terça-feira, 22 de setembro de 2026

Jorge Palma


Hoje Portugal despede-se de Jorge Palma, cantor e compositor cuja obra atravessa gerações. Mais do que canções, muitas das suas letras funcionam como pequenos poemas sobre o amor, a cidade, a liberdade e a resistência. No Folha de Poesia, deixamos cinco trechos da sua escrita, como homenagem e convite à releitura (e reaudição) da sua obra.

1. Deixa-me Rir

Deixa-me rir,
Essa história não é tua.
Falas da festa, do sol e do prazer,
Mas nunca aceitaste o convite.
Tens medo de te dar.

Deixa-me rir,
Tu nunca lambeste uma lágrima,
Desconheces os cambiantes do seu sabor.
Nunca seguiste a sua pista,
Do regaço à nascente.
Não me venhas falar de amor.

Letra e música: Jorge Palma



2. Estrela do Mar

Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte,
E em que o sono parecia disposto a não vir,
Fui estender-me na praia sozinho ao relento,
E ali, longe do tempo, acabei por dormir.

Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar.
Ainda meio a sonhar, perguntei-lhe quem era;
Ela riu-se e disse baixinho: «Estrela do mar».

Letra e música: Jorge Palma



3. Encosta-te a Mim

Encosta-te a mim,
Nós já vivemos cem mil anos.
Encosta-te a mim,
Talvez eu esteja a exagerar.
Encosta-te a mim,
Dá cabo dos teus desenganos.
Não queiras ver quem eu não sou.

Deixa-me chegar,
Chegado da guerra.
Fiz tudo pra sobreviver, em nome da terra,
No fundo, pra te merecer.

Tudo o que eu vi,
Estou a partilhar contigo.
O que não vivi, hei de inventar contigo.

Letra e música: Jorge Palma

4. A Gente Vai Continuar

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso.
O que lá vai já deu o que tinha a dar.
Quem ganhou ganhou e usou-se disso;
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar.

Enquanto alguns fazem figura,
Outros sucumbem à batota.
Chega a onde tu quiseres,
Mas goza bem a tua rota.

Enquanto houver estrada pra andar,
A gente vai continuar.
Enquanto houver ventos e mar,
A gente não vai parar.

Letra e música: Jorge Palma

5. Canção de Lisboa

Os serões habituais,
As conversas sempre iguais,
Os horóscopos, os signos e ascendentes,
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes.

Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de Lisboa.

Não está só a solidão:
Há tristeza e compaixão,
Quando o sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colchões errados.

Há o silêncio de quem não ri nem chora,
Há divórcio entre o dentro e o fora,
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de Lisboa.

Letra e música: Jorge Palma


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