada noiva do príncipe herdeiro,
decidira partir para Mafra: estavam todos ansiosos pela caçada planeada para o
dia seguinte na Real Tapada, durante a qual a princesa D. Amélia de Orléans se
destacaria, ao matar três dos nove veados nesse dia abatidos.
O centro de todo este mundo era o S. Carlos. Era aqui que os ricos faziam os seus casamentos,
conspiravam, mostravam as toilettes vindas de Paris. Além
deste convívio familiar, havia o recém-fundado clube, O Turf, onde
os homens iam jogar e discutir política. Mas nesse domingo de Verão, ambos
estavam desertos: o S. Carlos fechara as suas portas por alguns meses e os
membros do Turf estavam quase todos fora da capital.
No princípio de julho começara a debandada dos ricos:
ficar em Lisboa era o cúmulo da ignomínia social. Os mais invejados eram os que
partiam para o estrangeiro. A 18 de Julho, o movimento dos carros de aluguer
era intenso nas estações de caminho-de-ferro, levando e trazendo os que chegavam,
de "Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!". De umas curtas
férias em Vichy, chegara o "abastado capitalista" Policarpo dos Anjos, diretor
da Associação Comercial de Lisboa, com a sua esposa e sogra; o
primeiro-ministro, José Luciano, viera de Sintra, onde fora descansar, com a
mulher e as filhas, durante uns dias; os condes de Casal Ribeiro regressavam da
sua quinta em Braga. Outros partiam, felizes: o príncipe D. Afonso embarcava no
paquete Araucária, a caminho de Bordéus; a rainha D. Maria Pia
preparava-se para ir passar uma temporada às Caldas. O conselheiro Martens
Ferrão trocava a sua casa na capital pela sua quinta no Poço do Bispo. O
conhecido banqueiro H. Moser partia para Paris. Até os republicanos repousavam
dos seus afazeres revolucionários: Teófilo Braga partia para o Minho, enquanto
o "dedicado correligionário" Miguel Braga passava uns tempos em
Vizela. O interesse por toda esta movimentação estival era tal que nas Novidades existia
mesmo uma coluna, "Praias e Caldas", onde se forneciam ao leitor
listas nominais de quem chegava e partia.
Os pequeno-burgueses ficavam-se por Linda-a-Pastora,
Belas ou Caneças, sítios aprazíveis, de belas quintas
muradas e aldeias lavadas, com bons ares, boa luz, bons alimentos. Quem não
alugaria a casa que a 18 de Julho o Diário Popular anunciava:
"Aluga-se fora de portas, mas próximo de Arroios, sitio saudável, tem água
da Companhia, excelente escada, 9 compartimentos, muito limpos e espaçosos,
incluindo despensa e quarto para criado, passam-lhe à porta de 1/2 em 1/2 hora
carros Riped e outros. Renda até ao fim do ano:
50.000$00"?
Entalados entre os ricos e os pobres, estes
pequeno-burgueses dividiam-se nos seus hábitos, comportamentos políticos e
cultura. Os mais ambiciosos tentavam imitar o
estilo de vida aristocrático, enquanto as camadas inferiores, que não podiam
acalentar tais ambições, se consumiam num ressentimento social que aumentava
com a crise económica e com a prolongada marginalização. Em 1886, muitos
estavam já descrentes de que o regime monárquico lhes desse o que pretendiam:
consideração social e participação politica. Alguns começaram a aderir ao
movimento republicano que exprimia maravilhosamente o seu ódio aos privilégios
sociais.
Os jornais populares espelham a sua visão do mundo. O contraste entre a vida dos ricos e dos pobres é
celebrado até à exaustão: de um lado, a família burguesa, envolta em seda e
arminhos; do outro, a pobre, tiritando de frio e fome. Centenas de poemas e
folhetins pequeno-burgueses denunciam a miséria, atacam os ricos e troçam dos
padres: é o grande fresco dos humilhados e ofendidos, a retórica lacrimejante
tão apreciada em reuniões populares. Os títulos destes poemas,
"Contrastes", "A Miséria", "A Prostituta",
"O Desgraçado", são indicativos do conteúdo. Cesário Verde faz parte
desta tradição: o que distingue é o génio.
A influência da Igreja na sociedade portuguesa era
considerável, o que inevitavelmente fez dela um dos
alvos preferidos dos republicanos. Nos campos, os párocos controlavam os
grandes rituais da vida, além de servirem de intermediários entre os camponeses
e o poder. Em Lisboa, a Igreja defrontava-se com obstáculos crescentes. Para os
trabalhadores e para as classes médias, era evidente que a Igreja estava do
lado dos ricos. Não existindo, como nos países protestantes, possibilidade de
se criarem novas igrejas, a única saída que lhes restava era o
livre-pensamento. A capital passou a estar dividida entre uma maioria que
aceitava passivamente a doutrina da Igreja e uma minoria ativa que defendia as novas
ideias contra tudo e todos.
Nesse domingo de julho, os católicos tinham uma
escolha variada: na Igreja de S. José, como em tantas outras, havia primeira
comunhão de meninos, seguida de missa, durante a qual pregaria o Rev. Gaspar
Borges; pelas 6 h. da tarde um Te Deum com o Rev. Duarte do Rosário. Na Igreja
dos Anjos, realizava-se a novena ao Coração de Jesus e, nas Chagas, ensino de
doutrina, ladainha e bênção. Alguns resistiam heroicamente a estas influências:
em tribunal, o caldeireiro de ferro, Paulo Rodrigues do Amaral, recusara-se, na
antevéspera, a prestar juramento sobre os Evangelhos, alegando que era ateu.
Por seu lado, a "Associação Antijesuítica" andava muito atarefada com
o seu projeto de criação de um colégio de meninas que lhes ministrasse os
conhecimentos necessários para as colocar "ao abrigo das tentações e
seduções jesuíticas". Para salientar bem que o perigo era real, noutra
página, O Século noticiava o rapto da bela sobrinha do prior de Belas,
misteriosamente desaparecida de madrugada, depois de ter deixado ao namorado
uma nota angustiada: na povoação, claro, toda a gente atribuía a façanha aos
Jesuítas.
Quem, a 19 de julho de 1886, abrisse, de manhã,
a janela, perceberia que o dia iria estar quente. No Norte trovejara, mas nos
arrabaldes da capital, entre as ribeiras e os montes, o clima estava ameno. Nos
pomares, cantavam os pintarroxos, nos prados as vacas leiteiras pastavam
pachorrentamente e, entre pedregulhos luzidios, as mulheres saloias
preparavam-se para lavar as últimas peças de roupa que, no dia seguinte, teriam
de entregar nas casas ricas da capital. Famílias aperaltadas partiam para a
missa dominical. O silêncio era apenas entrecortado pelas chocas da manada e
pelos carros de bois que desciam do outeiro. Foi no meio deste esplendor que,
às 5 h da manhã, com os pulmões destruídos pela tuberculose, "sem querer,
aflito e atónito", morreu José Joaquim Cesário Verde. Tinha 31 anos e vira
chegar o fim "como um medonho muro".
“Para uma síntese da obra
de Cesário Verde” - apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para
análise literária da lírica de Cesário Verde, por José Carreiro. In: Folha
de Poesia, 2018-04-22. <https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/04/cesario-verde.html>
CARREIRO, José. “Cesário
Verde - o homem e o seu tempo”. Portugal, Folha de Poesia, 08-09-2021.
Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2021/09/biografia-de-cesario-verde.html
Foi vendedor de máquinas de pastilhas elásticas, paquete, estivador. Libertário e explosivo, acabaria por se tornar um dos mais populares poetas e letristas do seu tempo. Recordamos José Carlos Ary dos Santos nos 80 anos do seu nascimento
Ary dos Santos (7 de Dezembro de 1936 - 18
Janeiro de 1984) afirmou com veemência a sua virilidade de poeta. Pela voz de
Simone de Oliveira fez a apologia do corpo e do prazer femininos («Desfolhada
Portuguesa», 1969), certamente por distracção da Censura, arrebatando o primeiro
lugar no Festival RTP da Canção. Quatro festivais depois, arrasava a tourada na voz de Fernando Tordo e, na mesma
faena, vencedora, investia sobre a primavera marcelista e apelava à
resistência. As suas origens aristocrático-burguesas também não foram poupadas,
como testemunha o conhecido poema «O Burguês», figura tratada a ferros
sarcásticos. A salvo ficou A Bandeira Comunista (1977), corajosa e muito
pessoalmente hasteada: «o meu comunismo vem-me por via Czarista!».
Ary dos Santos: o nome – do poeta e declamador carismático, conhecido do
grande público como autor das letras de algumas das mais populares canções das
décadas de ’60, ’70 e começos de ’80 – não faz jus a uma personalidade
explosiva, irreverente, de humor sulfúrico e de grande turbulência imaginativa,
capaz mesmo de fazer detonar «O Bombista».
Nasceu em Lisboa, um ano antes daquele que sempre afirmou. Quando, com
apenas 16 anos, sai de casa em ruptura com o pai, traçara já, num soneto de um
livro dedicado à mãe («pela infinita dor de a ter perdido» pouco antes), um
programa de vida: «E canto na certeza do porvir,/ Que todo o mundo é meu e eu
vou partir/ À conquista dos reinos da poesia!». Mal sonhava o jovem Zé Carlos
que a poesia tinha reinos, uns mais nobres que outros. Natália Correia, que
manterá com ele uma relação de amor-ódio, não se cansará de lho lembrar.
Insuficientemente amadurecido, claro, esse primeiro livro que quis apagado
da sua bibliografia, Asas (1952), antecedendo bastante Liturgia do Sangue
(1963), considerada a sua estreia literária efectiva, incubava já o seu tom
excessivo e rasgado, o seu estilo transgressor, a rasar o libertário.
Compreensivelmente, quando em 1966 Natália Correia preparar a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica,
celebrizada pelo veredicto do Tribunal Plenário, Ary dos Santos não poderá ser
dispensado.
À saída de casa seguiram-se anos financeiramente difíceis, de embates
quotidianos, e sucederam-se empregos: vendedor de máquinas de pastilhas
elásticas, paquete na Sociedade Nacional de Fósforos, escriturário no Casino
Estoril e estivador (a crer no seu testemunho, nem sempre fiel). «Isto vai meus
amigos isto vai/ um passo atrás são sempre dois em frente» – dirá mais tarde no
poema «O Futuro», de «Tríptico do Trabalho». Chegou a
frequentar as Faculdades de Direito e de Letras da Universidade de Lisboa, mas
«com toicinho e talento ambas partes» (palavras do seu «Auto-Retrato») e uma
criatividade extraordinária, Ary dos Santos depressa as trocou pelo mundo da
publicidade, área que em Portugal revoluciona, alcançando reconhecido êxito.
A criação poética, com comprazimento no ludismo verbal e disponibilidade
metafórica, decorre paralela a uma vida profissional com cobranças difíceis e
artes de espantar. Adereços Endereços (1965), Fotos-Grafias (1970), As Portas Que Abril Abriu (1975), O
Sangue das Palavras (1978), 20 anos de Poesia (1983)
são algumas das obras daquele que reuniu num único terceto as três linhas que
reconhecidamente perfazem o todo que é a sua poesia: a interventora, a satírica
e a lírica: «Poeta de combate disparate/ palavrão de machão no escaparate/
porém morrendo aos poucos de ternura».
Tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das
Cantigas (publicação póstuma, 1989), onde reuniu os melhores poemas
dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz – Rua da
Saudade, que pretendia que fosse uma autobiografia romanceada, mas não
houve tempo. O excesso, a solidão e o gim foram a mistura explosiva.
«Quando eu morrer – afirmou um dia – vai ser em glória. Vai a classe
operária toda ao meu funeral, e eu sentado no muro do cemitério, a vê-los
passar!». O desígnio cumpriu-se quase inteiramente.
Teresa Carvalho, "Ary dos Santos. Um transgressor à conquista dos reinos da poesia", https://ionline.sapo.pt/537479, 2016-12-09
O Café Chegam uns meninos de mota, Com a china na bota e o papá na algibeira São pescada marmota que não vende na lota Que apodrece no tempo e não cheira Porque o tempo É a derrota Chegam criaturas fatais Muito intelectuais tal como a fava-rica Sabem sempre de mais, Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica E a inveja (sim, a inveja!) É quanto fica Como quem está num chá dançante Duas velhas de penante depenicam uma intriga Debicando bolinhos vários Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga Chegam depois boas maneiras Com anéis e pulseiras e sapatos de salto São as bichas matreiras que só dizem asneiras São rapazes pescado do alto E o que resta É pó de talco Chegam depois os vagabundos Que por falta de fundos não ocupam a mesa Têm olhos profundos, Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza Mas o troco É a pobreza Chegam finalmente os cantores Os que fazem as flores neste mundo de gente São os modernos trovadores Que adormecem as dores numa bica bem quente Como quem está num chá dançante Duas velhas de penante depenicam uma intriga Debicando bolinhos vários Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga Chegam depois boas maneiras Com anéis e pulseiras e sapatos de salto São raposas matreiras que só dizem asneiras Sâo rapazes pescado do alto E que resta (Evidentemente que é) Pó de talco Chegam depois os vagabundos Que por falta de fundos não ocupam a mesa Têm olhos profundos, Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza Mas o troco É sempre a pobreza Chegam finalmente os cantores Os que fazem as flores neste mundo de gente São os modernos trovadores Que adormecem as dores numa bica bem quente
José Carlos Ary dos Santos fez história em Portugal. Deu
a voz a muita poesia portuguesa mas, e acima de tudo, compôs imensas canções que
fizeram do fado ser quem é atualmente. Acima de tudo, um género musical
identitário, com um repertório relativamente amplo e bem conseguido. Para este,
contribuiu muito o génio criativo, que, para além de proporcionar quatro
canções que representaram Portugal no Festival Eurovisão da Canção, deu o mote
para o sucesso da carreira de fadistas consagrados atualmente, como Amália Rodrigues ou
Carlos do Carmo. Esquecido por via da sua morte precoce, é portador de um
legado que importa ser relembrado e bem louvado.
José Carlos Pereira Ary
dos Santos nasceu em Lisboa, no dia 7 de dezembro de 1937. Seria nesta mesma
cidade que viria a partir, aos 46 anos de idade, no dia 18 de janeiro de 1984.
Nasceu numa família de raiz aristocrata, descendentes do Conde de Palmela e do
Visconde de Manique, importantes figuras nobiliárquicas no século XIX. Começou
a sua formação no Colégio Infante Sagres, mas o seu comportamento irrequieto e
rebelde levá-lo-ia a ser expulso. Um breve período num colégio jesuíta a norte,
em Santo Tirso, permitiu que regressasse a Lisboa, onde estou no Colégio São
João de Brito. A morte da sua mãe e a relação distante com o pai – saiu de casa
ainda adolescente – obrigou-o a procurar o seu sustento como escriturário no
Casino Estoril e no ramo das vendas e da publicidade, onde usufruiu de algum
sucesso criativo. Ainda chegaria a ingressar na Faculdade, em Direito e, algum
tempo depois, em Letras, mas deixaria por terra os seus intentos académicos.
Lançaria, porém, o seu primeiro livro em 1963, com pouco mais de vinte anos,
com a coletânea de poesia “A Liturgia do Sangue”, assim como a peça “Tempo da
Lenda das Amendoeiras” no ano seguinte. A poesia seria algo incentivado pela
sua família desde cedo mas Ary não gostava do que escrevia, tanto que se
chateou quando a sua família publicou “Asas” (1953) quando este tinha somente
14 anos. Seis anos depois, a sua vida conheceria um novo contributo ao seu
caráter irascível quando se juntou à Comissão Democrática Eleitoral e ao
Partido Comunista, com quem pôde usufruir de sessões de poesia que cativaram o
seu gosto pela escrita e declamação.
A poesia e, a
juntar a esta, a música seriam as vias pelas quais chegaria a um público cada
vez mais amplo, ajudando a renovar o panorama da música portuguesa. Em muito
contribuiu ter composto quatro canções bem-sucedidas para o Festival da Canção.
“Desfolhada Portuguesa” (1969, interpretada por Simone de Oliveira), “Menina do
Alto da Serra” (1971, na voz de Tonicha), “Tourada” (1973, cantada por Fernando
Tordo), e “Portugal no Coração” (1977, dada a conhecer pela banda Os Amigos,
que juntou nomes como Fernando Tordo, Paulo de Carvalho e Ana Bola) foram os
quatro êxitos que compôs, com um tom ousado para então, que tocava em temas
sensíveis e até tabu então. A estes, juntou-se uma relação de colaboração com
Tordo que ascendeu a mais de 100 poemas para músicas. “Estrela da Tarde”,
“Lisboa Menina e Moça” ou “Cavalo à Solta” são algumas das canções que viriam a
advir dessa frutífera parceria, às quais se juntaram outras, como “Os Putos” ou
“Quando um Homem Quiser”, aqui com a voz de Paulo de Carvalho.
Músicas como “Fado do
Campo Grande”, “Um Homem na Cidade”, “Namorados de Lisboa” ou “Fado Varina”
dariam um contributo forte para a consolidação do fado como género musical e
fariam parte de uma compilação de outra voz bem conhecida, a do fadista Carlos
do Carmo, num álbum de seu nome “Um Homem na Cidade” (1977, toda ela com
composições de Ary dos Santos). A particularidade da sua composição passava por
um registo leve mas cuidado, atento àquilo que seria, para si, a voz de um povo
e o que este merecia. “Ary Por Si Próprio” (1970) e, já depois da queda do
Estado Novo, “Poesia Política (1974) e “Ary por Ary” (1979) exemplificam essa
voracidade. A sua criação fora da música também merecia alguma atenção por
parte da televisão, como a representação de “Azul Existe” no Teatro Tivoli a
ser transmitida na RTP. A notoriedade que conseguiu fez com que se movimentasse
muito dentro do país, recitando poesia e envolvendo-se em eventos
protagonizados com outros cantores de intervenção, como Zeca Afonso ou José Mário Branco.
Nesta fase, já
havia chegado o 25 de abril, que marcou o fim do regime ditatorial e o início
da democracia, que abriu portas à afirmação da esquerda, à qual Ary dos Santos
procurou emprestar a sua voz e, por vezes, a sua presença em manifestações e
até assaltos de forças mais radicais. Tinha sido visado pela Censura,
nomeadamente com a publicação de livros de poesia como “Adereços, Endereços”
(1965), “Insofrimento in Sofrimento” (1969) e “Fotos-grafias” (1971), revendo
os ganhos de abril com “As Portas que Abril Ganhou” (1975). Cada vez mais
se foi tornando numa figura incontornável da cultura portuguesa enquanto foi
redigindo mais centenas de poemas e gravando inúmeras declamações, tanto de
prosa como de poesia, com nomes consagrados da música nacional, como José Mário Branco ou
até António Victorino d’Almeida, e os intérpretes Amália Rodrigues (destaque
para “Cantigas de Amigos, álbum de 1971 que também contou com a participação da
autora Natália Correia) e Tony de
Matos. Um dos destaques a solo desta senda discográfica foi a leitura de “O
Sermão de Santo António aos Peixes”, do Padre António Vieira, uma das obras de
referência do barroco português. Antes da sua morte se fazer chegar, prepararia
uma antologia dos últimos quinze anos da sua carreira lírica com “As Palavras
das Cantigas” (lançado postumamente em 1984) e não chegaria a concluir a sua
autobiografia, mais romanceada que meramente fictícia, em “Estrada da Luz – Rua
da Saudade”.
Seria vítima dos seus
vícios, do tabaco e, especialmente, do álcool e de gim, tendo sido vítima de
uma cirrose no início do ano de 1984. Foi uma perda inconsolável para a cidade
de Lisboa e para Portugal, mas a capital do país sentiu-a como ninguém deste
seu filho, que, mesmo sendo um choque para a falange mais conservadora do país
– era homossexual -, granjeou um estatuto marcante para a cultura popular. Em
Alfama, foi dado o seu nome a um largo e foi homenageada a sua residência de
longa data, na Rua da Saudade – rua que iria dar nome ao seu retrato literário.
As homenagens por parte de ex-colegas seus tornaram-se incontáveis, sendo
vários os discos de homenagem ao seu trabalho e à sua pessoa, nomeadamente de
Fernando Tordo ou de Carlos do Carmo. O “poeta do povo” chegaria à honra de
grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique em 2004, no meio de todas essas
considerações.
Ary dos Santos
permanece, ainda hoje, como uma referência na composição musical em Portugal
nos meados do século XX. Influenciou a música popular, desde as típicas baladas
até ao fado, para além de se esforçar por aproximar a poesia do povo. O seu
envolvimento político e social é disso exemplo, socorrendo-se dos seus dotes
criativos para criar e entoar a poesia como música, com uma pujança que
ressoava na voz estridente de Ary. A sua memória, por mais que esquecido seja o
seu nome, permanece bem viva, ainda ao som dos atuais fadistas, mas também de
outros artistas lusófonos, admiradores da sua veia lírica. Uma veia que criou e
declamou com a força de poucos e com a virtude de ainda menos.